Passagens

Passagens

E de repente… Uma barulheira dos diabos aqui perto me lembra que é hora de olhar a folhinha. Uma turma aos urros, alimentada por hectolitros de álcool, antecipa o final de ano e comemora, sei lá, o mal que já passou e a beleza que sonham pela frente. É o que dizem alziras e bartiras. Horas depois, um vapor etílico azulado envolvia o bar. Minha porção Fradim faz uma força danada para não jogar um fósforo aceso e … bum! Imagino o desfile dos bebuns e suas babas bovinas.

Curioso, parece que só nestas datas simbólicas as pessoas percebem a passagem do tempo. A rigor, o dia 1 de janeiro não tem nada de diferente do 31 de dezembro. Ambos são convenções, escolhas arbitrárias, que não mudam a velocidade de translação da Lua, a má vontade da florista da esquina ou a goiabeira da Damares. No entanto, é um tal de preparação de rituais, uma busca de sinais e garantias de que o tempo perderá peso e o futuro será, claro, melhor. Pode ser a cor da calcinha, a semente de uma fruta vermelha, um chá milagroso, um alimento camarada, uma frase enigmática, tudo conspira a favor das crendices de final de ano.

Tudo bem, cada um usa o método que lhe convém para acalmar a consciência da finitude, do que é incerto e incontrolável. A tentação de encontrar fórmulas prontas e universais para baixar a ansiedade é muito grande. Daí a popularidade dos videntes, quiromantes, tarólogos e influenciadores espirituais, cada vez mais assanhados e adornados com coberturas vistosas e pretensamente sérias. Quando os vejo, suspeito que ainda vivemos nas cavernas, amedrontados pelos relâmpagos que cortavam os céus na escuridão dos tempos. Sem entender patavinas, nossos ancestrais atribuíam aquela maravilha natural a forças sobrenaturais, e lhes rendiam tributo.

Já mencionei várias vezes uma dessas ilusionistas, que escreve regularmente num grande jornal. Leio seus textos como divertimento. Desopila o fígado. Acontece que, nessa fase do ano, ela capricha nas bulas salvacionistas. Sugere contatos com constelações (!), anjos, arcanjos, espíritos, como se nossa presença neste planeta ensandecido fosse influenciada por trupes invisíveis e estrelas remotas. Pior que acho que ela tem muitos leitores reverentes. Para mim, é como oferecer sarapatel para um vegano. Faço cara feia, mas é diversão garantida.

Vejam vocês. Um belo dia na era Cretácea, bagatela de 66 milhões de anos atrás, uma enorme pedra com nove quilômetros de extensão entrou em rota de colisão com a Terra. O choque brutal, sem direito a tortillas, guacamoles e mariachis, aconteceu na península de Yucatán, no México. O impacto abriu uma cratera de 16 quilômetros de profundidade por 160 de largura. O resultado foi devastador para o planeta. Nuvens de poluentes escureceram os céus durante anos, plantas sumiram e, com elas, os herbívoros que as tinham como alimento e os carnívoros que se alimentavam deles.

Houve extinção em massa de seres vivos, dinossauros entre eles. Uns poucos mamíferos conseguiram sobreviver e iniciaram um longo processo evolutivo. Como dizem os cientistas, se a rota do pedregulho tivesse se desviado um milésimo de grau, ele teria se perdido no espaço, sem tocar a Terra. O resultado provável é que os tiranossauros e seus aparentados, espécies dominantes, continuariam até hoje no topo da cadeia alimentar. O Homo sapiens não sentaria nem no banco de reservas da Natureza e eu não estaria aqui dedilhando relações ariscas.

Se chegamos até aqui, foi fruto de uma tempestade perfeita de acasos. A vida é um enorme e finito depósito de surpresas. Dominamos muito pouco o que está por acontecer. Esta falta de previsibilidade traz insegurança e garante o sustento de muito pilantra que vende falsas profecias. Não adianta apelar para forças etéreas. Somos nós, com todos os defeitos, ilusões e limitações siameses da natureza humana, os construtores de sentidos e caminhos para a vida. Comer lentilha é nutritivo, guardar sementes de romã é simpático, mas isso não faz a menor diferença na engenharia existencial.

Abraço. E coragem.

Dezembros

Dezembros

Dezembro era mês difícil para o Menino. A quase coincidência entre Hanucá e Natal incomodava. Os Outros amanheciam pedalando Monarks novas, chutando bolas Pelé, reforçando os escretes de botões com galalites novas e abrindo sacos alentados de bolas de gude. Papai Noel dava o que era possível na Vila remediada. O Menino olhava, invejava, abaixava a cabeça e se conformava. Era o Diferente, que merecia, no máximo, um pião, dreidl, de Hanucá. Pequeno consolo eram as comidas típicas da chamada Festa das Luzes. A avó, querido Pássaro de Makow-Mazowiecki, preparava porções fartas de latkes, espécie de patanisca de batata, e sufganiot, sonhos recheados de creme ou doce de leite.

A família original não celebrava Hanucá. Na escola, de orientação conservadora, reforçavam o lado “milagroso” da história. Para quem não conhece, breve relato. Houve uma época em que a Judeia era dominada pelo império grego. Um milico, general de maus bofes, Antíoco IV, tornou-se figura destacada no império por volta do ano 175 antes da Era Comum. Como forma de reforçar a dominação imperial, resolveu desfigurar a identidade religiosa e cultural dos judeus. Em 167 antes da Era Comum, transformou o Templo de Jerusalém em local de culto a Zeus e sua patota de divindades. Exigiu, sob pena de morte, que os judeus deixassem de seguir a Torá e aderissem a cultos politeístas.

Camadas privilegiadas de judeus helenizantes aceitaram as restrições e ajudaram os ocupantes a reprimir quem resistia. Colaboracionistas existem em todo canto e tempo. No entanto, o caldeirão começou a ferver. O patriarca dos Hashmonaítas, Matatias, liderou uma revolta, hoje chamaríamos de guerra de guerrilhas, junto com seus cinco filhos. Embora em condições muito difíceis, o movimento ganhou corpo e, depois da morte do patriarca, em 165, seu filho Judah conduziu a revolta até a vitória final.

Reconquistada Jerusalém, era preciso limpar e rededicar o Templo, grosseiramente profanado pelos gregos. Este trabalho, que incluiu a recuperação do altar dos sacrifícios, levou oito dias. Os macabeus, como passaram a ser chamados os guerrilheiros, decidiram registrar a vitória com uma celebração anual que duraria os mesmos oito dias necessários à rededicação. O evento é a certidão de nascimento da Festa da Rededicação (Hanucá).

Cerca de seis séculos depois destes acontecimentos, religiosos descobriram uma forma, cá pra nós bem oportunista, de se apropriar simbolicamente da vitória dos macabeus. Inventaram o “milagre” de Hanucá. Segundo a lenda, uma lâmpada com óleo suficiente para apenas 24 horas de combustão durou os oito dias necessários à rededicação do Templo.

A versão “milagrosa” foi a mais lembrada até que, no século XIX, grupos de judeus russos e poloneses, identificados com correntes de esquerda e empenhados na autodefesa contra pogroms e ondas antissemitas, recuperaram o caráter libertário do exemplo dos macabeus. É este caráter que me interessa, pois atualiza um evento acontecido há cerca de 22 séculos. Não se trata, portanto, de reproduzir mecanicamente uma tradição, mas entendê-la na e com a História.

O direito à autodeterminação está na origem da guerrilha macabeia. Valeu então e segue em vigor. Ao longo da História, hordas de conquistadores submeteram, manu militari, povos inteiros. Entre as táticas de dominação, sempre ampliadas e aperfeiçoadas, estão apagar a memória comum dos dominados, prender, torturar e matar lideranças populares, usar a violência física e psicológica para domesticar potenciais rebeldes, desumanizar os dominados. Povos oprimidos por forças ocupantes têm o direito de se levantar contra quem os oprime. É a lição primordial de Matatias, Judah e seus guerrilheiros.

Estamos no período de Hanucá. Não acenderei velas de parafina. Estas deixo aos homenageiam o sobrenatural. Prefiro repassar a saga macabeia, a ensinar que é o Homem, e apenas ele, que constrói a História. Com as condições objetivas e subjetivas que lhe são dadas para viver.

Abraço. E coragem.

Tô arrebentando

Tô arrebentando

Leitor aflito escreve ao jornal, prevendo encrenca. Ele está certo. A prefeitura do Rio pretende transformar a área ao redor da Praça Xavier de Brito, na Tijuca, em “polo gastronômico”. Velha conhecida dos tijucanos, a também chamada Praça dos Cavalinhos é um espaço bucólico, despretensioso como deve ser um lugar que nada oferece além de silêncio e uns pangarés cansados pra garotada. Não fica longe de onde morou o Aldir Blanc e um certo Menino encolhido. O burgomestre alegrinho, como tantos de seus pares, não gosta. Prefere gourmetizar, bloquear calçadas com mesas e cadeiras, desentocar decibéis e liquidar a vida de algumas centenas de cariocas, reféns da agitação que está por vir. É o roteiro do derretimento metódico da cidade, que já vai longe na estrada. Ao som da batucada e gritos de bebuns.

Em entrevista de 2006 ao Globo, Chico Buarque, mesmo não sendo catedrático em nostalgia, lembrava que “ainda garoto, eu subia no Morro da Babilônia para soltar pipa e ver a paisagem lá do alto (…) Não havia hostilidade. Não havia o tráfico de drogas, que criou essa tragédia carioca”. Entendo o lamento do craque do Politheama. No último ano da faculdade, fui com um amigo ao Morro dos Tabajaras. Aquilo parecia uma vila rural, moleques batendo bola no chão de terra batida, vizinhos batendo papo sem pressa. Não chegamos a ver a Maria com lata d’água na cabeça. Hoje, adeus tranquilidade. O pessoal que mora perto é capaz de identificar as armas pelo som dos tiros que se disparam regularmente na favela.

Os sintomas do derretimento espalham-se por todos os lados e eras. Millôr Fernandes, em data não identificada mas certeiro, chegou a definir o Rio de Janeiro como “antiga cidade brasileira, hoje desaparecida”. No início dos anos 70, um deputado alemão, se não me engano ligado ao incipiente movimento ecológico, veio ao Rio. Visitando o canteiro de obras do futuro elevado da avenida Paulo de Frontin, ficou estarrecido. Disse que aquilo jamais seria permitido em seu país. Um monstrengo de concreto e asfalto, parido para beneficiar principalmente transporte individual, ficava a poucos metros de distância de milhares de residências, transformando-as em cavernas poluídas. Derretiam-se as noções mais elementares de convívio na cidade grande. Parte de um bairro ficou imprópria para a vida. E segue o ziriguidum.

Se a cidade é tão insensível com seus moradores, por que eles deveriam respeitá-la? Da ideia à prática. Depredação virou esporte popular. Aqui em Copacabana, há uma estátua do Drummond. O itabirano morava perto dali. Os óculos de bronze do poeta precisaram ser repostos 14 vezes desde a inauguração da estátua. O monumento ao general Osório, na praça Quinze, era cercado por um pesado gradil produzido a partir da fusão de canhões usados na guerra do Paraguai. Duas toneladas de metal. Em façanha digna dos bons ilusionistas, o gradil foi furtado. Imagine a operação de transporte disso! Lixeiras, coretos, bueiros, imagens de matérias variadas, nada escapa. O grande Cartola compôs uma canção, quase lamento, que dizia assim: Ensaboa, mulata, ensaboa/Ensaboa/Tô ensaboando. No Rio, parafraseio: Arrebenta, carioca, arrebenta/Arrebenta/Tô arrebentando. E roda a baiana.

Já fizeram desenho animado sobre o Rio no início dos anos 2010. Passarada deslumbrante, cenários pra turista ver. Agora, os bichos mais presentes na cidade são os cachorros. Provavelmente fruto da pandemia, que agravou problemas de solidão, muita gente adotou animais, especialmente cães. O resultado é que a cachorrada solta o verbo furiosa, neurotizada, sem controle dos donos indiferentes. Devem achar latidos sinfonias modernosas. Tem gosto pra tudo. Competem com frequentadores de bares (11ª praga bíblica) no quesito de infernização e derretimento urbano.

Durante a pandemia, pude ouvir, encantado, os pássaros que habitam as árvores que sobrevivem à poluição e aos maus tratos. Sem o barulho do tráfego, os bichinhos mostraram do que são capazes. Cheguei a perceber, será?, broncas de dona bem-te-vi com os travessos bem-te-vizinhos. Certo dia, uma rolinha, armada de graveto ameaçador, lascou um canto guerreiro contra seu cônjuge, que voltara de um galho suspeito e cheirando a alpiste escocês. Imaginação? Ora, pesquisadores descobriram que o canto de pássaros no auge da Peste ficou mais suave, em tons mais graves, com muito mais variação de voz. Sem a barulheira das cidades, o canto voltou a ser mais complexo, cheio de conteúdo. Mais interessante: parece que, sim!, os pássaros voltaram a se ouvir, e reagiram espalhando beleza. O cinza urbano, a incivilidade, os ruídos ensandecidos e desrespeitosos, nos fazem desconectar ainda mais das maravilhas que nos cercam e permanecem invisíveis.

O Rio, que uns ingênuos disseram que era de luz, envelhece mal. Trata mal gentes e bichos, memórias e flores, sons e silêncios. Termino com o Chico. Na mesma entrevista que mencionei no início, ele disse que “ser carioca era motivo de orgulho, era covardia. Agora não é mais… E talvez por isto seja um bom momento para me afirmar carioca”. É nesta estranha, mas afetuosa, dialética buarquiana que me banho, e vou até o fim.

Abraço. E coragem.

Dos rabos insolentes às crendices vãs

Dos rabos insolentes às crendices vãs

Valia mais do que revólver de espoleta, estrela de xerife e lenço do Cavaleiro Negro. Só os mais abonados tinham espingarda de ar comprimido. Com os chumbinhos, era possível atingir alvos reais, longe do controle dos adultos. Lagartixas eram vítimas preferenciais. O sangue frio dos lagartos lhes dava velocidade e alguma proteção na pedreira. Inútil, porém, para escapar da pontaria certeira dos amigos do Menino. Acionado o gatilho e, tum!, voava o rabo do bicho, ceifado para glória da tribo (e horror retroativo dos verdes).

A amputação cobrava um preço. Não chegava a ser a maldição da múmia, habitante karloffiana dos poeiras tijucanos. Corria a lenda de que, sem o rabo, a lagartixa se vingava xingando a mãe do algoz. Daí, sabe como é espírito corporativo, cabia o golpe de misericórdia. O atirador terminava o servicinho sujo esmagando o bicho e desfalcando a fauna da Vila.

Lagartixa ofendendo gente… Bobagem? Bem, não sei se já repararam na quantidade de superstições que nos cercam. Até a partida final, assisti os jogos da Copa de 1970 na casa de um vizinho. Quem viu há de lembrar os bailes memoráveis do escrete formado pelo Saldanha e entregue de bandeja ao Zagalo. Ocorre que fui convidado para ver a decisão contra a Itália no apartamento de um amigo, no prédio onde morou Carlos Lacerda, em Copacabana. Em 1954, foi ali em frente que o Corvo sofreu um atentado. Arquitetura interessante, amigo do peito, TV moderna, convite irrecusável. Houve pânico na casa do vizinho. Não pode quebrar a escrita! Assistir o jogo em outro lugar vai dar zebra, o Brasil perderá! Resisti, não sem antes, confesso, espantar três gotas de suor aflito. Como se sabe, a seleção deu uma coça na Squadra Azzurra. Pelé, Gerson, Tostão e os demais bailarinos nem tomaram conhecimento da minha traição.

Futebol é terreno fértil para todo tipo de mandinga, crendice, praga. Há um vasto folclore a respeito. Desde a maldição do sapo do Arubinha, na década de 30, até São Judas Tadeu, padroeiro do Flamengo, passando pelos trabalhos do massagista Pai Santana, campeiam as superstições. Eu não gostava de ver o Flamengo usando a chamada camisa número 2, fundo branco com faixa rubro-negra horizontal na altura do peito. Achava que o time ficava lento(!) e, claro, dava azar. Paulo Machado de Carvalho, chefe da delegação brasileira nas copas de 1958 e 1962, radicalizou no pacto com o Além. No Chile, vestiu a mesma roupa que usara na Suécia, providenciou os mesmos avião e comandante de 1958 para levar a delegação ao Chile. Os mais crédulos atribuirão a isso a conquista do bicampeonato. Prefiro culpar o Garrincha, que, ele sim, incorporou os santos dos craques de todos os tempos e demoliu defesas, botinadas e a ausência do Pelé.

Fora do futebol, a impressão é de que não saímos das cavernas, quando nossos ancestrais atribuíam a deuses os fenômenos naturais que não compreendiam. Goethe disse que “superstição é a poesia da vida”. Certo, mas poesia tem hora, né? Será mesmo que falar o nome de alguém de maus bofes atrai mau agouro? E usar o pé direito quando adentra o gramado dá um upgrade em qualquer perna de pau? Se a lagartixa não tem poder para xingar a mãe, por que o espelho quebrado conseguiria jogar maldição por 7 anos? Um abraço energético (sic) transformaria o Íbis Sport Club, pior time do mundo, em celeiro de craques? Haja rima.

Como sempre, os espertos capitalizam a insegurança e o medo. Uma certa senhora ganha a vida nas páginas de importante jornal distribuindo crendices. Garante, por exemplo, que, se você plantar alecrim, atrairá prosperidade e alegria. Caso prefira arruda, afastará ilusões e protegerá a casa. Salsinha? Barrará olho gordo(sic). Coentro? Estimulará compaixão. Impressionante a atualidade do empresário circense P. T. Barnum. A ele atribui-se a frase “nasce um otário a cada minuto”.

Andei pensando. Os enormes avanços da ciência, da capacidade humana de inventar, criar beleza (não percam o documentário Elis & Tom), duvidar, explicar, convivem com a crença de que gato preto dá azar, bater na madeira afasta o dito cujo e comer romã e vestir roupa branca no dia 31 de dezembro garantem um ano novo feliz. Contradições que não se resolverão. Seremos sempre, como espécie, uma combinação esquizofrênica de avanço e retrocesso. Pelo sim, pelo não, passo longe dos despachos nas esquinas e não topo fazer piquenique em cemitério à meia-noite.

Abraço. E coragem.

Por que escrevo?

Por que escrevo?

Estava na Travessa procurando a menina quebrada. Ao lado, flanando entre livros, uma figura que antigamente chamávamos de caniço ambulante. Era o Joaquim Ferreira dos Santos, cronista das segundas-feiras no jornal, membro vitalício na galeria das minhas inspirações.

Daí, não teve jeito. Vesti a roupa das macacas de auditório (desculpem a linguagem radiofônica) e parti para o tête-à-tête. Meu ídolo é simpático, gosta de prosear. Falei-lhe das crônicas semanais, comentei a última, deslizei para a biografia do Zózimo Barroso do Amaral. Abria um sorriso a cada referência, não deve ser habitual tratarem-no como estrela pop. Suas matérias-primas são palavras e causos, nunca precisou expor celulites ou medir diâmetros de coxas. Não lhe pedi autógrafo, a intimidade improvisada não precisava de registro gráfico.

No final, deu-me um furo de reportagem. A próxima crônica seria sobre um personagem importante no cenário musical carioca. Newton Alvarenga Duarte ficou mais conhecido como Big Boy. Tinha um programa na rádio Mundial, lá pelo final dos anos 60. Seu bordão inaugural, reverberado pela minha geração, era “Hello, crazy people!”. Divulgou ritmos que o Joaquim classificou como “a catedral do Rio negro e suburbano”. A crônica anunciaria que a discoteca do Big Boy, 20 mil títulos, está à venda.

Eis aí um tema que ferve qualquer caldo. O mundo treme, o meio-ambiente grita, as gentes vivem tortas de tanta crise, e vem um sujeito falar de um DJ remoto, de música da periferia? Como ousa? Onde a solidariedade com o sofrimento e a incerteza, bradam os pacóvios da agenda única, do realismo a ferro e fogo. Não há arte possível, literatura que preste, sem referência à dor, asseguram do alto de suas certezas petrificadas. As chamadas redes sociais multiplicam o sectarismo. As mesmas redes que Umberto Eco afirmou terem dado “direito à palavra a legiões de imbecis que, antes, só falavam nos bares, após um copo de vinho, e não causavam nenhum mal para a coletividade”.

Em 1968, ditadura comendo solta, Chico e Tom foram vaiados quando Sabiá, linda metáfora para o exílio, venceu o III Festival Internacional da Canção. O público do Maracanãzinho exigia a militância explícita do Vandré no Pra não dizer que não falei de flores. A poesia naqueles tempos sombrios era considerada “alienação”. Prevalecesse o olhar gelado, Chico e Tom seriam “cancelados”. Como as patrulhas quase fizeram quando Tom, em 1986, licenciou trechos das Águas de Março para um anúncio da Coca-Cola. “Amigos” e o mundo desabaram sobre sua cabeça. “Traidor”, “lacaio do imperialismo”, por aí vai. É nisso que dá mumificar o pensamento. O deus da carnificina está sempre de plantão.

Afinal de contas, por que escrevo? A quê ou a quem devo prestar contas? Perguntas que todos os que lidamos com palavras fazemos e, sinceramente, não conseguimos responder de forma definitiva. Procurar palavras que traduzam os sentimentos mais escondidos, os pensamentos menos reveláveis, é um permanente exercício da incerteza. Ou visitar aquilo que Clarice Lispector chamou de delicado abismo da desordem. Vulgo inconsciente. Minha melhor resposta, provisória, é que escrevo porque, se não o fizesse, não conseguiria viver. É através da escrita que melhor consigo me relacionar com as pessoas e o meu tempo. Não há patrão para esta busca. Ou melhor, o dono do pedaço sou eu mesmo, com todas as minhas circunstâncias, meus fósseis e meus fantasmas de estimação.

Em fevereiro de 1903, Rainer Maria Rilke iniciou uma correspondência com o jovem poeta Franz Kappus, que hesitava em seguir carreira literária. Rilke sugeriu nas cartas ao candidato às letras que procurasse “entrar em si mesmo” e perguntasse “a si mesmo na hora mais tranquila de sua noite: sou mesmo forçado a escrever?”. São fragmentos daquela alma inquieta que me acompanham há cerca de 12 anos, quando iniciei a jornada que desembarca, passo a passo, às segundas-feiras. E la nave va.

Abraço. E coragem.

Azul da cor do nada

Azul da cor do nada

Pegamos o telefone que o menino fez com duas caixas de papelão e pedimos uma ligação com a infância (Millôr Fernandes)

Estava na sala de espera do curso de inglês, aguardando a neta. À minha frente, sentou-se um menino que me chamou a atenção. Tipo muito franzino, cabelo escorrido e comprido, segurava nas mãos uma pequena tela iluminada. Não desgrudava dela por nada. Passavam pessoas, batiam na porta, o menino seguia engolido pelos raios de luz azulada.

Mais do que tudo, era de se ver a postura dele. Peito inclinado para a frente, quase encostado nas pernas, braços rígidos, dedos inquietos. Parecia hipnotizado. Sem saber, eu estava tendo uma aula prática do vício em jogos eletrônicos, praga altamente contagiosa que arruína infâncias, adolescências e maturidades desnorteadas. Muito encontrada em vagões do metrô, onde quase ninguém aguenta ficar alguns minutos em contato consigo mesmo. A luz azulada, droga que entorpece solidões, domina o ambiente.

Leio que, nos Estados Unidos, 41 estados e o Distrito de Columbia (Washington) estão processando a Meta, controladora do Facebook, Instagram, WhatsApp e Messenger. A alegação é de que a empresa usou, deliberadamente, ferramentas virtuais que fazem as crianças acessarem compulsivamente as redes sociais. É um assunto controverso, mas há dados cada vez mais sólidos que mostram que o uso excessivo das redes interfere no desempenho escolar, no sono e outros aspectos de uma vida saudável. Elas agem sobre zonas neuronais que geram impulsos de difícil controle, especialmente em jovens.

Sei que vivemos uma época de transição acelerada para um mundo habitado por realidades paralelas. A constatação física dissolvendo-se em novas convenções, novas referências. Fase insegura em que, regra geral, tendemos a nos proteger, a nos apegar ao que já se conhece. O medo ao desconhecido é trava poderosa. Mesmo assim, arrisco-me a algumas observações à beira do não-se-sabe-o-quê.

Quando a Volkswagen encomendou uma propaganda que simulava um dueto entre Elis Regina e sua filha Maria Rita, vi gente sinceramente comovida. Como se as imagens refletissem a vitória sobre a Morte. O programa de computador que desenhou os movimentos da Pimentinha realizava o desejo impossível de juntá-la com a filha. Pode parecer inocente, singela concessão à saudade, mas não acho que seja só isso. Éramos testemunhas da extinção do ver para crer. Estamos vendo apenas o que a imaginação quer ver. Com usos que já se insinuam, por exemplo e com efeitos devastadores, na política. A vida transformando-se num imenso efeito especial. Deslumbrante e falso.

Um forte esquema publicitário anuncia a “volta dos Beatles”. Descobriu-se uma fita demo do John Lennon, gravada em 1977. Com recursos técnicos sofisticados, especialistas em informática acrescentaram, em estúdio, baixo e piano do Paul, trechos de solos de guitarra do Harrison (gravados em 1995) e a bateria do Ringo. Nasceu a balada “Now and then”, como se o Fab Four ainda se apresentasse nos Cavern Clubs da vida. Mais uma vez, tenta-se driblar a dor da Morte, da inaceitável ausência definitiva. É uma farsa, claro. As músicas dos Beatles não são apenas sequências de notas. Como fenômeno de massa, elas refletiram uma época e é assim que sempre estarão na memória de quem acompanhou a banda. Não adianta, galera: em abril de 1970, os Beatles deixaram de existir e não há ilusionismo tecnológico que os traga de volta. Now and then fará algum ruído, renderá milhões, mas não tem como competir com A day in the life, Hey bulldog e Lady Madonna. The real thing.

Volto ao menino na sala de espera. Não tenho ilusão de que ele vá se interessar por bolas de gude, cabra cega, amarelinha, cantigas de roda, pipas, pular carniça, carrinhos de bilha, pera, uva ou maçã. Lamento apenas que ele não tenha oportunidade de estar ao ar livre, conhecendo melhor os de sua geração, falando e ficando em silêncio ao vivo. Renunciar ao Sol trará consequências, e não falo de vitamina D. Quando crescer, terá muita dificuldade para ter um dedo de prosa com alguém. Prosa não saberá o que é, dedo servirá apenas para apertar botões.

Abraço. E coragem.