Tempo, tempo, tempo

Tempo, tempo, tempo

Tempus edax rerum (O tempo, esse devorador das coisas), Ovídio

Sábado passado tive uma prova de que ainda estou vivo. Nunca se sabe, não é mesmo? Depois de dois anos de afastamento forçado pela peste, nosso grupo de amigos voltou a se encontrar aqui em casa. Antes do dilúvio, a gente sempre se reunia uma vez por mês, cada um trazendo um pequeno texto, que era lido e comentado por todos. Terminada a leitura, o prazer do encontro esticava em torno da mesa. Conversa correndo solta, nutrida por vinhos, pastas e afetos.

Dessa vez, havia não apenas a emoção do reencontro. Que bom termos sobrevivido ao vírus e ao negacionismo criminoso da gangue planaltina! Tivemos que lidar com um reservatório lotado de assuntos adiados. Sabe aquela vontade impossível de esgotar tudo que se acumulou, de uma carreira só? Depois de vários solavancos, conversamos sobre o tempo. Não aquele que nosso ranking poderia sugerir. O dos cigarros Caporal Amarellinho, tipo arrebenta-peito, da cerveja Cascatinha, “de propriedades vitaminosas”, das sessões corridas no Cineac. Tampouco aquele que minha neta querida lascou, com certa desconfiança. Sabia, vovô, que daqui a 8 bilhões de anos o Sol vai desaparecer e engolir a Terra? Não sou capaz de prever o que vai acontecer daqui a oito minutos, que dirá essa pilha de zeros. Mais modestos, ficamos no tempo que nos coube viver e nos sinais, alguns bem nítidos, do que vem por aí.

Difícil de definir, arroz de festa nos delírios da ficção científica, o tempo não é uma variável linear. Vivemos passado, presente e futuro simultaneamente. O passado, com seus valores e ambiências, por exemplo, é teimoso. Nos Estados Unidos, há uma guerra cultural em curso. Não, não estou me referindo aos sacripantas que rejeitam vacinas. Falo das ameaças de morte que estão sofrendo membros de conselhos escolares, por defenderem um currículo moderno, laico e pluralista. Os brucutus, assustados com o que não conseguem entender e dominar, rotulam os pedagogos de “marxistas”, “pedófilos” e “traidores”. Falta muito pouco para convocarem fogueiras e linchamentos. Em alguns distritos, já estão censurando livros. É Idade Média que chama?

Em certas religiões, o domínio patriarcal permanece coeso. Quem consegue imaginar a eleição de uma mulher para papa? A simples sugestão deve abalar as cúpulas vaticanas. Na frente do Muro das Lamentações, em Jerusalém, os judeus ultraortodoxos travam batalha para impedir que as mulheres leiam rolos da Torá no local. Leitura monopolizada pelos homens. Julgam-se ultrajados pela “subversão” dos papéis definidos, segundo eles, por deus. Xingam e tentam agredir as mulheres que ousam desafiar o arcaísmo. Religiões são, em geral, versões embalsamadas de passados remotos. Há uma frase de Sto. Tomás de Aquino, se me permitem a heresia de citá-lo, de que gosto particularmente: Temo o homem de um livro só. Podem anotar: os que vivem brandindo este livro são inegociáveis fanáticos. Apóstolos do passado.

O futuro se insinua, cada vez mais rapidamente, todos os dias. Às vezes, com inquietante desumanização. Na semana do meu reencontro com os amigos, os jornais noticiaram a demissão, comunicada por zoom, de 900 funcionários da empresa Better.com. Até mesmo o bilhete azul está virando virtual. O metaverso, com seus avatares e promessas de jogos hiper-realistas, já tem investimentos anuais previstos em US$ 1 trilhão. Pode chegar o dia em que pessoas prefiram viver, ou passar a maior parte do tempo, num universo paralelo. Experiências com “camundongos Frankenstein” abrem caminho para o impensável: a identificação de genes que nos fazem humanos. O passo seguinte tende a ser a criação de animais com algumas características humanas. Perto deste tipo de experiência, as reformas da Natureza que a Emília propunha eram inocentes joguetes da imaginação. Lembram? Ela queria, por exemplo, que as tetas das vacas viessem com duas torneiras. Uma, para as embalagens dos leiteiros. A outra, para amamentar os bezerros. Ora, já temos a Vaca que Ri, a Vaca Louca. O que faríamos com uma vaca que jogasse xadrez, orientasse teses de doutorado, fosse toda elegante a um restaurante e lá, sorriso esnobe, pedisse risoto de escargots com lascas de trufas negras?

A despedida veio cheia de promessas dos amigos de que nos veremos em breve. Com ou sem algoritmos, o humano que está em nós resiste. Tempo de saudade.

Um abraço. E coragem.

deus me livre!

deus me livre!

Tá bem, digamos que Deus existe. Mas é evidente que fez tudo isso aqui sem a menor atenção e foi tratar de outra coisa (Millôr Fernandes)

Como diziam o Cony e a turma do Pasquim, nesta época do ano os sinos começam a bimbalhar e coisa e tal. Antes símbolo de tradições religiosas, hoje são a senha para o frenesi consumista. Papai Noel é garoto-propaganda da Coca-Cola, na mesma toada em que o hino dos partigiani é profanado para vender panetone. O único imperativo moral do capitalista é o lucro. Se, para isso, tiver que castrar ou ofender tradições/significados, ele o fará sem qualquer dor na alma. A imagem do Che Guevara estampada em camisetas já encheu de dinheiro as arcas da classe que o revolucionário combateu até a morte. O barbudo, que levou a sério o internacionalismo, acabou transformado em pop star, roqueiro sem guitarra, rebelde sem substância. Inofensivo.

Nada inofensiva é a crescente promiscuidade entre religião e Estado no Brasil. Não bastassem os crucifixos que adornam espaços do Poder Judiciário, em flagrante afronta ao Estado laico, tornou-se cada vez mais frequente orar em cerimônias governamentais. O carnaval patético que envolveu a aprovação do pastor André Mendonça para o STF, com direito ao transe da dona Michelle, está longe de ser fato isolado. Quando ele disse que sua aprovação tinha sido “um salto para os evangélicos” sabia exatamente do que estava falando. Estamos lidando com um fato político que ultrapassa as eleições. Não se trata de preconceito contra evangélicos, há muitos deles que professam sua fé sem entrar em jogos de poder e riqueza suspeitos. Ocorre que os grupos que parasitam o Estado têm um projeto de poder que, implementado, faria o país caminhar para uma teocracia. Do tipo muito bem caracterizado pelo próprio André Mendonça, quando, numa fase crítica da pandemia, lutou contra decretos que vetavam aglomerações em templos. Em arroubo fundamentalista, bravateou que os cristãos estariam “dispostos a morrer pela fé”. Saudades do Coliseu?

A cultura teocêntrica tem gerado, ao longo dos séculos, filhotes que convidam à resignação, ao imobilismo e à fuga ao debate sobre as inconsistências das variadíssimas noções de deus. Nos últimos tempos, desconfiada de establishments religiosos, a classe média inventou “espiritualidades alternativas”. Modelo mais digerível para conversar nos bares e festas. Exemplo claro está em artigo recente de uma jornalista, que afirmou crer “piamente que Deus mora nos detalhes e nos fez para ser feliz”. Estranho, mas isso me levou diretamente ao filme God on trial, produzido pela BBC em 2008. A história gira em torno de prisioneiros de Auschwitz, que montam um tribunal para julgar deus por tê-los abandonado nas mãos dos nazistas. Vou tentar desenvolver essa associação.

Aylan Kurdi, três anos de idade, não queria nada além de uma infância normal. Jogar bola, pular corda, ter o que comer. O corpo frágil do menino sírio apareceu inerte numa praia turca, em 2015. Morrera afogado. Os pais tentaram fugir da guerra civil na Síria, o barco naufragou. Que felicidade o sobrenatural planejou para Aylan?

Na região metropolitana do Rio de Janeiro, 103 crianças foram baleadas entre 2016 e outubro deste ano. Trinta delas morreram. Que régua a divindade, “que mora nos detalhes”, usou para abortar tantos projetos de felicidade? Por que foram selecionados para a extinção?

Durante a Segunda Guerra Mundial, cerca de 1,5 milhão de crianças judias foram exterminadas pelos nazistas. Que critérios o sagrado inquestionável utilizou para tantas condenações a morte? Como entender infâncias interrompidas com crueldade, se a ideia era “ser feliz”? Qual foi o “detalhe” que não percebemos?

Cerca de 160 milhões de crianças no mundo são obrigadas a trabalhar, com frequência em condições degradantes. Direito à infância arruinado diariamente. Espremo os miolos e não consigo ver traço de felicidade.

Dia desses, caminhando rumo ao calçadão da orla, vi um menino. Descalço, passos lentos, quase maltrapilho, expressão com tamanha angústia que me fez estremecer. Seus olhos pediam socorro em silêncio. Mas pedir socorro a quem? Quem o ouve? Quem conversa com ele? Certamente não a entidade imaginária que a jornalista espiritualizada concebeu. A salvação da humanidade virá somente como obra dos próprios homens. Ou não virá jamais.

Um abraço. E coragem.

Sentidos

Sentidos

Ficou muito espantada quando viu Moishe Nudnik naquele lugar. A última vez que haviam se encontrado tinha sido numa banca de verduras e legumes, na Makow de seus afetos. Tantos quilômetros depois e lá estavam, sob um sol saariano, na feira da Felisberto de Menezes, conversando sobre cebolas e lembranças. Ela procurava beterrabas, fazia muito que não preparava o borsht ancestral, joia de seu artesanato culinário. Moishe caprichou na escolha. Embrulhadas as raízes, tirou de um caixote meio escondido um molho de azedinhas, a schav da Polônia natal, dava um ótimo borsht branco. Presente do conterrâneo. Zai guezunt, despediram-se.

Alguns passos adiante e lá estava a barraca do seu Pilópides, que morava pelas bandas da rua Rigenti Fijon. Dentro de caixas gradeadas, amontoavam-se galinhas que não paravam de se bicar e agitar as asas inúteis. Pareciam intuir o triste fado que as esperava. Qual está mais gorda? Aquela ali é especial, chegou ontem de um sítio em Varre-sai. Produto de primeira, pode levar. Habituada à lábia amanteigada do feirante, olhou meio de lado, mas acabou enfiando a penosa na sacola de pano, já pensando na trabalheira de degolar, depenar, queimar os restos de penas.

Na cozinha modesta, transformava-se. Deixava de ser a coadjuvante na vida familiar para executar uma sinfonia de aromas e sabores de meter inveja nos alquimistas. Movimento único: allegro vivace. Da finada galinha do seu Pilópides, condensava uma gordura sólida, o shmaltz, que derretia no pão quente e, garanto, produzia efeito, digamos, lisérgico. Da bípede cacarejante derivava ainda um caldo fumegante, dourado, o yuach, base para delícias variadas ao longo do ano. Bastava adicionar um ovo cru no caldo acolhedor quando este levantasse fervura, ou kneidlach, bolinhos de farinha de matzá, óleo e ovos, para garantir refeições definitivas. Tudo numa época em que o colesterol, longe de ser o espectro que hoje nos assombra, era apenas uma rima para o Almanaque Capivarol.

Das beterrabas, extraía o suco vermelho-paixão, ingrediente chave para o borsht, que o Menino se habituou a tomar gelado. Um tantinho de creme de leite azedo para quebrar a doçura. Mal sabia ele o poder daquele líquido ficar tatuado na memória afetiva de um tempo simples, mas dadivoso, no meio de muitas carências. No roteiro do filme, destacava-se um velho provérbio ídish: Als quen der mentsch farguesn nor nit esn. Pode-se esquecer de tudo, menos de comer.

Outro dia, o Gregorio Duvivier lamentou que sua infância não tivesse cheiro do forno a lenha de sua avó. Tinha mais a ver, disse o Greg, com gosto de gordura vegetal hidrogenada. A minha, posso dizer, teve uma mistura. Vidas espartanas geram prazeres contidos. Sobraram os aromas das bisnagas quentes que o padeiro trazia de bicicleta numa cesta de vime. Hoje, estes pães compridos ganharam grife, são “baguettes”, andam de nariz empinado, com chauffeur particular. Sabor de Gordura de Coco Carioca não faz ninguém ter saudade. Nas raras extravagâncias, chupava-se uma bala Toffee, comia-se um cigarrinho de chocolate Pan, um Ki-Bamba da Kibon ou um pacotinho de coco de rato (quem, por todos os santos!, teve a genial ideia de colocar este nome numa guloseima?). Os aromas vieram quase todos nas festas judaicas e no caldo de cana da confeitaria tijucana. Cheiro de cana moída gruda nas ideias.

A gente costuma dizer que não tem como competir com um sabor parido na cozinha, mas originado em relações memoráveis. O borsht da minha avó materna é um exemplo. Aqui no Rio, o mais próximo, jamais igual, que se chegou dele foi o servido pelo restaurante A Polonesa. Pois este último vestígio acaba de desaparecer. Domingo passado, com filas doloridas que se estenderam do meio-dia à meia-noite, ele fechou as portas. Foi tudo muito estranho. No dia seguinte, as mesas vestiram escuro, o letreiro sumiu, os ruídos de pratos e talheres se tornaram a porta que range, a corrente que se arrasta pelo chão, o espelho que reflete imagens autônomas. Como farei para evocar o borsht imbatível?

Em meio ao espanto da finitude, resta o recurso da imaginação. Chamo Guimarães Rosa para ornamentar este sentimento e dar esperança. Na estória Nada e a nossa condição (Primeiras estórias, editora Nova Fronteira), uma filha conversa com o pai: “Pai, a vida é feita só de traiçoeiros altos-e-baixos? Não haverá para a gente algum tempo de felicidade, de verdadeira segurança? E ele, com muito caso, no devagar da resposta, suave a voz: Faz de conta, minha filha… Faz de conta…”.

Um abraço. E coragem.

Moe

Moe

As motivações humanas (do outro) para o bem e para o mal são sempre difíceis de aceitar e mais ainda de desembrulhar (Roberto DaMatta)

Certa vez, Albert Einstein ligou para seu amigo Sholem Asch, celebrado escritor em língua ídish, nascido na Polônia e radicado em New York desde 1915. Sholem, preciso de ti. Quero gravar uma mensagem para os judeus alemães, pedindo que todos saiam imediatamente do país. Corria o ano de 1939 e os acontecimentos na Alemanha justificavam a apreensão de Einstein. O amigo se prontificou a ajudá-lo.

Terminada a ligação, Sholem Asch coçou a cabeça, sem saber como fazer a gravação. Lembrou-se de seu filho Moses, que trabalhava com equipamentos de som. Fez contato com ele, explicou a situação e perguntou se tinha um gravador que pudesse transportar para Princeton. Moses disse que dava para arranjar um e colocar no carro. Partiram, então, ao encontro de Einstein.

Tudo correu sem problemas. Gravação feita, foram os três jantar. Simpático, Einstein puxou conversa com Moses. E então, você é escritor como seu pai? Não, disse-lhe Moses, trabalho com som e ando pensando em criar uma gravadora. Tenho vontade de registrar o som humano em todas as suas dimensões. Quero dar espaço especialmente para a cultura popular, essa que as gravadoras convencionais desprezam por não serem “comerciais”. Einstein suspirou profundamente e comentou: Você está certo, os americanos não apreciam sua própria cultura. Seria necessário alguém de fora, como você, judeu polonês, para que eles percebam o que estão perdendo.

Moses, ou Moe, como passou a ser conhecido no meio fonográfico, levou a sério sua intenção. Depois de uma primeira experiência fracassada, criou, em 1948, a Folkways Records, fantástica usina descobridora de talentos e desbravadora de um espaço praticamente virgem. Moe ofereceu, generosamente, sua estrutura para o lançamento de ilustres desconhecidos, muitos dos quais viraram referência para a música popular. Ao morrer, em 1986, deixou um arquivo com 2.168 discos, que iam de Woody Guthrie, Pete Seeger e Lead Belly a músicos que lutaram em causas operárias, feministas, de direitos civis e pacifistas. Registrou canções de indígenas norte-americanos e melodias ancestrais de povos africanos. Ouvinte voraz, apaixonado pelos sons ao redor, não hesitou em gravar, em 1957, o disco “Sons dos sapos norte-americanos”. Bom que se diga que algumas das espécies destes animais estão hoje ameaçadas de extinção. Não satisfeito em ostentar ignorância, o Homem veste a roupa de Anjo Exterminador da natureza.

O comentário de Einstein sobre o desprezo pelo que está perto, ao lado, em benefício do que está, mesmo metaforicamente, distante, coçou minhas ideias. Claro que logo associei com as Querelas do Brasil, parceria do Maurício Tapajós com o Aldir Blanc. Lembram? O Brazil não conhece o Brasil/O Brasil nunca foi ao Brazil. Um pouco na linha do complexo de vira-latas rodrigueano. O que vem de fora, ou é influenciado pela tradição forânea, é melhor. A radicalização no sentido contrário tem um exemplo desconcertante na chamada Marcha contra a Guitarra Elétrica, em julho de 1967. Artistas foram às ruas para criticar a influência da guitarra na MPB. Na primeira fila, caramba!, estavam Elis Regina, Jair Rodrigues, Zé Keti, Gilberto Gil, Edu Lobo, o MPB-4. Luditas nas partituras. Queriam banir o instrumento da criação musical. Interessante que Gil, meses depois, lançou Domingo no parque, clássico instantâneo, acompanhado pelas guitarras dos Mutantes. Elis gravaria, em 1976, outro clássico: Como nossos pais, do Belchior. A guitarra pesada que a acompanha é parte indissociável da interpretação antológica.  Prefiro o diálogo entre culturas. Conversa que fez Caetano Veloso participar da trilha sonora do documentário sobre o dançarino e coreógrafo israelense Ohad Naharin. Intercâmbio que fez grandes músicos brasileiros absorverem, transformando-a e enriquecendo-a, a influência do jazz. Perde quem se isola.

É no terreno pessoal que a porca torce o rabo. Reconhecer o outro como interlocutor necessário não é tarefa trivial. Basta ver aonde leva o clima de polarização que corrói as entranhas brasileiras. Diferenças são cada vez menos toleradas, deslizam não raro para rigidez ou ruptura. Sobra pouco espaço para conhecer, de verdade, quem está do outro lado do rio. Uma pequena história ilustra isso. Henfil cansou de açoitar quem identificava como inimigos. Colocou-os num Cemitério dos Mortos-vivos, administrado pelo Cabôco Mamadô. Mandou Elis Regina e Clarice Lispector, entre outros, para a lista negra. Em 1985, se disse arrependido por ter “enterrado” as duas. Perguntaram a Clarice o que falaria para o Henfil caso o encontrasse. Ao invés de reclamar da injustiça, diria: “Olha, quando você escrever sobre mim, Clarice não é com dois esses, é com c, viu?”. O recado foi claro: antes de me condenar, procure saber quem sou. O inferno, aí digo eu, nem sempre são os outros.

Um abraço. E coragem.

Máscaras

Máscaras

Minha neta achou uma velha moeda de 10 cruzeiros na praia. Sem muita noção de dinheiro, pensou que tinha descoberto um tesouro. Coisa valiosa, apressou-se em dizer o irmão. Com a pratinha na mão, quis compartilhar com um amigo da escola a excitação de ter uma suposta raridade. Na hora de pegar o ônibus escolar, cadê o tesouro? Procura daqui, fuça dali, e nada. Frustrada, ligou para nós. Vocês não teriam, por acaso, uma moeda de 10 cruzeiros? Explicamos que aquilo já tinha perdido valor há muito tempo, era pouco provável que tivéssemos conservado alguma. Suspiro do outro lado da linha. Puxa, se eu contar para o meu amigo que descobri a moeda mas não mostrar, ele não vai acreditar. Sem querer e de forma ingênua, ela fotografou o espírito de uma época. Tudo precisa ser registrado, da comida que se comeu à grama que se pisou, da fila que se enfrentou ao par de óculos que se comprou. É como se as pessoas aceitassem, voluntariamente, expandir o número de poros, escoando através deles cada fiapo de privacidade. Na impossibilidade de fotografar ou guardar no bolso a tristeza, a história se resume a sensações leves e passageiras. Ter “apenas” uma experiência, sem exibi-la, virou heresia.

Faz pouco, o publicitário Marcello Serpa lembrou de um cartoon do ilustrador francês Jean-Jacques Sempé. Um casal assistia, encantado, um magnífico pôr de sol no mar. A paisagem despertava sentidos desconhecidos, intraduzíveis. O homem, então, empunhava uma câmera de vídeo (eram os anos 90) e passava a filmar a maravilha cósmica. Ato contínuo, dizia à mulher: “Não vejo a hora de ver isso na nossa TV em casa”. Não te traz à retina, paciente leitor, a surradíssima cena dos pascácios que gravam no celular a celebração de um gol no Maracanã? Substituem a vivência completa da alegria na arquibancada, onde desconhecidos se abraçam, pulam e ficam roucos de paixão, por meia dúzia de imagens opacas e perfeitamente descartáveis. É, mais uma vez, o espírito da época.

Não sou exatamente entendido em redes sociais, a mais perfeita tradução da fugacidade contemporânea. Sempre cheguei atrasado nas novidades tecnológicas. Resisti a usar CDs, mesmo quando eles já frequentavam altas e baixas rodas. Aderi ao computador e ao celular para não justificar o rótulo de pré-histórico, embora reconheça que mereço o título em outros departamentos. No Facebook desembarquei como solução de emergência para dialogar através dos meus textos. Por mal-entendidos, relacionados com possível censura, acabara de ser banido do site Carta Maior, que os publicava. Como opção inegociável, não revelo nomes, imagens e pormenores de familiares e de minha vida social. Não compreendo a busca frenética, e quase sempre ilusória, por notoriedade. Certas “informações” que circulam no espaço virtual ressuscitam o tempo em que, ainda garoto, eu lia os Mexericos da Candinha, na Revista do Rádio. Ih, menina, nem te conto!

Na última coluna do Gregório Duvivier ele fala do Instagram, espaço que não frequento. Ouvi dizer que é lá o paraíso das imagens. O Greg observa que “nos stories dali todo o mundo está se divertindo mais do que você”. Se é assim mesmo, ficam execrados os momentos de introspecção, de silêncio, de dúvida, de vazio. Quem necessita de uma máscara que aparenta felicidade e esconde toda sorte de turbulência? Ao que parece, bilhões de pessoas. Tenho a impressão de que está em vigor uma velha superstição: não fale em coisas ruins, atrai “energias negativas”.

Ilusão não é monopólio do mundo virtual. Há pouco mais de vinte anos, foi inaugurado, na Barra da Tijuca, o New York City Center. Os de fora do Rio saibam que a Barra é o território com maior concentração de palavras em inglês por metro quadrado fora dos Estados Unidos. Pois bem, na frente daquele shopping existe uma réplica da Estátua da Liberdade. O que pretende a estética esnobe e provinciana? Uma simulação de “Primeiro Mundo” e liberdade para consumir. Na verdade, não passa de um espelho das desigualdades, do funil que se alarga para os abonados e se estreita para a grande maioria. Aparência de prosperidade, vísceras de cafonice e desequilíbrio.

Abraço. E coragem.

Fronteiras derretidas

Fronteiras derretidas

Tornou-se um clássico dos cronistas. Sentar na frente da máquina de escrever (pré-história…) ou do teclado, com o papel ou a tela teimando em ficar em branco, é o pior dos pesadelos. Onde as ideias? Onde as palavras que dialogam? Bem, nos dias que correm não há do que reclamar. Assuntos não faltam.

Ficando no meu roçado, que tal a ameaça de fechamento do cinema Estação Net Rio, com suas simpáticas cinco salas? Desde os anos 50, o Rio perdeu mais de 160 cinemas de rua. Os últimos sete moicanos penam para sobreviver. O Roxy, joia arquitetônica, já foi pro brejo, era o último de Copacabana. Poderia também levar um papo com o ministro de Tuvalu, ilhota no oceano Pacífico, que discursou para a COP26 dentro do mar, com água pelas canelas. Já imaginou teu país afundando? Tivesse inspiração futurista, meu texto embarcaria numa viagem a uns 13 bilhões de anos-luz de distância, ao primeiro candidato a planeta fora da Via Láctea. Corpo celeste esquisitão, segundo cientistas. Quer saber de uma coisa? Esquisito por esquisito, vou escolher outro assunto.

Retomei contato com os netos, na readaptação lenta ao que costumávamos chamar de normal. A neta é da geração que transitou rapidamente da Peppa Pig ao Google. Mostrei-lhe na telinha a paródia que Weird Al Yankovic fez do Smells like teen spirit, clássico do Nirvana. Finda a bagunça visual, ela deu um sorriso enigmático e, como quem diz “agora, vamos ao que interessa”, abriu vários sites com historietas de mulheres que enfrentaram, e venceram, desafios. Uma feminista precoce. Tudo numa velocidade difícil de acompanhar. Em seguida, desligou a máquina e passou a esculpir bichinhos delicados. Essa menina querida preserva o espaço da imaginação. Ufa!

A geração atual leva uma vida vertiginosa, tudo muito veloz, no ritmo ditado por cadeias eletrônicas e informações fugazes. Um veneno sedutor, ornamentado com imagens cada vez mais realistas. Na segunda década do século passado, João do Rio escreveu a crônica A era do automóvel, em que reflete sobre as modificações no cotidiano introduzidas pelos carros. É um texto incomodamente atual. Poderia ter sido escrito, com pequenos reparos, anteontem. Cito uma passagem: “Agora é correr para a frente. Morre-se depressa para ser esquecido dali a momentos; come-se rapidamente sem pensar no que se come; arranja-se a vida depressa; escreve-se, ama-se, goza-se como um raio; pensa-se sem pensar no amanhã que se pode alcançar agora”.

Velocidade e espetacularização de cada aspecto da vida. Não há limite para a novidade, sempre e cada vez mais veloz. Formam-se filas nas madrugadas que antecedem o lançamento de novos modelos de celulares e computadores. Ninguém quer esperar nada. A exposição pública perde os freios, privacidade pra quê? Para atrair atenções, vale até flertar com a morte. Virou moda tirar selfies em locais perigosos ou em situações arriscadas. Entre janeiro de 2008 e julho de 2021, quase 400 pessoas morreram no mundo enquanto faziam selfies perigosas.

Neste ambiente, era pule de dez supor que surgiria um metaverso, universo onde as fronteiras entre os mundos real e virtual derreteriam. Este é o desejo das grandes corporações que lidam com sistemas virtuais. Num espaço definido e controlado por elas, as pessoas poderiam interagir através de avatares, imagens idealizadas dos corpos reais. Algumas previsões apontam para 10 ou 15 anos o prazo para a implantação deste espaço, incorporando-o ao cotidiano de bilhões de pessoas. Hoje, se você quiser se desligar de um dia estafante, pode, por exemplo, fumar um baseado ou anular-se num jogo eletrônico. Tomar um chope com amigos ou flanar por aí nem sempre é possível. Num futuro não tão distante, poderá passear no metaverso e interagir com outras ilusões. Quem sabe não inventam um jeito de humanos se mudarem de vez para o metaverso? Quanto tempo demorará para surgirem seres híbridos, coagulados numa genética avato-hominídea? E se avatares, por uma falha na programação original, resolverem se rebelar contra os humanos “imperfeitos”?

A primeira vez que tive contato com um jogo eletrônico rudimentar foi no final da década de 1980. Numa viagem a trabalho, achei um pequeno aparelho que alguém esqueceu na poltrona do avião. Na telinha luminosa, comandada por dois botões, aparecia um mergulhador que tentava chegar ao tesouro submerso, ameaçado por tentáculos de um polvo. O objetivo era impedir que os tentáculos capturassem o homem. A coisa, confesso, era meio embriagante. De lá pra cá, em velocidade incontrolável, surgiram tralhas de todos os tipos, hipnotizando usuários, viciando-os, roubando horas valiosas do convívio social. A radicalização deste processo tende ao metaverso (perdão pela péssima e involuntária rima). Será uma mistura sombria de filmes de terror e ficção-científica. No final da história, espero, haverá resistência. Estarei na linha de frente.

Abraço. E coragem.