Pequenas memórias

Pequenas memórias

Leo Aversa é dos bons cronistas da nova geração. Dois de seus últimos textos falam de perdas dolorosas. Em ambos, Leo não se deixa dominar pela melancolia. No desta semana, dialoga com uma mãe traumatizada pela perda de um filho num acidente. Ele, como eu, acredita no poder de certas memórias para aliviar a ausência definitiva, elaborar o luto necessário, superar, parcialmente que seja, o corte. Não são as lembranças de datas protocolares, registradas em fotos idem. São os pequenos gestos, o encanto inesperado, o cafuné na hora certa.

Quando quero lembrar da família original, faço um grande esforço. Com raras exceções, ela era parcimoniosa no riso. Esta seriedade deixou marcas. Em dois momentos especiais, no entanto, encontramo-nos no afeto e na muda compreensão dos nossos olhares. A Tia Sorridente tinha uma pequena estante repleta de livros. Quando a visitava, eu flertava com aquelas lombadas coloridas, onde reinavam Narizinho e meus sonhos. Pois ela, alma leve, me abriu a porta daquele móvel antigo e permitiu que levasse tudo o que quisesse, sem prazo para devolver. Mergulhei no paraíso lobatiano e até hoje tento reencontrar a mesma sensação.

Meu pai e meu tio foram sócios de uma pequena loja de móveis em Angra dos Reis, quando ali era pouco mais do que uma colônia de pescadores. Ambos viajavam para lá mensalmente, numa rodovia acidentada. Certa vez, eu e um primo acompanhamos nossos pais. Tinha chovido muito, a estrada ficou interrompida por uma barreira e voltamos para o Rio. O jeito era ir até Mangaratiba e lá pegar um barco até Angra. Nessa volta, saí completamente da rotina. Dormi na casa dos tios num estado de tal excitação que parecia flutuar na cama. Dia seguinte, embarcamos em Mangaratiba. O mar estava agitado, como se quisesse abraçar-me do seu jeito. O barco sacolejava, vi gente pálida, verde, assustada. Fechei os olhos, vesti-me da coragem de intrépido pirata. Sorri, imaginei mãos dadas com adultos sisudos que, por breve e líquido momento, também sorriam. O Menino que desembarcou em Angra já não era eu.

Entre os prejudicados pela pandemia, tenho especial sintonia com o drama de uma geração de estudantes forçada a ter aulas à distância por dois anos e privada do contato com amigos e familiares. Impossível contabilizar o estrago afetivo e de desenvolvimento emocional. As memórias que criam redes de sustentação psicológica, encurtadas pelo estreitamento das fronteiras cotidianas, não saem ilesas de toda essa encrenca. De qualquer forma, algo se cria. Capenga, parcial, um tanto empobrecido. Logo no início da pandemia, todos trancados dentro de casa por meses, meu neto mais novo, tiquinho de gente, pegou um banquinho, subiu nele e, próximo à janela, disse que queria “ver a cidade”. Para ele, os galhos das árvores, os telhados das casas, o movimento de carros e gente, eram “a cidade” possível. O “mundo” em miniatura.

Quando a situação permitiu, com duas doses de vacina no braço, fomos buscá-lo na escola. Sem avisar. Ao sair, de máscara, como nós, levou um tempo para perceber quem éramos. Finalmente reconhecidos, foi literalmente uma explosão. O alvoroço da bemquerença. Correu em nossa direção, abraçou, tentacular, nossos joelhos, falou para o pessoal da escola “meus avós!” e saiu correndo pela calçada, indo e voltando. Tinha muitas formas de expressar o sentimento represado por tanto tempo. A “cidade” se materializava ali, se completava, e, suspeito, se transformava num fiapo de memória que não desaparecerá.

O neto mais velho não mora no Rio. Sei que também sofreu as consequências do isolamento, início de adolescência é pedreira. De que se lembrará ao pensar no avô? Houve um momento especial, e aconteceu já na cidade onde mora hoje. Antes da pandemia, visitávamos a família e ele me pediu que fossemos a um lugar para comer um cachorro-quente “especial”. Fomos. No caminho, abraçados, abriu um enorme sorriso e disse que aquele “era o dia mais feliz da minha vida”. Vejam vocês o poder sedutor de uma salsicha! Comeu o sanduíche como quem devora um banquete pantagruélico. Voltamos merecidamente satisfeitos.

Fragmentos antigos e nem tanto, que me dão forma e aproximam de quem quero. Apagam sombras e ajudam a dar sentidos para a vida.

Abraço. E coragem.

Fecundando histórias

Fecundando histórias

Me deixou com os braços pendurados no ar, abraço implodido. Foi direto para minha poltrona predileta, ajeitou-se como imperatriz solene e apontou-me o sofá ao lado. Senta aí, vovô. Resignado, fui ouvir o que a neta querida tinha para trocarmos. Sim, gostamos de trocar, tricotar sensações, medir humores, contar novidades. Naquele dia, veio armada com folhas em branco e uma pasta amarela que parecia vazia. Leitora voraz desde cedo, ela já ensaia suas próprias histórias.

Com voz afetuosa, mas firme, ordenou: me dê uma ideia para escrever um livro. Surpreso, ela mesma é uma usina permanente de boas ideias, tentei entender. Escute lá, se você quer mesmo escrever um livro, a ideia tem que ser sua. Senão, não vai ter a menor graça. Não se perturbou. Então, vamos combinar o seguinte. Eu escrevo, mas você faz os desenhos. Eu, um ilustrador! Tudo bem, sempre rabisquei umas coisinhas, mas daí a dar forma gráfica a personagens e situações…

Aos poucos, fui percebendo, maravilhado, o bastidor daquela conversa. Minha pequena está apaixonada pelo jeito com que se transformam palavras em páginas impressas, com capa expressiva e, sobretudo, o nome do escritor bem destacado. Ela está ansiosa para ser sócia deste clube. Mas tem que ser “livro de verdade”, não servem versões espiraladas. Encontrar alguém que, tão precocemente, demonstra curiosidade pelo processo de produção de um livro, candidatando-se ao vício permanente da leitura, não é fácil.

Que tempo viverá minha neta para usar seu claro talento literário? Como em qualquer época, haverá assombros e chiliques, fantasias e pesadelos. Agora mesmo, estamos testemunhando o nascimento de uma era revolucionária na medicina. Um homem acaba de receber um coração de porco, depois de uma recauchutagem inédita no órgão do animal. Até aqui, tudo está correndo bem, o receptor ainda não grunhiu, nem pediu para mergulhar no lamaçal da esquina ou fazer figuração num desenho da Pepa. Trata-se de mais uma importante ajuda suína à saúde humana. Válvulas cardíacas de porcos há muito habitam corações danificados de homens apaixonados. Insulina proveniente de pâncreas suíno é a mais semelhante à produzida pelo corpo humano. Pele de porco tem sido usada como enxerto em pacientes queimados.

Essa proximidade benigna com nossos irmãos de quatro patas questiona a imagem que fazemos deles. Quando queremos dizer que algum aparelho, por exemplo, é de má qualidade, como o chamamos? Bela porcaria! Injustiça número um. Se uma pessoa, pelo simples prazer de contrariar, contesta tudo, como a chamamos? Espírito de porco! Injustiça número dois. Quem George Orwell usou para metaforizar tendências totalitárias na Revolução dos bichos? Os porcos! Injustiça número três.

Você, minha neta, poderá viajar muito para ouvir as histórias que o humano profundo guarda em lugares improváveis. Certa vez, mochila nas costas e grana pouca no bolso, fui indo até a fronteira de Pernambuco com a Bahia. Era o rio São Francisco. De um lado, Petrolina, do outro, Juazeiro. Andei, andei, infelizmente pouco conversei. A gente que circulava por lá devia me achar meio esquisito, um riponga fora de lugar. Fotografei tudo nas retinas, mas faltou conversa. Talvez algum dia, querida neta, você descubra que a viagem principal é aquela que a gente faz para dentro de si. Nessa aí se aprende a respeitar silêncios e a contar com a poesia para desvendar os mistérios que importam.

Jamais se preocupe com cobranças excessivas. Se a sua maneira de estar no mundo for, sobretudo, através da palavra, apenas obedeça este dom. O universo conspirará a teu favor. Existiu, nos Estados Unidos, um grande artista popular. Ele se chamava Woody Guthrie e deixou uma obra que vale a pena conhecer. Num de seus poemas, ele reflete sobre os rumos da vida. Alguns pedaços (sem tradução): Well I’m gonna work in this world/The best I can if I can/I’m gonna clean up this world/The best I can if I can/I am gonna talk in this world/The best I can if I can. Siga a trilha do velho Woody.

Enquanto ainda estamos aqui, nessa mui desleal cidade de São Sebastião (copyright Antônio Maria, um pernambucano cardisplicente que um dia você ainda vai conhecer), fique à vontade. Compartilho minha poltrona predileta, meus achados desimportantes, meu espírito que está avariado mas, garanto, não é de porco.

Abraço. E coragem.

Visões de dentro do fosso

Visões de dentro do fosso

Na véspera do segundo turno da eleição para presidente, em 2018, eu estava em Botafogo. Fui assistir o filme uruguaio A noite de 12 anos, baseado nas condições degradantes dos presos políticos durante a ditadura militar do Uruguai (1973-1985). Já tinha lido o terrível livro Memorias del calabozo, escrito por dois daqueles presos (Maurício Rosencoff e Eleuterio Fernández-Huidobro), estava bem informado sobre o assunto.

O clima no cinema era de profunda emoção. Um pouco de imaginação e dava para ouvir os corações acelerados. No dia seguinte, um apoiador da ditadura civil-militar brasileira podia ser eleito presidente. Terminada a exibição, as palmas vieram num crescendo e, com elas, o grito: Ele não! Ele não! A gente saiu de lá um pouco aliviado com o extravasamento da tensão pré-eleitoral, já conhecíamos o autoritarismo dos milicos, não queríamos acreditar num replay. As imagens na telona projetavam parte do horror que vivêramos. E, no entanto, foi ele sim.

Três anos de mergulho no esgoto, em que pé estamos? Vamos ser francos. Ninguém poderia imaginar as proporções do desastre que nos abalroou. Certamente dava para desenhar um governo medíocre, antipopular, sectário no plano internacional. O que veio, porém, foi avassalador, atingindo todos os setores da sociedade. Constatamos, entre assustados, incrédulos e indignados, a existência de um país que desconhecíamos e permanecia, dormente, a poucos milímetros abaixo da superfície sócio-cultural. Os boçais ganharam espaço para espalhar seus acessos dementes. O furor reacionário de setores religiosos saiu da penumbra. Em recente entrevista, Muniz Sodré, grande praça e um dos maiores pensadores da comunicação do país, junta os cacos: “O real que me cerca é catastrófico. Percebi que desconhecia a parcela do povo brasileiro que elegeu o atual governo. É uma parcela protofascista, etnocida, que sofre pra burro, mas pactua com os detentores de privilégios. É um choque muito grande. O Brasil se revelou para mim ainda mais brutal do que na ditadura militar”.

Na aurora de 2022, o que enfrentamos nós, que conseguimos a duras penas manter a sanidade? A grande prioridade é derrotar Bolsonaro em outubro e devolver à latrina o amontoado de energúmenos que ele tirou da cartola. Cabem algumas observações. A luta é para banir o retrocesso e recolocar o país num mínimo de escala civilizatória. Sem, entretanto, qualquer ilusão de que a reconstrução será rápida e que, qualquer que seja o vencedor, haverá mudanças importantes nos grandes problemas estruturais brasileiros. Estas só virão em outro modo de produção material e subjetiva, numa conquista que passa longe de eleições.

É essencial descer do salto alto e não subestimar a força do negacionista pérfido. As campanhas eleitorais se mudaram, em grande parte, para as redes sociais e nelas impera o vale-tudo. Além disso, o elemento ainda tem a caneta para distribuir benesses e imantar apoios. Em 2018, subestimá-lo foi um erro pelo qual ainda pagamos. Pessoa que respeito dizia, nas proximidades do pleito, que a burguesia não ia embarcar naquela canoa espiroqueta. Pois embarcou, e boa parte dela ainda está lá, como demonstram pesquisas do Datafolha.

Outra questão importante é o futuro do bolsonarismo. Haverá bolsonarismo sem Bolsonaro? Não dá para ser categórico na resposta. Se entendermos bolsonarismo como um movimento de corte protofascista, fundamentado na histeria anticomunista, na promiscuidade Estado-religião, no ultraconservadorismo em costumes, é bem provável que sobreviva nas franjas das relações sociais, influindo na opinião pública e sendo representado no parlamento e em entidades corporativas. Se conseguir a adesão de quadros mais articulados do que o ex-capitão, pode se consolidar.

Quem acha que a onda bolsonarista não passa de gripe passageira, melhor seria que prestasse atenção em algumas pesquisas. O Datafolha, por exemplo, constatou que a maioria da população brasileira (52%) acha que comerciais com casais homossexuais devem ser proibidos na televisão para proteger crianças. Quase metade (44%) acham que o Brasil corre grande risco de se tornar um país comunista dependendo do resultado da próxima eleição. Estamos falando de terreno fértil para discursos reacionários.

Por fim, me preocupo com certa tendência salvacionista/autoritária de parte da esquerda. Vou dar um exemplo que me alarma e entristece. Recentemente, o jornalista Fernando Morais, que nos presenteou com A ilha e Olga em tempos sombrios, declarou apoio a Jones Manoel para o governo de Pernambuco. Jones é um jovem e brilhante quadro do PCB. O apoio de Fernando foi apenas um registro de simpatia, ele não vota em Pernambuco. Pra que, zabelê? Choveram nas redes sociais acusações sórdidas a Fernando, desqualificações estúpidas a Jones, acusações abjetas, ignorantes e totalmente infundadas ao PCB. Os “acusadores”, identificados com a candidatura Lula, parecem não suportar qualquer tipo de crítica ao seu ídolo. Confundem luta política com traição. Ora, parece que a História ensinou os estragos do culto à personalidade. O menor deles é a atrofia do pensar.

Abraço. E coragem.

Ora direis, ouvir a capivara…

Ora direis, ouvir a capivara…

Senhoras e senhores ouvintes, transmitimos diretamente da pedra do Arpoador, onde surgiu uma capivara, assustando os frequentadores do local. Num esforço de reportagem, conseguimos nos aproximar do roedor, que nos deu uma declaração exclusiva. Com o patrocínio das afamadas cápsulas de óleo de capivara, o melhor remédio contra asma, bronquite e desnutrição, passamos a palavra ao irrequieto animal.

“Não entendo tanto alvoroço. Estava visitando uns primos que andam pelas bandas da Lagoa Rodrigo de Freitas. Conversa vai, conversa vem, saboreando um capim gourmet, me falaram das maravilhas do Arpoador, que não ficava longe. Mergulhei no canal do Jardim de Alah, driblei o lixo que vocês, espécie inconsequente, jogam ali, e em pouco tempo desembarquei numa pedra lisa. Era o Arpoador.

Logo que me viram, várias pessoas correram apavoradas. Como se tivessem visto, quem seria mesmo?, o presidente da República. Fiquei intrigada. O mar estava calmo, não havia sinal de arrastão, nem de vendedor de mate escalpelando a freguesia. Medo de quê? Mal tinha me acomodado e apareceram uns homens fardados, com redes nas mãos, caras de poucos amigos. Pelo sim, pelo não, seguro morreu de velho, mergulhei de novo.

Quando emergi, estava numa praia. Não muito longe, vinham novamente os indivíduos com as redes indóceis. Sob aplausos dos gozadores de sempre, tratei de colocar sebo nas canelas e desapareci dentro d’água. Não pude evitar um pensamento triste. Por que tanto receio, aflição tamanha?

Não falo pelos meus parentes preás, pacas e porquinhos-da-índia, mas nós, capivaras, sempre gozamos de bom conceito com a raça de vocês. Será que ninguém mais se lembra do elixir Capivarol, extrato de óleo do meu pessoal, que um farmacêutico mineiro garantia ser “eficaz para combater tuberculose e moléstias ocasionadas por depauperismo orgânico”? O que dizer da cidade de Capivari, interiorzão de São Paulo? O nome, que em tupi-guarani quer dizer rio das capivaras, mostra o nível de respeito, afeto e civilidade com que convivíamos. Ninguém daria a uma cidade o nome de Piolhópolis, a gente só homenageia o que gosta. Uma jornalista carioca, adepta de livros e gatos, gastou muita tinta e papel para demonstrar simpatia por aqueles primos da Lagoa. Nós somos da paz. Afastados da Natureza, vocês entram em pânico quando fazem contato com tudo que não seja barulhento, poluidor, programável, cinzento.

Um tio intelectualizado, que anda meio sumido, me falou de um livro. O personagem principal é Gregor Samsa. Na história, ele amanhecia cascudo, com antenas, cabeça meio triangular. Uma barata! Gente virando bicho. Não é que este fenômeno anda se multiplicando? Quantos de vocês, com habilidade para falar, argumentar, pensar, preferem zurrar, gritar, escoicear, seguir o cardápio do ódio, flertar com o desprezível? Para vocês verem que não é de mim que precisam ter medo. A estupidez, a paixão pela ignorância, estão aí, no meio e junto da sua tribo.

Quanto a mim, não quero virar influencer, youtuber, avatar de metaverso. Não vou usar xampu, nem educador sanitário, desses que se vendem em lojas de luxo. Não sei cozinhar, não invisto na Bolsa, nem tenho vocação para BBB. Quero apenas andar e nadar por aí. Sem medo. Como no tempo em que neste planeta alucinado não havia homens.

Fui.”

Voltamos aos nossos estúdios.

Um abraço. E coragem.

Parasitas

Parasitas

Parece que foi ontem. Você pode até não acreditar, mas o Réveillon em Copacabana era praticamente uma pequena celebração de umbandistas, louvando Iemanjá e lhe fazendo oferendas. Cerimônia que provocava na classe média local um meio sorriso de ironia, para ela aquilo não passava de flagrante exotismo. Hoje, os rituais de matriz africana nas areias da praia são, no máximo, ítem menor de pacotes turísticos. A passagem de ano na orla de Copacabana se transformou num espreme-espreme de, dizem, 2 milhões de pessoas, que se aglomeram para ver sempre os mesmos fogos, êba!, e acham que comer romãs, lentilhas e uvas vai mudar suas vidas. Já estive lá, não volto nem sob tortura, e posso assegurar que não é o melhor esporte ficar em pé na areia fina, com bêbados tropeçando em você, vomitando a baba elástica dos ébrios. O aroma de urina vai se espalhando, o vapor de álcool no ar é tão concentrado que, se alguém tiver a má ideia de acender um fósforo, periga toda aquela geringonça ir pelos ares. Ah, já ia me esquecendo. Os punguistas, profissionais up to date nas técnicas de aliviar carteiras, comparecem em bando, não exatamente para comemorar o ano novo. Um deslumbre.

Se mudou o Réveillon, ficou exatamente igual a burla dos que, nesta época do ano, se dizem leitores/intérpretes do futuro. Alguns, mais prudentes, mudaram um pouquinho o discurso. Falam em “antecipar possibilidades”. Adaptação oportuna ao mercado. Adianto que não posso reclamar. Divirto-me um bocado com quiromantes, numerólogos, tarólogos, jogadores de búzios, leitores de borras de café e tripas de galinha, astrólogos, videntes, bruxos. Antigamente, tudo se reduzia a uns poucos e folclóricos personagens. Omar Cardoso e Zora Yonara ensinavam simpatias, falavam de números e cores, transmitiam mensagens de autoajuda. Hoje, virou grande negócio, com profissionais disputados por celebridades, socialites, aflitos de todos os coturnos.

Os profetas de araque e todos os que recorrem a eles me fazem duvidar da evolução da espécie. Posso compreender, por exemplo, que o homem primitivo, em suas cavernas escuras e úmidas, não compreendesse a origem dos raios e trovoadas que o aterrorizavam e atribuísse a existência deles a poderes mágicos. No entanto, repetir essa lógica hoje em dia é fazer um pacto com a ignorância. A astrologia não está muito longe deste primitivismo. Concebida no tempo dos sumérios, sua visão de universo é absolutamente ultrapassada. A NASA acaba de lançar ao espaço o telescópio James Webb. O artefato, que vai viajar 1,5 milhão de quilômetros, permitirá levantar dados que mostrarão um novo mapa do Cosmos, olhando para trás no tempo mais de 13,5 bilhões de anos e vendo as primeiras estrelas e galáxias formadas 100 milhões de anos após o Big Bang. Uma revolução, que reduzirá a pó as concepções bolorentas geradas pelos sumérios. Desaparecerão os astrólogos? Não creio. Muita gente necessita acreditar no inacreditável.

Faz parte da diversão ler as “previsões” e conselhos do big business místico. Um deles, aliás, está fazendo promoção no preço da consulta. Na minha mão é mais barato! Verdade que andam um tanto desacreditados desde que erraram feio ao não alertar para a encrenca planetária que estamos enfrentando. Uma das mais badaladas sócias do clube prenunciou, por exemplo, que os nativos de Touro teriam, em 2020, “um bom ano, talvez um dos melhores”. Para os de Virgem, aconselhou: “Saiam de casa, saçariquem à vontade, vejam os amigos, porque a senha é divirtam-se!”. Sabemos muito bem o que aconteceu em 2020. Um ano bem sociável e divertido, não é mesmo?

E para 2022? Na linguagem propositalmente dúbia que usam, onde cabe tudo, fica difícil tirar coelhos fofinhos da cartola. A campeã é uma senhora que alertou que, por Netuno estar em Peixes até 2026, “só acabaremos com as novas cepas do coronavírus se pensarmos no outro, usando máscara e tomando as vacinas necessárias”. Não!!! É mesmo??? Atila Iamarino, Margareth Dalcolmo, Natalia Pasternak e Ésper Kallas deviam exigir reparação por violação de copyright.

O que acho mais constrangedor é o espaço que se dá a essa gente nos meios de comunicação. Faz tanto sentido quanto divulgar a agenda do Chupa-cabras, marcar consulta com o Curupira, convocar o Saci para a seleção sub-20 ou reservar uma passagem no navio que vai até os confins da Terra plana. O futuro não pré-existe. Não há atalhos ou truques baratos para se chegar a ele. Embora nossas escolhas não dependam apenas de nós, estaremos sozinhos ao tomar decisões que definirão o que virá no plano pessoal.

Vamos construir 2022. Passo a passo. Sem ilusões místicas. Com espaço para surpresas, que jamais serão antecipadas pelos parasitas das nossas inseguranças.

Um abraço. E coragem.

Ciclo da chuva

Ciclo da chuva

A noite está tão fria/chove lá fora (Tito Madi)

Estendeu a mão e me convidou a entrar. Excitado para me introduzir naquele pedaço de mundo que eu desconhecia. Essas são as fichas dos meus amigos, aquele peixinho azul é o Dudu, só come comida molhada. De passagem, ganha abraços apertados, o cara era popular. Prossegue a expedição. Lá no fundo está a minha mochila, ali é o desenho do satélite que faz conexão com o Brasil, a hanuquiá é de aço, o metal mais forte que o normal. De repente, no meio da algazarra geral, parou. Olhou um instante nos meus olhos, abaixou a cabeça e jorrou uma lágrima torrencial. Fico de joelhos, ofereço o ombro àquela pessoinha. Soluça, começa a falar em saudades, nas pessoas que não vai mais encontrar todos os dias. Meu neto vive uma transição. A partir do ano que vem, sua escola muda de bairro. A combinação de insegurança pelo novo, perda de situações conhecidas, ruptura de laços, o deixa vulnerável. Mal sabe ele que nossa vida é assim mesmo, formada por retalhos irregulares e escolha de cores. A costura nem sempre dá certo, mas estamos condenados a costurar.

Descemos a escada abraçados. Ou melhor: ele abraçado no meu joelho e eu nada econômico nos cafunés. Já no portão de saída, desaba um dilúvio. Em pouco tempo, a água lambe nossos pés. Quicando feito bola, nos jogamos dentro do táxi. Vamos em silêncio, que respeito. Cada um, não importa a idade, tem o seu tempo para entender o que dói e encontrar formas de superar o maltrato. A chuva não cede.

Porto do Rio de JaneiroHá um século, aportava no Rio o vapor Valdívia, vindo de Gênova. Era uma tarde chuvosa. Malvina, então com dez anos, desce junto com a mãe Regina. O caminho desde Iedenitz tinha sido longo. A viagem até que fora divertida, tanto mar, tanto mar. Os adultos, não entendia muito bem a razão, andavam sempre solenes, interrogativos, pouco falantes. Quando botou os pés na terra desconhecida, sorriu. A chuva transformara o chão em lama, a mesma lama de seus folguedos bessarabianos. Escorregar na película lisa era dos poucos momentos de infância que lhe permitiam.

Samuel as aguardava. Uma espera de dez anos. Saíra de Iedenitz para tentar a vida na Bahia e depois trazer mulher e filha. Por artes de uma epidemia de febre amarela, saiu de lá e veio morar no Rio. A expressão severa dos tempos antigos era a mesma. A vida continuava dura.

O táxi que os levou para São Cristovão foi uma surpresa para Malvina. A começar pela paisagem. Nunca vira tanto verde junto! E aqueles morros! Samuel apontou ao longe o Morro do Castelo, que estava sendo derrubado e seus habitantes expulsos. Os olhos de Malvina não paravam quietos, apesar dos pingos de chuva na janela do carro, que insistiam em nublar a vista. Deu para ver gente estranha se movendo pelas ruas. Não conhecia pessoas com a pele escura, dessas que seriam suas vizinhas em pouco tempo.

Na rua em que foi morar, disseram que faltava pouco para o carnaval. Carnaval? O que seria isso? Não demorou e a aspereza do dia-a-dia começou a se colorir. Grupos de clóvis, homens vestidos de baianas, desfiles de carros, adultos em delírio gritando para abrir alas, confetes caindo como folhas outonais. Quanta cor podia ter a vida. Malvina não só descobriu isso, mas desejou que todos tivessem direito ao arco-íris existencial. Foi, aos poucos, ser gauche na vida.

E as chuvas de verão? Samuel, numa das raras gargalhadas a que se deu direito, disse que ali perto de onde moravam tinha uma praça chamada Bandeira. Com qualquer chuvinha mais forte, o lugar ficava inundado. Os cariocas não perdoavam. A praça deixava de ser da Bandeira para virar “da banheira”.

Pulando carniça PortinariUm dia, Malvina foi convidada para uma brincadeira que acabara de desembarcar em São Cristovão. Pular carniça. Uma criança se dobrava, colocando as mãos nos joelhos. Outra vinha correndo e, apoiando-se nas costas da que estava curvada, pulava por cima, gritando não-sei-quê. Caramba! Ela conhecia aquilo de Iedenitz, era a Katchura. Entrando no clima, Malvina correu para o amigo que estava com o corpo dobrado, saltou sobre ele, e gritou, com sotaque bessarabiano: Katchura! Monta na bura! Pronto. A partir daquele momento, estava diplomada, definitivamente, em Rio de Janeiro.

A chuva começa a ceder. A água parece ter limpado a alma triste do meu neto. Descemos do carro já no modo jogo de amarelinha. Não chegamos a ver o arco-íris, mas foi ele que abriu a porta do prédio.

Um abraço. E coragem.