Liberdade quando?

Liberdade quando?

Centro e trinta e seis anos da abolição da escravatura no Brasil. Na escola dos meus primórdios, a professorinha falava de uma bela cerimônia palaciana, onde a princesa magnânima encerrava séculos de exploração brutal de escravos africanos. Uma canetada, e pronto.

Cada vez que penso nisso, lembro de uma passagem uruguaia. Tive o privilégio de estar em Montevidéu quando a ditadura desabou, em 1985. A cidade era uma festa só. Bandeiras de todos os tipos, choros de alegria, buzinaços, vontades libertadas, sonhos reanimados, abraços desabortados. O Palácio Legislativo foi afogado num mar de faixas e bandeiras. A avenida 18 de Julio flutuava em nuvens de afeto e esperança.

Em meio à euforia, passei por um muro grafitado. Um grupo anarquista mandou ver: “Pero qué mierda festejan?”. Para aquela turma, o fim da ditadura não era motivo de grande celebração. Os problemas estruturais do país permaneciam intactos, a burguesia continuaria explorando o trabalho assalariado, e por aí vai. Socialismo? Nem pensar. Achei aquilo meio exótico, afinal de contas, tal como no meu país, não era pouco sair de um regime que exilou, prendeu, torturou e matou a granel. Passado un ratito, acho que compreendi. Era a afobação de recuperar o tempo maltratado pelas baionetas, fundida com a percepção de que o principal estava por fazer. Depois do porre, a ressaca.

Que destino tiveram os negros libertados formalmente em 1888? Sem formação escolar, profissão, moradia, foram jogados na barriga da miséria nas cidades e descobriram-se andrajosos no campo. O que havia para comemorar era a extinção dos castigos físicos e dos grilhões. No mais, o horizonte era o pior possível. Castigos e grilhões seriam de outra natureza. A República, proclamada um ano depois, provou-se um projeto segregador, promovendo um projeto de branqueamento que se estendeu por décadas.

Cresci num tempo em que mesmo as famílias de classe média baixa tinham empregadas domésticas. Moças, em geral negras, que vinham das periferias urbanas ou do interior rural. Trabalhavam sem limite de horário, dormiam no trabalho, neca de direitos trabalhistas, salários ao sabor dos patrões. Convivi com várias ao longo da infância e delas guardo imagens tristes, de submissão e resignação, “deus quer assim”. A distância social era intransponível. Para mascarar a situação injusta, dizia-se que as empregadas eram tratadas “como se fossem da família”. Na realidade, prevalecia o “ponha-se no seu lugar”. Naquela etapa da vida, os descendentes dos escravos eram para mim figuras remotas, quase sobrenaturais, confinadas em bairros distantes, malvestidas, coadjuvantes do mundo branco dominante.

Hoje, mais de metade (55,5%) da população brasileira é composta por negros e pardos. Entre os pobres e miseráveis, negros e pardos representam 75% do total. O racismo se manifesta de muitas formas, embora 76% dos brasileiros digam que ele não existe no Brasil. “Como posso ser racista? Até já namorei um negro” é clichê conhecido, noves fora irmão de sangue do “negro de alma branca”. É uma forma de negação, de escravidão mental.

Certamente serão os discriminados que desenharão as melhores formas de luta contra o preconceito. Há exemplos históricos que mostram alianças políticas com brancos neste caminho. Joe Slovo, judeu lituano residente na África do Sul, foi proeminente lutador contra o apartheid e companheiro querido de Nelson Mandela. Muitos judeus norte-americanos engajaram-se na luta pelos direitos civis dos negros nos Estados Unidos, oferecendo-lhes ajuda jurídica e manifestando-se nas ruas. Agregar setores sociais não-negros aos movimentos antirracistas, evitando o sectarismo, tem sido uma relevante estratégia política. Longo será o caminho até uma verdadeira liberdade.

Espero que meus amigos negros não se ofendam com minhas observações/sugestões. Sobretudo que não me processem no tribunal do “lugar de fala”. Semana passada, opinei sobre movimentos feministas e fui bombardeado por … não ser mulher. Acho este reducionismo empobrecedor, flertando com a censura. Opinar, observar, analisar, não implicam em exigir, coagir, decidir. Diálogo sempre se faz com os diferentes.

Abraço. E coragem.

Piriguete in Rio

Piriguete in Rio

(ESCLARECIMENTO: Esta crônica foi escrita na sexta-feira, 3 de maio, um dia antes da apresentação da Madonna em Copacabana)

Numa foto antiga, provavelmente anos 1950, Danuza Leão caminha tranquila pela calçada do Leme. É uma imagem simples, mas algo chama imediatamente a atenção. Não há nada entre a calçada e o mar, exceto um esporádico banhista. A praia não era vista como “oportunidade de negócio”. O máximo de comércio que se achava na orla, que vai até o final de Copacabana, eram os carrinhos amarelos da Kibon.

Dou um salto de algumas décadas. A ocupação da areia e do calçadão ganhou proporção selvagem. Quiosques privados formam uma parede, bloqueando parte da vista para o mar. Som amplificado virou rotina, enviando ondas “musicais” assassinas para moradores das redondezas. Há cada vez mais academias particulares a céu aberto na areia, que também é alugada para todo tipo de evento privado. Urge atualizar a letra de Copacabana, música composta por Braguinha e Alberto Ribeiro. Ela deixa de ser a Princesinha do Mar e transforma-se em CEO of the sea.

Em determinados momentos, o bairro convulsiona. Constroem-se palcos babilônicos na areia, artistas assim ou assado atraem público enorme e moradores ficam confinados por segurança. Ruas, calçadas e areias recebem sobrecargas de imundícies durante os “concertos”. Foi assim, por exemplo, quando uma certa Chlaudya Leitttte apresentou-se por estas bandas. O inferno nas ruas internas avançou madrugada adentro.

Semana passada, uma senhora sessentona desembarcou em jato privado no aeroporto do Galeão. Sua comitiva mereceu das autoridades fluminenses tratamento de imperatriz da Abissínia. Os carros foram escoltados por batedores até o hotel, onde pequenos grupos de fieis aguardavam a cantora- celebridade. Gritinhos, choros represados, cenas patéticas de “mamãe, olha eu aqui!”. O transe contaminou repórteres deslumbrados, que fizeram cobertura medíocre dos acontecimentos.

Enorme trecho da areia de Copacabana foi interditado para a construção de um palco onde a cantora vai se apresentar em playback. Isso mesmo, a voz dela sairá de gravadores. Não haverá músicos tocando ao vivo. A enorme, descomunal, máquina de propaganda na mídia faz o espetáculo ganhar uma duvidosa dimensão cósmica. Com patrocínio parcial de dinheiro público (R$ 20 milhões). Não perguntaram se estou de acordo com esta aplicação do meu dinheiro.

Nas minhas caminhadas diárias, cruzo com os preparativos.  O frisson nas redondezas lembra Caramuru. Aquele que enganou índios com um tiro, levando-os à idolatria. Na frente do palco, destaca-se o curral VIP, onde se alojarão os ricaços que patrocinam o furdunço. A cantora permanece trancada no hotel, não dá as caras para os adoradores. Faz parte do roteiro de excitação.

Nos tempos em que assistia clipes na MTV, nunca fui chegado à Madonna. Preferia, por exemplo, o Nirvana, cujo Smells like teen spirit inspirou uma sátira hilária do Weird Al Yankovic. Até hoje, meus netos riem a bandeiras despregadas quando a assistem. Ah, contesta a seita madônnica, ela veio de baixo, é uma guerreira, foi pioneira na luta por direitos de minorias. Bem, estou falando de música, não de comportamento.

Madonna já se definiu como “piriguete”. Em bom português, predadora sexual. Talvez classifique isso de vanguarda de libertação feminina. Data vênia, discrepo. Houve vanguardas femininas muito mais consistentes ao longo da História. A chamada geração de 68, por exemplo, comandou a revolução do amor livre, livrando-se, com muita luta, das amarras conservadoras que predominavam. Sem playback. Nas ruas, escolas e lares. Quanto a ter tido vida difícil, não é mérito em si e não devia chamar atenção especial no Brasil, país de contrastes sociais obscenos.

Sábado, dia do show, ficarei recluso. Não saio de casa nem que a vaca tussa ou o boi assovie. Fico a pensar se não virei um chato ranzinza. A verdade é que meus heróis não morreram de overdose ou faniquitos em cadeia. Minhas referências musicais passam longe dessa que vai bloquear o bairro onde moro por muitas horas e mobilizar um aparato público a que não temos acesso na rotina carioca. Aprendi a ser cuidadoso com venerações, a desconfiar de histerias e a valorizar silêncios gestantes. Devo estar ultrapassado, mas assumo isso sem playback ou luzes artificiais.

Abraço. E coragem.

Cérebros eletrônicos

Cérebros eletrônicos

Início dos anos 1990. Minha filha precisava fazer uma pesquisa escolar sobre esquimós e batia cabeça na pobreza de fontes bibliográficas. Tentei ajudar. A internet ainda era jovem criatura e modestos os mecanismos de busca. Apelei para o ancestral do Google, cujo nome esqueci e hoje deve ser verbete em alguma nuvem que nunca se vê. Abriram-se as portas do Nirvana. Lá havia tudo sobre esquimós, cuja palavra significa “aqueles que comem o peixe cru”. Nada a ver com os sashimis do japa da esquina. Vivendo em ambiente hostil e sem acesso a equipamentos de conservação de alimentos, os primitivos esquimós pescavam e comiam imediatamente o que vinha em anzóis e arpões.

Aquela foi uma época de rápida transição tecnológica. Os computadores entravam velozmente para a lista dos eletrodomésticos e a linguagem coloquial incorporava o dialeto internetês. Os correios perdiam espaço para a comunicação instantânea dos e-mails. Aquilo tudo era muito mais voraz e desequilibrante do que a relativamente lenta introdução das máquinas de calcular no cotidiano, processo que comecei a viver na faculdade. Os poucos donos das maquininhas de bolso eram, no início, tratados a pão-de-ló.

Passados mais de trinta anos, os monitores e telas em geral invadem todos os domínios, com consequências cada vez mais preocupantes. Novas gerações de equipamentos se sucedem em ritmo alucinante e a cultura da novidade infinita – e vazia – cria fanáticos viciados. Observo a molecada lendo pouco, confinada dentro de casa e dedicando cada vez mais tempo a celulares e seus satélites de luz azulada. Aonde isso vai parar? Que tipo de gente o ambiente eletrônico produz? Um artigo do doutor Daniel Becker deu régua e compasso a estas indagações.

O pediatra cita extensamente o psicólogo social Jonathan Haidt, da New York University, estudioso das repercussões do uso abusivo de celulares sobre a infância e a adolescência. O que encontrou é aterrador. Não dá para falar de todos os aspectos, mas vou destacar alguns.

A dedicação obsessiva aos celulares e às redes sociais leva a infância ao que o doutor Becker chama de múltiplo exílio. De seu corpo, que tem os movimentos empobrecidos; do seu território durante séculos, ou seja, das interações ao ar livre, do contato com a natureza; da socialização com seus pares, essencial para criar um senso de coletividade; dos estímulos que ensinam, pelo contato físico e emocional, a entender a complexidade das relações humanas; do sono reparador, substituído por jogos hiperestimulantes, projetados para induzir ao vício.

Depois de 2010, quando começa o salto geométrico em direção às telas de natureza vária, há um crescimento notável de casos de automutilação, depressão e suicídio em crianças e adolescentes. Uma correlação sólida entre estes fatores foi provada.

Tudo o que acontece neste mundo virtual é acelerado. Nos Estados Unidos, os adolescentes ficam, em média, sete horas diárias usando celular. Recebem cerca de 15 notificações por hora todos os dias, numa demanda caudalosa e estressante por respostas. Descobri que determinados serviços de streaming oferecem a opção de acelerar de duas a quatro vezes a velocidade dos vídeos. Para muitos jovens, ficou insuportável acompanhar histórias em tempo real. É tudo o oposto da leitura de livros, que exige introspecção, paradas para absorver conteúdos e eventual revisão de passagens já lidas, e audição de música, exercício prazeroso que não se esgota em poucos segundos.

Agora, chega ao picadeiro a Inteligência Artificial, ainda com cheiro de placenta, mas com potencial devastador nada desprezível. Já existe uma ferramenta que clona voz com simples amostra de 15 segundos de qualquer pessoa. Duas empresas desenvolvem IA que seja capaz de “raciocinar”. Na guerra, algoritmos definem listas de alvos com base apenas em dados gerais fornecidos por inteligência militar. Autorizações para “eliminação”, com efeitos devastadores, passam a ser quase automáticas. O Anjo da Morte está com agenda lotada. Stuart Russell, uma das maiores referências em inteligência artificial, fez a pergunta-chave: “Como manter para sempre o poder sobre entidades (sistemas que usam inteligência artificial) que são mais poderosas que nós mesmos?”.

Enquanto o chão ferve sob os pés humanos, leio que, no Brasil, quase 10% de pessoas acreditam que a Terra é plana. Ciência pra quê? Informação onde? Junto as peças e visualizo o simpático robô do seriado Perdidos no espaço. Vejo-o agitando os braços mecânicos à moda do biruta de aeroporto e avisando, aflito: Perigo! Perigo!

Abraço. E coragem.

Assembleia das almas

Assembleia das almas

Gosto das crônicas do angolano José Eduardo Agualusa. Especialmente quando sua filha Kianda, de 5 anos, é a musa inspiradora. Criança sempre desconcerta, dribla, inventa, implode datas vênias.

Em texto recente, Agualusa contou uma conversa que teve com Kianda sobre o que é alma. Isso mesmo, assunto nada uni-duni-tê. A pequena quis saber o que significava dizer que um lugar tem alma. Descontando os religiosos raiz, ninguém tem a resposta na ponta da língua. Agualusa não fugiu à regra, e devolveu o assunto para a filha.

Sabes o que é alma?, indagou. A resposta: A alma é uma luz muito pequenina escondida no coração. É o que continuamos a ser depois que deixamos de ser… Caramba, pensei, essa molequinha passou batida pela Peppa Pig e pelo Pateta.

Tentei me intrometer na conversa. À distância, sem pedir licença, mas oferecendo em troca memórias e olhares curiosos. Minha avó materna usava com parcimônia uma expressão em ídish: guite neshume. Ao pé da letra significa boa alma. No entanto, há mais sustança nesta sopa. Pouca gente se enquadrava no perfil do gente boa, do disponível para conversar e aliviar o peso de exílios forçados, desassossegos e rotinas duras, do que oferecia afagos a quem mal conhecia. Do que abraçava tanto até doer de dorzinha gostosa. Um Jeremias, o Bom, intergaláctico.

Acho estranha a imagem de um imenso almoxarifado, de onde são retiradas almas virgens e sopradas em matérias inanimadas. Estou falando de certas crenças religiosas. Quais seriam os critérios da seleção? Haveria uma oficina, devidamente autorizada, para recauchutar sopros defeituosos? Prazo de garantia? Como o dono tem paradeiro desconhecido, não existe balcão de reclamação. Em mistério tão denso e processo tão categórico, cabe a poesia, suave desmanchadora de certezas. Mario Quintana dizia que “alma é essa coisa que nos pergunta se a alma existe”. Ele, como nosotros, jamais encontrou o endereço do estoque nas Páginas Amarelas.

No poema Te quiero, Mario Benedetti nos garante que, no amor, “en la calle, codo a codo, somos mucho más que dos”. É assim a matemática da vida: não obedece a linhas retas de almas únicas. Tenho certeza de que, dentro de mim, há uma assembleia permanente de almas. Uma confusão dos diabos. Há tempestades e secas, grupos que buscam hegemonia permanente, passados disputando privilégios, conchavos, idiomas que se cruzam, o bloco das ansiosas e das imprescindíveis silenciosas. O presidente da mesa, eu, ora essa!, pode até se exasperar, mas no final conforma-se e segue o conselho do Chico e do Caetano: A gente vai levando.

A hipótese de alma única, aquela que a Kianda supõe se esconder no coração, é confortável (sem assembleias), mas não vai longe. Há dias em que a alma vencedora pede cantatas de Bach, outros em que o clima está mais para quartetos de cordas de Schubert. Tempos de Elizeth Cardoso, momentos de Cássia Eller. Sede de Woody Allen, fome de Bertolucci. Clima ora para chanchada, ora para Assalto ao trem pagador.  A assembleia tem um velho caso de amor com a vida e esta, mutante, oferece cardápio variado.

Não acredito que exista a tão citada alma de um povo. Como é possível encaixotar multidões de desejos e olhares numa única embalagem? Acho possível, no entanto, imaginar a alma de um lugar. Penso logo no meu escritório, que, mesmo silencioso, comunica momentos diferentes todo dia, cada qual desfiando pedacinhos desta alma. A foto emoldurada do The Who, presente da irmã, o cartaz republicano espanhol convocando resistência antifascista, o livro censurado oferecido por um livreiro corajoso durante a ditadura, o CD da Jacqueline Du Pré comprado num camelô improvável, o mamulengo de Juazeiro do Norte, o dicionário de ídish evocando leituras de Scholem Aleichem. As memórias, seus sons e imagens, são a alma do lugar, que estará sempre em construção. Como eu.

Abraço. E coragem.

Vinicius e Luiz

Vinicius e Luiz

A emancipação dos trabalhadores será obra dos próprios trabalhadores (Karl Marx)

Acabo de ler uma seleção de crônicas inéditas em livro escritas pelo Vinicius de Moraes. Vão dos anos 1940 até 1970 (quando escreveu para O Pasquim). Muitas surpresas no calhamaço de 400 páginas. Uma delas foi a paixão política do poeta, derramada em muitos textos. A gente imagina o Vinicius bebericando seu whisky num bar em Ipanema, maltratando o fígado (órgão que ele homenageou numa crônica hilária) e arremessando olhares sugestivos para o mulherio ao redor. O Moraes foi muito além disso.

Durante algum tempo, Vinicius manteve a coluna Crônica da Cidade na revista Diretrizes. A publicação, lançada em pleno Estado Novo por Samuel Wainer e Azevedo Amaral, teve muitos colaboradores ilustres, como Rubem Braga, Álvaro Moreyra, Jorge Amado e Graciliano Ramos. No dia 5 de julho de 1945, saiu a crônica A grande convenção. É uma das várias em que Vinicius demonstra profunda admiração por Luiz Carlos Prestes e seu papel político no tempo que se seguiu ao final da Segunda Guerra Mundial.

A que convenção Vinicius faz referência? Estava em curso a organização, em nível nacional, de centros e comitês populares para discutirem as reivindicações mais sentidas da população. A ideia da convenção que integraria os grupos regionais foi verbalizada por Prestes no comício do PCB realizado no estádio do Vasco da Gama, em 23 de maio de 1945. A pauta era extensa: ia da luta contra o fascismo à melhoria de abastecimento, transportes e educação. Vinicius previa que aquela seria “mais uma vitória das massas politizadas contra as forças da reação, mais um marco plantado no caminho da redemocratização do Brasil”. Quem o visualizasse no Villarino, frequentador assíduo da casa ao lado do Antônio Maria, do Rubem Braga e do Tom Jobim, falando das massas, logo associaria com um farto espaguete à bolonhesa ou uma lasanha carregada no molho branco. Outros tempos, outras massas.

O entusiasmo do poeta/diplomata/cronista fazia sentido. Dava gosto de ver a mobilização intensa de gente desabituada a debater como a política interfere no cotidiano. A imagem do político entrincheirado numa galáxia distante era hegemônica na sociedade. Outro aspecto era o encontro da esquerda com sua essência existencial: a organização de oprimidos, humilhados e ofendidos na luta contra as raízes da desigualdade e a exploração de classe. Prestes e seu partido eram, naquele momento histórico, a melhor representação deste impulso.

Estamos hoje muito longe daquela movimentação. Houve, durante a ditadura civil-militar, a multiplicação de formas de resistência. Das entrelinhas dos textos à luta armada, da agenda parlamentar à crítica pelo humor, da solidariedade internacionalista à reconstrução sindical, não deixamos os milicos e seus lambe-botas em paz. Foi um período difícil, mas rico em criatividade. Brotaram no Rio, por exemplo, associações de moradores, que, sonhávamos, poderiam ser embriões de formas mais avançadas de organização e luta. Não chegaram a tanto.

Participei da AMAL, uma das associações de moradores na zona sul. Em Laranjeiras, chegamos a nos reunir na rua, embaixo de postes de luz, cada um trazendo sua cadeira. Discutia-se de tudo, o importante era recriar o hábito da conversa e da busca por formas diferentes de fazer política, sem os reducionismos tão comuns nos dias que correm. Conseguimos barrar o projeto da chamada Via Paralela, que transformaria o bairro num mero lugar de passagem.

O ímpeto organizacional murchou lentamente após 1985. Aqui não é o espaço para debater em profundidade as causas disso. Quero, no entanto, destacar um aspecto. Parte significativa da esquerda renunciou ao papel de organizar o povo, de representar interesses de classe, de integrar lutas isoladas num projeto comum de conquista de poder. Resumiu-se ao uso do espaço parlamentar, que tem os limites comuns a todas as democracias burguesas. Desviou a atenção das causas profundas das enormes desigualdades no Brasil para o campo, certamente importante mas secundário, do identitarismo. Neste cenário, a direita nada de braçada. Pode perder eleições, pouco importa. Seu projeto estratégico, de hegemonia do capital, permanecerá intacto. Sabe que, com a esquerda conformista no tabuleiro, tudo que terá pela frente são sonhos. Como disse lá atrás o Milton Nascimento: Sonho feito de brisa/vento vem terminar.

Abraço. E coragem.

Jacques

Naquela esquina

Naquela esquina

Naquela esquina, o corre-corre de sempre. Muitos olhos abduzidos por celulares, gente em luta inútil contra o relógio e a solidão, driblando buracos, ilusões, camelôs e ruídos. All the lonely people/Where do they all come from?/All the lonely people/Where do they all belong? Um ou outro mendigo desfila agonia em busca de restos.

E de repente… Atrás de uma teia negra de fios em postes percebo letras. Tantas vezes por ali e jamais as havia visto. Cegueira de cidade grande. Chego perto. Na parede ao lado de uma velha janela de madeira, num sobrado que já conheceu dias melhores, a frase: Reservada para pichador amador. Fiquei encantado, com uma pontinha de curiosidade. Que convite era aquele? Alguém cansado das pichações “profissionais” que emporcalham a cidade, dando vez à turma criativa? Ou seria a transgressão do entendimento comum da palavra amador, o não-profissional? Uma sugestão aos enamorados, ou amadores, para colorirem seus afetos em paredes mortas.

No auge da pandemia de Covid-19, ingênuos acreditavam que o mundo sairia diferente da calamidade. Não era possível, diziam, que, depois de tanta dor e sofrimento tamanho, saíssemos iguais ao que éramos. Estamos a ver que estavam redonda e quadradamente enganados. Apesar da velocidade de expansão do Universo estar desacelerando, continuamos acelerados, cada vez mais dependentes de telas e geringonças eletrônicas, olhando gentes e coisas em planos horizontais. As cidades entregues a interesses corporativos, agredindo espaços de memória que constroem identidades. Não se consegue notar uma calçada livre sem que os “empreendedores” planejem entupi-la com bagulhos lucrativos. Silêncio é desperdício, sacrilégio. Os incomodados que se mudem e, pelo andar da carruagem, chegará o tempo em que os incomodados não terão mais para onde se mudar. A não ser que aceitem colonizar a Lua, transportados por bólidos construídos pelo Elon Musk.

É libertador, nesse contexto, ver uma ideia original, como a que vi na tal esquina. Se conhecesse seu autor, proporia estendê-la. Vamos colocar tabuletas em jardins abandonados e praças maltratadas, dizendo-os abertos a jardineiros em flor? Que tal jogar garrafas ao mar com mensagens poéticas, antecipando a surpresa e o prazer de quem as encontrar? Em pleno delírio, que não seria tremens, semearíamos coretos pelos cimentos tristes e ali ressuscitaríamos Noel, Vadico, Chiquinha, Jacob, Donga, Nazareth, Alfaiate, em acordes do balacobaco.

Tudo bem, confesso que estou soltando a franga hippie que existiu em mim. Paz e amor em meio a guerras, rancores e estupidez da cobiça suicida. Às vezes, este tipo de sonho é essencial para manter a sanidade em meio aos destroços da humanidade em marcha batida para o precipício.

Dia desses, revi Yellow Submarine, produzido em 1968. No desenho animado (ainda se chama assim?), os Beatles propunham uma revolução pela música. Na idílica Pepperland, onde tudo é harmonioso, surgem os Meanies, os bad guys, que transformam o lugar em gelo e cor única. É pela música que são derrotados, numa grande apoteose psicodélica animada por All together now. Em cena típica daquele ano, John, Paul, Ringo e George caminham, enquanto sua sombra é pintada com arcos-íris mutantes. O sonho ainda estava vivo. E ativo.

Racionalmente, não creio que apenas a música vai salvar o planeta. Talvez um cabeludo chapado em 1968 acreditasse em utopia sonora. No entanto, não consigo imaginar uma sociedade revolucionada sem música e poesia. Nestes terrenos a alma humana tem enorme grau de liberdade. Ela, convém lembrar, é sempre radical e transformadora.

Ao meu parceiro imaginário, sugiro um nome para nossos sonhos. Seria o Projeto Xenohyla Truncata. Essa coisa esquisita é o nome científico de uma pererequinha (do tamanho de um botão de rosa), espécie endêmica da Mata Atlântica do Rio de Janeiro. É vegetariana (só come frutas e pétalas de flores) e único caso de anfíbio polinizador do mundo. Ao sugar néctar, o pólen anexo gruda em suas costas úmidas. Quando pula, de flor em flor, espalha o pólen e fecunda novas vidas vegetais. Salve ela! E salvemo-nos todos, polinizando de belezas as cidades brutas!

Abraço. E coragem.

Jacques