Na tela, uma cena famosa do filme The gold rush, de 1925. Charlie Chaplin, isolado numa cabana e desesperado de fome, cozinha a velha botina. Tira o calçado fumegante da panela e vai, lentamente, comendo a sola, enrolando o cadarço no garfo qual espaguete, chupando os pregos como restos de fino galeto. A plateia do cinema está dividida em três níveis. No superior, dos endinheirados, ri-se à tripa forra. No do meio, ocupado pelos remediados, há um sorriso titubeante, quase preocupado, constrangido. No inferior, da gente pobre, roupa puída, rostos magros, olhos cansados, a atmosfera é fúnebre. Carlitos, para eles, rodara não uma ficção, mas um documentário de suas rotinas tristes.
Não inventei esse quadro. É do Quino, pai da Mafalda e artista gráfico de gênio. Em poucos traços, escancara a obscena desigualdade de tantas sociedades. Julho último, uma imensa fila na porta de um açougue em Cuiabá chamou a atenção. Pessoas que enfrentavam calor de derreter viaduto para conseguir ossos com resíduos de carne. As imagens abriram a porteira. Outras, de várias partes do país, mostraram gente disputando ossos em caçambas. Sem qualquer surpresa, a “mão invisível do mercado” descobriu uma oportunidade. Açougues passaram a vender ossos, o preço chegou a R$ 4/kg. É possível ornamentar esse inferno com números. No Brasil, cerca de 112 milhões de pessoas vivem em estado de insegurança alimentar (leve, moderada ou grave). Entre elas o rendimento real per capita proveniente do trabalho caiu perto de 30% nos últimos 7 anos. Isso quer dizer que todo o país vai mal, em crise profunda? Não.
Uma rede paulista de lojas para animais domésticos acaba de abrir duas filiais no Rio. Oferecem produtos de luxo para bichinhos privilegiados. Sorvetes (um deles, sabor bacon), bolos de caneca, muffins, molhos gourmet para ração, patês, café, cervejas (!) e petiscos personalizados. O mercado brasileiro de produtos de luxo foi o que menos sofreu na pandemia. A Cartier, por exemplo, quase quintuplicou suas vendas em 2020 em relação a 2019. Se madame quiser consumir peças de luxo usadas, pode comprar uma bolsa Birkin, da Hermès, por uma pechincha: R$ 35 mil. Se optar por uma Chanel clássica, pagará módicos R$ 20 mil. É para essa turma que o tchutchuca, freguês de paraísos ficais, flexiona a espinha. É essa a elite que constrói muros e arrota privilégios, aglomerou em bares da moda desde o início da pandemia, ofendeu fiscais que tentavam evitar aglomerações (lembram-se da mulher que, num bar na Barra da Tijuca, enfiou o dedo no nariz de um fiscal e disse sobre o marido que a acompanhava: “Ele não é cidadão não, é engenheiro civil, formado, melhor do que você”?), tem o verdadeiro poder neste país. Não foi isso que uma conversa do banqueiro André Esteves com clientes desnudou? O boquirroto pintou-se como oráculo dos poderes da República. Adornou a bravata rotulando o golpe de 1964 como “acontecimento pacífico”. Torce claramente pela reeleição do tresloucado ignorante. Burguesia ilimitada. Sem máscara, sem fantasia.
Enquanto prossegue a farra-do-fraque, a grande federação dos explorados pisa em brasas. O total de favelas dobrou no Brasil em dez anos. A taxa de desocupação da metade mais pobre do país mais do que dobrou desde 2014. 27,4 milhões de brasileiros vivem hoje com menos de R$ 261 ao mês, maior taxa de miseráveis em uma década. Os trabalhos por conta própria já representam quase um terço de toda a população ocupada. Em dois terços dos acordos coletivos de trabalho, o reajuste salarial perdeu da inflação.
Em 1965, um concerto aconteceu no Royal Variety, em Londres. Lá estavam os Beatles, jovenzinhos, cantando musiquinhas com letras inocentes. Presente na plateia, a família real britânica. Antes do último número, John Lennon se dirigiu ao público. “Vamos precisar da participação de vocês. Os que estão sentados nos lugares mais baratos, batam palmas. Os dos lugares mais caros, chacoalhem suas joias”. Risos amarelos nas primeiras filas. Lennon já tinha a semente do Working class hero que comporia cinco anos depois. Até quando a exploração maciça da maioria da população continuará? Até quando os ricos e seus serviçais continuarão chacoalhando as joias sobre um mar de cadáveres, miséria e terra arrasada? Até quando o working class hero continuará sendo apenas something to be, um projeto em construção? O que a esquerda tem a apresentar como alternativa à catástrofe que torna 1% da população mundial proprietária de 82% da riqueza produzida pela humanidade? São possíveis soluções cosméticas, protelatórias, dentro de um modo de produção material e simbólica que se assenta, obrigatoriamente, na desigualdade?
Que os explorados, humilhados e ofendidos tomem posse do seu processo de emancipação. Em 1968, Paul McCartney leu nos jornais sobre a luta dos negros norte-americanos contra a discriminação racial. Escreveu, então, Blackbird. Diz no trecho final: Blackbird singing in the dead of night/Take these broken wings and learn to fly/All your life/You were only waiting for this moment to arise. No século XIX, um certo barbudo alemão disse a mesma coisa com outras palavras. Não perdeu a atualidade.
Com três doses de vacina, já posso ser mais atrevido. Sei que maior imunidade do que essa não será possível tão cedo. Vai daí, dou um tempo na bermuda, desovo calça e camisa que hibernavam, entediadas, há quase dois anos no armário e enfrento a cadeira da dentista. O consultório fica no centro da cidade. Engato uma segunda e caminho pela região que, dizem, foi devastada pela pandemia. Saudade de lugares que me construíram.
A expectativa não era boa. Esperava uma espécie de hecatombe, com trilha sonora do Jards Macalé: Cuidado! Há um morcego na porta principal. Verdade que fiquei apenas nas proximidades do quadrilátero que forma a Cinelândia. Por lá, mesmo que modestamente, a vida ainda pulsa, quem sabe numa homenagem muda aos tempos de belle époque. Algumas lojas fecharam, mas outras, bem tradicionais, resistem. Numa delas, que vende aparelhos, digamos, vintage, como rádios e reprodutores de CD, fiz a festa. Estranho? Ora, ora, eu mesmo não passo de um caminhante vintage, sempre muito desconfiado do excesso de estímulos tecnológicos e enfezado contra a cultura do efêmero.
Não podia faltar a reconexão com a cultura. Desço os caracóis dos seus cabelos, digo, a pequena ladeira em caracol que leva à Berinjela. Não, não se trata de fome antecipada por um babaganoush (há um excelente no Al Kuwait, ali pertinho), mas sim de um dos meus sebos prediletos. Quanto tempo sem ver Daniel e Silvia! Ainda não posso abraçá-los, mas é um alento sabê-los por ali. Quando, à la Lúcia Murat, saúdo Daniel, que bom te ver vivo!, ele, bem no espírito do tempo, estaria sorrindo debaixo da máscara?, me garante que já não há mais ninguém vivo. Somos todos hologramas! Às vésperas do Metaverso, quem pode garantir que ele não está certo? Garimpo cartuns da New Yorker, correspondências entre Ivan Lessa e Mario Sérgio Conti, a história de um ladrão bibliófilo. Centelhas fecundas na aridez pandêmica.
Livro é, como bem disse João Varella, fundador da editora Lote 42, “um raro espaço de absoluta privacidade, sem publicidade, sem algoritmo, sem duvidosos termos de acesso”. Infelizmente, a relação entre livro e leitor está cada vez mais realizada por meios virtuais. Relação muito parecida com a que se estabelece entre um comprador de chocolate e as máquinas automáticas que habitam estações de metrô. Há, no aeroporto de Curitiba, uma livraria totalmente automatizada. O interessado escolhe o livro (todos têm o mesmo preço), passa o cartão na máquina, embala o exemplar num saco plástico. A imagem é de linha de produção fordista versão 4.0. Na novilíngua malandra, as obras à venda são chamadas de “livros de oportunidade”. Não passam dos encalhes velhos de guerra. Tudo em temperatura ártica, pré-ajuste para os avatares que estão em vias de invadir o mercado com a permissão alienada dos viciados em tecnologia eletrônica.
Somos um país esquisito. Sempre se leu muito pouco no Brasil. A média atual é de dois livros por ano (e boa parte da leitura se restringe à Bíblia). 30% da população jamais comprou um livro. Sei que isso é, em parte, resultado da obscena distribuição de renda. No entanto, uma pesquisa recente informou que 84% dos não leitores acham livros desinteressantes. Não há a menor chance de competir, em custo e sedução visual, com a tralha eletrônica. Ao contrário dessa, livros demandam atenção continuada e elaboração dos conteúdos. Com a preguiça induzida por teclas e controles acelerados, como é que se desata o nó?
Em São Paulo, uma biblioteca dá um exemplo de criatividade, amor aos livros e resistência. A Biblioteca Comunitária Caminhos da Leitura está situada, curiosamente, na casa de um coveiro, atrás da capela do Cemitério Colônia. Com acervo de 5 mil livros, ela expandiu seu objetivos, ao longo de 12 anos, organizando atividades relacionadas com os significados de vida e morte trazidos pelos livros. Foram o Sarau do Terror, o Sarau das Mulheres, o projeto Sementes da Leitura. Em fevereiro deste ano, os donos do cemitério decidiram despejar o coveiro, reivindicando mais espaço para os túmulos. Os frequentadores se mobilizaram, conseguiram adiar o despejo e já estão buscando um novo local para os livros. Querem aproveitar o ocorrido para desenvolver outros projetos junto com a biblioteca. Uma horta comunitária, por exemplo. O que parecia ser a vitória da Morte, está se transformando num convite à Vida. Por mais difíceis que sejam as circunstâncias, este caso está a confirmar o que disse o cangaceiro Corisco, no filme Deus e o Diabo na terra do Sol: “Mais fortes são os poderes do povo”.
Tudo passa, tudo passará/Nada fica, nada ficará (de uma canção composta e interpretada por Nelson Ned, grande sucesso em 1969)
Já aconteceu de vocês estarem lendo um texto sério e, de repente, caírem na gargalhada? Riso solto, não planejado, sem compromisso. Pois foi o que aconteceu comigo dia desses, ao ler a coluna semanal da Ana Paula Lisboa n’O Globo.
Verdade que suspeitei do título, uma referência a mercúrio. Achei que tinha a ver com o velho mercúrio cromo, líquido que curou as feridas da infância ao custo de ardências rubras. Conforme avancei na leitura, percebi que se tratava de um certo Mercúrio Retrógrado. Que diabos seria isso? Segundo os astrólogos, cáspite!, a posição deste planeta no cosmos é responsável por acontecimentos importantes na Terra. Como, por exemplo, o colapso recente e simultâneo do trio WhatsApp, Facebook e Instagram. Faz também, segundo Ana Paula, “caírem as máscaras”. Assim, não seria coincidência, ainda segundo sugere a colunista, que a revelação da existência da empresa offshore do Paulo Guedes em paraíso fiscal e os destemperos do Ciro Gomes acontecessem agora. A culpa, ora vejam só, é da órbita do planetinha laranja-amarelado, que sequer tem uma Lua para chamar de sua. Não resisti, a risada correu frouxa. Cada vez que leio essas patetices, lembro-me de uma frase memorável, atribuída a uma espécie de rei dos picaretas, Phineas Taylor Barnum: “Nasce um otário a cada minuto”.
Quando voltei a mim, reli para ter certeza. Era aquilo mesmo. Valeu, enfim, pela diversão. A mesma que experimentei quando li a parábola de Bertrand Russell sobre o bule de chá chinês que gira em torno do Sol e soube da existência do Evangelho do Monstro do Espaguete Voador (e do racha que gerou a Igreja Reformada do Monstro do Espaguete Voador). Céus, quanta perda de tempo, quanta ilusão, quanto diversionismo. Talvez esteja tudo a esconder os verdadeiros, e às vezes insuportáveis, dilemas de existir. Parecidos com a jornada dos androides em Blade runner, em busca de respostas para uma questão singela: por que raios fomos criados com validade limitada? Tempo, tempo, tempo, diria o Caetano Veloso. Tempus edax rerum, o tempo esse devorador das coisas, diria o poeta romano Ovídio.
Um dia antes de esbarrar na comédia involuntária da Ana Paula, o Leo Aversa, leitura obrigatória de toda terça-feira, lascou um “tudo passa, demora, mas passa”. Tentava consolar uma mocinha desconhecida que ele supunha ter passado por desilusão amorosa. Compreendo que a circunstância pedia compaixão, e mesmo uma pitada de mentira caridosa, mas… Nem tudo passa, mesmo que demore. Gostemos ou não, somos uma combinação incontrolável, indimensionável, de passado e presente. Parte do que foi ainda é, varia o tamanho da herança e a forma como ela se incorpora à vida presente. Tempos que se cruzam.
Vou dar um exemplo dramático, que me impressionou bastante e chocou milhares de pessoas. Anthony Bourdain era um cara prestigiado no mundo gastronômico. Fugia dos clichês da cozinha pretensiosa. Roqueiro, puxado ao punk, sem problema para falar como gente comum, palavrões a rodo, procurava não apenas cozinhar mas entender o que estava por trás de comidas e tradições. Era o tipo de sujeito que qualquer um poderia convidar para um chope e tomar um porre sem a menor vergonha. Apareceu morto num quarto de hotel, na França. Cometeu suicídio, aos 61 anos. Viajava 200 dias por ano, se hospedava em hotéis de luxo, não tinha problemas financeiros. Parece que estava pensando em fazer uma terapia. Por que, então, desistir da vida? Que armadilha o tempo lhe havia aprontado? O que não foi possível transformar para seguir adiante? O que, enfim, não passou?
Comecei citando Nelson Ned, cantor anão que muita gente no meio artístico via como anomalia. Ou seria exotismo? À música citada, prefiro o Lulu Santos de Como uma onda: Tudo que se vê não é/igual ao que a gente viu há um segundo/tudo muda o tempo todo no mundo. Essa, digamos, interpretação dialética está mais de acordo com o que sinto. Não há garantia de que tudo passa. Às vezes dá um trabalho danado transformar o tempo que passou em aliado. Nem sempre dá certo, mas vale a pena tentar. Para que a onda flua.
Para não dizer que não falei de flores, devo acrescentar que há um departamento que, para o bem ou para o mal, certamente não passa. Recorro ao auxílio luxuoso de Machado de Assis. No livro Esaú e Jacó, diz o narrador da história: “Tomados daquele invencível desejo de conhecer a vida alheia, que é muita vez toda a necessidade humana”. Sim, meus caros, trata-se da nossa mui conhecida fofoca. O Bruxo do Cosme Velho sabia das coisas.
Calhava de ser na hora do almoço. Entrava no ar uma seleção musical e os ouvintes ligavam para escolher suas prediletas. Era o Peça bis pelo telefone, programa da rádio Mayrink Veiga. Imaginem vocês o engarrafamento telefônico numa época em que conseguir linha era mais difícil do que arrancar verba federal para a educação. O sucesso ganhava destaque nos Mexericos da Candinha.
Pois foi ali, pelas ondas do rádio a válvula, chiados em penca, que ouvi Moreira da Silva pela primeira vez. Eu ainda não sabia, mas aquele era o samba de breque em seu não raro esplendor. Kid Morengueira invadia o velho oeste como Rei do gatilho, numa sátira engraçadíssima. O Menino, fascinado, decorou a letra quilométrica, simulando duelos improváveis e soprando o cano fumegante de pistolas invisíveis. Até hoje lembro do início da história: Começa o filme com um garoto me entregando/um telegrama lá do Arizona onde um bandido de lascar/um bandoleiro que era o bamba lá da zona/e não deixava nem defunto descansar. E por aí a coisa ia, até o final, que era meio impróprio…
Pesquisando a trajetória do Moreira, descobri uma história de paixão que durou 18 anos e se confunde com a história do Rio. Em 1964, ele gravou Judia rara. No começo, fala em ídish: Minha linda menina, sou louco por você. Durma, minha criança. Imaginem um malandro frequentador da Lapa, terno branco e chapéu panamá, gingado até no gogó, falando na mame loshn! Intrigado com aquilo, corri atrás da dita cuja. Quem era? Como se conheceram? Eis que surgem as polacas.
Na segunda metade do século XIX, a organização Zwi Migdal, uma espécie de máfia judaica com sede em Varsóvia, conduzia um negócio lucrativo. Rufiões muito bem apessoados percorriam aldeias e povoados da Europa profunda, oferecendo casamento a mocinhas judias. Vítimas de pobreza secular, virgens das malícias do mundo, as famílias consentiam que as moças viajassem com os charlatães. No navio, eram estupradas e, ao chegarem no destino, que podia ser o porto de Santos ou do Rio de Janeiro, acabavam em bordéis. Embora viessem de vários países, foram apelidadas de polacas. A paixão de Moreira da Silva, Estera Gladkovicer, era cafetina num daqueles bordéis.
Pequena pausa com patrocínio do Colírio Moura Brasil. Jacob do Bandolim, na verdade Jacob Pick Bittencourt, era filho de polaca. Sara Raquel Pick gerenciava uma pensão na rua Joaquim Silva, usada por prostitutas. Criança, Jacob ouvia um francês cego, sobrevivente da I Guerra Mundial, que, no térreo, tocava violino. Gostava daquilo e, sabendo disso, Sara lhe deu um de presente. Decepção. O arco do violino cansava demais o pequeno Jacob, que acabou dedilhando, melhor seria dizer pinicando, as cordas do instrumento com um grampo da mãe. Sofia, inquilina da pensão e com bom ouvido musical, percebeu a semelhança do novo timbre com o bandolim. Resultado: Jacob ganhou este instrumento aos 13 anos. Funcionou tão bem que, aos 15, estreava na rádio Guanabara. O resto, bem, o resto é a carreira de um dos maiores músicos que já pisaram nessa terra.
Voltamos à nossa programação normal. Para manter sua identidade, as polacas, perseguidas pela polícia e discriminadas pela comunidade judaica (que temia ser associada a uma atividade condenada pela moral da época e, com isso, abastecer o antissemitismo), criaram sinagoga e cemitério próprios, administrados por uma sociedade de ajuda mútua. O cemitério, inaugurado em 1916 e desativado desde a década de 1970, fica em Inhaúma. É interessante lembrar que os cafetões do Zwi Migdal patrocinaram peças do teatro ídish, encenadas nas décadas de 1910 e 1920 em teatros do Rio de Janeiro. Sob protesto de lideranças comunitárias judaicas, as polacas adquiriam os melhores lugares dos teatros e para lá iam, paramentadas comme Il faut.
Embora estudos acadêmicos já tenham lançado luz na trajetória destas mulheres, ainda hoje o assunto é uma espécie de tabu. Muitos judeus gostariam que a história permanecesse clandestina, não querem “manchar” a versão oficial, idealizada, da formação da comunidade judaica no Brasil. Não percebem, como lembrou o Millôr, que o passado não passa. E é melhor que não passe mesmo. Maquiá-lo ou apresentá-lo apenas como sucessão virtuosa de “superações” e “sacrifícios” significa legar às novas gerações uma farsa. As polacas morreram duas vezes. Primeiro, enganadas por exploradores, que lhes roubaram juventude e sonhos. Depois, por uma comunidade que não compreendeu seu drama. Censurou ao invés de dialogar ou simplesmente compreender e acolher. Não merecem a terceira morte: a do olvido, como se não tivessem sequer existido.
Não faz muito, assisti a versão 2019 do Pinóquio, dirigida por Matteo Garrone. Baseado na história de Carlo Collodi, publicada no final do século dezenove, o filme vira de ponta-cabeça o desenho animado da Disney, estreado em 1940. O clima é sombrio, Gepetto passa fome e vive no limite da sobrevivência, nada de edulcorar o processo de amadurecimento do boneco de madeira, a baleia não passa de um bagre anabolizado que interage com Pinóquio e Gepetto.
Também dos estúdios Disney, o filme 20 mil léguas submarinas, de 1954, é uma tremenda distorção do livro de Jules Verne. O original mostra o capitão Nemo, idealizador do submarino Nautilus, como cientista criativo e ambientalista precoce. Tem, por exemplo, a ideia de plantar fazendas marinhas, multiplicando novas fontes alimentares para o planeta. No filme, ele aparece como vilão inescrupuloso, contraponto irrecuperável para o marinheiro bonitão Ned Land, interpretado por Kirk Douglas. Hollywood não podia viver sem a bipolaridade mocinho/bandido, sem concessões ou sutilezas. Verne, pesquisador do estado da arte das ciências em seu tempo, bufaria na tumba se soubesse o que fizeram com sua obra.
Passei a infância assustado com alguns personagens cinematográficos. A baleia disneyana do Pinóquio era predador implacável. Nada mais distante da realidade. Várias espécies deste mamífero estão ameaçadas de extinção, predador é o Homem. E a bruxa do desenho Branca de Neve, de 1938? Eu me apavorava mais com a rainha, que misturava beleza e perversidade. Havia, nos anos 50, um programa teatral de contos de fadas na televisão, apresentado por Shirley Temple. Quando levaram ao ar a história da Branca de Neve, eu me escondi atrás da almofada quando surgiu a rainha. Em carne e músculos, a imagem aterrorizante ganhando vida. Finalmente, sobe ao pódio a cena do vale dos leprosos, no filme Ben-Hur (que não passa, ao fim e ao cabo, de uma peça de proselitismo cristão). Não consegui ficar na sala refrigerada do Metro. De chagas já bastavam os joelhos ralados e os bifes pendurados na sola, acidentes de trabalho nas peladas da Vila, em cimento mais áspero do que a vida.
Nada, vilão ou monstro, supera o horror de uma tirinha do argentino Liniers, que reproduzo aqui. Nela, Gepetto aparece desejando que Pinóquio fosse um menino de verdade. Em seguida, o boneco, já com vida própria, fala ao celular. Seu criador, fica ali, estatelado, com cara de tacho, lambendo sabão e pensando na morte da bezerra. Solidão. Dependência. Indiferença.
Pesquisas recentes mostram o impacto da dependência de mídias sociais sobre a saúde mental. Especialmente em crianças e adolescentes. Com a massificação do uso de smartphones em geral, crescem a solidão e, bastante associadas a ela, a ansiedade e a depressão. Não se trata de fenômeno exclusivo da pandemia, já era perceptível bem antes dela. Pesquisadores norte-americanos concluíram que adolescentes que consomem muita mídia social têm piores níveis de saúde mental do que os que a consomem menos. Observam, por exemplo, os psicólogos Jonathan Haidt e Jean Twenge: “É mais difícil estabelecer uma conversa casual no refeitório ou depois da aula se todo mundo está de olho no celular. É mais difícil manter uma conversa séria quando os participantes são interrompidos por notificações”. Impressionante como se tornou comum achar que qualquer mensagem no celular precisa ser lida e respondida/comentada de imediato. O mundo passou a viver em estado (artificialmente) emergencial.
Há novas doenças associadas aos vícios virtuais. Na China, existem clínicas para tratamento desses transtornos. Lá, a dependência dos cacarecos virtuais é classificada como “ópio espiritual”. Lei recente limita em três horas semanais o acesso de menores de 18 anos aos videogames. As empresas de internet que fornecem este serviço são rigidamente fiscalizadas. Não sei se é a melhor solução, mas ela ressalta a gravidade da situação. É importante lembrar o que disse o terapeuta britânico Steve Pope: ficar pendurado por mais de duas horas seguidas num videogame gera no organismo o mesmo efeito de cheirar uma carreira de cocaína.
Convivo mal com este mundo que seduz pela superfície. O desconforto foi muito bem traduzido pelo Marcos Nogueira, do Cozinha Bruta. Ele contou o que aconteceu num grupo de 20 pessoas com quem almoçava no dia do colapso do Facebook & satélites, quantas unhas roídas e lexotans ingeridos! Agitação, rebuliço, expressões de dor, quase pânico. “Como se todos perguntassem: de que vale comer se não podemos fotografar e postar a comida? Para que ir a um restaurante sem fazer check-in no Face? Como tolerar a companhia à mesa sem o dedo nervoso em seis grupos simultâneos de zap? Como, muito tempo atrás, conseguíamos comer com outras pessoas sem acessar as redes sociais?”. Para mim, a própria existência dessas perguntas revela as tripas de uma distopia. Nem mesmo Rod Serling, em seus momentos de alucinação, conseguiria usá-las para um episódio de Além da Imaginação. Seriam vetadas por inverossímeis…
Onde queimam livros, acabam queimando homens (Heinrich Heine)
Maple syrup, hóquei, natureza exuberante, Leylah Fernandez. Canadá é tudo de bom, né? Não é bem assim que a banda toca. Há alguns dias, foi tornado público que, em 2019, cerca de 5 mil livros de uma escola canadense foram destruídos por terem sido considerados racistas. Entre os títulos execrados, havia quadrinhos perigosíssimos de Tintim e de Asterix.
Para não ficar atrás na corrida obscurantista, no mesmo ano uma escola de Barcelona recolheu 200 livros de sua biblioteca, por supostamente reproduzirem padrões sexistas. Exemplos ? A bela adormecida e Chapeuzinho vermelho. Não sei o porquê, mas lembrei das pregações cômico-goiabeiras da ministra Damares.
Censura e destruição física de obras literárias não são propriamente novidades. Acho que o malfadado “politicamente correto” e a radicalização das chamadas pautas identitárias apenas adicionaram ferramentas, supostamente legítimas, ao desejo de eliminar textos ou imagens “inadequados”. Jogar livros na fogueira, literal ou metaforicamente, tem muita quilometragem rodada. Da proibição de textos heréticos às perseguições macartistas, da fúria inquisitorial às chamas nazistas, autoridades de coturno variado proibiram a inteligência de circular. Como disse o jornalista Bruno Molinero, “a censura (…) é uma vontade incontrolável de decidir o que os outros devem ler e impedir a circulação daquilo que nos é estranho ou que ponha em xeque o status quo”.
O Menino viveu uma época em que os gibis eram considerados uma ameaça ao hábito de ler. Diziam os doutos especialistas que eles incentivavam a preguiça. Ora, senhores, não era nada disso. As revistas abriam portas, combinavam o prazer de descobrir as palavras com a estética de gênios como Lee Falk, Alex Raymond e Al Capp. Ah, mas os conteúdos… Aqui entramos no terreno dogmático dos candidatos a censor. Verdade que o Fantasma, o Espírito-que-anda, era uma representação da superioridade dos colonizadores sobre populações nativas. Os pigmeus da tribo Bandar adoravam o mascarado como a um deus. Isso, no entanto, são meus olhos de adulto. Lê-lo na infância não me tornou um abominável racista, insensível à dominação branca na África ou na Ásia. Há mediações entre a leitura e a absorção de conteúdos. Adultos podem, e devem, conversar com os menores sobre o que leem e assistem. Isso dá muito trabalho, se chama educação e passa pelo diálogo, não pela censura ou pela destruição física de livros, jornais e revistas.
Filmes, pinturas e músicas também entram na dança macabra. Em 1937, os nazistas exibiram em Munique o que chamaram de arte degenerada. O objetivo era “pedagógico”: mostrar obras que não se enquadravam no padrão estético oficial e mostravam a face “doentia” que o Reich pretendia exterminar. Lá estavam, por exemplo, Emil Nolde, Käthe Kollwitz, Ernst Barlach. Oitenta e dois anos depois, na Bienal do Livro do Rio de Janeiro, o prefeito Marcelo Crivella mandou recolher uma revista que reproduzia um beijo gay. Os mastins hitleristas e o sobrinho de Edir Macedo têm muito em comum. Não é raro temer aquilo que não se compreende. Destruir o objeto do medo torna-se imperativo para essa gente.
Quem foi ao cinema nos anos 50, 60 e 70 se habituou a ver na tela, antes do início do filme, um ofício da DCDP – Divisão de Censura às Diversões Públicas, autorizando a exibição para determinada faixa etária. A gente cresceu achando natural aquele filtro com aparência burocrática (mas de fundo obviamente político). Houve censuras mais sutis, mas não menos intolerantes. No filme O trem da vida, moradores de um shtetl na Europa Oriental se apavoram com as notícias de que os nazistas estavam chegando. Aconselhados pelo louco da aldeia, adaptaram locomotiva e vagões para simular um comboio alemão deportando prisioneiros judeus. Esperavam, com isso, atravessar a fronteira russa e salvar suas peles. A coisa parece que vai funcionar, mas termina tragicamente na última cena. A abordagem quase onírica, nada convencional, dos trens que levavam aos campos de extermínio, foi suficiente para o filme receber críticas de setores da comunidade judaica, inconformados com a heterodoxia do diretor romeno Radu Mihăileanu. Amigos, todos somos democratas em tese, mas na hora do vamos ver, do contato com o diferente, pode emergir o Torquemada que habita nossas sombras.
Além da renúncia a educar, a crescer debatendo, o censor pretende destruir o vínculo com a memória. Essa é a teoria do escritor venezuelano Fernando Báez. Segundo ele, “o livro não é destruído como objeto físico, e sim como vínculo de memória (…) O livro dá consistência à memória humana”. E completa: “Esse vínculo poderoso entre livro e memória faz com que um texto deva ser visto como peça-chave do patrimônio cultural de uma sociedade e, certamente, de toda a humanidade”. Quando se propõe, por exemplo, o banimento de livros infantis do Monteiro Lobato, sem qualquer esforço para localizá-los na época em que foram escritos e ignorando a riqueza literária de seus conteúdos, vejo os archotes queimando, ansiosos para dizimar a minha – e a nossa – memória.