Por Jean Goldenbaum, Mauro Nadvorny, Michel Gherman, Milton Blay, Nelson Nisembaum e Pietro Nardella Dellova
Palestinos nos veem como inimigos, judeus de direita, que defendem incondicionalmente os governos israelenses conservadores, nos acusam de traição, e os nossos próprios irmãos de esquerda têm dificuldade em nos entender. Em nome do antissionismo, por vezes escorregam para o antissemitismo. E isso é o mais doloroso.
Dói ver grupos de um partido de esquerda queimarem a bandeira de Israel em nome do socialismo, um chargista comparar os palestinos aos judeus gazeados de Auschwitz, um colega jornalista escrever que não existe “solução para a crise no Oriente Médio que não inclua o fim do Estado de Israel”, a mídia progressista abrir espaço para pessoas que vomitam seu ódio aos judeus. Dói ver nossas lideranças condenando o bombardeio de Gaza por solidariedade aos familiares das vítimas palestinas, sem uma palavra sequer sobre as famílias israelenses, sobre o necessário reconhecimento de Israel e de uma paz justa, com dois Estados dentro de fronteiras seguras.
Somos judeus progressistas.
Nosso posicionamento é transparente, não hesitamos quando se trata de combater o presidente brasileiro e seus asseclas nazifascistas, de denunciar as consequências nefastas do neoliberalismo, de denunciar o extremismo de direita que se espalha pelo mundo, de defender a justiça social, a democracia e os direitos humanos. Não há discussão possível, somos límpidos e pensamos merecer ser tratados como tal. No entanto, a cada vez que o assunto é Israel, o olhar dos outros muda. De repente somos apontados, dedo acusatório em riste, por enxergarmos no conflito médio-oriental uma situação muito mais complexa do que a dicotomia fácil que coloca o carrasco, Israel, contra a vítima, palestinos, maus de um lado, bons do outro. Isto é maniqueísmo.
Não somos torcida uniformizada. Somos todos, ou quase, a favor de uma solução de dois Estados, vivendo lado a lado em paz e segurança, conforme o estabelecido pela ONU em 14 de maio de 1948, em sessão presidida por Osvaldo Aranha. Nenhum de nós quer o extermínio do povo palestino. Ao contrário, queremos ver os seus direitos a uma terra, a uma nação, reconhecidos.
Amos Oz, o escritor pacifista israelense, descreveu este processo como sendo um divórcio contencioso, penoso porém necessário.
É verdade que hoje a solução de dois Estados parece um sonho quase impossível, tanto assim que alguns defendem a criação de um Estado binacional. Na prática talvez ainda mais impossível. Na Cisjordânia vivem cerca de 430 mil colonos israelenses em 132 assentamentos. Mesmo assim, vale citar André Malraux, para quem em política só a utopia é verdadeiramente interessante. É ela que deve guiar nossas ações.
Essas colônias são ilegais pela lei internacional. Em pelo menos sete ocasiões, desde 1979, o Conselho de Segurança da ONU reafirmou que elas são “uma violação flagrante do direito internacional”.
Não é possível continuar indefinidamente como está.
Os judeus de esquerda militam pela paz, muitos fazem ou fizeram parte do movimento Paz Agora, pela coexistência, por um lar para uns e outros. Quando uma bomba explode num ônibus escolar israelense, choram as crianças mortas, da mesma forma como choram as crianças de Gaza, vítimas dos bombardeios de Tsahal. Para qualquer mãe a morte de um filho é uma perda irreparável, seja ela israelense ou palestina. A dor no peito é a mesma.
Nos meios progressistas, frequentemente Israel é chamado de Estado genocida. O que os governos israelenses efetivamente não são. Não se pode comparar o que acontece na região com o genocídio tutsi em Ruanda, o armênio pelos turcos, o de Samudaripe, no Camboja, o massacre de Srebrenica, o extermínio dos índios, nem sequer com as vítimas da “imunidade de rebanho” arquitetada pelo governo federal.
Israel não é um Estado genocida, mas isso não impede que seja um país colonizador de terras que não lhe pertencem pelo direito internacional, um pais expansionista, em nome de um pseudo destino bíblico .
Com Ariel Sharon, Israel deu o passo que faltava para privilegiar a segurança em detrimento da paz. As negociações foram quase abandonadas e a solução de dois Estados arquivada. Foram implantadas colônias populosas na Cisjordânia, para onde seguiram milhares de fundamentalistas religiosos e extremistas de direita, tornando impossível a imprescindível continuidade territorial palestina.
Israel é responsável e culpado. Sua atitude, indefensável. As colônias têm de cessar e as negociações precisam ser retomadas. Só que aqui entra uma questão fundamental: quem seriam os interlocutores ? Os palestinos estão divididos, o Fatah, que controla a Cisjordânia e a Autoridade Palestina, não dialoga com o Hamas, que tem o poder em Gaza. O Fatah reconhece o direito de Israel à existência, enquanto o Hamas, em seus estatutos, jura combater Israel até o seu desaparecimento do mapa. Do lado israelense, a população se acomodou com a situação relativamente estável, com conflitos episódicos que os sucessivos governos de direita consideram administráveis. É sintomático o fato ocorrido durante um recente confronto com o Hamas. Enquanto os aviões israelenses bombardeavam o prédio ocupado pela imprensa internacional, em Gaza, os habitantes de Tel Aviv estavam nas ruas festejando a vitória no concurso Eurovision, como se a população israelense estivesse vacinada contra a guerra.
Durante mais de dez anos, o status quo foi conveniente tanto para Ismael Haniyeh quanto para Benyamin Netanyahu e agora o é para Naftali Bennet (que tem se mostrado ainda mais à direita que seu predecessor).
Então surge alguém dizendo que se Israel é colonizador é porque seu lugar não é ali, no Oriente Médio. E assim entramos na intrigante questão do ovo e da galinha. Quem nasceu primeiro? Quem estava lá antes?
Os judeus foram expulsos daquela região? Sim, ali foi escrita parte da história de seu povo, fato que justifica amplamente o retorno e a decisão da comunidade internacional, de consciência pesada por ter fingido que não via o holocausto. Na Antiguidade Oriental (Oriente Médio), os hebreus, também chamados judeus ou israelitas, habitavam Canaã (território do atual Estado de Israel). As raízes do judaísmo estão ali, fincadas naquele solo. Isso ninguém pode negar.
No entanto, os palestinos ali estavam nos séculos XIX e XX, tendo sido expulsos de suas casas, de suas terras, famílias foram separadas, muitos tornaram-se refugiados. Originalmente, os palestinos se estabeleceram em uma área entre a Jordânia e o atual Estado de Israel. A dominação deste território, que no fim do século XIX contava com cerca de 500 mil habitantes, remete à crise do Império Otomano, que anteriormente controlava a região.
As colônias agrícolas de palestinos começaram a ser fundadas no ano de 1862.
Isso tampouco se pode negar.
Muitos judeus europeus, influenciados por pensadores do final do século XIX, começo do XX, pensaram em se assimilar, inspirados nos valores da Revolução Francesa, que pregava a igualdade de direitos para todos. Até mesmo o jovem Theodore Herzl (antes de se tornar o pai do sionismo político) chegou a defender a conversão ao cristianismo, antes de se dar conta, ao cobrir o caso do capitão Dreyfus, acusado de espionagem por ser judeu, que o antissemitismo não tinha sido abolido na “pátria” dos direitos humanos.
O jornalista israelense Ari Shavit, em Minha Terra Prometida, descreve magistralmente esse nó que está no cerne do conflito israelo-palestino. Os dois povos têm razão e, assim sendo, não há solução satisfatória. Por isso, as concessões precisam ser imensas, mexendo em sentimentos profundos de injustiça. Porém, assim deve ser.
Os palestinos sofrem ainda mais por verem seus ex-amigos árabes lhes virarem as costas. Hoje, os habitantes, sobretudo de Gaza, só podem contar com os apoios do Qatar e do Irã xiita, este interessado em se impor como líder regional em contraposição à Arábia Saudita wahabita. Teerã financia o Hezbollah, no Líbano, o Hamas e a Jihad Islâmica, movimentos armados que nunca aceitaram a partilha da região nem a existência de Israel.
A tragédia palestina também é político-religiosa, na medida em que o Hamas tentou impor a sharia, a lei islâmica estrita, em que meninas e meninos não podem frequentar as mesmas escolas, as mulheres não têm seus direitos nem sua segurança reconhecidos, são vítimas da violência doméstica, o desemprego entre as mulheres chega a 71 %, muitas meninas são obrigadas a se casar ao chegar à puberdade, homossexuais são presos.
Os moradores de Gaza são miseráveis, têm eletricidade duas horas por dia, o desemprego atinge metade da população, só 10 % têm acesso à água potável e, para piorar ainda mais, o Hamas acusa a Autoridade Palestina de se aliar à Israel e Egito no bloqueio à Faixa.
Muitas doações da União Europeia para obras de infraestrutura são desviadas para outros fins.
Israel é responsável pela situação em Gaza? Claro que é, mesmo se os seus soldados saíram de lá em 2005. Mas não é o único. Uma análise objetiva (na medida que isso é possível) deve responsabilizar todos os integrantes do puzzle, inclusive lideranças palestinas, algumas das quais acumularam fortunas de origem nem sempre transparente.
Israel é um país segregacionista? Sim, os árabes não têm os mesmos direitos dos judeus, mesmo se um partido árabe israelense, muçulmano, hoje faça parte da coalisão governamental. Há de se reconhecer que existe uma espécie de apartheid em Israel. Prova, como se necessário fosse, que Israel não é para amadores e não deva ser visto com olhos apaixonados da arquibancada de um Fla X Flu.
Somos judeus de esquerda. Talvez seja difícil para quem não o é entender por que Israel é fundamental para nós, e ainda por cima somos majoritariamente pouco religiosos, ateus ou agnósticos, cem por cento laicos (conceito diverso de ateu, e que significa dizer: somos a favor do Direito, e não da Religião, organizando a política e a estrutura do Estado, aliás, do Direito dando a todos, religiosos e irreligiosos, a faculdade de viver em pluralismo e diversidade), muitos casados com não judeus.
Israel é criticável e criticado. Porém, que o seja “só” por seus erros, que não são poucos.
Israel é o nosso seguro de vida. Estamos intimamente convencidos de que se Israel desaparecer, como querem os antissionistas, nós também desapareceremos, mais cedo ou mais tarde. Por quê? Porque sempre foi assim; a história nos ensina. Todos conhecem a Shoá e seus 6 milhões de judeus assassinados. O que alguns talvez não saibam – ou finjam não saber, é que a perseguição aos judeus é muito, muito anterior a Hitler. Historicamente, o judeu é o «outro», o bode expiatório, que deve ser discriminado, varrido do mapa.
Os judeus fazem questão de ter seu próprio país porque passaram milênios ameaçados de extermínio.
Israel não nasceu da necessidade de celebrar ser judeu, mas do direito de existir sem perseguição.
Nunca os judeus foram tão assimilados quanto no primeiro terço do século XX, na Alemanha; deu no que deu.
Somos ao todo 14 milhões de judeus, representando 0,2% da população mundial. O mínimo que se pode dizer é que o barulho é desproporcional ao que representamos. E isso tem nome: antissemitismo. Com certeza, cada um de nós tem histórias a contar sobre atos de discriminação sofridos durante a vida, relembrando que somos todos, sem exceção, filhos, netos, bisnetos de refugiados, de perseguidos, de expulsos.
Muitos migraram da Europa central e do leste para o Brasil, após a Primeira Guerra, vítimas dos pogroms na Europa.
“Meus avós”, conta o Blay, “migraram da Polônia e Bessarabia para o Brasil, após a Primeira Guerra, vítimas dos pogroms na Europa. Paula, minha avó, quase moribunda, num gesto de derradeira vontade fez questão de se naturalizar brasileira, pois não queria ir embora polonesa, como filha de um país antissemita. Uma de suas irmãs, que queria muito estudar, negou-se a partir de Cracóvia, obteve no mercado negro uma carteira de identidade como prostituta e assim pode prosseguir os estudos, o que lhe era negado como judia. Acabou morrendo em Auschwitz, a poucos quilômetros da escola, antes da existência de Israel.”
Casos como este pontuam a nossa história.
Nosso papel, como progressistas, é tentar restabelecer a verdade e a justiça. Sem concessões, reconhecer os direitos, deveres e sofrimentos de todos – judeus e muçulmanos, palestinos e israelenses. Sem exceção. Em nome de nossa integridade, temos o direito de ser reconhecidos dessa maneira, antes de mais nada pelos companheiros com quem dividimos valores e para quem a fístula do antissemitismo ainda é – infelizmente – um abcesso a ser extraído.
Questa Parashà (Esodo/Shemot XXI – XXIV) ci presenta, in sintesi, le linee fondamentali della legislazione sociale ebraica. Ho detto le linee fondamentali perché molti principi e molte leggi riguardanti i rapporti tra uomo ed uomo, tra l’ebreo ed il suo fratello o tra l’ebreo ed il nato fuori d’Israele, sono riprese e svolte ampiamente in altre parti della Torà. Non c’è forse capitolo della legge d’Israele, sul quale la Torà maggiormente insista, come quello che ha per oggetto i rapporti ed i legami di convivenza tra gli uomini e non poteva essere altrimenti.
La Torà è la legge di vita, è la legge di giustizia e di amore, è legge che predica e promuove l’amore e la giustizia tra gli uomini: nessun altro argomento quanto questo, poteva costituire il perno della Torà. Ne è riprova il fatto che questo corpo di legislazione sociale segue immediatamente la promulgazione dei Dieci Comandamenti, ai quali, anzi il testo biblico si ricollega.
Questa Parashà si apre infatti con le parole: “E queste sono le leggi che porrai d’innanzi a loro”. Osservano i nostri Maestri: “come le prime (cioè i Dieci Comandamenti) sono state promulgate dal Sinai così queste sono state promulgate dal Sinai”, la congiunzione (e) indica il nesso tra le due sezioni bibliche. La legislazione sullo schiavo apre la serie delle norme sociali d’Israele. Come mai? Una parte della vita sociale che nelle civiltà antiche e quelle classiche occupava l’ultimo rango nella scala dei valori qui è innalzata al primo posto. I nostri Maestri ne danno una sapiente e profonda spiegazione appoggiata ad un verso biblico. Parlando della scrittura delle tavole su cui sono scolpiti i Dieci Comandamenti, il sacro testo dice: “E la scrittura era la scrittura di Dio incisa sulle tavole” (Esodo XXXII – 15).
“Charuth ‘al ha-luchoth“, ma la parola ebraica “charut“ (incisa) può leggersi “cherut” che significa “libertà“; libertà dunque osservano i Maestri, era scritto sulle tavole, libertà è il principio dei Dieci Comandamenti, libertà è il postulato per l’adempimento della Torà. Quando, infatti, si tratta di stabilire il principio dello Shabbat, la Torà non solo vi comprende lo schiavo, ma giustifica quella fondamentale istituzione col ricordo della schiavitù egiziana, affinché l’ebreo ritornando col pensiero alla semplicità della sua natura umana, senta più da vicino Dio, così come lo sentirono gli antichi padri durante il servaggio in Egitto e la successiva liberazione. Ma come l’ebreo libero, così anche lo schiavo che, al pari di lui, è sostanzialmente libero, deve celebrare lo Shabbat, perché lo Shabbat è appunto il giorno della libertà dello spirito. Questo spiega perché la nostra Parashà cominci col trattare delle leggi relative allo schiavo.
Del resto, se noi scorrendo la Parashà, nella varietà e molteplicità degli argomenti in essa trattati, ne trascegliamo alcuni tra i più salienti, non tarderemo ad accorgerci come gli esseri che, al pari degli schiavi, possono essere ritenuti più indifesi ed i più deboli nella scala sociale, sono quelli a cui la Torà volge le sue cure e dei quali raccomanda massimamente la protezione. Questi esseri sono i poveri, gli orfani, le vedove, sono anche gli stranieri che la Torà vuole siano parimenti protetti ed amati.
Quando noi leggiamo certi passi della Torà che si riferiscono a queste categorie di persone, noi avvertiamo un senso di commozione: vi sono in quei passi delle sfumature del sentimento che, appunto perché tali, sembra strano incontrare in un codice di leggi. “Se avrai preso in pegno la coperta del tuo compagno, prima del tramonto gliela restituirai, ché essa forse, è la sola coperta per il suo corpo: con che si coprirà? e se egli esclamasse a Me, Io l’ascolterei, perché clemente Io sono“(Es. XXII, 25-26).
Nessuna legislazione antica o moderna è arrivata a far vibrare così le corde della pietà e del sentimento, nessuna legislazione ha eretto la carità o l’amore verso il prossimo a principio di legge o di vita, nessuna raccomanda di non portare odio o rancore al prossimo o al nemico, di rispettarne la proprietà e in certi casi di aiutarlo; nessuna proclama il rispetto e la protezione dell’orfano e dello straniero e di tutti quelli che sono rimasti senza legge e senza protezione.
Che se v’ha una legislazione o una dottrina, una religione o una fede che ripetano questi principi e questi divini comandi, che parlino così al cuore degli uomini, esse non possono che ispirarsi alla Torà d’Israele, a quella Torà che come ha dato i Dieci Comandamenti agli uomini, così agli uomini ha tracciato per sempre i solchi dell’amore e della giustizia, di quell’amore e di quella giustizia, che ancora attendono di essere realizzate nella convivenza umana.
Rav Riccardo Pacifici z”l – Discorsi sulla Torà
LA LEGGE SOCIALE DI ISRAELE http://www.archivio-torah.it/ebooks/discorsiRP/RP18.htm
Estávamos em Sankt Gallen, Suiça, e precisávamos, naquele dia em especial, acender nossas Velas de Shabat, e nos alegrarmos um pouco uns com os outros. Vieram, àquele encontro de Shabat, algumas das crianças, algumas mulheres e alguns dos homens.
Não foi possível mais que alguns cânticos, algumas preces sem muita formalidade, um kidush com uma mesa italiana, mais propriamente napolitana, com vinho, doces, fritellas, muitas fritellas e, durante e ao final, um cuidadoso abraço. Disse-lhes:
Cuidem-se, amigos e amigas, cuidem-se na alma, no espírito, no corpo e nas relações interpessoais! Cuidem de seus sentimentos, emoções, sensibilidade, inclinações, músicas. Cuidem de seus estudos, criatividade, universidade, pesquisas. Cuidem de terem bons amigos e amigas, sejam bondosos, digam sempre uma palavra de estímulo, evitem e não entrem em lashon hará (língua para o mal), procurem viver em paz com seu ex-marido, com sua ex-esposa, com seu ex-patrão e seus familiares, em harmonia com os membros da sua Comunidade, amizade profunda com os seus alunos e professores, colegas de trabalho, com seus vizinhos, com seus funcionários domésticos, com os guardas do condomínio, com os guardas da cidade, com as autoridades (até onde for possível), com os comerciantes, com seus Rabinos, com sua filha e com seu filho…
Ecco! Alma-espírito-corpo e relações interpessociais! Não percam tempo com questões menores, assuntos rasteiros, observações infelizes, tratamentos melancólicos, reclamações, vitimismos, “estórias” familiares, mau humor, críticas, pensamento fantasioso e contabilidade excessiva…
Caminhem leves e soltos! Avancem leves e soltos! Vivam leves e soltos! Estudem leves e soltos! Trabalhem leves e soltos! Sejam mãe, pai, filho, filha, irmão, irmã, colegas, leves e soltos! Sejam ex-mulher, ex-marido, desempregado, empregado, leves e soltos! Sejam estudantes leves e soltos! Comam, bebam, corram, leiam, respirem, sejam filhos, filhas, sejam irmãos, irmãs, sejam professores, professoras, alunos, trabalhadores, bancários, advogados, funcionários públicos, liberais, sejam amigos e amigas, LEVES E SOLTOS!
A vida passa em um piscar de olhos! Não há tempo para não viver. Não há tempo para não serem leves e soltos. E ajudem quem puder. Cada pessoa, cada mulher, cada homem, cada jovem, cada criança, cada ancião, cada aluno, cada professor, enfim, cada ser humano, é um mundo indevassável, desconhecido e impenetrável!
Cada um de nós tem suas experiências pessoais, suas frustrações, suas tristezas, seus desesperos e suas indecisões. Tudo isto é absolutamente normal e humano.
Devemos ser capazes de “atos de bondade”. Fazendo assim, criaremos brasas vivas, criaremos ambientes alegres e festivos, determinaremos uma amizade duradoura com nossos filhos e daremos a eles a impressão, a certeza e a consciência de que compensa ser homem, de que compensa ser mulher, enfim, de que compensa ser pessoa, de que compensa viver e ser feliz, leves e soltos!
O mais importante, queridos e queridas, não é apenas suplantar o deserto, como nossos pais fizeram entre o Egito e Canaã, mas, principalmente, não perder nossa humanidade, nossa capacidade de fazer o bem, nossa capacidade de honrar, de respeitar, de viver em companhia uns dos outros, de simplesmente não desejar o mal ao outro.
O mais importante é viver cultivando o jardim que está dentro de cada um de nós.
Deixei meu filho na Piccola Caffetteria, comendo seu tramezzino, e fui para o Quartiere Ebraico, bem atrás do Castello Baronale, com todas as saudades atemporais da Sinagoga Scuola, a que os locais chamam, amedrontados, Casa Degli Spiriti. Chamam-na assim porque muitas atrocidades ocorreram contra os ebrei, como são chamados os Judeus italianos. Houve muita perseguição e morte, dentro e fora da Sinagoga, com requintes de brutalidade. Ouve-se que algumas crianças foram mortas sobre a Bimá, a mesa sobre a qual se coloca o Rolo da Torá nos serviços religiosos judaicos.
Sou
homem
de marcas do tempo, que nas mãos desenha
cicatrizes do labor…
no peito um constante brado de liberdade
ecoa infinitamente peito e na alma
amontoado calor de brasas destas almas vividas.
nos pés as asas me levam a quaisquer lugares, e céus,
e universos, e mares…
Por isso mesmo, os moradores dali dizem ouvir vozes, e sombras se movimentando, pelas pequenas janelas do prédio. Dizem que as pedras das paredes da Sinagoga ficam respingando o sangue das vidas que ali foram assassinadas e que, agora, buscam vingança contra seus opressores e descendentes.
Ao chegar naquele pátio da Via Olmo Perino, diante do prédio da antiga Sinagoga, fui tomado por um sentimento de dor, mas, igualmente, de esperança e gratidão. Cheguei-me à antiga porta de madeira, fechada, e estendi minha mão, como que acariciando as marcas de uma antiga mezuzá, ou agradecendo, ou, simplesmente, testemunhando alguma vida em mim, e ao encostar minha mão na porta, fui tomado por pensamentos e sentimentos que vêm de longe, de muito longe, e que me levam longe, para o muito longe…
Choramos e esperamos, nesta triste Galut, um tempo de paz em que possamos simplesmente viver. Ali, no Quartiere Ebraico, diante da velha Sinagoga, desta minha curiosa Casa Degli Spiriti, caminhamos e brincamos tantas vezes no pequeno pátio, então florido, onde vivemos por séculos, meus olhos se enchem de luz e esperança. Também ouço vozes, mas de outra natureza.
Estava quieto diante da porta fechada da Sinagoga. Às minhas costas, exatamente atrás, para cá e além do Castelo, ficam as três Igrejas Católicas, Santa Maria Assunta, San Pietro e San Francesco. Mais distante, do outro lado da cidade, à minha esquerda, para além da Via Appia, ficam duas Chiese Evangeliche, e à minha direita, há moradias de um grupo de muçulmanos que atuam na exploração de serviços telefônicos internacionais.
E eu, parado ali, senti um calor invadir meu peito. É impossível não chorar, porque ouvi o clamor das vozes de centenas de Judeus e Judias, levados e mortos, pelos religiosos de fora, pela sua “santa” inquisição, pelos fascistas, nazistas e outros canalhas, perversos, injustos. E ouvi, também, os sinos badalando incessantemente, ouvi alguma gritaria conjunta de Igrejas evangélicas, e ouvi vozes ininteligíveis islâmicas. Mas, do silêncio estranhamente respeitoso da velha Sinagoga, ouvi, também, a voz inconfundível da esperança em Mashiach:
… o Espírito de HaShem está sobre mim,
porque Ele me ungiu, para pregar aos mansos e revigorá-los:
enviou-me a restaurar os chorosos de coração,
a proclamar liberdade aos escravizados,
e a abertura de prisão aos presos…
Porque andamos perdidos nas sombras de tantos séculos, sem direção nem contentamento, e o sentido de Mashiach tornou-se um peso milenar e o talhe do teu reino mal pode ser reconhecido. Nos últimos dois milênios fizeram-no com mil faces e, em mil lugares e, sendo tantas, ninguém a conhece. Nem podem esperar e nem podem ouvir esta voz.
Mas, alguns esperam Mashiach e acreditam que o avistarão sobre os montes de Israel, com os seus pés em movimento, ensinando a renovação do Conhecimento e o Retorno a um tempo em que Poetas eram reis em Jerusalém. Rei-Poeta, e Poeta que ensinará algo de mais profundo sobre a Face do Eterno. São aspectos de Mashiach que me encantam e me fazem, em determinada medida, ouvir sua voz. Mas, espero, também, que as vozes das vidas retidas nas paredes desta minha Sinagoga sejam liberadas com atos de justiça! A voz de Mashiach fará ouvir a paz, e anunciará o bem, fará ouvir a plenitude e que dirá a Sião:
O Eternoreina! … celebra as tuas festas e cumpre os teus votos…
E ele será, então, finalmente, a imagem e a semelhança do Eterno, e nele serão soprados os Sete Espíritos do Eterno. E, com ele, o Reino será ligado à Coroa… Malchut à Keter!
Quando ele nascer (e os profetas e sábios Judeus disseram que nascerá!), o Eterno se alegrará de sua Justiça, de sua Mansidão, de seu Conhecimento de Torá, de seu Cântico e de seu Hallel, e nele as obras da “criação” serão finalmente terminadas. Sob seu Reino os homens encontrarão as fontes de conhecimento, de sabedoria e de inteligência e não haverá fome sobre a terra, nem terror, nem injustiças. O cego não errará o caminho e o surdo não será privado de entendimento, e ninguém será enganado, pois ele ensinará o equilíbrio e como suplantar a árvore do aprofundamento do bem e do mal, como vencer as inclinações para o bem e para o mal e, assim, levará ao caminho de volta à árvore da vida, e apontará a Coragem e a Força!
Então, HaShem, finalmente, ficará satisfeito e ouviremos a sua voz plena de alegria (e de bereshit) ecoando pelo espaço: … é muito bom…
Mas, por agora, ninguém conhece o seu perfume, os seus olhos, as suas mãos, os seus cabelos, a sua barba, o seu caminhar, o seu partir do pão e o seu intenso vinho.
Ninguém sabe como será aquela mulher que ele amará nem como serão seus filhos, porque ele trará em si os olhos e a música de David, e a Poesia e juízos de Sh’lomò, de cuja descendência nascerá. Ninguém viu, ainda, o seu sorriso, o seu modo de abençoar, o seu cântico, a sua amizade, a sua presença, o seu sangue, o seu espírito e, não obstante, ele é o desejado de todas as nações. Porque todos os homens e mulheres desejam um tempo de plena paz e descanso!
como pastor apascentará o seu rebanho; entre os seus braços recolherá os cordeirinhos, e os levará no seu regaço: as que amamentam ele guiará mansamente…
Mas, por que ainda não o conhecem antecipadamente? Porque veem mal, com os olhos obscurecidos de religião, de teologias e de intrigas medievais. Veem com más intenções, e por isso não enxergam; não ouvem e não escutam. Ouvem mal, conforme as conveniências e, se o encontrassem não lhe reconheceriam.
Provavelmente, o desprezariam porque não seria grego ou romano, não seria russo nem alemão. Desprezariam porque ele seria um Judeu – o melhor dos Judeus! Desprezariam porque ele não nasceria em um calendário gregoriano nem daria início a um novo calendário, como querem os homens platônico-aristotélicos, nem seria um Judeu nascido em terra estranha, como querem algumas escolas e grupos. Desprezariam Mashiach porque ele teria em um dos braços, a Torá, e no outro, os Nevi’im e o Shir HaShirim. De um lado, acompanha-lo-ia Moshè rabenu, e do outro, os Profetas e Poetas. Desprezariam Mashiach porque o seu coração é uma força nos Tehilim, e sua alma será formada nas deliciosas Festas Judaicas e nas Canções que enchem nossas vidas de contentamento.
E somente aquele que ouvisse, repetidas vezes, o seu pai declamando delicadamente os versos dos Cânticos de Sh’lomo para sua terna esposa; e ouvisse, também, a voz e a força dos Provérbios e da Meguilat Ester, quando estivesse junto com seus irmãos, ao redor de uma mesa, iluminada pelas chamas de um duplo candelabro, e perfumada pela delícia de Chalôt, somente assim poderia saber como será o Mashiach.
Os outros o desprezariam e o odiariam porque na sua boca e no seu coração os Ensinamentos jamais seriam uma nova religião (e sequer uma religião!), mas a luz, a renovação, o azeite, o ser humano pleno que nos falta – a perfeita leitura e interpretação da vontade do Eterno: amor-amar, superando as faces do bem e do mal, com o fogo da Ruach HaElohim!
façamos o homem à nossa imagem e semelhança
Os homens maus, poderosos, senhores do império de ouro, prata, ferro e barro, mataram milhares de crianças judias pelos milênios, esperando que Mashiach fosse morto – e continuam matando e comendo a carne de seus filhos, com seus votos ao vento.
No grito
do meu silêncio
e na angústia da minha alma: choro por ti!
e com todos os ressentimentos,
e com todas as frustrações,
e com todas as cadeias eloquentes…
e no reclamar de uma barriga vazia;
e no caminhar de um velho pelos longos anos,
e estas desgraças e torturas de coturnos pesados:
a liberdade nem é conhecida, nem existe…
na calada da madrugada… seguro os livros, trêmulo,
ler é perigoso!
no calabouço da miséria, em profundezas infernais,
em noites melancólicas e noites alvoroçadas,
e noites de vasta maldição, quero gritar e tapam minha boca!
a estrela da manhã me aguarda, a lua me contempla!
o espaço quer rir: conhece o passado – e o futuro?
mas eu estou vivo agora…
a casa de famintos não tem alegrias,
no olhar desnutrido de uma criança…
e na literatura, e na história, e na presente existência,
a caneta e palavras – palavreados, discursos vazios
e meus sonhos poéticos.
E hoje, vestidos de Babilônia, de Roma e Edon, culpam-nos por uma cruz forjada na mentira e na ignorância dos ecos do Coliseu e insistem que devemos morrer por ela, e por causa dela. Em dois mil anos de necrofagia que não termina, num discurso de morte que não termina, numa procissão mórbida que não termina, em cruzadas genocidas que não terminam, em inquisições necrófilo-religiosas que não terminam, em holocaustos que não terminam, em bombas que não se calam – embriagados do nosso sangue, exigem que nos dobremos diante dos seus deuses gregos e romanos, e dos seus profetas orientais tresloucados, bem como de seus missionários de perdição! Exigem que ouçamos seus pregadores delinquentes e nos dão o fel da exclusão social!
E as filhas, orientais e ocidentais, desta absurdidade religiosa, vendem a ilusão in memoriam (aos pedacinhos) nas praças, nos salões alugados, nos templos de isopor, nos canais de rádio e televisão mal adquiridos, nos campos de futebol, nas capelas, nas basílicas, nas igrejas, nos terreiros, nos centros, nas encruzilhadas, nos sagrados Shopping Centers, nas Bolsas de Valores, nos chaveiros, nas lojas, nas Torres Gêmeas, nas peregrinações, na estampa maledetta do dinheiro, nos porta-aviões, nos discursos vazios, nas lojas de hambúrgueres, nas árvores, nas bolinhas de natal, nas ceias de natal e no frango assado de natal e nos dias de dezembro. Aliás, dezembro e novembro inteiros, porque os pedacinhos da ilusão devem mover o comércio!
Ah, esse Mashiach! Se os homens o encontrassem em quaisquer lugares, certamente o desprezariam, porque não nasceria em dezembro! Porque será do sangue hebreu de Abraham, Itzchak e Ya’akov, e porque seria instruído/instruindo por Moshè rabenu, e porque é o coração e o gemido de Yehoshua, dos Shoftim, dos Melajim, de David, de Sh’lomò, de Yeshayahu, de Yirmiahu, de Yejezkel, de Daniyel, de Hoshea, de Yoel, de Amós, de Ovadiá, de Yoná, de Mijá, de Najum, de Javacuc, de Tz’faniá, de Jagai, de Zejariá, de Malají e de todos os Judeus de todos os tempos. Porque é a ideia de plenitude. Será ele a perfeita harmonia entre Criação e Creador (não Criador), porque chora desde sempre, com gemidos de quem quer estar em Jerusalém – e ninguém pode amá-lo, deseja-lo ou compreendê-lo, se antes não souber amar Jerusalém, o Beit HaMikdash e a Torá!
Ah, esse Mashiach, meu irmão, jamais poderia ter nascido de Atenas, em meio às festas e bacanais, porque não é filósofo: é a própria Sabedoria. Jamais poderia ter nascido de Roma ou de suas Províncias, em meio aos festins e orgias, porque não é jurista: é a própria Justiça.
Somente poderá nascer em Judá, em meio às Festas judaicas de Pessach e Shavuot, Yom Kipur e Sucot, e na alegria de um Shabat, porque ele é, e esperamos dele, o Shalom!
Acordei
e o verso continua
a Poesia nua e despretensiosa
(parece-me vitoriosa em qualquer espaço),
um laço em que estou preso, e teso, e absorto, e levado,
e condenado a este verso intenso,
escravo de um amor imenso e feliz
que não quis fosse assim entre mim e ela,
mas, nem bela a criei, encontrei, apenas, vagando sozinha,
não era minha e de ninguém, também não me fiz
poeta por vontade
(somos metades que se completam)
corpos que despertam emoção e carinho,
e somos o vinho que embriaga!
e este verso que a afaga espontâneo, assaz momentâneo,
sem critério nem espanto, é o canto que me persegue
e se ergue, austero, em qualquer instante e, triunfante,
este verso continua…
E, então, voando nos meus pensamentos, olhei ao lado da porta da antiga Sinagoga, e vi uma pedra, uma pequena pedra. Tomei-a e a depositei-a no chão na frente da porta, em memória das centenas de vidas judias que tombaram diante do furor bestial eclesiástico, nazista e fascista, durante os séculos naquele Ghetto, cujo sangue e cultura homenageiam cada uma das linhas da Torá, e das vozes… As vozes judias que teimam em não calar pelos séculos e séculos até que possam estar em algum lugar com suas famílias, Tradições, Festas e seu Mashiach! Até que possam estar com seu D’us!
Em certa ocasião, conheci Patrícia, – judia do Rio de Janeiro. Eu estava de passagem por São Paulo. Ambos tínhamos os olhos (e o coração) voltados para Israel, e caminhamos pela noite, quase de mãos dadas, relembrando a história de um povo que insiste em viver, e insiste em não morrer! Sua filha chama-se Havá (Chavah), pois tem a ver com vida, especialmente com a geração da vida. Daí traduzir-se Havá como mãe da vida. E é nesse sentido que colocou o nome nela. Afinal, nada no mundo judaico é ao acaso e, ao escolher o nome quis indicar-lhe uma direção e um sentido.
Deixei o vinho na taça e discorri sobre o fio feminino judaico que vai tecendo a vida e a experiência judaicas. Já era bem tarde, eu lhe disse coisas sobre a Torá e sobre o Judaísmo.
O tesouro começa nas Dez Palavras! O início da nossa liberdade e das responsabilidades… Responsabilidade anda de mãos dadas com liberdade, principalmente, para os judeus de todos os tempos. As Dez Palavras, sulcadas nas Luchot HaBrit (Pedras da Aliança), fundamentam todas as outras 603 Mitzvôt (Palavras-Princípio). São 613 Mitzvôt que funcionam como material de construção!
Atualmente, não é possível cumprir todas, mesmo em Israel, considerando que muitas dependem do Beit HaMikdash (o Templo). Outras dependem de um Rei, Mashiach! A integridade das Mitzvôt e de seu cumprimento apenas seria possível se todos os “atores” estivessem presentes: mulheres, crianças, Mashiach, Sacerdotes e, logicamente, isso só será possível no distante tempo de Mashiach.
As Mitzvôt são partes integrantes da Torá, mas não são a Torá! Esta, o todo; aquela, a parte. Nós, judeus, existimos por causa da Torá! E um dos aspectos fundamentais da Torá é o elemento feminino, desde o processo de Criação. Principalmente, quando revisitamos as Matriarcas. Elas foram determinantes para a formação de Israel. Veja-se o caso dramático de Rivkah, tendo que orientar seu filho, Ya’akov, a assumir a bênção que era, do ponto de vista legal, de Esav. Este havia causado profundo sofrimento a Itzchak e à própria Rivkah.
Ela teve que decidir porque existem estágios em que uma pessoa se encontra em decadência mórbida – sem condições de retornar a um ponto. Eis o caso de Esav!
Quando Sarah determinou que Ishmael fosse embora, apesar de causar dor em Avraham, estava vendo algo que ele não poderia ver naquele momento, pois o excessivo amor de pai (na velhice) fazia dele um incauto em relação ao comportamento de Ishmael. Avraham amava os dois, mas, Ishmael já tinha com ele 13 anos de experiência…, então, o amor de Avraham o tornava cego naquele momento, por isso entra Sarah para definir a história judaica. Ishmael tinha educação mais egípcia, dada pela sua mãeHagar, que não tinha nenhum compromisso necessário com o povo hebreu. Hagar olhava a riqueza e o status de Avraham, enquanto Sarah havia recebido os discípulos de Shem, o melk tzdek (rei de justiça), o filho de Noach. Então, sabia mais por conta da instrução que recebera de Shem. Ele era o grande Mestre daquele tempo, e havia instruído Avraham, mas, em particular, instruiu Sarah, por isso mesmo ela conhecia o futuro de Avraham. Veio de Sarah (e não de Avraham) a educação de Ytzchak.
O papel da judia é determinante, mas, sempre foi o pai a determinar o grau de judeidade, haja vista, pronunciarmos sempre “O D’us de Avraham, Ytzchak e Ya’akov”, e sabermos, também, que tal o grau de judeidade, tal o apego à Torá! Historicamente, judeus são os “b’nei Yisrael”, é inegável que a educação e formação são incumbências da mulher. Uma formação na Torá e em suas Mitzvôt e nas Festas Judaicas.
A Torá, as Mitzvôt, as Festas Judaicas, Israel (povo e terra),Jerusalém, os Profetas, o Talmud, entre outros conhecimentos, cultura e direitos judaicos, não podem ser negociados em nenhum tempo, pois, tudo é “perpétuo”. Não podendo cumprir as Mitzvôt (as que não podem ser cumpridas) já seria motivo de lamento… e é o que fazemos diante do Kotel, pois atrasamos, com isso, a nossa própria construção. E nisso mesmo orientamos nossos filhos e filhas, desde cedo, dando a eles a oportunidade de vivenciarem o ciclo da vida judaica, em todos os sentidos e na plenitude. Não há escolha nesse sentido, pois Judaísmo é o nosso modo de viver, o nosso Ethos e não alguma coisa em que devamos acreditar. Não podemos esperar o filho crescer para lhe perguntar se quer, ou não, ser filho, se nos quer, ou não, como pais. Mas, após o Bar Mitzvá ou Bat Mitzvá temos a liberdade e responsabilidade para escolher. Aos pais, cabe a responsabilidade de conduzir os filhos até a Bima, neste singular momento em que se tornam filho ou filha da Mitzvá!
Sarah, Rivká, Rahel e Leah, as queridas matriarcas, ensinaram seus filhos. Mirian ensinou o seu irmão Moshè durante boa parte da vida deste. Tziporá também ensinou Moshè (e era esposa dele!) e o que ela ensinou é referente ao Brit Milá de seu filho mais velho, aliás, o ensinamento de Tziporá livrou Moshè da morte, conforme narrativa da Torá, dentro daquela caverna onde se encontravam a caminho do Egito com um filho incircunciso, como se seu filho fosse uma possessão egípcia, um servo egípcio.
Bem antes de Moshè nascer, as parteiras judias (hebreias) já determinavam a plenitude da vida nas crianças, livrando-as das mãos dos assassinos de Faraó. No caso de Moshè e Tziporá tudo indica que ela (e não ele) conhecia a Mitzvá da circuncisão. Aliás, Moshé conhecia pouca coisa sobre a tradição judaica (ou hebraica).
O ensinamento da Torá, nos dias de hoje, passa por um dogmatismo inexplicável. Eles, os homens que se arrogam o posto de Mestres, ensinam a Torá no campo formal, mas elas, as mulheres, no campo substancial da alma humana. Aqueles, a forma; estas, o conteúdo. É como Poiema e Poiesis ou, ainda, corpo e alma. A Torá é um grande Poema do qual as mulheres e os poetas puderam, ao longo dos séculos, compreender a Poesia. E, desde sempre, mas, principalmente à época das matriarcas, as mulheres tiveram um papel determinante. Quando, por exemplo, Ya’akov esteve em dificuldade diante de Laban, seu sogro, que o oprimia e descumpria os contratos de trabalho (ou arrendamento), não foi a inteligência de nosso patriarca, mas a ação centrada e efetiva, de Leah e Rahel, enfraquecendo Laban naquilo em ele se sentia forte – a idolatria! Elas compreenderam que sua energia era idolátrica, então, tiraram-lhe as estatuetas, fragilizando-o sobremaneira.
Morreu Rahel pouco tempo depois, em seu segundo parto. Mas, teve tempo, ainda, de indicar o nome de seu filho, Benoni, ou filho da minha dor. Mas, após seu desaparecimento, o patriarca Ya’akov, igualmente movido por um amor profundo e delicado por Rahel, trocou o nome da criança, para ser chamada de Benjamim, ou expressivamente, filho da minha mão direita. Na troca do nome da criança, Ya’akov deixou publicado o que sentia por sua esposa Rahel, e continuou amando-a de forma intensa, na pessoa de seu filho Benjamim e, também, na de outro filho, Yosef! No episódio da troca do nome do filho, de Benoni para Benjamim, uma maravilhosa declaração de amor por Rahel, mas, o amor deve andar com mãos dadas à sabedoria, caso contrário é como um formidável cavalo solto. Um amor que custou, ou ao menos, propiciou, a experiência de servidão no Egito.
A direção dada ao amor de Ya’akov foi perigosa. Pois, ele continuou amando Rahel, na pessoa de dois de seus filhos. Ninguém deveria amar uma mulher na pessoa dos filhos e, neste caso, seu amor de pai por Benjamim e Yosef confundiu-se com o amor de esposo por Rahel. Principalmente, em relação a Yosef, o filho mais velho (com Rahel), a quem passou a proteger e a presentear com mimos variados. As vistas ficaram nebulosas em relação ao filho Yosef, e o mesmo, jovem demais, aproveitou-se deste encantamento e fixação de seu pai por si, e provocava diuturnamente seus irmãos, fazendo lashon hará (língua para o mal) contra os mesmos, desfilando, de forma soberba, com a túnica recebida de seu pai como presente e, por isso mesmo, despertando ódios e mágoas profundas (desejo mimético) em seus irmãos. Conduta que acabou por definir seu destino e a desagregação, cujo resultado último foi mesmo a escravização ao sistema egípcio.
O excesso de vaidade leva à coisificação. Yosef, então, passou a ser visto, diante de seus irmãos, como uma coisa. E como coisa, foi vendido aos ismaelitas (mercadores do deserto) que, por sua vez, o vendeu a senhores proprietários no Egito, sendo condenado, por derradeiro, a ficar longe de seu pai. O patriarca Ya’akov sofreu duas vezes – a perda de Rahel e, depois, a notícia (ainda que falsa) da morte de Yosef. Foi sua dor durante dezessete anos, o tempo desperdiçado de possíveis relações construtivas com seu filho – e pela dor extrema, em relação aos outros onze filhos homens e uma filha. Tempo desperdiçado, mas necessário, para o amadurecimento de Ya’akov, de Yosef e de todos os seus irmãos.
Bom seria não houvesse a distância, pois em que pese os flagrantes processos de crescimento, é indiscutível, por outro lado, a falta da convivência.
Nosso patriarca Ytzchak tinha uma natureza pacata, um homem modesto. Não era um homem de guerra, ou de lutas, como foi Avraham, seu pai. Por isso mesmo, projetou em seu filho Esav (o caçador, homem de guerra) a maior atenção e amor, enquanto Ya’akov era um Ish Tam, ou seja, um homem de estudo. Mas, Esav (e não Ya’akov) era a sensação para seu pai, Ytzchak. Daí que outra mulher, maravilhosamente sábia, justa e ponderada, Rivká, esposa de Ytzchak e mãe de Esav e Ya’akov, decidiu-se favorecer este em detrimento daquele. Pois, enquanto Ya’akov dedicava-se aos estudos, sob orientação de Shem, o seu irmão Esav perdia-se em sua performance de caçador.
Esav tomou mulheres canaanitas idólatras, que prestavam cultos orgiásticos aos deuses daquela região. Um dos cultos dali foi referência ao estabelecimento de uma das Mitzvôt, a saber, não cozinhar carne no leite e não misturar leite e seus derivados com carne, e seus derivados, porque aquelas mulheres canaanitas, em face de seus estranhos cultos e orgias, cozinhavam a carne no leite e, depois, aspergia sobre as plantações. Alguns grupos, também sacrificavam seus filhos a Moloch, um dos deuses de Canaã, lançando-os ao fogo. Elas queimavam seus filhos, lançando sobre eles (ou com eles) o leite que tiravam de suas próprias mamas, objetivando alcançar favores divinos de renovação. Esta é uma das razões pelas quais se tornou uma proibição, tanto cozinhar a carne no leite, quanto a mistura de carne e leite (e seus respectivos derivados).
Esav, o filho de Ytzchak, participava desses cultos, ganhando o desprezo de sua mãe, a matriarca Rivká, ao ponto de dar a ela a legitimidade de envolver o marido em um teatro, cujo objetivo maior era a transferência da bênção (legal, de primogênito) de Esav para Ya’akov. O pai estava com os olhos meio enceguecidos em relação a Esav, pois havia uma relação de projeção – mas, não em relação à Rivká.
É um engano dizer que o pai tenha sido enganado, tanto pelo filho, quanto pela esposa. Não foi. O caminho da bênção sobre Esav seria desastroso. Ya’akov mereceu receber a bênção, ainda que lhe tenha custado o ódio do irmão e consequente fuga para outras regiões, onde conheceria a opressão e mercenarismo (de exploração) de seu sogro Laban. E ele, Laban, apesar de ser irmão de Rivká, herdou tudo o que não prestava de uma família abandonada, anos antes, por Avraham – ou seja, a idolatria, o mercenarismo e a leviandade. Por isso mesmo, enganou Ya’akov tanto quando pode, mas não muito, tendo em vista que este patriarca tinha determinados conhecimentos, frutos de uma chamada, então, Torá Oral, cujo aprendizado ele desenvolveu com Shem – melk tzdek (rei de justiça) com aplicação horizontal.
Do mesmo lugar saiu, anos antes, Lot com Avraham. Lot foi aquele mesmo que afrontou seu tio (quase pai), abandonando um processo de formação. Desceu para Sodoma, onde manteve residência e vida sociocultural e terminou seus dias, então em uma caverna, em prática de incesto! Na oportunidade em que afrontou Avraham, ele escolheu para si o vale do Jordão com seu verde e vigor visual, deixando para o patriarca o Negev, deserto acinzentado! E, neste sentido, cometeu algumas transgressões, sendo a primeira dela escolher qualquer coisa em flagrante desrespeito a seu tio e tutor. A segunda, não bastasse a arrogância, foi a de escolher, de forma iníqua, o melhor para si! Atitudes que apenas fizeram por definir seu destino ou, ainda, os desdobramentos sobre sua própria vida. Afinal, nossa vida é um constante entrelaçamento de situações causa-efeito.
A escolha de Lot já seria por si só uma afronta. Escolher o melhor para si fez com que perdesse todas as boas forças sobre sua cabeça. Refiro-me às energias boas que ficam sobre (e em torno) dos que praticam atos de bondade. Por isso mesmo, a situação de Lot em Sodoma foi apenas efeito de um estado de decadência que começou no exato momento em que ele vê aquele Vale do Jordão e, egoisticamente, deseja-o somente para si.
Daí que em Sodoma, Lot e sua família vão sendo, cada vez mais, parte de toda perversão e injustiças que por ali se praticavam, dando Sodoma como base da educação de suas filhas (não tem a ver com homossexualidade, mas com perversidade). Situação que só piorou com a chegada dos emissários da Escola de Shem, indevidamente tidos como “anjos” em uma concepção medieval e, também, mais moderna. Lembrando que, a concepção moderna de anjos, como “moradores do céu” é advinda da cultura persa, grega, romana e, para depois, da teologia católica e cristã, com maior ênfase entre adeptos do pentecostalismo e neopentecostalismo (em todas as suas facetas, inclusive, considerando aí os carismáticos)
Ao contrário, aqueles homens – e eram homens, tinham um profundo conhecimento de uma certa Torá Oral, por intermédio de Shem, de quem eram discípulos. Conhecimento profundo em todos os sentidos que, conforme os sábios, será ensinado novamente em uma futura (e, aparentemente remota) época em que Mashiach nascer!
Tempo de um conhecimento tal que levará o homem a redescobrir o caminho da árvore da vida. Tempo de Torá C’hayim (Instrução para Vida) em que, superada a árvore do aprofundamento do bem e do mal, o homem poderá desenvolver, finalmente, a imagem e semelhança com as forças da Criação, aspecto ainda em desenvolvimento.
O conhecimento, em face da Torá Oral, antecede em mais de um milênio, o conhecimento que os gregos tiveram. Para a ciência, que nasce com os pressocráticos, a descoberta dos elementos terra, água, fogo e ar constitui-se em quase tudo. Isso ocorre nos anos 600 a.e.c.. E este conhecimento já era dos judeus (ou hebreus, ou semitas), principalmente, no que se refere à Torá Escrita, com mil anos de antecipação.
Tais elementos da natureza, os quatro materiais, já estão nos primeiros textos de Bereshit (Gênesis): fogo, terra, água e ar! Mas, no nosso caso, aparece, ainda, um quinto elemento, que organiza o tempo/espaço, e os quatro elementos básicos. Elemento para organicidade. É a Ruach HaElohim – o elemento feminino da Criação! Ruach é como a Poiesis! A comum tradução para “o Espírito de D’us” acaba por tirar o conteúdo fundamental da Ruach HaElohim!
Fogo, Terra, Água e Ar, são os elementos organizados pela Ruach que lhes dá sentido integrativo e orgânico! E este elemento será representando pela Menorá (candelabro de sete velas), como objeto capaz de transmitir a ideia da Árvore Sefirótica – árvore da emanação do Eterno. E, por isso mesmo, é determinado que haja uma Menorá diante do Aron HaKodesh. A Torá, cujo lugar de repouso e guarda é mesmo o Aron HaKodesh, é o corpo, a forma, enquanto a Menorá expressa a Poiesis! Forma e conteúdo! Em função disso, a constituição do povo judeu é de caráter matriarcal, a fim de podermos obter mais e mais daquele elemento feminino que permeia a vida, desde a Criação, Éden e formação judaica.
Diferente dos gregos, e depois, dos romanos, bem como dos medievais até a atualidade, culturas em que o elemento feminino é desprezado com uma violência contra o processo de Criação que vai, de modo odioso e injustificado, concretizar-se no modus celibatário, expressão máxima da afronta ao próprio encontro amoroso que o Eterno determinou desde o início. O que não é celibato acaba sendo machismo e misoginia, facetas do mesmo desprezo ao feminino.
Aliás, o que realmente encontramos, é uma indicação para a vida e não para rezas!
Em Fondi, Itália, um jovem professor me encontrou em um Bar Café, bem próximo do antigo Quartiere Ebraico. Ele me procurava fazia algum tempo – e me achou, pois vinha em direção ao mundo judaico.
Por isso mesmo, encheu-se de satisfação e falou-me da sua vontade de conhecer o Judaísmo para encontrar D’us, quiçá, vislumbrar um caminho e vencer o mal (ou Mal, como estava mais acostumado).
Mas, porventura, – eu perguntei a ele – já te ocorreu que HaShem (ou D’us, se quiser) não quer (e nem pode) ser encontrado? Por acaso, já pensou na possibilidade do Judaísmo não ser um caminho nem te dar certeza alguma sobre um mundo que não será alcançado? Pensou, ainda, que na formação judaica, não há preocupação nenhuma com o mal ou o bem (ou Mal e Bem, se quiser) e nem há teologia alguma a ser apreendida? Pensou nisso?
Pois bem, no Judaísmo não estudamos, não procuramos e nem vendemos HaShem.
O Judaísmo não tem como escopo o encontro com Ele (ou dEle). Não podemos dizer nada sobre o Mal ou o Bem, vez que são fantasias persas, gregas, medievais, reelaboradas com os cultos africanos. Veja, apenas nos ocupamos, no contexto judaico, dos comportamentos bons ou maus, das escolhas boas ou más. No Judaísmo, não nos projetamos para um mundo futuro e, sendo futuro (se o for), virá naturalmente, independentemente e dentro do que HaShem possa pretender (se pretender alguma coisa).
Não há mágicas, não há fórmulas nem rezas que possam modificar os tempos, os ciclos e a suposta Vontade do Eterno!
E, assim, sem futuro nem surpresas, aprendemos a olhar nossas mãos, nossos pés, nossos olhos, nossos ouvidos, nosso corpo, nossos sentimentos, nossos conhecimentos e tudo aquilo que se nos chega para realização. Ensinamos aos nossos filhos que um precipício é mesmo um precipício (e não um conceito). Ensinamos que um jardim é mesmo um jardim (e não uma fantasia). Ensinamos que determinadas cidades devem ser abandonadas porque concentram vampiros demais, sanguessugas demais, destruidores demais.
E deixamos claro que, sobre nossa mesa, um pão deve ser justo, feito por mãos justas e adquirido com recursos justos, pois, ao pronunciarmos alguma palavra (entre nós) não o fazemos para agradecer (pois filhos não agradecem a seus pais), mas, ao menos as pronunciamos para abençoar HaShem, a fim de termos certeza de que aquele pão não tem outra origem senão a de justiça, bondade e leveza…
Ensinamos, também, que um inimigo é mesmo um inimigo (um inimigo sempre!) E o melhor para nós, é que o inimigo esteja bem, muito tranquilo, ocupado (muito ocupado!) e que more longe de nossas casas, longe mesmo! Mas, o inimigo não é “alguma coisa” caída do “céu”, um ser sobrenatural, um revoltado em “bereshit” ou um ente espiritual com desejos sexuais pervertidos. O inimigo tem mãos e pés, tem fome e sede, tem visão e olfato, assim como nós. Mas, ele, o inimigo, não tem mesa nem pão justos, não tem limites nem conhece princípios. Ensinamos que o inimigo não é a mesma coisa que adversário. O adversário é adversário em um cenário de competição; o inimigo, o amalequita, é o destruidor (o fascista, o nazista, o nazifascista, o opressor, o explorador, o racista, o antissemita, o islamofóbico, o misógino)
Diferente de nós, quando ele tem fome, come sem medida nem critério. E lança as mãos e avança seus pés, não se importando com este ou com isso. E quando vê ou percebe alguma coisa, o inimigo quer para si, em um incontrolável desejo mimético, arrebatador, destruidor e fatal. Por isso, sempre desejamos que nossos inimigos tenham tudo, ocupem-se bastante e fiquem muito cansados, a fim de que se esqueçam de nós, dos nossos portões, dos nossos bens, dos nossos filhos e de nossas vidas.
Mas, nós, que não sabemos nada dos seus portões, dos seus bens e dos seus filhos, todavia, não nos esquecemos deles, nunca nos esquecemos que são inimigos (e queremos que estejam bem, e longe de nós).
No Judaísmo, não discutimos conceitos teológicos, não defendemos dogmas religiosos, não buscamos fiéis ou infiéis, não levamos ninguém para a Sinagoga, não formamos missionários. Não desprezamos nem aprovamos a religião de outrem, pois o Judaísmo é o nosso melhor silêncio, um singular e respeitoso silêncio. E, assim, nunca estamos nas praças ou esquinas (nem nos palcos religiosos). O palco religioso não é, de fato, para judeus… Ao contrário, estamos envolvidos com o nosso suor, com os nossos livros, com as nossas Sefirôt e com nossos estudos.
Mas, não estudamos o Eterno, e sequer pronunciamos o seu Nome! Não pedimos nada a Ele, mas, com um profundo e respeitoso sentimento de gratidão e reverência, abençoamos seu Nome, todas as manhãs e todas as tardes e, ao anoitecer, olhamos para nossos filhos, cobrindo-os ternamente e lançando-os na Presença de HaShem…
Amamos festas, contamos no dedo os dias que faltam para a próxima festa e o que devemos fazer para que elas sejam alegres, maravilhosas e humanas. Nossas Festas não projetam nada de mágico para o futuro nem devem ser lidas como profecias. Nossas Festas são apenas Festas de memória, com as quais, contamos a nossa história (para os nossos filhos).
Sim, meu caro, com elas contamos a nossa própria história e, por isso mesmo, há milênios fazemos o mesmo pão da amargura e cativeiro, e não comemos, naquele período, fermentos para não nos esquecermos de que sair da escravidão é um ato apressado, um ato que não permite conforto nem reflexão.
Não temos nenhuma vergonha de dizer, em nossas Festas, que fomos escravos! Comemoramos nossas colheitas, o nosso momento de constituição integral no Sinai, e comemoramos nossos novos períodos de trabalho, muito trabalho, lembrando-nos das más ações, dos maus comportamentos em um ciclo completo, das privações, das cabanas (nas quais moramos no deserto). Ademais, lembramo-nos dos momentos em que nossos inimigos destruíram nossos palácios, nossos altares e, de como, fortalecidos em nossos princípios, nos livramos deles, lutando, lutando muito, com espadas, garfos e pedras (reais).
Lembramo-nos do nosso estado em terra estranha e dos governos, persas, católicos, fascistas, stalinistas e nazistas, que tentaram nos apagar da história e de como pessoas do nosso povo, de carne e ossos (homens e mulheres) mantiveram seus propósitos claros, seu amor inabalável e, com sabedoria, utilizaram tudo o que haviam aprendido em casa, com seus pais e irmãos, para decidirem por alguma coisa, para fazerem alguma coisa e definirem que não temos que desaparecer da terra.
Nossos dias não são ocupados, integral e tresloucadamente, com lufa-lufa. Não! Nós paramos, sim, há um dia – Shabat, deliciosamente especial, em que paramos para comer um pão trançado, feito de forma afável por pessoas satisfeitas com HaShem. Paramos para beber o vinho, para comer frutas, doces e mel, para cantar com nossos filhos e filhas e, de mãos dadas, dançarmos, cutucando cada um deles, fazendo-lhes cócegas, dando gargalhadas e cheirando seus cabelos. Mas, não fazemos sermão religioso para eles neste dia!
Também, paramos, neste dia, para nos encontrarmos com outras pessoas a quem amamos, os nossos amigos que, como nós, comeram do seu pão trançado, feito por mãos amáveis e satisfeitas com HaShem, e beberam do seu vinho e comeram frutas, doces e mel, que cantaram com seus filhos e filhas e, de mãos dadas, dançaram com eles, e os cutucaram, e lhes fizeram cócegas e deram gargalhadas, e cheiraram seus cabelos sem, contudo, fazer qualquer sermão religioso.
Por isso mesmo, quando mais pessoas amigas estão juntas, todas sabem o que é o pão trançado, vinho, doces, mel, filhos, filhas, mulheres amáveis e satisfeitas com HaShem, risos, gargalhadas. E os motivos, todos os motivos, de não querermos trabalhar neste dia. Quando estamos juntos, desprezamos discursos e sermões religiosos, porque nossos filhos, mulheres e amigos, valem mais que discursos religiosos ou rezas sem fim.
Entretanto, quando um dos nossos amigos trabalha neste dia, e não podemos vê-lo em nossos encontros, isso não nos aborrece nem encanta. De fato, não mandamos nenhum espia em sua casa, nenhum missionário e, muito menos, um profeta! Não investigamos nosso irmão nem nossa irmã, pois, no Judaísmo cada qual é responsável por si mesmo e, assim como as letras do alfabeto hebraico, cada qual vale por si mesmo, tem seu peso e sua medida (que ninguém procura conhecer, pois é a medida indecifrável de cada um, da individualidade de cada um).
A responsabilidade, em nós, alcança níveis de grandeza e profundidade, de peso e substância, mas ela é individual, singular e intransferível. Desde a tenra idade somos instruídos no comportamento bom, somos ensinados no exemplo de nossos pais e de nossas mães (sim, no Judaísmo conhecemos bem as palavras pai e mãe!).
Aprendemos a fazer, a concretizar, a transformar um tijolo em castelo, uma página em biblioteca e, assim, somos exercitados continuamente ao aprofundamento, ao estudo e à busca pelo saber. De fato, frequentamos mais lojas de livros usados do que restaurantes…
Desenvolvemos, assim, naturalmente, o respeito por aqueles que, eventualmente, sejam nossos mestres, nossos professores. Porém, eles não são nossos guias espirituais, não são nossos pastores nem nos conduzem a lugar algum.
São mestres que nos ensinam a Torá e o Talmud, e que nos incentivam a ensinar a Torá e o Talmud, transformando-nos em mestres e professores, que ensinam a Torá e o Talmud… Eles, os mestres, não são nossos donos e donos de nossas casas, porque o que eles têm nas mãos e nos legam é de tal modo precioso, grandioso e essencial que, por conta disso, exatamente disso, aprendemos que nossa casa é nosso jardim, nosso recanto e uma projeção de nós mesmos. Aprendemos que nossas casas refletem o nosso amor por Jerusalém.
Ah, Jerusalém… Jerusalém é o nosso centro. E dali, aprendemos a olhar o mundo, o universo, o kosmos… Ali, especialmente ali, nos reencontramos como um povo, como seres humanos que venceram a morte, as câmaras de gás e toda sorte de maldades, que suplantaram as dores e renasceram! A cidade de Melech David e de Melech Sh’lomo, a Poesia e a Sabedoria de mãos dadas!
Não, não meu caro, Judaísmo não é solidão. Somos calorosamente sociáveis- e solidários. Judaísmo é silêncio realizador, fogo que queima sem discurso, energia que faz e refaz a nossa alma.
Se quiser andar conosco, poderá vir. Sim, você poderá vir (por que não?). Mas, não pretenda sair pelo mundo, tentando consertá-lo com o Judaísmo, nem voltar-se contra seus antigos pares, incriminando-os, derrotando-os e causando-lhes dissabores. Não faça isso!
Se quiser, venha. Mas, se vier e viver como judeu, você não se fará melhor que seus antigos companheiros, nem poderá lhes dizer coisa alguma.
Apenas apontará para si mesmo (apenas para si mesmo!) um comportamento único, próprio, sobretudo se perceber que nosso D’us é seu D’us e que nosso Povo é seu Povo e, assim, não poderá fazer – nem permitir que se faça aos outros, o que lhe parecer odioso, injusto e indecente a si mesmo.
Texto originalmente publicado no livro A MORTE DO POETA NOS PENHASCOS E OUTROS MONÓLOGOS. São Paulo: Editora Scortecci, 2009, p 168 e segs., mas escrito em 2008, em Fondi, Itália, a partir de um diálogo com um jovem professor.