Estávamos em Sankt Gallen, Suiça, e precisávamos, naquele dia em especial, acender nossas Velas de Shabat, e nos alegrarmos um pouco uns com os outros. Vieram, àquele encontro de Shabat, algumas das crianças, algumas mulheres e alguns dos homens.
Não foi possível mais que alguns cânticos, algumas preces sem muita formalidade, um kidush com uma mesa italiana, mais propriamente napolitana, com vinho, doces, fritellas, muitas fritellas e, durante e ao final, um cuidadoso abraço. Disse-lhes:
Cuidem-se, amigos e amigas, cuidem-se na alma, no espírito, no corpo e nas relações interpessoais! Cuidem de seus sentimentos, emoções, sensibilidade, inclinações, músicas. Cuidem de seus estudos, criatividade, universidade, pesquisas. Cuidem de terem bons amigos e amigas, sejam bondosos, digam sempre uma palavra de estímulo, evitem e não entrem em lashon hará (língua para o mal), procurem viver em paz com seu ex-marido, com sua ex-esposa, com seu ex-patrão e seus familiares, em harmonia com os membros da sua Comunidade, amizade profunda com os seus alunos e professores, colegas de trabalho, com seus vizinhos, com seus funcionários domésticos, com os guardas do condomínio, com os guardas da cidade, com as autoridades (até onde for possível), com os comerciantes, com seus Rabinos, com sua filha e com seu filho…
Ecco! Alma-espírito-corpo e relações interpessociais! Não percam tempo com questões menores, assuntos rasteiros, observações infelizes, tratamentos melancólicos, reclamações, vitimismos, “estórias” familiares, mau humor, críticas, pensamento fantasioso e contabilidade excessiva…
Caminhem leves e soltos! Avancem leves e soltos! Vivam leves e soltos! Estudem leves e soltos! Trabalhem leves e soltos! Sejam mãe, pai, filho, filha, irmão, irmã, colegas, leves e soltos! Sejam ex-mulher, ex-marido, desempregado, empregado, leves e soltos! Sejam estudantes leves e soltos! Comam, bebam, corram, leiam, respirem, sejam filhos, filhas, sejam irmãos, irmãs, sejam professores, professoras, alunos, trabalhadores, bancários, advogados, funcionários públicos, liberais, sejam amigos e amigas, LEVES E SOLTOS!
A vida passa em um piscar de olhos! Não há tempo para não viver. Não há tempo para não serem leves e soltos. E ajudem quem puder. Cada pessoa, cada mulher, cada homem, cada jovem, cada criança, cada ancião, cada aluno, cada professor, enfim, cada ser humano, é um mundo indevassável, desconhecido e impenetrável!
Cada um de nós tem suas experiências pessoais, suas frustrações, suas tristezas, seus desesperos e suas indecisões. Tudo isto é absolutamente normal e humano.
Devemos ser capazes de “atos de bondade”. Fazendo assim, criaremos brasas vivas, criaremos ambientes alegres e festivos, determinaremos uma amizade duradoura com nossos filhos e daremos a eles a impressão, a certeza e a consciência de que compensa ser homem, de que compensa ser mulher, enfim, de que compensa ser pessoa, de que compensa viver e ser feliz, leves e soltos!
O mais importante, queridos e queridas, não é apenas suplantar o deserto, como nossos pais fizeram entre o Egito e Canaã, mas, principalmente, não perder nossa humanidade, nossa capacidade de fazer o bem, nossa capacidade de honrar, de respeitar, de viver em companhia uns dos outros, de simplesmente não desejar o mal ao outro.
O mais importante é viver cultivando o jardim que está dentro de cada um de nós.
Deixei meu filho na Piccola Caffetteria, comendo seu tramezzino, e fui para o Quartiere Ebraico, bem atrás do Castello Baronale, com todas as saudades atemporais da Sinagoga Scuola, a que os locais chamam, amedrontados, Casa Degli Spiriti. Chamam-na assim porque muitas atrocidades ocorreram contra os ebrei, como são chamados os Judeus italianos. Houve muita perseguição e morte, dentro e fora da Sinagoga, com requintes de brutalidade. Ouve-se que algumas crianças foram mortas sobre a Bimá, a mesa sobre a qual se coloca o Rolo da Torá nos serviços religiosos judaicos.
Sou
homem
de marcas do tempo, que nas mãos desenha
cicatrizes do labor…
no peito um constante brado de liberdade
ecoa infinitamente peito e na alma
amontoado calor de brasas destas almas vividas.
nos pés as asas me levam a quaisquer lugares, e céus,
e universos, e mares…
Por isso mesmo, os moradores dali dizem ouvir vozes, e sombras se movimentando, pelas pequenas janelas do prédio. Dizem que as pedras das paredes da Sinagoga ficam respingando o sangue das vidas que ali foram assassinadas e que, agora, buscam vingança contra seus opressores e descendentes.
Ao chegar naquele pátio da Via Olmo Perino, diante do prédio da antiga Sinagoga, fui tomado por um sentimento de dor, mas, igualmente, de esperança e gratidão. Cheguei-me à antiga porta de madeira, fechada, e estendi minha mão, como que acariciando as marcas de uma antiga mezuzá, ou agradecendo, ou, simplesmente, testemunhando alguma vida em mim, e ao encostar minha mão na porta, fui tomado por pensamentos e sentimentos que vêm de longe, de muito longe, e que me levam longe, para o muito longe…
Choramos e esperamos, nesta triste Galut, um tempo de paz em que possamos simplesmente viver. Ali, no Quartiere Ebraico, diante da velha Sinagoga, desta minha curiosa Casa Degli Spiriti, caminhamos e brincamos tantas vezes no pequeno pátio, então florido, onde vivemos por séculos, meus olhos se enchem de luz e esperança. Também ouço vozes, mas de outra natureza.
Estava quieto diante da porta fechada da Sinagoga. Às minhas costas, exatamente atrás, para cá e além do Castelo, ficam as três Igrejas Católicas, Santa Maria Assunta, San Pietro e San Francesco. Mais distante, do outro lado da cidade, à minha esquerda, para além da Via Appia, ficam duas Chiese Evangeliche, e à minha direita, há moradias de um grupo de muçulmanos que atuam na exploração de serviços telefônicos internacionais.
E eu, parado ali, senti um calor invadir meu peito. É impossível não chorar, porque ouvi o clamor das vozes de centenas de Judeus e Judias, levados e mortos, pelos religiosos de fora, pela sua “santa” inquisição, pelos fascistas, nazistas e outros canalhas, perversos, injustos. E ouvi, também, os sinos badalando incessantemente, ouvi alguma gritaria conjunta de Igrejas evangélicas, e ouvi vozes ininteligíveis islâmicas. Mas, do silêncio estranhamente respeitoso da velha Sinagoga, ouvi, também, a voz inconfundível da esperança em Mashiach:
… o Espírito de HaShem está sobre mim,
porque Ele me ungiu, para pregar aos mansos e revigorá-los:
enviou-me a restaurar os chorosos de coração,
a proclamar liberdade aos escravizados,
e a abertura de prisão aos presos…
Porque andamos perdidos nas sombras de tantos séculos, sem direção nem contentamento, e o sentido de Mashiach tornou-se um peso milenar e o talhe do teu reino mal pode ser reconhecido. Nos últimos dois milênios fizeram-no com mil faces e, em mil lugares e, sendo tantas, ninguém a conhece. Nem podem esperar e nem podem ouvir esta voz.
Mas, alguns esperam Mashiach e acreditam que o avistarão sobre os montes de Israel, com os seus pés em movimento, ensinando a renovação do Conhecimento e o Retorno a um tempo em que Poetas eram reis em Jerusalém. Rei-Poeta, e Poeta que ensinará algo de mais profundo sobre a Face do Eterno. São aspectos de Mashiach que me encantam e me fazem, em determinada medida, ouvir sua voz. Mas, espero, também, que as vozes das vidas retidas nas paredes desta minha Sinagoga sejam liberadas com atos de justiça! A voz de Mashiach fará ouvir a paz, e anunciará o bem, fará ouvir a plenitude e que dirá a Sião:
O Eternoreina! … celebra as tuas festas e cumpre os teus votos…
E ele será, então, finalmente, a imagem e a semelhança do Eterno, e nele serão soprados os Sete Espíritos do Eterno. E, com ele, o Reino será ligado à Coroa… Malchut à Keter!
Quando ele nascer (e os profetas e sábios Judeus disseram que nascerá!), o Eterno se alegrará de sua Justiça, de sua Mansidão, de seu Conhecimento de Torá, de seu Cântico e de seu Hallel, e nele as obras da “criação” serão finalmente terminadas. Sob seu Reino os homens encontrarão as fontes de conhecimento, de sabedoria e de inteligência e não haverá fome sobre a terra, nem terror, nem injustiças. O cego não errará o caminho e o surdo não será privado de entendimento, e ninguém será enganado, pois ele ensinará o equilíbrio e como suplantar a árvore do aprofundamento do bem e do mal, como vencer as inclinações para o bem e para o mal e, assim, levará ao caminho de volta à árvore da vida, e apontará a Coragem e a Força!
Então, HaShem, finalmente, ficará satisfeito e ouviremos a sua voz plena de alegria (e de bereshit) ecoando pelo espaço: … é muito bom…
Mas, por agora, ninguém conhece o seu perfume, os seus olhos, as suas mãos, os seus cabelos, a sua barba, o seu caminhar, o seu partir do pão e o seu intenso vinho.
Ninguém sabe como será aquela mulher que ele amará nem como serão seus filhos, porque ele trará em si os olhos e a música de David, e a Poesia e juízos de Sh’lomò, de cuja descendência nascerá. Ninguém viu, ainda, o seu sorriso, o seu modo de abençoar, o seu cântico, a sua amizade, a sua presença, o seu sangue, o seu espírito e, não obstante, ele é o desejado de todas as nações. Porque todos os homens e mulheres desejam um tempo de plena paz e descanso!
como pastor apascentará o seu rebanho; entre os seus braços recolherá os cordeirinhos, e os levará no seu regaço: as que amamentam ele guiará mansamente…
Mas, por que ainda não o conhecem antecipadamente? Porque veem mal, com os olhos obscurecidos de religião, de teologias e de intrigas medievais. Veem com más intenções, e por isso não enxergam; não ouvem e não escutam. Ouvem mal, conforme as conveniências e, se o encontrassem não lhe reconheceriam.
Provavelmente, o desprezariam porque não seria grego ou romano, não seria russo nem alemão. Desprezariam porque ele seria um Judeu – o melhor dos Judeus! Desprezariam porque ele não nasceria em um calendário gregoriano nem daria início a um novo calendário, como querem os homens platônico-aristotélicos, nem seria um Judeu nascido em terra estranha, como querem algumas escolas e grupos. Desprezariam Mashiach porque ele teria em um dos braços, a Torá, e no outro, os Nevi’im e o Shir HaShirim. De um lado, acompanha-lo-ia Moshè rabenu, e do outro, os Profetas e Poetas. Desprezariam Mashiach porque o seu coração é uma força nos Tehilim, e sua alma será formada nas deliciosas Festas Judaicas e nas Canções que enchem nossas vidas de contentamento.
E somente aquele que ouvisse, repetidas vezes, o seu pai declamando delicadamente os versos dos Cânticos de Sh’lomo para sua terna esposa; e ouvisse, também, a voz e a força dos Provérbios e da Meguilat Ester, quando estivesse junto com seus irmãos, ao redor de uma mesa, iluminada pelas chamas de um duplo candelabro, e perfumada pela delícia de Chalôt, somente assim poderia saber como será o Mashiach.
Os outros o desprezariam e o odiariam porque na sua boca e no seu coração os Ensinamentos jamais seriam uma nova religião (e sequer uma religião!), mas a luz, a renovação, o azeite, o ser humano pleno que nos falta – a perfeita leitura e interpretação da vontade do Eterno: amor-amar, superando as faces do bem e do mal, com o fogo da Ruach HaElohim!
façamos o homem à nossa imagem e semelhança
Os homens maus, poderosos, senhores do império de ouro, prata, ferro e barro, mataram milhares de crianças judias pelos milênios, esperando que Mashiach fosse morto – e continuam matando e comendo a carne de seus filhos, com seus votos ao vento.
No grito
do meu silêncio
e na angústia da minha alma: choro por ti!
e com todos os ressentimentos,
e com todas as frustrações,
e com todas as cadeias eloquentes…
e no reclamar de uma barriga vazia;
e no caminhar de um velho pelos longos anos,
e estas desgraças e torturas de coturnos pesados:
a liberdade nem é conhecida, nem existe…
na calada da madrugada… seguro os livros, trêmulo,
ler é perigoso!
no calabouço da miséria, em profundezas infernais,
em noites melancólicas e noites alvoroçadas,
e noites de vasta maldição, quero gritar e tapam minha boca!
a estrela da manhã me aguarda, a lua me contempla!
o espaço quer rir: conhece o passado – e o futuro?
mas eu estou vivo agora…
a casa de famintos não tem alegrias,
no olhar desnutrido de uma criança…
e na literatura, e na história, e na presente existência,
a caneta e palavras – palavreados, discursos vazios
e meus sonhos poéticos.
E hoje, vestidos de Babilônia, de Roma e Edon, culpam-nos por uma cruz forjada na mentira e na ignorância dos ecos do Coliseu e insistem que devemos morrer por ela, e por causa dela. Em dois mil anos de necrofagia que não termina, num discurso de morte que não termina, numa procissão mórbida que não termina, em cruzadas genocidas que não terminam, em inquisições necrófilo-religiosas que não terminam, em holocaustos que não terminam, em bombas que não se calam – embriagados do nosso sangue, exigem que nos dobremos diante dos seus deuses gregos e romanos, e dos seus profetas orientais tresloucados, bem como de seus missionários de perdição! Exigem que ouçamos seus pregadores delinquentes e nos dão o fel da exclusão social!
E as filhas, orientais e ocidentais, desta absurdidade religiosa, vendem a ilusão in memoriam (aos pedacinhos) nas praças, nos salões alugados, nos templos de isopor, nos canais de rádio e televisão mal adquiridos, nos campos de futebol, nas capelas, nas basílicas, nas igrejas, nos terreiros, nos centros, nas encruzilhadas, nos sagrados Shopping Centers, nas Bolsas de Valores, nos chaveiros, nas lojas, nas Torres Gêmeas, nas peregrinações, na estampa maledetta do dinheiro, nos porta-aviões, nos discursos vazios, nas lojas de hambúrgueres, nas árvores, nas bolinhas de natal, nas ceias de natal e no frango assado de natal e nos dias de dezembro. Aliás, dezembro e novembro inteiros, porque os pedacinhos da ilusão devem mover o comércio!
Ah, esse Mashiach! Se os homens o encontrassem em quaisquer lugares, certamente o desprezariam, porque não nasceria em dezembro! Porque será do sangue hebreu de Abraham, Itzchak e Ya’akov, e porque seria instruído/instruindo por Moshè rabenu, e porque é o coração e o gemido de Yehoshua, dos Shoftim, dos Melajim, de David, de Sh’lomò, de Yeshayahu, de Yirmiahu, de Yejezkel, de Daniyel, de Hoshea, de Yoel, de Amós, de Ovadiá, de Yoná, de Mijá, de Najum, de Javacuc, de Tz’faniá, de Jagai, de Zejariá, de Malají e de todos os Judeus de todos os tempos. Porque é a ideia de plenitude. Será ele a perfeita harmonia entre Criação e Creador (não Criador), porque chora desde sempre, com gemidos de quem quer estar em Jerusalém – e ninguém pode amá-lo, deseja-lo ou compreendê-lo, se antes não souber amar Jerusalém, o Beit HaMikdash e a Torá!
Ah, esse Mashiach, meu irmão, jamais poderia ter nascido de Atenas, em meio às festas e bacanais, porque não é filósofo: é a própria Sabedoria. Jamais poderia ter nascido de Roma ou de suas Províncias, em meio aos festins e orgias, porque não é jurista: é a própria Justiça.
Somente poderá nascer em Judá, em meio às Festas judaicas de Pessach e Shavuot, Yom Kipur e Sucot, e na alegria de um Shabat, porque ele é, e esperamos dele, o Shalom!
Acordei
e o verso continua
a Poesia nua e despretensiosa
(parece-me vitoriosa em qualquer espaço),
um laço em que estou preso, e teso, e absorto, e levado,
e condenado a este verso intenso,
escravo de um amor imenso e feliz
que não quis fosse assim entre mim e ela,
mas, nem bela a criei, encontrei, apenas, vagando sozinha,
não era minha e de ninguém, também não me fiz
poeta por vontade
(somos metades que se completam)
corpos que despertam emoção e carinho,
e somos o vinho que embriaga!
e este verso que a afaga espontâneo, assaz momentâneo,
sem critério nem espanto, é o canto que me persegue
e se ergue, austero, em qualquer instante e, triunfante,
este verso continua…
E, então, voando nos meus pensamentos, olhei ao lado da porta da antiga Sinagoga, e vi uma pedra, uma pequena pedra. Tomei-a e a depositei-a no chão na frente da porta, em memória das centenas de vidas judias que tombaram diante do furor bestial eclesiástico, nazista e fascista, durante os séculos naquele Ghetto, cujo sangue e cultura homenageiam cada uma das linhas da Torá, e das vozes… As vozes judias que teimam em não calar pelos séculos e séculos até que possam estar em algum lugar com suas famílias, Tradições, Festas e seu Mashiach! Até que possam estar com seu D’us!
Em certa ocasião, conheci Patrícia, – judia do Rio de Janeiro. Eu estava de passagem por São Paulo. Ambos tínhamos os olhos (e o coração) voltados para Israel, e caminhamos pela noite, quase de mãos dadas, relembrando a história de um povo que insiste em viver, e insiste em não morrer! Sua filha chama-se Havá (Chavah), pois tem a ver com vida, especialmente com a geração da vida. Daí traduzir-se Havá como mãe da vida. E é nesse sentido que colocou o nome nela. Afinal, nada no mundo judaico é ao acaso e, ao escolher o nome quis indicar-lhe uma direção e um sentido.
Deixei o vinho na taça e discorri sobre o fio feminino judaico que vai tecendo a vida e a experiência judaicas. Já era bem tarde, eu lhe disse coisas sobre a Torá e sobre o Judaísmo.
O tesouro começa nas Dez Palavras! O início da nossa liberdade e das responsabilidades… Responsabilidade anda de mãos dadas com liberdade, principalmente, para os judeus de todos os tempos. As Dez Palavras, sulcadas nas Luchot HaBrit (Pedras da Aliança), fundamentam todas as outras 603 Mitzvôt (Palavras-Princípio). São 613 Mitzvôt que funcionam como material de construção!
Atualmente, não é possível cumprir todas, mesmo em Israel, considerando que muitas dependem do Beit HaMikdash (o Templo). Outras dependem de um Rei, Mashiach! A integridade das Mitzvôt e de seu cumprimento apenas seria possível se todos os “atores” estivessem presentes: mulheres, crianças, Mashiach, Sacerdotes e, logicamente, isso só será possível no distante tempo de Mashiach.
As Mitzvôt são partes integrantes da Torá, mas não são a Torá! Esta, o todo; aquela, a parte. Nós, judeus, existimos por causa da Torá! E um dos aspectos fundamentais da Torá é o elemento feminino, desde o processo de Criação. Principalmente, quando revisitamos as Matriarcas. Elas foram determinantes para a formação de Israel. Veja-se o caso dramático de Rivkah, tendo que orientar seu filho, Ya’akov, a assumir a bênção que era, do ponto de vista legal, de Esav. Este havia causado profundo sofrimento a Itzchak e à própria Rivkah.
Ela teve que decidir porque existem estágios em que uma pessoa se encontra em decadência mórbida – sem condições de retornar a um ponto. Eis o caso de Esav!
Quando Sarah determinou que Ishmael fosse embora, apesar de causar dor em Avraham, estava vendo algo que ele não poderia ver naquele momento, pois o excessivo amor de pai (na velhice) fazia dele um incauto em relação ao comportamento de Ishmael. Avraham amava os dois, mas, Ishmael já tinha com ele 13 anos de experiência…, então, o amor de Avraham o tornava cego naquele momento, por isso entra Sarah para definir a história judaica. Ishmael tinha educação mais egípcia, dada pela sua mãeHagar, que não tinha nenhum compromisso necessário com o povo hebreu. Hagar olhava a riqueza e o status de Avraham, enquanto Sarah havia recebido os discípulos de Shem, o melk tzdek (rei de justiça), o filho de Noach. Então, sabia mais por conta da instrução que recebera de Shem. Ele era o grande Mestre daquele tempo, e havia instruído Avraham, mas, em particular, instruiu Sarah, por isso mesmo ela conhecia o futuro de Avraham. Veio de Sarah (e não de Avraham) a educação de Ytzchak.
O papel da judia é determinante, mas, sempre foi o pai a determinar o grau de judeidade, haja vista, pronunciarmos sempre “O D’us de Avraham, Ytzchak e Ya’akov”, e sabermos, também, que tal o grau de judeidade, tal o apego à Torá! Historicamente, judeus são os “b’nei Yisrael”, é inegável que a educação e formação são incumbências da mulher. Uma formação na Torá e em suas Mitzvôt e nas Festas Judaicas.
A Torá, as Mitzvôt, as Festas Judaicas, Israel (povo e terra),Jerusalém, os Profetas, o Talmud, entre outros conhecimentos, cultura e direitos judaicos, não podem ser negociados em nenhum tempo, pois, tudo é “perpétuo”. Não podendo cumprir as Mitzvôt (as que não podem ser cumpridas) já seria motivo de lamento… e é o que fazemos diante do Kotel, pois atrasamos, com isso, a nossa própria construção. E nisso mesmo orientamos nossos filhos e filhas, desde cedo, dando a eles a oportunidade de vivenciarem o ciclo da vida judaica, em todos os sentidos e na plenitude. Não há escolha nesse sentido, pois Judaísmo é o nosso modo de viver, o nosso Ethos e não alguma coisa em que devamos acreditar. Não podemos esperar o filho crescer para lhe perguntar se quer, ou não, ser filho, se nos quer, ou não, como pais. Mas, após o Bar Mitzvá ou Bat Mitzvá temos a liberdade e responsabilidade para escolher. Aos pais, cabe a responsabilidade de conduzir os filhos até a Bima, neste singular momento em que se tornam filho ou filha da Mitzvá!
Sarah, Rivká, Rahel e Leah, as queridas matriarcas, ensinaram seus filhos. Mirian ensinou o seu irmão Moshè durante boa parte da vida deste. Tziporá também ensinou Moshè (e era esposa dele!) e o que ela ensinou é referente ao Brit Milá de seu filho mais velho, aliás, o ensinamento de Tziporá livrou Moshè da morte, conforme narrativa da Torá, dentro daquela caverna onde se encontravam a caminho do Egito com um filho incircunciso, como se seu filho fosse uma possessão egípcia, um servo egípcio.
Bem antes de Moshè nascer, as parteiras judias (hebreias) já determinavam a plenitude da vida nas crianças, livrando-as das mãos dos assassinos de Faraó. No caso de Moshè e Tziporá tudo indica que ela (e não ele) conhecia a Mitzvá da circuncisão. Aliás, Moshé conhecia pouca coisa sobre a tradição judaica (ou hebraica).
O ensinamento da Torá, nos dias de hoje, passa por um dogmatismo inexplicável. Eles, os homens que se arrogam o posto de Mestres, ensinam a Torá no campo formal, mas elas, as mulheres, no campo substancial da alma humana. Aqueles, a forma; estas, o conteúdo. É como Poiema e Poiesis ou, ainda, corpo e alma. A Torá é um grande Poema do qual as mulheres e os poetas puderam, ao longo dos séculos, compreender a Poesia. E, desde sempre, mas, principalmente à época das matriarcas, as mulheres tiveram um papel determinante. Quando, por exemplo, Ya’akov esteve em dificuldade diante de Laban, seu sogro, que o oprimia e descumpria os contratos de trabalho (ou arrendamento), não foi a inteligência de nosso patriarca, mas a ação centrada e efetiva, de Leah e Rahel, enfraquecendo Laban naquilo em ele se sentia forte – a idolatria! Elas compreenderam que sua energia era idolátrica, então, tiraram-lhe as estatuetas, fragilizando-o sobremaneira.
Morreu Rahel pouco tempo depois, em seu segundo parto. Mas, teve tempo, ainda, de indicar o nome de seu filho, Benoni, ou filho da minha dor. Mas, após seu desaparecimento, o patriarca Ya’akov, igualmente movido por um amor profundo e delicado por Rahel, trocou o nome da criança, para ser chamada de Benjamim, ou expressivamente, filho da minha mão direita. Na troca do nome da criança, Ya’akov deixou publicado o que sentia por sua esposa Rahel, e continuou amando-a de forma intensa, na pessoa de seu filho Benjamim e, também, na de outro filho, Yosef! No episódio da troca do nome do filho, de Benoni para Benjamim, uma maravilhosa declaração de amor por Rahel, mas, o amor deve andar com mãos dadas à sabedoria, caso contrário é como um formidável cavalo solto. Um amor que custou, ou ao menos, propiciou, a experiência de servidão no Egito.
A direção dada ao amor de Ya’akov foi perigosa. Pois, ele continuou amando Rahel, na pessoa de dois de seus filhos. Ninguém deveria amar uma mulher na pessoa dos filhos e, neste caso, seu amor de pai por Benjamim e Yosef confundiu-se com o amor de esposo por Rahel. Principalmente, em relação a Yosef, o filho mais velho (com Rahel), a quem passou a proteger e a presentear com mimos variados. As vistas ficaram nebulosas em relação ao filho Yosef, e o mesmo, jovem demais, aproveitou-se deste encantamento e fixação de seu pai por si, e provocava diuturnamente seus irmãos, fazendo lashon hará (língua para o mal) contra os mesmos, desfilando, de forma soberba, com a túnica recebida de seu pai como presente e, por isso mesmo, despertando ódios e mágoas profundas (desejo mimético) em seus irmãos. Conduta que acabou por definir seu destino e a desagregação, cujo resultado último foi mesmo a escravização ao sistema egípcio.
O excesso de vaidade leva à coisificação. Yosef, então, passou a ser visto, diante de seus irmãos, como uma coisa. E como coisa, foi vendido aos ismaelitas (mercadores do deserto) que, por sua vez, o vendeu a senhores proprietários no Egito, sendo condenado, por derradeiro, a ficar longe de seu pai. O patriarca Ya’akov sofreu duas vezes – a perda de Rahel e, depois, a notícia (ainda que falsa) da morte de Yosef. Foi sua dor durante dezessete anos, o tempo desperdiçado de possíveis relações construtivas com seu filho – e pela dor extrema, em relação aos outros onze filhos homens e uma filha. Tempo desperdiçado, mas necessário, para o amadurecimento de Ya’akov, de Yosef e de todos os seus irmãos.
Bom seria não houvesse a distância, pois em que pese os flagrantes processos de crescimento, é indiscutível, por outro lado, a falta da convivência.
Nosso patriarca Ytzchak tinha uma natureza pacata, um homem modesto. Não era um homem de guerra, ou de lutas, como foi Avraham, seu pai. Por isso mesmo, projetou em seu filho Esav (o caçador, homem de guerra) a maior atenção e amor, enquanto Ya’akov era um Ish Tam, ou seja, um homem de estudo. Mas, Esav (e não Ya’akov) era a sensação para seu pai, Ytzchak. Daí que outra mulher, maravilhosamente sábia, justa e ponderada, Rivká, esposa de Ytzchak e mãe de Esav e Ya’akov, decidiu-se favorecer este em detrimento daquele. Pois, enquanto Ya’akov dedicava-se aos estudos, sob orientação de Shem, o seu irmão Esav perdia-se em sua performance de caçador.
Esav tomou mulheres canaanitas idólatras, que prestavam cultos orgiásticos aos deuses daquela região. Um dos cultos dali foi referência ao estabelecimento de uma das Mitzvôt, a saber, não cozinhar carne no leite e não misturar leite e seus derivados com carne, e seus derivados, porque aquelas mulheres canaanitas, em face de seus estranhos cultos e orgias, cozinhavam a carne no leite e, depois, aspergia sobre as plantações. Alguns grupos, também sacrificavam seus filhos a Moloch, um dos deuses de Canaã, lançando-os ao fogo. Elas queimavam seus filhos, lançando sobre eles (ou com eles) o leite que tiravam de suas próprias mamas, objetivando alcançar favores divinos de renovação. Esta é uma das razões pelas quais se tornou uma proibição, tanto cozinhar a carne no leite, quanto a mistura de carne e leite (e seus respectivos derivados).
Esav, o filho de Ytzchak, participava desses cultos, ganhando o desprezo de sua mãe, a matriarca Rivká, ao ponto de dar a ela a legitimidade de envolver o marido em um teatro, cujo objetivo maior era a transferência da bênção (legal, de primogênito) de Esav para Ya’akov. O pai estava com os olhos meio enceguecidos em relação a Esav, pois havia uma relação de projeção – mas, não em relação à Rivká.
É um engano dizer que o pai tenha sido enganado, tanto pelo filho, quanto pela esposa. Não foi. O caminho da bênção sobre Esav seria desastroso. Ya’akov mereceu receber a bênção, ainda que lhe tenha custado o ódio do irmão e consequente fuga para outras regiões, onde conheceria a opressão e mercenarismo (de exploração) de seu sogro Laban. E ele, Laban, apesar de ser irmão de Rivká, herdou tudo o que não prestava de uma família abandonada, anos antes, por Avraham – ou seja, a idolatria, o mercenarismo e a leviandade. Por isso mesmo, enganou Ya’akov tanto quando pode, mas não muito, tendo em vista que este patriarca tinha determinados conhecimentos, frutos de uma chamada, então, Torá Oral, cujo aprendizado ele desenvolveu com Shem – melk tzdek (rei de justiça) com aplicação horizontal.
Do mesmo lugar saiu, anos antes, Lot com Avraham. Lot foi aquele mesmo que afrontou seu tio (quase pai), abandonando um processo de formação. Desceu para Sodoma, onde manteve residência e vida sociocultural e terminou seus dias, então em uma caverna, em prática de incesto! Na oportunidade em que afrontou Avraham, ele escolheu para si o vale do Jordão com seu verde e vigor visual, deixando para o patriarca o Negev, deserto acinzentado! E, neste sentido, cometeu algumas transgressões, sendo a primeira dela escolher qualquer coisa em flagrante desrespeito a seu tio e tutor. A segunda, não bastasse a arrogância, foi a de escolher, de forma iníqua, o melhor para si! Atitudes que apenas fizeram por definir seu destino ou, ainda, os desdobramentos sobre sua própria vida. Afinal, nossa vida é um constante entrelaçamento de situações causa-efeito.
A escolha de Lot já seria por si só uma afronta. Escolher o melhor para si fez com que perdesse todas as boas forças sobre sua cabeça. Refiro-me às energias boas que ficam sobre (e em torno) dos que praticam atos de bondade. Por isso mesmo, a situação de Lot em Sodoma foi apenas efeito de um estado de decadência que começou no exato momento em que ele vê aquele Vale do Jordão e, egoisticamente, deseja-o somente para si.
Daí que em Sodoma, Lot e sua família vão sendo, cada vez mais, parte de toda perversão e injustiças que por ali se praticavam, dando Sodoma como base da educação de suas filhas (não tem a ver com homossexualidade, mas com perversidade). Situação que só piorou com a chegada dos emissários da Escola de Shem, indevidamente tidos como “anjos” em uma concepção medieval e, também, mais moderna. Lembrando que, a concepção moderna de anjos, como “moradores do céu” é advinda da cultura persa, grega, romana e, para depois, da teologia católica e cristã, com maior ênfase entre adeptos do pentecostalismo e neopentecostalismo (em todas as suas facetas, inclusive, considerando aí os carismáticos)
Ao contrário, aqueles homens – e eram homens, tinham um profundo conhecimento de uma certa Torá Oral, por intermédio de Shem, de quem eram discípulos. Conhecimento profundo em todos os sentidos que, conforme os sábios, será ensinado novamente em uma futura (e, aparentemente remota) época em que Mashiach nascer!
Tempo de um conhecimento tal que levará o homem a redescobrir o caminho da árvore da vida. Tempo de Torá C’hayim (Instrução para Vida) em que, superada a árvore do aprofundamento do bem e do mal, o homem poderá desenvolver, finalmente, a imagem e semelhança com as forças da Criação, aspecto ainda em desenvolvimento.
O conhecimento, em face da Torá Oral, antecede em mais de um milênio, o conhecimento que os gregos tiveram. Para a ciência, que nasce com os pressocráticos, a descoberta dos elementos terra, água, fogo e ar constitui-se em quase tudo. Isso ocorre nos anos 600 a.e.c.. E este conhecimento já era dos judeus (ou hebreus, ou semitas), principalmente, no que se refere à Torá Escrita, com mil anos de antecipação.
Tais elementos da natureza, os quatro materiais, já estão nos primeiros textos de Bereshit (Gênesis): fogo, terra, água e ar! Mas, no nosso caso, aparece, ainda, um quinto elemento, que organiza o tempo/espaço, e os quatro elementos básicos. Elemento para organicidade. É a Ruach HaElohim – o elemento feminino da Criação! Ruach é como a Poiesis! A comum tradução para “o Espírito de D’us” acaba por tirar o conteúdo fundamental da Ruach HaElohim!
Fogo, Terra, Água e Ar, são os elementos organizados pela Ruach que lhes dá sentido integrativo e orgânico! E este elemento será representando pela Menorá (candelabro de sete velas), como objeto capaz de transmitir a ideia da Árvore Sefirótica – árvore da emanação do Eterno. E, por isso mesmo, é determinado que haja uma Menorá diante do Aron HaKodesh. A Torá, cujo lugar de repouso e guarda é mesmo o Aron HaKodesh, é o corpo, a forma, enquanto a Menorá expressa a Poiesis! Forma e conteúdo! Em função disso, a constituição do povo judeu é de caráter matriarcal, a fim de podermos obter mais e mais daquele elemento feminino que permeia a vida, desde a Criação, Éden e formação judaica.
Diferente dos gregos, e depois, dos romanos, bem como dos medievais até a atualidade, culturas em que o elemento feminino é desprezado com uma violência contra o processo de Criação que vai, de modo odioso e injustificado, concretizar-se no modus celibatário, expressão máxima da afronta ao próprio encontro amoroso que o Eterno determinou desde o início. O que não é celibato acaba sendo machismo e misoginia, facetas do mesmo desprezo ao feminino.
Aliás, o que realmente encontramos, é uma indicação para a vida e não para rezas!
Em Fondi, Itália, um jovem professor me encontrou em um Bar Café, bem próximo do antigo Quartiere Ebraico. Ele me procurava fazia algum tempo – e me achou, pois vinha em direção ao mundo judaico.
Por isso mesmo, encheu-se de satisfação e falou-me da sua vontade de conhecer o Judaísmo para encontrar D’us, quiçá, vislumbrar um caminho e vencer o mal (ou Mal, como estava mais acostumado).
Mas, porventura, – eu perguntei a ele – já te ocorreu que HaShem (ou D’us, se quiser) não quer (e nem pode) ser encontrado? Por acaso, já pensou na possibilidade do Judaísmo não ser um caminho nem te dar certeza alguma sobre um mundo que não será alcançado? Pensou, ainda, que na formação judaica, não há preocupação nenhuma com o mal ou o bem (ou Mal e Bem, se quiser) e nem há teologia alguma a ser apreendida? Pensou nisso?
Pois bem, no Judaísmo não estudamos, não procuramos e nem vendemos HaShem.
O Judaísmo não tem como escopo o encontro com Ele (ou dEle). Não podemos dizer nada sobre o Mal ou o Bem, vez que são fantasias persas, gregas, medievais, reelaboradas com os cultos africanos. Veja, apenas nos ocupamos, no contexto judaico, dos comportamentos bons ou maus, das escolhas boas ou más. No Judaísmo, não nos projetamos para um mundo futuro e, sendo futuro (se o for), virá naturalmente, independentemente e dentro do que HaShem possa pretender (se pretender alguma coisa).
Não há mágicas, não há fórmulas nem rezas que possam modificar os tempos, os ciclos e a suposta Vontade do Eterno!
E, assim, sem futuro nem surpresas, aprendemos a olhar nossas mãos, nossos pés, nossos olhos, nossos ouvidos, nosso corpo, nossos sentimentos, nossos conhecimentos e tudo aquilo que se nos chega para realização. Ensinamos aos nossos filhos que um precipício é mesmo um precipício (e não um conceito). Ensinamos que um jardim é mesmo um jardim (e não uma fantasia). Ensinamos que determinadas cidades devem ser abandonadas porque concentram vampiros demais, sanguessugas demais, destruidores demais.
E deixamos claro que, sobre nossa mesa, um pão deve ser justo, feito por mãos justas e adquirido com recursos justos, pois, ao pronunciarmos alguma palavra (entre nós) não o fazemos para agradecer (pois filhos não agradecem a seus pais), mas, ao menos as pronunciamos para abençoar HaShem, a fim de termos certeza de que aquele pão não tem outra origem senão a de justiça, bondade e leveza…
Ensinamos, também, que um inimigo é mesmo um inimigo (um inimigo sempre!) E o melhor para nós, é que o inimigo esteja bem, muito tranquilo, ocupado (muito ocupado!) e que more longe de nossas casas, longe mesmo! Mas, o inimigo não é “alguma coisa” caída do “céu”, um ser sobrenatural, um revoltado em “bereshit” ou um ente espiritual com desejos sexuais pervertidos. O inimigo tem mãos e pés, tem fome e sede, tem visão e olfato, assim como nós. Mas, ele, o inimigo, não tem mesa nem pão justos, não tem limites nem conhece princípios. Ensinamos que o inimigo não é a mesma coisa que adversário. O adversário é adversário em um cenário de competição; o inimigo, o amalequita, é o destruidor (o fascista, o nazista, o nazifascista, o opressor, o explorador, o racista, o antissemita, o islamofóbico, o misógino)
Diferente de nós, quando ele tem fome, come sem medida nem critério. E lança as mãos e avança seus pés, não se importando com este ou com isso. E quando vê ou percebe alguma coisa, o inimigo quer para si, em um incontrolável desejo mimético, arrebatador, destruidor e fatal. Por isso, sempre desejamos que nossos inimigos tenham tudo, ocupem-se bastante e fiquem muito cansados, a fim de que se esqueçam de nós, dos nossos portões, dos nossos bens, dos nossos filhos e de nossas vidas.
Mas, nós, que não sabemos nada dos seus portões, dos seus bens e dos seus filhos, todavia, não nos esquecemos deles, nunca nos esquecemos que são inimigos (e queremos que estejam bem, e longe de nós).
No Judaísmo, não discutimos conceitos teológicos, não defendemos dogmas religiosos, não buscamos fiéis ou infiéis, não levamos ninguém para a Sinagoga, não formamos missionários. Não desprezamos nem aprovamos a religião de outrem, pois o Judaísmo é o nosso melhor silêncio, um singular e respeitoso silêncio. E, assim, nunca estamos nas praças ou esquinas (nem nos palcos religiosos). O palco religioso não é, de fato, para judeus… Ao contrário, estamos envolvidos com o nosso suor, com os nossos livros, com as nossas Sefirôt e com nossos estudos.
Mas, não estudamos o Eterno, e sequer pronunciamos o seu Nome! Não pedimos nada a Ele, mas, com um profundo e respeitoso sentimento de gratidão e reverência, abençoamos seu Nome, todas as manhãs e todas as tardes e, ao anoitecer, olhamos para nossos filhos, cobrindo-os ternamente e lançando-os na Presença de HaShem…
Amamos festas, contamos no dedo os dias que faltam para a próxima festa e o que devemos fazer para que elas sejam alegres, maravilhosas e humanas. Nossas Festas não projetam nada de mágico para o futuro nem devem ser lidas como profecias. Nossas Festas são apenas Festas de memória, com as quais, contamos a nossa história (para os nossos filhos).
Sim, meu caro, com elas contamos a nossa própria história e, por isso mesmo, há milênios fazemos o mesmo pão da amargura e cativeiro, e não comemos, naquele período, fermentos para não nos esquecermos de que sair da escravidão é um ato apressado, um ato que não permite conforto nem reflexão.
Não temos nenhuma vergonha de dizer, em nossas Festas, que fomos escravos! Comemoramos nossas colheitas, o nosso momento de constituição integral no Sinai, e comemoramos nossos novos períodos de trabalho, muito trabalho, lembrando-nos das más ações, dos maus comportamentos em um ciclo completo, das privações, das cabanas (nas quais moramos no deserto). Ademais, lembramo-nos dos momentos em que nossos inimigos destruíram nossos palácios, nossos altares e, de como, fortalecidos em nossos princípios, nos livramos deles, lutando, lutando muito, com espadas, garfos e pedras (reais).
Lembramo-nos do nosso estado em terra estranha e dos governos, persas, católicos, fascistas, stalinistas e nazistas, que tentaram nos apagar da história e de como pessoas do nosso povo, de carne e ossos (homens e mulheres) mantiveram seus propósitos claros, seu amor inabalável e, com sabedoria, utilizaram tudo o que haviam aprendido em casa, com seus pais e irmãos, para decidirem por alguma coisa, para fazerem alguma coisa e definirem que não temos que desaparecer da terra.
Nossos dias não são ocupados, integral e tresloucadamente, com lufa-lufa. Não! Nós paramos, sim, há um dia – Shabat, deliciosamente especial, em que paramos para comer um pão trançado, feito de forma afável por pessoas satisfeitas com HaShem. Paramos para beber o vinho, para comer frutas, doces e mel, para cantar com nossos filhos e filhas e, de mãos dadas, dançarmos, cutucando cada um deles, fazendo-lhes cócegas, dando gargalhadas e cheirando seus cabelos. Mas, não fazemos sermão religioso para eles neste dia!
Também, paramos, neste dia, para nos encontrarmos com outras pessoas a quem amamos, os nossos amigos que, como nós, comeram do seu pão trançado, feito por mãos amáveis e satisfeitas com HaShem, e beberam do seu vinho e comeram frutas, doces e mel, que cantaram com seus filhos e filhas e, de mãos dadas, dançaram com eles, e os cutucaram, e lhes fizeram cócegas e deram gargalhadas, e cheiraram seus cabelos sem, contudo, fazer qualquer sermão religioso.
Por isso mesmo, quando mais pessoas amigas estão juntas, todas sabem o que é o pão trançado, vinho, doces, mel, filhos, filhas, mulheres amáveis e satisfeitas com HaShem, risos, gargalhadas. E os motivos, todos os motivos, de não querermos trabalhar neste dia. Quando estamos juntos, desprezamos discursos e sermões religiosos, porque nossos filhos, mulheres e amigos, valem mais que discursos religiosos ou rezas sem fim.
Entretanto, quando um dos nossos amigos trabalha neste dia, e não podemos vê-lo em nossos encontros, isso não nos aborrece nem encanta. De fato, não mandamos nenhum espia em sua casa, nenhum missionário e, muito menos, um profeta! Não investigamos nosso irmão nem nossa irmã, pois, no Judaísmo cada qual é responsável por si mesmo e, assim como as letras do alfabeto hebraico, cada qual vale por si mesmo, tem seu peso e sua medida (que ninguém procura conhecer, pois é a medida indecifrável de cada um, da individualidade de cada um).
A responsabilidade, em nós, alcança níveis de grandeza e profundidade, de peso e substância, mas ela é individual, singular e intransferível. Desde a tenra idade somos instruídos no comportamento bom, somos ensinados no exemplo de nossos pais e de nossas mães (sim, no Judaísmo conhecemos bem as palavras pai e mãe!).
Aprendemos a fazer, a concretizar, a transformar um tijolo em castelo, uma página em biblioteca e, assim, somos exercitados continuamente ao aprofundamento, ao estudo e à busca pelo saber. De fato, frequentamos mais lojas de livros usados do que restaurantes…
Desenvolvemos, assim, naturalmente, o respeito por aqueles que, eventualmente, sejam nossos mestres, nossos professores. Porém, eles não são nossos guias espirituais, não são nossos pastores nem nos conduzem a lugar algum.
São mestres que nos ensinam a Torá e o Talmud, e que nos incentivam a ensinar a Torá e o Talmud, transformando-nos em mestres e professores, que ensinam a Torá e o Talmud… Eles, os mestres, não são nossos donos e donos de nossas casas, porque o que eles têm nas mãos e nos legam é de tal modo precioso, grandioso e essencial que, por conta disso, exatamente disso, aprendemos que nossa casa é nosso jardim, nosso recanto e uma projeção de nós mesmos. Aprendemos que nossas casas refletem o nosso amor por Jerusalém.
Ah, Jerusalém… Jerusalém é o nosso centro. E dali, aprendemos a olhar o mundo, o universo, o kosmos… Ali, especialmente ali, nos reencontramos como um povo, como seres humanos que venceram a morte, as câmaras de gás e toda sorte de maldades, que suplantaram as dores e renasceram! A cidade de Melech David e de Melech Sh’lomo, a Poesia e a Sabedoria de mãos dadas!
Não, não meu caro, Judaísmo não é solidão. Somos calorosamente sociáveis- e solidários. Judaísmo é silêncio realizador, fogo que queima sem discurso, energia que faz e refaz a nossa alma.
Se quiser andar conosco, poderá vir. Sim, você poderá vir (por que não?). Mas, não pretenda sair pelo mundo, tentando consertá-lo com o Judaísmo, nem voltar-se contra seus antigos pares, incriminando-os, derrotando-os e causando-lhes dissabores. Não faça isso!
Se quiser, venha. Mas, se vier e viver como judeu, você não se fará melhor que seus antigos companheiros, nem poderá lhes dizer coisa alguma.
Apenas apontará para si mesmo (apenas para si mesmo!) um comportamento único, próprio, sobretudo se perceber que nosso D’us é seu D’us e que nosso Povo é seu Povo e, assim, não poderá fazer – nem permitir que se faça aos outros, o que lhe parecer odioso, injusto e indecente a si mesmo.
Texto originalmente publicado no livro A MORTE DO POETA NOS PENHASCOS E OUTROS MONÓLOGOS. São Paulo: Editora Scortecci, 2009, p 168 e segs., mas escrito em 2008, em Fondi, Itália, a partir de um diálogo com um jovem professor.
Outrora se reconhecia um judeu pela sua capacidade infinita de se questionar, de responder sistematicamente com uma pergunta, abrindo caminho a novas questões, e viver angustiado pela ânsia de não chegar a respostas definitivas. Éramos insatisfeitos, porém a busca, estimulante.
A cena do magistral filme dos Monty Phyton “A Vida de Bryan” mostrando os estudiosos do Talmude decidindo a culpabilidade de um pobre bêbado condenado à crucifixão, como se fosse Jesus de Nazaré, o Messias, ilustra com o sabor do humor britânico essa característica judaica. Embora sabendo da inocência de Bryan, impossível chegar a uma sentença, pois há sempre alguma pergunta sem resposta. Costumava-se dizer: um judeu, duas, três opiniões.
Vivi na própria pele as questões onipresentes: Por que sou judeu? e O que é ser judeu?
Essas duas indagações nos perseguiram ao longo do tempo. Num círculo vicioso, cada resposta levou a uma nova dúvida e assim sucessivamente. Aliás, foi provavelmente esse traço que levou tantos judeus, ao longo da história, a se projetar no mundo.
No entanto, a impressão que tenho hoje é de que muitos perderam a capacidade de se interrogar, passando a engolir os mais absolutos absurdos e até mesmo a propagá-los.
No Brasil, com seus cerca de 160 mil judeus, isso é patente.
Surpreendeu-me, no mau sentido da palavra, o fato de que uma parte da comunidade ajudou a eleger Jair Bolsonaro. Foi-me difícil admitir que muitos votaram num fascista, cujos valores sempre foram diametralmente opostos aos valores judaicos.
Questionei-me:
Como dar de ombros quando um sujeito afirma que seu herói é um torturador? Como dar de ombros quando alguém se propõe a matar seus adversários? Como dar de ombros quando alguém trata uma mulher, sua própria filha, como um ser inferior? Como dar de ombros quando os negros são tratados como animais? Como dar de ombros quando alguém prefere a morte de seu filho gay? Como aplaudir quem é contra a igualdade de oportunidades? Como dar de ombros quando alguém ataca a educação? Como dar de ombros quando alguém não reconhece a ciência? Como dar de ombros a falas discriminatórias? Como dar de ombros quando alguém mente e se desmente a cada dia, várias vezes por dia? Como dar de ombros quando alguém tem a petulância do desrespeito e aversão à liberdade?
Como judeu agnóstico, eu me questionei sobre cada um desses aspectos da personalidade e do caráter do candidato. Você não? Por que?
Tudo isso nós sabíamos antes de 2018: você, eu, o rabino, o ashkenazi, o sefarade, os laicos, os agnósticos, os ateus. A diferença é que muitos judeus não agiram como judeus, optando por não se questionar. Votaram no fascista ou anularam o voto, permitindo assim sua eleição.
Em nome do que? De interesses pessoais para uns, do ódio pelo outro candidato para outros, de cegueira para terceiros.
Por que não se informaram e se questionaram como fizeram no passado? Por preguiça intelectual?
E por que a triste realidade de 610 mil mortos, centenas de milhares dos quais poderiam ter sido salvos se não fosse o negacionismo, não levaram esses judeus a rever suas posições?
Por que não se preocupam com o aumento de atos nazifascistas?
Nos últimos dois anos, no Brasil, o número de células neonazistas cresceu 60%, para chegar a 530.
Nada a ver com Bolsonaro? Será?
– Em 1998, Bolsonaro elogiou Hitler, disse que “soube impor ordem e disciplina” e defendeu estudantes que elegeram o Fuhrer como “personalidade histórica mais admirada”.
– Em 2004, Bolsonaro enviou carta de agradecimento a sites neonazistas: “Vocês são a razão de existência do meu mandato”.
– Em entrevista, Bolsonaro disse que Hitler era “admirável”, “um grande estrategista” e mentiu que seu avô lutou como soldado na guerra a favor de Hitler.
– Em 2011, grupo de neonazistas saiu às ruas em defesa do capitão.
– Nas redes sociais, Bolsonaro postou um selfie com um sósia de Hitler, convidado pelo seu filho para discursar na Câmara dos Vereadores do Rio de Janeiro.
– “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”. Bolsonaro usou em campanha eleitoral o slogan copiado ao da Alemanha nazista.
– Em 2019, em evento com evangélicos e rememorando sua visita a Israel, o presidente disse, sobre o Holocausto, que “Podemos perdoar, mas não esquecer.”
– Durante uma live presidencial, Bolsonaro tomou leite, em alusão ao símbolo dos supremacistas brancos da Alt Right, grupo neonazista norte-americano.
– “Melhor viver um dia como leão do que cem anos como cordeiro” era o bordão de Mussolini, o líder fascista da Itália, repetido em outra live.
– Ao tomar posse, o secretário de cultura de Bolsonaro interpretou o papel de Joseph Goebbels, copiou texto e fotografia do braço direito de Hitler, em discurso pronunciado ao som de Wagner, o compositor preferido do fuhrer.
– O secretário da Comunicação, judeu, usou a frase do portão de Auschwitz para ilustrar sua fala.
– Em 2021, Bolsonaro se reuniu com a neta do ministro das finanças de Hitler, a neonazista xenófoba Beatrix von Storch.
– Há poucos dias, um bolsonarista propôs, na Jovem Pan, que o Brasil matasse judeus para enriquecer, como fez a Alemanha nazista.
Ah sim, é tempo de não esquecer que o guru do bolsonarismo, Olavo de Carvalho, é um notório e assumido antissemita.
Eu, como judeu agnóstico, não paro de me questionar: – Como é possível ser judeu e apoiar essa espécie de Anticristo?
Por mais incrível que possa parecer, é possível.
Como assim?
Eu conheço um judeu que trabalha com a memória do Holocausto e que se declara disposto a repetir seu voto no revisionista. Outro cuja fortuna aumentou graças às benesses do poder. Outro que é ortodoxo, conhece todas as rezas de cor e aplaude o racismo bolsonarista. Outros ainda que apesar de serem líderes comunitários (até eles) são próximos do poder nazifascista e silenciam diante do antissemitismo e da discriminação de terceiros, como se o assassinato em massa dos nossos índios por exemplo, não valesse a dos judeus.
Fecham os olhos para não ver, a boca para não protestar e o nariz para não sentir o fedor que exala do esgoto palaciano.
Como pode?; eu me pergunto. Você não? Onde andam os seus, os nossos valores de solidariedade, de justiça social, de humanismo? Onde andam os tais pontos de interrogação que nos levavam à razão?
Antes que você me acuse de comunista, socialista ou qualquer outro ista, saiba que não tenho carteirinha de nenhum partido, sou “apenas” um jornalista, um judeu que se questiona e que ama a democracia, o Estado de Direito e os Direitos Humanos.
Até ontem, acreditei que os valores universais coincidiam com os nossos valores judaicos; será que me enganei? Sem dúvida.
Salvo melhor juízo, o primeiro texto (ou um dois primeiríssimos) em Língua Portuguesa, defendendo o Casamento entre pessoas do mesmo sexo foi de minha autoria (publiquei-o em um Jornal paulista com o título “Do Casamento entre Homossexuais ou, da União entre Pessoas“. O texto, escrito em 1999, foi publicado em 2000. Nele, defendia o direito das pessoas se unirem, em nome do Afeto, considerando não poder haver discriminação de qualquer natureza!
Mesmo tendo reservas em relação ao Ato Jurídico (cartorário) Casamento para qualquer pessoa, de qualquer orientação sexual, considerei que o Casamento ou a União Estável entre Pessoas do mesmo sexo eram necessários a fim de tutelar juridicamente tais e quais relações. Esse reconhecimento, veio, depois, pouco a pouco, via Jurisprudencial, e firmou-se no STF mais de dez anos depois daquele referido texto.
Era difícil falar sobre isso nas Aulas de Direito Civil, mas eu falava! Os alunos e alunas tinham um problema qualquer (o problema não estava nos gays e lésbicas, mas nos que se consideravam “moralmente superiores”). Eu dizia, sempre, em Aula: “Se você vir duas pessoas do mesmo sexo se beijando ali no corredor, isso interessa a você em que sentido? E se não interessa, porque recrimina?”. À pergunta seguia-se sempre o silêncio dos asnos matriculados! Havia asnos, muitos asnos, também na Sala dos Professores!
Hoje, após 22 anos (22 anos!!!!) daquele texto, e mais de uma década da Decisão do STF, além de tudo mais, ainda continuo encontrando asnos matriculados, asnos docentes, asnos homofóbicos, asnos bíblicos, asnos reprimidos, asnos neopentecostais, asnos e mais asnos, enfim, gente de baixíssimo valor humanista, nenhuma dignidade afetiva, nenhuma inteligência e nenhum valor ético. Moralistas babacas!
No que respeita ao Ensino Jurídico, o meu Direito Civil foi, e é, sempre, e, sobretudo, Constitucional. Não reconheço qualquer outro modo de ensinar o Direito Civil que não seja em chave constitucional. E quando ensino Direito das Famílias, tenho, de um lado, a Constituição, e de outro, o conceito pleno e libertário de Afeto. Não ensino um Direito Civil que colabore com a burguesia tosca, rasa e exploradora, nem um Direito das Famílias que contribua com a opressão religiosa e moralista. Penso que um dia, ao olhar para trás, não sentirei vergonha de mim mesmo nem da minha ação docente por todo o período em que atuo!
Mas, o tema continua em maus espaços de discussão. E mantém-se a pergunta: o que é Família? É muita coisa (e pode ser muita coisa), menos o que a “comissão especial” (da Câmara dos Deputados) definiu, faz alguns anos, no Projeto de Lei n. 6583/2013 (Estatuto da Família).
Aliás, como eu já disse em outra ocasião, especialmente, em Entrevista para o Programa de Rádio, no Paraná (vide texto “Congresso Conservador Ameaça Direitos Conquistados“), o “parecer” da Comissão é um atraso, por si só, em relação ao Direito e, em especial, aos Núcleos Familiares. É um retrocesso ao século XIX. É atraso, muito atraso. Eis um dos retrógrados Artigos do Projeto de Lei n. 6583/2013, aprovado pela Comissão:
Para os fins desta Lei, define-se entidade familiar como o núcleo social formado a partir da união entre um homem e uma mulher, por meio de casamento ou união estável, ou ainda por comunidade formada por qualquer dos pais e seus descendentes.
Obviamente a definição da dita Comissão sequer pode prosperar (no processo legislativo), por várias razões socioeconômicas, mas, por duas legais, tanto de caráter constitucional quanto infraconstitucional, respectivamente, Artigo 5º, XXXVI da CF/88 e Artigo 6º da LINDB (apenas para citar os dispositivos mais expressivos):
A Lei não prejudicará o direito adquirido, o ato jurídico perfeito e a coisa julgada.
Pois bem, já está decidido pelo STF e, portanto, é “coisa julgada”, a união entre pessoas do mesmo sexo como Núcleo familiar (desprezado, agora, pela comissão parlamentar e pelo Projeto de Lei n. 6583/2013). Qualquer nova lei não pode repercutir sobre este fato (social e jurídico). É coisa julgada e, mais, estabelecida no Direito que, não entenderam os parlamentares, não pode ser modificada. Não se tiram direitos!
Além disso, o “projeto” passado pela Comissão não contempla outras famílias, como as recompostas, famílias afetivas (por exemplo, filhos de criação), uniões plúrimas, entre irmãos e, ainda, de uma pessoa só, com visíveis impactos, se aprovado o parecer da comissão, sobre o patrimônio, especialmente, no que respeita à Usucapião e Impenhorabilidade do Bem de Família. Cito apenas o mais básico na ordem patrimonial. Há mais, muito mais, pelo ângulo Previdenciário, Trabalhista, Tributário, Civil, Processual Civil, Penal, Processual Penal, entre outros e, repetindo, Constitucional!
Por outro lado, a “comissão” quer alterar (ou atentar contra) o texto da Constituição? Sim, pois sequer a CF/88, em seu Artigo 226, definiu que “família seja núcleo formado pela união entre homem e mulher”, aliás, nem casamento aparece na Constituição como “união entre homem e mulher”. O Constituinte de 1987 nem mesmo definiu família (e agiu bem, pois a ideia é aberta).
Poderia a lei modificar a Constituição? Na cabeça dos mais retrógrados parlamentares, sim, já que desconhecem a Carta Magna! Porém, a CF/88 tratou, acertadamente, a família como base da sociedade (Art. 226), pois é mesmo, sem dispor de como pode ser formada ou arranjada, já que o mencionado Artigo é aberto e já foi objeto de profunda hermenêutica pelo STF, especialmente no que concerne ao alcance de tantas possibilidades.
Família é um setor com o qual o legislador não deveria se (pre)ocupar, pois não se trata de matéria legal (ou que possa ser quadrificada pela lei), mas, ao contrário, para além do alcance legislativo, trata-se de relações de afeto de caráter horizontal e plural. Quando muito, o legislador deve se ocupar com questões patrimoniais, a fim de garantir que os bens sejam protegidos. Não pode o legislador estrangular os Núcleos familiares definindo “família”!
Saberia o legislador (e sua comissão) o que é “domus”? Saberia o legislador o que é “famulus” (palavra que designa a origem patrimonial da família entre os romanos)? Saberia o legislador o que é família eclesiástica (medieval)? Saberia o legislador o que é família proletária? Saberia o legislador o que é família afetiva? Não! O legislador brasil(eiro) nada sabe disso ou daquilo, apenas quer estabelecer no país seus dogmas “religiosos”, “equivocados” e “inconstitucionais”.
Enfim, o desvario parlamentar (que parece não ter fim naquela – e nessa, legislatura) anda fazendo estragos no Direito. Por quê? Porque lê o Direito como capítulos e versículos, mas o Direito poucas vezes é “capítulo”, aliás, poucas vezes é lei. E nunca, nunca mesmo, é versículo!
Isso me fez lembrar uma situação acadêmica já antiga, do final dos anos 90.
Duas alunas foram “flagradas” se beijando (beijo de língua!) no corredor de uma Universidade administrada por uma ordem católica. O reitor, um franciscano, achou por bem me nomear para compor a “sindicância”, porque, segundo ele, sendo eu Judeu e, à época ter um Mestrado em Ciência da Religião (que não é Teologia!), assim como ser Professor de Direito Civil, poderia elaborar um parecer com fundamentos bíblicos e jurídicos, que embasasse sua decisão de expulsar as duas Alunas.
Acabei por fazer um parecer defendendo as Alunas e seu direito ao beijo! Claramente, o Reitor estava erradíssimo e bastante irritado (quem sabe, excitado!). Na reunião para apresentar meu parecer, após sua leitura, o Reitor não o compreendeu, aliás, não o aceitou, dizendo-se “frustrado” comigo. Respondi:
“O que Vossa “Eminência” não está entendendo, ainda, é que não há nada na Bíblia, de qualquer língua e credo, que autorize a expulsão destas alunas Lésbicas; não há nada, nem mesmo uma palavra, contra Lésbicas e sua Homossexualidade, mas, há, sim, todas contra o Vosso “Santo” Celibato e, mais ainda, contra a Vossa “Santa” Castidade”
As meninas não foram expulsas, mas pouco tempo depois perdi minhas aulas de Direito.
Enfim, só para não nos esquecermos, a questão sexual nunca foi um problema judaico. Nunca houve, por exemplo, um Judeu, adulto, celibatário ou que tivesse algum problema com relação sexual. Ao contrário, houve sim, Judeus formados em Shir HaShirim (Cântico dos Cânticos de Salomão), expressão literária do amor pleno e do prazer entre duas pessoas.
Não houve qualquer celibatário, e sequer o conceito de celibato foi debatido entre Judeus, pois isso é estranho à cultura judaica, aliás, ofensivo às primeiras palavras-princípio (Mitzvot). Muito diversamente do que se pensa, e se ensina, ao longo dos séculos, o amor e as relações sexuais entre pessoas, foram expressões caracteristicamente judaicas.
Mesmo aqueles “grandes” Judeus, muitos dos quais, Mestres, a quem, falsamente, se atribui algum celibato (não foram celibatários!), tiveram relações amorosas e sexuais, ao menos com duas ou três pessoas!
A questão sexual apresentou-se como problema apenas depois de Agostinho e Constantino (e para o grupo acorrentado a Agostinho e a Constantino) e todas as variações medievais, modernas e contemporâneas, ligadas a Agostinho, Constantino, Lutero e tais. Mesmo assim, nada tem a ver com o Judaísmo, pois o Judaísmo nada tem a ver com Agostinho, Constantino, Lutero ou suas variações e variáveis. Definitivamente, não existe essa coisa de cultura “judaico-cristã” ou uma “moral” cristã de base judaica sobre a vida sexual, sexualidade e orientação sexual!