Pra lá deste quintal/Era uma noite que não tem mais fim (Chico Buarque)
Aparecem sempre nos mesmos dias, à noite. Abrem os latões de lixo dos prédios, mexem e remexem catando o que for aproveitável. Olhando-os do alto, parecem sombras tristes, compartilhando a ruína comum. Recolhem as sobras de nossa vida farta para aliviar a fome crônica e material reciclável para ganhar uns trocados. Certa vez, tive a impressão de que encontraram uma pequena garrafa onde se lia no rótulo “Tônico anti-indiferença: devolve o sentido de viver e alivia dores melancólicas”. Estava vazia. Irremediavelmente.
O exército de sombras é silencioso, pede, sem palavras e cabeça baixa, perdão por existir. Um dia, porém, ouvi travessuras. Fui à janela e vi crianças correndo pra lá e pra cá, soltando gritinhos de alegria improvável em meio ao lixo. Olha só, mãe, o que eu achei!, e a menininha mostrava, com orgulho de campeã olímpica, a garrafa de plástico vazia. Ali adiante, um molequinho chutava a bola imaginária, lance de gênio capaz de reverter o trauma do Maracanazo e absolver Barbosa e Bigode. Os sombrinhas davam sinais de vida. Era a infância que eclodia, triunfal, por breves momentos.
Em pouco tempo a algazarra constrangida desapareceu. Larguei a imaginar. Como se marcará na memória das crianças a vivência do lixo? Perceberão que é assim que todos as veem, descartáveis, incômodas, no máximo dignas de piedade? Como a falta de espaços abertos, campinhos de pelada, escorregas e balanços, habitará seus viveres? O Sol, definitivamente, não é para todos.
Enquanto discutimos a censura ao livro do Ziraldo, a crise no colégio Pedro II, as celulites e a estratégia empresarial da Anitta, a devastação do Pantanal e da Mata Atlântica, os crimes abomináveis praticados por bancadas religiosas, o aquecimento do mercado de iates luxuosos e as falcatruas no futebol, cresce a multidão dos abandonados à própria sorte, que só querem, mal e mal, sobreviver. Faz lembrar um velho episódio da minha série predileta de ficção científica, The Twilight Zone (Além da Imaginação). Chamava-se O homem obsoleto. Uma parte nada pequena da humanidade está se tornando obsoleta. São esses que vagam desesperados em botes precários e rotas perigosas, à espera de impossíveis acolhimentos. São os que estão empilhados em guetos urbanos, à mercê de grupos criminosos. São os clandestinos que trabalham em locais insalubres e enchem os cofres de grifes famosas. A família mais rica do Reino Unido, os Hinduja, foi acusada de exploração de mão-de-obra e tráfico humano. Bilionários, estes cidadãos de bem traziam indianos para cuidar de seus filhos e casas. Confiscavam-lhes os passaportes e impunham uma jornada de trabalho diária de 18 horas, remuneradas a US$ 8 por hora.
O Menino ouvia os adultos falarem de flagelados. Não entendia o que aquela palavra significava. Na escola, colegas disseram que eram pessoas açoitadas, miseráveis, submetidas a castigos degradantes. Muito assustador. Aos poucos, soube da verdade. Eram em sua maioria nordestinos que fugiam da seca endêmica na região. Gente que vi de passagem numa pequena estação ferroviária em Bonfim, interior da Bahia. Trouxa na cabeça, olhos vazios.
Os flagelados de hoje não andam de trem, vêm de todos os cantos e estão em todas as esquinas, são espectros sem esperança de luz. Viramos sociedades moedoras de carne, Humanidade que detesta a raça humana.
Comecei citando Chico e volto ao recém-octogenário. Diz ele num pedaço da Gota dágua: E qualquer desatenção/pode ser a gota dágua. Haverá limite para a geringonça grotesca e descompensada que identifica o mundo de hoje? Se chegar a gota d’água, para onde escorrerá tanto fel, tanta angústia, tanta ira, tanta revolta reprimida?
Esta é uma crônica da perplexidade. Ou das perplexidades. Quantas vezes, com expressão assombrada, temos ouvido perguntas do tipo “como isso é possível?”, “de onde saiu essa gente?”, “mas logo ele?”, “aonde vamos parar?” ? Não tenho a menor intenção de matar as charadas, isso deve ser trabalho coletivo, com fôlego olímpico. Fiz um pequeno exercício de livre associação e apareceram paternidades (há muitas) desta sensação de desconforto, que em alguns beira o desalento.
Era novembro de 1998. Ariel Dorfman estava no Chile e passeava tranquilamente pelo centro de Santiago. Numa praça, viu um grupo de mães, irmãs e mulheres de presos desaparecidos durante a ditadura Pinochet. Portavam fotos dos assassinados e, mãos dadas, cantavam baixinho, dispostas a não esquecer o tempo sombrio e as consequências da barbárie. Reivindicavam o direito aos corpos de seus mortos.
Atrás de Ariel, uma mulher de seus 60 anos, meio descontrolada, começou a gritar: “Comunistas de merda! Mentirosos! Deveríamos ter matado todos vocês!”. O golpe sanguinário contra o governo socialista de Salvador Allende já tinha mais de 25 anos, o muro de Berlim caíra há uma década e o ódio contra a experiência democrática radical da Unidade Popular permanecia intacto no coração de madame e dos de sua classe. O pinochetismo deixara filhotes e neles a Morte substituía o confronto de ideias.
Antes de seguir adiante. Ariel Dorfman, escritor, poeta e professor universitário nos Estados Unidos, participou do governo Allende, atuando na área da cultura. Foi obrigado a exilar-se depois do golpe de 1973. Seu livro Para ler o Pato Donald, em que analisa a linguagem dos quadrinhos, foi leitura obrigatória para nosotros que lutávamos contra a milicada brasileira e seus capangas civis. Uma visão original sobre o papel da linguagem na dominação de classe.
Pinochet acreditava ser o “salvador do Chile contra o marxismo”, missão à qual atribuía caráter divino. Essa característica messiânica de ditadores estava longe de ser inédita. Na Espanha da Guerra Civil, por exemplo, o general Francisco Franco se autoatribuiu o título de “caudillo de España por la gracia de diós”. Para tanto, tinha a cumplicidade de boa parte do clero espanhol. Em 1936, no início da guerra, quase 8 mil prelados foram mortos pelo lado republicano. Era a manifestação do ódio profundo das classes populares contra o apoio secular da Igreja à monarquia parasitária e aos latifundiários (o país era maciçamente rural). Nos anos 20 do século passado, havia províncias inteiras de propriedade de uma pessoa. Franco dizia que “na Espanha, ou se é católico ou não se é nada”.
Violência extremada contra adversários políticos, promiscuidade entre Estado, política e religião. Soa familiar? Em 1999, um deputado federal medíocre deu entrevista na TV Bandeirantes defendendo não apenas tortura, mas a eliminação de 30 mil adversários numa guerra civil. Em julho de 2016, entrevistado pela rádio Jovem Pan, ejaculou: “O erro da ditadura foi torturar e não matar”. A indisposição para o debate civilizado sempre foi marca do equino que acabou nos governando.
Em 2017, num comício, o mesmo deputado não teve o menor pudor em declarar que “não tem essa historinha de Estado laico não. É Estado cristão, e quem for contra que se mude”. Já na presidência, disse várias vezes que sua eleição era parte dos planos de deus. A esposa não fez por menos, sempre em clima de prédicas religiosas travestidas de atos políticos: “E eu declaro todos os dias: Jair Messias Bolsonaro, sê forte e corajoso, não temas. Ele é um escolhido de deus”. Num grande ato religioso, um aliado anunciou o mesmo: “Esse homem é escolhido por deus”. E completou: “Jesus Cristo é o Senhor de São Paulo e do Brasil”. Parecem reproduções de cloacas da Idade Média, mas estão aqui mesmo, nas nossas esquinas, nas escolas, em atos públicos e, sobretudo, em redes sociais. Púlpitos & palanques, devoção & rigidez inegociável, vestem o modelito filofascista.
A superestrutura do fascismo, suas tripas mais visíveis, é esta. É a espuma que esconde os beneficiados por elas: as classes dominantes, que não são propriamente o falangista intoxicado ou o pastor de ovelhas desesperadas. Às vezes, tentam maquiar-se para esconder os caninos afiados. No entanto, e volto a um provérbio ídish, se o porco usa um shtreimel (chapéu de pele típico de judeus ortodoxos), isso não o torna um rabino. Por trás de aparências civilizadas escondem-se porteiros do inferno.
Welcome to the jungle/It gets worse here everyday (Guns N’ Roses)
Volta e meia lembro de personagens do seriado Seinfeld, que alguns consideram o melhor de todos os tempos. Um deles, certamente ironizando a onda zen-oriental da época (anos 1990), vivia repetindo “Serenity now!”, mesmo em situações tensas, venenosas, injustas. Até que um dia … bum! Sai quebrando tudo em volta a sopapos e pontapés. Então, descobre que pode até ser um “Serenity now!” forçado, mas chega a hora do “Insanity later!”.
Difícil manter um ar blasé, uma postura de mestre iogue, na atual conjuntura. Daí que resolvi usar este espaço para descarregar a acidez acumulada pela onda planetária de estupidez e retrocesso civilizatório. Minha geração, que foi sequestrada em pleno voo por uma ditadura, lutou não apenas para derrotá-la, mas para construir uma sociedade alternativa, mais justa e fraterna. É duro admitir, mas levamos um chocolate, sete a um na veia. Esmagados em todas as frentes.
Jamais imaginei que o Brasil fosse viveiro tão portentoso de reacionários, oportunistas e mistificadores. Um esgoto que corria subterrâneo e agora dá o ar da (des)graça. Fala-se muito, e com razão, do Congresso nacional. Ele, no entanto, é espelho de vontades coletivas bem estabelecidas. Já estamos nos habituando com um falso conservadorismo que, na verdade, não passa de retorno a fumaças medievais, com forte teor religioso. O debate parlamentar é diálogo de surdos, contaminado por moral tacanha de natureza religiosa e encenações patéticas para o mundo virtual. Na feliz expressão de um professor da UFBA, os bagunceiros do fundo da sala chegaram na primeira fila.
As baixarias, adornadas por verborragia ultrajante, produzem cenas de mundo cão. O governador de São Paulo declarou, num evento evangélico, que seu estado pertence a Jesus Cristo. Interessante que ninguém viu a escritura com registro em cartório. O mesmo bolsonarista sancionou a lei que institui escolas cívico-militares em São Paulo. Alega que os alunos vão “desenvolver o civismo” e “cantar o Hino Nacional”. Caramba, já não tivemos doses elevadas de caserna na vida nacional? Os celerados querem ordem unida, continência e obediência fanática. Pesadelo.
A lista de aberrações é extensa. Privatização de praias (com enorme prejuízo ambiental) e da gestão de escolas públicas, criminalização da posse de pequenas quantidades de drogas, divulgação maciça da “cura gay”, isenções tributárias para templos de todas as denominações. Tudo isso é café pequeno perto do projeto que transforma em assassina a mulher que aborta, depois de 22 semanas de gravidez, o filho de um estuprador.
Um mínimo de informação torna este projeto uma bestialidade sádica. No Brasil, quase dois terços das vítimas de estupro têm, no máximo, 13 anos. Muitas só descobrem tardiamente a gravidez e, quando descobrem, são muitas vezes desencorajadas a abortar por médicos que desonram a profissão. Outro dado abominável, muito conhecido: 60% das crianças abusadas o são por seus próprios familiares.
O que acontece em nosso país é a ascensão da extrema-direita, que parece mais e mais ganhar musculatura. Sente-se à vontade com a absoluta falta de reação articulada, orgânica, da sociedade. O governo atual não pode levar a culpa por tudo, mas claramente está acuado, sem ação, frente à ofensiva obscurantista. De recuo em recuo vai-se ao tombo.
A lembrança do Guns N’ Roses aí em cima veio pela minha irmã, morta recentemente. Morava nos Estados Unidos e, quando nos visitava aí pelos anos 90, chegava no Galeão, abria um sorriso sacana e dizia: Welcome to the jungle! Eu ficava uma arara! Como ousava falar assim da minha cidade, do espírito de luta que derrotou uma ditadura, das perspectivas que, àquela época, pareciam promissoras? A gente mudava rapidamente de assunto. Se acontecesse hoje, minha revolta, confesso com tristeza, não seria tão grande. Continuo ativo e olho com alguma esperança para a frente. Há momentos, entretanto, em que a vontade é chutar o balde, esquecer a racionalidade e mandar a choldra reacionária, seus filhotes e apoiadores, trocar umas ideias com o Sete-Pele. Sem ar condicionado e mastigando brasa viva. Melhor ainda, como numa velha praga em ídish: que todos vão ao banheiro a cada três minutos ou a cada três meses.
Há três espécies de mentiras: mentiras, mentiras deslavadas e estatísticas (Disraeli)
Dias atrás Lula anunciou, empolgado: o FMI prevê que o Brasil está próximo de se tornar o 8º maior PIB do planeta. Compreendo a animação. Isso parece ser boa notícia e políticos se nutrem delas para permanecer no topo da cadeia alimentar. Meu Fradim de estimação, no entanto, fez uma associação com épocas azedas e não deu boa coisa. Vamos lá.
Aloysio Biondi, jornalista de economia obcecado por dados e rigor analítico, colaborou com a imprensa alternativa no período da ditadura empresarial-militar. Escrevia regularmente para o semanário Opinião, severamente perseguido pela censura. Com ele aprendi o beabá das manhas estatísticas. Renda per capita, por exemplo. Biondi era didático. Suponha que existam 2 frangos assados e 2 pessoas famintas. Na aparência, um frango per capita. Proteína garantida. Na realidade, é possível que uma das pessoas, poderosa e sem escrúpulos, coma os dois frangos, matando de fome o outro fulano. Nas tabelas oficiais, tudo paz e amor, bicho.
No período do “milagre econômico” (1969/73), o PIB brasileiro cresceu a taxas elevadas (perto de 10% anuais), abastecido por gordos empréstimos externos, e a inflação oficial estava baixa. Ganharam todos? Faz-me rir. Num raro momento de sincericídeo, o ditador Garrastazu Médici disse que “a economia vai bem, o povo vai mal”. Estava confirmada a pensata do Millôr Fernandes: “As estatísticas provam: as estatísticas não provam nada”.
Como está o Brasil real, fora da euforia lulista? Os 10% mais ricos concentram 51% da renda total do país. Os 50% mais pobres ficam com 14% dos ganhos. No quesito Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) ficamos em 89º lugar entre 193 países. Atrás de Uruguai, Argentina, Chile, Irã, México, Equador, Peru e Cuba, entre outros. O reacionarismo de base religiosa está em alta, as correntes protofascistas movimentam-se com desenvoltura, o fisiologismo é cláusula pétrea no parlamento. O resumo da ópera é o seguinte: o crescimento do que se produz no país não o torna mais justo nem tolerante. Há desequilíbrios obscenos, e o companheiro ex-metalúrgico deveria ter a honestidade política de moderar o entusiasmo e denunciar, dia sim, outro também, as enormes mazelas que nos tornam um animal disforme. Mais do que isso: deveria discutir com o povo as causas estruturais de tanta e tamanha distorção. Luta de classes, no entanto, está fora do radar do ex-sindicalista. Sua abordagem sempre foi a da administração do capital. Tudo fica na superfície de algarismos, conchavos, arranjos, quebra-galhos. “Ninguém quer abrir mão de privilégio”, disse um dos seus ministros. Jogo de poder. Poder aparente.
Quem não se lembra do Bernie Sanders? Um hippie extemporâneo, voz menos convencional dentro do Partido Democrata dos EUA (do qual acabou desligando-se). Deu entrevista à Folha de S. Paulo e foi certeiro nos números. “Três pessoas no topo possuem mais riqueza do que a metade de baixo da sociedade americana. Globalmente, você está vendo o 1% superior possuir mais riqueza do que os 95% inferiores e essa disparidade está se ampliando cada vez mais. Não é apenas injusto: as pessoas no topo com toda essa riqueza têm um enorme poder político”.
Bernie e seus pares constatam os sintomas da doença, mas suas terapias partem do princípio de que as causas são e serão permanentes. No máximo, podem ser atenuadas. Penso diferente. Os modos de produção de bens materiais e simbólicos que garantiram a sobrevivência do homem até aqui são produto do próprio homem. Podem, portanto, ser alterados pela ação do homem. Todas as tentativas de reformar, “humanizar” e maquiar o modo capitalista de produção fracassaram. Seus princípios levaram à exploração brutal da trabalho humano, ao descaso com o meio ambiente, à proliferação de doutrinas supremacistas, ao belicismo crônico. A História, madame caprichosa e enigmática, pode se encantar por um pós-capitalismo. Ao som de Cazuza: “Mas se você achar que eu tô derrotado/Saiba que ainda estão rolando os dados/Porque o tempo, o tempo não para”.
Quantos filmes belgas você já assistiu? Até uns dias atrás, eu não havia assistido a nenhum. Eis que surge Close, de 2022. Grande filme. Olhar sensível para assuntos de perturbadora atualidade. Parte da relação de amizade intensa entre dois meninos adolescentes, naquela fase que combina espanto, medo e delícia, e debate as consequências desastrosas dos preconceitos. Mais não posso falar, sob pena de dar spoilers. O filme está disponível na Netflix.
Foi inevitável associar cenas do filme com situações que vivemos numa sociedade infectada por desigualdades extremas, sectarismos e fundamentalismos religiosos. Um exemplo, para alguns chocante, acaba de vir do papa Francisco. Em reunião a portas fechadas com bispos italianos, ele disse que os seminários estão “cheios de viadagem”. Sei que, para efeito público, o pontífice adota uma linha suavemente liberal, que descriminaliza a homossexualidade (embora continue considerando-a pecado; não entendo a lógica “perdoa-se o pecador, não o pecado”). A portas fechadas, no entanto, parece que suas camadas inconscientes afloram e triunfa o preconceito. Não é caso isolado de dupla face, mas a visibilidade papal deixa tudo mais grave.
Tenho conversado bastante com gente amiga sobre os preconceitos em geral. Racionalmente, somos todos antirracistas, pelo respeito às diferenças e entre os gêneros. Salve nós. Ocorre que minha geração foi educada em ambiente carregado de desconfiança, às vezes desprezo, por vários grupos sociais. O diferente era visto como ameaça a valores que constituíam família e relações sociais. Esta formação, que combina preconceito de classe, ignorância e otras cositas más, cobra um preço. Às vezes, nossas placas tectônicas se movimentam e os preconceitos mais escondidos, mais negados, se manifestam. Entre risos debochados, seremos então capazes de ofender negros, homossexuais, judeus, árabes, estrangeiros e muitos mais. Não se ofenda, diremos sem constrangimento, é apenas brincadeira…
Vou citar dois exemplos, que mostram como tudo isso está espalhado, sem poupar gregos nem troianos. O ano era 1957. Em carta para a irmã mais nova, comentando que outras pessoas estavam em situação pior, ele escreveu: “Mas não há de ser nada. Conheço gente que tem filho cego, veado, ou que são cegos ou veados eles mesmos”. “Ele” é Vinícius de Moraes. O Poetinha, tão progressista na política e criativo nas letras, reproduz a visão do seu tempo. Dissesse isso hoje numa rede social, estaria lascado. Digo, lacrado. Direto para as galés.
Início de 1925. Num giro pela América do Sul, o cientista famoso foi encontrar-se com Aloysio de Castro, chefe da Faculdade de Medicina do Brasil. Sabem o que escreveu sobre o doutor brasileiro? “Legítimo macaco”. Antes da viagem, havia reclamado por carta: “Não tenho vontade de encontrar índios semi-aculturados usando smoking”. O homem de ciência era Albert Einstein. Ele mesmo vítima de preconceito antissemita na Alemanha, foi, anos mais tarde, enfático militante pelos direitos civis dos negros nos Estados Unidos.
Por que dei estes exemplos? Ao contrário que prega a cultura tribalista e raivosa tão em voga atualmente, oscilamos, variamos, revemos, reafirmamos. Somos organismos em movimento, complexos, muitas vezes contraditórios. Não é à toa que subo nas tamancas quando acompanho as tentativas de sanitização de livros clássicos (feliz expressão do diplomata Alexandre Vidal Porto). Apagar determinados termos e conceitos destes textos, considerados “sujos”, elimina o direito de leitores e ouvintes conhecerem o que se pensava em outros tempos e, a partir daí, assumir posições esclarecidas. Esta censura não educa, apenas esconde.
Não conheço fórmula para acabar com as discriminações. Aliás, não existe bala de prata para isso. Minha convicção é de que não haverá solução duradoura enquanto a sociedade continuar dividida em classes, legitimando o domínio econômico e a hegemonia das subjetividades de certos grupos. Estas disparidades alimentam, e muitas vezes criam, visões deformadas sobre os que não estão “em cima”. Não digo que numa sociedade pós-capitalista todos os preconceitos seriam automaticamente extintos. Não há como subestimar as raízes dos preconceitos, alguns deles multisseculares. Apenas imagino que a mudança para uma sociedade que valorize e consagre radicalmente a igualdade em todos os níveis criaria melhores condições para não demonizar o Outro. Lutar em terreno menos bloqueado já seria um bom início.
Há cerca de três meses, meus dois telefones fixos pifaram. Dois? Pois é, até hoje sinto-me mais à vontade, relaxado, quando falo através do fone de gancho. Já superei a fase da discagem pela roleta com números. Sou moderno, meus aparelhos operam pressionando botões. Raramente me deixam na mão, mas, como dizia, resolveram emudecer.
A simples perspectiva de fazer contato com a operadora e seus robôs que simulam voz humana quase me paralisou. Antes de contar o dramalhão que se seguiu, viajo brevemente pela era pré-celulares.
Houve época em que linhas telefônicas eram artigo de luxo. Seu valor de mercado tinha que constar do patrimônio na declaração anual do imposto de renda. Enquanto não surgiam os orelhões, a tribo dos sem-telefone recorria aos poucos comerciantes que possuíam o valioso artefato. Botecos ajudavam a facilitar a vida dos vizinhos. Cediam os aparelhos, sem muito resmungo, para rápidas chamadas. Salvaram muitos relacionamentos, consolaram almas solitárias, testemunharam negócios escusos.
Os orelhões, que pareciam cuias invertidas, democratizaram o acesso aos telefones. À custa de filas e caras amarradas para os prolixos sem noção que faziam relatórios intermináveis sobre a rotina, o “sabe da última, menina?”, a frieira do Severino e o joanete da patroa. Enquanto isso, conseguir que o telefone de casa “desse linha” era uma loteria diária. Melhor ter um banquinho e o repertório de palavrões à mão. Xingar a Telerj, que depois virou Telemar e, por fim e sem surpresa, Telemerda, fazia parte do ritual.
Leitor voraz de gibis, nunca entendi uma passagem obrigatória nas histórias do Super-Homem. Para quem não sabe, o repórter Clark Kent, do jornal Planeta Diário, era a identidade secreta do Homem de Aço. Quando havia um pedido de socorro, Clark se metia numa cabine telefônica, tirava roupa e óculos “civis”, exibia o uniforme azul com capa e botinhas vermelhas e saía voando por aí. No corre-corre de Metrópolis, à luz do dia, ninguém via a metamorfose? Onde ficavam a roupa e os óculos? Acho que só o Sombra sabe as respostas. Por enquanto, e para a eternidade, ficam as imagens de aventuras que nós, para sempre de calças curtas, gostaríamos de ter vivido e, de preferência, dado um amasso na Lois Lane. Éramos generosos. Sobraria um carinho para a princesa Narda e Diana Palmer.
Voltando ao início. Tomei um chá de camomila, mentalizei um mantra qualquer, assobiei o hino da Baixa Eslobóvia, respirei fundo e liguei para a operadora. Num cândido delírio, esperava que me atendessem com um Alô Daisy ou, melhor ainda, Seu criado, obrigado. Rapidamente caí na real. O que veio mesmo foi a voz xinfrim de um robô, que me encaminhou para um emaranhado de opções, sem que uma voz humana fizesse a gentileza de perguntar o que eu queria. Várias tentativas em vão, todas invariavelmente terminando com um metálico “é tudo o que sabemos no momento”.
Era o início de uma novela de humor negro. Durante meses, o máximo que consegui foi que, finalmente, marcassem uma visita técnica. Claro que ninguém apareceu. Eficiência privada é isso aí. Os telefones continuavam mortinhos da silva. Um dia, no meio da tormenta, recebi, pelo celular, ligação da Ouvidoria da tal operadora. Coitada da senhora do outro lado da linha! Despejei, catarticamente, toda a indignação sobre ela. Que fosse arengar em outra freguesia, ora essa. Vá pentear macacos.
Há duas semanas, cancelei, com dor no peito, uma das linhas e transferi a outra para uma operadora qualquer. Dizem que todas funcionam mal. Quando privatizaram na bacia das almas a telefonia, nos prometeram o paraíso, a concorrência geraria bons serviços e preços melhores. Sei, conta outra, mané. Isso faz lembrar do Apparício Torelly, o grande Barão de Itararé. Eleito vereador pelo Distrito Federal logo após o fim do Estado Novo, perdeu o mandato com a cassação canalha da legenda do PCB. Ao se despedir da Câmara, fez um de seus antológicos discursos. Lá pelas tantas, ironizou: “Saio da vida pública e entro na privada!”. Lugar apropriado também para serviços caros e displicentes que nos enfiam goela abaixo em nome do livre mercado (sic).
Pelo sim, pelo não, já estou combinando com meus netos a montagem de telefones de lata. Aqueles feitos com duas latas e barbante. Com um pouco de engenho e arte, funcionarão melhor do que essas geringonças cheias de caprichos e escangalhos.