Ela não morreu

Ela não morreu

A todos os que resistiram ao golpe civil-militar de 1964 e à ditadura que se seguiu a ele

Praia do Flamengo, 132. Ali funcionou por quatro décadas a sede da União Nacional dos Estudantes (UNE) e da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (UBES). Mais do que representação cartorial do movimento estudantil, foi o epicentro de notáveis iniciativas culturais e formação de quadros que atuaram na vida política nacional. Naquele prédio nasceu o CPC – Centro Popular de Cultura, cujo projeto generoso era levar cultura ao povo onde fosse possível. Teatro nas ruas, portas de fábricas, palcos modestos em bairros periféricos. Oduvaldo Vianna Filho, Cacá Diegues e Ferreira Gullar, entre outros, militavam lá. José Serra, presidente da UNE eleito em 1963, esteve no palanque ao lado de Jango no comício da Central, em 13 de março de 1964. Conclamou a estudantada a preparar uma greve geral para protestar contra o golpe que estava em marcha. Denunciou a “direita fascista” e os governadores que apoiavam a articulação golpista.

Minha mãe, assistente social, trabalhou na UNE no início dos anos 1960. O Menino acompanhou sua luta, enfim vitoriosa, para vencer a resistência machista do Grande e “trabalhar fora”. Mulher compartilhando o sustento da família era uma ousadia e tanto naquela época. Ser “do lar” era cláusula pétrea para as mulheres na cartilha masculina dominante. Dona Lilia, sem o perceber, foi uma desbravadora.

Lembro-me muito pouco daquela fase. Lilia me levou algumas vezes para conhecer o local onde trabalhava. No prédio estudantil, ganhava blocos de papel, fórmula garantida para cativar-me. Pré-adolescente, já era viciado naquelas folhas em branco, sedutoras, a chamar-me para inventar histórias e desenhar impossíveis desfechos. Em imagens embaçadas, oníricas, ouço um show que assisti no pequeno auditório local. Diziam que era uma turma boa que vinha das Gerais. Milton? Tiso? Guedes? Será? Vai saber. A imaginação e o desejo não têm limites.

No primeiro dia após o golpe de 1964, uma horda de vândalos, excitados pela furiosa maré anticomunista, depredou e incendiou as instalações do prédio. Cena digna da barbárie nazista e reveladora do caráter antipopular da quartelada. A classe média, patusca de marré deci, aplaudiu os piromaníacos. Sobrou uma carcaça enegrecida pela fuligem. Começava a República dos Generais e seus cúmplices civis. Um Festival de Besteira e Truculência que assolou o país por 21 anos, banhado em sangue e dor.

Estive na ABI, poucas semanas atrás, no evento que lembrou o 60º aniversário do Comício da Central. Já na saideira, dão a palavra para um venerável senhor de cabelos brancos. Fez questão de levantar-se sem ajuda e suas palavras porejaram História. Era Ivan Cavalcanti Proença, 93 anos, capitão do exército na época do golpe. No meio de sua intervenção, aproximou-se Victória Grabois, uma das fundadoras do Grupo Tortura Nunca Mais/RJ. Contou que aquele homem era um herói. No dia seguinte ao golpe, um grupo paramilitar, armado com metralhadoras, revólveres e bombas de gás lacrimogêneo, cercou 300 estudantes na Faculdade de Direito, no Rio. A invasão parecia iminente, a tragédia batia na porta. Pois o capitão Proença enfrentou os milicianos e, depois de momentos de discussão tensa, estes retiraram-se. Os estudantes saíram em segurança. Salvou nossas vidas, disse uma emocionada Victória, que estava na Faculdade. O ex-capitão foi ovacionado.

Incêndio criminoso na UNE, brutalidade, ódio, perseguições de todos os tipos. Carne e ossos da ditadura. Cerca de 6.600 militares, de sargentos a generais, foram punidos, torturados e perseguidos pelo regime. Muitos não tinham qualquer envolvimento político, eram apenas legalistas. Militantes de coloração vária, sindicalistas, operários, intelectuais, políticos oposicionistas, jornalistas. Todos viveram o inferno da censura, das ameaças, da prisão, do exílio, do assassinato. É vital manter viva a memória daqueles tempos. Depois de 60 anos, a sociedade brasileira ainda não completou o balanço da ditadura. Os criminosos que agiram a serviço do Estado estão por aí, gozando de uma impunidade vergonhosa. As famílias das vítimas ainda reclamam justiça. Não ajuda em nada o silêncio proposto pela presidência. Ao contrário. É antipedagógico e negador da política como instrumento fecundo para se compreender a realidade. 1964, em muitos aspectos, ainda não acabou.

Abraço. E coragem.

Jacques

Caminhando e lembrando

Caminhando e lembrando

Era 1984. A ditadura civil-militar já respirava por aparelhos, mas tinha força suficiente para dilatar um pouquinho o prazo de validade. Neste clima, Chico Buarque e Francis Hime compuseram uma espécie de samba-enredo que, lambendo as feridas, fertilizava a esperança do que estava por vir. Lá pelas tantas, diz a letra: Num tempo/Página infeliz da nossa história/Página desbotada na memória/Das nossas novas gerações. Há 60 anos, portanto, nossos luminosos artistas já levantavam a bola da memória histórica. Ou da desmemória.

Às vésperas do golpe de 1964 completar seis décadas, a triste convocação para uma amnésia oficial veio de um ex-sindicalista metalúrgico atingido pela repressão d’antanho. Em entrevista à Rede TV!, o presidente da República disse que “64 já faz parte da história(…) Eu não vou ficar remoendo e vou tentar tocar esse país pra frente”. No primeiro momento, não acreditei que Lula tivesse cometido essa barbaridade, especialmente usando argumentos medíocres. Justificou sua posição lembrando que generais de hoje eram crianças ou sequer nascidos naqueles tempos sombrios. Bem, eu era um pré-adolescente em 64 e a ditadura, que durou 21 anos, marcou em brasa toda a minha geração. E daí? Minha idade diminuiu o estrago? Certidão de nascimento não conta histórias, não cancela responsabilidades, nem dimensiona traumas e pesadelos.

Vejam vocês que ironia cruel. Em maio de 2020, a Viúva Porcina, claramente surtada, sorria para as câmeras e regurgitava: “Fiquem leves. Não quero arrastar um cemitério de mortos nas minhas costas. Vamos ficar vivos, por que olhar para trás?”. Lula e Regina Duarte de mãos dadas, propondo não olhar para trás. Dói na alma, e não é pouco. Como disse Conrado Hübner Mendes, professor da USP: “Como Regina, Lula não se dispõe a entender que esse passado é sobretudo presente e futuro, não só para os filhos e filhas de pais mortos por generais, mas também para a democracia que venceu as eleições por 1% dos votos. Não é revanche, mas construção de horizonte. Nem mesmo o bolsonarismo essa democracia venceu”.

Faço questão de desobedecer a sugestão inconsequente do Lula. Vou lembrar, contar, testemunhar, escrever, silenciar com expressividade, cantar o canto da memória, denunciar, o que foi a República dos Generais e seus capangas civis. Criminosos que, em grande parte, ficaram impunes. É um dever e um compromisso com as novas gerações, para que não sobre página desbotada na memória.

Estou convencido de que a história dos anos de chumbo jamais será integralmente contada. É um interminável inventário de proibições, censura, violências e perseguições que destruíram a vida de milhares de brasileiros. Como descrever o cotidiano de medo? Como aferir o choque da informação de que um amigo havia desaparecido? Como conviver com o fantasma do frei Tito, que não suportou a tortura aplicada pelo infame delegado Fleury e acabou matando-se no exílio? Como entender demissões “políticas”? São heranças que não se pode eliminar com canetada, arranjos de cúpula ou desejo de “pacificação”.

O que temem as Forças Armadas? A mesma pergunta foi feita em 1966, quando a gorilada ameaçou prender Nara Leão. O que fez Nara? Disse, em entrevista à imprensa, que “os militares podem entender de canhão ou de metralhadora, mas não pescam nada de política”. Naquela época, palavras divergentes eram consideradas ameaça à segurança nacional. Medo das contradições, dos argumentos não hierarquizados. O lema dos ditadores sempre foi: Roma locuta, causa finita. Quando falam os quartéis, todos abaixam a cabeça. Foi assim por mais de duas décadas. E o Luiz Inácio prefere passar uma borracha. Ora, faça-me o favor!

A corporação que hoje conspira contra a democracia tem longa tradição golpista. Militares tramaram em 1954 (o suicídio de Getúlio abortou o golpe), 1955 (para impedir a posse de Juscelino), 1961 (tentaram bloquear a posse de Jango depois da renúncia de Jânio) e 1964. Prontuário gordo, obsceno, persistente.

Até quando a sociedade brasileira vai sustentar uma casta armada que se acredita acima das leis, não se subordina ao poder civil e faz política nas sombras? Pergunto novamente: o que temem os militares? Qualquer sociedade democrática aceita com naturalidade o choque de opiniões diferentes. Não é o que mostra a tradição do segmento militar, que, no Brasil, tem mostrado uma vocação ditatorial contínua.

É possível resistir? Certamente. Sempre. Resistência tem múltiplas faces. Mesmo em condições adversas, no limite do possível, dá para encontrar formas de resistir a situações inaceitáveis. Cada um encontrará a sua. Neste momento, minha forma de protestar contra o falso apaziguamento, que não passa de capitulação disfarçada de concórdia, é convidando cada um dos que me leem a passar adiante as histórias da noite que se abateu sobre o Brasil por 21 anos. Conhecimento é ferramenta de luta.

Nos 60 anos do golpe de 1964, gritemos: Não esquecer, não perdoar! Ditadura nunca mais!

Abraço. E coragem.

Humanos futuros

Humanos futuros

O Parlamento da União Europeia aprovou por esses dias regras para uso e desenvolvimento da chamada Inteligência Artificial. É o mais importante reconhecimento das ameaças que estes novos sistemas trazem à privacidade das informações e às muitas interfaces entre homens e máquinas. Claro que tudo está ainda incipiente, a tecnologia é nova e, nestes casos, projetar o futuro incorpora o medo atávico a tudo o que sai da rotina. No entanto, há sinais realmente inquietantes. O enorme incremento de produtividade em vários setores que a IA carrega no ventre levou estudiosos a prever que ela afetará cerca de 40% dos empregos no mundo.

A ficção científica já usou fartamente o conflito entre robôs (as “inteligências artificiais” de outros carnavais) e humanos. De um modo geral, levou a distopias, como a sequência de filmes O exterminador do futuro. O primeiro é o melhor de todos, viajando pelo tempo e imaginando que as máquinas evoluirão rapidamente para a autonomia e, como o computador Hal no 2001 de Kubrick & Clarke, concluirão que a humanidade é supérflua. Daí para a extinção da nossa espécie o caminho seria curto. Pode parecer alucinação, mas tem muita gente boa incluindo esta possibilidade nos cenários de futuro.

Fui criado com doses encorpadas de Rod Serling e filmes B de viagens espaciais, com foguetes movidos a estranhas e hilariantes geringonças mecânicas e combates com monstrengos marcianos. Minha neta adora um pequeno filme de 1902 (não, línguas ferinas, eu ainda não tinha nascido), Viagem à lua, do Meliès. Banho de originalidade e humor.

Voltando à vaca fria. Serling criou uma das séries de televisão mais interessantes de todos os tempos. Foi exibida entre 1959 e 1964. Em cerca de meia hora por episódio, com poucos recursos, dissolvia as fronteiras entre espaço e tempo, criando histórias memoráveis onde atuaram, em princípio de carreira, Robert Redford, William Shatner, Charles Bronson e Elizabeth Montgomery. Num deles, antológico, Burgess Meredith, o futuro Pinguim na série Batman dos anos 60, passeia por uma distopia pós-destruição da humanidade por armas nucleares (pesadelo daqueles tempos de Guerra Fria).

Não sou fã das máquinas do tempo que viajam ao passado para “corrigir” situações antigas e aliviar o presente. Não costuma acabar bem. Um bom exemplo, eu diria definitivo, é o curta Barbosa, criado por Paulo Perdigão. Traumatizado pelo Maracanazo, que assistira com o pai ainda criança, o protagonista (Antônio Fagundes, ótimo) resolve inventar um mecanismo que permitiria voltar ao fatídico 16 de julho de 1950, colocar-se atrás da baliza do goal-keeper Barbosa e alertá-lo para a direção do chute de Ghiggia. Acaba descobrindo que foi seu grito que desviou a atenção de Barbosa, selando a vitória uruguaia. Fica preso no passado, numa rede de melancolia e sentimento de culpa.

Gosto mais do que seria a maior invenção de todos os tempos, meu copyright. Parto de uma reflexão do mestre Tostão, que reproduzo: “A memória é diferente da lembrança. Esquecemos muitas coisas, geralmente as que não queremos lembrar, porém elas continuam guardadas na memória inconsciente. De vez em quando, reaparecem em sonhos, atos falhos, às vezes disfarçadas, encobertas pelo cotidiano. Outras vezes, lembramo-nos de alguns fatos que não foram exatamente como ocorreram, mas do jeito que gostaríamos que tivessem acontecido”. Minha campeã neste terreno é uma suposta passagem do filme Os 7 samurais. Propaguei para mundos e fundos que o samurai vagabundo (Toshiro Mifune) fincava uma bandeira num montículo antes da batalha final e dizia que, no auge da pancadaria, ela seria uma inspiração para a vitória. Pois bem, revendo o filme descobri que a cena simplesmente não existe!

Minha máquina teria nome: seria a MADAL – Máquina D’Algures. Através de chips e chopes, ela teria acesso às cenas verdadeiras da nossa memória, em cada dia da vida, transformando-as em imagens que seriam projetadas em qualquer superfície plana. Não seria necessariamente uma redenção, mas uma sucessão de ais!, ohs!, sorrisos embaraçosos e furtivas lágrimas. Tenho uma fila imensa de curiosidades neste departamento. A começar pelo dia em que dei um chutaço indefensável de canhota (será mesmo que dei?), em treino na quadra da fábrica de cigarros Souza Cruz, bairro da Usina. Inauguração de minha curta carreira de lateral-esquerdo de futebol de salão. Ali, parece, o Menino foi feliz e estranhou um pequeno poema do Paulo Mendes Campos: “Nunca fui/genuinamente/um triste./O que me faltou foi/a graça/de sentir-me vivo”. Vida, e como!, no bico de um tênis velho, mas atrevido.

Meninos, mãos à obra! MADAL vos espera!

Abraço. E coragem.

Felicia

Felicia

A casa tinha o hálito e o figurino dos anos 50. Ao seu redor, cactos misturavam espinhos com tímidas flores vermelhas, num contraste belo. Corvos, tordos e, suspeito, um solitário pica-pau, quebravam o silêncio, presença que desapareceu faz tempo na cidade grande. Tudo aquilo compunha um quadro que acalmava minh’alma ferida.

Antes da porta de entrada, três mulheres sentadas em cadeiras vintage tiravam objetos estranhos de um alforje diáfano, como se de nuvem fosse tecido. Usavam crachás e tinham expressão de back in business. Cloto, Láquesis e Átropos, esses eram seus nomes. Pareciam vir lá dos cafundós-do-judas, esquina do grotão onde Judas perdeu as botas. Não tinham pressa, mas sentia-se que estavam satisfeitas. Farejavam peixe na sua rede funesta.

Entro na sala, aflito pela sombra das Parcas. O clima geral, no entanto, espanta as mensageiras do escuro e me transporta para um tempo de delicadeza. Todos ali reunidos sabiam que, no quarto ao lado, alguém muito querido estava de partida. Serena, consciente de uma vida intensa, consolada pelos quase devotos que a cercavam. Nossas lágrimas não seriam de melancolia, mas de celebração da vida. E com humor, por que não? Mário Quintana, o poeta alegretense que sorria, escreveu sobre a Morte: Minha morte nasceu quando eu nasci./Despertou, balbuciou, cresceu comigo…/E dançamos de roda ao luar amigo/Na pequenina rua em que vivi.

Alguém levanta o tema da eutanásia. Momento de revolta geral. Sua proibição em muitos lugares é uma estupidez de fundo religioso, que só faz aumentar o sofrimento de quem renuncia, livremente, a uma vida vegetativa, sem sentido, sem esperança. Cada um de nós deveria ter o direito elementar de convocar a Indesejada das Gentes. Sem dar satisfação aos carimbadores de documentos e aos fantasmas que se fazem de importantes.

Em cima de uma mesa de centro, vejo duas caixas verticais de madeira, finamente talhadas. Na tampa, o selo made in Vietnam. Ali seriam depositadas as cinzas Dela. Ironia da História. Durante décadas, os militares daquele país mataram, despejaram dor e desespero, oprimiram, torturaram, desfiguraram, milhões de vietnamitas. Deixaram atrás de si corpos mutilados e terra devastada. Ao final, os agressores voltaram para casa com o rabo entre as pernas. Hoje, o corajoso povo asiático manufatura as pequenas urnas funerárias de cremados em solo ianque.

Um dos amigos mais próximos Dela avisa que as Parcas estavam recolhendo as ferramentas de trabalho. Tarefa concluída. As filhas de Têmis comentavam, sem qualquer constrangimento ou emoção: “Ora vejam só, os mortais se acham. Não passam de frágil e irrelevante acidente cósmico. Vamos atualizar a contabilidade na secretaria do Olimpo”.

Aproximamo-nos do quarto. Cada um de nós encontra um jeito de despedir-se Dela. Abraços, carinho nos cabelos, toque nas mãos. Humanos sentimentos. A partir daquele momento, minha irmã entraria na vida dos que estiveram ao seu lado como um punhado de memórias. Fecho os olhos. Lembra, irmã, quando viajamos de carro até Montevidéu e, toda manhã, quando retomávamos a estrada, ouvíamos o Genesis tocar Eleventh Earl of Mar, o Phil Collins repetindo até dizer chega Daddy, you promised? E aquela garrafa de uísque, scotch legítimo, que um namorado teu trouxe dos Estados Unidos e eu quebrei sem querer? A gargalhada que você deu mostrou que o fulano já estava com o bilhete azul. A porta de saída era serventia da casa, e sem uísque. E aquela outra…

Enquanto as Parcas partem para o extermínio de cada dia, percebo um movimento incomum na porta dos fundos. Vou até lá. Minerva, que de boba não tem nada, e Apolo, chegado a um som, acompanhados por Harpo, Groucho e Chico Marx, ensaiavam uma dancinha desengonçada, assobiando With a little help from my friends. Sem protocolo, comme il faut. Felicia na veia. As Parcas não tiveram a última palavra.

You did good, kiddo!

Abraço. E coragem.

Apocalypse now!

Apocalypse now!

A arte de viver da fé/só não se sabe fé em quê (Herbert Vianna)

Chegando perto da Colônia de Pescadores, no Posto 6, ouvi a batucada ao lado de um trio elétrico. Lá se vai embora meu precioso silêncio, pensei. Paciência, é carnaval. Um pouco mais adiante, a surpresa. No miolo do furdunço, um estandarte identificava o comandante da festinha. Era a Bola de Neve Church, escrito assim mesmo. Mais um braço do neopentecostalismo. Pesquisei o assunto. Tem o discurso de sempre e iscas moderninhas para pescar adesões. Prancha de surfe em lugar do púlpito (não exagero, é assim mesmo), nos cultos o pastor veste roupas descoladas (antigamente chamávamos de prafrentex).

A explicação para tantos “exotismos” é simples. Há uma enorme disputa de mercado de fiéis entre as várias denominações religiosas. Pesquisa recente do IBGE mostrou que, no Brasil, o número de estabelecimentos religiosos é superior aos de saúde e ensino somados. A maior fatia deste mercado está com os evangélicos. Em 1990, seus templos eram 17.033. Em 2019, saltaram para 109.560.

A expansão não significa, em si, uma notícia ruim. Quem sabe representaria uma tendência introspectiva, de espiritualidade serena? Não parece ser assim. O que se vê, em geral, é o desenho de um projeto de poder em curso, já descrito em livros e fincado em dois pilares principais: conquista de territórios na política (a Bancada da Bíblia é apenas um deles) e promiscuidade entre religião e Estado (representada pela tentativa de impor valores conservadores/reacionários para toda a sociedade e conseguir benesses para os templos). De uma forma geral, quando Estados nacionais se curvam a grupos religiosos, de todos os perfis e coturnos, os resultados são lamentáveis.

Não sou neutro neste assunto. Sei como as religiões extrapolam o terreno da fé e invadem a cultura dos povos. Vejo isso em certas expressões cotidianas. Mesmo um descrente como eu, às vezes me flagro, quando espantado, exclamando “meu deus!”, “nossa senhora!”, “se deus quiser!”, “só deus sabe!”. É o pedágio que pago por séculos de influência clerical. Influência assentada em mitos que, no máximo, têm algum valor poético. Não têm a menor fumaça de realidade. Chega a ser cômico ver adultos achando que a vida surgiu na Terra num passe de mágica, em ato de vontade monocrática, negando a beleza dos processos naturais de evolução e desconhecendo o papel do acaso na construção do nosso planeta e em nossa trajetória vital. O que dizer dos que acreditam que o Universo foi criado há 5.783 anos?

Com base em dogmas e sistemas discricionários de premiação/punição, religiosos tentam invadir a vida privada e impor pautas repressivas de costumes. Governos covardes, intimidados por lobbies religiosos, evitam debater temas como aborto, métodos contraceptivos e eutanásia. O direito de escolher o momento de morrer é ofendido e ameaçado pelas falanges da fé. Se alguém decide morrer, acabando com um sofrimento físico ou psicológico insuportável, é condenado ao inferno por afrontar o “tempo de deus”. Na tradição judaica, o suicida paga a coragem de comandar seu tempo de vida sendo enterrado junto ao muro do cemitério. Lugar discriminado, dos desonrados.

Os retrocessos que a religião promove estão bem retratados no que acaba de acontecer durante o carnaval na Bahia. Baby do Brasil, que era muito mais interessante quando ainda se chamava Baby Consuelo, resolveu fazer proselitismo num trio elétrico. Esqueceu o axé e regurgitou: “Todos atentos porque entramos em apocalipse. O arrebatamento tem tudo para acontecer entre 5 e 10 anos”. Despirocou geral. A cegueira psicopatológica não lhe permitiu ver que o apocalipse já anda por aí faz tempo. A própria existência de gente como ela, em estágio de fanatismo agônico, é um dos sinais. Outro é o gasto militar global, que, em 2023, foi o maior desde a 2ª Guerra Mundial. Superou o PIB do Brasil. Guerras dão lucro, não vão acabar. Mais outro. Uma pessoa morre de fome a cada 4 segundos no mundo. E vai seguindo a procissão, a lista não teria fim. No nosso país, há cerca de 2 milhões de crianças no mercado de trabalho. Infância destroçada. Nas zonas urbanas brasileiras, mais de metade das pessoas sobrevivem com algum grau de insegurança alimentar. O que falta para a transição do Purgatório para o Inferno? É o caso de lembrar de um filme antigo e sombrio: Apocalypse now!

Abraço. E coragem.

Carnaval?

Carnaval?

Tudo começou com um pequeno vídeo do Luiz Antonio Simas, falando sobre carnaval. Sou veterano tiete do Simas, craque sobre cultura carioca e outros babados. Sem abrir mão dos merecidos salamaleques de praxe, ouso discordar de uma parte do que ele disse.

Simas fala dos aspectos transgressores do carnaval, que seria uma ameaça para o caráter individualista e discriminatório da sociedade brasileira. Não tem como discordar de que foi assim que funcionou durante um tempo. Na origem, deve ter sido assustador para a elite branca, de mentalidade europeia-escravocrata, ver os negros recém-libertados dançando nas ruas, sem respeitar regras ditadas pela moral vigente. Com o passar dos anos, entretanto, este panorama mudou.

Vou dar um salto no tempo, mas antes conto uma pequena história. Nos anos 80, trabalhando no BNDES, estava em Recife acompanhando um projeto industrial. Conversando com um dos engenheiros da empresa, ele me contou um surpreendente pacto matrimonial. Todo sábado de carnaval, fantasiava-se de mulher (quem sabe uma odalisca?), despedia-se da esposa e partia para a esbórnia pernambucana. Só voltava para casa depois de desfilar no Bacalhau do Batata, em Olinda, na quarta-feira de cinzas. Vestia, então, seu terno e ajeitava a normalidade. Durante quase cinco dias, ninguém era de ninguém e a vida seguia. O carnaval suspendia o tempo e congelava certas convenções. Uma boa, e quase sempre inocente, catarse.

Depois de passar pela ascensão e queda de corsos, das sociedades carnavalescas, dos bailes majestosos do Teatro Municipal, do Quitandinha, do Glória e do Copacabana Palace, dos blocos do eu sozinho, o carnaval carioca parecia renascer com o patrocínio da máfia, digo, dos bicheiros às escolas de samba. Os desfiles foram se transformando gradualmente em ricas e espetaculares marchas cronometradas, em prejuízo dos sambas. A Unidos do Porto da Pedra, por exemplo, vai marchar este ano com uma alegoria de altura equivalente a um prédio de sete andares. Os caros ingressos no Sambódromo, tal como acontece no Maracanã, afunilam socialmente os espectadores. Geraldinos e arquibaldos foram expulsos da festa. Nem quero entrar na polêmica sobre o polimento da imagem dos contraventores através das escolas.

Ah, mas carnaval não se limita às escolas de samba. Verdade. O que, no entanto, observo nos meus arredores? Multiplicam-se os chamados megablocos, com centenas de milhares de participantes, puxados por celebridades e patrocinados por grandes corporações. Neles se tocam funks, música sertaneja, sofrências, música pop. Dizem que às vezes pinta até um sambinha. Parecem bailes a céu aberto, com grande apelo de mercado. O capital não descansa em fevereiro. Em São Paulo, desconfio que também no Rio, os ambulantes são proibidos de vender cervejas de competidores do patrocinador do bloco. Livre concorrência é isso aí. Nada contra bailes funk ou paixão por duplas sertanejas, há gosto para tudo, mas o que isso tem a ver com carnaval? No rastro destes cortejos, lagoas de urina e destruição voraz de equipamentos urbanos.

Aqui e ali, sobrevivem alguns blocos orgânicos, um ou outro bate-bolas, grupinhos de mascarados e homens vestidos de mulher. Não há mais nada, rigorosamente nada, de contestador, revolucionário, no reinado de Momo. O máximo de ousadia, no fundo muito careta, é a discussão da nudez pública, em geral praticada por figuras notórias ou em busca de notoriedade fugaz. Este ano, os tapa-sexo estão no centro da coisa. Sem duplo sentido. Gancho, calcinha de tule simples ou dupla, calcinha illusion, um cardápio extenso para fantasiar genitálias. Esquindô, esquindô.

Nunca me liguei em carnaval. Desde quando, sob protesto silencioso, me colocaram um saiote de Nero e colaram esparadrapo no rosto para simular pintura de índio sem apito, passei a estranhar o ritual. Gostava de algumas marchinhas, do frio do éter na pele jogado por lança-perfume, das chanchadas da Atlântida que faziam o pré-lançamento de marchinhas do carnaval seguinte (hoje, rio um bocado quando as revejo e confirmo sua ingenuidade mambembe). Acho execrável a censura que se faz a clássicos das marchinhas e a fantasias que “desrespeitam” grupos sociais. O fato de alguém se “vestir de odalisca” ou colocar um barrigão falso, por exemplo, não torna o carnavalesco um perverso depreciador das mulheres ou carrasco de obesos. Fantasia é exatamente o que o nome diz: imaginação, sonho. Como no antigo código de censura que vigorou por décadas em Hollywood, surgiram as novas vestais para dizer o que pode e o que não pode cantar e vestir.

Estou em pleno retiro, refugiado no bunker doméstico. Para quem vai para as ruas, boa sorte e alalaô pra todos.

Abraço. E coragem.