Casa degli Spiriti e algo acerca de Mashiach

Casa degli Spiriti e algo acerca de Mashiach

I

Deixei meu filho na Piccola Caffetteria, comendo seu tramezzino, e fui para o Quartiere Ebraico, bem atrás do Castello Baronale, com todas as saudades da Sinagoga Scuola, a que chamam, amedrontados, Casa Degli Spiriti, porque muitas atrocidades ocorreram contra os ebrei, como são chamados os judeus italianos. Houve muita perseguição e morte, dentro e fora da Sinagoga, com requintes de brutalidade.

 

II

Ouve-se que algumas crianças foram mortas sobre a Bimá, a mesa sobre a qual se coloca o Rolo da Torá nos serviços religiosos judaicos. Por isso mesmo, os moradores dali dizem ouvir vozes, e sombras se movimentando, pelas pequenas janelas do prédio. Dizem que as pedras das paredes da Sinagoga ficam respingando o sangue das vidas que ali foram assassinadas e que, agora, buscam vingança contra seus opressores e descendentes. Ao chegar naquele pátio da Via Olmo Perino, diante do prédio da antiga Sinagoga, fui tomado de um sentimento de dor, mas, igualmente, de esperança e gratidão. Cheguei-me à antiga porta de madeira, fechada, e estendi minha mão, como que acariciando, ou agradecendo, ou, simplesmente, testemunhando alguma vida em mim e, ao encostar minha mão à porta, fui tomado por pensamentos e sentimentos que vêm de longe.

 

III

Choramos e esperamos nesta triste Galut por um tempo de paz, em que possamos simplesmente viver. Ali, no Quartiere Ebraico, diante da velha Sinagoga, desta minha curiosa Casa Degli Spiriti, caminhamos e brincamos tantas vezes no pequeno pátio florido, onde minha família viveu por séculos, meus olhos se enchem de luz e esperança. Também ouço vozes, mas de outra natureza.

 

IV

Estava quieto diante da porta fechada da Sinagoga. Às minhas costas, exatamente atrás, para cá e além do Castelo, ficam as três Igrejas Católicas, Santa Maria Assunta, San Pietro e San Francesco. Mais distante, do outro lado da cidade, à minha esquerda, para além da Via Appia, ficam duas Chiese Evangeliche, e à minha direita, há moradias de um grupo de muçulmanos que atuam na exploração de serviços telefônicos internacionais.

 

V

E eu, parado ali, senti um calor invadir meu peito. É impossível não chorar, porque ouvi o clamor das vozes de centenas de judeus e judias levados e mortos pelos religiosos de fora, pela sua inquisição, pelos fascistas, nazistas e outros canalhas injustos. E ouvi os sinos badalando incessantemente, ouvi alguma gritaria conjunta de Igrejas evangélicas e vozes ininteligíveis islâmicas.

 

VI

Mas, do silêncio estranhamente respeitoso da velha Sinagoga, ouvi, também, a voz inconfundível da esperança em Mashiach:

 

… o Espírito de HaShem está sobre mim,

porque Ele me ungiu, para pregar aos mansos e revigorá-los:

          enviou-me a restaurar os chorosos de coração,

            a proclamar liberdade aos escravizados,

              e a abertura de prisão aos presos…

 

VII

Porque andamos perdidos nas sombras de tantos séculos, sem direção nem contentamento, e o sentido de Mashiach tornou-se um peso milenar e o talhe do teu reino mal pode ser reconhecido. Nos últimos milênios fizeram-no com mil faces e em mil lugares. Sendo tantas, ninguém a conhece nem pode esperar ou ouvir esta voz.

 

VIII

Mas, alguns esperam Mashiach e acreditam que o avistarão sobre os montes de Israel, com os seus pés em movimento, ensinando a renovação do Conhecimento e o Retorno a um tempo em que Poetas eram reis em Jerusalém. Rei Poeta e Poeta, Mashiach ensinará algo de mais profundo sobre a Face do Eterno.

São aspectos de Mashiach que me encantam e me fazem, em determinada medida, ouvir sua voz. Mas, espero, também, que as vozes retidas nas paredes desta minha Sinagoga sejam libertadas com atos de justiça! A voz de Mashiach fará ouvir a paz, e anunciará o bem, fará ouvir a plenitude e dirá à Sião:

O Eterno reina!

… celebra as tuas festas e cumpre os teus votos…

 

IX

E ele será, então, a imagem e a semelhança do Eterno, e nele serão soprados os Sete Espíritos do Eterno. E, com ele, a Coroa será ligada ao Reino… Malchut à Keter!

 

X

Quando ele nascer (e os sábios disseram que nascerá), o Eterno se alegrará de sua Justiça, de sua Mansidão, de seu Conhecimento de Torá, de seu Cântico e de seu Hallel. Nele, as obras da “criação” serão finalmente terminadas. Sob seu Reino, os homens encontrarão as fontes de conhecimento, da sabedoria e da inteligência e não haverá fome sobre a terra, nem terror, nem injustiças. O cego não errará o caminho e o surdo não será privado de entendimento, e ninguém será enganado, pois ele ensinará o equilíbrio e como suplantar a árvore do aprofundamento do bem e do mal, como vencer as inclinações para o bem e para o mal e, assim, levará ao caminho de volta à árvore da vida, e apontará a Coragem e a Força!

 

XI

Então, o Eterno, finalmente, ficará satisfeito e ouviremos a sua voz plena de alegria (e de bereshit) ecoando pelo espaço:

… é muito bom…

Mas, agora, ninguém conhece o seu perfume, os seus olhos, as suas mãos, os seus cabelos, a sua barba, o seu caminhar, o seu partir do pão, do peixe e o seu delicioso vinho. Ninguém sabe como será aquela mulher que ele amará como esposa nem como serão seus filhos, porque ele trará em si os olhos e a música de David e a Poesia e juízos de Sh’lomò, de cuja descendência nascerá. Ninguém viu, ainda, o seu sorriso, o seu modo de abençoar, o seu cântico, a sua amizade, a sua presença, o seu sangue, o seu espírito e, não obstante, ele é o desejado de todas as nações, porque todos os homens e mulheres desejam um tempo de plena paz e descanso!

e como pastor apascentará o seu rebanho;
entre os seus braços recolherá os cordeirinhos,
e os levará no seu regaço:
as que amamentam ele guiará mansamente…

XII

Mas, por que ainda não o conhecem? Porque veem mal, com os olhos obscurecidos de religião, de teologias e de intrigas medievais. Veem com más intenções, e por isso não enxergam; não ouvem e não escutam. Ouvem mal, conforme as conveniências e, se o encontrassem não lhe reconheceriam.

Provavelmente, o desprezariam, porque não seria grego ou romano, não seria russo nem alemão. Desprezariam porque ele seria um Judeu – o melhor dos Judeus! Desprezariam porque ele não nasceria em um calendário gregoriano nem daria início a um novo calendário, como querem os homens platônico-aristotélicos, nem seria um Judeu nascido em terra estranha, como querem algumas escolas e grupos. Desprezariam porque ele teria em um dos braços, a Torá, e no outro, os Nevi’im. De um lado o acompanharia Moshè rabenu, e do outro, os Profetas. Desprezariam Mashiach porque o seu coração é uma força nos Tehilim, e sua alma será formada nas deliciosas Festas Judaicas e nas Canções que enchem nossas vidas de contentamento.

 

XIII

E somente aqueles que ouvissem, repetidas vezes, o seu pai declamando delicadamente os versos dos Cânticos de Sh’lomo para sua terna esposa; e ouvissem, também, a voz e a força dos Provérbios e da Meguilat Ester, quando estivessem juntos com seus irmãos, ao redor de uma mesa iluminada pelas chamas de um duplo candelabro, e perfumada pela delícia dos Chalôt, somente assim poderiam saber como será o Mashiach.

Os outros o desprezariam e o odiariam porque na sua boca e no seu coração os Ensinamentos jamais seriam uma nova religião (e sequer uma religião), mas a luz, a renovação, o azeite, o ser humano pleno que nos falta – a perfeita leitura e interpretação da vontade do Eterno: amor-amar, superando as faces do bem e do mal, com o fogo da Ruach HaElohim!

façamos o homem

à nossa imagem e semelhança

Os homens maus, poderosos, senhores do império de ouro, prata, ferro e barro, mataram milhares de crianças judias pelos milênios, esperando que ele fosse morto – e continuam matando e comendo a carne de seus filhos, com seus votos ao vento! 

E hoje, vestidos de Babilônia, de Roma e Edon, culpam-nos por uma cruz forjada na ignorância dos ecos do Coliseu e insistem que devemos morrer por ela. Em dois mil anos de necrofagia que não termina, num discurso de morte que não termina, numa procissão mórbida que não termina, em cruzadas genocidas que não terminam, em inquisições necrófilo-religiosas que não terminam, em holocaustos que não terminam, em bombas que não se calam, e embriagados do nosso sangue, exigem que nos dobremos diante dos seus deuses gregos e romanos, e dos seus profetas orientais tresloucados, bem como de seus missionários de perdição! Exigem que ouçamos seus pregadores delinquentes e nos dão o fel da exclusão social!

 

XIV

E as filhas, orientais e ocidentais, desta absurdidade religiosa, vendem a ilusão in memoriam (aos pedacinhos) nas praças, nos salões alugados, nos templos de isopor, nos canais de rádio e televisão mal adquiridos, nos campos de futebol, nas capelas, nas basílicas, nas igrejas, nos terreiros, nos centros, nas encruzilhadas, nos sagrados Shopping Centers, nas Bolsas de Valores, nos chaveiros, nas lojas, nas Torres Gêmeas, nas peregrinações, na estampa maledetta do dinheiro, nos porta-aviões, nos discursos vazios, nas lojas de hambúrgueres, nas árvores, nas bolinhas de natal, nas ceias de natal e no frango assado de natal e nos dias de dezembro. Aliás, dezembro e novembro inteiros, porque os pedacinhos da ilusão devem mover o comércio!

 

Ah, esse Rabi desconhecido – o Mashiach! Se os homens o encontrassem em quaisquer lugares, certamente o desprezariam, porque não nasceria em dezembro! Porque será do sangue hebreu de Abraham, Itzchak e Ya’akov, e porque seria instruído/instruindo por Moshè rabenu, e porque é o coração e o gemido de Yehoshua, dos Shoftim, dos Melajim, de David, de Sh’lomò, de Yeshayahu, de Yirmiahu, de Yejezkel, de Daniyel, de Hoshea, de Yoel, de Amós, de Ovadiá, de Yoná, de Mijá, de Najum, de Javacuc, de Tz’faniá, de Jagai, de Zejariá, de Malají e de todos os Judeus de todos os tempos. Porque é a ideia de plenitude.

Mashiach será a perfeita harmonia entre Criação e Creador (não Criador), porque chora desde sempre, com gemidos de quem quer estar em Jerusalém – e ninguém pode amá-lo, desejá-lo ou compreendê-lo se antes não souber amar Jerusalém, o Beit HaMikdash e a Torá!

Ah, esse Rabi, meu irmão, jamais poderia ter nascido de Atenas, em meio às festas e bacanais, porque não é filósofo: é a própria Sabedoria. Jamais poderia ter nascido de Roma ou de suas Províncias, em meio aos festins e orgias, porque não é jurista: é a própria Justiça. Somente poderá nascer em Judá, em meio às Festas judaicas de Pessach e Shavuot, Yom Kipur e Sucot, e na alegria de um Shabat, porque ele é, e esperamos dele, o Shalom! 

 

XV

E olhando ao lado da porta da antiga Sinagoga, vi uma pedra, uma pequena pedra. Depositei-a no chão, diante da porta, em memória às centenas de vidas que tombaram diante do furor bestial eclesiástico, nazista e fascista, durante os séculos naquele Ghetto, cujo sangue e fé homenageiam cada uma das linhas da Torá. E às vozes judaicas que teimam em não calar pelos séculos e séculos até que possam estar em algum lugar com suas famílias, Tradições, Festas e seu Mashiach! Até que possam estar com seu D’us!

*

Pietro Nardella-Dellova: Sinagoga Scuola ou Casa degli Spiriti e alguma coisa de Mashiach, in A Morte do Poeta nos Penhascos e Outros Monólogos. SP: Editora Scortecci, 2009, p. 40  e segs.

 

 

Se “sionismo” for…, sou sionista. Se “sionismo” for…, sou antissionista

Se “sionismo” for…, sou sionista. Se “sionismo” for…, sou antissionista

Se por “sionista” entendemos ser a favor do Estado de Israel, sou sionista. Se, entretanto, e concomitantemente, for contra o direito dos Palestinos a um Estado, sou antissionista.

Se por “sionista” entendemos ser a favor de direitos iguais dos (e para os) vários grupos (árabes, drusos, cristãos, judeus, religiosos, ateus, brancos, negros etc) que vivem em Israel, sou sionista. Se, entretanto, for a defesa de um Estado Judeu, exclusivo para Judeus, sou antissionista.

Se por “sionismo” entendemos o pensamento dos primeiros líderes dos Kibutzim anarquistas e socialistas, de 1870 a 1948, sou sionista. 

Se por “sionista” entendemos a existência de dois Estados: Israel e Palestina, vivendo soberanamente e com autonomia, sou sionista. Se, entretanto, for a defesa de Israelenses com a eliminação dos Palestinos, sou antissionista. 

Se por “sionismo” entendemos a invasão, esbulho e ocupação ilegal, imoral e violenta da Cisjordânia por “colonos” Israelenses, e a inviabilidade da Palestina, sou antissionista. 

Se por “sionismo” entendemos a plena Democracia em Israel, sou sionista. Se, entretanto, for autoritarismo e fascismo do netanyahismo e respectivos grupos neofascistas ou religiosos, sou antissionista.

Se por “sionismo” entendemos um sistema jurídico laico em Israel que proteja a diversidade religiosa, sexual e cultural dos vários grupos, sou sionista. Se, entretanto, for um sistema religioso fundamentalista, autoritário, obtuso, bíblico e ultrapassado, sou antissionista. 

Se por “sionismo” entendemos a filosofia do século XIX, defendida por Landauer, Buber, Einstein como resposta histórica e proteção contra o antissemitismo, sou sionista. Se, entretanto, for islamofobia, racismo, apartheid, profetismo, anticonstitucionalismo e teologização do Direito, sou antissionista. 

Se por “sionismo” entendemos a diversidade sexual e pluralidade de ideias políticas, com direitos políticos positivos e negativos de todos e todas em Israel, sou sionista. Se, entretanto, for repressão sexual, pensamento uniforme e excludente, sou antissionista. 

Se por “sionismo” entendemos chorar pelos mortos israelenses nas muitas vezes em que Israel foi atacado, sou sionista. Se, entretanto, for zombar, rir e gargalhar sobre mortos Árabes e Palestinos, sou antissionista. 

Se por “sionismo” entendemos o pensamento de David Ben-Gurion, Golda Meir, Shimon Peres etc, sou sionista. Se, entretanto, for o pensamento de Ariel Sharon, B. Netanyahu, dos ortodoxos, entre outros, sou antissionista. 

Se por “sionismo” entendemos um pensamento progressista, liberal, socialista ou social-democrata, humanista, antifascista e voltado aos Direitos Humanos, sou sionista. Se, entretanto, for o pensamento da extrema-direita, religiosa ou não, sou antissionista.

Se por “sionismo” entendemos os valores os valores mais caros do Judaísmo subterrâneo dos Profetas humanistas de Israel, e dos Ensinamentos da Escola de Hilel (e respectivos), e da filosofia de Luzzatto, Buber, Heschel, entre outros, então, sou sionista.

Enfim, ser por “sionismo” entendemos a defesa atual de Israel e seu direito inegociável de existir (ao lado de um Estado da Palestina), sou sionista. Se, entretanto, for simplesmente ataque à população de Gaza, sem critérios nem inteligência, sou antissionista!

(© Pietro Nardella-Dellova)

Ah, estes antissemitas 2

Ah, estes antissemitas 2

O antissemitismo é o preconceito mais antigo conhecido. O ódio aos judeus remonta a Bíblia. Os judeus são o único povo mencionado neste Livro Sagrado que permanece vivo com sua religião, sua cultura, seu idioma e restabelecido no que foi sua pátria ancestral, Israel.

Entre os vários povos bíblicos que desapareceram ou deixaram de existir como entidades distintas ao longo da história posso destacar:

– Amalequitas – Povo nômade do deserto que atacou os israelitas no Êxodo. São mencionados pela última vez no livro de Ester.

– Cananeus – Povos que habitavam Canaã antes da conquista pelos israelitas. Foram assimilados ou expulsos.

– Hititas – Poderoso império na Ásia Menor que entrou em declínio por volta de 1200 a.C. e desapareceu.

– Jebusitas – Habitantes originais de Jerusalém antes da captura pelo Rei Davi. Foram absorvidos pelos israelitas.

– Medianitas – Povo que habitava parte da Mesopotâmia. Foram conquistados pelos persas e babilônios.

– Moabitas – Povo semítico aliado dos amonitas, inimigos de Israel. Desapareceram após invasões no século VI a.C.

– Filisteus – Povo do mar que dominou parte de Canaã. Foram conquistados por Babilônia e desapareceram.

Esses são alguns dos povos proeminentes mencionados na Bíblia que se fundiram com outros grupos ou simplesmente desapareceram ao longo dos séculos seguintes. A ascensão e queda de impérios e reinos levou ao desaparecimento de muitas dessas antigas identidades tribais e nacionais.

Nós aqui estamos e justamente na Bíblia é onde encontramos alguns dos primeiros acontecimentos antissemitas. Aqui vão 3 deles.

O primeiro acontecimento de antissemitismo conhecido na história ocorreu no antigo Egito, por volta de 1650 a.C., durante o reinado de Ramsés II. Os judeus, que eram escravos no Egito, foram acusados de conspirar contra o faraó e foram perseguidos e mortos.

Esse acontecimento é relatado no livro do Êxodo, que faz parte da Bíblia hebraica. Segundo o livro, os judeus foram libertados do Egito por Deus, que enviou Moisés para guiá-los para a Terra Prometida e é hoje lembrada no Pessach.

O segundo acontecimento, que hoje é lembrado em Purim comemora a salvação do povo judeu da Pérsia da trama de Haman, o primeiro-ministro persa, de exterminá-los. A história de Purim é contada no Livro de Ester, que é um dos livros da Bíblia hebraica.

O terceiro acontecimento bíblico que é frequentemente citado como um exemplo de antissemitismo é o da crucificação de Jesus. De acordo com os Evangelhos, os judeus foram responsáveis pela condenação de Jesus à morte. Essa narrativa foi usada por alguns cristãos para justificar o antissemitismo, argumentando que os judeus são responsáveis pela morte de Jesus.

No Império Romano, o antissemitismo surgiu devido a diferenças religiosas entre judeus e romanos pagãos, bem como alguns fatores políticos e econômicos. Restrições foram impostas às práticas judaicas e eventos como a destruição do Segundo Templo em 70 d.C.

Na Idade Média, o antissemitismo se intensificou na Europa. Os judeus eram frequentemente acusados de crimes e heresias, e eram frequentemente perseguidos e mortos. Um dos exemplos mais notáveis de antissemitismo na Idade Média foi a Peste Negra, que matou milhões de pessoas na Europa no século XIV. Os judeus foram acusados de espalhar a peste, e muitos foram mortos em pogroms.

Ainda neste período, na Europa medieval, o antissemitismo foi frequentemente motivado por questões religiosas. Os judeus foram alvo durante as Cruzadas, vistos como “assassinos de Cristo” e sujeitos à violência. As acusações de libelo de sangue também surgiram. Os judeus enfrentaram expulsões da Inglaterra, França e Espanha durante este período.

O antissemitismo continuou a existir na Europa na Idade Moderna. No século XVI, o papa Paulo IV estabeleceu o gueto de Roma, onde os judeus eram forçados a viver. No século XVII, os judeus foram expulsos da Espanha e de Portugal. A Espanha foi unificada sob a Coroa de Aragão e a Coroa de Castela, e a Inquisição espanhola buscou a unidade religiosa.

No século XVIII, a Revolução Francesa trouxe esperança de liberdade para os judeus, mas o antissemitismo continuou a existir.

O caso Dreyfus foi um escândalo político que dividiu a França de 1894 a 1906. Em 1894, o capitão Alfred Dreyfus, um judeu, foi acusado de traição por fornecer informações militares secretas ao Império Alemão. Dreyfus foi julgado e condenado à prisão perpétua na Ilha do Diabo, na Guiana Francesa.

No entanto, surgiram dúvidas sobre a culpa de Dreyfus. Em 1896, um documento secreto foi descoberto que indicava que outro oficial, Charles-Ferdinand Walsin Esterhazy, era o verdadeiro traidor.

Apesar das evidências, o governo francês continuou a defender a condenação de Dreyfus. Isso levou a uma onda de protestos, tanto na França quanto em outros países.

Em 1898, o escritor Émile Zola publicou um artigo no jornal L’Aurore, intitulado “J’accuse!”, no qual acusou o governo francês de conspiração para incriminar Dreyfus. Zola foi condenado por difamação e exilou-se na Inglaterra.

Em 1903, um novo julgamento foi realizado para Dreyfus. Dessa vez, ele foi absolvido e readmitido no exército.

O caso Dreyfus teve um impacto profundo na França e no mundo. Ele expôs o antissemitismo profundamente enraizado na sociedade francesa .

Os pogroms foram ondas de violência antissemita na Europa entre os séculos 19 e 20, perpetrados com a conivência ou encorajamento das autoridades. Na Rússia Czarista, centenas de pogroms ao longo de décadas vitimaram milhares e forçaram a emigração em massa de judeus. Na Alemanha nazista, a Kristallnacht em 1938 destruiu propriedades judaicas em todo o país, um prenúncio do Holocausto. Na Ucrânia, Polônia, Romênia e outros locais, pogroms levaram a milhares de mortes, ataques a comunidades inteiras e destruição generalizada, manifestando o ódio antijudaico pré-Holocausto. Foram um dos capítulos mais sombrios da história europeia.

O Holocausto, o assassinato de seis milhões de judeus pelos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial, foi o exemplo mais extremo de antissemitismo na história.

O uso do termo “Holocausto” especificamente relacionado ao genocídio dos judeus pelos nazistas surgiu na década de 1950. Foi popularizado pelo historiador judeu Leonard Dinnerstein em seu livro de 1955 “O Holocausto Americano”, sobre antissemitismo nos EUA.

Em 1959, o escritor e sobrevivente do Holocausto Elie Wiesel usou “Holocausto” em seu livro “Noite” para se referir à sistemática destruição dos judeus europeus. A partir daí, o termo ganhou amplo uso internacional.

A escolha de “Holocausto” remete à escala industrial do extermínio de 6 milhões de judeus pelos nazistas, retratando sacrifícios humanos em massa. Transmite a noção de incineração e aniquilação total que ocorreu nos campos de concentração durante o regime hitlerista.

Atualmente, “Holocausto” é o termo histórico padrão em inglês para o genocídio nazista contra os judeus. Ele carrega todo o peso e significado singular desse evento sem paralelos na história da humanidade.

O antissemitismo permaneceu após a Segunda Guerra Mundial. Na União Soviética, houve ondas de repressão. O conflito árabe-israelense também alimentou o antissemitismo no Oriente Médio. Grupos neonazistas e da supremacia branca continuaram a promover teorias conspiratórias antijudaicas e ódio.

No século XXI, houve uma série de ataques antissemitas, incluindo o assassinato de 11 pessoas em um ataque terrorista à sinagoga Tree of Life em Pittsburgh, EUA, em 2018.

As motivações do antissemitismo são complexas e variadas. Os fatores religiosos, econômicos, políticos e sociais desempenharam um papel na propagação do antissemitismo ao longo da história. Em comum que sempre foram usadas para justificar a perseguição e o assassinato de judeus.

Fatores religiosos

O antissemitismo religioso é baseado na crença de que os judeus são um povo inferior ou culpado por crimes ou heresias.

Fatores econômicos

O antissemitismo econômico é baseado na crença de que os judeus são ricos e poderosos e que controlam a economia.

Fatores políticos

O antissemitismo político é baseado na crença de que os judeus são uma ameaça à ordem social ou política.

Fatores sociais

O antissemitismo social é baseado na discriminação e no preconceito contra os judeus. Essa discriminação pode ser baseada em estereótipos ou crenças falsas sobre os judeus.

Nesta onda atual aparecem os antissionistas, judeus e não judeus, que de pronto se declaram que não são antissemitas. Alguns por sua chamada “ascendência” judaica, e os demais com a tradicional justificativa do estado colonial, imperialista etc.

No que se refere aos judeus, existe o conceito do “self-hate judeu” ou “judeu auto odiador”, que se refere a um judeu que supostamente tem atitudes, crenças ou políticas antissemitas, demonstrando falta de identificação com o judaísmo e até mesmo ódio contra o próprio povo judeu.

Algumas características comumente atribuídas ao self-hate judeu:

– Rejeição ou negação da própria identidade e herança judaica, quando lhe convém.

– Sentimentos de vergonha, culpa ou inferioridade em relação ao judaísmo, as vezes relacionado a traumas de bullying na infância.

– Adoção de estereótipos e preconceitos antissemitas contra judeus como forma de destacar entre os antissemitas não judeus.

– Suporte a políticas ou ideologias antijudaicas e antissionistas, neste caso se intitulando judeu como forma de aceitação entre os não judeus.

– Desejo de assimilação total na sociedade não judaica, encerrando assim seu problema com o judaísmo.

– Ódio irracional ou generalizado contra Israel e o sionismo, como forma de enfrentar seu auto ódio.

– Colaboração com inimigos históricos dos judeus, como uma forma de fazê-los pagar por sua rejeição.

Já os não judeus antissemitas, em colaboração ou em separado, com outros judeus usam a retórica antissionista para disfarçar e legitimar seu preconceito contra os judeus. Eles fazem isso de algumas maneiras:

– Ao demonizar Israel, usando termos como “estado apartheid”, “genocídio” e “nazismo” de forma desproporcional e não aplicados a outros países. Isso mascara o preconceito específico contra o estado judeu.

– Ao negar o direito à autodeterminação do povo judeu, característica única ao caso israelense e que ignora a necessidade histórica de Israel como um lar para os judeus.

– Através do uso de padrões duplos, condenando Israel por ações que ignoram ou perdoam em outros países.

– Ao afirmar que o sionismo é uma ideologia racista ou imperialista, mas sem fazer as mesmas críticas a movimentos nacionalistas não-judeus.

– Utilizando teorias conspiratórias antissemitas, como acusar os judeus de controlar os governos ocidentais e a mídia para beneficiar Israel.

– Promovendo o boicote a Israel, mas não a países com piores registros de direitos humanos, o que sinaliza uma motivação específica contra o Estado judeu.

– Ao negar o direito à autodeterminação apenas do povo judeu, enquanto defende tal direito para palestinos e outros grupos.

Assim, a retórica antissionista serve para encobrir motivações mais profundas de intolerância e ódio aos judeus em geral, e não apenas críticas legítimas às políticas do governo israelense.

Já são centenas de casos de antissemitismo ao redor do mundo desde o início da guerra. Dezenas de manifestações por Palestina Livre – Do Rio ao Mar. Nelas, nenhuma menção ao massacre dos 1400 civis israelenses e o sequestro de outros 240 para Gaza.

Acho que agora já fica bastante claro que o atual conflito com o Hamas não está “criando” antissemitismo no mundo. Ele é apenas o gatilho que dispara a onda de preconceito que nunca deixou de existir e vai continuar existindo.

O pior é saber que enhuma criança nasce odiando. O ódio é ensinado.

Aja agora! Não ensine preconceito.

Minha nonna e o “Shemá Israel”

Minha nonna e o “Shemá Israel”

ש
Minha nonna, nascida no Ghetto, não era exatamente uma “religiosa”, era uma anarquista, antifascista e que se opôs muito às forças opressoras garibaldinas (do Norte).
מ
O tanto que ela me ensinou de Judaísmo era fundamentalmente o “Shemá Israel” (e coisas de ética e comida judaicas), e me dizia que isso, apenas isso, me ajudaria a não ser submetido ao mundo, à idolatria ou a homens (mitos, heróis, deuses fálicos etc).
ע
De fato, o “Shema Israel” é quase tudo o que tenho precisado no meu giro pelo mundo, é quase toda energia de que preciso para não ser submetido. O “Shema Israel” deu a ela, minha querida nonna, e dá a mim – e aos meus filhos depois de mim, um sentido de judeidade, uma alma judia (bastante anarquista) e alguma coisa que me faz ficar no alto, no bem alto.
ישראל
Enfim, todas as vezes em que ouço ou profiro o “Shemá Israel”, não escuto a voz de “D-us”, escuto a voz da minha nonna…
*
(Pietro Nardella-Dellova)
Para quem gosta de apreciar, ler e seguir a Bíblia, trago doze lembretes…

Para quem gosta de apreciar, ler e seguir a Bíblia, trago doze lembretes…

1. Deus (sem apóstrofe para todos e todas entenderem) condena a ingratidão (pessoas arrogantes que não sabem agradecer a quem lhes ajuda), por isso mesmo destruiu Sodoma e Gomorra. Ser ingrato é ser arrogante e esquecer de quem ajudou e isso representa iniquidade para Deus;
 
2. Deus condena a exploração do trabalhador e, por isso mesmo, libertou o povo judeu da servidão do Egito. Deus odeia tanto a servidão, a exploração do trabalhador, que mandou dez pragas sobre os opressores e exploradores egípcios;
 
3. Deus condena a avareza e a dedicação sem limites para o trabalho, e para ganhar dinheiro e adquirir coisas sem medida nem limite, por isso mesmo criou um dia, o dia do descanso, no qual não se compra nem se vende, no qual não há lufa-lufa, no qual se descansa, e vive-se para a família e coisas lúdicas. Deus deu aos homens seis dias (seis dias trabalharás e farás toda a sua obra…), e determinou que um dia, o sétimo dia, seja dedicado ao descanso. Quem trabalha dia e noite sem parar, pensando em bens e riquezas, não vê a vida passar…
 
4. Deus condena a idolatria, qualquer idolatria, inclusive a do dinheiro, ou a de transformar homens em deuses, em ídolos e em mitos;
 
5. Deus determinou que os idosos, crianças, órfãos e doentes sejam ajudados, protegidos, alimentados. Toda política pública deve ter os idosos, crianças, órfãos e doentes como objetivo primordial;
 
6. Toda fakenews é condenada por Deus, porque a fakenews (informação falsa ou mentirosa) viola o preceito de dar testemunho verdadeiro e de falar a verdade (emet). Qualquer pessoa que recebe informação falsa, mentirosa, e a retransmite está afrontando o preceito divino e bíblico;
 
7. Deus determinou que as pessoas não pratiquem “lashon hará” (língua para o mal). Mexericos, fofocas, falso testemunho, mentiras, acusações infundadas e sem provas, calúnias, maledicências etc, são exemplos de língua para o mal. A punição é que a vida de quem pratica “lashon hará” vira um lugar de lepra;
 
8. Deus determinou que se pagassem “dízimos”, dois “dízimos”, sendo um para os sacerdotes (ISRAELITAS) do Templo de Jerusalém. O outro para os pobres de Jerusalém. A cobrança de dízimos não é feita entre os Judeus desde o ano 70 (há 1910 anos atrás) porque o Templo foi destruído e os sacerdotes (ISRAELITAS) dispersados. Hoje, a cobrança de dízimo é prática ilícita e caracteriza estelionato (Art. 171 do CP);
 
9. Deus determinou que se fizesse JUSTIÇA e se agisse com BONDADE e MISERICÓRDIA sobre a terra. Toda injustiça, maldade e falta de misericórdia ofendem a dignidade de Deus;
 
10. Todos os homens e mulheres são iguais; sejam negros, brancos, asiáticos, de qualquer origem e diversidade. A discriminação contra negros, indígenas etc, por exemplo, ofende a Deus.
 
11. Os nossos Patriarcas (Abrahão, Isaque e Jacó) nunca oprimiram os outros povos por causa das suas crenças. Viveram entre entre os povos e sempre, SEMPRE, respeitaram as crenças dos outros povos. A fé dos patriarcas nunca foi impositiva para outros povos.
 
12. Por último, Deus determinou que seus filhos jamais se associassem aos poderosos, jamais se dobrassem para poderosos e jamais se juntassem a poderosos para oprimir o povo. Ao contrário, Deus determinou que seus filhos ficassem ao lado dos pobres e oprimidos.
 
(Pietro Nardella-Dellova)