O morcego na porta principal

Floresce um novo umbigo na barriga do artista (Wislawa Szymborska)

Difícil sonhar cercada pelas carências da Baixada Fluminense. Com horizonte estreito em Belford Roxo, o desejo de compreender e sentir o mundo da arte parecia muito distante. Silvia Schiavone enfrentou transporte precário, livros caros, violências real e presumida. O bacharelato em Artes pela UERJ veio, finalmente, tão suado que parecia um delírio. E então o pesadelo. O mercado, sempre ele, não a queria. Arte ? Cultura ? Quem precisa disso ? Viu-se forçada a trocar sonhos e sensibilidades por vassoura, detergente, balde, sobrevive fazendo faxinas. Semeou sutilezas, aterrissou asperezas.

Sei da falta que faz a invenção da realidade que a arte proporciona. Cresci com pouca música ao redor. Dois discos de vinil, Tchaikovsky e Schubert, eram meu ralo minifúndio. Vitrola de segunda mão na casinha de vila. A pintura flagrada por meus olhos famintos era um quadro imenso, medíocre, na casa dos avós. Uma família aristocrática saudando a chegada do bebê: C’est um fils, monsieur ! Levou tempo para me descolar daquele academicismo barato. Para compreender, como percebeu o poeta Ferreira Gullar, que a arte existe porque a vida não basta. E também que não existe apenas para ocupar espaço numa parede nua.

As celebrações pelo 250º aniversário do nascimento de Beethoven foram abortadas pela pandemia. Ele, um dos maiores gênios de todos os tempos, foi salvo pela arte. Literalmente. Aos 32 anos, atormentado pela surdez progressiva, escreveu um testamento, encaminhado aos irmãos Carl e Johann. É um documento dramático. Fala da angústia de não poder se comunicar, de se ver condenado à solidão, da perda do sentido mais importante para dar vazão à criatividade. Lamenta não poder ouvir a flauta de um camponês ou o canto de um pastor. Pensa várias vezes em se suicidar. No entanto, e é ele quem o diz, deveu “à virtude e à arte o fato de não ter terminado minha vida com o suicídio”. Alguém concebe o mundo, a galáxia, os buracos negros, sem as sinfonias de Beethoven ? Ou seus concertos e sonatas para piano ? A arte não apenas o salvou, mas nos redimiu neste mundo que demanda sentidos.

Quem assistiu o documentário Wild man blues lembrará da cena final. Woody Allen, clarinetista amador, acompanhado de sua banda de jazz tradicional, tinha acabado de voltar de uma excursão à Europa. Lá, seu talento sempre foi mais reconhecido do que nos Estados Unidos. Pois bem, junto com a namorada Soon-Yi Previn vai almoçar com os pais, em New York. O encontro parece ter sido dirigido pelo ectoplasma de Salvador Dali. Papai e mamãe tratam Woody como uma criança deficiente. O pai insiste que ele, cineasta consagrado, teria sido mais bem-sucedido como … farmacêutico ! A mãe subitamente incorpora todas as ídishe mames e critica a escolha amorosa do constrangidíssimo Woody. Seria melhor escolher uma boa moça judia, sentencia a senhora Nettie. A conclusão não pode ser outra: Woody Allen foi salvo pela sétima arte, que lhe deu régua e compasso para fugir daquele universo limitado. À custa de muita terapia e invenção. Taxímetro, ou egoímetro, sempre ligado.

Com a intensificação da saída de judeus da União Soviética, aí pelos anos 80, aconteceu em Israel uma história interessante. Numa repartição pública, um funcionário estava na lanchonete tomando café. De repente, leva a mão ao peito e cai no chão. Imediatamente o balconista o socorre e salva-lhe a vida. Era um cardiologista soviético, que não tinha conseguido se empregar em sua especialidade. Trocou jaleco e bisturi por avental e canudinhos. Como Silvia Schiavone, a moça de Belford Roxo, não conseguiu exercer sua arte.

Antigamente, os adultos ralhavam com as crianças que faziam arte. Era sinônimo de travessura. Pois acho que hoje precisamos, mais do que nunca, de arteiros, de sonhadores barulhentos, do improviso anti-coturno. Há, como bem sabemos, um morcego na porta principal. E ele não está para brincadeira.

Abraço. E coragem.

Coração alegre

A vida está tensa, meio sem graça, a máscara dificulta a respiração. Nem a primavera trouxe o alívio sonhado, diante das angústias na pandemia e da devastação que vive o País. A comunicação é virtual, os amigos não se abraçam, muito menos se beijam, os solitários inventam rotinas, as redes sociais buscam aplacar o tédio. O coração está tristonho, cansado. “Cansado” foi a palavra que um amigo distante escreveu, logo ele, velho sonhador de um mundo melhor e mais justo. Há certa exaustão na luta com poucos resultados, e um sentimento de retrocesso. Entretanto, em algum momento, o céu cinzento se abre, o Sol sorri e o dia se encanta ao som de Mozart. Antes, Kant escreveu sobre a importância que Epicuro deu ao coração alegre e satisfeito. Em francês, tem a expressão “savoir-faire”, que é poética, é a arte do bem dizer.

A grande artimanha da arte de viver é o aprendizado de um refinamento do sentido de humor, e da capacidade de brincar.
Alegria é uma questão essencial na vida e é tão pouco pensada em comparação à tristeza, à dor e às angústias. Quem tem a sorte de conviver com crianças percebe, facilmente, que riem e se divertem muito mais que nós, os adultos. Alguns mantêm a sabedoria da alegria, mas em geral, precisamos reaprender a alegria da infância. Ajuda estar entre as artes ou próximo da criatividade onde é possível encontrar o entusiasmo que dá um colorido especial à vida. Alegria é o deleite, é o gozo diante de algo que ocorre, por isso o poeta William Blake perguntava: “Diga-me o que é uma alegria? E em que jardins crescem as alegrias?”. As crianças dão aulas diárias de risos, desfrutam de suas brincadeiras. Crianças sofrem, choram, mas ainda assim constroem jardins floridos que vibram o cotidiano. A vida adulta é mais séria, os problemas tendem a abafar os sons dos sorrisos.

Conheci em Buenos Aires, na clínica em que atendia, uma mulher marcada pela tensão e um sofrimento sem fim.
A primeira vez em que vi Adela fiquei espantado com seu rosto todo pintado, sua pele branca marcada por cores fortes como o vermelho e o roxo, parecendo uma bruxa. Sentou e começou a contar que se sentia louca, estava isolada em casa, muito abatida, sem ânimo para nada. Falava de forma lenta, suas palavras eram pesadas, um tom tristonho, um semblante sofrido. Era uma mulher obesa, parecia ter saído de uma peça de teatro de terror. Fiquei inquieto, e, ao terminar a primeira consulta, senti um alívio. Foram muitos meses até Adela melhorar aos poucos. Bem aos poucos, foi se animando, acompanhada nos seus labirintos que pareciam sem saída. Entretanto, ao melhorar, ela começou a expressar sua intensa brabeza e uma desconfiança que a levava a estar sempre brigando. Então, começou a interromper o tratamento por suas desconfianças, mas após meses ela voltava, e assim foi durante anos. Quando vinha, estava sempre braba com familiares, perdera o pai cedo, filha única, sem contato com tios e primos, não tinha amigas. Suas dificuldades de convivência eram acentuadas, não lembro de uma só pessoa com tanta dificuldade de estabelecer laços afetivos. Vivia num mundo enlouquecido, a luta foi para não piorar.

Algumas vezes, pensei em dar por terminado o tratamento, mas Adela sempre voltava e não tinha mais ninguém. Um dia foi mudar de telefone e me fez um pedido estranho, que na agenda de pacientes não pusesse seu nome, que não gostava, mas outro. Perguntei qual ela desejava, e me disse o nome de uma avó. Na hora me ocorreu pedir um nome que iniciasse com a mesma letra do seu, pois assim seria mais fácil lembrar que era dela. Então me respondeu: “Alegria, pois quem sabe eu possa me sentir alegre com esse nome”. Fiquei com o coração alegre naquela hora… e também agora.

Ignorância e Morte

A imagem impressiona. No funeral de um rabino ultraortodoxo em Ashdod (Israel), seus seguidores formaram imensa aglomeração. Não seria de espantar se o país não estivesse em lockdown, diante do aumento dos casos de Covid-19. Entre estes religiosos, a proporção de doentes é maior do que na população em geral. Formam uma espécie de Estado paralelo, cujas leis são emanadas de autoridades rabínicas. A lógica, não raro, é de negação da realidade, ou melhor, de criação de uma realidade mágica, paralela, prisioneira de concepções sociais arcaicas, machistas, imobilizantes. Em Israel, mesmo a repressão policial não os convence a respeitar medidas básicas de defesa contra o coronavírus. Se o vírus existe, alegam, com ranço místico, é porque atende determinação divina. Não cabe contestá-la.

O distrito de Brooklyn, em New York, enfrenta um aumento sem precedentes dos casos de sarampo. Parte da explicação tem parentesco com os homens de preto em Israel. Judeus ultraortodoxos, fortemente concentrados na área, recusam vacinar as crianças contra a doença, altamente contagiosa. Muitos se rendem a uma espécie de “fatalismo religioso”: deus é que está no comando, não a vacina. Deve-se aceitar as consequências sem interferir na decisão de “cima”. O resultado é um desastre. Os índices de contágio são altíssimos, o que é facilitado pela elevada taxa de natalidade nestas famílias (média de 8,33 filhos por casal) e a baixa escolaridade secular. Ligam-se, dessa maneira, aos movimentos antivacina que infernizam os serviços de saúde pública e ajudam a matar/incapacitar milhares de pessoas. O deus deles é o deus do sofrimento e do castigo.

Os movimentos antivacina existem desde que se descobriu a primeira, ainda no século XVIII. Na vanguarda da ignorância, sem nenhuma surpresa, clérigos. Em 1772, o reverendo inglês Edmund Massey declarou que as vacinas eram uma “operação diabólica”. No século XIX, o clero português afirmava que gente vacinada recebia o próprio demônio no corpo e suas almas eram roubadas. Entre o povão, espalhou-se o medo de que as vacinas dariam aos vacinados a fisionomia de vaca. Versões mais contemporâneas, embora não menos idiotas, falam de vacinas como vetores de uma conspiração mundial ou indutoras de autismo. Nada que faça o menor sentido. No BNDES, analisei o processo de produção de insulina, na cidade de Montes Claros/MG. Descobri que a mais parecida com a humana é a que vem do pâncreas suíno. Alguém conhece gente que caiu de quatro e passou a dizer oinc depois de tomar uma injeção de insulina? Imagina se os diabéticos vão deixar de se medicar por conta de superstições!

Por que tanta obediência cega a lideranças obscurantistas ? Por que a fé alienante em desinformação e mentira ? Por que a insistência em desconhecer a ciência e a evolução do conhecimento da Natureza ? O Menino passou um fim de semana nas instalações da que viria a ser a Yeshivá de Petrópolis. Uma escola religiosa, inspirada no movimento Lubavitch. Vieram meninos de várias partes do país, quase todos de famílias religiosas. Meninas ? Nem pensar. Neste ambiente, as mulheres são projetadas para obedecer o macho dominante e serem boas reprodutoras.

As lembranças daquele lugar não são boas. Passava-se quase o tempo todo estudando textos impenetráveis, o rebe nem ameaçava sorrir, o clima era pesado. A autoridade era exercida por uma espécie de saber inacessível. Vigorava essa combinação contraditória de temor, fascínio e conforto pela ausência de dúvidas. Como se o universo já tivesse sido decifrado e a chave da compreensão estivesse com o Líder.

Os homens de preto (e uso esse traje como metáfora para dogmáticos de coturno variado) renunciaram ao que temos de mais valioso: pensar. Deixam isso para os “sábios”, o que, como está se vendo, flerta com a ignorância e a Morte.

Abraço. E coragem.

Samba Perdido – Capítulo 19 – Parte 02

 Depois de uma longa espera sozinho na arquibancada, uma voz grave e formal surgiu nos alto-falantes anunciando as bandas e o patrocinador do evento. Depois disso, apagaram as luzes e o estádio ficou parecendo uma caverna gigante cheia de morcegos por causa dos milhares de assobios. Alguns segundos mais tarde, o palco se acendeu e o Weather Report começou tocando Birdland, uma de nossas favoritas, com a lenda viva, Jaco Pastorius, fazendo o solo inicial.

Aquele momento pareceu seguro para acender a preciosidade. Duas garotas bonitas que estavam sentadas ao meu lado pediram um “pega”. Não recusei e o espetáculo começou a parecer promissor. 

Na metade da segunda música, em êxtase harmônico, notei o policial de uma entrada sair caminhando para falar com um colega na outra. Ele foi beirando a arquibancada, mas quando chegou na minha frente, começou a subir abrindo caminho pelos espectadores.

Quando vi aquilo, pensei: “Caralho! O cara está vindo me prender!!”

A única coisa que consegui fazer foi tentar me livrar do baseado com um movimento rápido de dedos. Não fui muito feliz e ele acabou se quebrando ao meio. Uma parte voou longe mas um pequeno pedaço caiu perto do meu pé. O policial chegou na hora H, pegou o flagrante, me algemou e saímos desfilando pela multidão até o lado de fora da arena. 

Na saída do anel do ginásio, nervoso, com raiva e chapado como estava, ouvi a besteira sair da minha boca como se outra pessoa estivesse falando por mim.

“Meu irmão, tu tá fodido porque esse flagrante não é nada e não tenho grana nenhuma para te dar.”

O policial ouviu mas não se deu o trabalho de responder. Ele continuou a me empurrar por um longo corredor cheio de outros guardas até que chegamos numa sala grande e iluminada. Lá, a polícia militar já detinha mais de quarenta pessoas. Logo que entramos, ele me deu um forte murro na barriga.

“Tá pensando que tu pode me comprar, seu babaca! Quero ver você dizer a mesma coisa quando vierem para te enrabar na cela!”

O estômago sempre havia sido meu ponto fraco em brigas, mas devido à adrenalina, não senti nada. Segurando o cassetete na minha cara, o policial vasculhou meus bolsos mas não encontrou nada. Porém, ele ficou com minha carteira de identidade e a entregou para seu superior.

“Sargento, peguei esse jovem fumando maconha no estádio. Também houve desacato à autoridade.”  

“Tem flagrante?”

O policial passou a mini ponta já desfeita. Era ridículamente pouco para levar alguém preso, mas os caras eram campeões em fabricar provas. Atrás de uma escrivaninha, o sargento me encarou, examinou o documento e preencheu um formulário. Depois, colocou a ponta num saquinho de plástico, grampeou junto com os papéis e me olhou de novo. 

“Sabe o que isso aqui significa? Cana!”

Engoli a seco, e não querendo dizer o mesmo tipo de besteira que tinha falado antes, respondi olhando para baixo: 

“Sim senhor.”

“Me explica o desacato, cabo. ”

“O infrator deu a entender que eu aceitaria propina para que não fosse detido.”

O sargento continuou me olhando impassível. “Bom serviço, cabo, agora volte ao seu trabalho.” 

O mulato magro, de bigode, com uma cara invocada saiu da delegacia improvisada. O sargento se voltou para mim. “Vai lá e fica com os outros, a gente só vai levar vocês depois que o show acabar.”

Com as palavras “levar vocês” ecoando na cabeça, fui me juntar aos meus novos companheiros espalhados pela sala. Conversando com outro detido, descobri que havia três tipos de pessoas lá dentro: os que tinham sido pegos pulando para a plateia, maconheiros e dois assaltantes. Era evidente quem eram; eles estavam algemados e sentados no chão junto a um grupo de policiais. De vez em quando, um se virava e lhes dava um chutão violento com as botas de couro antes de retomar à conversa como se nada tivesse acontecido. O resto de nós ficou fazendo de conta que aquilo não estava acontecendo enquanto quebrávamos a cabeça para encontrar uma saída para a situação.

Aquela era uma jurisdição diferente da Zona Sul. Mesmo que tivesse alguma grana, os policiais não estavam com cara de quem aceitariam suborno e até a sugestão poderia ser um erro grave, como já tinha percebido.

Após uma meia hora ali, um argentino magro com um cavanhaque desgrenhado começou a puxar conversa com um novo sargento que tinha vindo render o que tinha me colocado ali.

“Sargiento, con todo o respecto, o señor acha corecto que yo tenga vindo desde Argentina para ver un show de música e me quedar preso en otro país por una cosa tán banal?”

Apreensivos pela integridade física do argentino, ficamos surpresos não só porque o sargento, um sujeito grisalho, mas em forma, respondesse educadamente, mas com inteligência. “Meu caro, eu tenho um filho da tua idade. Acredito que ele não fume maconha, mas espero que se saia tão inteligente e educado como você. Para falar a verdade, acharia errado ele estragar o seu futuro por causa de uma decisão errada. Mas veja bem, a gente não pode fazer uma exceção. A lei vale para todos. Se a gente deixar vocês irem, o mesmo vai ter que valer para um monte de marginais.”

“Mas e se o señor descobrisse que su filho fosse un alcoólatra, piensaria diferente?”

“Boa pergunta, mas uma coisa não tem nada a ver com a outra. Beber álcool, por pior que seja, não é contra a lei. Mas para te responder, tentaria entender o que levou meu filho a ficar assim e quem sabe o levaria a uma clínica. Mas entendo o que você quis dizer. Não posso comentar sobre a lei porque não sou eu que a fiz. Mas acho que a gente gasta recursos demais para reprimir jovens como vocês. Isso acaba muitas atitudes erradas dentro da corporação.” Quase não dava para acreditar no que a gente estava ouvindo.

Uma roda tinha se juntado em torno do sargento gente fina. Um brasileiro que parecia da Zona Sul se meteu na conversa, talvez precipitadamente. 

“Então o senhor acha certo prenderem a gente?”

“Filho, veja bem, você conhece a lei em torno da cannabis?” O cara balançou a cabeça dizendo que sim. “Então me diz aí, o que diz a lei?”

O cara, meio pego de surpresa e meio sem jeito, teve que responder. “Ela diz, por razões incomprovadas e erradas, que fumar maconha é um crime.”

“Viu!? Você disse tudo sem eu precisar explicar. Vocês cometeram um crime, independentemente dos estudos e mesmo da verdade. O nosso dever é reprimir o crime e é por isto que vocês estão aqui. Quem resolve não cumprir a lei tem que arcar com as consequências, você não acha?”

O argentino respondeu. “E se a lei está errada, como vamos a cambiar esto?”

“Se ela está errada ou não, não é da minha nem da tua alçada, a lei está aí para ser cumprida.” Ele deu um sorriso inteligente. “Já imaginou se todo mundo resolvesse desrespeitar a lei e os prejudicados fossem vocês? Para onde vocês iam correr? Para a polícia! Estamos aqui para isso, para fazer a lei ser cumprida.”

A discussão continuou. Ele aceitou os argumentos de que os cigarros também eram tóxicos – talvez muito mais – porém circulavam livremente porque traziam milhões a seus fabricantes. O mesmo valia para bebidas alcoólicas. No entanto, os argumentos dele sempre voltavam à ladainha de que conhecíamos a lei perfeitamente bem e que nosso dever era respeitá-la. Chegou uma hora que até o argentino, certamente preocupado em se safar de ser preso em um país estrangeiro, percebeu que ganhar o argumento levaria a nada. O importante era manter a sua simpatia para sair dali o mais rápido possível.

Enquanto isso, podíamos ouvir o som abafado do show do outro lado da parede. Depois de algumas horas, os aplausos e o barulho pararam e o clima dentro da sala se tornou apreensivo. Um oficial de patente mais alta chegou e se sentou atrás da escrivaninha enquanto o sargento nosso amigo saiu. Depois de alguns minutos tensos, sem sequer olhar para nós, ele se virou para o seu assistente.

“Cabo, os infratores que foram pegos pulando para as cadeiras especiais podem ir para casa, o resto vai passar a noite na décima terceira.”

Meu coração chegou a parar. Já podia ver os policiais ligando para que meus pais fossem me tirar da cadeia e fiquei imaginando a sua decepção deles e as medidas draconianas. Depois que saíram, os que ficaram para trás sentaram no chão deprimidos, esperando o pior. 

Depois de uma silenciosa meia hora que pareceu uma noite inteira, o oficial chamou seu assistente e também sem olhar para ninguém, falou. 

“Cabo, pode dizer para essa cambada de maconheiro veado que eles podem ir para casa também.”

A gente não acreditou nem pensou duas vezes. Nos levantamos e fomos em direção à saída. Um dos policiais que estava dando bico nos ladrões, um baixinho metido a piadista, abriu a porta para a gente e falou: “Bonecas, é melhor sair batido antes que o capitão mude de ideia. ”

O capitão virou para os ladrões já cheios de hematomas. “Esses aí ficam, pode chamar a viatura.”

Quando cheguei no ponto de ônibus, me lembrei da carteira de identidade. Procurei nos bolsos e ela não estava lá. Entrei em pânico. “Seu imbecil!! Como é que você deixa a porra da carteira com a polícia!?” 

Embora fosse estupidez demais para ser verdade, tive que voltar. Depois de perguntar um monte e passar por centenas de policiais, cães, carros e caminhões de transporte, finalmente achei a sala onde tinha ficado. Me sentindo um retardado, fui forçado a explicar a situação constrangedora.

O guarda que estava ali ouviu incrédulo. “Tem certeza, playboy? A gente nunca fica com os documentos.”

“A carteira não está comigo, a única possibilidade é que ela tenha ficado aqui.”

Meio sem paciência ele perguntou: “Você pelo menos se lembra do nome do oficial de plantão?”

“Acho que ouvi alguém chamando ele de Teixeira, mas não tenho certeza.”

“Ah, o Capitão Teixeira! Não sei se ele já foi, deixa eu ver se acho.”

Fiquei esperando na sala vazia por mais uns quinze minutos com um mistura de apreensão e de auto-aversão. Acabou que tinha lembrado certo. O capitão Teixeira, um cara grande, bronzeado, de cabelo raspado e com cara de traficante colombiano, entrou na sala e fez questão de me olhar de em cima a baixo com desprezo.

“Então, jovem, esqueceu a carteira de identidade aqui?”

“É, desculpa o incômodo.”

O capitão ignorou o comentário. “Não me lembro de ter deixado nenhuma carteira identidade aqui. Deixa eu ver.” Ele pegou uma chave e abriu a gaveta. “É, não tem nada aqui dentro e a gente não levou nada. Tem certeza que não está no teu bolso? Procurou direito?”

“Procurei, não está lá.”

“Procura de novo para eu ver.” O cara falou com uma autoridade que não dava para dizer não.

Procurei de novo e não é que a carteira estava lá! 

“Achou?”

Envergonhado, tive que admitir o óbvio. “É, está aqui.”

O capitão não achou graça nem ficou puto, só virou para o cabo que estava com ele e disse. “Viu porque é que eu digo que fumar maconha faz mal? Dá uns troços desses aí.” 

Ele virou para mim e pediu para cheirar meus dedos. “Não tem cheiro de nada nem deve ter flagrante, mas deixa de fumar essa merda, garotão! Isso só dá problema! Teus pais sabem?”

Eu respondi que não. Antes de me liberar ele me encarou e avisou: “Pensa bem no que eu vou te dizer. Dessa vez a gente só não levou vocês porque tinha gente demais. Na próxima, talvez você não tenha tanta sorte.”

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Companheiro Comandante  Che Guevara

Em 1973, eu então com 15 anos, fui visitar minha família na Argentina. No Brasil estávamos em plena ditadura, o usurpador que se dizia presidente era Emílio Garrastazu Médici. Seu governo foi marcado especialmente pela mínima tolerância de atividades políticas, muita repressão, censura total e uso sistemático da tortura e assassinatos de opositores. Por tudo isso e muito mais, ficou conhecido historicamente como “Anos de Chumbo”.

Na Argentina se vivia um retorno à democracia. Naquele ano eles tiveram 4 presidentes! Quando estive lá, ainda era Alessandro Augustín Lanusse e se seguiram: Héctor José Cámpora, Raúl Alberto Lastiri e Juan Domingo Perón. Os “Hermanos” viviam uma turbulência política, recém saídos de uma ditadura, ainda tentavam começar uma democracia.

Minha família argentina era formada por sobreviventes do Holocausto. Na verdade, havia uma relação por parte da minha mãe que era prima de quem eu chamava de tio. Por conta disso, seus filhos eram para mim como primos e assim nos tratamos até os dias de hoje.

Na mesa durante as refeições só se falava de política. Discussões acaloradas sobre o destino da Argentina e do Brasil. Naquele ano o ERP (Exército Revolucionário do Povo, fundado em 1970) se convertia em uma força guerrilheira com o objetivo de tomar o poder e tornar primeiro a Argentina, depois a América Latina, Socialista.

E havia também os Montoneros, outra organização marxista, mas que se dizia Peronista. Por ironia, María Estela Martínez de Perón os declarou um grupo terrorista e ilegal.

Toda aquela efervescência política era um bálsamo para meus ouvidos. Meus olhos brilhavam diante dos embates entre os membros da família, a favor e contra o governo, e claro, dos grupos guerrilheiros.

Eu tinha planejado levar para o Brasil tudo o que pudesse comprar relacionado a esquerda. Coisas que eu pudesse repassar. Eu e meu primo, um ano mais velho, marcamos um dia para sairmos e buscar os tesouros que eu tinha em mente. E o dia chegou.

Buenos Aires era famosa por suas livrarias. Podia-se passar horas dentro de algumas delas e não ver tudo. Aquele cheiro característico de livros sendo abertos e manuseados me inebriavam. Sempre gostei de ler.

Havia também as lojas de discos. Vinis, é claro. Imensas, com vários andares e prateleiras a perder de vista. Era preciso muita paciência para se encontrar o que se buscava, e que muitas vezes, se encontravam sob o balcão dos donos.

Nossa primeira investida foi as livrarias. Não demorou muito para eu encontrar o que buscava: O Manual do Guerrilheiro de Che Guevara. Também comprei mais algumas preciosidades que não se podia comprar no Brasil. Meu primo, atônico me perguntava como eu pretendia levar aquilo para o Brasil, mas eu já tinha um plano pronto. Chamei o dono da loja e pedi a ele outros livros com o mesmo formato e número de páginas. Ele logo compreendeu, assim como meu primo. A ideia posta em prática foi trocar as capas.

Dali seguimos para as lojas de discos. Sabendo procurar e com muita paciência encontrei o que buscava. Canções de protesto latino americanas, discursos de Fidel Castro e canções cubanas. Nem preciso dizer que utilizei o mesmo método. Comprei junto alguns discos de música clássica e troquei as capas.

Por fim, a cereja do bolo para mim. Fomos a uma loja de Posters e lá estavam eles. Posters de Che Guevara. Clássicos, mostrando seu rosto com aquele sorriso cativante e seu boné. Comprei dois. Desta vez não havia como trocar as capas, então comprei junto mais uma meia dúzia de posters da Charles Chaplin que foram colocados por cima e enrolados todos juntos. Eu já tinha meu tesouro comigo.

Não disse nada aos meus tios para que não surtassem, meu único cúmplice era meu primo que estava achando tudo aquilo maravilhoso. Eu me sentia um verdadeiro revolucionário.

Chegou a data da volta e não tive problemas para embarcar. Foi como um teste quando olharam para minha bagagem e não deram maior importância. Eu esperava que o mesmo ocorresse na chegada a Porto Alegre.

Desembarcando, entrei na fila para revista de bagagem. Eu era muito magro, cabelo loiro cumprido, um típico adolescente daquela época. Quando chegou a minha vez, o policial pegou os livros e apenas folheou um deles, olhou para os discos e nem tocou neles. Enquanto isso em tinha engrenado uma conversa mole sobre voltar para casa, ver meus pais que estavam logo ali me aguardando, e então ele pegou os posters. E resolveu abrir o rolo.

Neste momento achei que talvez ter trazido todo aquele material, talvez não tivesse sido uma boa ideia. Será que ainda poderia me despedir dos meus pais antes de me levarem preso? Será que o fato de eu ser menor poderia ser um atenuante?

Então ele olhou para o primeiro poster de Chaplin ali no rolo espichado e aberto sobre a esteira, levantou a ponta para ver o segundo, e fechou tudo me dizendo que adorava os filmes dele.

Foi um alívio e concordando com ele, peguei minhas coisas e saí para encontrar meus pais que não imaginavam o que eu havia feito. Somente em casa, que tomaram conhecimento e incrédulos me repreenderam duramente, aliás com muita razão. Do ponto de vista deles eu poderia ter colocado todos em uma situação delicadíssima, o que de certa forma era verdade. Mas cá entre nós, eu tinha aquela sensação de quem havia desafiado a ditadura e havia vencido. Totalmente irresponsável sim, mas muito feliz por haver trazido material “subversivo” para ser compartilhado.

Os livros foram devorados, os discos escutados a exaustão e os Posters colocados no meu quarto, longe da janela. Só quem entrava tinha a visão de Che Guevara. Logo meus companheiros estavam lendo e escutando tudo aquilo que era proibido pela ditadura militar.

Conto esta história como forma de homenagear meu ídolo desde a juventude. Esta semana se completou 52 anos de seu assassinato na Bolívia. Morreu um herói, permaneceu um ideal. Sua trajetória de vida é uma inspiração para todos que lutam por uma sociedade mais justa.

Fica aqui minha homenagem com a letra traduzida da canção “Hasta Siempre”, de 1965, escrita por Carlos Puebla, uma das que eu trouxe comigo naquela viagem.

Aprendemos a querer-te
Desde a histórica altura
De onde o sol de tua bravura
Lhe pôs cerco à morte

Aqui fica clara
A fechada transparência
De tua querida presença
Comandante CHE GUEVARA

Sua mão gloriosa e forte
Sobre a história dispara
Quando toda Santa Clara
Se desperta para ver-te

Aqui fica clara
A fechada transparência
De tua querida presença
Comandante CHE GUEVARA

Vem queimando a brisa
Com sóis de primavera
Para plantar a bandeira
Com a luz de seu sorriso

Aqui fica clara
A fechada transparência
De tua querida presença
Comandante CHE GUEVARA

Teu amor revolucionário
Te conduz à nova empresa
De onde espera a firmeza
De teu braço libertário

Seguiremos adiante
Como junto a você seguimos
E com Cuba te dizemos
Até sempre COMANDANTE

 

 

 

 

 

Eu sou uma pergunta

“Eu sou uma pergunta”, escreveu Clarice Lispector. Escrever desde os treze anos até morrer foi a forma dela buscar as respostas para suas perguntas. Clarice escreveu que era uma pergunta, e concluiu: “Sou tudo que não tem explicação/Sou alguém em constante construção”. É uma das maiores escritoras brasileiras, que será recordada no centenário de seu nascimento neste fim de ano, e sua editora já tem prontos os livros com novas capas. Um documentário sobre os cem anos de Clarice está no YouTube, e muito mais vem por aí. O tempo passa, sua obra permanece, ou melhor, cresce ano a ano com teses, ensaios, pois suas histórias, e perguntas seguem tocando os leitores.

O valor da pergunta foi estabelecido por Sócrates, passando pelos sábios talmúdicos e a história da ciência. A frase “eu sou uma pergunta” é uma das chaves para entrar no mundo misterioso de Clarice, como definiu o poeta Carlos Drummond de Andrade no dia seguinte à morte dela: “Veio de um mistério/partiu para outro”. Os mistérios que tocam a alma dos sofredores, dos perseguidos, dos angustiados em um mundo desamparado. Clarice teve a coragem de virar a vida ao avesso, a coragem de uma pensadora que viveu em constante construção, como escreveu, mas também, a partir de algum momento, em constante destruição. Sua tendência sofredora evoluiu, e seu analista disse que, mesmo sendo fantástica, nunca vira alguém com tanta ansiedade. O mesmo disseram alguns de seus amigos, e a própria Clarice confessou que não se aguentava, e aos poucos foi se sentindo cada vez mais só e abatida.

Comecei a ler Lispector pela sua crônica “Pertencer”, e fiquei impressionado com seu desejo de castigo: “Minha mãe já estava doente, e, por uma superstição bastante espalhada, acreditava-se que ter um filho curava uma mulher de uma doença. Então fui deliberadamente criada: com amor e esperança. Só que não curei minha mãe. E sinto até hoje essa carga de culpa: fizeram-me para uma missão determinada e falhei”. O pensamento de sua vida foi dominado por crenças mágicas que curavam as doenças, e Clarice nunca ocultou seu misticismo. Ela bebeu no Judaísmo familiar, no Cristianismo do Brasil, nas cartomantes e fortaleceu suas crenças, que também justificaram sua necessidade de castigo. Em seu conto “A felicidade clandestina”, escreveu: “A felicidade sempre iria ser clandestina para mim”. A escrita foi sua saída vital: “Eu escrevo e assim me livro de mim e posso descansar” e “Sou tão misteriosa que não me entendo”. Leio Clarice e sinto vontade de abraçá-la, mas me sinto também abraçado, pois ela fala dela, fala da gente.

O estranho do qual tanto escreve Clarice, vive nos sonhos, ela revela o estranhamento, pois todo ser humano é habitado pelo desconhecido inconsciente. O estranho da escritora está também na crueldade como ela tão bem expressa na sua denúncia da violência em sua obra. Aliás, em 1968 esteve na primeira fila na famosa passeata dos cem mil no Rio de Janeiro contra a ditadura. Hoje está traduzida em trinta idiomas com sucesso crescente, porque os mistérios de Clarice são os mistérios da desconcertante condição humana. Às vezes, só às vezes, penso no absurdo do homem, como escreveram Kafka, Camus e a própria Lispector.

Na sua lápide no Cemitério Israelita está escrito seu nome em hebraico, Chaya, como determina a tradição judaica. Sua frase “Eu sou uma pergunta”, poderia ser estendida para nós, que também somos perguntas a começar pelos enigmas do nome próprio. Felizmente as crianças brincam, o mundo canta, e transforma parte do absurdo em graça, criam um mundo espirituoso, como essa pergunta de Clarice: “O que é uma janela senão o ar emoldurado por esquadrias?”.