Max, Sobral, Saádio

Max, Sobral, Saádio

A liberdade é sempre a liberdade para o que pensa diferente (Rosa Luxemburgo)

Tenho pensado no Max Yasgur. Por que será? O que tinha de especial este filho de imigrantes judeus russos, proprietário de uma fazenda nas proximidades de Bethel, estado de New York, produtor de leite e derivados? Republicano, defendia a guerra do Vietnã. Apesar disso, recebeu com simpatia os organizadores do que viria a ser um dos marcos da minha geração.

Max alugou parte de seu terreno para a realização do Festival de Woodstock, em agosto de 1969, que exibiu artistas claramente antiguerra, como Jimi Hendrix (a execução do hino norte-americano, com efeitos de guitarra que simulavam bombas, metralhadoras e gritos de desespero, virou um clássico), Joan Baez, Country Joe McDonald e Arlo Guthrie. Vizinhos, preocupados com a presença de “milhares de hippies”, reagiram exortando a um boicote aos produtos de Max, que não se intimidou.

Até aqui, apenas uma história. Continua a dúvida: por que o fantasma de Max Yosgur desembarcou nos meus pensamentos? Acho que não se trata apenas de evocar o dono de terras que viraram solo sagrado na história do rock. Ele teve, essa a chave explicativa, uma atitude que, vista hoje, nos solavancos da intolerância no debate de ideias, parece inverossímil. Como pode um sujeito acolher tanta gente que defende posturas, estilos de vida e visões de sociedade tão diferentes das dele? Com Max, podia. Ele não apenas recebeu a multidão de jovens que ia viver “três dias de paz e música”, mas, ao perceber que a comida tinha acabado logo no segundo dia do festival, doou todo o seu estoque de leite e iogurte para os famintos. Nunca tinha sequer visto um baseado, se pudesse pegaria em armas para combater os comunas de olhinhos puxados, mas lá estava, convivendo com os diferentes, falando com eles (o pequeno discurso que fez no palco do festival é uma pérola). Isso deve significar alguma coisa.

Consigo pensar em, pelo menos, dois casos brasileiros em que o conservadorismo de uns não impediu o contato com o progressismo de outros. O primeiro vem do advogado Heráclito Fontoura Sobral Pinto. O doutor Sobral. O Senhor Justiça. Durante a ditadura do Estado Novo, ele, católico, conservador e abertamente anticomunista (em 1964, apoiou o golpe contra Jango), defendeu com empenho os comunistas Luiz Carlos Prestes e Harry Berger, presos em isolamento total. Berger foi barbaramente torturado na prisão pelos esbirros de Filinto Müller. A peça de defesa, inusitada, apelou para a Lei de Proteção aos Animais. “Esta lei diz que nenhum animal pode ser posto numa situação que não esteja de acordo com sua natureza. Um cavalo não pode ficar dentro de uma baia a vida inteira, tem que sair, galopar, isto é da sua natureza. O Homem também não pode ficar numa situação dessas, contrária a tudo que há na sua natureza e na sua psicologia”.

O outro caso vem também da década de 1930 e se refere à BIBSA – Biblioteca Scholem Aleichem, entidade judaica progressista localizada na antiga Praça Onze. Os ativistas da biblioteca, que funcionava como centro social e cultural, eram constantemente vigiados pela polícia política do ditador Vargas. Naquelas circunstâncias, pertencer à diretoria da entidade era um risco nada desprezível. Eis que surgiu Saádio Lozinsky. Religioso fervoroso, sem nenhum verniz progressista, mas consciente do papel agregador da BIBSA, aceitou presidi-la. Cansou de ser convocado pela repressão para “prestar esclarecimentos”. Usava de paciência para driblar o peso da censura e manter as atividades da biblioteca.

Houve um episódio pitoresco envolvendo Lozinsky e Prestes. Ele foi narrado por Abraham Josef Schneider (Boletim ASA número 48, setembro/outubro de 1997). “Certo dia, Lozinsky manifestou desejo de, pessoalmente, homenagear Luiz Carlos Prestes, a quem eu já conhecia por ter confeccionado dois ternos que seriam usados pelo Cavaleiro da Esperança, eleito senador da República após o Estado Novo. Na condição de secretário da BIBSA, marquei um encontro na casa de uma pessoa amiga, onde Prestes teria uma grande surpresa. Lozinsky havia traduzido trechos dos Salmos, que leu após colocar a quipá na cabeça do líder comunista. Em seguida, visivelmente emocionado, ergueu as duas mãos, abençoando-o. Prestes, ateu convicto, e Lozinsky, homem extremamente religioso. Naquele momento inesquecível, prevaleceu o respeito entre duas pessoas de valor inquestionável que, de formas diferentes, sonhavam com uma sociedade justa e fraterna”.

Recupero estes fatos como instrumento para lembrar que o diálogo entre diferentes é não só possível, mas enriquecedor. Nem todos os conservadores são brucutus insensíveis, nem todos os progressistas são impecáveis democratas, infalíveis portadores do futuro. Os caminhos para o diálogo foram corrompidos por uma concepção equivocada: a de que adversários políticos devem ser cancelados, deletados, incinerados. Na melhor das hipóteses, ignorados. Claro que não me refiro aos fascistas, por natureza inconversáveis, mas aos conservadores esclarecidos. Lembro do saudoso Leandro Konder. Ainda no tempo áspero da ditadura, ele sugeriu publicamente, nas páginas do JB, um debate sobre O Capital, de Marx, com os economistas do regime (Simonsen, Delfim, Campos). Claro que o desafio não foi aceito, mas lá estava o caminho correto. Debate entre iguais costuma adernar para o monólogo. Um bocejo.

Abraço. E coragem.

Proibindo

Proibindo

Quando li Maus, muitas luas atrás, deu uma sensação de desconforto. Art Spiegelman, filho de sobreviventes do Holocausto, desenhou em quadrinhos uma história baseada em conversas com o pai e ambientada, essencialmente, no universo sombrio dos campos de concentração nazistas. Todos os personagens, e aí o desconforto, tinham corpos humanos e rostos de animais. Judeus eram ratos, nazistas eram gatos, poloneses não-judeus eram porcos. A originalidade da abordagem rendeu a Spiegelman um inédito prêmio Pulitzer para quadrinhos, em 1992.

A ousadia do quadrinista não foi sem custos. Na Polônia, exemplares do livro foram queimados na frente da casa do editor. Na Rússia de Putin, foi banido sob a alegação de que trazia uma suástica na capa(!). No início deste ano, uma junta escolar no estado do Tennessee vetou-o nas escolas públicas, alegando que reproduzia cenas de nudez e usava palavrões.

Sei que o genocídio judaico na Segunda Guerra Mundial é terreno delicado. O sofrimento de milhões de pessoas criou uma espécie de autocensura, que costuma submeter quem deseja usá-lo como tema literário, cinematográfico ou de obra de arte, a um padrão estético conservador, retilíneo, inegociável. Filmes como A vida é bela e O trem da vida, apesar de não terem finais felizes, foram duramente criticados por establishments variados pois não seguiam os modelos de praxe. A imaginação é substituída pelo olhar monocromático.

Spiegelman menciona o caso do Tennessee como indício de que os Estados Unidos estão na fase terminal de uma guerra cultural. Os inimigos principais, ocupando o lugar dos judeus na era nazista, agora são imigrantes, negros e homossexuais. “São tempos muito assustadores nos Estados Unidos. Nunca vivi nada tão regressivo”, observou, numa entrevista dada à Folha de S. Paulo.

Lendo a entrevista, lembrei-me de uma história ocorrida 56 anos atrás no sul dos Estados Unidos. Um clássico casamento entre piromania, ignorância e fúria censória. John Lennon havia declarado, na Inglaterra, que “nós (os Beatles) somos mais populares do que Jesus neste momento”. Foi o suficiente para várias rádios norte-americanas convocarem os jovens a fazerem fogueiras com os discos dos Beatles. As brasas da intolerância arderam nos neurônios juvenis. George Harrison, com seu jeito discreto, não resistiu e ironizou: “Não tem problema. Para queimar os discos, eles antes precisam comprá-los”.

Somos pós-graduados em censura. As várias ditaduras fartaram-se de mutilar textos, calar vozes, rasgar obras de arte, impugnar imagens. Durante a última ditadura, aquela festejada pelo Salnorabo (obrigado, Sérgio Rodrigues), os registros renderam volumes de Febeapá. Foram censurados jornais, revistas, novelas, músicas, peças de teatro, filmes, livros. Em Niterói, a polícia apreendeu cópias da encíclica papal Mater et Magistra. “Material subversivo”. No Teatro Municipal de São Paulo, a peça Electra foi considerada “subversiva” e agentes do DOPS tentaram prender Sófocles. Falecido em 406 a.C. A Delegacia de Costumes de Porto Alegre mandou apreender o livro O amante de Lady Chatterley. E por aí vai.

Estou terminando de ler um pequeno livro do argentino Alberto Manguel, sobre bibliotecas em geral e livros em particular. Refletindo sobre a importância, ou falta dela, da literatura nas sociedades, ele faz uma ponderação importante: “É claro que a literatura pode não salvar ninguém da injustiça, das tentações da cobiça ou das desgraças do poder. Mas algo nela deve ser perigosamente eficaz, já que todo governo totalitário e todo alto funcionário ameaçado tentam eliminá-la queimando livros, proibindo livros, censurando livros, aplicando impostos sobre livros, limitando-se a fazer de conta que respeitam a causa da alfabetização, insinuando que a leitura é uma atividade elitista”. Soa familiar? Traz à tona personagens como a Delirante das Goiabeiras, o Pastiche de Goebbels, o Kafta Vagabundo, o Tchutchuca Neoliberal?

Na nossa guerra cultural, e não tenho dúvidas de que estamos metidos numa, enfrentamos um inimigo organizado, engajado, preparado para ficar entre nós por um longo tempo. Domina a fronteira digital, onde se jogam batalhas decisivas no confronto. Ataca o conhecimento, a ciência, o direito à dúvida, o saber trazido pela memória acumulada nos livros. O sociopata sintetizou muito bem o obscurantismo em 2020, quando disse, a respeito dos livros didáticos: “Os livros hoje em dia, como regra, é um amontoado… Muita coisa escrita, tem que suavizar aquilo”. Pensar dá trabalho. Tarefa impossível para quem dá sinais evidentes de déficits cognitivo e civilizatório.

Marcos Nobre, professor da Unicamp, acaba de publicar livro sobre o governo atual. Concordo com algumas de suas conclusões. Reproduzo duas delas. “O campo democrático continua jogando amarelinha eleitoral enquanto Bolsonaro monta o octógono do MMA do golpe” e “Perdendo ou ganhando a eleição em 2022, o bolsonarismo já ganhou. Derrotá-lo será tarefa para muitos anos”. A encrenca não termina, positivamente, em outubro.

Abraço. E coragem.

Que culpa eu tenho?

Que culpa eu tenho?

No dia 27 de novembro de 1095, durante o Concílio de Clermont-Ferrand, o Papa Urbano II convocou a cristandade para o que ficou conhecido como a Primeira Cruzada. Tratava-se de organizar expedições militares para expulsar os muçulmanos que ocupavam Jerusalém e liberar o túmulo de Cristo. “Deus o quer”, disse o Papa.

Multidões abandonaram pertences e famílias e se dirigiram a Jerusalém, ungidas como “vingadores de Deus” e encarregadas de varrer os infiéis. No caminho, e é bom lembrar que aquele era um tempo de comunicações precárias, religiosos de pés descalços interpretaram à sua maneira as palavras de Urbano II e começaram a pregar o ódio contra todos os infiéis, ou seja, os não-cristãos. Cronistas da época relatam massacres de judeus que se recusavam a converter-se ao cristianismo. Ricardo de Poitiers, por exemplo, escreveu: “Os cruzados exterminaram em numerosos massacres os judeus em quase toda a Gália, à exceção daqueles que aceitaram a conversão. Diziam, com efeito, que era injusto deixar viver em sua pátria os inimigos de Cristo, já que haviam pegado em armas para expulsar os infiéis”.

O abade francês Pedro de Cluny repercutiu assim o ódio contra os “infiéis”: “De que serve ir ao fim do mundo, com grande perda de homens e dinheiro, para combater os sarracenos, quando deixamos permanecer entre nós outros infiéis que são mil vezes mais culpados em relação a Cristo do que os maometanos?”.

No fim das contas, acabava sendo um discurso que atravessou os tempos: a luta do Bem contra o Mal, sendo o Mal tudo que não coincide com determinada e arbitrária concepção de vida, religião, modo de organizar a sociedade. O Mal se converte, num processo inexorável, em abominação absoluta que deve ser exterminada. Tudo começa com a desumanização do Outro, evolui para a exaltação das massas e termina com a entronização da Morte. Com o Mal, repetiram tiranos, espertos e oportunistas de coturno variado séculos afora, não há diálogo possível.

Para ficar em poucos exemplos sobre o Mal absoluto, cito três acontecimentos marcantes do século XX. Em todos, o comunismo foi transformado em caricatura e serviu como fachada fraudulenta para o fortalecimento dos poderosos de ocasião. Em fevereiro de 1933, o Reichstag foi queimado criminosamente. Hitler acusou os comunistas pelo incêndio, abrindo caminho para sedimentar entre os alemães a imagem dos “ardilosos e antigermânicos vermelhos”. O PC alemão, que tinha força eleitoral e penetração popular, foi abatido por perseguições ferozes e acabou proscrito. Os comunistas alemães, ombreados aos judeus, foram transformados no Mal absoluto que devia ser eliminado.

Pulando algumas décadas, vamos para a Indonésia. Em 1965 e 1966, sob o manto do anticomunismo, militares e bandos civis mataram cerca de 1 milhão de pessoas. Vários milhões foram presos, torturados e levados para campos de concentração. Os assassinos tiveram apoio ostensivo dos Estados Unidos, com olho gordo no petróleo indonésio. Os massacres foram facilitados pela propaganda oficial, que mostrava os comunistas como seres desprovidos de humanidade. Novamente a fantasia do Mal absoluto, aqui transformando o que deveria ser luta política em guerra de extermínio.

O que dizer do macartismo, nos anos 1950? O Comitê para Investigação de Atividades Antiamericanas no senado norte-americano denunciou milhares de cidadãos, acusando-os de comunismo ou simpatia por ele. Encarnação do Mal absoluto. Muitos foram demitidos e banidos de sua atividade profissional, especialmente na área artística. Assistidas hoje, as imagens do senador Joseph McCarthy, fanfarrão medíocre no papel de Torquemada, parecem ridículas, mas significaram a destruição de muitas vidas.

Criminoso não é somente quem aperta o gatilho, desembainha a peixeira ou desfere socos megatônicos. Os que estimulam a violência por palavras e/ou omissão premeditada são igualmente culpados. O discurso de ódio do atual presidente da República, que não se cansa de repetir que estamos em plena luta do Bem contra o Mal, amplia o espaço para que todo tipo de fanático e desequilibrado se sinta à vontade para descarregar seus instintos bestiais.

Quando, ao reagir ao assassinato de um militante do PT em Foz do Iguaçu por um bolsonarista, o presidente pergunta “O que eu tenho a ver com esse episódio?”, a resposta é simples: tudo. Reconheço que não deve ser fácil para alguém com claro déficit neuronal e civilizatório compreender esse tipo de situação. O Parasita Esquizoide não consegue entender como sua retórica violenta produz violência. Finge desconhecer que seus mais de 20 atos que facilitam a compra e posse de armas, seus elogios à ditadura e à tortura, sua absoluta incapacidade de reconhecer a legitimidade das diferenças, seu destempero recorrente contra instituições democráticas, acabam naturalizando ideias e palavras intolerantes. Daí para o ato violento a distância fica cada vez menor. Palavras, reconheça ou não o Obtuso Mor, produzem consequências.

Comecei falando de Cruzada e termino retornando ao tema. Na recente Marcha para Jesus, o beócio clamou, novamente, por uma “guerra do Bem contra o Mal”. O apóstolo Estevam Hernandes, idealizador do evento, declarou, sem ruborizar, que seu ilustre convidado é um “homem escolhido por Deus”. Lembrei de imediato de uma ejaculação verbal do beócio, em 2017, dizendo que o Brasil é um Estado cristão e que ou as minorias se adequam a isso ou desaparecem. A promiscuidade entre religião e Estado, “Deus o quer”, levou a razzias assassinas contra judeus e não-cristãos no século XI. Aonde levará neste assustador século XXI?

Abraço. E coragem.

Carta ao WO

Carta ao WO

Rio 40 graus/Cidade maravilha, purgatório da beleza e do caos (Fernanda Abreu)

Meu caro Washington Olivetto,

A gente não se conhece. Sei de você através da notória paixão corintiana, de algumas crônicas semanais n’O Globo e de comerciais especialmente criativos produzidos para a Valisére (o primeiro sutiã a gente nunca esquece) e os da longa série que o Carlos Moreno interpretou para o Bom Bril. Tinha esse currículo na cabeça quando li seu texto O Rio de Janeiro continua lindo, publicado no dia 4 de julho. Queixo caído! Será mesmo que você acredita que seu filho foi “para o céu” ao visitar o Rio recentemente? Por acaso imagina que nós, cariocas, acordamos todos os dias e, sorriso no rosto e alma leve, caminhamos alegremente pela cidade? Quiçá não sabemos separar o descompromisso dos turistas VIP do cotidiano de quem mora aqui e não tem como fugir “para a vida real” em Londres?

Verdade, prezado Olivetto, que a natureza continua deslumbrante como sempre. As aves de rapina não conseguiram destruí-la. Garotinho, Sérgio Acho que Exagerei Cabral, Pezão, Crivella e Wilson Tiro na Cabecinha Witzel deixaram intactos o Jardim Botânico, a silhueta da orla marítima, o beijo do Sol no Oceano Atlântico, a Floresta da Tijuca, o Aterro do Flamengo. Legaram, no entanto, uma cidade ferida, com vísceras infeccionadas, povo cabisbaixo e um salve-se-quem-puder na ocupação dos espaços públicos. Longe da fantasia ultrapassada de Cidade Maravilhosa. Maravilha para quem, cara-pálida?

Desigualdade 1Seu filho frequentou o pequeno circuito gourmet dos restaurantes estrelados. Desses que até para ler o cardápio talvez seja necessário pagar couvert. Feliz do seu garoto, salve ele. Não têm a mesma sorte os 2,8 milhões de cidadãos fluminenses, a maior parte deles habitantes da capital, que passam fome. O que será que pensam sobre as belezas de uma cidade só acessíveis a uma minoria? Alguém de estômago vazio pode achar que o Rio continua lindo?

Menino espera comida lado de fora de restauranteNão conheço ninguém que ande despreocupado pelas ruas da cidade. Na Zona Sul, há em curso uma explosão de assaltos, praticados, não raro, com grande violência. Em outras áreas convive-se com arrastões. Regiões inteiras são dominadas por milicianos e outras modalidades de crime organizado. Pesquisa fresquinha mostrou que o risco de ser assassinado assombra 84% dos moradores. O governador atual bateu todos os recordes de chacinas em favelas, cujas vítimas são especialmente negros. By the way: cerca de 20% da população moram em favelas. A miséria se alastra furiosa e, com ela, aumenta o número de pessoas que moram nas ruas e sobrevivem de esmolas e restos de comida. A manutenção deficiente dos equipamentos urbanos transforma calçadas em armadilhas perigosas, paraíso de ortopedistas e pânico de emergências hospitalares.

Seu filho e amigos aproveitaram a famosa feijoada da tia Surica e se deliciaram com o samba ao redor. Ótimo. Para ter uma experiência gastronômico-musical completa, no entanto, precisariam dar um pulo nos famigerados circuitos de bares que se espalharam como praga pela cidade. O barulho insuportável que provocam frequentadores e “músicos” que gravitam em torno deles guilhotinam o direito ao descanso de muitos milhares de cariocas. Ante a mais absoluta indiferença do poder público, pendurado no mito do carioca gente boa, feliz e festeiro.

Constatei aliviado que a excursão filial terminou o passeio ilesa. Mesmo destino não tiveram os adolescentes e crianças vítimas de balas perdidas, triste rotina na cidade. Só no ano passado, foram sete menores mortos dessa maneira.

Com tudo isso, fica difícil concordar com o que disse seu filho ao final da experiência carioca: “Fizemos um curso de pós-graduação de vida”. Como dizia aquele personagem de um programa humorístico, há controvérsias. Da minha parte, acho que ele fez apenas um curso introdutório ao estilo de vida dos ricos e candidatos à riqueza. Com tapumes convenientes, reais ou simbólicos, segregando imagens e pessoas que, afinal de contas, constituem a imensa maioria da população. Invisíveis aos olhos das castas privilegiadas. Vida é espelho multifacetado. Não sendo assim, é pura miragem de passageiros da ilusão.

Se me permite, faço uma sugestão. Recomende a seu filho que, da próxima vez que vier ao Rio, procure os focos de resistência à ruína que dilacera a cidade. Há muitos, como as várias galerias de arte que florescem nas favelas e periferias. Darão ao jovem herdeiro uma visão matizada da cidade que, hoje, perdeu o encanto e o glamour que você idealizou no seu artigo. Uma visão muito bem captada pela Fernanda Abreu, que citei logo no início dessa carta.

Um abraço. E coragem.

Germano, Carlinhos, Jadir

Germano, Carlinhos, Jadir

Um gosto de amora/comida com sol. A vida/chamava-se: ‘Agora’ (Guilherme de Almeida)

Politheama, Politheama/o povo clama por você/Politheama, Politheama/cultiva a fama de não perder. Assim começa o hino de um time de futebol, composto não pelo Lamartine Babo, responsável pelos hinos dos principais times do Rio. O compositor é Chico Buarque, dedicado ao time de peladas (acho que ele não gosta desse rótulo para um plantel de longa invencibilidade) que mantém com amigos há muitos anos. O pessoal brinca que o time joga por música, uma espécie de Real Madri slow motion.

O que pouca gente deve saber é a origem do Politheama. Ele nasceu como futebol de mesa ou, mais apropriadamente para minha memória ludopédica, jogo de botão. Chico é animado praticante dessa antiga simulação do “velho e violento esporte bretão”. Disse que, depois de algum tempo, os botões foram promovidos a seres humanos e o Politheama saiu da mesa de madeira, vestiu uniforme e chuteiras e adentrou o gramado na zona oeste carioca, aparado a capricho. Não sei se pelos mesmos bodes que fazem o serviço em Figueira de Melo.

Nesta época de idolatria dos jogos eletrônicos hiper-realistas, de dedos rápidos e neurônios escassos, pensava que o jogo de botão habitasse a galeria das espécies em avançado estado de extinção. Vai daí a surpresa quando li que um campeonato nacional da modalidade, reunindo mais de duzentos praticantes, acaba de acontecer em São Paulo. A turma viajou por conta própria e ninguém recebeu prêmio em dinheiro. Os vencedores ganharam modestos troféus, dignos de quem joga por amor à causa. E não se pense que eram apenas saudosistas de cabeleiras brancas ou calvícies avançadas, na eterna e inútil tentativa de desidratar o tempo vivido. Lá estavam jovens de 11 estados. Poucos, é verdade, com menos de 20 anos. Esses são da geração seduzida por telas e monitores, difícil largar deles. É o pessoal que vai aos estádios e, ao invés de se concentrar no campo, passa o tempo todo tirando selfies.

Já naveguei muito por esses mares. O Menino virou artesão instantâneo e aprendeu a lidar com cascas de coco seco, fichas plásticas de ônibus e cassinos, botões de roupas. Garimpava tampas de relógio e pequenas placas de chumbo para servir de peso aos heroicos goleiros de caixas de fósforos Fiat Lux. O time ia nascendo aos poucos, untado com cera de assoalho para deslizar melhor pelos gramados de taco ou compensado. Cada bolachinha redonda era o craque imaginário. Aquele, coco reluzente, rápido como o Germano, ponta-esquerda do Flamengo. Já esse outro, elegante, era o Carlinhos, meio-de-campo de fino trato. Acolá, o Jadir, zagueiro implacável, robusto quebrador de ossos.

Absorvi lentamente a introdução de novos materiais nos botões. Galalite e baquelite tinham produção em massa e muitos sucumbiram ao conforto da novidade. O time já vinha pronto para consumo. Resisti até o último perna de pau. Guardava o time principal numa pequena caixa de plástico, que se perdeu em alguma mudança. Na época, não senti muita falta. Era a fase de conclusão da adolescência, quando é comum se queimar pontes com a infância para confirmar a vereda adulta. O homenzinho que nascia, ritual de passagem, tinha que apagar o trajeto pueril. Hoje, gostaria de tocar novamente naqueles companheiros de viagem, que pari com o pouco que a vida me oferecia. Não dá. Paciência.

Em recente entrevista, Woody Allen confessou que já não tem prazer em filmar. Para ele, a experiência do cinema se esvaziou. Não se tratava apenas de assistir filmes, mas vivenciar uma experiência coletiva, que incluía saborear o escurinho da sala de projeção e compartilhar as impressões do que foi assistido com quem estava junto. Por outro lado, havia bons roteiros e ótimos diretores, sem uso exaustivo dos efeitos especiais e com intenções mais elevadas do que as fantasias infanto-juvenis. Pensar não era clamar por adrenalina e testosterona. Quando perguntado sobre quem gostaria de ter dirigido em sua longa carreira, 49 longas no currículo, citou apenas comediantes do passado. Tem saudade de outras épocas.

Compreendo Allen. Não se trata de querer de volta o pirulito de framboesa, de vestir calça curta e calçar Vulcabrás, de andar de lotação e bonde, de jogar bola ou búrica no terreno baldio. Creio que certas lembranças apenas evocam um tempo menos acelerado, em que havia menos abundância, mas a imaginação era expandida. Germano, Carlinhos e Jadir são símbolos desse tempo.

Abraço. E coragem.

Em cima da queda, coice

Em cima da queda, coice

A casa não difere das outras da zona rural de Teresina. Paredes de barro, chão de terra batida, sala, quarto e pequena cozinha. Dentro do espaço apertado, vivem sete pessoas. O casal e seus quatro filhos dormem todos no único quarto, espalhando-se como podem em camas, redes e colchão no chão.

Alguém mais atento vai dizer: peraí, tem uma conta errada. Casal, quatro filhos, tudo junto dá meia dúzia, não sete. Verdade, esqueci de acrescentar o bebê de nove meses, que dorme aninhado nos pequenos braços de sua mãe, menina de 11 anos. Ela foi estuprada por um primo quando tinha 10 anos, em matagal próximo à casa. Quando soube da gravidez, a mãe a levou ao médico, que desaconselhou o aborto, alegando que havia perigo de morte para a menina e o bebê.

A jovem mãe abandonou a escola, tornou-se quieta, reclusa, nervosa e agressiva. Recusa-se a conversar com psicólogos. Sequelas comuns aos menores que sofrem abuso sexual no Brasil. Entre 2017 e 2020, mais de 179 mil crianças e adolescentes foram vítimas de estupro. Quase um estupro a cada dez minutos. Na grande maioria dos casos, ele acontece dentro de casa e os violadores são pai, padrasto, tio, avô, irmão. As vítimas, traumatizadas e carregando danos psíquicos severos, têm suas infâncias sequestradas.

Vi a foto de perfil da menina piauiense na primeira página da Folha de S. Paulo. Com seu bebê no colo, à maneira com que devia fazer com as bonecas. Tive um misto de revolta e dor. Fora do meio acadêmico e dos nichos feministas, não existe um debate sério no Brasil sobre o aborto. O espaço público está dominado por fanáticos fundamentalistas, que interditam o diálogo mais do que necessário. Já tivemos uma ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos que fez o que pôde para evitar que uma criança de 10 anos, no Espírito Santo, grávida por estupro, interrompesse a gravidez. Mulher dada a delírios místicos sobre árvores frutíferas, acompanhou impassível as manifestações de odor medieval que pressionaram a menina a persistir na gravidez. Antes de assumir o cargo, afirmou que “especialistas” holandeses recomendavam que meninos devem ser masturbados a partir de 7 meses de idade. Esse é o nível asqueroso em que vivemos, combinando religião com ignorância, preconceito com desinformação. Não é de se espantar que as falanges reacionárias tenham celebrado a decisão da Suprema Corte norte-americana, que suspendeu o direito ao aborto legal. Retrocesso civilizacional de meio século.

Com medo de desagradar eleitores, os políticos se acovardam e evitam incluir o tema em seus programas eleitorais. Pior. Quando assumem cargos executivos, apagam-no de seu mapa de prioridades. O resultado me faz lembrar de um velho adágio popular. Em cima da queda, coice.

A psicóloga Daniela Pedroso, que atende vítimas de violência sexual em São Paulo, relata um caso que reforça a dimensão da tragédia humana em curso. “Atendi uma vez uma menina de dez anos que chegou grávida ao serviço. Ela estava no banho e viu sair leite do seio. Gritou pela mãe. Foi aí que ela conseguiu contar para a mãe que tinha sido estuprada pelo padrasto. Estava grávida de cerca de 20 semanas”.

Crianças que, sem qualquer condição física e psíquica, assumem maternidades. Infâncias assassinadas por abuso. Millôr Fernandes desenhou poeticamente esta fase da vida: “Pegamos o telefone que o menino fez com duas caixas de papelão e pedimos uma ligação com a infância”. Para as violentadas, o barbante é bruscamente cortado. Sobram os fantasmas que as assombrarão pelo resto de suas vidas.

Abraço. E coragem.