Cinquenta anos

Cinquenta anos

Às mulheres de Calama, que jamais desistiram.

Às vésperas do 50º aniversário do golpe que derrubou o governo da Unidade Popular no Chile, foi anunciado um plano nacional para localizar as cerca de 1.100 pessoas que desapareceram durante a ditadura e ainda não foram localizadas. Calcula-se que mais de 40 mil pessoas foram presas, torturadas e/ou mortas pelos militares durante os 17 anos que durou o regime.

A barbárie começou logo após a deposição do presidente socialista Salvador Allende. A jornalista Patricia Verdugo descreveu o que foi a Caravana da Morte, monstruosidade que espanta mesmo num continente que se habituou ao horror. Um general, acompanhado por oficiais, percorreu o Chile, caçando “inimigos do regime”. No final da operação, 75 pessoas haviam sido trucidadas com inacreditável sadismo. Não bastava assassinar. Era necessário batizar a nova etapa com sangue e medo. Era vital para os algozes afogar em sangue a memória da experiência da Unidade Popular.

Interessante notar como os milicos golpistas latino-americanos sempre foram apaixonados pela morte e movidos por covardia. No Chile, a Caravana. Na Argentina, os Voos. Prisioneiros políticos sedados, embarcados em aviões, foram arremessados ao rio da Prata. São ecos das falanges fascistas espanholas. Em 1936, durante um evento na Universidade de Salamanca, cujo reitor era o poeta e filósofo Miguel de Unamuno, o general franquista Millán Astray gritou: “Abaixo a inteligência! Viva a morte!”.

O documentarista chileno Patricio Guzmán dirigiu o belo Nostalgia da luz. Nele, aparecem mulheres que percorriam o deserto do Atacama, lugar mais árido do planeta, buscando com ferramentas rudimentares ossos de parentes sequestrados e assassinados por verdugos pinochetistas. Mais do que comovente, é um registro em dupla direção. Na primeira, demonstra a estarrecedora capacidade humana de infligir sofrimento. Na outra, a contrapartida da memória, da dor que não aceita resignação, da dignidade que enfrenta a violência. Lembrar, aprendemos a duras penas, é resistir.

O Centro Cultural do Banco do Brasil está exibindo uma exposição de fotografias do Evandro Teixeira, grande craque do fotojornalismo. Entre muitas imagens, as que ele captou no Chile em 1973, logo após o 11 de setembro. Lá estão a UTE, universidade bombardeada e vandalizada (abaixo a inteligência!, lembram?), o Palácio de la Moneda arruinado por caças da Aeronáutica, o funeral do poeta Pablo Neruda, morto menos de duas semanas após o golpe. Evandro conta, emocionado, como fotografou a enorme multidão que, mesmo ameaçada por forte aparato militar, acompanhou o caixão do poeta até o cemitério. Gente que declamava versos de Neruda, cantava às lágrimas e de punho cerrado a Internacional, saudava o companheiro que foi amigo pessoal de Allende e militante comunista (senador pelo PC em 1945).

O impacto da exposição me fez retornar a velhas perguntas e inquietações. O governo da Unidade Popular foi extremamente importante para minha geração. Política, ideológica e culturalmente. O aprofundamento da experiência da Nueva Canción Chilena, unindo tradição folclórica e lutas populares. Ouvíamos Victor Jara, Violeta, Isabel e Angel Parra, Inti Illimani, Quilapayun, Rolando Alarcón. Os artistas iam aonde o povo estava. Os trabalhadores se organizavam, participavam, ganhavam voz na hierarquia política. A juventude despertava para a política com entusiasmo e criatividade. As ruas, os estádios, os muros, as livrarias, todos ferviam.

A pergunta que insiste em permanecer atual é: será possível transitar ao socialismo dentro da institucionalidade burguesa? Foi o que Unidade Popular tentou. Como se pedisse licença para ultrapassar o modo capitalista de produção. Licencinha aí, seu dotô. Contra isso agiu uma combinação de forças internas e externas. Hoje já se conhece a extensão da interferência do imperialismo no processo chileno. A Internacional Capitalista, com a ajuda da classe dominante chilena, abortou tudo com táticas sórdidas. Na luta de classes, a burguesia venceu um round.

Terá sido em vão? Certamente não. A História se constrói com luta, mas também com memória. Há muito o que aprender com a experiência chilena. Transfiro a palavra ao Neruda, para sintetizar a esperança de retomada de um projeto de construção do socialismo, ideia tão generosamente abraçada pelo povo chileno nos idos de 70. É o trecho final do discurso que o poeta proferiu em 1971, ao receber o Prêmio Nobel de Literatura. Deixo no original para conservar sua força.

“Yo creo en esa profecía de Rimbaud, el vidente. Yo vengo de una oscura provincia, de un país separado de todos los otros por la tajante geografía. Fui el más abandonado de los poetas y mi poesía fue regional, dolorosa y lluviosa. Pero tuve siempre confianza en el hombre. No perdí jamás la esperanza. Por eso tal vez he llegado hasta aquí con mi poesía, y también con mi bandera. En conclusión, debo decir a los hombres de buena voluntad, a los trabajadores, a los poetas, que el entero porvenir fue expresado en esa frase de Rimbaud: solo con una ardiente paciencia conquistaremos la espléndida ciudad que dará luz, justicia y dignidad a todos los hombres”.

Compañero Allende: presente!

Camarada Neruda: presente!

Compañeros de la Unidad Popular: presente!

Abraço. E coragem.

Será que ele é?

Será que ele é?

Correnteza de rio/que não vai se acalmar (Edu Lobo)

Dia desses, um articulista da Folha de S. Paulo perguntou se Lula é de esquerda. Nas atuais circunstâncias, essa talvez seja uma questão meramente retórica. Luiz Inácio foi a única alternativa viável para derrotar, nas urnas embora não nas relações de poder, a extrema-direita. Sob esse prisma, não há qualquer dúvida de que o ex-metalúrgico é um homem à esquerda no espectro político nacional. O que me interessa, contudo, é dialogar com outros aspectos.

Para começo de conversa, é evidente que Lula não é, jamais foi e não pretende ser comunista. Chegou mesmo a declarar que, ser de esquerda, é uma espécie de doença quando se manifesta na maturidade. Isso aí é o fantasma oportunista e ignorante que, despolitizados e seduzidos pela estupidez bolsonarista, setores da população assimilaram.

Pesquisa recente feita pelo Datafolha desenha o nível de desinformação, neurose e descolamento da realidade de uma grande massa de brasileiros. Fico em duas conclusões da pesquisa. Mais de um terço dos entrevistados (36%) defendem, total ou parcialmente, que a ditadura civil-militar (1964/85) beneficiou o país. Mais da metade (52%) concordam, total ou parcialmente, que o Brasil “corre o risco” (!) de se tornar comunista. É neste imaginário popular, deformado e semiesquizofrênico, que atuam as forças políticas. Um cenário quase catastrófico.

Lula tem origem na militância sindical, que se limita a negociar a redução nas taxas de exploração do trabalho. Não está em sua agenda questionar a permanência desta exploração e a possibilidade de ultrapassá-la. Luiz Inácio usa, com habilidade, esta formação política, negociando sem alterar a hegemonia do capital. Não vai, nem irá, além disso. Quer reformar o que for possível, sem confrontar regras inegociáveis do modo de produção capitalista. Antes de esquerdista, ele é um reformador.

O articulista da Folha usa a régua diversionista para definir a esquerda. Navega nas pautas de costumes, ambientais, identitárias. Como se a esquerda devesse limitar-se a discutir a extinção de baleias, a liberalização do uso de drogas, os direitos dos povos originários, os preconceitos. Passa longe de categorias como a luta de classes, que não é apenas o embate direto entre exploradores e explorados, mas o reconhecimento de que existem conflitos que não se resolvem idealizando a boa vontade e o “bom senso” dos antagonistas. Evidente que o combate ao racismo e a preservação ambiental, por exemplo, são importantes, mas representam antes consequências de um tipo de sociedade predatória, fundada em desigualdades, injustiça e desprezo pelo bem-estar coletivo.

Lula, ora pois, não é um revolucionário, durmam tranquilas as hienas protofascistas. Por isso, dele não espero que siga uma das tradições mais consistentes da esquerda histórica: ajudar o povo a compreender os mecanismos que geram e reproduzem pobreza, discriminação, desesperança. Mecanismos que não são meras armadilhas do destino, mas construções determinadas pelas relações entre os homens. Uma pedagogia que estimule organização e participação. Passo inicial para a emancipação dos trabalhadores das múltiplas formas de dominação do capital.

Dou um exemplo prosaico. O governo acaba de divulgar a proposta de Orçamento para 2024. Quem consegue compreender a salada numérica? Quantos se interessam por isso? Os cálculos são apresentados como se não fossem afetados pela política, sem pressões, higienizados pela burocracia estatal. No entanto, entender a distribuição de recursos, as razões das prioridades, seria uma bela lição de como funciona a dinâmica do poder. Um político, já não digo de esquerda, mas ao menos progressista, usaria os números para esclarecer, educar, mobilizar. Um “você sabia?” politizado, difundido à larga em redes sociais. Nada disso passa pela cabeça do companheiro ex-metalúrgico. O jogo dele é agradar o “mercado”, não fazer marola, ceder continuamente espaço político para os de sempre.

Voltando à pergunta inicial. Lula tem uma respeitável trajetória política, foi importante na luta contra a ditadura. A preocupação com os segmentos mais vulneráveis do país é louvável. Entretanto, sua visão assistencialista dos problemas sociais não combina com a necessária transformação do povo em protagonista de sua história. Pelo contrário. O fôlego reformista depende de lideranças carismáticas, do “fique tranquilo, deixa comigo que eu resolvo”, da prevalência dos bastidores e das mediações burocráticas sobre a participação popular. Se o projeto for apenas administrar a dinâmica de acumulação do capital, amenizar seu apetite canibal por lucros, Lula é um bom quadro. De esquerda? Há controvérsias. Se a intenção for superar este modo de produção material e subjetivo, a chave será outra e Lula será ultrapassado. Pela esquerda.

Abraço. E coragem.

Ruminâncias

Ruminâncias

Que é isso, menino? Maneira mais feia de se comportar na mesa. Mais respeito com as visitas, o que vão pensar de nós? A cara de poucos amigos dos Grandes era convincente: o arroto pegara mal. Não reconheciam a urgência do som. Era questão elementar de Física. Ar se concentra, pressão aumenta, et voilà. O que tinha de mais? Eructe-se, ora bolas, a bem do alívio na pança e do choque nas boas maneiras dos adultos.

Fico sabendo que as vacas, aquelas cuja saúde foi exaltada pelo Nelson Rodrigues, são uma das principais vilãs do efeito estufa. Os arrotos destes ruminantes, que têm quatro estômagos, são potentes geradores de metano, gás nada inocente, que compete com o gás carbônico como principal veneno para a atmosfera do planeta. A imagem serena das vacas suíças em bucólicas paisagens ofusca o potencial tóxico das emissões estomacais.

Cientistas canadenses encararam o problema e puseram o ovo em pé. Não, não prescreveram o veganismo em massa, nem extermínio dos rebanhos. Desenvolveram um produto que, ingerido, dá ao sêmen do touro um traço genético de baixo teor de metano. As vacas e novilhas melhoraram o comportamento à mesa e, sem abrir mão de capins gourmetizados e rações nutritivas, deixaram de arrotar tanto.

Minha geração tem uma relação afetuosa com estes mamíferos e seus familiares. Isso aparece nas muitas referências, divertidas e nostálgicas, a eles e aos alimentos que nos proporcionam. Quando o Rio ainda era uma cidade horizontal, certa figura invisível frequentava as portas das casas. O leiteiro, cujo rosto ninguém conhecia, chegava quando o dia era ainda uma fresta e deixava garrafas com leite. Os cascos vazios eram devolvidos para, no dia seguinte, voltarem com o líquido branco que alimentou gerações. O leiteiro, personagem tão importante na paisagem urbana quanto o garrafeiro, o amolador de facas, o homem do realejo, o funileiro e o vendedor de chica-bon, inspirou Drummond num poema-crônica de rascante beleza.

No dicionário ludopédico, quem, veterano como eu de gramados e charangas, não lembra da leiteria do Castilho? Carlos José Castilho foi goleiro do Fluminense entre os anos 40 e 60. Tinha fama de sortudo. Se a bola passava por ele, batia na trave ou fazia estranhas curvas, mas não entrava no gol. Por razões que se perderam no tempo, associava-se leiteria com sorte. Fora do campo, ela não ajudou o guarda-valas. Abatido por uma depressão, suicidou-se aos 59 anos.

Castilho não conheceu a categoria dente-de-leite nas chamadas divisões de base dos clubes. Hoje, há uma coleção de sub isso, sub aquilo. Em outros tempos, o grande problema era a subnutrição que devorava muitos garotos que chegavam para treinar.

Na República Velha, era a política do café com leite que garantia às oligarquias paulista e mineira a hegemonia no jogo viciado do poder. Com isso, avacalhava-se qualquer ameaça de democracia no país. Quem não concordava, apanhava que nem boi ladrão. Os políticos comportavam-se como vacas de presépio, mamavam nas tetas dos coronéis.

Ainda na política, Aparício Torelly, o Barão de Itararé, foi eleito vereador no Rio de Janeiro (ainda era Distrito Federal), em 1946, pelo PCB. Um de seus lemas de campanha era: “Mais água e mais leite. Mas menos água no leite”. Para quem não liga a com b, produtores inescrupulosos misturavam água no leite distribuído no país. Era o leite batizado.

No tempo de vacas magras, o Menino não podia comprar os discos que queria. Os adultos não tinham mão de vaca, era somente bolso vazio. Assim, a boiada passou e o Lp do Pink Floyd, Atom Heart Mother, com a enigmática vaca malhada na capa, ficou no desejo.

Os lacradores que me perdoem, mas vou citar uma das minhas heroínas. Não, não é a Vaquinha Mococa. É a boneca Emília, criada pelo escritor que me abriu o mundo das letras e as veredas da imaginação, Monteiro Lobato. A levadíssima bonequinha de pano disse que, se a Natureza fosse mais prática, vacas teriam 2 tetas. Uma, para uso dos leiteiros. Outra, para os bezerros.

Por fim, sem desprezar os leites de rosas e de onça, sem viajar para Cuernavaca ou Vacaria, convoco o jornalista, radialista e humorista José Martins de Araújo Júnior, mais conhecido como Don Rossé Cavaca, morto em 1965 aos 41 anos de idade. Mestre de ótimas tiradas, sentenciou: “Meu bem, agora desliga a televisão que eu quero te apresentar os amigos que jantaram conosco”. Hoje, a televisão foi ultrapassada por celulares e computadores. É preciso tirar leite de pedra para ganhar a atenção do interlocutor que, pescoço torto, não desgruda da luz azul que abduziu meio mundo. Os eletrônicos são a mais recente vaca sagrada e a gentileza do diálogo é a vaca que foi pro brejo. Na arquibancada, vendo o circo pegar fogo, a vaca que ri.

Abraço. E coragem.

Abraços

Abraços

Era uma cabana de pano desmontável. Herança de outras infâncias. A pequena chega no quarto, olha curiosa para o tecido amarelo e entra no abrigo frágil. Com seu pouco mais de um ano de idade, devia sentir-se soberana de um reino invisível. Olhou-me com ar pidão. Convite silencioso, mas irrecusável, para dividir intimidade. E também entrei na casinha.

Dentro, percebi que as varetas que sustentavam a frágil construção estavam desalinhadas. Abaixei-me o quanto pude, tentando encaixar as peças. No meio do trabalho, a surpresa. O pinguinho muito querido aproximou-se e envolveu minha cabeça com seus pequenos braços. Para completar a festa, encostou sua cabeça na minha. Ficamos ali, unidos por um sentimento leve, sem palavras, por uma identidade que se inaugurava. Sem pressa. Fora da cabana, o mundo e suas circunstâncias podiam esperar.

Abraço.

Na noite festiva, o Menino discursaria. Treinado durante meses, falaria em ídish, idioma que não dominava. Tudo memorizado para confirmar a entrada na maioridade religiosa. Um ritual praticamente obrigatório nas famílias judias. A ancestralidade dizia presente.

O nervosismo era natural. Na manhã do dia anterior, tinha cumprido a etapa litúrgica do processo. Agora, no salão de festas, repetiria palavras que os adultos já estavam cansados de saber, mas mesmo assim não dispensavam. Antes da boca livre, digo, do jantar, eu falaria. E a expectativa era de que não titubeasse, como se fora um grande orador a iluminar as gentes. Logo eu, um dentuço a caminho da redenção, que mais preferia ver e ouvir.

E o silêncio se fez. O terno e a gravata, tortura para um adolescente, pareciam pesar algumas toneladas. O microfone, que já tinha conhecido dias e falantes melhores, estava ali, inquisidor. Como dar a largada? De onde viria o sinal para tocar o bonde?

O Grande se aproximou. Pegou o microfone com a intimidade de um Antônio Cordeiro, de um Heron Domingues, de um Gontijo Teodoro, e, meio sorriso nos lábios, sorriso inteiro nunca foi possível, falou: Manda brasa! E me passou a geringonça.

Todos os temores desapareceram. Todas as formalidades derreteram. Falei sem parar durante, sei lá, uns dez, quinze minutos. Libe eltern, zeide un bobes un hoshuve fraind… Queridos pais, avô e avós e distintos amigos. Ainda lembro esse início.

Tudo foi gravado e se transformou num pequeno disco de vinil, que ainda guardo, com seus chiados estranhos. Infelizmente, aquelas duas palavras libertadoras do Grande foram apagadas. Crueldade do cara que editou o discurso. De qualquer forma, elas foram um grande abraço na alma, autorização para entrar num mundo que ele gostaria de compartilhar comigo. Neste sentido, pintou eternidade. Ou e-terna-idade.

Abraço. E coragem.

Diálogos

Diálogos

Navegar por memórias antigas é como andar no fog de Baker Street à luz de um velho candeeiro. A gente vê vultos, silhuetas, sem ter muita certeza do que temos pela frente. Ou por trás, já que de passado se trata.

Numa dessas caminhadas opacas, esbarrei no Claudio Correa e Castro. Estava vestido a caráter como no dia em que estreou a peça Galileu Galilei, do Brecht, encenada pelo teatro Oficina em 1968. Fazia os gestos enfáticos do italiano, no enfrentamento da ignorância e do dogmatismo de seu tempo. Desafiou os poderosos com as armas da ciência. Subverteu a falsa teoria de que a Terra era o centro do universo. Duvidou, pecado grave para batinas e coroas. Sob ameaça de tortura e morte, foi forçado a renunciar às suas convicções.

Há uma cena na peça que jamais esqueci. Com um pequeno telescópio na mão, Galileu convida um prelado (ou seria monarca?) a olhar o céu através das lentes. Argumentando que a hipótese do Sol ser o centro do sistema planetário era uma heresia, o poderoso se nega a fazê-lo. Prefere o dogma, confortável, embora falso.

Galileu é a antítese dos nossos tempos acelerados e volúveis. Como bem disse o Zeca Baleiro, ninguém tem mais tempo pra nada. Ele defendia o vá e veja, observe e conclua, debata e conheça. Hoje, qualquer um se sente autorizado a emitir opinião, por exemplo, sobre um livro mesmo sem tê-lo lido. É dessa forma que se criam tribunais virtuais instantâneos sem fundamento real, sem o indispensável conhecimento do que se está avaliando. Creio que isso está acontecendo com o livro Que bobagem!, da dupla Natalia Pasternak, microbiologista, e Carlos Orsi, jornalista.

Antes da chuva de conclusões apressadas, que fique bem claro: não li o livro, não acho honesto julgá-lo. É exatamente por isso que me assusto quando percebo que tantos não-leitores como eu estejam deitando cátedra sobre a obra. Mais ainda. Acendem-se as fogueiras da Inquisição, como se os autores fossem apenas oportunistas que, através da blasfêmia, estivessem tirando proveito de calculadas provocações.

Não conheço Carlos Orsi, mas meus neurônios ainda vibram com a doutora Pasternak. Ela foi, junto com a pneumologista Margareth Dalcolmo e o oncologista Drauzio Varella, entre outros honrados médicos, uma voz poderosa contra o negacionismo e a favor da ciência durante a pandemia de Covid-19. Sua presença foi fundamental para manter nossas sanidade e esperança no auge da praga. Com postura densa e corajosa, ajudou a salvar vidas. Não se trata, portanto, de uma charlatã. Devagar com o andor, distintos jurados! Criticá-la, se for o caso, é legítimo e enriquecedor, mas através de argumentos e postura respeitosa. É preciso retomar o hábito saudável de debater em bom nível.

Quando ouvi falar de Anitta pela primeira vez, fiz cara de paisagem. Pesquisei, ouvi algumas de suas músicas, assisti alguns clipes, vi (envergonhado e atônito) a apresentação dela antes da final da Libertadores da América de 2022, em Montevidéu. Formei opinião, sem me deixar influenciar pela eficiência empresarial da moça e suas posições políticas. Como arte, é lamentável. Mistura de soft-porn com efeitos especiais, excesso de carne e gordura, caras e bocas bem ensaiadas. Vende como pão quente. Segui meu receituário. Fui, vi, ouvi, opinei.

Voltando ao livro de Pasternak & Orsi. Um bom exemplo de comentário elegante e propositivo foi escrito pela psicóloga Vera Iaconelli, colunista semanal da Folha. Sem duelar com os autores, menciona abordagens diferentes sobre um tema polêmico do livro (psicanálise e ciência). Cita fontes bibliográficas relevantes e, nas entrelinhas, sugere que o debate deve continuar. Vejo o espectro sorridente do Galileu depois do ponto final.

Não se vai derrotar a extrema-direita apenas com um governo reformista vulnerável ou a boa vontade antifascista. É preciso fecundar a estrada, cultivando desde já valores que contrastam com a truculência e a ignorância dos galinhas verdes. Reaprender a dialogar, e diálogo se faz reconhecendo e respeitando as diferenças, é um desses valores.

Abraço. E coragem.

 

Ela vem chegando

Ela vem chegando

Na volta triunfal ao cinema de rua, um susto. Procurei, em vão, a bilheteria. O antigo box onde comprávamos ingressos estava lacrado. Procura daqui, assunta dali, descobri que a vendedora de drops do bar interno passou a acumular a função dos bilheteiros. Pronto, mais uma profissão extinta. Segue o caminho dos trocadores de ônibus, lanterninhas de cinema, sorveteiros em carrinhos da Kibon, vendedores de pirulitos cônicos, tocadores de realejo, radioatores.

Entre os exterminadores de empregos, a mais nova estrela é a chamada Inteligência Artificial (IA). Estamos na primeira infância de uma revolução tecnológica que se espalha por inúmeros processos de produção material e simbólica. O cérebro eletrônico deixou de ser uma denominação genérica dos computadores e avança para dissolver a fronteira entre o real e o imaginário. Como em toda transição, há muita insegurança sobre o que pode acontecer. O mundo, tal como o conhecemos, balança, sem que esteja claro como será aquele que o substituirá. Se, por um lado, surgem equipamentos que aperfeiçoam diagnósticos médicos e ajudam cientistas a traduzir textos milenares em instantes (é o que está acontecendo com o idioma acadiano, que existiu há mais de 2 milênios), por outro os vídeos das chamadas deep fakes corroem as noções mais elementares de realidade.

Um exemplo preocupante é o que acaba de acontecer no México. Certa candidata de oposição nas eleições presidenciais, a senadora Xóchitl Gálvez, viralizou nas redes com um vídeo em que desautorizava sua adversária governista. Descobriu-se que tudo, desde as imagens de Gálvez até seu pequeno pronunciamento, era falso. O material foi inteiramente produzido por ferramenta de IA. É previsível a massificação destes programas falsificadores, com sistemas cada vez mais sofisticados.

O desemprego provocado pelo incremento acelerado da automatização de processos produtivos pode chegar a 20% dos empregos globais. É o paraíso dos burgueses, proprietários dos meios de produção. As máquinas automatizadas são trabalhadores dóceis, sem necessidade de descanso ou sindicatos, manutenção barata. É o inferno para as multidões de desempregados crônicos, que se somarão aos milhões de centrifugados pela lógica implacável do capital. Já pensei muito sobre o destino dessa gente. Abandonados e sem o mínimo para sobreviver, simplesmente morrerão de fome, em silêncio? Perambularão pelas cidades em contingentes cada vez maiores, assustando os “incluídos”, que, claro, chamarão os meganhas para resolver o inconveniente? Surgirá uma centelha de rebeldia, com consequências globais e inéditas?

Centenas de cientistas e pesquisadores subscreveram um pequeno texto de alerta sobre o descontrole na evolução da IA. “Mitigar o risco de extinção por IA deve ser prioridade global, ao lado de outros riscos de escala social, como pandemias e guerra nuclear”. Creio que se inspiraram em Hal, o computador de 2001: uma odisseia no espaço. A máquina estava programada para garantir o sucesso da missão espacial a Júpiter. Concluiu que os tripulantes eram uma ameaça para se alcançar o objetivo. Ato contínuo, tratou de eliminá-los. A Criatura aniquilou (quase) todos os Criadores. Seria apenas uma conjectura da ficção científica? Poderíamos entrar na linha de tiro dos algoritmos fora de controle? Perguntas que assombrarão a existência de nossos filhos e netos.

Aqui jaz uma dúvida fascinante. Em algum momento, poderão as máquinas “sentir”, “criar”, “improvisar”? Terão redes neuronais que admitam surpresas? Até aqui, não há nada parecido com isso. O máximo que se pode projetar é uma simulação burocrática destes movimentos humanos. Não imagino um androide criando a coreografia de Fred Astaire dançando com um cabideiro (!) em Royal wedding. Menos ainda improvisando o drible humilhante que Pelé aplicou em Mazurkiewicz em 1970 ou dirigindo a cena final de Eles não usam black-tie, com os personagens de Fernanda Montenegro e Gianfrancesco Guarnieri catando feijão em silêncio. Aliás, como seria um “silêncio introspectivo” destes mecanismos? Não há planejamento eletrônico que autografe a primeira bicicleta do Leônidas da Silva ou um improviso pianístico do Count Basie. Como seria a amizade de duas máquinas? Empatia de arruelas, chips e óleo nas juntas?

De nada, entretanto, adiantará nossa orgulhosa capacidade de improvisar, sentir, se a decisão de uma IA mal-humorada e bem equipada for varrer-nos da face da Terra. Aí, então, não poderemos ir nem para Pasárgada.

Abraço. E coragem.