A Lee Falk, Phil Davis, Will Eisner, Alex Raymond, Al Capp, E. C. Segar, Joe Schuster, Jerry Siegel e Adolfo Aizen
Os primeiros heróis da minha geração nasceram em preto e branco, resolviam tudo na bordoada e eram chegados a um amor platônico. Quase todos reproduziam um mundo dividido entre civilizados e primitivos, onde a dominação colonial era rotina, um dado na natureza. O Fantasma reinava sozinho sobre os pigmeus da tribo Bandar. Lothar, musculoso príncipe africano, era servo do Mandrake. Zorro, o Lone Ranger, usava o índio Tonto para todo tipo de quebra-galho. Dominantes e dominados na fantasiosa harmonia dos gibis. Enquanto os protagonistas enfileiravam vilões, Narda, Diana Palmer, Lois Lane e Dale Arden ficavam a ver navios.
Um daqueles heróis acaba de completar 95 anos. O marinheiro Popeye, criação do cartunista Elsie C. Segar, apareceu pela primeira vez como personagem destacado em janeiro de 1929. Antes disso, era um discreto coadjuvante nas tiras diárias Thimble Theater. Tipo esquisito, o Popeye. Fumava um cachimbo sempre apagado, falava errado (ao estilo de L’il Abner, o caipira Ferdinando Buscapé, criado por Al Capp e morador de Dogpatch, o Brejo Seco), raramente aparecia em aventuras marítimas. Era um marinheiro de terra seca.
Popeye tinha uma força descomunal. No início, a fonte deste poder era uma galinha mágica (!). Em pouco tempo, no entanto, Segar inventou o elixir de robustez que ainda hoje povoa o imaginário dos meus contemporâneos. Ele mesmo: o espinafre. Curiosamente, Segar cultivava rabanetes em sua fazenda.
Durante a Segunda Guerra Mundial, Popeye e outros personagens foram convocados para lutar contra alemães, italianos e japoneses. Na época, o Fantasma reuniu os pigmeus e, munidos com zarabatanas e muita imaginação, impediram a conquista da Baía de Bengala pelos japoneses. Estes eram exibidos como idiotas dentuços, que usavam óculos com lente fundo-de-garrafa.
Popeye não comandava tropa, mesmo mambembe. Tinha a oportuna lata de espinafre como arma multiuso. Seus desenhos animados, criados pelos geniais irmãos Max e Dave Fleischer (Max foi um dos criadores da Betty Boop), mostravam-no afundando sozinho porta-aviões japoneses, na base da pancada. A molecada, eu na plateia, vibrava com aquilo, sem dar a mínima se as imagens “refletiam a realidade”. Vivíamos a fase gostosa da vida em que era permitido materializar o impossível.
Quando completou 90 anos, Popeye entrou na mira dos, sempre eles, neopatrulheiros. Implicaram com o cachimbo. Onde já se viu tamanho mau exemplo? As crianças não podem ser expostas a influências perniciosas, blá, blá, blá. Propuseram substituir o cachimbo por um apito. Marinheiro tocando apito… Não era apenas ridículo, mas preocupante. Levada a sério a patacoada, estariam destinados à fogueira quase todos os grandes clássicos do cinema. Neles, as estrelas fumavam sem parar. Quem consegue imaginar, por exemplo, Humphrey Bogart, na pele de Rick Blaine, em Casablanca, sem o cilindro tabacado? Quem ousaria substituir o cachimbo de Sherlock Holmes por um apito ou uma língua de sogra? Os disparates dos neopatrulheiros, censores frustrados, não têm limites.
Crianças não são estúpidas. Sabem perfeitamente que, quando o Coiote, fugindo do Papa Léguas, se esborracha num despenhadeiro, não vai morrer. Compreendem que o Tom, achatado em mais uma maldade do Jerry, vai voltar ao formato original. Nenhum infante vai replicar a experiência. Não existe qualquer evidência de que o cachimbo do Popeye produziu gerações de dependentes de nicotina. A ameaça está apenas na cabeça torta dos herdeiros de dona Solange Hernandes.
Pensem que isto aconteceu:/eu lhes mando estas palavras (Primo Levi)
O vento gelado cortava a pele naquele 27 de janeiro de 1945. Parecia mais um dia rotineiro que nascia no campo da Morte. Dois prisioneiros estavam próximos do arame farpado que protegia o portão, quando ergueram os olhos. Na pequena colina, a uns duzentos metros de distância, tiveram a impressão de ver cavalos, o vapor saía denso de suas narinas. Prestaram atenção, podia ser uma miragem, das muitas provocadas pela fome e pela dor.
Sim, lá estavam quatro cavaleiros, metralhadoras nas mãos. Pareciam desconfiados do que viam. Aos poucos, bem devagar, foram se aproximando. Sem dirigir palavra, amarraram cordas no portão do campo, acionaram os cavalos e o derrubaram. Dentro, os poucos viventes, quase espectros, cercados de corpos em decomposição, estavam paralisados. Era possível aquilo? Não mais chicotes, não mais fuzilamentos, não mais torturas, não mais o Fim a cada minuto. Liberdade. Alguém se lembrava do que era isso?
Pode parecer roteiro de um filme, mas é baseado na descrição, feita por Primo Levi, dos momentos que antecederam a libertação dos últimos internos do campo de extermínio de Auschwitz. Ela aparece no livro A trégua, que recebeu uma versão cinematográfica primorosa em 1997, dirigida por Francesco Rosi. A cena dos cavaleiros do Exército Vermelho chegando em Auschwitz é inesquecível.
O turinês Primo Levi, guerrilheiro antifascista na Itália, sobreviveu em Auschwitz ao projeto de extermínio dos judeus europeus, a Solução Final organizada pelos nazistas e aprovada na Conferência de Wansee, em janeiro de 1942. Só em Auschwitz, na Polônia, foram assassinadas cerca de 1,1 milhão de pessoas, a grande maioria judeus. Usavam-se métodos industriais para aumentar a produtividade da matança. Para tanto, os carrascos empregaram o gás Zyklon B, produzido pela indústria alemã IG Farben. Os prisioneiros perdiam seus nomes, substituídos por números. Como gado. A desumanização fazia parte do projeto.
Os planos de eliminação dos sub-homens, os não-arianos, estão minuciosamente descritos por Hitler no Mein Kampf. Judeus e comunistas estavam na lista de prioridades do chefão nazista. A Operação Barbarossa, codinome da invasão da União Soviética em 1941, não foi apenas para conquistar territórios e recursos naturais. Tinha objetivo explícito de “limpar” o terreno, destruindo metodicamente cidades, vilas e aldeias, e aniquilar comunistas a granel. O resultado foram mais de 20 milhões de mortos. Como disse Levi, era o clímax de uma concepção de mundo.
Ao voltar para a Turim natal, Primo Levi reassumiu sua profissão. Era químico. Simultaneamente, começou a contar tudo o que viveu durante a guerra. Sua obra não é apenas uma catarse, uma tentativa de expurgar os fantasmas que o assombraram no campo, onde conviveu com os instintos mais bestiais da natureza humana. Tem também uma intenção pedagógica (sem cair no panfletarismo). Conhecer para pensar, pensar para lutar contra as várias formas que assume o anti-homem.
Num belo artigo escrito para a Folha de São Paulo em 2021, Jaime Spitzcovsky lembrou de três militares do Exército Vermelho que combateram o nazismo e, depois da guerra, dedicaram-se a denunciar, através de conferências, livros e depoimentos, o negacionismo do Holocausto e o ressurgimento do nazismo e do fascismo. São o soldado David Dushman, o general Vassily Petrenko e o tenente Ivan Martynushkin. Através deles, homenageio todos os que se levantaram contra o totalitarismo nazifascista.
A ONU instituiu 27 de janeiro como o Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto. É importante lembrar os acontecimentos que levaram à matança sistemática de judeus e ao maior banho de sangue da história da humanidade. A extrema-direita está em franca ofensiva em nível mundial. Ela governa hoje a Itália, a Holanda e a Suécia. Fortalece-se na França e na Alemanha. Fincou as quatro patas na Polônia e na Hungria. Flexiona os músculos na Argentina e em Israel. No Brasil, lembram-se?, Roberto Alvim, secretário de Cultura do governo Bolsonaro, chegou a fazer um pronunciamento com trechos de um discurso de Joseph Goebbels, ministro da Propaganda da Alemanha nazista. A besta, infelizmente, continua no cio. À luta, pois.
Deixamos de entreter e viramos entretenimento (Mariliz Pereira Jorge)
Durante muitos anos, deixei de ir ao Maracanã. Desde que um arrastão perto das arquibancadas quase me levou para o Valhalla, anos 90, decidi não arriscar. Maraca, adeus! Ficaria com as memórias intensas de aspirantes e profissionais, de Torneios Início e clássicos sanguíneos, dos três D (Dida, Doval e Dominguez).
Eis que sou convocado, em 2022, para voltar ao velho estádio. Velho, mas com plástica de “arena”. Um horror. O jogo não era atraente. Resolvi olhar o que acontecia ao redor. A torcida estava mais preocupada em tirar selfies ou filmar pedaços do jogo. Crianças não largavam as telinhas com luz azulada. Jogadores, bola, travessões, Sua Senhoria, o soprador de apito, tudo não passava de cenário desimportante, de pretexto para exibição de puerilidades. Jaime de Carvalho, Tarzan e Dulce Rosalina não se criariam naquele piquenique narcisista. Multidão sem vida.
Pensando bem, o que vi no gigante plastificado não é diferente da rotina em salas de concerto. Não faz muito, fui à Sala Cecília Meireles assistir o duo Scofano e Minetti. Bandoneon argentino e piano uruguaio, delicadeza e sofisticação numa formação incomum. Ao lado, uns tipinhos abobados, dedinhos frenéticos, não paravam de consultar celulares. À frente, uns sujeitos filmavam, espalhando a horrenda luz azulada, apesar dos apelos iniciais para que não fizessem aquilo. A beleza fluindo logo ali e gente em outras galáxias, renunciando a viver o momento. Tal como no Maracanã, o principal virava acessório, o sublime derretia em mãos insensíveis, buscando lembranças “instagramáveis”.
Fica impossível não comparar com os antigos álbuns de fotografias. A tecnologia das máquinas fotográficas não permitia exageros. O resultado é que os registros ficavam mais seletivos. Não havia a avalanche de fotos iguais, repetitivas, nada memoráveis, numa aflição que condena o resultado a um rápido esquecimento.
Nas festinhas movidas a LPs do Ray Conniff, do Renato e seus Blue Caps e dos Românticos de Cuba, ninguém se preocupava em clicar o brotinho ao lado. O importante era o jogo da sedução e os proibidos leite de onça e Cuba Libre. Registros? Bastavam a memória e as intenções à meia luz. Pode ser impressão, rendição ao saudosismo, sei lá, mas a inundação de sons e imagens parece reter a vida em camadas superficiais, descartáveis. O essencial fica pra depois. E o depois está muito além do horizonte.
A neurocientista Suzana Herculano-Houzel chamou a atenção para as consequências da geração vertiginosa de novas tecnologias sobre nossas vidas. Geramos tantos dados, alerta ela, que não temos mais tempo para transformá-los em conhecimento. Não sobra tempo para fazer perguntas. Criam-se necessidades duvidosas, que nos mantêm ocupados e hiperexcitados à espera do “novo” que não para de chegar. O capital tem pressa em se reproduzir. Filas de espera por celulares vitaminados, jogos eletrônicos cada vez mais realistas (e inúteis), aparelhos com tantos comandos que exigem doutorado para não causar curto-circuito. Toda essa abundância, da qual está marginalizada a maior parte do planeta, traz mais felicidade?
Experimente limitar o acesso de crianças e adolescentes às telas. Guerra civil à vista! As novas gerações têm cada vez menos contato com a natureza. Estudos recentes indicam que isso prejudica o desenvolvimento físico e psicológico da molecada. Segundo a Unicef, está comprovado que crianças com contato regular com áreas verdes têm, por exemplo, níveis menores de hormônios do estresse e pressão arterial mais baixa.
Sou testemunha de outra era. Fui criado numa vila de casas vizinha a uma pedreira e dois matagais (o “matão” e o “matinho”). Aprendi a gostar do cheiro morno da terra molhada em dias de chuva. Subi em mangueira, andei descalço na grama, cacei grilos, criei colônias de formigas em vidros, acompanhei a jornada desengonçada de centopeias, joguei pedras em lagartixas, cortei-me com capim navalha, aprendi a ser prudente com marimbondos, recolhi ovos de uma galinha que ciscava sem saber que viraria caldo, cavei buracos que não chegaram ao Japão mas suficientes para o bola ou búlica. Experiências que, involuntária e sutilmente, me ensinaram a olhar com respeito o que não era cimento, pedra e asfalto. Sem Google. Sem telas.
A todos os que resistiram e resistem contra os liberticidas.
Há um ano, estava num almoço de família. Já nas tratativas da digestão, alguém sugeriu dar uma olhada no noticiário da TV. Espanto! Cenas ao vivo de Brasília, multidão histérica invadindo prédios dos 3 Poderes, barbarizando tudo. Despoliciada, a área foi presa fácil de bolsovândalos. Era o primeiro ato do que pretendia ser a ponta de lança para um golpe de estado, que cancelaria as recentes eleições de 2022 e recolocaria o Burgomestre Fecal na presidência da República. A baixa adesão das Forças Armadas aos golpistas impediu a consumação do golpe. Até hoje aguardamos a identificação dos idealizadores e financiadores da aventura antidemocrática. A conciliação a qualquer custo, marca registrada do governo Lula, freia a necessária punição dos criminosos. Especialmente dos fardados, que continuam a assombrar a vida nacional.
Este ano lembraremos os 60 anos de outro golpe, o civil-militar de 1964, que depôs o presidente João Goulart. O movimento, articulado por setores conservadores da sociedade brasileira e estimulado/financiado pelo imperialismo norte-americano, impôs uma ditadura que durou 21 anos. Os Estados Unidos, cujos tentáculos sórdidos alcançaram outros países da América Latina (Argentina, Uruguai e Chile, entre outros), chegaram a mandar uma frota para a costa brasileira, em apoio militar aos golpistas (operação Brother Sam). O embaixador ianque, Lincoln Gordon, e o adido militar da embaixada, Vernon Walters, tiveram papel ativo na conspiração que derrubou Jango. É importante jamais esquecer este prontuário vil, manchado pelo sangue de muitos milhares de hermanos, quando os norte-americanos continuam com o discurso cínico de “paladinos da democracia”.
O golpe de 64 me pegou em início de adolescência. Os primeiros fios de barba faziam a entrada triunfal, quando aconteceu o chamado golpe dentro do golpe. Era 13 de dezembro de 1968. Os milicos, com seus cúmplices civis, baixaram o Ato Institucional número 5, fechando de vez as poucas frestas do regime. E vieram censura, intensificação da repressão, institucionalização da tortura, perseguição a todos os tipos de oposição. Passei parte importante da juventude sob este clima sufocante. Na faculdade, ermos do Fundão, a invasão fardada era arroz de festa (sem festa, é claro). Aos poucos, encontrei formas de participar da resistência. De todas elas, às vezes pequenos gestos, guardo cálidas lembranças e inabalável orgulho. Desde a inclusão de exemplos pouco ortodoxos nas aulas que dei na UFF até a construção de espaços sindicais renovados entre os profissionais liberais, todas enriqueceram minha experiência de vida.
É angustiante ver gente na rua, hoje, defendendo intervenção militar. Na melhor das hipóteses, estão mal informados. Não conhecem o que foi o cotidiano vigiado, o medo permanente, a dor pela prisão, tortura e assassinato de familiares e amigos, o exílio de dissidentes, a corrupção amordaçada pela censura implacável da imprensa. Hoje parece quase cômico, mas posso dizer que aprendi rudimentos de castelhano por causa da censura. A produção editorial era rigorosamente vigiada. Comecei a frequentar sebos e livrarias com importados da Espanha, México e países de fala castelhana. Depois de algum tempo, já lia com certa fluência os textos.
A ditadura brasileira espalhou-se como metástase pelo continente. No Chile, por exemplo, o embaixador Câmara Canto ajudou na articulação dos golpistas contra Allende. Depois do golpe, em 1973, a embaixada brasileira ajudou os carrascos pinochetistas a identificar brasileiros que moravam no Chile. Militares daqui assessoraram seus clones chilenos na prática de torturas. A digital brasileira está na gênese da Operação Condor, que uniu as ditaduras latino-americanas na perseguição multinacional de opositores.
Ao contrário de chilenos, argentinos e uruguaios, não superamos a ditadura de 64. Os criminosos que cometeram violências em nome do Estado não foram punidos. Alguns chegaram a ser celebrados no Parlamento, sem que isso provocasse indignação generalizada. Mantemos um temor reverencial aos fardados, que reproduz o terror que vivemos de 1964 a 1985. A casta que habita a caserna é um poder nada oculto.
Um ano do golpe abortado de 8 de janeiro de 2023. Sessenta anos do golpe civil-militar de 31 de março de 1964. O que aprendemos com eles?
Nem unzinho. Onde estarão as bicicletas novas, as geringonças movidas a pilha, os revólveres a espoleta, as bolas à cata de craques instantâneos, as bonecas com rostos congelados? Era sempre assim todo dia 25 de dezembro, mas este ano nem sinal. Na imensa avenida, apenas adultos caminhando, indiferentes à paisagem de sempre.
O Menino, membro honorário dos sem-presentes no Natal, gostava de alguns símbolos da data, que não via como religiosos ou segregadores. O pinheirinho recheado com bolas coloridas fugia do cinza das existências classe média baixa dos vizinhos. Mais do que isso, chegou a acreditar que dava frutos embrulhados com papel e fita. Semente mágica à moda do João e o pé de feijão.
Ficava intrigado com uma pequena cena rural, de plástico barato, montada em torno de um bebê e adornada por bichos. Por que só aparecia naquela época do ano? Não daria para usar junto do Forte Apache e os soldadinhos de chumbo? Roteiro e tanto. Afinal de contas, não passavam de bonequinhos. Muito mais tarde, alguém matou a ingenuidade. Pensar daquela forma era pecado, podia dar em Inferno. Saí de fininho e desembarquei nas adultices.
O que não ganhava no Natal, podia receber de herança. Como a velha bicicleta do primo, sobrevivente do chão áspero das ruas tijucanas. Uma Hércules em estado sofrível, mas soberba no gesto da entrega e afinada nos pedais rangentes. Usada até desmanchar na esquina do tempo.
Às vezes, a colheita era mais farta. Como no bar-mitsvá, época em que chamavam o Menino de shein ingale. Dentuço, mas … vá lá. Grande expectativa. O ritual de passagem à maioridade religiosa era demonstração pública de pertencimento, chancela de uma escolha feita por e para adultos. Os presentes refletiam uma espécie de projeto familiar para o adolescente. Pensaram em jogos ou, sonho dos sonhos!, um Polioptikon? Que nada. Vieram prendedores de gravatas, abotoaduras e montes de livros “sérios”, a maioria sequer folheados. Houve uma exceção. Li Terras do sem fim, do Jorge Amado, sem ter o menor interesse pelas plantações cacaueiras do sul da Bahia. Estava interessado, hormônios explodindo, nas cenas eróticas que o baiano distribuiu à farta no livro.
Andei pensando naquele tempo. Tal como o Miguilim do Guimarães Rosa, devo ter bebido um golinho de velhice aos 13 anos. Vou além e trago ao palco Martha Argerich. A enorme pianista argentina (os hermanos estão muito acima de acidentes como Milei) conta que teve um professor, Vicente Scaramuzza, muito rigoroso. Certa vez, don Scaramuzza veio se queixar com o pai de Martha. “Essa menina é muito geniosa, não posso continuar”. “Mas ela só tem 6 anos!”, comentou, surpreso, don Juan Manuel. “Mas tem alma de 40!”, arrematou o professor. Muitas vezes foi assim que me senti. Renunciei a fases inteiras da vida, substituindo-as pela vontade ou pelas circunstâncias dos adultos. Desde sempre, ando à caça do que perdi, sem bússola ou mapa do tesouro. Aqui e ali, desenterro restos embaçados do que poderia ter sido. Nestes raros momentos, abraço Manoel de Barros e vou catar joaninhas num quintal imaginário. De pés descalços.
Por onde andarão as crianças que ganharam presentes de Natal e não saíram para tirar o selo ao ar livre? Talvez os presentes, fiéis ao espírito do tempo, não precisem de parceiros ou, se estes existirem, podem acioná-los por botões, alavancas, comandos de voz. À distância. Há uma tirinha da Mafalda em que ela aparece chutando pedrinhas, pulando numa perna só, passando um pedaço de galho na grade de um parque. No último quadrinho, pensa: “Às vezes, tenho nostalgia dos clássicos”. Esta geração não saberá o que é isso, pois desconhecerá a vida ao ar livre, fora de telas e programas virtuais. Talvez, num futuro remoto, consultando uma enciclopédia empoeirada, uma ovelha desgarrada descubra qual era o encanto do sol no rosto, da pelada, da multiplicação de olhos e abraços. Então, substituirá a expressão prematura de 40 anos pelo rosto curioso dos 6 anos. E sairá pedalando pela avenida Atlântica, easy rider sem jamais ter ouvido Steppenwolf.
Nessa época do ano, o senso comum pede assuntos leves. De pesada basta a vida, vox populi. Aí é que está o busilis. Ou a porca torce o rabo. Não é nada fácil desligar o botão. O mundo gira, a Lusitana roda, e a gente continua pregado nos acontecimentos, sem direito a férias.
Vejam só. Enquete realizada pela Universidade de Harvard revelou que dois terços dos jovens norte-americanos entre 18 e 24 anos consideram que os “judeus” (assim mesmo, genericamente) são uma classe de opressores, que merece ser tratada como tal. Não é, apenas, déficit informativo. Assim fosse, seria muito fácil combater o antissemitismo. Bastaria uma educação humanista, intelectualmente honesta, para sufocar o preconceito. Ocorre que há, por trás da constatação da pesquisa, uma longa história de perseguições, agressões individuais e coletivas, mitos de natureza religiosa, farta literatura infame e ignorância estimulada por poderes constituídos. Fundamente arraigados no imaginário dos povos. Aí o bicho pega. É mais fácil desintegrar um átomo do que o preconceito, disse um certo Albert Einstein.
A notícia vem junto com o triste aumento de eventos antissemitas em muitas partes do mundo. Coquetéis molotov atirados contra uma sinagoga em Berlim. Estrelas de David pichadas em portas e fachadas de edifícios em Paris. Vandalização de cemitérios. Crescimento substancial de incidentes antissemitas em capitais europeias. No Brasil, não é diferente.
Ah, dirão os mais apressados, é resultado do que “vocês” estão fazendo em Gaza. Duplo erro. Este “vocês” não existe. Os judeus são um povo heterogêneo, onde cabem religiosos, ateus, múltiplas nacionalidades, direitistas, esquerdistas, sionistas, antissionistas, brancos, negros, humoristas, dramaturgos, gênios, canalhas, e por aí vai. Há instituições para todos os gostos, com opiniões frequentemente antagônicas. Dois judeus, três sinagogas, diz a velha piada. Além disso, e muito importante, o antissemitismo já existia muitos séculos antes do conflito Israel-Hamas. Às vezes discreto, subterrâneo, até envergonhado, outras explícito e violento. O que está acontecendo agora foi apenas um pretexto, a senha, para libertar o gênio da lâmpada. E ele não perde tempo.
Antes que me cobrem, faço dois esclarecimentos. Não considero necessariamente antissemitas as críticas a Israel. Muitos judeus fazem isso todos os dias, pessoal ou institucionalmente. Não raro de forma muito dura. Qualquer solução, se existir, para o conflito palestino-israelense, tem que passar pelo reconhecimento do Outro. Desumanizá-lo, ignorar que é um produto histórico, vai perpetuar o ciclo de violência. Neste sentido, a criação da West-Eastern Divan Orchestra foi exemplar. Idealizada pelo pianista e regente argentino-israelense Daniel Barenboim e o intelectual palestino Edward Said, a orquestra congrega jovens músicos israelenses, palestinos e de vários países árabes. Já se apresentou em Ramallah e, durante os ensaios na Alemanha, os jovens visitaram um campo de concentração nazista e depois compartilharam informações e sensibilidades. Aos poucos, terão a chance de dizer: eu Te conheço e reconheço.
Sou pessimista em relação à chamada solução de dois estados. Com a Faixa de Gaza transformada numa pilha de escombros, inabitável por muito tempo, e a Cisjordânia invadida por centenas de milhares de colonos israelenses, portando armas pesadas, protegidos pelo exército israelense e vivendo em assentamentos ilegais em constante expansão territorial, um Estado palestino nestas condições não passaria de uma farsa. Estes colonos sentem-se à vontade para praticar atos terroristas contra palestinos, destruindo plantações e equipamentos agrícolas e matando gente. A curto prazo, os fundamentalismos ganham popularidade, alimentando novas bombas relógio.
Não faço a menor ideia de como tudo isso evoluirá. Há muito ódio e ressentimento acumulados. Mesmo com várias iniciativas não-governamentais de quebra do gelo, o terreno para qualquer forma de entendimento entre israelenses e palestinos está cada vez menor. A pergunta que fica no ar: por quanto tempo será possível manter o status bélico, de horror e medo, de opressão e desespero?