O homem de Pau Grande

O homem de Pau Grande

Garrincha é como Rimbaud: gênio em estado nascente (Paulo Mendes Campos)

Podia ter sido em Dogpatch, o Brejo Seco das histórias de Ferdinando Buscapé. Lugarejo pobre onde Al Capp  sintetizou uma América nada glamourosa. Acabou acontecendo aos pés da Serra dos Órgãos, nos arredores de uma modesta fábrica de tecidos e próximo de um campinho de peladas. Em Pau Grande, pouco mais de três mil habitantes esquecidos pelas gentes, nascia, há 90 anos, um certo Manoel Francisco dos Santos. O Mané Garrincha.

Minha primeira lembrança dele é auditiva. Pregado num velho rádio a válvula, ouvi a final do campeonato carioca de futebol de 1962. Jogavam Flamengo e Botafogo, num Maracanã com 160 mil torcedores. Ao Flamengo, que estava há sete anos sem títulos, bastava o empate. Além disso, tinha Henrique e Dida, um senhora dupla de frente. Dava para ser otimista. Havia um porém. Do outro lado, jogava um sujeito de pernas tortas que gostava de caçar passarinhos e não se importava com táticas, hierarquias e geometrias. Naquela tarde, Garrincha demoliu a defesa rubro-negra e destruiu a esperança do Menino. O três a zero, inquestionável, implacável, não se esquece.

Um ortopedista mostrou, certa vez, as radiografias das pernas do Mané. Juntas, os ossos formavam um X que pareciam condená-lo a uma frase do Sérgio Porto: vai despontar para o anonimato. Deve ter sido isso que pensou o técnico do Botafogo numa tarde antiga dos anos 50, quando viu aquele molecote entrando no gramado de General Severiano para um teste. Ainda por cima, seria marcado no treino pelo Nilton Santos, a Enciclopédia do Futebol, terror em preto e branco dos pontas-direitas. Quando o novato pegou a bola e correu para cima do Nilton, audácia do bofe!, a turma da arquibancada ensaiou uma gargalhada. Vai humilhar o garoto, não tem jeito. Então, o espanto. Mané dá um come por debaixo das pernas do Enciclopédia. Ninguém tinha se atrevido a tanto! Nilton recomenda imediatamente a contratação daquela figura rara. Era aconselhável que não o pegasse pela frente com outra camisa.

De certa forma, Garrincha, que é o nome de um passarinho que não se adapta ao cativeiro, jamais saiu do campinho de terra batida de Pau Grande, onde jogava peladas pelo time da fábrica. Pés descalços, sem camisa, tomando cuidado para não isolar a bola no barranco lateral. “Eu nunca fui muito de futebol, não!”, chegou a dizer.

Há muitas histórias que revelam sua alma desacorrentada. Minha preferida é um comentário que fez sobre a final da Copa de 1950, um trauma que marcou gerações. Paulo Mendes Campos registrou este comentário numa crônica: “No último jogo daquela Copa que teve aqui no Rio, eu não dei bola. Não ouvi nem rádio. Fui caçar passarinho. Rapaz, quando cheguei de tardinha lá em Pau Grande, levei um susto danado: tava todo mundo chorando. Pensei logo que fosse desastre de trem. Quando me contaram que o Brasil tinha perdido é que eu fiquei calmo e falei pro pessoal que era bobagem chorar por causa de futebol”. Comentário igual fez Obdulio Varela, capitão da Celeste no Maracanazo, quando terminou o jogo. Olhou para a arquibancada, constatou o clima fúnebre, do mais absoluto desalento, e, surpreso, disse: “Não compreendo. Isso é só um jogo!”.

Todos os seus marcadores, carniceiros ou leais, pensaram ter a chave para marcá-lo. Era previsível. A arrancada seria sempre pela direita, bastava cercá-lo por ali. Até hoje mantêm a convicção… e a memória do baile que tomavam. Castigo pelo grave erro de avaliação. O monotemático de Pau Grande foi, na curta carreira, imarcável. E, na feliz sacada de Luiz Carlos Barreto e Joaquim Pedro de Andrade, a alegria do povo.

Terminou abatido precocemente pelo alccolismo. Neste nonagésimo aniversário de nascimento do Garrincha, tenho a impressão de que é impossível imaginar outro igual na atualidade. Não digo isso apenas pela técnica. Os jogadores de hoje têm, como diria o Nelson Rodrigues, saúde de vaca premiada. O driblador, o criador de nuvens, é personagem quase desaparecido. Se surgisse, impávido colosso, seria massacrado pelos velocistas. Além disso, e talvez principalmente, desapareceu o espírito amador, do passarinho que não conhece gaiolas. Os jogadores d’agora são dublês de “empreendedores”, não importa a cor da camisa. Quem se atreveria a dizer, como o fez Garrincha, que a Copa de Mundo é um torneio mixuruca, que não tem nem returno?

Por tudo o que você foi e fez, Garrincha, o Menino dentro de mim te absolve da coça que aplicou, sem piedade, no meu Flamengo, numa tarde calorenta do verão de 1962. Cada vez que revejo suas jogadas, lembro de um trecho da marchinha de carnaval que a boazuda Angelita Martinez eternizou: “Mané Garrincha, até hoje meu peito se expande”. E se expande para as alturas da arte que você criou e nos fez felizes.

Abraço. E coragem.

Semeaduras

Semeaduras

Quando soube, ficou impressionado. Para ele, atiradeiras evocavam outras imagens, nos matagais da infância. Época em que, ignorantes do valor de curiós, canários e periquitos, caçávamos passarinhos sem o menor sentimento de culpa. Não era difícil comprar uma daquelas armas primitivas. Nas feiras livres, faziam companhia a espoletas e traques, sonhos pendurados em barbantes frágeis.

Pois não é que comunidades quilombolas do sertão de Pernambuco descobriram uma nova função para nosso velho lançador de pedras, terror da passarada e horror dos ambientalistas? Vivendo em áreas degradadas da caatinga, os agricultores começaram a usar as atiradeiras para lançar sementes de árvores nativas da região em locais de difícil acesso. A Natureza começa a responder com arbustos e promessas de vida.

Por que não aproveitar esta técnica para semear alguns ventos amenos e tempestades criativas, pensou? Subiu numa pedreira velha da memória, armou-se de bodoque imaginário e pôs-se a fecundar o que a vista alcançava.

A primeira semente tinha marca uruguaia. Eduardo Galeano, torcedor do Nacional de Montevidéu, gostava do futebol como arte do improviso e do espanto. Não importava de onde viessem. Dizia-se um mendigo do bom futebol, que percorria os estádios suplicando uma bela jogada pelo amor de deus. A semente galeana forneceria beleza e encantamento.

A segunda, multifacetada, vinha grávida de poesias. Talvez fosse melhor dizer dos Meninos que inspiram poetas e lhes dão rosto de eternidade. Como numa noite esquecida no extinto Alcazar, em Copacabana, quando se reuniram poetas para homenagear Pablo Neruda, ilustre confrade chileno. Um deles percebeu o brilho de infância no fundo dos olhares de todos, que se materializou no prazer com que Manuel Bandeira, sorriso escrachado, devorou um sorvete de creme. A semente robusta vai virar peraltice e saudade.

Mal tinha lançado a segunda e a terceira já estava pronta no estilingue. O nome dela era Silêncio e também tinha selo de los orientales. Mario Benedetti, exímio germinador de futuros, nos lembrou que “há poucas coisas tão ensurdecedoras como o silêncio”. Crescerá um arbusto delicado, cercado de predadores que o atacarão, vilipendiarão, ironizarão, humilharão. Para resistir, dará à luz um vegetal gêmeo. Terá razão única e nome plural. Será o irmão Palavras, que não precisará da suspeita palavra de honra, nem será levado pelo vento. Cada um florescerá a seu tempo.

Em seguida, foi a vez da semente ideias. Todas elas. A de jerico, a luminosa, a tempestuosa, as eurecas, a tortuosa, a ardilosa. Como disse Millôr Fernandes, “ter uma ideia/é por a mão/numa colmeia”. Pensar, ter ideias, já dizia o Galileu de Brecht, é um dos maiores prazeres do ser humano. Mas quantos de nós estão dispostos a aceitar a humanidade dos outros?

Faltavam apenas duas sementes. A penúltima é de cor alaranjada, mede pouco mais de 5 centímetros e vive no interior de bromélias. Tem nome. É Xenohyla truncata, uma perereca sui generis, que só existe em pequenas áreas da Mata Atlântica. Ao invés de insetos, seu cardápio é formado por frutas e flores. Além disso, espanto!, suga néctar e, ao fazê-lo, o pólen gruda em suas costas úmidas. Quando pula de flor em flor, espalha o pólen e garante a reprodução das flores. Um símbolo de colaboração, mensagem de belezas que, por não conhecermos, estamos destruindo metodicamente. Voa, pererequinha, espalha teu pólen fertilizador pela terra devastada e triste que estamos legando aos que ainda virão.

O que fazer com a última semente? Decide mantê-la no bornal, sem conhecer-lhe a certidão de nascimento. Viajará por mundos turbulentos, por caatingas remotas, por conflitos estúpidos, por sonhos frustrados, por melancolias de toda sorte. Arriscará semear uma esperança?

Abraço. E coragem.

O homem dos suspiros

O homem dos suspiros

Depois de um tempo, mal lembravam seu nome verdadeiro. Quem passava pelas ruas de Sapopemba à tardinha via o carrinho amarelo que rodava tranquilo, vendendo suspiros. Embalados no capricho pelo seu Lucrécio, que completava a renda familiar oferecendo o doce. Acabou conhecido como o Príncipe do Suspiro, desses tipos adoráveis que o corre-corre, o cinza chumbo dos paredões de concreto e a impessoalidade dos grandes centros urbanos engoliram. Irmão do lambe-lambe, primo do sorveteiro, sobrinho do vendedor de pirulitos cônicos caramelados e casquinhas.

Lucrécio tinha também uma atividade noturna. Impressionado com os rostos contraídos da gente do bairro, teve uma ideia, livre associação com seu carrinho de doçuras. Talvez pudesse aliviar aquela carga oferecendo-se para suspirar junto de quem quisesse compartilhar dores de todos os tipos. Sabe, a inspiração profunda, olhos fechados, expiração sem pressa, que ameniza tensões?

Descobriu um terreno baldio, dos últimos na vizinhança. Olhando para a grama maltratada, lembrou-se dos filmes de bangue-bangue de sua infância. Comanches, apaches e sioux reunidos em torno de fogueiras, compartilhando vidas e confirmando vínculos. Poderia arrumar uns gravetos, grama seca, banquinhos. Ouviria, à luz da chama dançante, o mar de angústia que corria a céu aberto e, solidário, ofereceria sua nova especialidade. Não mais o doce, mas o suspiro que relaxa.

Fez pequenos cartazes, que pendurou em postes do bairro. Todo dia, na hora tal, no terreno baldio da rua qual, ofereço suspiros para descarregar pesos e dificuldades várias. Não se garante eficiência, recomenda-se esperança. Estarei ao pé da fogueira. O banquinho é por conta da casa. Não se aceitam doações.

A notícia esparramou-se. Fulanos e beltranos ironizaram, achando que aquilo era conto do vigário. Sicranos, entretanto, ficaram curiosos e, movidos por corações machucados, ninhos vazios ou solidões crônicas, resolveram dar uma espiada. Se o Príncipe era bom no doce, quem sabe seria também num curativo para a alma?

Na inauguração, havia pouca gente. Hesitavam em se aproximar da pequena fogueira, que iluminava o rosto sereno de Lucrécio. Alguém, tenso, desconfiado, arrisca o primeiro passo e senta no banquinho. Fala de decepções e um luto recente. Lucrécio fecha os olhos, faz uma inspiração poderosa e solta o ar com força. Do outro lado, o visitante repete tudo. No final, olham-se. Havia, não se sabe por quê, uma forma de comunicação. Sem palavras. Sem ruídos. Um discreto sorriso encerra o pequeno ritual.

E vieram outros, muitos. Dia após dia. Amargos e acridoces. Silenciosos e silenciados. Atormentados e destroçados. Solitários, almas anêmicas, esquecidos, desesperados. A breve comunicação, a atenção voluntária e integral, a presença pura e simples, dissolviam, por instantes, a rotina de aflição e tristeza. A vida continuaria sem refresco. Todavia, o gesto de Lucrécio permanecia. Era isso que os visitantes comentavam.

Um dia, Lucrécio não apareceu. Lá estavam banquinhos, gravetos, grama seca. Vieram os famintos pelo contato, mas nada do Lucrécio. Olham-se uns aos outros, inquietos, numa orfandade triste. Depois de um tempo, vão todos embora.

E foi assim por uma semana, um mês. Voltavam e voltavam as gentes, em número cada vez maior. Até que alguém, iluminado por estrelas trêmulas no céu poluído, toca o ombro do que estava ao lado. Começam os dois a suspirar. Sem pressa. Aos poucos, como num balé improvisado, todos estavam na cadência suspirante. E saíram, sem perceber, da invisibilidade noturna, e reconheceram seus vizinhos, e olharam pela primeira vez para o cortejo que se reunia ao redor da fogueira. Deram-se conta de que eram a própria fogueira.

Na volta para casa, o comentário era um só. Mas aquele Lucrécio, hein?

Abraço. E coragem.

Eu, judeu

Eu, judeu

Estava numa reunião de trabalho na Petrobras. Construíamos cenários para o país e o mundo na década seguinte. Não lembro a razão, mas o assunto derivou para judeus e judaísmo. Malandro que sou, calejado neste tipo de conversa, perguntei aos colegas quantos judeus eles achavam que havia no Brasil. As respostas variaram muito, mas sempre de milhão para cima. Sequência de queixos caídos quando informei que não passavam de uns 100 mil. Ou cerca de 0,05% da população total da época.

Era uma amostra representativa do imaginário popular sobre a presença judaica no Brasil. Por absoluta falta de informação ou, infelizmente, por antissemitismo entranhado (“os judeus dominam setores-chave da sociedade!”, cacarejam antissemitas, expandindo o delírio para uma pérfida conspiração mundial contra a humanidade), acredita-se que a comunidade judaica seja muito maior do que o é na realidade. Para quem não sabe, existem no mundo inteiro cerca de 16 milhões de judeus. Menos do que a soma das populações das cidades de São Paulo e Rio de Janeiro.

Por trás dos algarismos, persiste uma velha questão. Afinal de contas, quem é judeu? Não há um manual do usuário, com certezas categóricas. A História consagrou muitas respostas. Os “de fora” caracterizam-no como religião, raça, portador de certas características físicas. A própria História tratou de desbaratar generalizações. Enorme parcela dos judeus não é praticante da religião. Há ateus declarados e agnósticos. Judeus que frequentam terreiros e templos budistas. Raça é uma categoria desacreditada pela ciência. Características físicas? Quais são as semelhanças corporais entre judeus etíopes e dinamarqueses? Entre judeus marroquinos e franceses? Dizer que alguém tem “cara de judeu” faz parte do léxico antissemita, que usa caricaturas com o objetivo de tornar a “aparência” judaica desprezível, asquerosa.

Para os “de dentro”, a confusão não é menor. Cresci sem que existisse dúvida a respeito. A matrilinearidade estava garantida. Ser filho de mãe judia, além das piadas, traumas e perspectiva de muitos anos de análise, certificava a identidade. Com o tempo, surgiram dúvidas e incômodos. Não me sentia à vontade com uma vida ritualizada. A religião deixou cedo de explicar os mistérios da vida e as encrencas da sociedade. Segui firme as pegadas de Primo Levi: “Se existe Auschwitz, não existe deus”. O nacionalismo judaico jamais me atraiu. Nunca pertenci a movimentos sionistas. Sobravam, então, poucas opções no cardápio identitário.

A verdade é que nenhum de nós é um bloco homogêneo. Somos uma superposição de camadas. Minhas placas tectônicas, por exemplo, são rubro-negras, ateias, tijucanas, internacionalistas, tímidas, revolucionárias (embora com pitadas conservadoras), militantes, Marx (Groucho e Karl), ansiosas por silêncio. Feijoada completa. Qual o papel do judaísmo nesta valsa existencial?

Sobretudo memória. Trago rastros da Bessarábia e da Polônia ancestrais, que não conheci, mas invento. Dali vieram os sabores não apenas das nostalgias incuráveis, mas dos ingredientes que formaram gostos e aromas. De lá aprendi o valor do sorriso pouco na paisagem de tristeza muita. Descobri a diversidade. Vivenciei o ocaso da língua ídish, cuja melodia atravessou gerações e legou uma cultura potente, infelizmente cada vez menos acessível pelo desaprendizado do idioma.

Sou um judeu sazonal, espasmódico. Tenho momentos de afastamento das raízes familiares. Outros, de intensa proximidade com o que não sei definir, mas são fragmentos de memória. Sou capaz de me emocionar sem culpa por passagens litúrgicas (como o Kol Nidrei), mantendo a convicção ateia. Sei de ateus que choram ao ouvir a Missa de Réquiem, de Mozart, ou a ária Erbarme dich mein Gott, de Bach. E daí? Beleza não exige atestado de crença. Na linha de Isaac Deutscher, solidarizo-me com os judeus vítimas de preconceitos, da mesma forma com que me alinho à luta de todos os grupos humilhados e ofendidos. A História, aliás, registra incontáveis judeus que combateram por Justiça e Liberdade. Para todos.

Alguns dizem que o judeu é o povo que gosta de zombar de si mesmo. As piadas judaicas refletem esta peculiaridade. Nos filmes do Woody Allen há quase sempre um judeu inseguro, colecionador de neuroses, muitas vezes torto na vida. No entanto, não há climas depressivos. A gente acaba rindo das situações embaraçosas e dos apuros que nunca se resolvem. Woody escreveu: “Cresci dentro da tradição judaica e me ensinaram que nunca deveria me casar com uma mulher que não fosse judia, que eu nunca deveria me barbear numa noite de Shabat e, principalmente, que eu nunca deveria fazer a barba de uma mulher não-judia sábado à noite”.

Oi vei!

Abraço. E coragem.

Aquele discurso

Aquele discurso

What’s puzzling you/Is the nature of my game (Mick Jagger)

O papo de hoje é sobre o discurso do Lula nas Nações Unidas, terça-feira passada. Antes de mais nada, que diferença das aberrações que o Impronunciável ejaculou para o mundo durante quatro anos! Luiz Inácio acertou ao abordar temas importantes como as crises climática e da fome, a concentração obscena de riqueza no mundo, os crimes cibernéticos, o direito dos povos à autodeterminação, o militarismo. Alguns observadores chamaram o pronunciamento de “histórico” (tenho alergia à banalização deste termo). Não subestimo a relevância dos temas. No entanto, como não sou chegado a uma idolatria, nem tenho compromisso com a superfície ou infalibilidades papais, faço algumas observações para dialogar com quem tiver interesse.

Começo pela própria ONU. Um mínimo de informação confere a mais total irrelevância ao organismo, tanto na formulação de políticas nacionais como na solução de conflitos armados. Um exemplo óbvio são as reiteradas condenações ao embargo imperial norte-americano a Cuba. Ano após ano, discurso após discurso, veemências após veemências, quase 200 nações aprovam resoluções que condenam os Estados Unidos. Nada acontece, o embargo permanece intocado, a confirmar que saliva e aplauso não incomodam as reais fontes de poder.

Lula mencionou, corretamente, que a fome atinge 735 milhões de pessoas no mundo, ao mesmo tempo em que os gastos militares somam, anualmente, mais de dois trilhões de dólares. Entretanto, estaciona aí. Não denuncia (como Che Guevara o fez nos anos 60) as causas disso. É como se achasse, ingenuamente, que tudo não passa de uma questão de moralidade. Bastaria convencer os donos do capital a terem compaixão, renunciarem à acumulação de recursos e curarem os pesadelos, com imagens de famintos, doando, sistematicamente, sua riqueza. Em suma: uma licantropia reversa. Lobo virando gente. Quem acredita nisso?

O presidente acusa o neoliberalismo pelo agravamento das desigualdades. Bingo. Gostaria de vê-lo coerente, aplicando este insight na política interna, dominada por quadrilheiros neoliberais. O que se vê são concessões sucessivas aos setores políticos mais atrasados, com consequências que se desdobrarão ao longo do tempo.

Aprendi que o voluntarismo não é bom conselheiro. Neste aspecto, o grand finale do discurso de Lula foi atribuir a uma suposta resignação global a falta de medidas concretas para enfrentar as desigualdades. “Falta vontade política daqueles que governam o mundo”, disse o presidente. Ora, ouvindo essas palavras parece que conversas ao pé do ouvido com os senhores do universo teriam o condão de despertá-los para a fraternidade e um senso aguçado de justiça. Como se eles não conhecessem os números catastróficos mencionados pelo brasileiro. Mais uma vez, subentende-se que estaríamos tratando de aspectos morais e não de guerras de interesses, que se confundem com os interesses das classes dominantes de cada país.

Para vencer a resignação, e disso Lula passa ao largo, é preciso, antes de mais nada, conhecer as causas estruturais da exploração que leva ao desemprego, a todo tipo de desigualdade, à pobreza, à fome. Conhecer as dinâmicas de acumulação de capital, que não se enfrentam a golpes de saliva ou simples boa vontade dos manda-chuvas. O conhecimento é apenas o primeiro passo. Organizar o povo em torno de agendas libertárias, de emancipação de todas as formas de exploração, é indispensável. Enfrentar a apatia é um processo, que não será bem-sucedido se depender da iniciativa de quem se beneficia dela. O escorpião continuará a picar o sapo no meio do lago, mesmo que isso implique na sua morte. Essa é a sua natureza.

Termino como comecei. O discurso de Lula, comparado ao lixo golfado pelo Abominável Homem das Fezes durante quatro anos, é o retorno da diplomacia liberal inteligente. Vai ter consequências? Daqui a cinco anos, por exemplo, alguém vai se sair com Lula dixit para justificar uma política social? Pela absoluta falta de mergulho nas causas dos problemas que levantou, o discurso tem baixíssima capacidade de mobilização. Sejamos francos. Todas as informações passadas estão ao alcance de um toque no Google. Sem abrir um debate sobre os fundamentos dos desequilíbrios monumentais que castigam a Humanidade, o discurso, aliás qualquer discurso, serão apenas palavras. E palavras, como bem sabemos, leva-as o vento. Ou são lembranças de Parole, parole, parole, cantadas pela italiana Mina nos idos de 70.

Abraço. E coragem.

Espectros à mesa

Espectros à mesa

Algum dia tinha que acontecer. E foi hoje, neste início de 5784. Envolvidos por uma dessas brumas cinematográficas que anunciavam vampiros e espíritos aflitos, eles iam chegando aos poucos.

No princípio, intrigados. Não costumavam ficar juntos, mas aquele lugar os acolhia bem, logo ficaram à vontade. Com abraços mais ou menos apertados dei-lhes as boas-vindas. Shul’m aleich’m, reb Zissi! Vus machstu, reb Avrum? Kum aher, reb Shmil! E o cortejo só aumentava. Primeiro, os homens, na hierarquia secular a que se habituaram. Depois, menos intrigadas (elas sempre captam melhor as vibrações), as mulheres, já de avental e sabedoria a postos. Algumas, dissidentes, usavam o avental como adorno exótico, sem qualquer valor utilitário. Eram vanguardistas avant la lettre.

Os espectros que chegavam, tão familiares, nunca haviam a rigor saído daquela sala, da mesa posta, dos aromas ancestrais impregnados na alma. Acomodaram-se e o que veio a seguir me fez lembrar Lilian Helman: “Eu gosto das pessoas que se negam a falar até que tenham algo a dizer”. Naquele encontro, cada palavra tinha um pedaço carnudo de eternidade.

Enquanto esvaziavam cálices sucessivos de bronfn, a pinga ashquenazita, faziam perguntas. À moda judaica, ou seja, dessas cujas respostas jamais são pontos finais. Onde anda a boa música? Um deles havia lido num site – sim, eram espectros atualizados! – que “o mundo tem música demais que significa cada vez menos”. Oi vei, por onde andarão os Heifetz, os Rosenblatt, os Zukerman, os Horowitz, os Barenboim? Onde se podem ouvir os klezmorim? Tentei mostrar novidades criativas. Abram a cabeça, taiere neshumes! Qual o quê. Eram celularmente nostálgicos.

Neste momento, entraram em cena as mulheres. Aquelas dissidentes. Peraí, argumentaram, o mundo não parou nas aldeias, na dor do exílio, nas perdas tão sentidas. Olhem em volta. Já ouviram falar em choro, em Hamilton de Holanda, Henrique Cazes, Maurício Carrilho, Zé Paulo Becker, Paulinho da Viola? Já escutaram Yamandu Costa? E foi proclamada a confusão. Eu me divirto à distância. Ora, a vida me ensinou que o ideal seria um Paulinho Heifetz, um Daniel Carrilho, um Henrique Rosenblatt. A salada rítmica, a sopa cultural, a combinação de experiências, costumam dar liga. Choro e klezmer não são criações quimicamente puras. Poros abertos, resultam de assimilações ricas de significados. Diálogos no mundo das partituras.

O forrobodó espectral corria solto, quando chegaram à mesa, em marcha triunfal, os primeiros guefilte fish, bolinhos de peixe. Salgados, levemente adocicados, tinha para todos os paladares (que permaneciam exigentes mesmo na etapa espectral da existência).  Como sempre, as divergências derretem e abrem alas ao gosto comum, à comunhão pelo sabor. Cada garfada condensa histórias e memórias.

O banquete continua com o yuach mit kneidlech, o caldo fumegante e dourado de galinha com bolinhos de farinha de matsá. O silêncio na mesa demonstra reverência àquela maravilha. Simples, terrivelmente trabalhosa, identificadora.

Quem ainda tem fôlego, enfrenta a etapa do ferfale com carne. Arremata-se com maçãs generosamente banhadas em mel. Há um afeto, uma plenitude, fluindo no ar, que nos gruda, material e subjetivamente, nas cadeiras. São encontros sempre improvisados, cada pedaço de lembrança, cada riso ou lágrima, definindo nossa silhueta e nossos caminhos. O tio Bóris, discreto mobilizador, sereno, dá interpretação laica a uma velha tradição religiosa judaica e nos junta num abraço coletivo: Shehehianu vequimanu vehiguianu lazman hazé! Que a nossa relação continue viva pois foi ela que nos trouxe até aqui! E todos, ateus ou não, respondemos: Umain! (amém com sotaque polonês-bessarabiano).

Cada qual no seu canto, voltamos à realidade inconstante. Com uma única certeza: não existe cada qual no seu canto. É cada qual em todos os nossos cantos.

Que 5784 continue permitindo os encontros que nos batizam e constroem.

Abraço. E coragem.