Gato por lebre

Gato por lebre

A raça humana não consegue suportar muita realidade (T. S. Eliot)

No Brasil, está mais fácil encontrar influenciadores digitais (“influencers”) do que dentistas ou arquitetos. Segundo uma empresa multinacional de pesquisas, há no país meio milhão de influenciadores digitais, contra 374 mil dentistas e 212 mil arquitetos. Quem são estes iluminados, que conseguem a proeza de chamar a atenção na selva virtual? Teriam a mesma capacidade de envolver interlocutores como faziam os que nós, das antigas, chamávamos de formadores de opinião?

Uma pequena pesquisa e tiro o coelho da cartola. Trata-se, essencialmente, de um enorme departamento de vendas, maquiado como inocente peça da indústria de entretenimento. Usa o voyeurismo patológico que se espalha como praga pelo planeta e vende de tudo. Os influenciadores são veículos de propaganda, que vendem de shampoo a leite de cabra, de cortes de cabelo a pacotes turísticos. Donos de animais, há sacerdotes da fofurologia que usam os bichinhos para faturar no mercado pet (bleargh!). Estão à venda também espaços para lançamento de carreiras políticas. Em São Paulo, policiais influenciadores aproveitam o sucesso de vídeos de operações espetaculosas e lançam candidaturas às próximas eleições.

O fenômeno está longe de ser apenas verde-amarelo. Deu no New York Times. A notória Kim Kardashian, com 316 milhões de seguidores, lançou uma linha de produtos para manter a pele jovem. Mesmo sabendo que suas opiniões são levadas a sério por milhões de pessoas, que tendem a imitar seus gostos, afirmou que “se você me dissesse que literalmente teria que comer cocô todos os dias para parecer mais jovem, eu comeria, eu simplesmente comeria”.

O mercado de influenciadores segue uma lógica simples. Quanto mais repercussão alcança uma postagem, mais valorizado fica seu divulgador e mais chance terá de ser contratado para campanhas promocionais. A repercussão é medida pelo número de acessos às postagens. Como era de se esperar, já existem artifícios para turbinar perfis na internet. São as chamadas fazendas de cliques. Gente que, usando contas falsas, multiplica as curtidas e os comentários nos perfis dos influenciadores. É um trabalho mal remunerado, sem qualquer proteção social ou trabalhista, típico da precarização que engole boa parte dos empregos no Brasil.

Os números deste mercado impressionam. Em 2021, as redes sociais receberam R$ 1,43 bilhão em investimento publicitário. Valor maior do que a soma do investimento em rádio, jornal, revista e cinema.

Acho que mal arranhei a superfície deste planeta estranho. Um planeta onde tudo é aparência e, lembrando o que Marx disse sobre o capitalismo, se transforma em mercadoria. Desde relações amorosas até espaços reservados à privacidade. Não me surpreende que se projete para o futuro próximo a consolidação de um metaverso, onde cada indivíduo terá um avatar a representá-lo. A fronteira entre o real e o virtual estará definitivamente violada.

Quem terão sido meus influenciadores ao longo da vida? Os de carne e alma, que abriram veredas de encanto, beleza e criatividade e mostraram sentidos que eu desconhecia? Fujo por um instante do clichê freudiano (pais, tios avós, primos) e penso nos músicos e cronistas, nos jogadores de futebol que saíram da rotina e no professor de química que sabia grego, nos (poucos) que souberam combinar política e afeto, nos atores e diretores de cinema e teatro, nos que souberam dizer as palavras certas em momentos incertos. Talvez nenhum tenha sido tão fundamental quanto Long John Silver, o pirata n’A Ilha do Tesouro. O livro de Robert Louis Stevenson foi devorado pelo Menino e a identificação com o pirata da perna-de-pau foi instantânea. Acho que até hoje sou um pouco como ele. Sei, ou suponho saber, qual é o tesouro na ilha remota, mas o caminho até lá não é fácil, não é tarefa individual e o mapa para alcançá-lo não basta. Mesmo sem resultado garantido, a viagem vale a pena.

Abraço. E coragem.

Mata um homem e come

Mata um homem e come

A voz da consciência e da honra é bem fraca quando as tripas gritam (Diderot)

Na porta da pequena agência bancária ele surgiu. Muito magro, andrajoso, olhar de desespero. Pedia, ou melhor, implorava algum dinheiro, estava com muita fome. Repetia e repetia, os ouvidos que passavam não o ouviam. Invisível. Até que alguém se compadeceu e lhe deu uma pequena quantia. O homem se retirou, não sem antes agradecer a Jesus por aquela caridade. “Jesus é muito bom”, asseverou. Na penúria obscena, era-lhe impossível ocorrer a pergunta evidente: se Cristo é realmente uma boa alma, por que permite a degradação da miséria e de corpos famintos? Olhando a cena, não pude evitar a imagem de Primo Levi: era aquilo um homem?

Poucos metros adiante, uma igreja. Imponente. Ao lado de sua escadaria frontal, uma mulher dormia na calçada. Despertou devagarzinho e seu olhar me chamou a atenção. Era meio morto, desprovido de qualquer traço de esperança. Quase se arrastando vai até uma banca de jornais e pede, com o embaraço dos resignados, um pacote de biscoitos. Silêncio como resposta. Invisível. Afasta-se, preparada para mais um dia de triste sobrevivência.

Entre a agência bancária e a igreja, cruzo com famílias abrigadas do frio nas calçadas. Há cada vez mais gente se amontoando nas ruas, exércitos de miseráveis que buscam as sobras de uma sociedade que prefere ignorá-los. Exércitos desarmados, hospedeiros de uma revolta adormecida. O que acontecerá quando acordar? No tempo do Menino, costumávamos brincar quando o estômago gemia: “Tá com fome? Vai na rua, mata um homem e come”. Não devíamos nos espantar quando um desesperado rouba ou até mata para comer.

Enquanto o Abominável Homem das Trevas bravateia que o Brasil alimenta um bilhão de pessoas no mundo, surgem números da fome no Brasil. Cerca de 6 a cada 10 brasileiros convivem com algum grau de insegurança alimentar, isto é, “não possuem acesso físico, econômico e social a alimentos de forma a satisfazer suas necessidades” (definição da FAO). Aproximadamente 33 milhões de pessoas passam fome no país. Outro dado que chama a atenção. Em 2022, um a cada três brasileiros fez alguma coisa que lhe causou vergonha, tristeza ou constrangimento para conseguir alimento. Não é difícil imaginar que tipos de situações humilhantes/degradantes. Lembram do Gonzaguinha? “Mas doutor uma esmola/para um homem que é são/ou lhe mata de vergonha/ou vicia o cidadão”. Segundo um estudo da FGV, a proporção de brasileiros que não teve dinheiro para comer em algum momento em 2021 subiu quatro vezes mais do que a média dos 120 países pesquisados. Para adornar a torta letal, o IBGE informa que os 5% da população com menor renda, os mais pobres entre os pobres, tiveram queda de quase 34% no rendimento médio de 2020 para 2021.

Enquanto as hordas liberais vão despejando políticas econômicas que privilegiam os barões do capital, concentram renda e multiplicam o desespero, surgem aqui e acolá soluções mágicas para melancolias e carências. Verdade que são do ramo das Organizações Tabajara, mas vai que…

Uma certa senhora, que ocupa espaço nobre em jornal de grande circulação, ensinou o mapa da mina. Anote aí, não seja incrédulo. Espalhe a rodo e as massas serão redimidas. Começa com uma para mim desconhecida versatilidade do Santo Antônio. Achava que era apenas o santo casamenteiro. Pelo visto, tem mais poderes. Vamos lá. Asse treze pãezinhos e coloque-os ao lado de uma imagem do santo, na noite de 12 para 13 de junho. Se for em outra noite, peça à prodigiosa criatura para dar um jeito. Afinal de contas, estamos no Brasil. Não se esqueça de acender uma vela. No dia seguinte, deposite um dos pães na sua despensa. Dê os demais para pessoas de suas relações, alertando-as para que também os coloquem na despensa. Voilà! Seus problemas acabaram. Você terá um ano de alegria e fartura. A garantia de sucesso é a mesma de qualquer horóscopo, tarô, bola de cristal, borra de café. Como diria o seu Creysson: Eça eu agarantio!

Abraço. E coragem.

Horrores liberados. silêncios sequestrados

Horrores liberados. silêncios sequestrados

O homem moderno perdeu o prazer do silêncio (Mário da Silva Brito, poeta)

Entrar numa banca de jornais nos anos 50 e 60 era uma festa. Além dos quadrinhos clássicos, criados por craques como Will Eisner, Hal Foster, Lee Falk, Al Capp, Alex Raymond, Jerry Siegel e Joe Shuster, havia a transcrição para gibis de personagens radiofônicos. Quem acompanhava as aventuras do Jerônimo, herói do sertão, pelo rádio (“quem passar pelo sertão, há de ouvir alguém falar, do herói dessa canção, que eu venho aqui cantar”), podia vê-lo desenhado nas páginas dos gibis. Ao lado da Aninha e do Moleque Saci (um jovem negro subalterno, espécie de Lothar sertanejo, que certamente seria vetado hoje em dia). O mesmo acontecia com o detetive Anjo, interpretado no rádio por Álvaro Aguiar. Auriverde homenagem ao Nick Holmes.

Tempos ingênuos. Como ingênuas eram as histórias de terror nacionais que se vendiam ao lado de Ferdinando, Príncipe Valente e Mandrake. Mortos-vivos se levantando das tumbas, mulheres em poses sensuais, roupas rasgadas em áreas estratégicas, assediadas por vampiros sedentos de sangue (ou seria de partes menos declaráveis para a moral da época?), frankensteins em múltiplas versões, mulas sem cabeça. Os desenhos podiam até ser pouco elaborados, mas eram suficientes para deixar o Menino sobressaltado, inseguro sobre mundos de além-túmulo.

Hoje, o terror ganhou capilaridade. Ultrapassou as fronteiras de cemitérios, cantos escuros, caninos afiados, morcegos, peles em decomposição. Tudo não passa de invenção amadorística perto do cortejo de sustos e arrepios que nos assalta a cada dia.

Estupro e morte de uma garota yanomami. Maldição das madrastas, que andam envenenando enteadas e jogando criança pela janela (será que aposentaram as sogras?). Milicos debochando de torturados pela ditadura. Projetos obscurantistas de expansão da homeschooling e cobrança de mensalidades nas universidades públicas. Armamento amplo, geral e irrestrito. Invasão de terras indígenas pelo garimpo ilegal. Falanges histéricas antivacina e anticiência. “Eu não posso usar meu Viagra, pô?”. Massacres policiais no Rio, execução em câmara de gás improvisada por policiais em Sergipe. Insegurança alimentar dobrando no Brasil em sete anos e afetando mais as crianças. Entre os mais pobres, a fome tem nível de países africanos. Lembram do que o Animal Abjeto disse em 2019? “Falar que se passa fome no Brasil é uma grande mentira”. Sabujismo explícito de autoridades a um bilionário norte-americano golpista, aliado de Donald Trump. Concentração obscena de riqueza: nos últimos dois anos, o mundo ganhou um novo bilionário a cada 30 horas; em 2022, nas mesmas trinta horas surgirão um milhão de novos pobres. “O nazismo era um movimento de esquerda”. Perto de tantas e tamanhas mediocridades e assaltos à razão, ao estômago e a um mínimo de decência, quem tem medo de Virgínia Woolf, digo, de Drácula?

Nessas horas, dada a dimensão dos estragos provocados no país por Sua Ignorância Repugnantíssima e as quadrilhas de seguidores fanatizados, certos problemas aparentemente menores parecem murchar. Quem dá bola, por exemplo, para o barulho descontrolado nos espaços comuns e áreas densamente habitadas em cidades grandes? No Rio, a tentativa de banir caixas de som das praias e reduzir a balbúrdia na praça São Salvador, em Laranjeiras, é criticada como “elitista” e inibidora de manifestações populares. A pessoa chega na praia, saca sua arma, digo, a potente caixa de som, atormenta até os pobres albatrozes, e acha que tem direito à “válvula de escape”. Na praça, rodeada por prédios habitados, o barulho que vai madrugada adentro produz, há anos, olheiras aterrorizantes em gente que não consegue dormir. Tristes tempos, em que o silêncio virou privilégio da “elite” e insidioso censor antipopular.

Na reconstrução nacional que, espero, não demora a começar, estará na pauta recuperar a noção de cidadania. Um conceito que envolve, obrigatoriamente, olhar em volta e perceber o alcance das ações individuais, em que medida um gesto pessoal afeta o ambiente em que ele se insere. Uma coisa é fazer uma roda de samba, um barulho amplificado ou uma batucada enlouquecida no deserto do Atacama, cercados por cobras, lagartos e a música do vento. Outra, muito diferente, é invadir sistematicamente com ruídos infernais residências de trabalhadores, massacrando o seu direito a um pouco de descanso e paz. Precisaremos educar os cidadãos a aceitar que espaço público não é área de vale-tudo, nem propriedade privada de desejos individuais.

Abraço. E coragem.

Seleta paulistana

Seleta paulistana

São, São Paulo quanta dor/São, São Paulo meu amor (Tom Zé)

Nunca pisei na Estação da Luz, muito menos esperei o trem das onze. Apenas imaginei a cena de sangue num bar da avenida São João. Convidado pelo Adoniran em pessoa, talvez fosse a um samba no Bexiga. Só não gosto da ideia de um quebra-pau com bracciolas arremessadas no Nicola. Povero ragazzo. Queria sentir o cheiro do Buraco da Sara, lá no Bom Retiro. Houve nariz, mas faltou oportunidade. Meu sonho de boleiro era assistir um treino da primeira Academia, no gramado do Palestra. Ficou só no devaneio. Valdir, Djalma Santos, Servílio e Julinho Botelho são apenas um retrato desbotado que sorri.

Com esses antecedentes, minha relação com São Paulo nunca passou de uma vaga declaração de intenções. Jamais dei bola pra lendas como túmulo do samba, o Vinícius devia ter tomado whisky batizado quando falou isso, e população sempre apressada, sem tempo para afetos. Em épocas diferentes, tive pequenos encontros com a cidade. Sem perceber, invadiram solo sagrado: o das lembranças formadoras.

Meados dos anos 70. Animado com a leitura de um livro sobre a história do movimento sindical brasileiro, propus uma extravagância ao amigo com quem rachava o apartamento em esquema mezzo república estudantil. Leia-se: penúria escrachada. Que tal, atrevi-me, darmos um pulo em São Paulo e conversarmos com imigrantes italianos que tiveram alguma experiência de luta sindical? A seco, sem conhecer ninguém, com a cara, escassos trocados e a coragem. Para meu espanto, o amigo topou. No fim de semana, partimos no fusquinha desabituado a atravessar fronteiras.

Nem me perguntem como, mas acabamos dando no Bexiga. Ainda cedo de manhã, batemos na porta de uma casa qualquer. Apareceu um daqueles personagens saídos de manuais anarquistas. Cabeleira vasta, embranquecida, bigode à la Bartolomeo Vanzetti, olhos pregados no futuro. Nos convidou a entrar, serviu um café e abriu os trabalhos. A gente não conseguia acreditar no que estava acontecendo. Ligamos o gravador e registramos passagens vividas da história social do país. Greves de sapateiros, alfaiates. Enfrentamento da repressão. Construção de fraternidades operárias. Imprensa anarquista. Saímos deslumbrados, tínhamos em mãos um documento precioso. Na volta ao Rio, choque de realidade. Passávamos por um dos momentos mais duros da ditadura civil-militar. Terrorismo de Estado, Armando Falcão anunciando com ar sinistro o estouro de uma gráfica clandestina do PCB, militantes sequestrados e mortos. Medo. Tomamos uma decisão terrível, mas necessária. Não podíamos conservar as fitas cassete, eram prova de “subversão”, perigo de vida. Foram destruídas. O que não se apagou foi a memória da São Paulo de imigrantes, da São Paulo pelejadora, da São Paulo operária.

Não muito tempo depois, voltei à cidade. O Ibirapuera estava promovendo uma Arca de Noé, exposição zoológica com demonstrações de adestramento de animais, extração de venenos de cobras e outros detalhes mimosos. O programa não era exatamente excitante, apenas pretexto para um passeio. Hospedamo-nos no hotel Jaraguá, centro histórico de São Paulo, sede do Estadão. Ao desfazer as malas, dei um tapa na testa. Caramba! Esqueci de trazer sapatos. Entre meus pés e o chão havia uma fina película de borracha chamada sandália. Bem, pensei, se não chover dá para levar na esportiva. Torci contra a fama de terra da garoa. Sempre achei que ela não passava de uma demonstração do que Pedro Nava dizia: o sentimento mais comum do ser humano é a má vontade. Que nada. Por dois dias, com persistência bíblica, choveu aos potes, suficiente para justificar a arca que viéramos assistir. A sandália só não virou pé de pato por descrença no transformismo. Ali estava, pujante, a São Paulo úmida, a São Paulo aquífera, a São Paulo glub glub.

Nos últimos dias, duas notícias paulistanas contrastantes. Na contracorrente do que se observa, por exemplo, no Rio, há uma onda de abertura de livrarias de rua. Desde 2021, abriram pelo menos dez. Artesanais, especializadas, focos de atividades culturais, há de tudo. Inclusive uma que ocupa o lugar onde anteriormente funcionava um bar (quem dera isso indicasse uma tendência!). Na outra ponta da civilidade, uma loja de armas promoveu festança para lançar fuzis para pronta entrega. São armas semiautomáticas, vendidas por módicos R$ 20 mil, proibidas para venda no Brasil até o Repugnante tomar posse. No seu mandato, já foram produzidos 38 documentos que facilitam armar “cidadãos de bem”. Além de armas de fogo, a loja vende, por exemplo, bastões de beisebol utilizáveis para espancar gente. Neles, há inscrições como Amansa Loco, Respeito, Direitos Humanos e, sem surpresa, Diálogo.

Esta é a São Paulo que, como todos nós, está envolvida numa gangorra de Vida e Morte, de Cultura e Barbárie, de Futuro e Desesperança, de Criatividade e Destruição. Valei-nos, Juó Bananère!

Abraço. E coragem.

Senso, dissenso

Senso, dissenso

Ira furor brevis est (A cólera é uma loucura breve – Horácio, no livro de Epístolas)

Chegou a minha vez. Fui cancelado. Verdade que não foi aqueeele cancelamento, reação em cadeia de eliminação sumária nas redes sociais, mas a supressão do meu nome da lista de uma frequentadora do Facebook.

Como se deu o furdunço? A drag queen Rita von Hunty, pessoa muito politizada e com importante penetração em redes sociais, fez críticas ao Lula, com argumentos respeitosos. Sugeriu que os eleitores avaliassem um “voto radical” para presidente no primeiro turno, acompanhando as candidaturas lançadas pelo PCB e pela UP. Em nenhum momento subestimou o perigo do continuísmo bolsonarista, nem descartou a unidade antifascista para o segundo turno.

Houve reações furiosas, baseadas numa espécie de imperativo categórico: só o voto no Lula já no primeiro turno é correto, não existe legitimidade para quem pensa diferente. Incomodado com essa encarnação torta de infalibilidade papal, recheada de cólera e autoritarismo, resolvi dar um pitaco e escrevi pequena nota defendendo não apenas o direito de Rita emitir opinião, mas também concordando que, na hipótese de não se configurar vitória de ninguém no primeiro turno (como todas as pesquisas até agora indicam), é perfeitamente defensável um voto à esquerda do companheiro ex-metalúrgico. Claro que fundamentei meu raciocínio em premissas que julgo corretas.

A maioria das reações à minha nota foi educada, inclusive as de pessoas que discordam de mim. Todas elas foram muito bem-vindas. Ocorre que, em meio aos comentários, houve um bombardeio cruzado entre dois comentaristas, que terminaram por azedar o clima. A escalada terminou em ofensas e os estilhaços explodiram no meu colo. Impressionante a incapacidade de se conviver com o dissenso, na mesma linha das briguinhas infantis quando trocávamos de mal. Lembram? Cruzar os dedos mindinhos era sinal de racha…

Uma das comentaristas, indiferente ao fato de que a troca de ideias era sobre visões distintas de táticas eleitorais e não sobre a necessidade de derrotar o fascismo, resolveu não apenas sair da conversa, mas me cancelou. Ela, que sempre demonstrou interesse pelo que divulgo, me condenou no tribunal da linha justa, do dogma viscoso. Acho que por trás deste tipo de atitude está, além de um claro autoritarismo, a frustração de uma fantasia bem observada pela psicanalista Vera Iaconelli. Temos muita dificuldade de lidar com aquilo que sai do nosso controle, do que é por natureza incontrolável. Se minha opinião não pode ser controlada, como numa ordem unida, sou eliminado. Que democracia é essa?

Há um clima de muita intolerância no ar. As divergências resvalam para pugilatos verbais. Onde estará o tesão pelas batalhas de ideias, pelo prazer do argumento bem construído, pela possibilidade de aprender fora do quadrado defensivo? Lembro-me do jornalista John Reed descrevendo as vibrantes assembleias no período revolucionário bolchevique. Oradores se revezando, o clima fervendo, mas sempre na procura do melhor e sem desrespeitar ninguém. Agora, a disputa política se dá, não raro, no terreno da desqualificação, do ganhar no grito, passar o rodo. Como foi que chegamos a isso?

Não há dúvida de que os acontecimentos pós-2018 acentuaram o azedume. No entanto, quero olhar para o meu campo, o da esquerda. Não me refiro aos que, legitimamente, se satisfazem com reformas dentro do modo de produção capitalista. Penso nos que não renunciaram ao projeto de mudança radical na sociedade, transformando não apenas relações de produção, mas formas de relacionamento social e cultural. Creio que, nessa altura da História, já estamos convencidos de que não haverá mudança instantânea com a tomada do Palácio de Inverno. Não há, enfim, bala de prata. A revolução, o treino para ela, já começou. Precisamos, desde já, construir espaços libertários que desafiem o status quo que leva à desigualdade e à injustiça, à exploração e às guerras. Bloqueando o dissenso, como parecem fazer muitos companheiros, só estamos ajudando a perenizar a ordem que queremos desafiar. Onde está o bom e velho processo de convencimento tão caro aos que inspiram nossa sempre renovada utopia?

Nessas horas, gosto de lembrar o anarco-ipanemense Millôr Fernandes: “Imprensa é oposição, o resto é armazém de secos e molhados”. Oposição que, em sentidos variados, pode nos alertar: quem sabe vocês estão errados? Errado, eu? Não, o negócio é o seguinte… Mas pera lá, você deixou de perceber que assim e assado, na medida em que…

Abraço. E coragem.

Outra Sibéria

Outra Sibéria

O intervalo pro cafezinho era de lei na repartição. Sem pressa, aliviavam o peso das tediosas rotinas. Naquele dia, Carvalhinho estava todo pimpão. Fez um cafuné suspeito no Afrânio e tome gozação. Sete a zero, Afrânio! O Russinho estava impossível. Teu timinho não deu nem pra saída! Afrânio resmungou, que fazer? O Flamengo tomar de sete logo do Vasco era como beber, de um gole, o frasco inteiro de Emulsão Scott. O café descia azedo, com trilha sonora do cruzmaltino.

De mansinho chegou o Pacheco, alisando o bigode ralo. Falou de deslumbramento. Só assim para descrever a visita com a patroa, dona Etelvina, ao recém-inaugurado monumento do Cristo Redentor. Um portento, coisa do gênio pátrio, para marcar de vez aquele ano morno de 1931. Soprando o líquido fervente, segurando a asa da xícara de louça grossa entre o polegar e o indicador e ajeitando o suspensório, Pascoal entrou na roda. Cavalheiros, ouviram falar de um tipo chamado Bela Lugosi? Estivemos, eu e dona Lurdes, no cinema Odeon e assistimos uma fita estranhíssima. Já imaginaram alguém que prefere beber sangue ao invés de conhaque? O sujeito, um conde muito do chinfrim, era assim. Minha senhora não conseguia nem piscar quando o Drácula aparecia na tela. Ora, façam-me o favor! A gente tem por aqui sanguessugas muito mais assustadores. Hmmm, vampiro brasileiro… Alguém ainda vai aproveitar essa ideia. E com um único slurp esvaziava a xícara de café.

Antes de voltarem ao batente, debocharam do pedido feito por um tal de A.W. O Departamento Nacional de Indústria nunca tinha recebido nada igual. O cidadão, polonês, solicitava patente para produzir “uma forma de doces gelados e sorvetes”, denominada Peixe Gelado. Cáspite! De onde tinha tirado aquela doidice? Seria uma carpa salpicada com açúcar de beterraba? Com ou sem escamas? Por acaso era nostalgia de casa, terrinha gelada? Precursor involuntário do Eládio Sandoval, que, junto com o Contrarregra Maluco, criou, seis décadas depois, entidades como a Orelha Carnívora, o Tchaco de Pepino e … o Picolé de Peixe? Também estava na bruma futura o Cadillac Rabo de Peixe. Gargalhadas burocráticas. O pisciano A.W. ganhou cartão vermelho. Seu pedido foi indeferido.

Um ano depois, o persistente polonês gerenciava uma pequena sorveteria, a Casa Picolé. Nunca, porém, desistiu de criar seu próprio sorvete. A persistência não era nova. Vinha da vida limitada na Polônia profunda e passava pelos tempos difíceis em Buenos Aires, onde fez um pit stop prolongado antes de embarcar, casado e com uma filha a caminho, para o Rio de Janeiro, em 1930.

Em 1939, finalmente, ei-lo na Tijuca, fabricando o sorvete Sibéria. De alguma forma, tinha vencido os obstáculos burocráticos e colocado sua digital nas massas geladas. Consta que a loja também tinha prateleiras com pó para sorvete, sabores chocolate, damasco e abacaxi. Sem a Kibon nos calcanhares, deslizava tranquilo na cidade acostumada a calores saarianos.

Em algum momento, a produção artesanal entrou em crise. O emigrante, com filha pequena para criar e já mais familiarizado com usos e costumes do Rio, buscou outro ramo. Usou o talento com tecidos, linhas e agulhas e foi bater em portas na rua da Alfândega, um dos afluentes onde desaguava o rio judaico no centro da cidade. Lá, durante muitos anos, vestiu a gente remediada que circulava pelo comércio popular carioca. Quiçá o ambiente escuro e solitário, onde desenhava, cortava e costurava tecidos, tenha ajudado a transformá-lo numa pessoa quieta, de pouco sorriso, escorregadia.

Pena que os sorvetes tenham derretido tão cedo. Mais alguns anos e eu seria recebido com as honras de imperador da Abissínia naquela Sibéria tropical. Sim, porque, A.W. era Abraham Wittman. Meu avô materno.

Abraço. E coragem.