O europeu não pôde fazer-se homem senão fabricando escravos e monstros (Jean-Paul Sartre)
A essa altura vocês já devem estar saturados de imagens e comentários sobre a invasão da Ucrânia pela Rússia. Conflitos “menores”, ou seja, sem o peso geopolítico do leste europeu e os enormes interesses econômicos envolvidos, jamais mereceram sequer fração da cobertura que este anda recebendo. A seletividade não é nova, daí que não me espanto. Para os médicos legistas, mortos iraquianos, iemenitas e somalis não são diferentes de cadáveres russos e ucranianos. A lógica “civilizada”, no entanto, caminha noutra direção. Se entendermos a letra num sentido mais amplo, tinha razão a Elza Soares quando cantou “a carne mais barata do mercado é a carne negra”. Negra pode ser estendida, metaforicamente, para toda gente despossuída, pobre, oprimida, invisível. O humanismo seletivo é tão abjeto quanto a indiferença e o preconceito.
Não precisam se assustar. O cronista não pretende adicionar novas interpretações às incontáveis análises sobre o conflito. Há no mercado sapiências que cheguem. Tenho cá minhas opiniões sobre ele, mas vou beber Millôr Fernandes: “Livre pensar é só pensar”. Seguindo essa trilha, quero apenas sair da superfície em dois temas que sobrevoam tudo o que está acontecendo no conflito russo-ucraniano.
O primeiro aparece num artigo do sociólogo Bernardo Sorj. Conheço-o há anos. Já me solidarizei institucionalmente com ele, em 2016, quando foi vilmente atacado pelo então cônsul honorário de Israel no Rio de Janeiro. No artigo Putin, Bolsonaro e certa esquerda, publicado n’O Globo, afirmou que “os Estados Unidos, apesar das várias brutalidades cometidas, protegem a ordem mundial do capitalismo democrático”. Fiquei intrigado. Difícil acreditar que o Bernardo não tenha percebido a contradição abissal entre brutalidades e qualquer coisa remotamente concebida como democrática. Estamos fartos do discurso hipócrita dos campeões da democracia, cujas ações intervencionistas sempre trouxeram destruição e morte. Que tipo de ordem democrática se constrói com arrogância imperial? Quantos mortos Kissinger, McNamara, Kennedy, Lincoln Gordon, Johnson, Nixon, George W. Bush, carregam em suas sombras sinistras? Que sanções o mundo acovardado aplicou quando os Estados Unidos usaram armas químicas no Vietnã (napalm) e biológicas em Cuba (bombardeio com pragas para destruir plantações)? Que punição mereceram pela destruição do Iraque, baseada numa mentira escandalosa e deixando cerca de meio milhão de mortos e uma legião de desterrados? Uma frase resume o “capitalismo democrático” de que fala Sorj. O carniceiro Henry Kissinger disse que não via nenhuma razão para permitir que qualquer país “se tornasse marxista” só porque “seu povo era irresponsável”. Referia-se ao Chile e a consequência foi um golpe sanguinário. Com apoio “democrático”. Capitalismo e democracia, a gente não se vê por aqui. Por quê?
O capitalismo é um modo de produção muito dinâmico. Marx reconheceu isso desde cedo. No entanto, ele se assenta num processo de acumulação que gera desigualdade estrutural. Internamente, entre classes. Externamente, entre nações. Não é possível acreditar numa “ordem capitalista mundial democrática” quando, segundo a FAO, quase uma em cada três pessoas no mundo (2,37 bilhões) não tiveram acesso adequado a comida em 2020. No mesmo ano, o gasto militar global, puxado pelos Estados Unidos (cerca de 40% de todas as despesas militares), equivaleu a um ano de Bolsa Família por dia. É assim que opera o monstrengo. Ao mesmo tempo em que é capaz de maravilhas tecnológicas, como as incríveis fotos de um átomo e um buraco negro, martiriza o planeta produzindo armas cada vez mais letais, convivendo com uma fome obscena e uma distribuição de riqueza assassina, parasitando esquemas de poder excludentes e liberticidas (desde que não interfiram no livre fluxo do capital).
No final do artigo, Sorj faz um desafio político e intelectual. E esse é o segundo tema do meu interesse. Quem não quiser aceitar o mundo existente, diz, “se dissocie dele e produza teorias de um mundo alternativo”. Bingo! A nós, que não nos sentimos representados pela pantomima “democrática” e queremos, a exemplo do que escreveu Marx nas Teses sobre Feuerbach, não apenas interpretar o mundo mas transformá-lo, cabe conceber e ajudar a criar as bases de um modo de produção radicalmente justo e emancipador. Temos que estudar as primeiras experiências socialistas, seus avanços e desvios, seus acertos e erros. É, afinal de contas, nossa ancestralidade política. Herança se compreende e se avalia, não é obrigatoriamente um destino manifesto. É trabalho político para gerações, mas, como dizem os pacientes chineses, para se andar mil quilômetros é preciso dar o primeiro passo. Ainda é atual o que disse Rosa Luxemburgo: socialismo ou barbárie. E não me refiro ao socialismo do Geraldo Alckmin…
Sérgio Porto ainda nem sonhava em ser Stanislaw Ponte Preta. Morava numa casa em Copacabana, roçando a areia da praia. Lá passou vinte e quatro anos felizes. O bairro, como tudo no Rio, entrou no radar da demolição impiedosa, da reconstrução sem alma, da memória desrespeitada.
Certo dia, já no prédio que substituiu a casa, abriu a gaveta da escrivaninha onde costumava guardar contas velhas, caixas de fósforos, caderninhos de telefones que já não valiam. Quinquilharias que vão ficando, mortos que se recusam a ser enterrados. No meio delas, um envelope amarelado com alguns retratos batidos no dia da mudança. Registro “dos cantos queridos daquela casa”.
Sérgio não gostou da descoberta. As imagens o deixaram melancólico. Não dava para pegar um bonde e voltar para a escada que rangia no quinto degrau, o banco de madeira do jardim, a sala de jantar, o quintal. Resolveu rasgar as fotos. “De que vale sofrer por um passado que demoliram com a casa?”. E concluía: “Como se precisássemos de máquina fotográfica para guardar na memória as coisas que nos são caras!”.
Tinha razão o Lalau. No entanto, há outra serventia para retratos. Certo, eles podem coçar a memória imediata, mas também desencadear lembranças adormecidas ou soterradas. A imagem original, então, acaba se multiplicando e leva a lugares não percebidos no primeiro olhar. É um processo indomável.
Recebi há duas semanas a versão digital de um livro do Henrique Veltman. Passageiro da Kombi onde se abriga a torcida do América, Henrique está exilado há muito tempo em Santos. Em meio a uma saraivada de memórias, ele recorda o Colégio Hebreu Brasileiro, onde ambos estudamos. Folheio em câmera lenta. De repente, a foto. De 1960. No pátio de cimento áspero, onde ralei joelhos e estraguei muitos Congas em peladas memoráveis, adultos estavam reunidos em torno de uma longa mesa para uma solenidade. Na cabeceira percebo a careca inconfundível, dessas que têm impressão digital e registro no cartório. Só podia ser ele. Tio Schula.
Salomão Rozental nasceu em Iedenitz, pequena aldeia na Bessarábia, no início do século passado. Chegou ao Rio em 1930, fugindo da pobreza e da falta de perspectivas. Como tantos outros emigrantes, trazia no bolso os endereços de parentes de amigos da aldeia natal, que o ajudaram nos primeiros e duros tempos. Conterrâneo do meu avô paterno, acabou se relacionando com os Gruman, que, àquela altura, moravam numa casa em São Cristovão.
Junto com um amigo, trabalhou no comércio de Angra dos Reis e Parati. Lá, conta a saga familiar, introduziu um sistema de crediário, inédito naquelas bandas. As visitas aos Gruman se intensificaram quando Schula percebeu o borogodó de Eva, irmã de meu pai. Dos primeiros passeios na Cinelândia e olhares sugestivos mútuos, acabou saindo o noivado, espécie de estágio probatório das antigas, e, em 1940, o casamento.
Voltando à foto no Hebreu. A presença de Schula revela nele um ativista, voluntário na administração do colégio. Era um sistema comum em escolas judaicas. Os pais formavam um coletivo e distribuíam as tarefas, que iam da contratação de professores à contabilidade geral. Meus primos estudavam naquele colégio e Schula não se limitava a acompanhar o desempenho escolar dos filhos. Dedicava parte do seu tempo ao bem comum, sacrificando lazer e convívio familiar.
Vejo em outra foto que Schula e meu pai participaram, juntos, da criação do primeiro clube judaico da Tijuca, o Monte Sinai, inaugurado em 1959, onde dei vazão à minha canhota formidável nos treinos de futebol de salão. As imagens confirmam um senso comunitário admirável e uma disponibilidade para o trabalho social que me orgulham. Gente modesta e inquieta, que tinha uma rotina desgastante mas não se omitiu e deixou uma herança agregadora fértil. Quantos podem dizer o mesmo?
Num verão quase apagado pelo tempo, eu, meu pai, tio Schula e seu filho David nos hospedamos num hotel barato em Angra dos Reis. À noite, David improvisou uma musiquinha em ídish que aludia às consequências, digamos, gasogênicas que o Toddy de todas as noites produzia no pai. A gente caía pra trás com a gozação, mas quem se esbaldava mesmo era o tio Schula. O careca da foto, o aeroporto de mosquitos bessarabiano, ajudou a construir quem sou. De alguma forma, quem somos.
Pouco a pouco o carnaval se transfere para Brasília. Brasília já tem, pelo menos, o maior bloco de sujos. (Millôr Fernandes)
Aproveito o carnaval e faço uma pequena pausa para meditação. A crônica de hoje vai ao ar semana que vem. Como a natureza, e queiramos ou não somos parte dela, detesta vazios, deixo aqui alguns pensamentos soltos sobre o que os antigos chamavam de tríduo momesco.
Os que me acompanham há algum tempo sabem. Detesto carnaval. Trata-se de sentimento longevo, desde quando adultos insensíveis vestiram o Menino com uma fantasia de Nero. Logo aquela criança nada piromaníaca, que só ensaiava incendiar a imaginação! Enquanto as chanchadas da Atlântida aqueciam os motores para a festa, fazendo desfiles na tela com Emilinha Borba, Marlene, Blecaute e as irmãs Batista, eu tentava saídas silenciosas para a agitação ao redor. Não era fácil. A excitação parecia lei federal. Os que a transgrediam estavam condenados à zombaria. Hoje diriam cancelamento.
Para não dizer que não falei de flores, digo, de exceções, cito dois casos. O Bloco do Eu Sozinho, invenção foliona de fundo chapliniano, sempre me fascinou. Pessoas que, sem medo da fantasia de Solidão, não precisam mais do que uma expressão intraduzível e um estandarte modesto para se transportar, por breves dias, para um universo paralelo. Twilight zone com confete, serpentina e lança-perfume. É neste universo que habita meu segundo caso.
Nos anos 80, trabalhei no BNDES. Acompanhava projetos industriais financiados pelo banco. Estava em Recife, reunido com o executivo de uma empresa. Terno bem cortado, gravata discreta, cabelo bem comportado, fala mansa e articulada. No intervalo para café, descontraiu-se. Contou que tinha um acordo com a mulher. Na sexta-feira pré-carnaval, ele arrumava uma pequena valise e sumia para destino ignorado. Só reaparecia na quarta-feira de cinzas, depois do desfile do Bacalhau do Batata. Pelo acordo, não se faziam perguntas sobre os quatro dias sumidos do mapa, findos os quais voltava a valer, levemente alterada, a velha música do Chico: todo dia ele faz tudo sempre igual… Ouvindo a história, flutuei em muitas fantasias, da ala das piranhas de algum frevo suburbano ao bacanal à moda do baile no Iate Clube do Rio de Janeiro, todo mundo pelado na piscina. Por momentos, valiam para o ilustre pernambucano todas as máscaras. A segunda sombra, poética ou selvagem, a que se refere um personagem do Mia Couto.
Há 100 anos, Careca e Freire Junior satirizaram Artur Bernardes, então candidato a presidente da República, com a marchinha carnavalesca Aí, seu Mé. O povo cantava: Aí, seu Mé!/Aí, seu Mé!/Lá no Palácio das Águias, olé/Não hás de pôr o pé. Bernardes, que não gostou da brincadeira, chegou a convocar forças militares para reprimir a cantoria. Desde cedo, já se vê, o mau humor oficial e o ânimo censório espichavam olho gordo nas crônicas musicais.
Será que hoje é diferente? As marchinhas praticamente desapareceram, outras entraram na mira revisionista dos que “problematizam” o deboche carnavalesco. João Roberto Kelly (Cabeleira do Zezé) e Lamartine Babo (O teu cabelo não nega) são vítimas tardias dos discípulos de dona Solange Hernandes. Carnaval, ouço dizer, é hoje território de sertanejos, sofrências e pancadões, bem ao gosto da cultura das celebridades. Momo virou meme.
No mais, este ano, com o carnaval de rua abolido no Rio (alguém acredita que é para valer?), ao menos estarei protegido das nuvens de gafanhotos, popularmente conhecidos como blocos, que deixam atrás de si uma paisagem peculiar: ilhas de lixo, jardins vandalizados e rios de urina, com afluentes, pororocas e vazões impressionantes. Ureia no poder! Coisa que me faz lembrar uma cena aterradora do filme O iluminado, do Kubrick. Das paredes do hotel fantasmagórico fluía um mar de sangue, com ondas e correntes portentosas. O horror, o horror, ao gosto de Joseph Conrad.
Para quem gosta da monarquia momesca, bom proveito. As “festas particulares” custam R$ 700 ou mais. De brinde, perdigotos enriquecidos com doses variáveis de coronavírus.
Às vezes pego o bonde atrasado. Caso das polêmicas que surgiram em torno do youtuber Monark. Não opinei de imediato, mas as reações que se seguiram à defesa que ele fez da criação de um partido nazista no Brasil me incomodaram. Todas se concentraram em um aspecto do nazismo, a saber, o racismo em geral e o antissemitismo em particular. Claro que a dimensão destes preconceitos na construção e desenvolvimento do 3º Reich não foi nada desprezível. Eles, no entanto, são insuficientes para explicar o nazismo e, especialmente, como foi capaz de arrastar boa parte do mundo para a guerra mais sangrenta de que se tem notícia.
Antes de seguir adiante, breves observações sobre Bruno Aiub, o Monark. Não dá para ignorar um cidadão que foi carro-chefe do canal Flow Podcast, com 3,6 milhões de seguidores. Multiplique-se pela capilaridade das redes sociais e se terá uma noção da encrenca. Para não depender das impressões de terceiros, resolvi assistir um programa do youtuber. Experiência intrigante. O rapaz passa o tempo todo provocando, interrompe os interlocutores a toda hora (inviabilizando qualquer diálogo), é incapaz de articular argumentos consistentes (fica numa espuma oca, escorada em clichês, repetidos à exaustão). Seu suposto carisma, bem ao gosto dos tempos bolsonaros, conduz apenas a caminhos diversionistas, sem a menor intenção de amadurecer ideias e refletir sobre a realidade. Vale apenas o histrionismo, a estridência, distrações que alvoroçam os descerebrados. Ouvir Monark é dar razão ao que disse Umberto Eco, em 2015: “As redes sociais dão o direito à palavra a uma legião de imbecis que antes falavam apenas em um bar e depois de uma taça de vinho, sem prejudicar a coletividade (…) O drama da internet é que ela promoveu o idiota da aldeia a portador da verdade”.
Voltando ao nazismo. Com a derrota na Segunda Guerra Mundial, ele assumiu para muitos o status de xingamento ou, na melhor das hipóteses, de patologia, febre maligna, que acometeu povos e nações. Um acontecimento efêmero que seria varrido pela “civilização”. Isolando-o nesses territórios, abre-se mão do imperativo de analisá-lo como fruto da História, das lutas de classes, dos conflitos entre Estados e impérios. Acho muito importante fugir da armadilha idealista e mergulhar no ecossistema sócio-econômico-político que gerou o nacional-socialismo. Só assim seremos capazes de projetá-lo no tempo e avaliar se ele faz sentido nos dias que correm.
O nazismo foi clara e vitalmente nutrido pelo medo ao socialismo. Da revolução bolchevique à Espanha republicana, passando pelas tentativas de revolta na Alemanha e na Hungria e pelo crescimento das lutas sindicais na Europa, o nazismo identificou o inimigo de classe e administrou os interesses da classe dominante. Não à toa, a aliança Alemanha-Japão-Itália foi chamada de Pacto Anti-Komintern. A burguesia alemã, pressionada pelo imperialismo inglês e debilitada pelas consequências da 1ª Guerra Mundial, aliou-se formalmente a Hitler numa conferência realizada em 4 de janeiro de 1933. Empossado na Chancelaria neste mesmo ano, o ex-cabo austríaco iniciou a escalada de repressão contra a esquerda e os “untermenschn” (judeus, portadores de doenças mentais/deficiências e outros), trajetória que desembocaria na 2ª Guerra Mundial. Sei que simplifico bastante, mas a coluna vertebral está aí.
Como acentuou corretamente Roney Cytrynowicz, “o nazismo não era uma ideologia irracional; o nazismo trabalhava, mais que outras ideologias, o componente irracional das pessoas”. O antissemitismo genocida, o racismo irredutível, se enquadravam nesta lógica de criar elementos de unidade no povo alemão, alquebrado pelo desemprego maciço, humilhado pelo Tratado de Versalhes, vasto lumpen assustado com a inquietação social. Nada melhor do que imaginar o inimigo comum, alimentar a farsa do “judeu internacional”, comparado na propaganda oficial a ratos, polir o mito da “raça superior”. Isso foi levado às últimas consequências. Mesmo recuando no front oriental, pressionados pelo Exército Vermelho, os nazistas mobilizaram recursos para acelerar a Solução Final para os judeus. Ainda Cytrynowicz: “Já na invasão da Polônia, em setembro de 1939, estava presente a visão racista, no caso antieslava, pois junto à conquista militar do país, uma das prioridades era exterminar todas as lideranças civis, padres e intelectuais. A Alemanha nazista tinha planos, nunca executados, de castração em massa das populações do Leste europeu e chegou a sequestrar crianças consideradas de tipo ariano para levá-las para a Alemanha”.
No Brasil, calcula-se que existam cerca de 350 células de inspiração nazista. Desconheço se têm alicerce em programas comuns de ação. Tudo indica que não, a organicidade implicaria numa etapa superior de organização que não ficaria invisível. Não há qualquer semelhança das conjunturas interna e externa do Brasil que espelhem os acontecimentos dos anos 20 e 30 na Alemanha. A burguesia brasileira, embora certamente conservadora, não precisa de fumaças nazistas para manter seu poder no país. A conciliação por cima sempre lhe vestiu bem. O socialismo está muito distante de representar a ameaça concreta e imediata que se visualizava na alvorada nazista. Que sentido, portanto, teria um partido nazista no Brasil? Existe racismo e antissemitismo por aqui? Claro que sim, não são nada inocentes e devem ser duramente combatidos. No entanto, racistas e antissemitas não são necessariamente nazistas. Não vejo base material e/ou subjetiva para a criação de um partido nazista no Brasil, com intenções públicas e projeto de poder. O que Monark sugeriu não passa de uma de suas patetices.
Ao Antônio Maria, que me abriu um baú de espantos.
Tinha jantado com uma grande amiga. Noite alta, levou-a para casa no Gordini. Na volta, precisando de dinheiro, foi ao restaurante Rond Point trocar um cheque. Ninguém hoje pensa numa coisa dessas, mas nos idos de 1964 os amigos também funcionavam como caixa de banco, quebra-galho fundamental em momentos de aperto. Bateu um papo com o garçom da casa, conversa fiada na porta do restaurante para espantar a solidão traiçoeira da madrugada.
De repente, como uma onda irresistível, o peito explode. Cai no chão. Eram 3 horas na madrugada de 15 de outubro de 1964. Antônio Maria sofreu um infarto fulminante do miocárdio. Quando sua cabeça bateu na calçada, estava praticamente morto. Um delegado de polícia, parceiro de causos nos tempos da delegacia na Hilário de Gouveia, estava por perto e tentou uma respiração boca a boca. Nada feito. O cronista e letrista de sambas-canção morria no cenário que tanto frequentara e amara, as ruas, becos, sombras, personagens, da Copacabana dos anos 50 e 60. Em 16 de janeiro de 1963, numa crônica n’O Jornal, Maria garantiu que chegaria aos 50 anos. Afinal de contas, se Rubem Braga e Augusto Frederico Schmidt tinham conseguido, por que não ele? Cardisplicente, seu corpo desabou aos 43 anos.
No dia seguinte à morte de Maria, O Jornal publicou a última crônica do pernambucano. Uma velhinha fala da frequentadora exótica do restaurante Westfalia, que chegava sempre por volta das dez e meia, onze horas, com uma pequena mala. De lá tirava talheres, um copo de prata e o prato. Chamava o garçom e ordenava que retirasse o material da casa de cima da mesa. Fazia o pedido e não se conformava enquanto o filé não chegasse no “ponto certo”. Chata? Grosseira? Criadora de casos? Nada disso. Maria observa que ela era apenas uma “mulher que luta o tempo inteiro pelos seus gestos, não negocia sua comodidade, seu conforto”. Até aí tudo bem, mas vem o arremate, que faria um sambalelê medonho no gueto das feministas xiitas. “A velhinha tão bela e frágil por fora, magrinha como ela é, se a gente abrir, vai ver tem um homem dentro. Um homem solitário, que sabe o que quer e não cede ‘isto’ de sua magnífica solidão”. Ignorando as circunstâncias do texto, a alma em farrapos do Maria naquela época, as censuretes que “sugeriram” a Chico banir Com açúcar, com afeto fariam picadinho do suposto machismo do cronista. Só homem pode ser digno de sentimentos fortes, afirmativos, até mesmo da solidão? O picadinho tóxico passaria ao largo dos que Antônio Maria consumiu aos baldes na Boate Meia Noite, dentro do Copacabana Palace.
Nos revisionismos em voga, ainda não vi – aleluia! – quem bulisse com Luiz Gonzaga e Zeca Pagodinho. Gonzagão consagrou na Asa branca o trecho: Eu perguntei a deus do céu/por que tamanha judiação? Zeca começa um samba dizendo Judia de mim, judia. Como judeu, compreendo o desconforto de membros da tribo, mas não me sinto ofendido com a associação do verbo judiar e suas coagulações substantivas/adjetivas com maltratar, comportar-se de forma condenável. A razão é simples. Na origem, é verdade, houve clara intenção pejorativa. No entanto, como ensina mestre Sérgio Rodrigues, a língua é dinâmica. Hoje, a raiz preconceituosa foi amplamente diluída pelo uso cotidiano. Duvido que muita gente faça a associação perversa. Pode-se alertar para a origem preconceituosa, debater “o entulho lexical de inspiração antissemita” (Rodrigues), mas é no mínimo duvidoso que sua supressão contribuiria, hoje, para combater a injúria e o preconceito.
Certas conquistas femininas andam sendo vendidas como mercadorias promissoras. O futebol, por exemplo. Ótimo que as meninas calcem chuteiras sem medo de comparações com BBBs. Beques Botinudos do Bangu. Ocorre que as partidas que assisti não passam de peladas (sem duplo sentido) medíocres. Qualidade inferior às de qualquer torneio de várzea ou ao clássico Canto do Rio x Campo Grande, categoria sub-17, dos meninos. Incômodo e bocejante para quem aprecia o velho e violento esporte bretão. Não é uma questão de gênero. O que dizer das transmissões por locutoras? Repetem os piores vícios de seus congêneres masculinos. Estridentes, estado de permanente e artificial excitação, simulação de grandezas mesmo nas miudezas de qualquer partida. Fico pensando como se sentiria o Antônio Maria, que chegou a ser locutor esportivo nos primeiros tempos de Rio, transmitindo essas gloriosas caricaturas do jogo bem jogado.
Não me interpretem mal. Sou totalmente favorável a que as mulheres participem de todas as modalidades esportivas. Com uma solitária exceção. O sumô. Algumas senhoras já se arriscam no dohyo, arena em que as jamantas se enfrentam. Sei não, mas acho que a rinha de dragões de Komodo faz mais sentido.
Quando o apito/da fábrica de tecidos/vem ferir os meus ouvidos (Três apitos, Noel Rosa)
Meio-dia. O longo apito não falhava. Hora do almoço para os operários da fábrica da Brahma, que ocupava uma grande área nas imediações do rio Maracanã. Uma vez por semana, minha mãe aguardava aquele sinal sonoro, aproveitava o intervalo na jornada de trabalho e ia para o portão principal da fábrica receber sobras de levedo de cerveja. Na época, era um suplemento vitamínico popular e a mãe judia, preocupada com o aspecto tísico do Menino, reforçava as defesas do pequeno. Na batalha por um aspecto mais aceitável para os muito rigorosos padrões estéticos familiares. Sempre detestei cerveja, só bebo, pouquíssimo, nas chamadas ocasiões sociais. Associação inconsciente com aquela gororoba vitamínica? Será que alguém renunciou a um bolinho de bacalhau por ter tomado Emulsão de Scott na infância?
Associo o apito da Brahma com outros ruídos no meu painel afetivo-sonoro. A caminhonete do ferro-velho, ela mesma candidata a virar sucata. O carro da pamonha, quentinha! Os berros do garrafeiro português, empurrando o burro sem rabo e tamanqueando no chão duro. O trac-trac da matraca do baleiro, que vendia longos pirulitos cônicos de açúcar queimado e biscoitos de casquinha. Os gols comemorados na linha de passe. Eram ligeiras, quase gentis, quebras no silêncio dos dias. A cidade parecia permitir o isolamento de quem precisava viajar para dentro de si.
Durante a fase mais dura da pandemia, comércio fechado, pessoas trancadas em casa, ganhamos de presente o silêncio, que jazia em fase terminal na cidade enlouquecida. Reaprendemos a olhar árvores e ouvir sinfonias do passaredo. À noite, foi possível curtir Erik Satie sem a interferência etílico-neurótica dos bebuns na esquina. Sei, sei, o custo disso foi alto. Medo da peste, isolamento dos amigos e familiares, insegurança sobre o futuro. No entanto, por um breve período, tive a dimensão do que se perde na convivência forçada com certos barulhos. Os de bares, por exemplo.
No Rio, os bares voltaram ao batente. São vistos pela mitologia urbana como símbolo da carioquice. Alegres, descontraídos, convidativos. Em nome dessas virtudes, espalham terror nas áreas densamente habitadas onde funcionam. Ninguém pretende que os frequentadores se comuniquem por sussurros. No entanto, a aglomeração, obrigatória, favorece uma elevação descontrolada de decibéis, abastecida por quantidades industriais de álcool. O resultado, para a vizinhança, é o Inferno de Dante. Ah, mas é em nome da carioquice, da extroversão de um povo que se diverte e gosta de bater papo! Será a mesma que levou ao trucidamento do congolês Moïse Mugenyi Kabagambe? Existirá mesmo uma carioquice? Adiante.
Para piorar a situação, gravita em torno das mesas festivas toda sorte de “músicos”, em geral medíocres sopradores de trombone, espancadores de pandeiros, assassinos de atabaques, violões e repertórios. Não respeitam volumes e horários. Sem qualquer limite, já começam a amplificar sua obra corrosiva com caixas de som obscenas. Os bares, claro, preferem fingir que nada está acontecendo. Se o faturamento vai bem, nada mais interessa. São sócios do caos. Vizinhos? Ora direis, para que pensar nos vizinhos? Em nome da carioquice. Sei.
No dia 13 de outubro de 1985, foi publicada a crônica A extraordinária musicalidade do povo brasileiro, do João Ubaldo Ribeiro. Com a tradicional ironia cortante, Ubaldo rogava todas as pragas contra os que violentavam a paz e o silêncio em lugares que pediam moderação e introspecção. Chegou a mudar de emprego por não suportar um carro de som que lhe atazanava, diariamente, o juízo. Ao final, perguntava: “Qual será a pena para quem for pegado destruindo caixas de som a tiros de rifle?”. Não vou, claro, pegar em armas, nem convocar uma cruzada contra a metástase barista. No entanto, posso me juntar ao ectoplama do itaparicano e inventar diariamente pragas pesadas e impublicáveis contra os estupradores de silêncios em lugares públicos. Crime de lesa-sensibilidade.
Ao reivindicar um pouco de sossego, posso estar sendo radical. Há artigos que vão se tornando naturalmente obsoletos. Quem ainda manda cartões postais? Ou leva radinho de pilha para o Maracanã? Existirá alguém que ainda tome as Pílulas de Vida do dr. Ross? Algum peladeiro insiste em passar sebo na sua bola de couro? Bem, é possível que paz e silêncio na cidade já estejam na categoria de animais em fase acelerada de extinção. Talvez o que reste a fazer seja repetir Bandeira: tocar um tango argentino. Bem baixinho. Para não cair em contradição.