por Richard Klein | 7 nov, 2020 | Brasil, Comportamento, Crônica
Capítulo 21
“Sagrado e profano
O Baiano é
Carnaval!”
Chame Gente – Moraes Moreira
Meu status em casa saltou para as alturas depois do sucesso no vestibular. Como prêmio, Rafael resolveu me dar um Fusca 1973 azul claro, que apelidei de Blues Boy. Ainda que barato e velho era um carro e, que me lembre, amigos de lares muito mais prósperos tinham recebido apenas um tapinha nas costas por não fazer mais do que sua obrigação.
Li esse gesto como uma tentativa de reconciliação dele com um filho incompreensível que se recusava a ouvi-lo e que fugia da sua companhia. Nosso convívio era difícil. De gerações completamente diferentes, nascidos em mundos opostos, havia um fosso nos separando em termos de perspectivas, de familiaridade com o que estava à nossa volta e do que buscávamos da vida.
Num mundo longe das minhas descobertas, a realidade do Rafael estava difícil. Já beirando os 80 anos, lutando bravamente contra os problemas normais da idade avançada, haviam dificuldades imprevistas com o presente. Apesar do patrimônio acumulado, o Brasil tinha se revelado uma decepção. Quanto mais convivia com o “jeitinho brasileiro” nos negócios e com autoridades tortas, menos gostava do país. Com os dias do milagre econômico num passado distante, quase três décadas depois da sua chegada, o país estava em queda livre e havia uma nova política de restrição às importações. Essas duas pancadas atingiram seus negócios em cheio. Mesmo que achasse desnecessário expressar suas angústias, elas estavam sempre à flor da pele.
No meio das suas preocupações estava o meu futuro. Apesar da predileção indisfarçada pela Sarah, talvez o seu único verdadeiro amor na vida, Rafael silenciosamente queria que eu chegasse a alturas que o seu passado o havia barrado; a respeitabilidade de um diploma universitário e a estabilidade de uma profissão.
O destino e o instinto de sobrevivência haviam dirigido a sua vida, ao passo que eu tinha escolhas, ou pelo menos achava que tinha na altura. Diferente dele na sua juventude, tinha a liberdade de me misturar com todos a minha volta e de curtir sem ser vítima de preconceitos e sem ter medo de passar necessidade. Talvez por isso, para ele, a tempestade existencial na qual tentava conciliar o mundo de fora de casa com o que se passava dentro dela, era algo que escapava à sua compreensão e ao seu respeito. Talvez agora, comigo na faculdade de economia, essa bobagem iria acabar e os estudos a sério poderiam ser a salvação de uma personalidade mimada e egoísta.
*
Sem se importar com os conflitos mudos em casa, o verão carioca estava no auge, e com ele a temporada de curtição. Agora pré-universitário, sem a paranoia do vestibular, só queria saber de praia e de aproveitar as outras maravilhas que minha cidade tinha para oferecer. Meu querido Blues Boy prometia ser uma grande ferramenta para essa tarefa, porém, antes de ganhar as chaves, havia a barreira da carteira de motorista.
A ideia da minha pessoa no volante causava arrepios em casa. Isso era devido a uma aula de direção que Renée havia resolvido me dar em Teresópolis quando adolescente. A caixa de câmbio do carro da família, um Opala bege, era manual e saía da coluna de direção. Logo na primeira tentativa, embaralhei as instruções e ao invés de sair devagar em primeira, acelerei o carro em marcha à ré. Se minha mãe não houvesse tido o instinto de puxar o freio de mão na hora, teríamos caído em um despenhadeiro bem atrás da gente. O valor cômico da cena não foi captado pelo meu pai de 77 anos que estava nos observando fora do carro e ele passou mal. Nunca houve outra aula.
Porém, na época em que ganhei o fusca, o que os dois não sabiam era que seu filho já tinha começado uma carreira secreta de motorista. Ela tinha começado no dia em que decidi colocar um anúncio no jornal oferecendo aulas de violão. Com a mesada definhando devido aos problemas nos negócios, precisava de dinheiro para manter o nível de farra e essa foi a melhor ideia que veio à cabeça.
Dois dias depois o telefone tocou. A voz dela era rouca, algo que sempre me deu um certo tesão. Enquanto processava isso, a cabeça já estava “Caralho, uma aluna!!”
Tentei soar profissional. “Sim, as aulas são particulares para iniciantes. Também dou aulas de bossa nova para alunos mais avançados.”
“Ai, adoro bossa nova, mas nunca toquei violão. Quanto tempo você acha que levaria para aprender?”
“Bom, isso vai depender da tua habilidade e do teu esforço. Por que você não tenta uma aula, e daí a gente avalia?”
“Ah, não sei, esse número é de Ipanema. É muito longe. Eu moro na Tijuca, conhece?”
Menti. “Conheço, claro. Posso ir aí, mas como disse no anúncio são vinte e cinco cruzeiros na casa do aluno.”
“Não dá para fazer a primeira aula de graça? Só para eu sentir se vou gostar ou não?”
Considerei as coisas, mesmo se aquela a voz no telefone fosse a de uma deusa a Tijuca era longe demais. “Olha, não dá, principalmente porque fica tão longe.”
Para minha surpresa, ela concordou. “Então, está bem. Que dias você pode vir? Só posso nos fins de semana.”
Blefei. “Um instante, deixa eu ver minha agenda.” Esperei um pouco e respondi. “Tenho uma abertura no sábado à tarde da semana que vem, às três, pode ser?”
“Para mim está ótimo.”
Animado, peguei o endereço e depois de desligar comecei a planejar as aulas. Ia imitar o Romualdo. Primeiro, exercícios para fortalecer os dedos, depois acordes e depois as primeiras músicas fáceis. Só isso já daria quatro ou cinco aulas, cem cruzeiros no meu primeiro mês como professor… nada mal.
No sábado seguinte, lá estava eu, violão em punho, sacrificando um dia ensolarado de praia na linha 464 rumo à Tijuca para dar minha primeira aula na vida. Me senti bem dando os primeiros passos para ganhar meus primeiros trocados. Pedi para o motorista me avisar quando o ponto chegasse. Quando desci, segui as informações e consegui achar o prédio. Estava na hora e, nervoso, apertei o botão do apartamento no porteiro eletrônico. Depois de um tempinho ela atendeu e mandou subir.
O apartamento era apertado. A sala era decorada com móveis de fórmica organizados em torno de uma televisão enorme, uma cortina feia cobrindo a janela de alumínio e fotos de família penduradas na parede. A aluna, Marineide, foi uma decepção. Parecendo tonta demais para aprender o instrumento, era mais nova que eu, maquiada mas com um bigodinho mal disfarçado, cheirando a perfume barato, unhas pintadas e com uma blusa semitransparente cobrindo o corpo roliço, ela me convidou para entrar. Em pé na sala, confuso, senti vontade de sair correndo daquela roubada mas me segurei e fui profissional.
Tentando parecer sério, perguntei: “O teu violão?” Depois de um silêncio inconfortável sob seu olhar extra terrestre, continuei. “Você disse que ele está todo desafinado. Posso dar uma olhada?”
“Ah, claro!” Ela voltou a estar presente, mas parecia nervosa. “Ele está no meu quarto. Se importa em dar a aula lá?”
Com uma estranha desconfiança de que o motivo que ela tinha me chamado ali não tinha nada a ver com aprender violão, entrei no quarto apertadíssimo e exageradamente arrumado. O violão estava fora da capa, na cama.
“Tem um banquinho para me sentar aqui no quarto? Prefiro dar aula vendo o que o aluno está fazendo.”
“Claro! Tem um banquinho na cozinha; serve?”
“Serve, claro. Obrigado” Enquanto ela foi para cozinha, tirei meu violão da capa e saí afinando o dela sentado na cama.
Ela voltou com um copo d’agua gelado, mas sem o banquinho. Eu já tinha afinado o violão.
Bebi a agua e toquei uns acordes nele. “Nossa! Tá todo afinado! Ai, estou doida para aprender, você acha ele bom para o meu tamanho?”
“Ele é pequeno, mas vai servir.”
Ela se sentou do meu lado na cama. “Posso experimentar?” Ela passou as unhas afiadas, que eu ia ter que pedir para ela cortar, nas cordas. “Viu? Não sei tocar nada.”
A fim de começar a aula e sair dali o mais rápido possível eu perguntei: “E o banquinho?”
“Você tem certeza de que precisa do banquinho?”
“Sim, não vai dar para te ensinar nada sem sentar de frente.”
“Tá bom, vou trazer, mas posso ouvir você tocar uma música antes de ir lá pegar?” Achei estranho, talvez quisesse me testar, por isso toquei Aquarela do Brasil num arranjo complicado que impressionava.
Quando terminei, dava para ver que ela estava impressionada. “Nossa, gato, como você toca bem!”
Estava pronto para começar a aula. Ela levantou, mas em vez de ir pegar o banco e sem pedir licença, ela se ajoelhou na minha frente se apoiando nas minhas pernas.
“Sabe o que é? É que sou apaixonada por violeiros e quando eu ouvi tua voz no telefone, achei ela tão gostosa que senti que tinha que te conhecer pessoalmente.”
Fiquei sem resposta e sem ação. Depois daquilo, me deu uma olhada safada, tirou o violão da frente, abriu minha braguilha e colocou a mão dentro. As “joias da família” reagiram no ato. Sem pedir permissão, ela baixou meus jeans e aplicou seus talentos. A aula estava encerrada.
Feia, não muito inteligente e deveras comum, a Marineide não fazia o meu tipo mas era safadíssima e só saí de lá tarde da noite. Houve mais “aulas” e, viciado no que estava me dando, atravessei as barreiras de minha vida social esquizoide e acabei a apresentando aos amigos de baseados e de música.
Foi aí que o carro entrou em cena. Num fim de semana prolongado, minha ex-possível aluna tornada amante, colocou o carro do pai dela à disposição para a galera ir para Mauá. Como ela não tinha ideia de como usá-lo, confiou na minha habilidade inexistente como motorista. O entusiasmo levou a melhor sobre o medo O paraíso hippie ficava a quatro horas de carro, duas horas e meia rodando pela rodovia mais importante do país, a Via Dutra, que liga São Paulo ao Rio, e o resto subindo por estradas de terra entre as montanhas e resolvi encarar aquilo sem carteira de habilitação, contando com o pouco conhecimento adquirido com minha mãe em Teresópolis e pelo que tinha ouvido falar. .
Quando o dia chegou, passei a noite na casa dela e partimos bem cedo para a casa de Kristoff para apanhar ele e o resto da galera. Tive sorte, porque de madrugada não havia nem trânsito nem policiamento. Depois de atravessar vários sinais vermelhos, Marineide, que até então não tinha dado um pio, gritou apavorada.
“Rique!!! Você vai entrar numa contramão!”
“Cacete! É mesmo!”
Não pensei duas vezes e virei totalmente o volante. À toda, o carro começou a derrapar, mas os pneus obedeceram, conseguindo evitar por poucos centímetros um poste que pareceu ter passado pela nossa frente em câmera lenta. Por um milagre chegamos no Leblon e pegamos a galera, todos achando graça em segredo da minha garota bigoduda, mas também contentes com a independência de poder viajar de carro. De lá fomos rumo à avenida Brasil e saímos da cidade. Como chegamos em Mauá sem um arranhão permanece um mistério, mas ao sair do carro com as pernas ainda bambas tinha aprendido a dirigir.
Sem nem imaginar a possibilidade dessa aventura, Rafael insistiu que eu pegasse aulas de direção em vez de comprar uma habilitação no departamento de trânsito, o Detran, como todos faziam. O teste que aplicavam era quase impossível de passar; a ideia era forçar a propina. Como estava prestes a viajar de férias, chegamos a um consenso: eu pegaria as aulas e eles pagariam um preço mais baixo para comprar a habilitação sem a prova, em vez de pagar mais caro para que recebesse uma carteira sem nunca ter sentado em frente a um volante.
Depois de duas semanas de aulas, fui à central de testes onde entrei no carro com o dono da autoescola e dois examinadores que mais pareciam membros do esquadrão da morte.
Sem olhar para mim, um dos inspetores virou para trás e perguntou: “Esse pagou?”
O dono curso respondeu afirmativamente.
Depois disso, tive somente que dar uma volta no quarteirão para receber um certificado que me deixaria “preparado” para o trânsito maluco do Rio de Janeiro.
*
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por Mauro Nadvorny | 7 nov, 2020 | Crônica
Em tempos de milhares e milhares de mortos, cresceu a morte no imaginário. Pensar na morte, recordar os mortos, é perceber as cicatrizes no coração que podem sangrar com lágrimas. São os sofrimentos das separações, e quando o desapego é impossível, se revelam os laços eróticos com o morto, e cai à sombra da melancolia. Os queridos mortos vivem na gente, tanto na consciência como no inconsciente, através dos sonhos, sintomas e atos falhos.
O livro de Freud, “Psicopatologia da vida cotidiana”, é o livro dos diferentes atos falhos, que começa com o esquecimento de um nome próprio estrangeiro. É o caso Signorelli, pintor esquecido numa conversa sobre os costumes dos turcos quanto ao sexo e à morte. As causas do esquecimento do nome do pintor são os pensamentos reprimidos: a morte e a sexualidade. Portanto, pensar os mortos envolve conhecer os laços afetivos com ele, as identificações.
Identificação é a mais precoce manifestação de ligação de sentimentos com outra pessoa, é um processo psicológico pelo qual um bebê assimila um aspecto, uma propriedade do outro, e assim tanto se forma como se transforma. A personalidade se constitui pelas identificações com irmãos, tios, todos que são marcantes e integram as identificações de cada um.As identificações são mantidas pelos desejos inconscientes dos progenitores, que marcam cada pessoa já na escolha do seu nome próprio.
Os nossos mortos vivem em nós, às vezes, no erotismo do luto, e nas dificuldades do desapego. Os mortos costumam visitar nos sonhos, ademais a gente, ao envelhecer, fica aqui e ali mais parecido aos progenitores. A questão é como cada um constrói seu espaço próprio, mais livre do poder desejante dos pais. A pergunta “Quem sou eu?”, quem é mesmo cada um, tem a ver com as identificações, a pluralidade das pessoas psíquicas que formam a psique- alma em grego.
No livro “Sobre a morte”, do escritor Elias Canetti, ele escreve que tinha sete anos quando seu pai morreu subitamente em casa. Elias estava na rua brincando e sua mãe gritou várias vezes para ele: “Meu filho, você está brincando e seu pai está morto!”. Elias buscou saber os porquês da morte de seu pai, de quem ele tanto gostava, e para isso sempre tentou averiguar, até que, 23 anos após a morte do pai, sua mãe fez uma confissão. Ela se entusiasmou com um médico que a tratou e contou isso ao pai de Elias, que ficou abalado. O casal discutiu, e no dia seguinte ele enfartou. Canetti foi o Prêmio Nobel de literatura em 1981, e seu livro mais importante foi “Massa e poder”. Durante vinte e cinco anos buscou entender o comportamento humano diante o autoritarismo, em especial as grandes ditaduras da primeira metade do século XX.
Durante quatro décadas escreveu frases reflexivas sobre a morte que foi reunida no seu livro sobre a morte e se opôs sempre ao conceito de que o homem é um ser para a morte. Defendeu que o com ênfase que o homem é um ser contra a morte, que é preciso combater a morte. Talvez fosse uma forma de protestar pela morte precoce do pai, pois escrever sobre a morte é também escrever sobre o pai morto. Sonhou com uma solidariedade entre os vivos contra a morte Diante dos mortos se apresentam muitos caminhos, e cada um faz o que pode com seu cemitério particular. No velório do pai de Michael Jordan, que foi assassinado, o jogador chorava copiosamente e sua mãe disse a ele: “Seja grato, seja grato” e isso o acalmou.
Nossos mortos vivem em nós, e neste ano a pandemia acentuou o medo da morte, e a luta pela vida. Elias Canetti, nas suas reflexões sobre a morte, se revelou um combatente solidário com os seres vivos contra a morte. Todos os profissionais da saúde, todos os seres de bem, deveriam se opor aos governos que trabalham a favor da morte.
por Mauro Nadvorny | 3 nov, 2020 | Crônica
Levanto âncora. Um bocadinho. A sensação é estranha. Depois de sete meses de isolamento espartano, arrisco ir ao supermercado, a uma farmácia, caminho no calçadão da orla, lotado de kamikazes sem máscara. Inseguro, me desvio das pessoas nas ruas, mesmo daquelas que usam máscaras. É uma neura que, desconfio, vai demorar a passar. O mundo virou ameaça invisível, à espera de um espirro imprudente ou uma fresta desleixada. Coisas triviais, como ir ao barbeiro, fazer uma fezinha no bicho ou comprar um engradado de guaraná Jesus, viraram bicho-papão. Caso de vida ou morte.
No início do isolamento, virei atleta de sala-e-quarto. As caminhadas monótonas dentro do apartamento deram lugar a uma esteira, igualmente monótona. A gente anda, anda, e não sai do lugar. Deve haver aí uma metáfora inteligente ou uma conclusão genial, mas não sei qual é. A verdade é que, mesmo com esses exercícios tediosos, não consegui evitar uma pança esplêndida. Devidamente avacalhada pelos netos, que não se cansam de perguntar de onde veio esse barrigão. E dão nele uns tapinhas, confirmando que a visão grotesca não é pura imaginação. Sorrio meio sem jeito.
Já os pássaros parecem felizes. Nas árvores, celebram a vida à sua maneira. Voam, o que está sendo difícil para nós, mesmo como licença poética. Cantam neste tempo ruim, com ou sem nuvens. Agitam-se, numa liberdade que definha nos bípedes sem asas. Procuram seus pares em linguagens coloridas, comunicação interditada nos ninhos pandêmicos, cinzentos e acuados.
As emoções, para variar, flutuam. Não dá para enfrentar essa encrenca viral impávido colosso. A escritora argentina Silvina Ocampo, descoberta recente, diz que somos um compêndio de contradições, afetos, amigos, mal-entendidos. Somos mutantes e carentes, em suma. Um certo isolamento, via aberta à introspecção, é vital para qualquer um. No entanto, o impedimento do encontro, da troca, do toque, empobrece, atrofia e angustia. Acrescente-se a absoluta indefinição de quando vamos conseguir trocar a marcha e estará aí um convite à valsa Mephisto.
Em aulas à distância (ô praga !), minha neta, sete anos, aprendeu a jogar xadrez. Encantou-se com o jogo e me desafiou para partidas virtuais. A cada lance impacientava-se, e então, vovô, não vai jogar ? E eu mostrando que a gente tem que pensar antes de agir, as peças não têm vida própria, há uma coletividade em jogo. Veio o dia em que, nos visitando depois de longos meses de quarentena, ela viu tabuleiro e peças de madeira que, adolescente, ganhei do Grande. Quis levar para casa, sempre leva alguma coisa para nos fazer presentes em seu cotidiano. Pelo menos é assim que interpreto, na persistência narcísica dos analistas de botequim. Daquela vez não deu. O jogo de madeira faz parte do caleidoscópio afetivo que não pretendo liberar. Ao lado de peões e realeza, minha neta começa a aprender que frustração faz parte do jogo.
Quando comecei a aprender a jogar xadrez, ganhei dois livros sobre o jogo. Relíquias que conservo. Reproduções de partidas famosas, a arte da abertura. Adolescente, vivia uma fase de desafio à autoridade, de afirmação não sabia do quê. Nas férias de verão, Ilha do Governador, passava os dias estudando aqueles livros. Quando o Grande chegava, moído pela rotina triste, eu já tinha colocado as peças no tabuleiro e o desafiava para uma partida. Era a situação ideal. Se ganhasse, melhorava meu ranking de entrada na “adultice”. Se perdesse, confirmava a imagem heroica que pintava do Grande. Não sei quantas ganhei, quantas perdi, meu parceiro foi generoso. Ajudou a atravessar o rio tormentoso. Pena que caiu da ponte no meio da travessia.
Como não somos retilíneos, tem gente que permanece adolescente, nesta zona cinzenta, até a maturidade. Desloca conflitos semeados na insegurança dos 14, 15 anos para as relações adultas. Não costuma dar certo. Pior. Pode causar rupturas, às vezes definitivas. Faltou a eles um bom jogo de xadrez na hora certa.
Um abraço. E coragem.
por Mauro Nadvorny | 30 out, 2020 | Crônica
Um rei chamou seu ministro para conversar sobre o chefe dos jardineiros do palácio.
– Acompanho pelas janelas o trabalho cuidadoso dele– disse o Rei –, e me impressiona sua felicidade, mesmo sendo um homem pobre.
– Certamente – disse o ministro –, ele ama a natureza, mas se sua majestade tiver uma moeda de ouro para doar a ele, veremos como reagirá.
O ministro foi ao encontro do jardineiro e disse que o Rei havia doado uma moeda de ouro pelo trabalho que fazia nos jardins do palácio há anos. O homem tímido ficou feliz, pois nunca tivera uma só moeda de ouro em suas mãos. Após alguns anos, o jardineiro seguia trabalhando bem, mas aos poucos o Rei foi notando uma mudança no seu semblante, e com o tempo uma nova metamorfose. Então, após anos, o ministro foi falar com o trabalhador e perguntou como ia sua vida.
– “Estou bem e contente agora, pois cansei de me preocupar com a moeda de ouro. Um dia contei à minha esposa sobre a moeda escondida, da qual ela não sabia, e sua reação foi achar graça da história. Seu suave sorriso me fez pensar que não precisava mais da moeda. Cansei de cuidar do ouro e hoje estou aliviado, tenho uma boa família, e um bom trabalho. Eis a moeda, obrigado”.
Quando o dinheiro passa a ser o maior objetivo da vida de uma pessoa, já está instalada uma certa loucura. Ademais, ao longo da História, o dinheiro esteve também unido à guerra na compra de armas e mercenários. O dinheiro é tão sedutor que pode diminuir a vida amorosa, como ocorreu com o Tio Patinhas que tinha uma imensa caixa forte de ouro, e se banhava nas moedas. Os avarentos se casam com o dinheiro. O conhecido economista inglês J. M. Keynes escreveu que o entusiasmo pelo dinheiro pode ser um sabotador ao revelar propensões criminosas e patológicas. Keynes parece aqui escrever sobre as milícias. O dinheiro não é o vilão, ele é necessário em sociedade, o problema, disse o sábio Mujica, é o tempo que a gente se dedica a ganhar para comprar.
O tema do dinheiro no mundo psi e na cultura em geral, tem sido quase um tema tabu. Isso que Freud escreveu sobre o dinheiro em “Sobre as transmutações das pulsões, especialmente do erotismo anal”. A essência desse escrito de 1917 é uma equação regida pelo “falo”, o significante do desejo quanto a ser ou não ser o falo e tê-lo ou não. A essência da equação entre os vários equivalentes está no falo, que é uma representação do órgão viril que foi pintada e esculpida na Antiguidade. O falo expressa o poder soberano, a virilidade, pois o mundo se constituiu na lei do mais forte e o dinheiro é um dos poderes fálicos da equação. Entretanto, é a mulher hoje que ocupa o centro da vida social, como diz a música de Zé Keti: “Dinheiro pra que dinheiro, se ela não me dá bola…”.
Passados uns cem anos do ensaio sobre as transmutações das pulsões, convém repensar os elementos da equação simbólica. Ademais a palavra transmutações expressa os movimentos das pulsões em busca dos desejos. Quem vive só para enriquecer está fadado a empobrecer seu mundo desejante. Terríveis os que enriquecem a custa das florestas, a custa da fome e miséria dos demais, pois são expressões da crueldade. São os protegidos pelas Forças Desalmadas, que desprezam o amor, estupram a Mãe Terra, idolatram o dinheiro acima de tudo e de todos.
Bem que escreveu o poeta Carlos Drummond de Andrade: “O cofre do banco contém apenas dinheiro; frustra-se quem pensar que lá encontrará riqueza”. A riqueza humana vive e sobrevive em todos os tempos e espaços, como essa que chegou pelos ventos dos Andes. No Chile as mulheres e a juventude lideram a luta pela justiça, a liberdade e a própria dignidade. As lutas pela dignidade passam por pensar que ninguém enriquece com o dinheiro, como o jardineiro da história aprendeu com sua esposa.
por Mauro Nadvorny | 26 out, 2020 | Crônica
A vida é feita de cacos. Quem tentar reuni-los, vai se frustrar. Assim falou Eliav, pai do consagrado coreógrafo israelense Ohad Naharin. Tinha razão. Por mais potente que seja a cola, jamais se consegue recompor o vaso original. A curiosidade científica, no entanto, vive desafiando esta lógica. Arqueólogos são curiosos profissionais, de fragmentos tentam remontar civilizações e rituais, de restos dispersos buscam as pegadas do Homem.
A nave Osiris-Rex, no espaço desde 2016, acaba de recolher amostras do asteroide Bannu, que está a mais de 320 milhões de quilômetros da Terra. Qual é a importância de raspar este pedregulho imemorial ? Acontece que ele é uma espécie de DNA viajante em busca de nada. Na certidão de nascimento consta que existe há 4,5 bilhões de anos, tão velho quanto o Sistema Solar. Em suas entranhas podem existir pistas sobre a gestação da nossa família de planetas. É atrás disso que correm os cientistas. Uma curiosidade tão compreensível quanto aquela que sempre levou o Menino a imaginar Bessarábias e Polônias, origens de uma história que jamais será totalmente contada.
Há nisso aí uma contradição. Enquanto se destrói metodicamente o planeta, extinguindo espécies vegetais e animais, permanece agudo o interesse de responder uma pergunta-chave: de onde viemos ? Não vale, claro, responder com a ironia do Carlos Heitor Cony. Não hesitava na resposta: vim do Lins de Vasconcelos e vou para a Lagoa.
A distância percorrida pela Osiris-Rex equivale a duas vezes a distância entre a Terra e o Sol e mais de 830 vezes a da Terra e a Lua. Estamos vasculhando essa imensidão para recolher algumas gramas de pó e pedra, que só devem estar de volta em 2023. Tudo nessa missão impressiona e mostra a capacidade inventiva da nossa espécie. Atingiu-se um corpo celeste lá nos cafundós com uma precisão molecular. O “beijo”, que durou seis segundos, precisou levar em conta a baixíssima gravidade do asteroide e sua rotação permanente. A margem de erro foi de um metro.
Podemos, então, bater no peito e dizer que somos os maiorais, os reis da cocada cósmica ? Bem, entre o lançamento da Osiris-Rex e seu retorno, terão morrido de fome cerca de 63 milhões de terráqueos. Outros 14 milhões, de diarreia. Somos bambas em olhar outras galáxias, insensíveis para enxergar a vizinhança. Distraídos, pisamos nos astros. E nos corpos.
Vindas de tão longe, guardo a esperança de que as amostras do Bennu, se não desvendarem os segredos da nossa origem planetária, solucionem outros mistérios igualmente transcendentes. Onde está meu time de botões, campeão invicto dos Jogos Infantis, patrocinados pelo Jornal dos Sports, em 1963 ? A escalação ainda sei de cor: Ari, Joubert, Jadir, Bolero e Jordan, Carlinhos e Gerson, Joel, Henrique, Dida e Babá. Onde estão os ossos de Dana de Teffé ? A crônica policial do Rio e, sobretudo, a memória do Cony, merecem uma resposta definitiva. Onde ficou o manual de convivência com os meus mortos ? Um bom rascunho está aqui, bem à mão, no poema Reabilitação, da polonesa Wisława Szymborska. Não basta. Se o roteiro completo estiver perdido no espaço, terei que reconstruí-lo. Quem sabe convidando os espectros para um shnaps amigo ? Pelo sim, pelo não, já vou botando a mesa e separando a garrafa.
Com paciência de monge, espero pó e pedras, emaranhados em mistérios e respostas.
Abraço. E coragem.
por Richard Klein | 24 out, 2020 | Crônica, Opinião, Política
Independentemente da consciência existencial-política, não passava de um garoto pré-universitário da Zona Sul carioca. 1980 seria um ano não só de muita curtição, mas também de contradições. A mais estranha dessas incoerências era que fazer parte do clube de músicos doidões teve um efeito positivo em meus estudos. Não tinha problemas para dormir, não tinha sequelas de stress e, apesar da loucura quase diária, meu estado de espírito era bem mais equilibrado do que o dos colegas caretas. Além disso, quando resolvia estudar, conseguia absorver as matérias.
A nível de galera, com alguns de nós mandado bem no violão e sabendo lidar com a malandragem das ruas melhor do que estudantes comuns, deixamos de ser vistos como os esquisitos da escola para nos tornarmos a galera descolada. As nossas festas eram as melhores e mesmo as garotas mais bonitas começaram a nos notar.
No meio do ano escolar mais puxado de nossas vidas, surgiu uma nova Meca: a região de Visconde de Mauá, uma coleção de pequenos vilarejos rurais aninhados na Serra da Mantiqueira entre o Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo. Quando era criança, a família costumava passar temporadas rurais por lá. Muitas das pousadas tinham sido erguidas por imigrantes do velho continente. Isso e o ar mais temperado faziam com que os arredores lembrassem a Europa Central onde Rafael havia crescido. Ele adorava desfrutar as férias lá com seus filhos de uma maneira parecida com a que passara sua própria infância. Íamos juntos para ver as vacas sendo ordenadas e outros afazeres rurais de manhã bem cedo. Sempre que encontrava uma oportunidade ele parava numa porteira para nos explicar a vida na fazenda, apontando para galinhas, vacas, porcos, perus, ovelhas e outros animais e dizendo como deveriam ser criados.
No começo dos anos 1980, Visconde de Mauá havia mudado muito. Ainda havia famílias indo passar o verão e fins de semana prolongados nas suas pousadas, mas em geral a região tinha se tornado refúgio para os únicos hippies autênticos que ainda existiam no Brasil e talvez no mundo. Com seus cabelos longos e descuidados, suas roupas não convencionais caindo aos pedaços e estampadas com motivos indianos, desenhos de cogumelos alucinógenos e de folhas de cannabis, eram alienados para valer; totalmente fora da sociedade, loucos demais até mesmo para nós.
Suas cabanas tinham um ar de tendas celtas, com desenhos psicodélicos, retratos de Jimi Hendrix, Janis Joplin e John Lennon espalhados nas paredes, ao lado de referências a viagens lisérgicas, letras de músicas e o sempre presente símbolo hippie. Sua intensidade evocava talvez os últimos ecos de Woodstock. Para nós, conviver com eles era como fumar a ponta de um baseado acendido por gigantes num passado neolítico.
Mauá ficava cerca de quatro horas do Rio e nos feriados chuvosos e sem praia, não havia dúvida para onde ir. As montanhas, as florestas e os rios nos faziam sentir próximos de nossos heróis do rock inglês, ou pelo menos do visual das capas de seus discos. Em uma de nossas idas, conseguimos levar algumas garotas da escola. Lidar com membros do sexo oposto na mesma frequência intelectual que a gente era uma enorme novidade. O que era ainda mais constrangedor, é que podiam estar interessadas em nós. Quando as levamos para conhecer uma cachoeira e elas ficaram de topless, nós encaramos sua iniciativa de forma madura conseguindo manter nossas bocas fechadas e sem babar.
À noite, de volta ao acampamento montado no Vale do Pavão, acendemos uma fogueira, abrimos garrafas de vinho e compartilhamos a comida enlatada. O bem-estar do banho forte e gelado na cachoeira tinha aberto nosso apetite. Apesar da comida horrível, o vinho, e principalmente o fogo, criaram uma atmosfera especial. Depois da janta, fomos até as barracas, tiramos os violões de suas capas e nos preparamos para tocar.
“Porra Kristoff, esse baseado está todo babado, toma cuidado!”
“Meu irmão, foi você que apertou ele frouxo demais de novo, coloquei a goma para ver se ele não abria. ”
“Nunca pensei que você fumasse também Leninha, muito bem!” Depois de provavelmente ter dado uma de babaca misógeno, dei uma risada sem graça. “E aí? Está curtindo Mauá?”
“Muito legal aqui, lindo, sem sítios, rústico, adoro coisas assim.”
Uma das outras meninas, a Tetê, falou: “E então, vocês não iam fazer um concerto para a gente? Cadê?”
“Aê! Vamos levar Stairway to Heaven para elas.”
Era uma do Led Zeppelin, fácil demais, quase apelativa, mas a gente sabia que elas iam curtir. Logo na abertura da música, a flauta transversal do Kristoff ressoou no silêncio da mata. Por ser o único som na redondeza, foi uma viagem. A música evoluiu de um estilo medieval para um rock mais pesado. Não conhecia a letra inteira, mas enrolava num inglês convincente.
“There’s a lady who knows, all that glitters is gold…”
O primeiro número foi um sucesso e dava para ver que tinham adorado. Se fôssemos espertos, teríamos parado ali ou tocado só mais uma, talvez Time do Pink Floyd. Mas não, encorajados pela receptividade, partimos para uma improvisação meio jazzística e dali a coisa desandou. Para a gente, os acordes, as levadas e os solos eram um bate-papo sofisticado e emotivo ao qual a gente já estava acostumado. Para as garotas, aquela era uma linguagem que não entendiam e que as fizeram se sentir excluídas. A ideia original era a de impressioná-las, mas o resultado não poderia ter sido mais diferente: elas ficaram olhando umas paras as outras, se perguntando o que diabos estava acontecendo.
Eu era o tipo de cara que nunca sabia quando uma garota estava dando em cima dele, mas apesar da leseira, podia perceber que havia uma tensão rolando entre a Leninha e eu. Embora fosse cara de pau com meninas que nunca tinha visto na vida, era tímido demais com as que conhecia e isso impediu uma aproximação direta naquele contexto. Contudo, tive a malícia de colocar meu saco de dormir ao lado do dela na barraca, pensando que quando ela entrasse, a seguiria imediatamente e uma coisa acabaria levando a outra. Por conta da nossa viagem musical, só a primeira parte saiu de acordo com o plano. Leninha foi para a barraca dormir antes de acabarmos. A segunda parte nunca aconteceu. Quando, horas depois, me deitei ao seu lado e tentei acordá-la, ela não respondeu e fiquei com medo de como reagiria se insistisse.
Na segunda noite, o frio tinha se tornado insuportável. Esquecemos a bobagem roqueira anglo-saxã e um dos caras foi até a Maromba – o vilarejo hippie que ficava próximo – para ver se havia algum lugar para a gente ficar, mesmo que tivéssemos que alugar. Depois de três ou quatro horas, ele voltou com boas notícias: tinha encontrado um quarto, um quarto apenas, para oito de nós e fomos para lá felizes.
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