Silêncios rompidos

Silêncios rompidos

Nasci alguns anos depois do fim da Segunda Guerra Mundial. Às vezes, tenho a impressão de que as ruínas ainda fumegam e a história do conflito jamais terminará de ser contada. Melhor seria dizer as histórias que aconteceram durante o conflito. Ora se descobre um documento, depois é localizada uma partitura composta em condições indescritíveis, mais tarde é um diário que desvenda a rotina de carências e terror. Recentemente, li um livro, ainda sem tradução para o português, sobre seis adolescentes e jovens judeus, residentes na Europa Oriental, cuja vida foi violentamente interrompida em 1939. Ali estão descritos seus corpos mutantes, suas inseguranças, seus primeiros desejos amorosos, seus sonhos. Tudo registrado em pequenas folhas de papel, escondidas nos tubos de um órgão em Vilna, cidade que era conhecida como Jerusalém da Lituânia, e descobertas não faz muito. Vozes silenciadas.

Uma história que desconhecia acabo de descobrir na revista Devarim. Ela me reanimou o dever de contar, para que não se esqueça. Amnon Weinstein, luthier residente em Tel Aviv, tem uma coleção inusitada de instrumentos de corda. São violinos, violas e violoncelos cuidadosamente restaurados e expostos na oficina de trabalho. O que têm de especial?

Todos pertenceram a músicos judeus, profissionais ou amadores, atingidos pelas perseguições antissemitas nazistas. Muitos foram recuperados de campos de concentração e extermínio. Em Auschwitz, por exemplo, existia uma Orquestra Feminina, mulheres forçadas a tocar marchas e músicas selecionadas pelos algozes para criar uma sensação de normalidade no ambiente sombrio. Alma Rosé, sobrinha de Gustav Mahler, violinista excepcional, regeu essa orquestra. Foi assassinada ali mesmo, em 1944.

Nos anos 30, em Amsterdam, Helena Visser, não judia, era vizinha e amiga de Fanny Hecht, judia que gostava de tocar violino. Com a invasão nazista na Holanda, em 1940, Fanny anteviu que seria presa e pediu a Helena que, caso a Gestapo a levasse embora, fosse a seu apartamento, recuperasse o violino e o guardasse até sua volta. Fanny foi levada pelos nazistas e jamais voltou. Helena e depois seus descendentes guardaram o violino, de muito boa qualidade, durante 74 anos, até descobrirem o trabalho de Weinstein. Foram a Israel e o entregaram pessoalmente a ele.

O luthier criou o projeto Violinos da Esperança, através do qual os instrumentos recuperados são tocados em concertos mundo afora. Na entrevista concedida à Devarim, Weinstein disse: “Fazemos concertos com estes instrumentos históricos em todas as partes do mundo. Nós não vendemos os violinos. Levamos – um, dois, vinte, a quantidade que for combinada – para o local e organizamos concertos onde músicos locais usam os instrumentos. Depois fazemos palestras sobre eles”. Imagino a emoção destes músicos ao ressuscitar sons sufocados pela bestialidade nazista.

De alguma forma, Weinstein incorpora a intenção de Emmanuel Ringelblum. Intelectual socialista, Ringelblum esteve no gueto de Varsóvia. Testemunhou a rotina de morte, doenças e desespero e resolveu registrá-la, mesmo que em condições precárias. Formou um pequeno grupo e todos passaram a recolher tudo o que podiam. Cartas que jamais seriam expedidas, anúncios de todos os tipos, pequenas publicações, poemas, embalagens, etc. Aos poucos, foram organizando um arquivo respeitável, a que deram o nome de Oineg Shabes. Para preservá-lo, colocaram tudo em latões de leite e enterraram no subsolo de uma casa. Ringelblum e seus auxiliares acabaram assassinados. Depois da guerra, escavações permitiram recuperar boa parte do arquivo, que, até hoje, constitui material inestimável para contar a história do gueto. Os documentos dão voz aos que foram metodicamente liquidados.

Karl Marx disse que “a tradição de todas as pessoas mortas pesa como um pesadelo sobre a mente dos vivos”. Numa interpretação livre, penso que a palavra “tradição” poderia ser substituída, com a devida cautela, por “memória dolorosa”. No entanto, Weinstein e Ringelblum comprovam, podemos transformar o que foi motivo de perdas e desconsolo em beleza renovada e conhecimento libertador. Melhor assim.

Abraço. E coragem.

Rio ou não rio?

Rio ou não rio?

O Datafolha informa: cerca de 60% dos cariocas sairiam do Rio se pudessem. A maioria deles alega ter medo constante de crimes contra a vida e o patrimônio. Traduzindo: sentem-se ameaçados por sequestros, assaltos em casa e nas ruas, balas perdidas, assassinato. Já que estamos no período do Pessah judaico, em que se lembra o êxodo dos escravos hebreus do Egito, imagino o que seria uma revoada semelhante na população carioca. Um bloco de 4 milhões de pessoas, organizadas em alas compactas e conduzidas pela bateria da Mocidade Independente de Padre Miguel, os espectros de Clovis Bornay e Wilza Carla como mestre-sala e porta-bandeira, animadas por estandartes mostrando Anitta nos decúbitos ventrais de praxe e as celulites poliglotas, todas procurando a porta de saída. Gente da Pavuna, Barra, Catumbi, Olaria, Tijuca, se cuidando para não tropeçar nos pedintes e moradores de rua, cair nos buracos espalhados por todo canto, ser atropelada por motoristas alucinados que ignoram sinais de trânsito, se assustar com sonhos de melhoria frustrados. Multidão digna de filme do Cecil B. de Mille. Ou do impagável Cecílio B. de Milho, criado pelo Oscarito no “Carnaval da Atlântida”.

Não faz muito, eu estava fora dessa estatística. Não havia hipótese de pensar em sair do Rio. Todas as minhas referências, geográficas, oníricas, visuais, sonoras e afetivas, estavam aqui. Eu precisava vê-las ou, pelo menos, senti-las próximas. Reconstruir laços fora do lugar onde nasci não me interessava. Com a persistente desfiguração da cidade, traduzida em formas diferentes de violência, espicho um olho curioso para fora das fronteiras cariocas. Haverá alhures onde eu possa encontrar paz de espírito, presente que, de gozação, sempre peço aos que me perguntam o que gostaria de ganhar no aniversário?

Pensando bem, sempre fui um turista na minha cidade. Conheço, mal e mal, franjas das zonas sul e norte. Antes da pandemia, planejava andar por subúrbios sobre os quais tomo conhecimento apenas pelas páginas policiais. Nada sei sobre Madureira, Osvaldo Cruz, Magalhães Bastos, Marechal Hermes, Bonsucesso, São Cristovão, e por aí vai. A alma carioca, se é que existe, também habita essas áreas. Suponho, idealizo?, que rodas de choro e samba, quintais antigos, vilas de casas, botecos não gourmetizados, lá estão, em reverência a um Rio que ainda não derrapou na modernidade gentrificada.

Dia desses, estive no Leblon. Para quem não mora aqui, esclareço. É o metro quadrado mais caro da cidade, quiçá da galáxia. Experiência perturbadora. Os tipos físicos que lá gorjeiam não têm equivalência fora daquele perímetro estreito. São a aristocracia, os do andar de cima, cereja do PIB. Ali convivem extremos. No lado de fora de uma sorveteria chique, crianças de olhos tristes, que jamais tomarão os cremes gelados, tentam arrumar um trocado. Músicos andrajosos pedem esmolas. Que raio de sociedade considera isso natural?

Estaremos nos transformando numa espécie de buraco negro, que engole livrarias e comércios tradicionais e regurgita drogarias, bares com sonoridades assassinas e agências bancárias? Em Copacabana, acaba de ser inaugurada a 122ª farmácia. Livrarias? Apenas uma, heroico e acanhado sebo no chamado Shopping dos Antiquários. Aqui, na zona sul, nasceu a Bossa Nova. Os dois últimos redutos dela, as lojas Bossa Nova & Cia. e a Toca do Vinícius, fecharam durante a pandemia. Quem quiser ouvir Carlinhos Lyra, Nara Leão, João Gilberto, Zimbo Trio, Alaíde Costa, vai ter que apelar para velhas coleções de vinis e CDs. Nos rádios, com raras exceções, só dá para ouvir lixo comercial.

Continuo querendo morar aqui. Gente querida coloca chumbo em minhas asas fugitivas. Tá difícil e me atormento com sentimentos contraditórios. Às vezes acho que toda a população carioca foi abduzida e substituída por descendentes de burgúndios e frisões. Sobrou um tantinho da paixão antiga, suficiente para concordar com Millôr Fernandes, que, numa crônica de 17 de dezembro de 1980, disse o seguinte: “Meu céu existe, embora esteja mais perto que o de Sua Santidade. É esse aí, privilegiado, do Brasil – mais comumente o de Ipanema. Azul-lavado hoje, quando escrevo, neste verão maravilhoso do Rio, o que, imundícies à parte, péssima administração à parte, violência à parte, me faz continuar amando minha cidade e, por extensão, seus habitantes”.

Abraço. E coragem.

Pessah em tempos de cólera

Pessah em tempos de cólera

Cientistas chineses descobriram que nostalgia pode, sim senhor!, ter efeito analgésico, reduzindo, em alguns casos, a percepção de dor física. E tem mais. Se você pensou apenas em fotos antigas, daquelas em preto e branco, coladas em álbuns vestidos em tons de amarelo, enganou-se. O efeito analgésico se estende a músicas, filmes, histórias, cheiros e sabores. Portanto, ilustre passageiro, não se acanhe em derramar uma furtiva lágrima emocionada se navegar em lembranças significativas. Você estará não apenas nutrindo-se de prazer e construção afetiva, mas defendendo-se melhor das dores de viver.

Esta semana começa a celebração do Pessah, uma das principais festividades do calendário judaico. Talvez a liberdade seja a principal marca por trás das reuniões familiares que recontam, a cada ano, a história do fim da servidão hebreia no Egito antigo. Disso tratarei adiante, agora fico nas imagens nostálgicas dos meus Pessahim anciãos. São fotografias na parede da memória, mas, à diferença dos retratos itabiranos do Drummond, não costumam doer. Ao contrário. Aliviam e não se cansam de criar vida e novos significados.

Como nos desejos de qualquer criança, já sonhei que a família original jamais se desfalcaria. Aquela gente seria para sempre. No jantar de Pessah, o time vinha completo. Depois de uma rápida leitura da história tradicional, a conversa adornava o caldo de galinha fumegante, onde boiavam soberanos os kneidlach (bolinhos de farinha de matzá, o pão ázimo consumido no Pessah), evoluía para o guefilte fish invencível (bolinhos de peixe), salpicados com hrein (raiz forte), fazia um pit stop no ovo cozido mergulhado em água salgada e desembarcava, lânguida, no ferfale com frango. As crianças, hipnotizadas por aquele festival de aromas e sabores, eram convidadas a cantar músicas típicas. O Menino adorava o Avadim ainu (fomos escravos, agora somos homens livres) e o Ma nishtaná (por que esta noite é diferente das outras?). Por breves momentos, aquela comunhão parecia eterna. Homens e mulheres esqueciam suas dores e angústias, confraternizavam, sorriam sem freios, reconheciam-se nas memórias comuns. Minha fascinação por aqueles encontros não conhece limites.

Como antecipei linhas acima, no Pessah se recorda a saída dos hebreus do Egito antigo. O povo egípcio foi duramente castigado pela recusa do faraó em libertar espontaneamente seus escravos hebreus. O deus da história, juiz e carrasco, é implacável e vingativo. Aplicou, com extrema violência, uma punição coletiva, indiscriminada, selvagem. Mesmo que, crianças, não tenhamos percebido, ali estava uma demonstração evidente de poder absoluto. No filme “Crimes e pecados”, meu predileto na obra do Woody Allen, há uma cena do jantar de Pessah. Ali entram em confronto as visões religiosa e laica da libertação dos escravos hebreus. Prefiro, sem dúvida, a laica, que destaca o significado da liberdade. É o imperativo da razão infiltrando-se na narrativa mitológica.

Cada época tem seus faraós, opressores de diversos matizes e coturnos. A quais servidões estamos sujeitos nos tempos que correm? O que nos ameaça e amedronta? Na fila quilométrica dá para fazer alguns destaques. A gente não consegue sequer respirar sem o risco de morrer intoxicado. Segundo a Organização Mundial da Saúde, quase toda a população mundial (99%) respira ar poluído que faz mal à saúde. A poluição do ar é responsável por cerca de 7 milhões de mortes por ano. Nosso modo de vida é suicida.

O que dizer da solidão, que atinge proporção de epidemia no mundo? A comunicação direta, calorosa, é cada vez mais substituída por tralhas eletrônicas, que abrem um mundo ilusório, mas tentador e espetaculoso. Bom exemplo desta servidão é o TikTok, que propaga vídeos curtos e tem mais de 1 bilhão de usuários. O público-alvo, principalmente jovens, costuma passar muitas horas com olhos vidrados na tela do celular. A ciência comprova: quanto mais tempo ficam, mais demandam novas imagens. É um poder viciante que se assemelha ao tabaco e a certas drogas pesadas.

As fronteiras entre o público e o privado estão implodidas. É a cultura do buraco de fechadura, na qual acabamos prisioneiros de curiosidades tão mórbidas quanto paralisantes. Estamos famintos por um pouco de paz, de diálogo, mas no cotidiano somos prisioneiros de sectarismo, fanatização, guerra real ou virtual, movimentos puramente musculares. Como disse Tostão, “há cada vez mais pessoas que não querem aprender. Preferem a repetição, a polarização e a visão estreita de só enxergar e escutar o que está de acordo com as próprias convicções”.

Para além da repetição mecânica de uma tradição, o Pessah pode ser uma boa ocasião para pensar sobre o quê nos agride, sufoca, impede de ter uma vida mais livre e criativa. Sobre, enfim, os faraós e as pragas da modernidade. Não custa nada sonhar que essas reflexões sejam apenas um primeiro passo para transformar de verdade os grilhões em liberdade pessoal e coletiva.

Já ia pingar o ponto final, quando senti um leve tremor numa foto pendurada na parede da memória. Espantado, vi o tio Bóris se levantar da mesa do Pessah, colocar o rosto para fora da moldura e fazer um psiu categórico. Aproximei-me e ouvi o audaz bessarabiano dizer: Main taiere quind, querido Menininho, o texto até que não está ruim, mas, cá entre nós, e falo em nome de toda a família, não faltou alguma coisa? O principal, talvez, já que falou em libertação? E piscou a sabedoria milenar do seu shtetl. Dei um tapa na testa! Claro, é como dizia um personagem do Scholem Aleichem: Der ikar shahahti. O principal ficou de fora. Bóris retornou à mesa bidimensional e o vi levantando uma taça de vinho junto com o resto da trupe. Lehaim, disseram, à vida! Fiz um brinde imaginário e acrescentei o principal ao texto, o tijolo que faltava na jornada contra a tirania: Fora Bolsonaro!

Hag sameah!

Abraço. E coragem.

Bergman, Allen: Morte e Vida nos tabuleiros

Bergman, Allen: Morte e Vida nos tabuleiros

Ao José Sambursky, suave habitante das minhas origens.

Não tinha muitas expectativas. Os últimos filmes do Woody Allen andaram bem abaixo de suas obras-primas (Crimes e pecados, Hannah e suas irmãs, A era do rádio, meus prediletos), todas com fortes referências autobiográficas e o indisfarçável – e ácido – humor judaico. De qualquer modo, grife é grife. Submetido a um boicote tão impiedoso quanto histérico e injustificável, Woody superou minhas expectativas e fez lembrar seus momentos mais criativos em “O festival do amor” (tradução horrorosa para “Rifkin’s festival”), produção de 2020.

A relação conflituosa de Woody, e certamente de meio mundo, com a Morte, é carimbo na testa do cineasta. Ele usa o humor para acalmar a aflição por saber, como todos nós, o fim inegociável. É uma de suas obsessões recorrentes, que deriva para a folclórica hipocondria. Certa vez, disse: “Não tenho medo de morrer. Só não quero estar lá quando isso acontecer”. Em “Rifkin’s festival”, Woody homenageia seus ídolos cinematográficos, em especial Ingmar Bergman. Lá está, satirizada, a famosa cena do jogo de xadrez da Morte com Antonius Block, cavaleiro medieval recém-chegado de uma Cruzada. Costuma ser a primeira lembrança de quem assistiu “O sétimo selo”, de 1956.

No filme de Bergman, Block é atormentado por uma crise de fé. Que deus seria aquele, mudo, invisível, indiferente ao sofrimento que devastava a Europa com a Peste Negra? Divindade insensível à tão humana busca por um objetivo para viver! Dialoga com a Morte, que não teme (“meu corpo está preparado, minha cabeça não”), e através dela tenta descobrir se há algo “depois”. O jogo de xadrez é oportunidade para a Morte (excepcional interpretação de Bengt Ekerot) mostrar paciência e total independência de padrões morais e crenças religiosas. Ela dá razão, concluo, ao que disse, no século XVII, Cyrano de Bergerac: “E depois, morrer não é nada, é terminar de nascer!”.

Antes de voltar ao Woody, breve parênteses. Em entrevista sobre seu filme, ele critica a infantilização da atual indústria cinematográfica, com seus blockbusters de histórias em quadrinhos. “Se eu tivesse onze anos, adoraria. Acontece que já sou adulto, gosto de personagens mais complexos”.

Adiante. Mort Rifkin, intelectual e alter ego do Woody, está insatisfeito com os rumos de sua vida. Não consegue escrever um livro, “tem que ser uma obra-prima”, não faz por menos, sua esposa o trai, e ele se frustra quando tenta flertar com uma mulher bem mais jovem. É nessa hora atormentada que surge a Morte (Christoph Waltz, excelente) e propõe um jogo de xadrez.

Os diálogos na frente do tabuleiro são geniais. A Morte, condescendente, didática e algo entediada, mostra ao melancólico Rifkin que deve aceitá-la ou será condenado a morrer muitas vezes. “Não aguento ver um pobre coitado estragar a vida porque não reconhece o inevitável”, comenta, num pedaço que remete a outros fragmentos obsessivos de filmes do Woody. Respondendo à reclamação de Rifkin de que sua vida era vazia, a Morte sentencia: “A vida não tem sentido para ninguém, mas não significa que tenha que ser vazia”. Batata. Buscar sentidos para a vida, trabalho que se renova diariamente, é a única forma de ofuscar, temporariamente, a sombra insistente do grande Buraco Negro. Estar envolvido em trabalhos prazerosos, em relações pessoais interessantes, em leituras estimulantes, em planos que geram filhotes, combate uma espécie de maldição exposta por Louis-Ferdinand Céline: “A maior parte das pessoas morre apenas no último momento, outras começam a morrer e a se ocupar com a morte vinte anos antes, e às vezes até mais. São os infelizes da terra”.

A Morte se despede de Rifkin (“sua hora ainda não chegou”) recomendando-lhe que comesse muitos vegetais e frutas, fizesse exercícios leves, mas regulares, não fumasse. Ah, e que não esquecesse da colonoscopia! Woody Allen em grande forma. Se fechar os olhos, sou capaz de ouvir estas recomendações na voz de um ancestral, ditas em ídish e com gestos típicos. Oi vei!

No final de “O sétimo selo”, o casal de artistas itinerantes e seu pequeno filho são os únicos que sobrevivem à blitzkrieg da Morte. Um recado de Bergman sobre a Arte? Possivelmente sim. Chama a atenção o contraste entre a desorientação melancólica do cavaleiro medieval, com suas dúvidas insolúveis, e a leveza, o dom do improviso, a esperança sorridente, a alegria de criar, dos artistas. Fez-me lembrar de Ferreira Gullar: “A arte existe porque a vida não basta”. Bergman, Allen, grandes artistas. Diretores de estradas que fazem a vida permanecer.

Perguntado sobre a passagem do tempo, Mário Lago, que fez de um tudo na vida, de oficial nazista na novela Sheik de Agadir (com o inesquecível tapa-olho!) a compositor de Aurora e Saudades da Amélia, tinha sua fórmula para seguir vivendo: “Eu fiz um acordo com o tempo. Nem ele me persegue, nem eu fujo dele. Qualquer dia, a gente se encontra e, dessa forma, vou vivendo intensamente cada momento”.

Abraço. E coragem.

Intimoratas

Intimoratas

A cena seria apoteótica. Tambores rufando, equipes de fotógrafos por toda parte, correspondentes internacionais zapeando sem parar. Chegara, enfim, o grande momento. Os tambores param, a expectativa da grande massa cresce, é quase palpável. E então … caem as máscaras! Urros, desmaios, corre-corre, fogos ao léu, lágrimas e soluços. Depois de dois anos de isolamento forçado, minha neta veio dormir aqui em casa e, pela primeira vez, ficamos sem máscaras. Curiosos, olhamos a pele dos rostos com uma cor esquisitona, os narizes que jaziam adormecidos na memória, o sorriso que tanto merecíamos. Imaginei a tal cerimônia apoteótica, solene, seguida de festa popular, palmas na vizinhança. Que nada. A queda da Bastilha, digo, da necessária proteção facial, deu-se com sobriedade, passou quase despercebida, como se todas as restrições tivessem durado apenas uma noite mal dormida. E fomos à vida.

A neta não dorme sem ler alguma coisa. Me pediu uma sugestão. Consultamos juntos as lombadas da pequena biblioteca infantil e tiramos um livro que ela não conhecia. Tratava-se de uma troca de correspondências fictícias, primorosamente impressas. Desses livros em que a experiência da leitura se combina com a vontade de tocar e cheirar. Em algumas páginas, havia envelopes com os textos das cartas, tornando-nos voyeurs das intimidades dos personagens. Uma delas estava datilografada, estilo que a neta desconhecia. Como é que se imprimiam aqueles caracteres? Pergunta natural para alguém da geração dela, que já nasceu durante o reinado de laptops e adjacências. Disse-lhe que tinha uma máquina de escrever, testemunha silenciosa de muitos trabalhos. Prometi desarquivá-la no dia seguinte.

Café da manhã tomado, subi numa escada e perturbei o sono já antigo da heroica Hermes Baby. Modelo que guarda certo parentesco com a “intimorata Remington” do Stanislaw Ponte Preta. Coloquei-a na frente da minha pequena querida. Olhou para as teclas, o cilindro preto, a fita rubro-negra, as engrenagens misteriosas. Mostrei-lhe como colocar o papel e, de brincadeira, usando uma linguagem que ela domina, disse-lhe que era possível digitar e imprimir ao mesmo tempo. E começou uma fantástica viagem por tempos tecnológicos.

No início, estranhou a força que precisava imprimir aos teclados para que as letras aparecessem. Decepcionou-se ao perceber que, cometido um erro, não era possível apagá-lo. Aos poucos, com desenvoltura surpreendente, entendeu o espírito da coisa. Parecia fascinada com a visibilidade das tarefas que a máquina lhe permitia. Via os tipos se movimentarem para se transformarem em letras, girava o cilindro quando queria mudar a linha. Ela via as entranhas do processo. Master of her domain. No laptop, tudo é caixa preta.

Saiu maravilhada do tec-tec-tec. Catou milho à beça. Soube mais tarde que, ao chegar em casa, pediu à mãe que comprasse uma igual. Eu imaginava que máquinas de escrever já tinham sido banidas do mercado. Que tivessem tido o mesmo destino de penteadeiras, cristaleiras e proficiência em latim. Ledo e ivo engano. Elas não apenas existem, como alguns modelos custam mais caro do que certos laptops. Inventadas em 1867, foram equipamento obrigatório em redações e empresas. Velhos classificados informam que vagas para secretárias só seriam preenchidas por mulheres que tivessem habilidade, entre outras, em datilografia. Cursos de datilografia tinham turmas cheias, a diplomação neles era chave para ascensões profissionais.

Não creio que a nostalgia ocupe o mercado de computadores. Há, no entanto, espaço para uma guerrilha. Gente assustada com a total perda de privacidade no mundo virtual anda recorrendo às velhas máquinas de escrever. Os conteúdos escritos só podem ser lidos pelo datilógrafo. Na cauda deste cometa, surgem profissionais que as consertam e mantêm, máquinas usadas são muito disputadas em leilões. A precursora do Word exibe surpreendente longevidade.

A velocidade do mundo atual reforça, em permanente conflito, o desejo de mais vagar e mais tempo para os mergulhos nas nossas vísceras existenciais. Desejo impossível? Numa velha história da revista Mad, aparece uma senhorinha produzindo bolos artesanais que, aos poucos, passam a ser vendidos numa pequena loja. O negócio prospera, a lojinha se transforma numa enorme linha de produção industrial. Depois de um tempo, aparece ao lado da fábrica uma lojinha, com outra senhorinha, as filas começam a aumentar… É isso.

Abraço. E coragem.

Naquela tarde

Naquela tarde

Acordou naquele 15 de novembro de 1963 obcecado com Ronald Cordovil. Ficava imaginando como seria entrar na rua Augusta a cento e vinte por hora. Também especulava: que coragem ficar repetindo versos inspirados como “hi-hi Johnny, hi-hi Alfredo, quem é da nossa gang não tem medo”!  Junto com Ray Charles cantando sem parar I can’t stop loving you, eram blockbusters do programa radiofônico Peça bis pelo telefone, durante o qual as precárias linhas telefônicas ficavam impraticáveis. Não dava para cultivar um gosto musical muito diferente. Os adultos da casa iam, quase invariavelmente, de Ray Conniff, com muito metal e bocca chiusa no bagageiro, Herb Alpert, Domenico Modugno, boleros triviais e alguma coletânea melosa da Reader’s Digest.

Assoviando Neurastênico, também do Ronald, viu a previsão do tempo no jornal. Pura loteria. O índice de acertos era tão pequeno que passava a impressão de que os meteorologistas tiravam conclusões no par ou ímpar. Tempo nublado, com possíveis pancadas. Texto padrão, nada que alarmasse. Resolveu então ir ao Maracanã. O Flamengo completava oito anos de abstinência, o último título carioca conquistado em 1955. Na terceira partida da melhor de três contra o América, o zagueiro rubro-negro Tomires, um gentleman com sangue nas chuteiras, quebrou a perna do atacante americano Alarcón. O grêmio de Campos Sales ficou, então, com dez jogadores (não existia a chamada regra três, que permite substituições durante a partida). Com o alagoano Dida endiabrado, o Flamengo enfiou uma goleada de 4 a 1, chegando ao segundo tricampeonato de sua história.

O jogo era Flamengo e Vasco. Nenhum dos dois tinha um grande time. No Flamengo, os poucos destaques eram o goleiro Marcial, os laterais Murilo e Paulo Henrique e o ponta-direita Espanhol. O centro-avante Aírton Beleza era do tipo trator sem freio. Eficiente, sem frescura. A posição na tabela dava para sonhar com uma arrancada para o título. Os daquele tempo lembrarão que os jogos do campeonato carioca nada tinham a ver com os do desvalorizado torneio de hoje. As partidas contra os chamados pequenos costumavam ser duríssimas, especialmente quando jogadas nos alçapões suburbanos. Ruas Bariri, em Olaria, Teixeira de Castro, em Bonsucesso, e Conselheiro Galvão, em Madureira, frequentavam meu imaginário como estádios assustadores.

Na chegada ao Maracanã, chuva. E não era pouca. Mesmo com o campo pesado, o jogo foi empolgante. No primeiro tempo, o Vasco abriu dois a zero. No segundo, cinco gols. Quatro do Flamengo e um do Vasco. Do gol da vitória, guardo uma lembrança onírica. Sonho que Aírton recebe a bola quicando pela esquerda do ataque, próxima à meia lua da grande área. Ajeita o corpo e, de primeira, desfere uma meia-bicicleta mortal. Gol para os anais do futebol-arte. Se não foi assim, merecia ser. Como nas vitórias épicas que o Nélson Rodrigues só atribuía ao Fluminense ou à seleção brasileira. Naquele momento, eu pude sentir o aroma de grama molhada, o mesmo que me acompanhou em toda a infância, no matinho raquítico da vila tijucana. Afonsinho, pioneiro no enfrentamento da tirania dos cartolas, gostava de jogar em dias de chuva. Sentia prazer na corrente olfativa que misturava terra e grama molhadas.

Alguém consegue imaginar qualquer jogador de hoje falando sobre a festa dos sentidos num gramado encharcado? O Flamengo de 1963, como de resto todos os clubes de então, não tinha marcas comerciais no uniforme. A história dos times se fazia sem a mediação do capital despersonalizado, a empatia da torcida se cozinhava com paixão. Com a difusão das chamadas SAF (Sociedades Anônimas do Futebol), a tendência é agudizar o processo de mercantilização do esporte. As “peças de reposição”, como certos bocós da imprensa esportiva costumam chamar os jogadores, serão trocadas com velocidade cada vez maior. A mais-valia precisa circular, seu Valdemar! A identidade com clubes, camisas, histórias, ilusão de “idealistas”, vai para o ralo. Meu Maracanã é apenas uma memória desgastada. É tempo dos Nosferatus.

Quando saí do estádio, continuava chovendo. Voltei para casa flutuando na primeira nuvem que passou. No caminho, pensei numa trilha sonora para aquela tarde úmida e bela. Que tal Jorge Ben, rubro-negro das antigas, cantando “chove chuva, chove sem parar”? Ah, antes que me esqueça. Ronald Cordovil, mineiro de Manhuaçú, era Ronnie Cord, uma brasa nos tempos da Jovem Guarda.

Abraço. E coragem.