No país dos Silva

Ganamos, perdimos/igual nos divertimos (canto de meninos uruguaios, depois de uma pelada; recolhido por Eduardo Galeano)

Era o tipo do jogador elegante. Peito erguido, olhos na horizontal, visão ampla do campo, leve no toque e na percepção das jogadas. Silva, que apelidaram Batuta, era o atacante com finesse. Uma espécie de Didi com faro de artilheiro. A começar pelo nome – éramos conhecidos como o país dos silvas -, tinha a cara de uma época do futebol brasileiro, aberto ao drible, à molecagem cômica, à paixão pela camisa. Quando existiam treinadores, fronteiras do folclore, e não técnicos, que maltratam a poesia e a brincadeira em benefício da burocracia. Silva morreu semana passada, aos 80 anos.

Tive o privilégio de vê-lo em ação, em momentos emocionais antagônicos. Meados dos anos 60, o Flamengo saía da fila depois do tricampeonato 1953/55. Não era um time de craques, o campeonato carioca era bastante equilibrado. Patrocinado pelo bicheiro Castor de Andrade, o Bangu montou um esquadrão potente. Os mais rodados lembrarão do ponta Paulo Borges, do goleiro Ubirajara (baixinho, mas com enorme elasticidade), dos meio-campistas Jaime e Ocimar. Tinha sido vice-campeão em 1965, ultrapassado pelo Flamengo nas rodadas finais. Vi o último jogo do Fla, contra o Botafogo, para entrega das faixas, com Silva em campo. Euforia e festa no velho Maraca.

Em 1966, Bangu e Flamengo se enfrentavam na rodada final, com os banguenses tendo a vantagem do empate. No dia do jogo, Henfil, rubro-negro siderúrgico, fez uma charge genial. As duas torcidas apareciam entrando na rampa de acesso às arquibancadas. Do lado proletário (assim se costumava chamar os banguenses, originários de um bairro que tinha uma grande fábrica de tecidos), uma faixa: Desta vez vamos ! Do lado oposto, a faixa rubro-negra: Vão nada ! Tempos em que as torcidas podiam entrar juntas no estádio, sem ameaçar as vísceras adversárias.

A expectativa era enorme e o Menino estava lá. Sozinho, mas não solitário, fundido na multidão multicolorida. O jogo começa equilibrado. Silva quase marca, dando um alento à massa torcedora. Mas não era o dia. O Bangu controlou as ações e se aproveitou da fragilidade do goleiro flamenguista Valdomiro (um dos piores da história rubro-negra). E foi enfileirando gols. Um, dois, três. Abriu-se no horizonte a perspectiva de uma derrota humilhante. Almir Pernambuquinho, atacante do Flamengo, enfezado, bom de bola e criador de casos, cumpriu a promessa de que não deixaria o Bangu dar a volta olímpica de campeão. Armou um sururu federal, que envolveu praticamente todos os jogadores em tesouras voadoras, diretos no fígado, cotoveladas nos países baixos. Expulsões a rodo, o jogo estava terminado. Os protegidos de Castor levaram o caneco.

Durante o grande barraco no gramado, houve um momento tenso. Parte da torcida flamenga se levantou em bloco na arquibancada e começou uma correria de manada. Se continuasse, haveria uma tragédia de pisoteados. O Menino arregalou os olhos e, como se adiantasse alguma coisa, agitou os braços e gritou: Para ! Para ! Por breves momentos acreditou em magia. A massa aquietou, no que … pernas para que te quero. O Menino fugiu do Maraca, despedindo-se, melancolicamente, do Silva. Os próximos encontros já seriam na era Zico. Mas isso já é outra história.

Termos como keeper, off-side, corner, guarda-valas, beque, estão aposentados. Também foram arquivados os apelidos que sempre deram sabor ao futebol: de Ratinho a Peixe-Galo, de Shampoo a Carabina, de Ditão a Rompedor. Hoje, o desfile é de estranhíssimos Rhuan, Ytalo, Maicon e registros civis completos. Com a hiperprofissionalização, definha o riquíssimo folclore que gerou os Neném Prancha, João Saldanha e Gentil Cardoso. Quem é que se anima a contar causos sobre os carrões, os penteados e as pegações das celebridades que chutam bola ?

Abraço. E coragem.

Almas Penadas, Grupo Molejo, Bauman

“Inocente, apaixonados

Eu tava crente, crente

Que iria viver uma história de amor

Que cilada

Ela me machucou

Ela abusou do meu coração

Não era

Não era amor, era

Cilada”

 

(Grupo Molejo)

Iniciamos a história da minha jovem amiga com fragmento de música do Cazuza. Terminamos falando sobre Sophie Calle. Porém, depois de tudo que li e pesquisei nesses últimos dias, só o pagode do Molejão consegue dar conta do que vou escrever.

Duas conclusões iniciais: Ao contrário do que eu imaginava, o numerozinho circense do desaparecimento online é extremamente corriqueiro. Não ter consciência desse fato é só a prova de que o tempo está passando sobre mim como um trator. Quanto à minha amiga, ponho a culpa nos anos de namoro, quando se viu solteira não tinha ideia de que seria atirada na selva.

Minha primeira atitude para entender alguma coisa foi jogar no Google: “Bloqueios de pessoas amadas no Whatsapp”, ou algo assim. Li mais de cem depoimentos. Percebi que a maioria das bloqueadas era do sexo feminino, mas havia homens também. Quase totalidade de jovens. Só depois confirmei em uma pesquisa que essa prática é muito comum entre os millennials, pessoas que nasceram entre 1979 e 1995. Algumas histórias me chamaram mais atenção do que outras. Exemplifico: Uma moça, cujo relacionamento já tinha migrado do mundo virtual para o real, com saídas que deixaram de ser simples ficação e caminhavam para o namoro. Às seis da tarde, ele mandou uma mensagem via Whatsapp: “Estou saindo do trampo, louco prá chegar na tua casa e sairmos”. Ela se produziu, à espera da chegada do moço. Quando deu 20:00, tinha sido bloqueada. A outra, uma jovem que estava namorando uma moça há meses, relacionamento tranquilo, estável, até que a namorada fez a proposta de noivarem. Ela encomendou as alianças, levou o jantar preferido do casal e ia fazer a surpresa, já que tinha a chave do apartamento da futura nubente. Lá chegando, foi comunicada pelo porteiro que o apartamento estava vazio, a futura noiva havia se mudado no dia anterior. Como a moça era do norte do país, portanto dividiam os amigos dela em São Paulo, não havia ninguém que pudesse dizer o que aconteceu. O pior se deu quando olhou para o celular e viu que tinha sido bloqueada em todas as redes. Desesperada, ligou para a ex-futura sogra no Pará e essa comunicou fria e laconicamente que a filha havia mudado para a Irlanda e ordenado à família que não falasse nem a cidade que estava, nem que desse um meio de contato. Essa moça precisou de mais de dois anos de terapia. O terceiro caso foi de uma carioca, que mantinha um relacionamento com um americano há dois anos. Sempre se encontravam, faziam planos de se casar, a moça era bióloga pesquisadora e estava com tudo certo para fazer um doutorado numa universidade dos EUA. Ela falou com ele no domingo, por videochamada, ele alegou cansaço, disse que falariam no dia seguinte. Na segunda, ao acordar, viu que estava bloqueada em todas as redes sociais e a única notícia concreta que teve dele foi que ele mudou não apenas de casa, como também de estado.

O fato é que essa situação gera sofrimento imenso, pois não há um ponto final, não há explicações, não há um adeus, o que por si só já seria extremamente doloroso. Essa atitude tem um nome: ghosting. Derivado do inglês ghost, o termo tem sido usado como uma forma de terminar relacionamentos em que a pessoa desaparece como um fantasma, deixando de responder às mensagens dos aplicativos, às redes sociais, eximindo-se de qualquer situação. É o velho “saiu para comprar cigarros e nunca mais voltou” na versão digital.

Ora, traições, juras mentirosas de amor, ilusões perdidas, nenhuma novidade, existe desde que o mundo é mundo. Nada de novo no front. Quem sou eu para dizer que na minha época enganações não existiam? A melhor história que conheço é a de um senhor que só tenho uma coisa a dizer: “Ainda bem que ele vivia no mundo analógico”. Vale a pena narrar o fato.

Tenho uma grande amiga cuja família migrou do interior de Sergipe para o Rio, foram morar na Baixada Fluminense. A matriarca com suas 5 filhas. A mais velha, noiva há dez anos, preparava-se para se casar. Quem não conhece os percalços de casamento de pobre, não sabe nada da vida. Partindo-se do princípio de quem casa quer casa, é uma verdadeira epopeia. Enxoval comprado aos poucos, carnês de geladeira, armário, cama, sofá, fogão, pagos com sacrifício e se contando sempre com o espírito comunitário que só se vê nas periferias: Com a falta de espaço na casa da família dos noivos, sempre tem uma boa alma que cede um quartinho para colocar o sofá novo ainda coberto de plástico, outro empresta a garagem para ir juntando o mobiliário, enfim… Finalmente o casal conseguiu alugar a tão sonhada casinha. Tudo pintadinho, móveis montados, no maior capricho. Faltando uma semana para o casal consumar o esperado enlace e ir, finalmente, usufruir de seu ninho de amor, o noivo, com a sutileza de uma mula, virou para a tia da minha amiga e comunicou: “Não vamos nos casar. Estou apaixonado por outra mulher, ela está grávida e eu vou assumir ela e a criança”. Se Angela Ro Ro disse que a vida de Rimbaud comparada à dela era a vida do Pato Donald, a vida de um desses Gasparzinhos bloqueadores comparada a isso é mais pueril que história da Luluzinha.

Festa suspensa, muito choro, a tia da minha amiga ficou tão desgostosa com a vida, que como apossada de uma Scarlett O´hara segurando um nabo, disse alto para quem quisesse ouvir: “Nunca mais homem na minha vida”.

Acontece que, como disse Platão, a vida é um Kinder ovo, né, mores? Agradáveis ou não, surpresas acontecem. Eis que um rapaz cego de nascença apaixonou-se por ela e começou insistentemente a fazer-lhe a corte. Ela bem que se esquivava, mas ele não dava trela. Mandava flores, fazia serestas em sua janela com um grupo de amigos músicos, um gentleman. Encantada com tanta delicadeza, achou por bem unir o amor à razão. Tivesse lido “Sonhos de Uma Noite de Verão” do bardo inglês, intuiria que a razão e o amor quase não andam juntos. Amava-o, é bem verdade, mas depois de escaldada, colocou o cérebro na frente do coração. E no que imaginava ser racionalidade, o que a levou a esse casamento foi: “Como é cego, nunca vai me sacanear”.

Casaram-se, tiveram três filhos, ele dividia a semana entre a Urca, trabalhava no Instinto Benjamin Constant e Belford Roxo, com mulher e filhos. Final da história? Ele tinha duas famílias. E durante vinte anos conseguiu administrar tão bem a situação que uma família não sabia da outra. Lembro como hoje da narração dessa história pela avó da minha amiga. Uma senhora sertaneja, prima de Maria Bonita, cuja nossa maior afinidade era saber rir daquilo que os demais acham a beira da desgraça. Com uma gargalhada gostosa e aquele sotaque delicioso, ela assim finalizou a história da própria filha (para os mais sensíveis, saibam que foi de forma nada politicamente correta, lembrando que se viva ela fosse hoje teria mais de cem anos): “Por isso que eu digo minha filha, D’us marca para não perder de vista. Imagina se esse homem não fosse cego? Ia ter um harém”. Podemos, nessa hora, em homenagem ao deficiente visual seresteiro, entonarmos em uníssono a linda música do Mestre Lupicínio Rodrigues: “Esses moços, pobres moços, ah se soubessem o que eu sei”. Com um talento desses, smartphone para quê, não é mesmo? Amadores.

Voltando ao assunto dos bloqueios, o que me deixou intrigada foi o porquê dessa prática estar ocorrendo com tanta frequência? Não estou falando de encontros esporádicos, ou relações que não saem do terreno virtual. E, sim, de pessoas que tiveram convivência no mundo real, dividiram a vida, por que lançam mal desse expediente?

Como disse anteriormente, não sou nenhuma estudiosa dos teóricos da contemporaneidade. Escrevo entre o susto e as impressões, com alguma leitura para não correr o risco de virar um Caio Coppola num debate da CNN e vocês me acusarem, como fazia com ele a Gabriela Prioli, de dar opinião de “orelhada”. Sinto que esse é um tema sério, que deveria ser estudado por uma equipe multidisciplinar, formada por psiquiatras, estudiosos da tecnologia, psicólogos, antropólogos e tal. Aqui é apenas uma crônica, bem despretensiosa.

O que posso falar é que há uma série de fatores que se entrecruzam e, no que toca às relações amorosas, com toda essa nova configuração de mundo, está havendo uma ressignificação visível. Poderia passar horas aqui dissertando sobre as características da sociedade contemporânea, mas não é o caso. Vamos à objetividade. Se temos tantas almas penadas vagando por aí, é apenas mais um brinde da maior tecnologia do século passado: A internet. Da mesma forma que se conecta, deleta-se. É a forma com que o sujeito moderno vive os dias atuais. Onde tudo, como diz Bauman, é fluido, é líquido. O que importa é ser visto, desejado, a busca incessante pela satisfação momentânea, intensa. Sendo assim, o outro passa a ser objeto de consumo interessante, até que apareça algo mais atrativo. São relações unilaterais, egoístas. No entanto, se formos olhar atentamente, toda essa máscara social está a serviço de cobrir a pobreza existencial. Existe o medo pavoroso da solidão, quando o sujeito se vê desconectado, sem ninguém para consumir, mergulha no pântano de sua própria miséria.

Li que nessas relações que começam na rede há um padrão de comportamento antes do ghosting propriamente dito. Há um termo específico para cada fase, sei que a do encontro está ligada ao amor exagerado. O indivíduo fica muito mais apaixonado pela ideia de se apaixonar, que a paixão propriamente dita. Como amar quem você não conhece? Minha amiga viveu intensamente essa fase. Mas, os filósofos do Molejão estão aí para lembrar: “Não era amor, era cilada”.

Acredito também na incapacidade que vemos todo o tempo das pessoas se colocarem no lugar do outro, reflexo desse mundo individualista. Deletar uma conta é simbolicamente deletar uma pessoa. Eu, antes de adentrar esse tema, brincava que pelos meus três planetas Martes, Vênus e Júpiter em Escorpião, sou uma espécie de serial killer que mantem suas vítimas vivas. Pessoas que me fazem muito mal são subtraídas do meu convívio sem dó nem piedade. Sou aquela que mata em vida, inclusive deixo um beijo para as pessoas que, mesmo vivas, estão mortas para mim. Só que isso é apenas uma metáfora. O ghosting é um processo traumático, violento, em que quem sofre fica suspenso no limbo emocional.

Para finalizar, dei uma olhada no Youtube sobre o assunto e fiquei horrorizada com o que vi. Existe uma infinidade de canais, onde pessoas que se dizem coachs, espiritualistas, usam a temática: “Como fazer seu crush ou seu amor te desbloquear rapidamente”. Aviso: É para os fortes. Uma dessas proclamadas espiritualistas me deixou boquiaberta pela diversidade de técnicas usadas. Numerologia, baralho cigano, equilíbrio energético, runas, cartomancia e, como não poderia faltar, física quântica. Cem mil seguidores, tá? Tem desde simpatias com velas para almas de desassossego até homens explicando que o bloqueio foi punição para a mulher, certamente ela mereceu. Uma apresentadora de um canal chamado TV Diamond, com milhares de seguidores, diz que “ser bloqueada é bom. Não pela visão do livramento do encosto (o que até faria sentido), mas sim porque, ao ser bloqueada, o homem está dizendo que se importa com a mulher”. Para mim funciona como aquela historinha do meu tempo de jardim de infância. Se um coleguinha do sexo masculino agredisse a dentadas uma determinada menina com frequência, era sinal de que “gostava dela”. E assim se perpetua o machismo nosso de cada dia.

O que tirei daí é que o ghosting é uma agressão séria, consistindo, a meu ver, numa das formas mais graves de violência psicológica moderna. Uma amiga terapeuta de jovens disse que a cada dia crescem demandas desse tipo entre seus pacientes. Jovens com autoestima partida, perdidos emocionalmente, a procura de uma resposta que dificilmente terão. Portanto amigos da área, se liguem nesses canais caça-níqueis do Youtube. É um desserviço.

Quanto a mim, enquanto termino o texto, dei um rolê no FB do Pluft, o fantasminha que rendeu essa crônica. Minha amiga está se recuperando, já conformada, se jogando no trabalho, entendendo que estava entrando numa furada. O que vejo agora, senhoras e senhores, nesse preciso momento, em outro post público é: O rapaz causador de tanto sofrimento ao lado de uma outra vítima, numa foto com corações pulantes, foto dos dois e o face dizendo: “Fulano e Fulana estão num relacionamento sério”. Depois vocês acharam ruim quando aquela inglesa quis se casar com um fantasma. Pelo menos ela sabia quem tava levando para casa. Tava errada?

A Desilusão e O Coro de 107 Mulheres

O teu amor é uma mentira
Que a minha vaidade quer
E o meu, poesia de cego
Você não pode ver

Não pode ver que no meu mundo
Um troço qualquer morreu
Num corte lento e profundo
Entre você e eu

(Cazuza)

Sou pessoa extremamente resistente ao novo, por mais estranho que isso possa parecer. Passei dez anos da minha vida estudando a oratória barroca, fechada no meu mundo das etimologias, imersa no pensamento de base analógica medieval, escondida no século XVII. O distanciamento temporal é minha zona de conforto, até porque é através do passado que consigo entender muito do presente. Principalmente no que toca a formação do Brasil. Não tenho certeza se essa frase é do Nelson Rodrigues, mas ela traduz bem o meu sentimento de mundo: “Não existe nada tão remoto quanto o passado recente”. O contemporâneo, o fragmentário, a pós-modernidade, a nova configuração do mundo, mais me confunde do que explica. Sim, “a mente apavora o que ainda não é mesmo velho”, pelo menos a minha. Eis aí uma das minhas limitações.

Acontece que não dá para se manter alheia a esse Admirável Mundo Novo. As mudanças se encontram em tudo que permeia nosso cotidiano. Um exemplo: Lidando com alunos do primeiro período de um curso universitário, idades que variavam entre os 17 e 21 anos, com uma filha adolescente, além de sobrinhos mais jovens, passei a ter uma enorme dificuldade de ouvi-los. Muito do que eles me falavam me escapava e, preocupada,  marquei um teste auditivo. Nesse mesmo espaço de tempo, amiga querida que mora há muitos anos na Europa e tem pleno domínio do idioma, tanto do francês quanto do alemão, esteve numa reunião na escola dos filhos, da mesma faixa etária da minha, para encontrar-se com a professora de francês dos meninos. Uma moça jovem, de vinte e poucos anos, conversaram em francês. Minha amiga ficou apavorada, porque mesmo tento total intimidade com a língua francesa, muito do que a moça falava ela não entendia. Coincidentemente me disse a mesma coisa: “Preciso correr para fazer um teste de audiometria, acho que estou ficando surda, tive uma puta dificuldade de entender o que a jovem professora dos meninos falava”. Acabou que a história cresceu e outras pessoas próximas, da nossa faixa etária, se queixaram do mesmo problema. Aquilo nos alertou. Não parecia provável que todos nós, que lidamos com jovens, estávamos sendo acometidos ao mesmo tempo por um surto de surdez, uma espécie de Ensaio Sobre a Cegueira para quarentões, apesar de que, nessa distopia de todo dia, nada seja impossível. Foi então que caiu a ficha. O problema é que com a internet, a linguagem em tempo real, o timing é outro. O discurso dessa geração tecnológica ganhou outra velocidade, cabe a nós correr atrás para entender. Eles estão falando mais rápido, e sim, estamos defasados.

Se isso ocorre no nosso cotidiano mais comezinho, imagina no macro. É o enorme fluxo de notícias que lidamos todos os dias, é a velocidade vertiginosa da mudança. Desde a queda do Muro de Berlim, da nova configuração do mundo, da globalização que antes era uma ideia tornando-se rapidamente uma realidade e a tecnologia de informação ali, propulsora de toda uma revolução. Sou de uma das últimas gerações analógicas, o que por si só não explica minha irredimível incompetência para operar as novas tecnologias. O internauta aqui, a par de todas as novidades, é o meu pai e ele tem 81 anos. Se um computador pode ter mais de 50 programas, eu só uso a máquina mortífera para escrever no Word, entrar nas redes sociais e enviar e-mails. Grosso modo, sou como um chimpanzé com uma metralhadora na mão. Nunca correrei o risco ser incriminada por baixar filmes, por exemplo, muito mais pela falta de talento e habilidade do que por convicções ideológicas. Smartphone, então, é uma piada. E, em minha defesa, digo que não estou sozinha nessa! Volta e meia gafes são cometidas por mim e por amigos próximos. Enquanto os jovens conseguem navegar nas redes sociais, ouvir música, olhar o notebook ao mesmo tempo e dar uma olhadela de relance na TV, eu mal consigo coordenar uma única tarefa. Dia desses alguém mandou uma mensagem para lá de escalafobética, quis dividir com amiga pessoal seguindo a máxima de: “não verei isso sozinha”. O problema é que printei a tela e… enviei para a própria pessoa. Apavorada, vi o risquinho azul, ela já tinha visualizado, e parti para o improviso. Dei uma de João-sem-braço e escrevi abaixo do print: “Reveja o seu discurso”. A pessoa ficou intrigada, perguntou o porquê de tal revisão e escrevi coisas tão absurdas que tenho certeza de que ela achou que eu estava drogada ou num surto esquizofrênico. Antes passar por doida que fofoqueira, pensei. Tem também a impagável história de amiga que conversava ao mesmo tempo com o grupo de família e com o crush. Esse pediu pra ela uma foto “bem safada”. Sim, foram essas as palavras. Ela entrou na personagem, incorporou atriz pornô da Boca do Lixo e enviou para o boy. Foi tomar banho. Na volta, várias notificações. Frases com exclamações que começavam com “O que é isso?” a “Que loucura é essa?”. Pois é. Mandou a foto do que seria para o boy para o grupo de família. E, para o galã, enviou uma foto da primeira comunhão com as primas que a tia-avó havia pedido. Passou meses evitando almoços e festas de família. Outra amiga estava na Riviera Francesa, o marido trabalhando no escritório no Brasil e ela realizou o sonho de fazer topless. Quis registrar o momento para tirar o esposo do tédio, mas quem recebeu a foto foi um grupo que fazia parte de compra e venda de peças de carro, do qual saiu imediatamente. Claro que o assunto do dia no tal grupo foi: “Por que aquela maluca mandou foto de peito de fora?”. Esses são três exemplos de pessoas da época do telefone de discar, que faziam parte do penfriends e usavam ficha para ligar do orelhão.

Tudo isso é para explicar que não sou a pessoa mais certa para falar de tecnologia. Não tenho estofo acadêmico para tal, faço algumas leituras pontuais. Mas fui pega de surpresa por algo tão inusitado, que tomei a ousadia de dar meus pitacos sobre esse estranho mundo. Tudo começou quando recebi uma mensagem de uma amiga mais jovem, me contando sobre um momento que passava. Coisas do amor, nem sou a pessoa mais indicada para tal, mas talvez pela confiança e por ser eu mais velha, ela tenha me achado a pessoa certa. Escrevo aqui com autorização da mesma. É uma moça bonita, perto dos trinta anos, independente, bem formada, inteligente, terminou um namoro de longo tempo. Quarentena, home office, conheceu através de um FB da vida um amigo de amigo, igualmente solteiro, um pouco mais velho, inteligente, charmoso e a conversa foi evoluindo. Foram encontrando muitas coincidências, gosto musical (essas músicas experimentais, de bandas gringas, que nunca ouvi falar), trabalhavam em áreas afins, seus cachorros tinham nomes mitológicos, curtiam games e tudo que não entendo, signos complementares, histórias de vida parecidas, passaram por perdas familiares difíceis. Até eu, que como Oscar Wilde acredito que “o cinismo consiste em ver as coisas como realmente são, e não como deveriam ser”, a pessimista de carteirinha, que nunca caiu no conto da alma gêmea, botei fé na história. Moravam em cidades diferentes, mas isso era o mínimo. Já se organizavam de se encontrar, uma harmonia que vi poucas vezes na minha vida. Eu sou testemunha que não era apenas uma relação virtual. Com o tempo a admiração dos dois só crescia, se falavam todos os dias, lindo de se ver. Se preparavam para o encontro, ele viria para cá, passagem marcada, foram quase quatro meses de conhecimento e espera.

Para minha surpresa, recebi um áudio nervoso dela pedindo para falar com urgência comigo. Preocupada, entrei em contato e eis a história: No fim de semana tudo ótimo, horas em chamadas de vídeo, ansiosos com a viagem. Acordou com audiozinho perguntando se ela tinha dormido bem, chamando de amorzinho, conto as horas prá te ver e todas as cafonices que jovens apaixonados têm licença para cometer. Na segunda, ela viu ele online no Whatsapp, desejou bom dia, ele não visualizou. Ok, deve estar ocupado. Ficou na dela, trabalhando num projeto, nada dele se manifestar. Achando a ausência estranha, ligou para o fixo, ninguém atendeu. Estamos falando de uma pessoa comedida, não de uma stalker louca que manda mensagens compulsivamente. Dia seguinte, ele online, ela perguntou educadamente: “Está tudo bem com você? Mande notícias”. Ele visualizou para, em seguida, bloqueá-la. Não apenas do Whatsapp, mas de todas as redes sociais. Sem explicações, sem palavras, se nada.

Eu sou da época em que o pior que poderia passar era dar o telefone para um garoto que fazia questão de pedir, revelando encantamento e não pegar o dele porque, obedecendo ao código machista, “não vou pedir pra não achar que sou fácil”. E passava ódio, porque o desgraçado não ligava. A gente até tentava se enganar: “Ah, ele perdeu o papel, era tão pequenininho”. Mas, na boa, esse era o cúmulo do perdido. Nada além disso.

Isso, porém, de estabelecer uma relação, encontro marcado e sumiço instantâneo, eu nunca tinha presenciado. Se a comunicação é intrínseca ao ser humano, acho que diante disso até os homens da caverna, através de símbolos, gestos e grunhidos, não deixavam no vácuo desse jeito. O fato é que vi uma jovem assustada, sem acreditar no que tinha acontecido, e fazendo aquilo que nós mulheres somos condicionadas, nessas horas de rejeição: “Onde foi que eu errei?”. Não, querida, você não errou. Prá começar, você acabou de ser vítima do machismo mais escroto existente: ele te calou. Você foi silenciada. Bloquear é uma ação violenta, feita por homem então… O poder do discurso te foi tirado. De uma arquiteta estilosa, doce, mas com opiniões próprias, ele te transformou numa amish da Pensilvânia, de vestido comprido, toca na cabeça e obrigada a andar uns passos atrás do marido, sem nada poder dizer.

Apesar da tristeza, o que a impediu de surtar foi sua autoestima inabalável. Não passou pela cabeça dela procurá-lo. Já pela minha… Claro. Fui fuçar o FB da criatura. Logo de cara, foto pública, cercado por amigos idiotas, tomando vinho. Data: exatamente no dia do boqueio. Para piorar, uma postagem aleatória de fundo preto com a seguinte frase: “Esta sociedade patriarcal precisa mudar. E que seja rápido. Ela está repleta de erros”. Cínico. Bancando o feministo, olha que meigo. Não disse nada a ela. Mas desejei, no mínimo, um COVID básico para esse galã de rodoviária.

Ela está se recuperando. Eu, porém, fiquei muito encucada com isso. Eu até hoje só bloqueei e fui bloqueada por motivos bem específicos. Políticos, na maioria das vezes. Tudo bem às claras. Fui consultar o oráculo e ver o que ele poderia me dizer sobre esse numerozinho patético do desaparecimento. E aqui digo para vocês, experiência assustadora.

Lembrei de Sophie Calle, a artista plástica francesa que, em 2004, depois de uma longa relação com o escritor Grégoire Boullier, recebeu um singelo e-mail dele terminando tudo. Fiquei revoltada. Um e-mail!? Aliás, um e-mail bem do mequetrefe. Ali vi que a frase “O problema não é você, sou eu” faz parte da confraria universal dos machos. Achava que era made in Brazil. Não é. E, no final, afetuosamente, ele escreve: “Cuide de Você”.

Contrariando o que Grégoire imaginava, a espera de um escândalo de indignação na porta dele, Sophie ficou quietinha. Sumiu do mapa. Na real, convidou 107 mulheres, das mais diversas idades e ocupações, para fazerem uma análise, um comentário, uma manifestação, até esgotarem o e-mail do infeliz de acordo com suas profissões. De dançarina hindu a atiradora de elite pipocando bala no papel. Foram centenas de interpretações possíveis. Numa instalação genial, em que fotografia, imagens em movimento, escritos, desenhos dialogavam, ela apresentou essa performance na Bienal de Veneza e causou. Quando esteve no Brasil, fui ver a exposição três vezes. E penso que, até hoje, esse homem deve ter pesadelos com o coro de 107 mulheres. “Cuide de Você”, melhor nome para a exposição não havia. Só que nem todo mundo é Sophie Calle e consegue transformar um término doloroso de relacionamento em fina arte.

PS: Segunda Parte: ALMAS PENADAS, GRUPO MOLEJO E BAUMAN

Samba Perdido – Capítulo 19 – Parte 01

Capítulo 19

 

“E aqueles que foram vistos dançando

Foram considerados loucos por aqueles que não conseguiam ouvir a música.”

 Friedrich Nietzsche

 

O último ano no Colégio Andrews era dedicado cem por cento a nos preparar para o vestibular. As aulas foram transferidas para um prédio separado com os alunos agrupados em quatro turmas – duas para ciências exatas, uma para área biomédica e uma para humanas. Agora, transformada em cursinho pré-vestibular, a escola era puro stress. Os métodos eram intensos, com professores nos bombardeando com segredos infalíveis para saltar a barreira colossal posta a nossa frente.

O programa da escola tinha uma boa reputação. Estudantes vindos de outras instituições no Rio bem como de mais longe se transferiam para. Um dos novos alunos que conheci tinha vindo do Chile. Ele tinha ido viver lá com a mãe quando os pais se separaram. Agora, na casa do pai, queria voltar a morar na sua terra natal e fazer faculdade lá.

Alguns dias depois do início das aulas, pegamos o mesmo ônibus e começamos a conversar. Por algum motivo, o papo acabou em Teresópolis e descobrimos, para nossa completa surpresa, que ambos tínhamos casas de campo vizinhas no fim de mundo do Jardim Salaco. Isso foi coincidência demais para a cabeça de qualquer um e ajudou a nos tornar melhores amigos instantaneamente.

Kristoff era de descendência alemã, parecia com o ator Jack Palance, só que de cabelo comprido e loiro. Além da origem europeia, tínhamos em comum o gosto pela música, ele tocava flauta transversal e se tornaria saxofonista profissional. Além  disso, de alguma forma inexplicável, apesar de pertencermos à infame “esquadrilha da fumaça”, conseguíamos nos manter nos top quinze por cento quando havia testes preparatórios. Não demorou muito para que ele se juntasse à irmandade musical da escola, e em pouco tempo seu apartamento no final do Leblon se tornou o quartel general dos músicos marginalizados e afins. 

Como aspirantes a instrumentistas, para nós, os gigantes do rock dos anos 1970, Pink Floyd, Led Zeppelin, Jethro Tull e Yes reinavam supremos nos nossos gostos, assim como os Beatles, os Rolling Stones e o Jimi Hendrix. Só que além deles curtíamos o jazz-rock mais recente, representado por uma geração de músicos brilhantes como a Mahavishnu Orchestra de John McLaughlin, Focus, Jean-Luc Ponty, Jeff Beck, Stanley Clarke e Weather Report entre tantos outros. 

Tal como era o caso com outros aspectos da cultura jovem no Brasil, estávamos cerca de cinco anos atrás do que estava acontecendo na Inglaterra e na América do Norte, desconhecendo tanto o punk como o reggae. Não fazíamos ideia do que representavam em termos de resistência ao sistema, ao racismo e à caretice que tinham tomado conta do mundo anglo-saxão a partir de meados dos anos 70. De qualquer forma, suspeito que mesmo que tivéssemos tido conhecimento, ainda assim teríamos continuado ligados naqueles grandes mestres nos nossos instrumentos.

Havia vários talentos musicais locais de alto calibre surgindo. Nossos ouvidos estavam abertos para gênios como Hermeto Pascoal, Naná Vasconcelos e Egberto Gismonti que pareciam ser um fio condutor para o tipo de energia que tinha experimentado no sul da Bahia. 

Se a bossa nova tinha sido o reflexo do otimismo do pós-guerra brasileiro, essa nova geração musical refletia um momento de autodescoberta e de renascimento vindo com o ressurgimento da liberdade política. Ainda que fossem exclusivamente instrumentistas, eram populares; seus shows lotavam e, por um curto tempo, eram os mais vendidos entre os consumidores mais antenados.

Dos três, Egberto era meu favorito. Seu talento começou a se manifestar na loja de instrumentos musicais de seu pai onde, ainda criança, demonstrava pianos aos clientes. Mais tarde, Egberto foi para a França estudar música clássica. Quando regressou, aplicou o conhecimento adquirido e seu talento à música brasileira, indo muito além da bossa nova. Entre outras coisas, Egberto mergulhou a fundo na música indígena, a ponto de ir aprender música sagrada com um pajé na região do Xingu onde usava música como forma para curar. A história conta que para Sapaim, o xamã-músico, aceitá-lo, Egberto teve que acampar do lado de fora de sua maloca isolada na selva por cerca de um mês até ser convidado a entrar. Talvez por causa do que aprendeu lá, os sons nos seus shows eram como uma entidade palpável que hipnotizava o público.

Hermeto Pascoal foi um menino albino nascido no sertão nordestino. Devido à sua condição, não podia trabalhar sob o sol escaldante, daí seus irmãos o trancavam em um estábulo onde canalizava sua frustração furiosa para a música. Os seus cabelos e barba brancos, longos e encaracolados e seus traços marcantes cobertos por óculos fundo de garrafa, conferiram a ele o merecido apelido de “Bruxo”. Sua banda, que mais parecia uma seita de instrumentistas fanáticos, morava na sua casa no bairro afastado de Bangú, no Rio de Janeiro. Quando tocavam, faziam sons insanos, não só com instrumentos, mas também com objetos do dia a dia como garrafas quebradas, serrotes e panelas. Em meio a essa loucura, entretanto, havia o gênio que criava sons celestiais lindíssimos nascidos dos mistérios de índios, africanos e europeus.

Desses três instrumentistas, o que alcançou maior sucesso internacional foi Naná Vasconcelos. A revista Down Beat, a mais importante do mundo do jazz, iria elegê-lo oito vezes como o melhor percussionista do mundo; ele também receberia oito Grammies. Vindo de Pernambuco, era o único afrodescendente dos três. Exalando ritmo por todos os poros, mestre no berimbau, tinha uma ligação íntima com a espiritualidade do Maracatu. Depois de uma contato rápido com os mineiros ligados a Milton Nascimento, o clube da esquina, conheceu o rock e a mistura acabaria levando sua percussão a níveis psicodélicos nunca antes imagináveis.

Egberto, Naná e Hermeto não eram, de forma alguma, as únicas expressões da música instrumental e experimental brasileira nos anos 1970. Havia também bandas como a Uakti, conhecida por usar instrumentos feitos à mão, pelos próprios membros do grupo. O nome Uakti vindo de um mito dos índios Tucano sobre um homem-instrumento. Haviam os jazzistas como Victor Assis Brasil, Hélio Belmiro e Wagner Tiso, além de bandas mais elétricas como A Cor do Som e o guitarrista Pepeu Gomes, ambos com origem nos Novos Baianos. Para qualquer um minimamente interessado em música essa foi uma época abençoada.

Após sua curta popularidade no Brasil, os três principais expoentes daquela geração sairiam de moda mas surgiriam como estrelas na cena do jazz internacional.

*

O interesse pela música instrumental era tão grande, que promotores de eventos enxergaram a oportunidade. O Rio Jazz Festival, irmão carioca do Festival Internacional de Jazz de São Paulo, começou em 1978, apresentando nomes consagrados internacionalmente como o guitarrista Joe Pass, o trompetista Dizzy Gillespie e o saxofonista Dexter Gordon, o guitarrista da Mahavishnu Orchestra, John MacLaughlin bem como músicos brasileiros que estávamos ouvindo. 

O problema era o local: o Maracanãzinho, o mesmo lugar que tinha acolhido os festivais da canção no fim dos anos 1960 e início dos 1970. A acústica era péssima. Grandes nomes do rock, como Alice Cooper, Rick Wakeman e Genesis haviam tocado lá, mas o eco tinha transformado a música deles em ruído.

Apesar dos problemas de qualidade, a “esquadrilha da fumaça” tinha que estar presente. Como os ingressos eram caros, só tínhamos dinheiro para um show. Escolhemos a noite de encerramento, com o Weather Report, a banda do melhor baixista de todos os tempos, Jaco Pastorius, seguidos por outra estrela do baixo, Stanley Clarke. O grandfinale ficaria a cargo de Jorge Ben junto com a bateria da Escola de Samba Mocidade Independente de Padre Miguel, a melhor do Rio de Janeiro, e convidados especiais.

Os assentos eram divididos entre os mais em conta, na desconfortável arquibancada na parte de cima, e os mais caros perto do palco. Lá, o público mais endinheirado podia ouvir o show com mais clareza sentado em cadeiras numeradas. Claro que tínhamos os ingressos mais baratos. Só que assim que entramos no ginásio, percebemos que era fácil pular para a parte de baixo. Todos fizeram isso, só que quando chegou a minha vez, um policial bateu nas minhas costas e me mandou voltar para meu lugar. Ainda que tenha ficado só, estava com nosso precioso baseado reservado especialmente para o show, sobrevivente das dificuldades financeiras do mês anterior. Quando sentiram sua falta, me chamaram lá de baixo e ficaram implorando para que jogasse o bagulho. 

Falei que não ia rolar: “Os caras agora estão de olho em mim, não vou pular e o beck fica comigo.”

“Rique, deixa de ser veado e joga essa merda!”

“Cara, essa é a minha compensação por ficar sozinho aqui na roubada.”

“Porra! Todo mundo comprou junto e você vai ficar com ele sozinho!?”

“Grita mais alto que é pros “homi” ouvirem melhor.” 

Voltei para o meu lugar nas arquibancadas e deixei os caras reclamando, provavelmente se segurando para não me chamar de judeu ruim de transa.

*

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Sobre o quase amor

 

“Quem estará nas trincheiras ao teu lado?- E isso importa?- Importa mais do que a própria Guerra”                           

(Ernest Hemingway)

 

2020. Carros voadores. Androides dotados de uma incrível inteligência artificial, ótimos amantes, conversas sensacionais. Aquele papo que você pode pular do assunto maquiagem tosca do Pablo, dublador do Programa Qual é a Música , da década de 80, quando o Silvio Santos ainda rimava lé com cré, até questão crucial que permeia a literatura brasileira machadiana há 121 anos: Bentinho era corno ou não?

Entre a realidade e a expectativa enorme fosso. Cloroquina, desgoverno, mortes em massa, Os Inocentes do Leblon dando o exemplo do que é isolamento social, praias cheias, campanha anti-vacina antes da vacina ser aprovada, OMS comunista, índios e caboclos incendiários, e claro, um Brasil cristão, conservador e cristofóbico. Tudo isso rolando na Terra Plana. Ver aquele ajuntamento caloroso em bares, só lembra aquele pagodinho antigo:” Deixa Acontecer Naturalmente” …A música é praticamente uma profecia.

Mas nem tudo é “o horror, o horror”, como gritava o Capitão Kurt em Apocalypse Now. Se a vida te dá limões, acrescente vodka. E foi num intervalo entre um home office e outro que ela, solteira por forças das circunstâncias, conheceu uma alma. Atrás da tela. Bonito. Cumprindo a quarentena. Conversaram muito, trocaram zap, aquela comunicação de quem não tem nada a perder. Até que ele, por mero acaso, falou o ano que entrou na universidade. Eis que ela se tocou do óbvio e perguntou quando nasceu, curiosidade de horóscopo chinês, só de onda, nem curte (mentira) e viu que tinham 14 anos de diferença. Elucubrações mentais tomaram conta do seu cérebro: Gente, quando ele começou a ser alfabetizado eu já estava na faculdade. Transando. Mas pera, “Eu não tô fazendo nada, você também. Faz mal bater um papo assim gostoso com alguém” Conversar não arranca pedaço.

Como era mulher de mente rápida, foi fazendo uma escalação mental de casos semelhantes. Violeta Parra e Gilberto Fravré, (não conta, deu ruim), Fátima Bernardes e o boy. Agatha Cristie que foi casada anos com um arqueólogo 14 anos mais velho, e que com seu humor inglês dizia que ficou com ela a vida toda porque gostava de antiguidade. Brigitte e Emmanuel Macron caramba! A falecida Duquesa de Alba, uma das mulheres mais ricas da Europa, mas que deixou todos os bens para a família, infelizmente só um teste de carbono 14 para ter precisão da idade dessa senhora, mas o marido bonitão era 25 anos mais jovem. E isso porque estamos falando de mulheres. O Temer com certeza escolheu a Marcela, 43 anos mais jovem, no berçário, até que chegasse a maior idade. E outra: Qual a diferença entre o homem e a manga verde? É que a manga um dia amadurece. Sorry meninos, é uma máxima da vida.

Então ela pensou: Vamos dar aquele abraço no Einstein, mesmo sem saber resolver as quatro operações matemáticas, só se ligando na parada coach científica quântica: Na teoria da relatividade geral, o tempo espaço passou a ser considerado uma unidade cósmica. Seja lá o que for, unidade cósmica parece algo bem simpático.

Hora do encontro na tela. Ela dá uma amansada no cabelo, bota uma roupa nem tão freira, nem tão puta (parafraseando Santa Rita Lee), camisetinha casual (que demorou horas para escolher), e ele ali. Cabelo lindo. O infeliz deve passar sabão de coco ou pedra, homem é foda. Lindo. A princípio raciocinou: Gente, muita areia pra meu caminhão. Depois foi tomada por um espírito de operário de construção civil e vaticinou: “Problema nenhum, faço três viagens”… Amigos em comum, do lado do genocida não tá, e nos tempos de hoje isso é o suprassumo da alegria: Ele não muge, ELE fala!

O problema dela é a verborragia. Fica nervosa e fala sem parar. Começou uma conversa teológica com pegadas de Poltergeist que a vida é uma novelinha fuleira, cuja assessora do Eterno é a Janete Clair. Pôs-se a lembrar de uma história deliciosa, passada nos idos dos anos de 1967, na Novela Anastácia, a Mulher Sem Destino. Protagonizada pela inenarrável e saudosa Leila Diniz (“ah, a do biquini na praia, libertária”, ufa…podia ter confundido com a Pantera de Minas, deve ter ouvido numa música da padroeira Rita Lee Jones). O folhetim foi escrito inicialmente por Emiliano Queiroz. Acontece que houve uma profusão de personagens, um entrelaçamento de tramas, que nem o espectador, nem os próprios artistas, entendiam nada. Então alguém da direção da emissora falou: “Chama a Janete Clair, ela dá um jeito em tudo”. E deu. Como a história se passava numa Ilha Vulcânica, Janete sacou da cartola uma erupção modelo Vesúvio, capaz de corar Pompeia, com direito a um grande terremoto, matando assim todos os personagens, dos quais só sobraram 20. E recomeçou o folhetim do zero. Ao inserir uma catástrofe natural, ela deu seguimento a uma história da TV Brasileira. O interessante são os atores cujos personagens não estavam na ilha na hecatombe, e mesmo assim foram declarados mortos na trama. Ouviu de volta: “Minha mãe se amarra em novela, boa história”. Com essa pensou em trocar o nome para Jocasta, teve uma professora chamada Medéia, nem tudo está perdido. Só que ele emenda: “Mas porque você está contando essa história?”. E ela responde sem graça: “por que uma hecatombe viria em boa hora”. Pronto, fudeu, agora acha que sou uma psicopata. Melhor não falar o que desejo para o Bozo.

Perguntou se podia abrir um vinho. “Claro, não bebo nada porque amanhã pego cedo, tenho reunião”. Ora vá…Deixa ele falar. Trabalha numa produtora, com imagens, falou dos problemas da área, tá difícil pra todo mundo. Sem álcool então né? O papo vai para cinema, tem uma vasta cultura cinematográfica. Filme de lugares diferentes, tipo Ubezquistão. Nunca ouviu falar. Teve vergonha de contar o dia que caiu na falácia da crítica do Globo e foi assistir O Cheiro do Papaia Verde. Além dela, três pessoas no cinema. Dez minutos com a câmera mirando na respiração de um sapo. Foi acordada pelo lanterninha, não sobrou ninguém. Melhor ficar no basicão, Tarantino, clássicos de guerra, Godard será seu segredo, odeia.

Bom leitor. Saiu melhor que a encomenda. O vinho ajudava, é verdade. Ele tentando acompanhar os pensamentos rápidos dela, ela com paciência para as reflexões dele. Já se imaginava casada. Cachorro, pato, gato, jardim, rede, óvulos congelados, filhos, horta, flores. Aprender a fazer pão e, num pulo no quarto, onde a TV estava ligada, um leilão de um nelore. Três pratas. Pensou: Vendo carro, abro espaço, arrumo um boi. Um gado de verdade, não esses falsificados bozolóides. Até que entendeu que três pratas era uma das mais de dez prestações.

Voltou. Depois de passar uma máquina leve. E sabe-se lá por que o papo caiu em Virginia Wolff. Na verdade, não na obra, mas no filme As Horas. Ela lembrou de um editorial que viu no FB de Moda da Vogue espanhola sobre a Silvia Plath. Ele conhecia Silvia por alto. Havia uma serie de roupas do estilo da Silvia. Sapatos bicolores. Blusas de seda. Saias de bom corte. No meio de tudo, UM FORNO ROSA RETRÔ. Que devia valer um rim. Explicou ela que nada mais odioso do que esse voyerismo macabro pelo espetáculo da morte. Silvia era jovem, talentosa, sofria de depressão, deixou dois filhos pequenos e meteu a cabeça com uma toalha no forno. Para falar a que ponto chegamos da banalização de algo tão sério disse: Imagina um ensaio com Virgina Wolff. Uma saia de bolsos fundos, com pedras estilosas e coloridas. Ou pior. Imagina um Hemingway de papelão, garoto propaganda de uma espingarda de caça calibre 12.

E foi aí que o encanto se perdeu. “Odeio Hemingway. Acho ele superestimado”. Não, ele não lembrava de Manhattan de Allen. Repetiu a fala sem saber. Para quem não viu, Allen namora no longa a neta de Hemingway, Mariel, que na época tinha 17 anos. É um filme de 1979. Diane Keaton, depois de mil piadinhas sobre a idade da garota, enquanto caminha com eles pelas ruas, fala: “Acho Hemingway superestimado”. E Allen, como a nossa personagem, não acredita no que ouviu. Vocês podem ter todas as diferenças com Allen. Mas não gostar de Hemingway (o autor, a pessoa jurídica, não a física) é contra todos os princípios. Meus e da moça do conto.

 

PS:Quando é que vai sair o andróide mesmo???

 

É verdade, Terta?

Pega na mentira, pega na mentira/Corta o rabo dela, pisa em cima/Bate nela, pega na mentira (Erasmo Carlos)

Alguém aí há de lembrar que mentira tinha perna curta, podia ser castigada com água e sabão na boca. Se a lorota fosse cabeluda, pimenta malagueta no lugar de água e sabão, e um chinelo voador, xerife implacável, aterrissava em pobres glúteos. Tudo ficou démodé.

O discurso de Bolsonaro na ONU, manual completo de conversa fiada, já foi suficientemente mastigado por gente gabaritada. Depois de lê-lo, fiquei com uma dúvida existencial, para a qual não tenho resposta categórica e na qual se encadeiam outras. Por que alguém mente, mesmo sabendo que pode ser facilmente desmascarado ? Por que, especialmente na era da informação instantânea, tanta gente acredita em mentiras ? E não apenas acredita, mas divulga e exalta. A mesma gente que, por exemplo, reclamaria do açougueiro que trapaceia no peso da alcatra, aceita e propaga lorotas como mamadeira de piroca, cloroquina e kit gay. Indignação seletiva, sem dúvida, mas por quê ?

Passo apenas algumas impressões, sem a menor intenção de esgotar essas questões, que considero essenciais para compreender a vala negra em que estamos metidos. Acho, antes de mais nada, que há uma espécie de identidade grupal que fecha questão para confirmar um conjunto de valores. Quando Damares Alves, cuja máscara facial me assusta cada vez mais, afirma que os holandeses pregam a masturbação em meninos a partir dos sete meses de idade e manipulação das vaginas desde cedo nas meninas para que tenham prazer na fase adulta, ela tem duas intenções. Reafirmar, com teatralidade histérica, o consenso reacionário da sua base sobre temas delicados (sexualidade, educação dentro da família) e desqualificar/criminalizar todos os grupos que pensam e fazem diferente. A mentira, nesse contexto, é argamassa que assegura a unidade nos espaços individual (psicológico) e coletivo (político). No caso de Damares, e não apenas dela, adornada por doses industriais de dissimulação e terrorismo religioso.

A falsificação da realidade se torna mais fácil com a multiplicação dos emissores de notícias e opiniões. Não faz muito, o grande formador de opinião no país era o Jornal Nacional, TV aberta. A imprensa escrita não dava nem para a saída. Essa fronteira já caducou, atropelada pelas redes sociais. Dois em cada três brasileiros têm acesso à internet. As redes sociais são as novas agências noticiosas, cada participante replicando ou produzindo conteúdos sem compromisso com a honestidade. É novamente a identidade grupal que julga o que é falso. Não à toa, informações científicas, de assimilação complexa, são ignoradas em benefício de interesses primitivos/levianos. As campanhas contra vacinas, boçalidade perigosa, ganham musculatura em redes sociais. Para os que acham que vacinas causam autismo ou alteram o DNA dos vacinados, não adianta argumentar com dados concretos. Vale mesmo é a posição do líder, seja ele profeta, guru, síndico ou presidente. Todos querendo assegurar seu espaço de poder incontestado. Tarefa facilitada pela cruzada obscurantista na área da educação. Mito e minto são faces da mesma moeda.

Todos já mentimos. Quem é que não deu uma desculpa esfarrapada para faltar a um compromisso aborrecido ? Ou praticou uma mentira piedosa, sonegando de um doente grave a informação sobre seu estado ? O problema é quando a mentira sai da clandestinidade e disputa espaço político, social, comportamental. Grosso modo, o enfrentamento da encrenca se resume a responder: quando os tempos já não são mais de Iskra (A Centelha, pequeno jornal, circulação modesta, produzido por exilados russos no início do século XX, vital na propagação de ideias revolucionárias) mas de deepfake (inteligência artificial usada para “produzir” realidades), o que temos para oferecer à massa que se informa pelas redes sociais ? Não adianta, e é no mínimo contraproducente, apenas xingar, mandar para os quintos, indignar-se. Especialmente se os berros ecoam apenas para os já convertidos. De resto, o que se espera dos mentirosos patológicos ? Que mintam, ora essa.

Abraço. E coragem.