Coleções

Coleções

Dentre as manias que eu tenho/Uma é gostar de você/Mania é coisa que a gente tem/Mas não sabe porque (Flávio e Celso Cavalcanti)

Li nos últimos dias alguns colunistas de jornal dizendo que vão se desfazer de suas coleções de CDs. Argumentam que os canais virtuais lhes satisfazem as necessidades musicais e preferem liberar uns poucos metros quadrados de seus apartamentos. Entendo, mas, como em relação aos livros, meu comportamento é diferente. Uns e outros são, para mim, muito mais do que objetos sólidos que ocupam espaço.

Não se trata de esquisitice ou colecionismo doentio. Minhas manias eu cultivo em outros, e nem sempre louváveis, departamentos. Dia desses, por exemplo, não tinha a menor ideia de qual músico queria ouvir. Só tinha certeza de que precisava de música. Dei, então, uma olhada ligeira nas pilhas de CDs e esbarrei em Count Basie, Andras Schiff, Antonio Menezes e Jascha Heifetz. Dúvida resolvida. Ouvi todos. Como faria para dialogar com as plataformas balofas que têm “tudo”, sem informar, tintim por tintim, o que pretendia escutar? Essa vivência do espanto, do não saber previamente, da surpresa, só é possível usando primeiro o olho e, depois, o ouvido. Ponto para as caixinhas plásticas com os disquinhos.

Coisa parecida acontece com os livros. Não tenho a menor pretensão de ler todos os livros que acumulei. Precisaria de umas cinco vidas para isso. Acontece que cada exemplar tem uma história para contar e ela não está nas páginas. Como dimensionar o intangível? Ir a uma livraria é dar oportunidade ao inesperado. Ontem estive num sebo, sem qualquer interesse específico. É meu parque de diversões. Pois não é que, numa estante meio escondida, estava um Lima Barreto me esperando? Um Lima que desconhecia (textos escritos para a revista Careta, no início do século passado), editado na Paraíba, e gerou ótima conversa com o livreiro. Doravante, o exemplar falará pelos cotovelos sempre que for aberto. É uma linguagem silenciosa, cativante, não descartável, que me envolve num sentimento indefinível e transcende o papel. Não abro mão dele.

Há coleções humanas que foram sendo descartadas sem remorso, mas guardam memórias dolorosas. No século XIX, sob as ordens do papa Pio IX, a Igreja sequestrava meninos judeus de suas famílias para serem educados como católicos. O pretexto, brutal, era de que os pequenos tinham sido “batizados”. Um caso ficou famoso. Edgardo Mortara foi sequestrado em Bolonha aos seis anos e levado para Roma. Depois de intensa lavagem cerebral (alguns chamariam de “educação religiosa”), acabou reconhecendo-se como católico e afastando-se da família original. Coleção abominável de gente indefesa que, embora tenha desmoronado, não pode ser esquecida.

O que dizer da coleção de escravos que teve grande popularidade por alguns séculos? Uma coleção com alta rotatividade. Cada peça descartada por castigos animalescos, cargas insuportáveis de trabalho em condições insalubres, fome permanente, era reposta por traficantes. O Brasil foi o país americano que mais importou escravos da África entre os séculos XVI e XIX (4 milhões de homens, mulheres e crianças). Na importação, os africanos ficavam presos em porões de navios às vezes por 2 meses. Um em cada quatro não suportava o martírio. Barbárie organizada para garantir o luxo dos colecionadores.

Tive coleções confessas. A primeira exigiu renúncia. Nas férias escolares de verão, as editoras de gibis, EBAL no alto do pódio, lançavam almanaques, altamente cobiçados por terem mais histórias. Numa delas, o Menino cedeu seus almanaques do Tarzan e do Super-mouse em troca de uma coleção de selos, que ainda guardo como relíquia. Ali comecei a entender a diferença entre o efêmero e o permanente. Seguiram-se botões, plásticos, flâmulas, figurinhas, mais tarde engolidos pela adultice rígida. Eu ainda não sabia a importância daquilo que Mia Couto colocou na voz de um personagem: “Meu avô era um homem em flagrante infância”.

Temo que estejamos à beira de nos transformar, com nossos  ossos, peles e ilusões, em objetos colecionáveis, personagens extemporâneos de Asimov e Bradbury. Há um intenso debate entre técnicos em computação sobre os limites da inteligência artificial. Uma parte considerável deles supõe que já estejamos perto de chegar a uma inteligência igual ou superior à humana. Se estiverem certos, parafusos, placas e chips terão livre arbítrio e poderão, em algum momento, vingar HAL, seu distante bisavô falecido no 2001: uma odisseia no espaço. Seremos os inferiores a serem banidos ou, na melhor das hipóteses, transformados em adorno para colecionadores mecânicos. Pelo sim, pelo não, é bom ir escolhendo um lugar confortável nas prateleiras. Lá longe, em preto e branco, o simpático robô do seriado Perdidos no espaço adverte: Perigo! Perigo!

Abraço. E coragem.

Fantasmas no jazz

Fantasmas no jazz

Semana passada compareci a uma roda de leitura (sim, elas ainda existem!) para falar sobre temas do livro que lançarei em breve. Saí do papo pensando, dúvida recorrente, nas razões pelas quais escrevo. Para quê criar textos numa época de ligeirezas tamanhas e paciência anã? As notícias sobre o aperfeiçoamento da chamada Inteligência Artificial sugerem que, não demora muito, escrever será atividade terceirizada para máquinas, em larga escala. O que virá em seguida é assunto para sobreviventes e românticos escritores de ficção-científica.

Anos atrás, assisti um pequeno curso de introdução ao jazz, dado por um querido amigo, professor de violão. O jazz é, essencialmente, a arte do improviso. Há um diálogo simultâneo em três dimensões. Primeiro, o grupo de músicos (trio, quarteto) apresenta o tema geral, dialogando entre si. Em seguida, os solos. Cada instrumentista apresenta sua visão, improvisada, do tema. Dialoga consigo mesmo. Finalmente, e ao longo da performance, o diálogo é com o público. Quando funciona bem, esta cadeia sonora cria joias da sensibilidade humana.

Acho que a sequência jazzística tem muito a ver com meu método para escrever. Quando sento na frente da tela, misturo tema (que se transforma em apenas uma referência) e diálogos comigo mesmo e com os que vão ler o texto. Sobrevoando tudo, uma galeria de fantasmas. Sobre estes, gosto de mencionar a última cena de uma série já antiga.

Shtisel se passa numa comunidade de judeus ultraortodoxos, em Jerusalém. Há o choque permanente, tenso, entre o respeito a regras rígidas, ancestrais, e o desejo de mudanças, representado pela geração mais nova. Luta, de resto, construtora da História humana. Na cena final, estão sentados à mesa três homens. Um deles diz que encontrou num banheiro público (!) o livro de um “herege” e, surpresa, tinha lá uma coisa bonita. Quem é ele?, perguntam os outros. Scholem Aleichem? Mendele Moiher Sforim? Não, não, era polonês. Isaac Bashevis Singer? Esse! Pois então, ele escreveu que os mortos não vão a lugar algum, estão sempre entre nós. Cada homem é um cemitério. A câmera se afasta um pouco e todos os personagens que morreram ao longo da história reúnem-se numa sempre acolhedora mesa judaica. Pepino azedo, halá, pão preto, guefilte fish. E os mortos conversam com os vivos.

Tenho sempre muitas perguntas para os meus fantasmas. Dúvidas que foram abortadas pela Indesejada das Gentes, por minhas arrogâncias e inseguranças nos momentos críticos, por autossuficiências adolescentes, por silêncios que cultivaram movidos por dor e solidão. O jeito é pedir licença a eles e inventar respostas.

Sigo também na trilha de Maurício Rosencof. Uruguaio, ex-militante do grupo guerrilheiro Tupamaros, Maurício escreveu Las cartas que no llegaron, cujo núcleo é sua família de judeus imigrantes poloneses. A correspondência dos pais, moradores de Montevidéu, com os parentes que haviam ficado na Europa é interrompida abruptamente com o início da Segunda Guerra Mundial. A angústia das dúvidas substitui a esperança de receber notícias. E o silêncio preencheu os espaços. O que diriam as cartas? Trazendo para mim: o que diriam as mensagens jamais enviadas pelos que me ofereceram silêncio e eu, resignado, aceitei? Os mortos nunca morrem, isso é certo, mas em que língua falam? Que fantasmices aprontarão nos momentos de relaxamento, se é que os há? Assobiarão marchinhas antigas em etéreas chuveiradas? Inventarão piadas?

Um homem caminha entre os escombros de uma livraria demolida. Restos de velhos exemplares misturam-se com pó, ferro retorcido e memórias. O sol tímido ilumina uma folha amassada, que vibra com a brisa amena. Curioso, vai até lá, senta-se no cimento morto, limpa a poeira e lê: “Semana passada compareci a uma roda de leitura…”. Levanta os olhos e tem a impressão de ouvir cantorias antigas. Dolentes. No ar, misterioso, emana o aroma de um strudel saindo do forno. Sorri e volta a ler.

Abraço. E coragem.

Dois pontos

Dois pontos

Se deus é tão bom, como pode deixar as pessoas sofrerem desse jeito? (Toshiko Sasaki, sobrevivente da bomba atômica lançada pelos norte-americanos em Hiroshima)

O noticiário torrencial sobre a Venezuela dá o que pensar. Não tenho a menor simpatia pelo “socialismo” de Nicolas Maduro, caricatura lamentável de liderança política. A lisura das recentes eleições presidenciais é contestada mesmo por setores à esquerda, como o Partido Comunista Venezuelano, partido que Maduro hostiliza faz tempo. Na América Latina, entretanto, temos o direito, e mesmo o dever, de não sermos ingênuos. Em nome deste direito, lanço algumas dúvidas ao vento.

Haverá mesmo um surto democratizante, de caráter global e por questões de princípio, que não se limita à vigilância sobre a Venezuela? Daqui por diante, todas as eleições no mundo, de Madagascar a Bangladesh, de Fiji às Malvinas, serão minuciosamente acompanhadas por observadores internacionais, amplamente noticiadas com destaque e submetidas a apurações paralelas? Suspeito que não é esse o caso. O interesse é seletivo, circunstancial, e convém observar o panorama geral incluindo este fator.

Quando o Iraque invadiu o Kuwait em 1990, os Estados Unidos intervieram imediatamente para expulsar o invasor. Um analista ianque ferino comentou que se o Kuwait produzisse brócolis ao invés de petróleo, Saddam Hussein poderia permanecer ad aeternum em solo kuwaitiano, sem ser molestado. Eis aí o detalhe. A Venezuela tem a maior reserva petrolífera do planeta. Maior do que a da Arábia Saudita, onze vezes maior do que a brasileira. Aos olhos do imperialismo, tem que ficar em mãos confiáveis. De preferência, nas das oligarquias corruptas que dominavam o país antes de Hugo Chávez. Com elas no poder, ninguém ouvia falar da Venezuela. Estava tudo dominado.

Acho curiosa a posição norte-americana no imbróglio venezuelano. Parecem, oh céus!, preocupados com a democracia. Não há país no mundo com maior histórico intervencionista. A América Latina nunca deixou de ser vista como quintal do Grande Irmão do Norte. A lista de golpes apoiados política, militar e financeiramente pelos EUA é robusta. Quando Allende presidia o Chile, Nixon e Kissinger combinaram “lançar o caos” no país andino. No golpe civil-militar de 1964 no Brasil, a embaixada norte-americana era uma espécie de QG golpista. O embaixador Lincoln Gordon flanava com desenvoltura no meio da malta fardada. Com este currículo sombrio e dados os interesses geopolíticos em jogo, é preciso incluir no cenário a mão pesada do establishment norte-americano. Repito: não há que ser ingênuo nesta hora.

É aqui, na bruma densa da História, que trago uma triste lembrança. Amanhã será o 79º aniversário do maior ataque terrorista da história da humanidade (terrorismo na definição da ONU). No dia 6 de agosto de 1945, às oito horas e quinze minutos, o bombardeiro norte-americano Enola Gay lançou sobre a cidade japonesa de Hiroshima a primeira bomba atômica da história. A área não tinha qualquer interesse militar. Denominada Little Boy, a bomba causou cerca de 100.000 mil mortes imediatas e dezenas de milhares a mais ao longo do tempo, por causa dos efeitos da radiação. Mais de 70% de todas as edificações foram destruídas. O calor gerado pela explosão chegou a 6.000 graus Celsius. Três dias depois, outra bomba, a Fat Man, seria lançada em Nagasaki, matando instantaneamente cerca de 50.000 pessoas.

Como classificar estas carnificinas, que se seguiram aos bombardeios de saturação sobre outras cidades japonesas (numa única noite, causaram 80.000 mortes em Tóquio, civis em sua enorme maioria)? Uma boa ideia é comparar com a definição que o presidente norte-americano Harry Truman usou para os bombardeios nazistas sobre Espanha (durante a Guerra Civil), Inglaterra e Holanda: “Barbárie desumana que chocou profundamente a consciência da humanidade”.

Batman e Coringa, Super-Homem e Lex Luthor, Sherlock Holmes e James Moriarty, Branca de Neve e a Bruxa da Maçã, Popeye e Brutus, Tio Patinhas e os Irmãos Metralha. Tudo bem que na ficção é oito ou oitenta, mas a História real não pode ser entendida como uma contenda simples entre a Virtude absoluta e o Mal definitivo. Há cruzamentos, opacidades, linhas sinuosas, tentações, idas e vindas. Difícil, trabalhoso, mas quem disse que viver e compreender é um passeio na orla?

Abraço. E coragem.

Tá rindo de quê?

Tá rindo de quê?

Fiquem tranquilos: nenhum humorista atira para matar (Millôr Fernandes)

Era só o que faltava. A cidade de Yamagata, no Japão, aprovou uma lei em que regulamenta … o riso! Por ela, os cidadãos precisam rir uma vez por dia e os distintos parlamentares sugeriram o oitavo dia do mês como “o dia para os moradores promoverem a saúde através do riso”. Por que justamente o oitavo dia? Mistério da meia-noite. Para confeitar o bolo, pedem aos capitalistas que “desenvolvam um ambiente de trabalho repleto de risos”. Que importam jornadas de trabalho canibais e competições internas doentias? O negócio é seguir os manuais de autoajuda e o compositor brega Evaldo Braga. Sorria, meu bem, sorria!

A imagem do japonês sorridente me faz lembrar os tipos caricatos dos desenhos animados e gibis da época da Segunda Guerra Mundial. O Império do Sol Nascente era o inimigo e, como tal, tinha que ser ridicularizado pela máquina de propaganda. Popeye, na base do sopapo e umas latinhas de espinafre, afundava porta-aviões japoneses. Os marinheiros orientais aparecem como imbecis dentuços, usando óculos fundo-de-garrafa e … rindo o tempo todo!

Pode ser que os japoneses tenham especial apreço pelo controle não apenas dos espaços públicos, mas também dos comportamentos privados. Não estão sozinhos. O desejo de controle, do qual só a Morte escapa, é um nutrido ativo universal. Quando Zico foi jogar no Kashima Antlers, o futebol japonês era uma piada. O Galinho de Quintino tentou mostrar rudimentos de táticas de jogo, de colocação em campo. Foi surpreendido quando lhe pediram que fizesse um diagrama, indicando passo a passo a sequência de jogadas. Da figura A para a B, da C em direção à D, e por aí vai. Sem improviso, sem surpresas. Até chegar aos dribles, às manhas, às bicicletas, às trivelas, aos passes de letra e de três dedos, uma eternidade e meia se passou.

Rir por obrigação, por decreto, não tem graça. Certa vez, na velha cinemateca do MAM, exibiram uma espécie de Jean Manzon chinês. Lá pelas tantas, atarantados, vimos na tela uma cirurgia de grande porte e o cidadão recebia acupuntura como anestesia. Ele sorria (mesmo?), mas de nervoso. Lá dentro dos miolos devia pensar: “Desliga a filmadora, pô@##%!rra, e me dá uma dose extra de anestesia! A legítima e de boa safra!”.

Riso pode ser libertador, não tenho dúvida. Não precisa ser gargalhada. Harpo Marx, o meu Marx Brother predileto, emulava Chaplin e não falava uma única palavra nos filmes. Não precisava. Seus jogos cênicos, sua zombaria contínua, suas expressões, bastavam para descobrirmos a falta que a graça faz.

Noutra chave, tivemos Oscarito. Quem foi infante nos anos 50, há de lembrar a saraivada de chanchadas da Atlântida que assistimos. O mundo, como dizia o título de uma delas, era um pandeiro. Há cenas inesquecíveis. Em Nem Sansão, nem Dalila, Oscarito está em Gaza (!) e, vestindo um modelito saiote grego, imita Getúlio Vargas num daqueles discursos sonolentos, com sotaque gaúcho no ponto certo: “Trabalhadores de Gaza! A situação política nacional (e acentuava o ele)… está uma pouca vergonha!”. O inusitado, no caso um político sendo sincero, costuma ser bem engraçado.

Em Os dois ladrões, Oscarito contracena com Eva Todor e ambos criam um clássico. Vestido de mulher, com a mesma roupa de Eva, ele simula ser um espelho e imita todos os gestos da parceira, numa sincronia perfeita. As expressões de Oscarito tornam a cena hilariante.

Teremos motivos para rir espontaneamente na atual quadra histórica? No Rio, cientistas detectaram cocaína em tubarões. O mundo acaba de contabilizar os três dias mais quentes da história recente. A extrema-direita avança. Trump diz que o riso de Kamala é doentio. Olha, numa hora dessas vale o que o filho da dona Hermínia, Paulo Gustavo, disse com serena sabedoria: “Rir é um ato de resistência”. Porque satirizar os autoritários, com seus mal disfarçados preconceitos, os mentirosos compulsivos, os intolerantes, os chatos do politicamente correto, os picaretas de coturno variado, é uma catarse e tanto, um alívio em meio à aspereza da vida. Não é pouco.

Abraço. E coragem.

Jacques

Agonia

Agonia

Palavra boa/Não de fazer literatura, palavra/Mas de habitar/Fundo/O coração do pensamento, palavra (Chico Buarque)

Lá se vai mais uma. Seguindo a trajetória de extermínio sistemático das livrarias do Rio, está fechando as portas a Malasartes, pioneira em literatura infanto-juvenil no Brasil. Criada há quase meio século, ajudou a formar gerações de leitores, que lá apareciam latejando curiosidades e buscando letras, imagens e sobretudo afeto e acolhimento. Dona Yaci Mattos de Moraes sabia disso e foi uma espécie de mestre de cerimônia que abriu portas para a literatura.

O Rio está cada vez mais parecido com um cemitério de livrarias. Perdi a conta de quantas naufragaram nos últimos anos. Uma antiga música, lindamente cantada pelo Milton Nascimento, precisa de atualização carioca. “Estan clavadas dos cruces/en el monte del olvido”. Por aqui, as ruínas de estantes são muito mais do que duas. Não param de crescer. Eldorado, Saraiva, Entrelivros, Brasileira, São José, Emanuel, Mestre Jou, Cultura, Padrão, Galileu, Timbre, Arlequim, Camões. E aquela na rua 7 de Setembro, como se chamava mesmo?, onde numa pilha de equilíbrio incerto descobri, fantasiado de poeira, um exemplar original do Almanhaque 1955, do Barão de Itararé, com autógrafo escrachado do insigne gaúcho? Que dizer do quase esconderijo no centro velho, apertadinho que só ele, onde iniciei-me no mundo, vasto mundo, do Rubem Braga?

Bairros inteiros, com populações maiores do que muitas cidades, não têm mais livrarias. Em Copacabana, com mais de 160 mil habitantes, resiste apenas um sebo, o 2005, simpático herdeiro de uma tradição que está sendo nocauteada pelas vendas online. Perde-se o contato com livreiros interessantes, o prazer de ser surpreendido por obras que não procurávamos (e nos chamam em silêncio).

Não me esqueço do dia em que esbarrei com o Joaquim Ferreira dos Santos numa livraria. Tomei coragem e me aproximei para uma prosa rápida. Simpático, sem a menor afetação, meu cronista cativo das segundas-feiras no jornal falou sobre o leilão da discoteca do Big Boy, lendário DJ de épocas radiofônicas. Hello, crazy people, Big Boy rides again! Lembramos histórias do Zózimo Barroso do Amaral, meu parente postiço, que ele biografou com a tradicional eficiência. Se eu tivesse usado o teclado para encomendar o livro que procurava, o encontro não aconteceria.

Será acidental a coincidência do colapso das livrarias com a ascensão irresistível dos dispositivos eletrônicos? Recorro a um artigo recente do Ruy Castro para dimensionar o tamanho da encrenca. Ruy se refere à experiência narrada por uma amiga, professora universitária. Disse ela: “É uma luta fazer com que os alunos leiam um livro inteiro. Eles vivem grudados no TikTok ou no Instagram e não têm concentração. Outro dia, ao ver que todos estavam no celular, parei a aula. Perguntei a alguns o que estavam lendo – e muitos não se lembravam do que tinham acabado de ver 15 segundos atrás! Um deles disse que estava comprando uma calça comprida. Para usar a palavra que eles mais usam, não têm foco”. Mais adiante: “O vocabulário encolheu, o que significa que, em breve, só poderão expressar ideias muito simples. Não toleram nada que passe de dois minutos e meio”.

Velho rato de livrarias, fico jururu neste universo desfolhado e desencapado. Como é que tanta gente vai comunicar seus sentimentos, suas sensações por estarem no mundo, seus gostares e estranhares? Através de grunhidos? O Paulo Mendes Campos dizia que “escritor é quem não tem nenhuma facilidade para escrever”. Exatamente. Traduzir em palavras as subjetividades, o difícil exercício de viver, é correr duas maratonas por parágrafo. Sem nenhuma garantia de que se subirá ao pódio.

Há lusco-fuscos de esperança. Minha netinha querida, desde sempre fuçadora de textos e encantadora de histórias, foi comigo a um pequeno sebo. Comportou-se como veterana. Olhou sem pressa as estantes, chamou o livreiro para tirar dúvidas, deixou o inesperado fazer surpresas. Acabou escolhendo um exemplar meio velhusco em inglês (!) e voltou feliz para casa. Um tipo de felicidade que comecei a cultivar cedo e dá sentidos para seguir na estrada.

Abraço. E coragem.

Dilacerai-vos!

Dilacerai-vos!

Se algum político graúdo dissesse que, no sistema capitalista, não precisa prestar contas a ricaços e banqueiros, das duas uma: caiu de boca numa viagem lisérgica ou avaliou muito mal a correlação de forças que o sustenta no alto do pódio. Em qual das duas hipóteses você enquadraria o Lula, que disse exatamente isso dias atrás?

No primeiro momento, pensei que havia um mal-entendido. Depois, vi que a declaração era verdadeira. O companheiro ex-metalúrgico subestimou grosseiramente o terreno movediço em que pisa, iludiu-se ao achar que seu cargo executivo, com as pompas de praxe, elimina as verdadeiras fontes de poder na várzea capitalista. Seria o caso de perguntar: há mobilização popular para colocar em segundo plano os interesses do capital? Existe um projeto político, com apoio de massa e liderança consistente, para substituir o modo de produção que não para de gerar ricaços e encher as burras da especulação financeira? Um dado relevante para mostrar o desequilíbrio de forças. A parcela de trabalhadores sindicalizados no Brasil caiu pela metade nos últimos onze anos.

Sobre quem manda neste tipo de jogo, uma pequena mostra. Muita gente comenta o desempenho desastroso do Biden no debate com o Trump. Verdade, o canastrão tóxico de Mar-a-Lago, navegando num oceano de mentiras, reduziu a pó seu adversário. Poucos, no entanto, mostram o que realmente importa. Quem ganha com uma liderança como o Topete Laranja? Durante seu mandato, ele aprovou uma grande redução de impostos para os ricaços, que resultou num ganho de US$ 240 bilhões entre 2018 e 2021. Neste período, lucraram 44% a mais e pagaram 16% a menos de impostos federais. Wall Street, sempre atuando nos bastidores, não está nem aí para democracia formal, sobrevivência do planeta e outros penduricalhos “esquerdistas”.

Não acredito em mudanças a golpes de perdigotos. Isso pode ter alguma validade apenas no trololó eleitoral. Há muitos anos perdi todas as ilusões sobre o reformismo. O sistema que gera lucros privados como objetivo e espalha miséria, desigualdade e exclusão sempre terá limites para autorreformar-se. Pode-se maquiar a realidade usando, por exemplo, metáforas velhacas para exprimir velhas dominações. Chamar trabalhadores de colaboradores muda apenas as letras, a exploração permanece intacta.

Ao longo da vida, trabalhando em empresas públicas e privadas, testemunhei a cobiça, a má-fé e a desonestidade crônica de muitos capitalistas. Uma das primeiras experiências foi numa empresa produtora de fibras sintéticas, no Polo Petroquímico de Camaçari. Lá estive acompanhando o projeto pelo BNDES. Conversei com um engenheiro que estava em licença médica. Disse-me que havia contraído hepatite tóxica por falta de equipamentos de proteção que deveriam ter sido fornecidos pela empresa. A absoluta indiferença pela saúde dos trabalhadores era regra geral numa área de enorme lucratividade. Surpresa nenhuma.

Em outro momento, já como dirigente sindical, ajudei a população da Penha, zona norte do Rio, a lutar contra a poluição atmosférica despejada por um curtume no bairro. Os donos da empresa recusavam-se a instalar sistemas para reduzir a carga poluidora. O balancete tinha mais valor do que a saúde dos trabalhadores e da vizinhança.

É urgente trabalhar pela ultrapassagem do sistema que deteriora a humanidade e devasta o planeta. A desigualdade e a crueldade não surgem por geração espontânea. A apropriação privada do fruto do trabalho coletivo gera monstros como a obscena desigualdade de renda. Segundo a Oxfam, a fortuna dos cinco homens mais ricos do planeta dobrou desde 2020. No mesmo período, as 5 bilhões de pessoas mais pobres tiveram sua renda reduzida. Estudos recentes avaliam que, a seguir na mesma batida de hoje, os oceanos terão mais plásticos em 2050 do que peixes. Enquanto os super-ricos aquecem o mercado de submersíveis, gente desesperada cruza os mares em barcos precários, morrendo a granel. Como naquele que levava 170 passageiros e afundou na costa da Mauritânia, matando quase 90 deles.

Sem mobilização e luta mudarão apenas superfície e retórica. Os poderosos regurgitam migalhas anestésicas, financiam guerras e não se incomodam com gerações futuras. Para eles, a palavra de ordem estruturante é “Dilacerai-vos uns aos outros!”. Vai ficar por isso mesmo?

Abraço. E coragem.