Duas almas, ai de mim!, habitam meu peito (Göethe)
Prepare-se, você vai ser o promotor. A tarefa não parecia difícil. No júri simulado da escola eu teria que arrumar argumentos para condenar o físico Robert Oppenheimer, um dos cérebros por trás das bombas atômicas que haviam dizimado Hiroshima e Nagasaki. Parecia estar no papo.
No dia do julgamento, sala de aula lotada, o colega que advogaria pela inocência do físico veio muito bem municiado. Não lembro do seu arrazoado, devia ter base na “neutralidade da ciência”. O fato é que impressionou o professor e a turma. Apesar disso, ganhei a causa. Certamente não por meu desempenho, mas pelas imagens aterradoras das vítimas dos bombardeios nucleares. Não havia, na nossa lógica ginasiana, possibilidade de absolver um personagem que abriu as portas do inferno para a Humanidade. O horror nuclear que, no Baghavad-Gita, texto sagrado hindu, poderia ser definido na passagem “Agora eu sou a Morte, a destruidora de mundos”.
O professor acatou a vontade da maioria. Vox populi. No entanto, sabiamente, considerou que seria meu colega o mais talentoso numa eventual carreira jurídica. Tão certo na sua ponderação que, poucos anos depois, eu estava envolvido com sulfetos, isótopos e bicos de Bunsen, não com sursis, habeas corpus e meritíssimos.
Oppenheimer retorna agora, protagonista de um filme magnífico, dirigido por Christopher Nolan. Um filme que, ao contrário do padrão hollywoodiano, não pretende fechar questões, mas abri-las. Quem for ao cinema esperando respostas categóricas, vai sair frustrado. Temos o hábito de criar rótulos, reduzir a complexidade do humano a meia dúzia, se tanto, de características, e encaixá-lo em conclusões definitivas. Dá conforto, mas é falso. Expandindo a linda poesia do Mario Benedetti, do amor para a sociedade, “somos mucho más que dos”. Somos muito mais do que preto e branco. E Nolan condensou isso, com sensibilidade e espírito aberto, nas muitas facetas de Oppenheimer.
Impossível comentar todas as questões que o filme apresenta. Vou concentrar-me em duas. A primeira volta à velha sala de aula na Tijuca. Até onde vai a culpa de Oppenheimer pela destruição das duas cidades japonesas? Em termos objetivos, ele coordenou a equipe de cientistas que desenvolveu Little Boy e Fat Man, apelidos dos artefatos nucleares. Impossível saber suas motivações exatas ao se envolver no projeto em Los Alamos, claramente militarista. Tenho minhas suspeitas. Ele não era um armamentista fanático. Ao contrário. Tinha formação humanista, simpatia por causas progressistas. Antifascista, gostaria de colaborar para a derrota do Eixo na guerra. Isso não significa que apoiava calcinar populações indefesas, sem objetivos militares contundentes. Pensou, e o filme mostra isso, que a arma assustadora que estava criando serviria como dissuasão para que a guerra terminasse mais rápido. Uma dissuasão demonstrável para observadores internacionais, em ambiente controlado. Foi engolido pelos militares e políticos, que tinham lógicas e objetivos diferentes.
Há outro elemento, menos explícito, que pode ter colaborado para o engajamento de Oppenheimer no projeto Manhattan. Seu campo de pesquisa, a física quântica, era eminentemente teórico. Tudo muito especulativo, habitando quadros negros e papel. Evocava a imagem caricata do cientista alheio ao mundo em que vive. A possibilidade de sair do ambiente acadêmico e desembarcar num mundo palpável, material, quod erat demonstrandum, pode tê-lo excitado a ponto de não medir, ou subestimar, as consequências do que estava criando? Não sei, ninguém sabe, nem poderá saber. Não estou falando de mocinhos e bandidos, apenas reconhecendo as contradições internas do homo sapiens.
A segunda questão é a variável militar. Havia necessidade de usar o armamento nuclear? Se por necessidade entendemos quebrar a espinha dorsal dos japoneses, a resposta é um sonoro não. Usando números frios. Em março de 1945, Tóquio foi atacada por bombas incendiárias. Numa única noite, 100 mil moradores foram queimados até a morte, 130 quilômetros quadrados reduzidos a fogo e cinzas. As imagens da capital japonesa em ruínas fumegantes lembram o holocausto nuclear de Hiroshima e Nagasaki. Naquele período, os bombardeios de 67 cidades japonesas mataram entre 50 e 90% das populações locais. Historiadores tiveram acesso a documentos que mostram que, já então, o país estava se preparando para render-se.
Por que, então, a barbárie nuclear? Também aqui não existem explicações definitivas. Uma razão plausível seria a Guerra Fria que começava a esboçar-se depois das grandes vitórias do Exército Vermelho na Europa. Hiroshima e Nagasaki, cidades sem qualquer importância militar, pagaram o pato, ao custo de milhares de mortos (impossível determinar o número exato). Teriam sido uma clara mensagem à União Soviética. A expansão da influência bolchevique não seria tolerada. Se necessário, barrada manu militari, ou melhor, manu nucleari.
Oppenheimer disse a Truman que sentia as mãos manchadas de sangue. O presidente norte-americano desprezou aquele homem atormentado por sua criação e que acreditava, ingenuamente, que a cooperação internacional prevaleceria sobre a lógica da indústria da guerra. Hoje, os artefatos lançados sobre o Japão não passam de traques juninos comparados com o poder letal das milhares de bombas atômicas armazenadas em 9 países. O gênio, definitivamente, saiu da lâmpada.
Qual a dimensão da culpa de Oppenheimer em tudo isso? Insisto que o filme de Nolan não garante respostas para essa pergunta. Tem o mérito, enorme, de reativar questões importantes num mundo apressado, às voltas com a Inteligência Artificial, que muitos garantem ter potencial de extermínio superior ao que foi parido num lugar remoto do Novo México.
Messias, Deus, chefes supremos,/Nada esperamos de nenhum!/Sejamos nós quem conquistemos/A Terra-Mãe livre e comum! (do hino A Internacional)
Ando mergulhado na formidável biografia da Clarice Lispector, escrita pelo norte-americano Benjamin Moser. Clarice é um personagem intraduzível. Banhada em contradições, apaixonada pelo ofício de escrever mas cética quanto à sua capacidade de transformar, pela palavra, quem quer que fosse. Econômica na comunicação verbal, esparramada nas histórias que criou, sem a menor preocupação de “ser fácil”. “Escrevo para mim mesma, para ouvir minha alma falando e cantando, às vezes chorando”, disse. Lê-la jamais é um exercício ligeiro. Nada mais distante do rosa Barbie do que Clarice.
Uma de suas contradições me pegou pelo pé. Ou melhor, pela interrogação. Procurou, com insistência, as fontes do misticismo judaico. Aliás, foi além. Já no final da vida, consultava videntes. Amigos garantiam que ela acreditava nas previsões. Na outra ponta da corda, rejeitou cedo a religião convencional, descartando a hipótese do deus humanizado que informa, em geral, as práticas religiosas ocidentais. Em um de seus textos, afirma, categórica: “Se acima dum homem há os homens, acima dos homens nada mais há”.
A origem do ateísmo clariceano não é difícil de explicar. A pista está em sua própria história de vida. Nascida numa aldeia remota da Ucrânia, região da Podólia, onde havia um antissemitismo endêmico, com longo prontuário de pogroms, sua família sofreu dores e agressões até a fuga final para o Brasil. Inicialmente Alagoas, depois Pernambuco e Rio de Janeiro. A mãe foi estuprada por vândalos ucranianos e contraiu sífilis. O pai foi sistematicamente perseguido e mal conseguia garantir o sustento da casa. Juntando os cacos dos dramas familiares com as informações posteriores sobre o genocídio judaico na Segunda Guerra Mundial, reproduziu a pergunta que Primo Levi e tantos outros fizeram: Como se pode acreditar num deus indiferente a tantas e tamanhas monstruosidades?
Ao longo dos séculos, ilusionistas, charlatães, doutrinadores oportunistas, supersticiosos e até mesmo gente de boa fé, passaram adiante as lendas de seres sobrenaturais, com poder de vida e morte sobre os homens. Sempre fabulando que há uma separação rígida entre Bem e Mal. Muita dor, muita ignorância e muito sangue jorraram por conta deste tipo de mistificação. No Brasil, não foi diferente e está em curso uma radicalização do que alguns chamam de guerra santa ou cultural, mas que não passa de uma NeoInquisição sem fogueiras. Quem não pensa como eu, dizem os fanáticos, será execrado, perseguido e isolado. Não se satisfazem, porém, com isso. O poder terreno exige altas finanças.
Em nome de suas crenças, autodefinidas como de moralidade superior, grupos religiosos conseguiram que a Câmara dos Deputados aprovasse isenções tributárias não apenas para seus templos, mas para organizações assistenciais e beneficentes ligadas a eles. Agora, tentam ampliar esta anomalia no Senado, acabando com a tributação para construção e reformas de templos, escolas, asilos, creches e comunidades terapêuticas vinculadas a eles. Não há limites para a gula, cuja satisfação é barganhada nos jogos eleitoral e parlamentar.
Como têm se manifestado alguns destes profetas da bondade e parasitas dos recursos públicos? Um deles não teve o menor pudor de afirmar que “africanos descendem de ancestral amaldiçoado por Noé” e “Aids é uma doença gay”. Outro incitou, claramente, sua comunidade a se livrar dos homossexuais, trabalhinho sujo terceirizado por seu deus. Uma expoente da bizarrice reacionária pressionou, covardemente, uma menina que engravidou após estupro para que não interrompesse a gestação. Tudo em nome da vida (sic).
Renúncia fiscal implica em menos recursos públicos para investir em prioridades que beneficiem amplos setores da sociedade. Assim sendo, cabe perguntar quem fiscaliza as instituições religiosas, muitas vezes lideradas por gente que vive com luxo num país com dezenas de milhões de famintos. Como pode uma atividade baseada na fé, necessariamente limitada a grupos restritos, ser financiada por toda a sociedade? Por que um ateu, por exemplo, deveria aceitar que seu imposto pagasse a construção de um templo, qualquer que fosse a denominação deste? Quem quantifica o “benefício social” de uma associação dita beneficente? É tudo muito escandaloso e revoltante.
Já que estamos no Brasil, que nunca renunciou ao título de Terra do Crioulo Doido, tomo a liberdade de sugerir outras isenções tributárias. Que se liberem dos impostos os jardineiros, que nos dão beleza e perfume. Que se aliviem os livreiros, guardiães dos mistérios que importam. Que anulem a carga dos poetas, tradutores das almas partidas e dos corações aflitos. Que tirem das planilhas os grafiteiros, gênese do milagre da arte nos muros carentes. Que eliminem dos tributáveis os professores, centímetros iniciais da estrada que ferve sob nossos pés hesitantes. Que, por fim, apaguem da listagem as prostitutas. Elas, afinal de contas, acabam sendo, injusta e involuntariamente, o modelo de conduta dos cínicos que fundem religião com política.
Naquele tempo, a cidade era menor, as noites mais longas e quietas, as pessoas mais cordiais (do conto Essa mulher, de Eric Nepomuceno)
Primeiro, veio a surpresa. Um imenso pano opaco cobria um pedaço da areia da praia de Copacabana. Distribuídos embaixo dele, em intervalos regulares, dez volumes cujas silhuetas insinuavam corpos humanos. Depois, veio a aflição. Por que os cadáveres, quem eram? Percebi, então, que se tratava de ato revoltado e sofrido em memória do ajudante de pedreiro Amarildo Dias de Souza, desaparecido há 10 anos. Os corpos eram manequins, cada qual representando um ano do sumiço do Amarildo, depois de ser detido em casa por PMs na Rocinha e levado para “prestar esclarecimentos”. A investigação, que resultou na condenação de 12 policiais, concluiu que Amarildo foi torturado (com descargas elétricas, saco plástico na cabeça e afogamento em balde com água) e morreu em consequência das sevícias.
Não foi fácil concluir minha caminhada. O lindo dia de céu claro e a paisagem embriagadora no horizonte não combinavam com o clima da tragédia que destruiu mais uma família de despossuídos. Uma família que, como tantas outras, não teve sequer o direito de enterrar um dos seus.
O crime bárbaro cometido contra um trabalhador acaba afogado pelas incontáveis violências cotidianas. É como se todos estivessem apenas aguardando a próxima tragédia, como destino manifesto, inevitável como a noite que se segue ao dia. Os rostos tristes e machucados que vi na praia de Copacabana sumirão rapidamente na poeira anônima dos noticiários.
Ruy Castro fez recentemente um pequeno apanhado de crimes e incidentes que andam acontecendo em larga escala no Brasil. São quase miudezas se comparados com a devastação ambiental planetária e as crises que resultam em milhares de refugiados. Quem quer saber da mulher que, na Bahia, envenenou marido e filhos e filmou o gajo estrebuchando até morrer? Ou do pai que, em Uberaba, atirou no filho por causa do uso de um roteador? O que dizer do cliente que, em São Paulo, fuzilou o segurança do bar após ser impedido de entrar no estabelecimento? É de amargar! Todos os casos, no entanto, desenham o país perturbado, em estado de ansiedade crônica, com violência em expansão. E não me venham dizer que tudo isso é fruto do quadriênio monstruoso que vivemos a partir de 2018. Como qualquer processo fermentativo, a coisa vem de longe.
Dois casos mobilizaram em especial meu imaginário. Num condomínio na Taquara, Zona Oeste do Rio, um policial civil, morador do local, abriu fogo contra seus vizinhos que participavam de uma festa no salão do conjunto. Três deles ficaram feridos. A causa? Uma reclamação contra o volume do som. Assim é. Do desconforto à agressão física, a distância é o gatilho de uma arma. Entre janeiro de 2018 e dezembro de 2022, houve 70 homicídios e mais de 14 mil agressões durante brigas entre vizinhos no Estado do Rio.
Na vila de minha infância, a vizinhança era de outra natureza. O vizinho era aquele que, na emergência, cedia um pouco de sal para o refogado e um tantinho de fermento para o bolo improvisado. Era aquele que abria as portas para assistirmos televisão, luxo a que poucos de nós tinham acesso. De quebra, emprestava a revista Intervalo, com a programação dos poucos canais. Era o interlocutor noturno, nas cadeiras que, em círculo, compartilhavam angústias e esperanças. Era o peladeiro botinudo que me transformava, por contraste involuntário, em Dida ou, vá lá, Garrincha. Era, sobretudo, o que enxugou minhas lágrimas e meu desânimo no momento da ferida profunda.
O segundo caso foi o de Gabriela Anelli, torcedora palmeirense estupidamente assassinada por um flamenguista idiota. A garrafa que arremessou na direção de Anelli espatifou-se e os fragmentos a atingiram mortalmente no pescoço. É assustador como a cultura da violência invadiu os estádios de futebol. Hoje, é programa de risco frequentar arquibancadas. Como bem observou Carlos Eduardo Mansur, a violência nossa de cada rodada já parece não chocar.
Impossível não lembrar do tempo, já encurralado nas névoas da memória longínqua, em que, ainda moleque, eu frequentava o Maracanã em dias de grandes jogos, todos com mais de 100 mil torcedores. Jamais me senti ameaçado pela multidão, a rivalidade se exprimia por ferramentas, digamos, civilizadas. Ao final da partida, a gente descia a rampa de acesso às arquibancadas lado a lado com a torcida adversária, sem que fluíssem rios de sangue ou rolassem cabeças quebradas. É como disse Obdulio Varela, El Negro Jefe, capitão da seleção uruguaia campeã da Copa de 1950: Afinal de contas, ora bolas, futebol é apenas um jogo.
Não há nada mais terrível do que uma ignorância ativa (Goethe)
Juca Kfouri é dos raros cronistas esportivos que respeito. Daqueles que sabem que a dança do esporte está colada na melodia da sociedade. Pois o Juca suspendeu por alguns instantes o tema usual de suas colunas para tratar de outro, muito mobilizador e doloroso. A eutanásia.
Sua irmã Maria Luiza enfrentou um câncer de pâncreas e, depois de muito sofrimento, dor e total desesperança de remissão, morreu semana passada. Lúcida até quase o fim, havia deixado o desejo, registrado em cartório, de que não esticassem artificialmente sua vida. Pode-se chamar de viva a pessoa que já não respira espontaneamente, depende de tubos para manter os metabolismos, apaga a consciência com sedativos potentes para não sofrer dores fortíssimas? Os médicos estão proibidos, no Brasil, de assessorar um fim suave e rápido para quem, irreversivelmente doente, expressou claramente esta vontade.
Há um bloqueio obscurantista em nosso país, impedindo que se discuta, com seriedade, temas como a eutanásia. Em nome da religião, grupos organizados, como a nefasta Bancada da Bíblia, atacam qualquer tentativa de conversar com a sociedade sobre o direito que cada um tem de dispor de sua Vida. Em nome de deuses imaginários, preferem que se prolongue a agonia de quem suplica apenas um fim digno para uma existência que, no sábio dizer do Juca, “deve ser morrida com suavidade, sem estraçalhar a rota dos anos percorridos”.
Infelizmente, no Brasil, Estado laico pra inglês ver, é comum ver o espaço público sequestrado por correntes religiosas. Quem não se surpreende ao entrar numa repartição pública ou na sala de deliberações do STF e ver crucifixos pendurados? Onde a separação Igreja-Estado? A promiscuidade produz aberrações, assimiladas como “naturais” pela frequência com que ocorrem. Vou ficar em apenas alguns casos mais recentes.
Na última Marcha para Jesus, evento privado, parcial e indevidamente financiado por recursos públicos, um representante do atual governo federal disse que “nós estamos em Brasília não pela nossa perna, mas levantados por Deus para cumprir um propósito”. Discursinho rigorosamente igual ao do Negacionista Inelegível, que sempre afirmou estar “cumprindo missão divina” na presidência. O que dizer da campanha do advogado Cristiano Zanin para garantir vaga no STF? Peregrinou até os membros do consórcio evangélico que habita o parlamento, para assegurar que é “homem de família” e “católico” e sinalizar que não moverá palha para colaborar no debate de temas como o aborto. Capitulações que desinformam, despolitizam, privilegiam. Assustam, e medo é matéria-prima de todas as formas de autoritarismo.
Por falar em privilégios. Entre 2018 e 2022, o segmento evangélico foi presenteado com isenção de ICMS por até 15 anos, perdão de dívida de R$ 1,4 bilhão referente à Contribuição Social sobre Lucro Líquido e isenção de IPTU sobre imóveis alugados. Na reforma tributária aprovada há poucos dias pela Câmara dos Deputados, entidades religiosas, templos de qualquer culto, incluindo suas organizações assistenciais e beneficentes, estão isentos de impostos. A tradução (à moda de Orwell): todos os brasileiros são iguais, mas uns são mais iguais do que os outros.
Quem tem no currículo Inquisição e Cruzadas, cumplicidade com expedições coloniais, discriminações variadas contra mulheres e homossexuais e um número descomunal, e crescente, de casos de pedofilia, não deveria ter autoridade para criticar a liberdade de interromper a Vida de forma espontânea. Um assunto que se deve abordar sem o cutelo chantagista do pecado.
Está mais do que na hora dos brasileiros ultrapassarem as ameaças dos arcaicos e debaterem a eutanásia. Como fizeram Alemanha, Bélgica, Espanha, Holanda, Luxemburgo e Portugal. Não consta que afundaram na perdição e no caos. À revelia dos perversos que defendem o sofrimento acima de tudo e dos supersticiosos que invocam o invisível para justificar a dor, é preciso, e aqui chamo novamente o Juca, “sem medo das patrulhas obscurantistas, modernizar a legislação para que cada um possa escolher como fazer com a própria vida”.
Ao Juca Kfouri, irmão de memórias e esquadrões inesquecíveis.
Sua senhoria trila o apito. Começa agora o match decisivo da Copa do Mundo, neste estádio de Rasunda. Dia chuvoso na capital sueca, momento histórico para o esquadrão de ouro. Assim imagino que Oduvaldo Cozzi começou a transmitir a partida entre as seleções do Brasil e da Suécia, decidindo a Copa de Mundo de 1958. O estilo elegante do locutor paulistano, extinto faz tempo, nos transportou, em êxtase, ao gramado onde se jogou uma das mais espetaculares partidas do selecionado brasileiro. Em meio aos chiados de rádios a válvula, adivinhávamos o baile, que completou 65 anos. Baile regido por Didi (eleito o melhor jogador da Copa), Garrincha e Pelé.
O Menino comemorou como pôde. Ladeando um pequeno gramado na vila de casas, havia uma mureta de cimento áspero, lixa perfeita para fabricar as bainhas dos botões artesanais. Craques eternizados na memória. Alguns buracos na mureta permitiam que a água da chuva, acumulada na terra encharcada, escoasse. Pois foi nestes buracos providenciais que extravasamos nossa euforia. Substituímos os tradicionais traques Caramuru por cabeças de nego, pequenos cilindros de papel pardo com pólvora socada. Quando explodiam nos buracos, o efeito era poderoso, megatônico. O eco reproduzia estrondos parecidos com os de canhões. Viva!
Se perguntar a alguém que viveu aqueles momentos qual seria a trilha musical da Copa, é pule de dez que cantarolará “A taça do mundo é nossa/com brasileiro não há quem possa”. Por artes sempre misteriosas dos recuerdos, meus tralalás são outros. O primeiro é a marchinha Mané Garrincha, composta por Jorge de Castro, Wilson Baptista e Nóbrega de Macedo para o carnaval de 1959. Cantada por Angelita Martinez, vedete do teatro rebolado, tinha um trecho que convidava ao duplo sentido. Dizia: “Mané que brilhou lá na Suécia/Mané que nasceu em Pau Grande”. Claro que adolescentes e nem tanto substituíam o “em” por “com”. Garrincha, que com mulher não era mole (sem ou com duplo sentido) e ainda não tinha encontrado Elza Soares, teve um caso com Angelita.
O outro, cujos nome e compositor desconheço, dava a escalação completa da seleção antes da final (!) e celebrava a conquista. Vale a pena registrar: “Gilmar, De Sordi, Belini, Zito, Orlando e Nilton Santos, Garrincha, Didi, Vavá, Pelé e Zagalo, esse é o escrete nacional/Que vencendo a Suécia, com bravura e decisão,/Conquistou para o meu país o cobiçado título de campeão”. Tá, a coisa tem jeito de rapé, mas quem disse que memória é júri de festival?
Era tempo de futebol romântico. Ninguém chamava técnico de professor, craques faziam carreira completa no mesmo clube, criando vínculos duradouros com a torcida, as camisas não eram outdoors ambulantes. Não existiam dancinhas midiáticas, nem gestos devocionais caricatos, na comemoração dos gols. Em 1958, Vicente Feola, técnico da seleção, ouviu os conselhos de Didi e Nilton Santos, boleiros experientes, e escalou Garrincha e Pelé na partida decisiva contra a União Soviética. Os titulares Joel e Dida, ambos do Flamengo, eram muito bons, mas quem seria páreo para os dois gênios que os substituíram? Jogadores influenciando técnicos. Hoje? Impossível.
Há uma história saborosa sobre a partida contra a URSS. Garrincha comeu a bola. Logo no primeiro minuto, demoliu a defesa soviética e mandou um petardo na trave de Iashin, o Aranha Negra, um dos melhores goleiros do mundo. Foi assim durante todo o jogo. O lateral-esquerdo Kuznetsov não viu a cor da bola. Terminada a partida, os soviéticos, derrotados por dois a zero, voltaram para o vestiário. De repente, ouviu-se um forte estrondo. Tinha sido Kuznetsov, que arremessara sua chuteira contra a parede e disse, aos berros: Nunca mais jogo futebol! Nós não sabemos que jogo é esse! Quem sabe são eles!
O pessoal da velha guarda afirma que a conquista da Copa em 1958 curou a ferida do Maracanazo. Não penso assim. Acho que não há o que cicatrizar. A vida é construída pela lembrança dos bons e maus momentos. Não dá para eliminar uns ou outros. A derrota para a Celeste, em 1950, é poderosa fonte de ensinamentos, não uma página vergonhosa. Interferência da política no esporte, arrogância, ufanismo da imprensa, são apenas alguns dos graves equívocos brasileiros que facilitaram a vida de Obdulio Varela e seus companheiros. Aprendemos a lição? Não sei. Futebol hoje é, cada vez menos paixão e mais business, e os idos de 1958 são apenas uma imagem bela e criativa do que já fomos. E jamais voltaremos a ser.
Já dei uns pitacos sobre a implosão do submersível Titan, em passeio turístico ao custo individual de US$ 250 mil para observar os destroços do Titanic. Quem sabe os cinco passageiros buscavam contato com miasmas dos que morreram no afundamento de 1912? Que não se subestime o nível do delírio de bilionários, para quem não há limites materiais neste planeta torto e ensandecido.
Peço a paciência de vocês para detalhar um pouco mais alguns aspectos que me incomodam bastante. O primeiro deles é a ganância dos proprietários da OceanGate, empresa que construiu o Titan. Mesmo alertados por vários especialistas sobre a precariedade da segurança do veículo, mantiveram o projeto, sob a alegação de que estavam “inovando” a navegação debaixo d’água. Stockton Rush, ex-piloto de avião que fundou a OceanGate e estava a bordo do submersível que implodiu, considerava “incrivelmente bonito” o naufrágio do Titanic. “Beleza” que custou a vida de cerca de 1.500 pessoas, a grande maioria pobres que viajavam na terceira classe.
A indiferença ao risco de terceiros em nome da maximização de lucros não é inédita no capitalismo. Ao contrário, faz parte de seu DNA. Durante a Revolução Industrial na Inglaterra no século XVIII, os primeiros operários pagaram com a saúde e, no limite, com a vida, para garantir a acumulação de capital da burguesia. No início, trabalhavam sete dias por semana, até 15 horas diárias. Férias pra quê? O trabalho infantil em certos setores era generalizado. Risco (mental, físico) coletivo, lucro privado. É a lógica que se esconde, intacta, no mergulho fatal do Titan.
Outro aspecto é a diferença de tratamento na morte. Os cinco mortos no submersível mereceram amplo registro de fotos e biografias. A divulgação personalizada transforma números frios em empatia, quebra a invisibilidade. Este mesmo gesto de humanidade não mereceram os milhares de refugiados que jazem no fundo dos mares. A diferença de classe não perdoa sequer os afogados.
Costuma-se olhar com condescendência as excentricidades dos bilionários. Os tripulantes do Titan faziam parte da casta de magnatas que não cansam de procurar “diferenciais” com a ralé. Como o jato particular do Five Hotels & Resorts em Dubai, que oferece acomodações luxuosas para os clientes durante o voo. A viagem de ida e volta entre Londres e Dubai, por exemplo, custa cerca de US$ 200 mil na engenhoca. Os que estão em New York e querem garantir seu lugar na galeria dos “especiais”, podem ir a um restaurante no Brooklyn que oferece uma experiência sui generis. É o naked dinner. Isso mesmo, durante 40 minutos todos ficam pelados para ter uma “experiência imersiva” durante o rango. É a banalização esperta da nudez, que assegura notoriedade e bons lucros para os proprietários da casa.
Finalmente, o que dizer da cobertura jornalística maciça para um evento tão fútil , tão descolado da vida da enorme maioria dos terráqueos? Compensa valorizar a curiosidade mórbida dos necroturistas? Uma aritmética elementar desnuda o filtro viciado desta imprensa. O sumiço do submersível durou 5 dias. As buscas por seu paradeiro envolveram recursos sofisticados de quatro países, ao custo (público) de milhões de dólares. No mesmo intervalo de 120 horas, cerca de 40 trabalhadores brasileiros foram encontrados em condição análoga à escravidão. Quem são? De onde vieram? Como medir seu nível de sofrimento? Ninguém sabe, são meros números nas estatísticas da indignidade e do descaso. Também no mesmo intervalo de tempo, cerca de 120 mil pessoas morreram de fome no mundo. Quantos segundos nos noticiários esta tragédia infinita merece?
A implosão do tubo insensato é uma boa metáfora para o que está acontecendo no planeta. Hóspedes recentes desta esfera privilegiada, transformamos a imensa sopa orgânica que são os oceanos, fonte de inúmeras formas de vida e beleza, em ataúde líquido, território da Morte. Poluímos e aniquilamos vida marinha de forma sistemática. Do jeito que a banda toca, o final deste filme é previsível. Netuno, aliás, já está afiando seu tridente.