Estávamos em Sankt Gallen, Suiça, e precisávamos, naquele dia em especial, acender nossas Velas de Shabat, e nos alegrarmos um pouco uns com os outros. Vieram, àquele encontro de Shabat, algumas das crianças, algumas mulheres e alguns dos homens.

Não foi possível mais que alguns cânticos, algumas preces sem muita formalidade, um kidush com uma mesa italiana, mais propriamente napolitana, com vinho, doces, fritellas, muitas fritellas e, durante e ao final, um cuidadoso abraço. Disse-lhes:

Cuidem-se, amigos e amigas, cuidem-se na alma, no espírito, no corpo e nas relações interpessoais! Cuidem de seus sentimentos, emoções, sensibilidade, inclinações, músicas. Cuidem de seus estudos, criatividade, universidade, pesquisas. Cuidem de terem bons amigos e amigas, sejam bondosos, digam sempre uma palavra de estímulo, evitem e não entrem em lashon hará (língua para o mal), procurem viver em paz com seu ex-marido, com sua ex-esposa, com seu ex-patrão e seus familiares, em harmonia com os membros da sua Comunidade, amizade profunda com os seus alunos e professores, colegas de trabalho, com seus vizinhos, com seus funcionários domésticos, com os guardas do condomínio, com os guardas da cidade, com as autoridades (até onde for possível), com os comerciantes, com seus Rabinos, com sua filha e com seu filho…

Ecco! Alma-espírito-corpo e relações interpessociais! Não percam tempo com questões menores, assuntos rasteiros, observações infelizes, tratamentos melancólicos,  reclamações, vitimismos, “estórias” familiares, mau humor, críticas, pensamento fantasioso e contabilidade excessiva…

Caminhem leves e soltos! Avancem leves e soltos! Vivam leves e soltos! Estudem leves e soltos! Trabalhem leves e soltos! Sejam mãe, pai, filho, filha, irmão, irmã, colegas, leves e soltos! Sejam ex-mulher, ex-marido, desempregado, empregado, leves e soltos! Sejam estudantes leves e soltos! Comam, bebam, corram, leiam, respirem, sejam filhos, filhas, sejam irmãos, irmãs, sejam professores, professoras, alunos, trabalhadores, bancários, advogados, funcionários públicos, liberais, sejam amigos e amigas, LEVES E SOLTOS!

A vida passa em um piscar de olhos! Não há tempo para não viver. Não há tempo para não serem leves e soltos. E ajudem quem puder. Cada pessoa, cada mulher, cada homem, cada jovem, cada criança, cada ancião, cada aluno, cada professor, enfim, cada ser humano, é um mundo indevassável, desconhecido e impenetrável!

Cada um de nós tem suas experiências pessoais, suas frustrações, suas tristezas, seus desesperos e suas indecisões. Tudo isto é absolutamente normal e humano.

Devemos ser capazes de “atos de bondade”. Fazendo assim, criaremos brasas vivas, criaremos ambientes alegres e festivos, determinaremos uma amizade duradoura com nossos filhos e daremos a eles a impressão, a certeza e a consciência de que compensa ser homem, de que compensa ser mulher, enfim, de que compensa ser pessoa, de que compensa viver e ser feliz, leves e soltos!

O mais importante, queridos e queridas, não é apenas suplantar o deserto, como nossos pais fizeram entre o Egito e Canaã, mas, principalmente, não perder nossa humanidade, nossa capacidade de fazer o bem, nossa capacidade de honrar, de respeitar, de viver em companhia uns dos outros, de simplesmente não desejar o mal ao outro.

O mais importante é viver cultivando o jardim que está dentro de cada um de nós.

Shabat Shalom!

© Pietro Nardella-Dellova.

A MORTE DO POETA NOS PENHASCOS E OUTROS MONÓLOGOS. Editora Scortecci, 2009, pp 317 e segs