Samba Perdido – Capítulo 18 – Parte 02

Muito antes da chegada dos hippies nos anos 70, Trancoso tinha sido uma missão para a conversão dos índios Pataxó. A modesta, porém charmosíssima, igreja voltada para o continente era testemunha daquele tempo. Junto com a formação geométrica do quadrado à sua frente ela remetia a uma ordem disciplinatória. A floresta cheia de vida que a rodeava, parte integrante do espírito da tribo, continuava intacta. Ela era o Éden de onde os portugueses tinham os expulsado. Garantidos por pólvora e chumbo, os missionários convenceram a tribo a trocar seu paraíso por outro imaginário onde só chegariam depois que morressem, sob condição que rejeitassem quem eram, a posse de suas terras – um conceito que não fazia sentido para eles – e aceitassem um status servil num novo mundo empurrado goela abaixo. As únicas coisas que tinham restado eram seus descendentes ocidentalizados que ainda viviam nas reservas espalhadas pela região e os filhos da miscigenação espalhados nos vilarejos. Por mais deprimente que fosse, a situação lá era melhor do que a dos grandes centros urbanos onde há muito tinham desaparecido.

Talvez refletindo o legado de missão ainda misturado com o espirito originário, talvez pela beleza mítica dos arredores, para o pessoal de fora, Trancoso, naquele verão, parecia um campus onde estavam aprendendo a viver. Essas pessoas ou eram fugidas das cidades grandes morando lá há um tempo, ou eram mochileiros e veranistas bem informados atrás de uma experiência especial. Não havia a onda de Gabeira – se ele tivesse parado lá, provavelmente não teria suportado ser considerado mais um, principalmente se descobrissem que por trás do auê se escondia um papel secundário na luta armada e muita sagacidade mercadológica. Um outro fator positivo do vilarejo era que, com a possível exceção do seu Manoel que tinha me acolhido, ainda não havia gente de cidades vizinhas explorando os visitantes e tirando vantagem em cima dos locais.

O dia a dia não era muito diferente do de Ajuda. As diferenças eram que o banho era com a água dos poços nas casas dos pescadores e que, fora o pessoal da terra, não havia um careta lá. O lugar onde nos reuníamos no fim do dia era igualmente atrás da igreja e de frente para o mar. Só que lá não havia roda de capoeira nem a necessidade de muita conversa. A energia e a harmonia já eram o suficiente. 

O que tornava Trancoso em geral, e aquele ponto em específico, mais especial do que Ajuda era a sua simplicidade mágica. Não havia muros, cercas, bancos ou qualquer outra coisa para turistas. Entre nós e a praia deserta lá embaixo, havia apenas a grama bem cuidada que acabava no penhasco. Depois havia um trecho curto de mato, a areia e o oceano infinito se estendendo em frente. No cair da tarde e à noite, a parede caiada construída séculos atrás refletia a luz do sol e depois a da lua feito uma tela de cinema.

Com certeza, antes de serem convertidos à religião dos brancos das caravelas, os Pataxós deviam se reunir naquele mesmo lugar para cantar e dançar para seus deuses nos seus festivais. Aquele solo ainda guardava algo de sagrado, mesmo com uma igreja construída em cima como uma declaração de quem ia mandar dali em diante. Por causa do ar cristalino, o lugar dominava uma região de dezenas de quilômetros. Dali dava para ver a costa inteira para os dois lados. À noite, o único vestígio de civilização eram as luzes fracas de Porto Seguro, ligeiramente visíveis no canto mais longe do horizonte à esquerda. 

Quando a lua cheia chegou, sabíamos que ela ofereceria um espetáculo único. Como sempre, ficamos no escuro à sua espera atrás da igreja curtindo o céu estrelado e as estrelas cadentes tão comuns na região. Cerca de duas horas depois do sol se pôr, ela apareceu como uma enorme bola prateada subindo no fim do oceano. Éramos em torno de dez pessoas e ninguém se atreveu a estragar o momento dizendo bobagens. Ficamos admirando a sua aparição com a reverência e o silêncio de quem presencia um sinfonia de primeira categoria. Seu reflexo era fortíssimo e foi criando uma faixa brilhante na água. Conforme a lua foi subindo por trás das nuvens flutuando na mesma altura que a gente, elas foram se iluminando, primeiro por de trás e depois por cima, fazendo com que lembrassem pequenos montes de algodão.  Suas bases eram planas; parecia que um artista meticuloso as tivesse cortado. A poucos metros da água, lançavam sombras espessas sobre a claridade forte vinda do prateado lunar.

Enquanto contemplava aquela maravilha, o universo me trouxe a clareza de que a saúde, a água que bebemos, o ar que respiramos, as belezas do mundo, o amor e as amizades, enfim, a vida, eram presentes dados a nós sem que tivéssemos que dar nada em troca. Não estávamos em outro planeta, estávamos atrás de uma pequena igreja em Trancoso, perto de onde a colonização do Brasil começou. Aquele momento não era um sonho. Toda aquela abundância do aqui e do agora podia se perpetuar eternamente se apenas aprendêssemos a dar valor ao que temos em comum. Eu desejei que aquela clareza – certamente taxada de lunática pela maioria esmagadora dos habitantes do planeta – nunca passasse.

*

As últimas três semanas passaram num piscar de olhos. Depos que me familiarizei com a cabana, em pouco tempo tinha descoberto um atalho para a aldeia que evitava o rio e tudo ficou tranquilo. Não houve aventuras amorosas, não que faltassem beldades maravilhosas, mas a concorrência era com caras mais velhos, todos com profissões, mestrados e passados mais interessantes que o meu. Até o violão ficou meio calado; a gente levava uns sons, mas era para nós mesmos. As festas eram mais comedidas, o pessoal era mais reservado, em suma, não seria errado dizer que a turma de Trancoso era mais seleta.  Ficar tocando demais para os outros nos faria parecer os bardos bobos da corte.

A hora de voltar para a realidade da vida urbana foi chegando. O dinheiro tinha praticamente acabado e não dava para a passagem de volta. As opções eram ou ligar para casa de Porto Seguro pedindo uma transferência emergencial ou voltar de carona. Por sorte, perguntando para o pessoal, consegui uma com uns caras que estavam voltando para São Paulo. De uma maneira inacreditável, tinham chegado em Trancoso num fusca por uma trilha pelo meio da floresta que nunca tinha ouvido falar.

No dia da volta, na despedida, todo mundo ficou dizendo que a gente era maluco de pegar aquele caminho. Depois de alguns minutos de conforto naquele Fusca insalubre, assim que entramos no mato, ficou claro que estavam certos e que a trilha não era destinada a carros. Toda hora tínhamos que descer e empurrar a bagaça através da lama ou guiar o Paulão, o motorista, para evitar buracos e raízes, ou tirar troncos caídos na frente.

“Aí não, Paulão, tem um puta buracão do meu lado, meu! Não tá vendo!”

“Caralho belo! É mesmo! Sai todo mundo do carro! Ampara ele deste lado aqui porque a gente está quase capotando.”

Foram horas aos trancos e barrancos até que a trilha evoluiu para algo que lembrasse uma estrada de chão. Gradualmente ela foi se tornando mais larga e gado, jegues e pequenos casebres começaram a aparecer dos dois lados. Finalmente, depois de passar por Ajuda, chegamos até a balsa para Porto Seguro. Lá, entramos numa pequena fila de carros e ficamos esperando para embarcar. 

“Orra meu! Essa merda está civilizada demais. Vamos ali no mato ali fumar um!”

Quando nossa vez chegou, atravessamos em silêncio com um nó na garganta de estar indo embora daquele paraíso. Do outro lado do rio já havia asfalto e a estrada que nos levou em nossa longa jornada para casa.

 Cheguei de volta ao Rio ainda sob o feitiço de Trancoso. Era difícil encarar o fato de que havia uma batalha crucial para passar no vestibular à espera. Havia uma outra que tinha me dado: queria me reconciliar com meus pais. Estava ciente de que a cada baseado, a cada levada de som, a cada nova amizade, mergulhava mais fundo num mundo que nem Rafael nem Renée podiam sequer começar a entender. Me perguntava se era possível reverter a situação.

Essa guerra de reconciliação nunca resolvida se provaria muito mais difícil do que a do vestibular. O jeito britânico era o de varrer tudo para baixo do tapete.  A atitude judaica, mais pragmática, ignorava o lado poético da vida. A procura por uma verdade pessoal não fazia sentido – a solução era esquecer aquelas bobagens, baixar a cabeça e fazer a coisa certa: estudar. A batalha continuou, surda, muda, solitária e dolorida, deixando feridas e sequelas dos dois lados.

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Triste é perder o espanto

Todas as crianças vivem o espanto, são curiosas, buscam seguir uma fila de formiguinhas para saber aonde vão. O mundo infantil se espanta diante da realidade, as crianças constroem teorias sexuais, são ávidas por histórias. Um menino ao ver o mar pela primeira vez ficou pasma com a imensidão e disse ao seu pai: “Quero que me ajudes a ver o mar”. A menina, diante de seu desconhecimento, pediu ajuda, assim é uma criança, pede ajuda aos pais, pergunta, questiona. Entretanto, boa parte dos adultos perdem, com o tempo, a capacidade do espanto, aprendem a ter certezas. Triste quando a gente imagina que sabe e a partir daí vive com explicações para tudo. Assim vão se fechando às maravilhas das novidades, das artes, da beleza e até o amor à natureza.

O espanto gerou a filosofia na velha Grécia, pois o espanto é reconhecer a ignorância e ir em busca do saber. Os poetas também se referem ao espanto na origem da poesia, bem como os cientistas em suas descobertas. O espanto – “to thaumazein” em grego – é a surpresa, é o desconhecimento que obriga a ir à busca do saber. Espanta como o Brasil passou em poucos anos de um país admirado no mundo todo ao elevar o nível de vida do povo, a um lugar desprezível que ocupa hoje. Luis Fernando Verissimo, perguntado sobre o atual presidente, disse numa conversa com amigos: “Não temos um presidente, o capitão é um cataclisma”. Cataclisma é uma catástrofe ambiental, um desastre de grandes proporções, uma tragédia. Lembrei então de outro cataclisma em que livros foram queimados.

No distante dia 10 de maio de 1933, uma multidão se reuniu na Praça Bebelplatz em Berlim para festejar uma imensa fogueira de livros. Livros de Freud, Marx, Thomas Mann, entre outros. Queimar livros na Praça em frente à Universidade ficou marcado na História como um um ódio à cultura. Poucos protestaram e o mundo ficou indiferente. Lembro-me desse dia com espanto, pois na Alemanha nasceram Kant, Goethe, Beethoven, e como uma cultura requintada pôde vibrar com a queima de livros?

Hoje o Brasil põe fogo no Pantanal como vem pondo na Amazônia. O Pantanal tem milhares de focos de incêndios, milhões de árvores queimadas, morte de animais, escassez de água e a destruição de assentamentos de tribos indígenas. Os livros queimados em 1933 foram reeditados, mas as árvores e os animais morrem. Aliás, o poeta alemão Goethe escreveu que a natureza é o único livro que oferece um conteúdo valioso em todas as suas folhas. Talvez os que perderam a capacidade do espanto não precisam mais ler, imaginam que sabem.

Os poderosos do agro estão matando o Pantanal, assim como já fazem com a Amazônia com apoio do governo. “Vamos passar a boiada”, disse um ministro do meio ambiente, ou ministro contra o meio ambiente. Tudo anunciado nas eleições e posto em prática com o apoio das Forças Desalmadas, que se beneficiam desta crueldade com a natureza e a humanidade. Os filmes no Youtube, as fotos, os depoimentos revelam a realidade das queimadas negadas por mentirosos profissionais. O |Agro queima florestas, mata árvores, animais, criam o inferno no paraíso só para obter mais lucros. Não é possível ficar indiferente, não se pode perder a capacidade do espanto.
Espanto também é admiração, e admiro os que hoje defendem o Pantanal como podem e os índios e as ONGs que resistem na Amazônia.

Entretanto, chegou a primavera e já começam as chuvas no Pantanal. Lembro, para nossa alegria, que dia 26 de setembro o Verissimo está de aniversário. Obrigado amigo por tudo que escreves há mais de meio século, tuas palavras são graças diante das desgraças.

Tá certo, ou não tá?

Rotina de aglomeração. Aí pelo finzinho da tarde, nos reuníamos em torno de um móvel imponente que demandava um ritual para ser apreciado. Primeiro, o adulto girava um botão. Cerca de um minuto depois, as válvulas esquentavam e começavam a aparecer imagens, de início meio opacas, aos poucos mais nítidas, não raro instáveis. Um chumaço de Bom Bril na antena ajudava a melhorar a nitidez. Nós, televizinhos, não tínhamos do que reclamar. Habituados a imaginar personagens pelas ondas do rádio, agora a televisão permitia ver rostos e corpos por trás das vozes. Bem verdade que em preto e branco, mas não precisávamos mais ir às matinês do Metro Tijuca para assistir desenhos animados.

A primeira transmissão da televisão brasileira completa setenta anos. Nos anos 50, os aparelhos, tal como as rádio vitrolas, eram decorativos, destaque nas salas da classe média mais abonada. Sem essa de controle remoto. Para mudar de canal, alguém tinha que se levantar e girar um botão (que se desgastava com facilidade; “chama aí o técnico” era um mantra bem conhecido na época). A corrente elétrica oscilava muito, alguns modelos traziam um estabilizador embutido, quebra-galho que nem sempre funcionava.

Fomos colecionando tipos, heróis, jingles, sonhos, humores. No início, tudo ao vivo, com acidentes inesquecíveis. Falcão Negro, um capa-espada de fundo de quintal, apresentado na hora do jantar, levou Gilberto Martinho para o estaleiro várias vezes. Cortes, tombos, pancadas, tudo fora do script e nas nossas barbas espantadas. A gente descobria que o mocinho tinha carne fraca, ossos frágeis e sangue que jorrava.

O Vigilante Rodoviário, que surfou o boom automobilístico dos anos JK, brigava e o quepe jamais caía do cocuruto. Como John Wayne, na tarefa interminável de dizimar peles-vermelhas e bandoleiros. Aliás, o cão Lobo era melhor ator que o canastrão Carlos. De noite ou de dia, firme no volante, vai pelas rodovias, bravo vigilante ! Flávio Migliaccio e Stênio Garcia fizeram pontas valiosas. As histórias eram invertebradas, mas, oh !, como a gente vibrava.

Depois do almoço dominical, corre pra frente do tubo de imagem. Era o Teatrinho Trol. Zilka Salaberry, Norma Blum, Roberto de Cleto, Fábio Sabag, nos introduziam ao faz-de-conta dos contos de Grimm e outros craques. Numa das histórias, a bruxa transformava alguém em coruja. O câmera vacilou e mostrou o contrarregra, quase rastejando, trazendo a ave empalhada e colocando no lugar do personagem, que se escafedia sem saber que era flagrado na fuga. Queixos caídos.

Durante a semana, éramos informados de que Tonelux era a mais bonita loja da cidade, que a Galeria Silvestre era a galeria da luz, que Phymatosan era o amigo que nos convinha, que a bola Pelé ia nos tornar campeões. Daniel Filho, Dorinha Duval, Grande Otelo, Zélia Hoffman e várias certinhas do Lalau estavam no musical Times Square, da Excelsior, onde se cantava: Diga madame, diga madame,/que quer que eu faça/pra que lhe ame?/Quero que empenhe/seus capitais/pra ter meu nome/entre as dez mais.

No circo do Carequinha, o malabarista mambembe tropeçava e caía nos braços do Oscar Polidoro, de cartola como convinha aos mestres de cerimônia. O Arrelia perguntava como vai, como vai, vai vai ? Bat Masterson, de chapéu coco e bengala, enfrentava os mal-encarados sem amarrotar o terno preto, nem desabotoar o colete. Traje estranho para paisagens desérticas. Teddy Boy Marino podia não beber rum Montilla, mas aplicava voadoras no Verdugo e no Tigre Paraguaio. Gostava da TV Continental, a 100% esportiva, mas via mesmo era a Resenha Facit, com Saldanha, Nélson, Scassa, Armando.

Inverno ? Não adianta bater, eu não deixo você entrar. É nas Casas Pernambucanas que eu vou aquecer o meu lar. Para encher o tanque, só Esso dava ao seu carro o máximo. E tudo andava bem com Bardahl. Mercado ? Vou dançar o chá-chá-chá, Casas da Banha, alegria vem de lá, também vou aproveitar, é lá que eu quero comprar. De manhã, pla ple pli plo Plus-Vita. Marcou aquele encontro ? Brylcreem, apenas um pouquinho, você irá brilhar, é o melhor caminho, para mil pequenas conquistar. Bateu aquela fome ? Alô, alô, quem fala? É do armazém do seu José ? A mamãe pediu para comprar uma lata de biscoitos Aymoré. Ah, para acompanhar, bom mesmo era o café Capital.

Pensando bem, ou melhor, sentindo bem, esta suave nostalgia está tatuada nos meus melhores afetos. Sou um pouco disso tudo. E como já sabiam os cobertores Parahyba, já é hora de dormir, não espere a mamãe mandar, um bom sono pra você, e um alegre despertar. Despertar ? Mesmo ?

Tá certo ou não tá ?

Abraço. E coragem.

Samba Perdido – Capítulo 18 – Parte 01

Capítulo 18

 

“Terra…

Por mais distante, o errante navegante,

Quem jamais te esqueceria?”

 

 Caetano Veloso

 

O novo destino ficava a uma caminhada de duas horas e meia pelas praias desertas. Sob o sol escaldante, encarei aquilo com as tralhas nas costas. Esse era o único caminho possível, não havia estrada nem trilha, e só dava para ir na maré baixa, já que na alta um trecho ficava perigosamente submerso. Já integrado no ecossistema, sabia a que horas ir e me safei do apuro.

O fim da andada era uma estradinha sem sinalização que subia pelo meio do mato até um plateau. A aldeia, cercada pela floresta tropical, consistia de uma formação retangular de cabanas em torno de um campo de gramado enorme e bem tratado. No final do tapete verde em frente do mar, fechando o que todos chamavam de quadrado, havia uma igreja colonial caiada dominando a aldeia.

Foi amor à primeira vista. A tarde já estava começando a cair e as sombras das casinhas estavam começando a cobrir o gramado. O cheiro gostoso de pasto verde foi um refresco depois daquelas horas cansativas, secas e quentes ao lado da agua salgada. A beleza era impressionante, a pureza do ar conferia ao oceano lá embaixo uma tonalidade turquesa profunda que ficava maravilhosa ao refletir o azul marinho do céu. A sofisticação cênica daquela pequena comunidade parecia incompatível com seu isolamento.

Sem saber onde ia passar nem aquela nem as outras noites do resto do mês que planejava ficar ali, parei no único bar de Trancoso, localizado na também única esquina do quadrado, logo na entrada da aldeia. A construção era simples; um balcão estreito de frente para uma pista de dança ampla – certamente de lambada – onde havia algumas mesas espalhadas. O teto era seguro por troncos de madeira. Havia várias pessoas de fora bebendo cerveja e curtindo o fim de tarde ali. Quando viram um violão puxaram assunto na hora.

“E aí? Sai um som dessa viola?”

“Claro que sai! Mas agora não dá, acabei de chegar a pé de Ajuda, só dá para beber uma cerveja.” Não queria tocar mas também não dava para dar uma de antipático. Antes de ir pegar minha gelada e sentar para relaxar falei. “Se tem alguém aí que quiser tocar, à vontade.”

Um cabeludo mais velho sentado com uma estrangeira hiponga bonita, loura de olhos azuis, se levantou e perguntou: “Se importa?”

“Sem problema nenhum!”

Tirei o violão da capa e ele deu uma conferida enquanto fui pegar minha cerveja. “Um Del Vecchio antigo! Isso é artesanal! Tu é doido de trazer um violão desses para cá!”

“A viola está adorando o Sul da Bahia, não se preocupe com ela.” 

Sem se impressionar com minha resposta, mas fascinado pelo instrumento o cabeludo intenso sentou num banco, posicionou o violão como quem sabia o que estava fazendo, deu uma verificada na afinação e saiu tocando uma das Bachianas do Villa-Lobos deixando todos de boca aberta.

Quando terminou, o cara que tinha me dado as boas vindas falou: “Caralho, mineiro, tu tava escondendo o jogo! Esmirilhou!”

“Tô meio enferrujado, tava precisando tocar. Esse violão é bom demais! Não resisti.”

Depois da primeira, vieram mais duas Bachianas, todas soando especiais naquele lugar. Quando terminou passou o violão de volta. Antes que tivesse que inventar uma desculpa para não ter que passar o vexame de tocar depois dele, ele perguntou:

“Como é teu nome?”

Disfarçando a pressa em colocar a viola de volta na capa respondi. “Rique.”

“Valeu, Rique, gostei do violão. Meu nome é Carlos, mas me chamam de Mineiro.” Ele olhou em volta como quem busca aprovação e continuou.” A gente está na concentração antes de bater uma pelada, os de fora contra os da terra, você pode jogar? Tá faltando um no nosso time.”

Com todos pressionando, não tinha como dizer não. “Vambora! Só que vou avisando logo: sou pereba ”

“Aqui só tem pereba, vamo nessa!”

Aquela resposta era típica de quem jogava bem e não deu outra. Quando o jogo começou senti o quanto as noitadas, a farra e a caminhada tinham me afetado. Estava numa forma vergonhosa e a cerveja antes do jogo não estava ajudando. A grama e as pedras estavam castigando as solas dos pés. Mesmo assim, tentando não dar vexame, fiquei na “banheira” quase o jogo inteiro e consegui marcar um gol. Contudo, mais competitivos por estar defendendo a honra da terra e bem mais em forma, os nativos venceram de goleada. 

Depois do jogo voltamos para o bar para amargar a derrota com mais cervejas. Já estava escuro e menos intimidado pela habilidade do mineiro, mais solto pelo jogo e pelo recarregamento etílico, tirei a viola e comecei a tocar cedendo a pedidos insistentes. Como em Ajuda, não demorou muito para que outros músicos se juntassem e ajudassem a disfarçar minha perebagem musical. Para meu alívio, talvez horrorizado pela minha inabilidade, o mineiro saiu logo com sua estrangeira loira. O dono do bar acendeu a lamparina de querosene e nossa música ficou quebrando o silêncio do resto do vilarejo. 

Conforme a noite foi avançando, as pessoas começaram a ir embora. Quando o bar já estava quase vazio, alguém me interrompeu. “E aí, carioca, vai ficar aonde hoje à noite?”

“Ainda não sei, se bobear acho um canto no gramado e estico o saco de dormir lá.”

“Que é isso?! Vai dormir que nem mendigo?! Aqui não tem disso não! A gente te arruma um lugar!” O cara virou para o dono do bar. “Seu Manoel, tem um quarto na aldeia aqui para o violeiro?”

Seu Manoel torceu a cara. “Tem não, nessa época do ano tá tudo tomado.”

“E na casa do Chileno? não tem um quarto sobrando?”

“Chegou um casal de gaúchos lá ontem à noite.”

“E aquelas irmãs de São Paulo, tomaram a casa do Sebastião toda?”

“Só pegaram um quarto. É, talvez lá tenha.” O seu Manoel virou para o filho sentado do lado. “Raimundo, dê um pulo na casa das meninas e pergunte se pode dormir mais um lá.”

Meio desconfortável com tanta cerimônia perguntei: “Para que tanto auê? Onde eu esticar o saco de dormir tá bom. Pode ser no quadrado ou até debaixo de um coqueiro na praia, não tem problema.”

“Fica tranquilo, carioca, a gente vai te descolar um lugar.”

Me lembrando da experiência com as brasilienses, fiquei vendo o moleque desaparecer no campo escuro e depois reaparecer do outro lado em frente às janelas iluminadas por velas e lâmpadas de querosene. 

O seu Manoel já tinha simpatizado comigo. “Deixe o Raimundinho voltar, se as paulistas disserem que não, tenho uma ideia.” 

Marquinhos, o cara que tinha me dado as boas vindas, falou: “Já sei, a cabana do Pará lá perto da praia!”

“Essa mesmo, e o rapaz vai poder ficar lá de graça. Acho que o Pará já arrumou comprador, faz umas duas semanas que ele sumiu.”

Não demorou muito para o filho do seu Manoel votar: “Elas disse que não quer mais genti na casa.”

“Esquenta não, carioca.” Marquinhos me deu uma olhada maliciosa. “A gente desconfia que elas não são irmãs coisa nenhuma, mas sim um casal de sapatonas, não iam querer um cara estragando a festa, né?!”

Um cara com um sotaque gaúcho que até então estava quieto deu uma risada e falou: “Aê violeiro, vai dizer que tu não ia querer ser o recheio daquele sanduíche?”  

Achando a observação despropositada e constrangido pelo esforço do pessoal, não dei trela para a brincadeira e perguntei: “E essa casa do tal do Pará?”

O brincalhão respondeu: “O lugar é até melhor do que aqui em cima, o problema é que é um barraco de palha no meio do mato, não tem nada por perto. Chegar lá a noite vai ser coisa de Tarzã.”

O seu Manoel falou: “Não exagere, Gaúcho, o rapaz chega lá fácil.” Aí ele se voltou para mim. “Nem precisa de chave, é só chegar lá, abrir a tranca de madeira e empurrar a porta. Não se preocupe com bicho, é só deixar a casa fechada que eles num entra.” 

“Que tipo de bicho!?”

O dono do bar, um sujeito moreno de meia idade com uma barriga respeitável, deu uma risada. “Aqui só dá galinha e porco, e volta e meia um jegue, não se aperreie!”

Mesmo que soasse roubada, não dava para recusar. Meio envergonhado, aceitei a generosidade e eles passaram a me explicar como chegar lá.

“Você desce a estrada da praia por onde você subiu, essa aqui do lado. Depois de uns trinta metros você vai ver uma trilha à direita. É só seguir toda vida que você vai dar na porta do barraco. Não tem erro.”

O Gaúcho, ainda achando graça, emendou: “Te prepara porque tem um rio no meio.”

 De novo não dei muita atenção, mas por via das dúvidas perguntei: Dá para deixar o violão aqui? Amanhã passo pra pegar.”

“Claro que dá, meu filho!”

Agradeci, botei a viola na capa e dei para ele guardar. Peguei a mochila, dei boa noite para o pessoal e fui encarar o caminho. Noites sem lua como aquela em particular eram excelentes para observar estrelas cadentes, mas faziam a visibilidade nula. Na estrada de terra ainda dava para enxergar alguma coisa, mas no mato estava um breu completo. Fui me guiando pelo barulho da água correndo ao longe, sentindo a areia com os pés e me escorando nos troncos das árvores com a mão.

A visibilidade voltou quando alcancei o rio. Na clareira, percebi que a outra margem ficava a uns seis metros de distância e pensei em desistir. Em vez disso, imaginei o mico que pagaria se voltasse dizendo que tinha ficado com medo e criei coragem e comecei a travessia no leito lamacento da água morna. Conforme a profundidade foi aumentando, barulhos de sapos e de outras criaturas da noite me fizeram pensar em cobras, animais estranhos e peixes carnívoros.  Numa dada altura, a água chegou quase a altura do peito e a correnteza tornava difícil equilibrar as tralhas na cabeça.

Do outro lado avistei a porta da cabana no final da trilha de areia. Como o seu Manoel tinha dito, a tranca era fácil de abrir. A claridade criada pela porta aberta revelou uma vela colada numa mesa. Revistei a mochila e achei a caixa de fósforos e liguei a vela. A chama fraquinha iluminou as paredes de madeira com argila, o chão de areia e o telhado de palha. Os únicos móveis eram aquela mesa rústica e uma cadeira feita a mão do lado. Fiquei digerindo aquele cenário e o cheiro acre e úmido. O vento soprando do mar estava uivando alto. Ele tirava o abafado da casa mas fazia a porta, as janelas e as árvores em volta baterem balançarem em uma coreografia sinistra. Estranhamente, a luz da chama pareceu me proteger e fez com que a cabana se tornasse aconchegante. Ainda ensopado, abri meu saco de dormir, o estendi no chão e assim que deitei caí num sono profundo.

*

O sol entrando pelos buracos da janela me acordou de manhã cedo. Ainda dava para ouvir o vento que agora, mais suave, permitia escutar o canto dos pássaros e as ondas quebrando ao longe. Saí do barraco para ver como aquilo era de dia. Fora minhas pegadas deixadas na noite passada, a areia em torno da casa tinha apenas pegadas de caranguejos e de pássaros. A paisagem em volta era densa e estava colorida pelo sol ainda tímido filtrado pela maresia. Naquele momento, o mundo era apenas a cabana, o mato ao redor e a presença da praia ao longe. Aquela paz especial me levou mentalmente ao início dos tempos.

Naquele estado quase místico caminhei até a praia que não ficava longe. Assim que a mata abriu, cruzei a areia, mergulhei no mar e nadei por um bom tempo até chegar a uma distância boa da costa. Na água funda, com aquela paisagem só para mim e com o corpo recomposto pelo exercício matinal, fiquei boiando e apreciando aquele espetáculo. Aquele paraíso ficava a poucos quilômetros de Santa Cruz de Cabrália, onde os primeiros pés europeus haviam tocado o país-continente. Este era o lugar onde aquelas almas ocidentais plantaram as sementes de um novo país. Naquela hora e local ficou fácil imaginar a flotilha chegando. Será que alguém naqueles navios tinha pensado que havia algo a aprender naquela terra linda? Não teria sido uma oportunidade para começar algo novo e melhor? Talvez não fosse tarde demais. Apesar dos horrores que seguiram, a carta de Pero Vaz de Caminha descreve um encontro festivo de civilizações, quem sabe a saga ainda não pudesse terminar bem?

 *

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O poder da astúcia

Ulisses é o herói da astúcia, foi quem inventou o cavalo de Troia, e assim os gregos venceram a guerra. Já no canto XII da “Odisseia” ocorre o episódio das sereias, em que Ulisses satisfaz o desejo de escutá-las, mas por estar amarrado ao mastro do navio não foi ao encontro da morte. Sua história é uma viagem perigosa, é a passagem da natureza à cultura, do desejo ao domínio das pulsões, é uma conquista difícil.

Astúcia é a busca de satisfazer o desejo, e, não renunciar ao desejo, como fez Sherazade, uma mulher astuta. Ela contava histórias, e a cada noite a história seduzia o rei que desejava saber como seguia, logo não matava a esposa e terminou sendo curado. Foram centenas de histórias que deram origem ao livro “Mil e uma noites”. E tem a injustiçada Eva da Bíblia, mulher que optou pelo conhecimento ao comer o fruto da árvore proibida, e assim nos fez humanos através do erotismo.

A palavra astúcia vem do latim, “astutia”, e expressa a manha, o engano, o ardil, a sagacidade, a inteligência prática. Astúcia é preciso para vencer a arrogância, a indolência, a desesperança, para suportar as desgraças e assim desfrutar das graças. Astúcia requer paciência, humildade, aprendizagem com parcerias que somam Astúcia da capoeira criada pelos negros na escravidão que juntaram dança, música e luta em rodas fraternas. É preciso astúcia na construção de laços de amizade, laços amorosos consigo mesmo e com os demais. Laços que diminuam a necessidade de castigo. Com astúcia, José interpretou os sonhos do Faraó do Egito e assim transformou-se de preso em ministro.

Os artistas e cientistas, os que amam o conhecimento, precisam da astúcia para inventar, criar o novo. Que difícil, por exemplo, é escrever, pois as palavras escapam, têm muitos sentidos e nunca se sabe com certeza quais escolher. Aí são os leitores que orientam os viciados na escrita, pois não existe escritor solitário sempre. Nos esportes, nas competições, no trabalho, na arte de amar, se requer astúcia para se saber fraco, como o fez Ulisses no episódio das sereias, e Mandela nos seus 27 anos de prisão. Ambos conseguiram, diante de forças poderosas, encontrar os meios para sobreviver, a paciência diante dos fracassos.

Entretanto, não se pode esquecer que astúcia não é só virtude positiva, pois pode estar a serviço da crueldade, como é o caso dos bandidos. Os bandidos fora da lei e, mais ainda, os terríveis bandidos protegidos pela lei, como se vê cada vez mais.
Também na guerra a astúcia é essencial, e aí pode vencer a turma do mal, como foi o caso dos impérios, ou a guerra da informação, onde as mentiras tendem a se impor diante das verdades. Astúcia política, às vezes, envolve qualidades canalhas, onde matar para lucrar é a pior das corrupções. Forças desalmadas se vendem como honestas, mas se revelam mais cruéis que a corrupção, ao buscar ordem só para seu progresso. O país das forças desalmadas com armas e sem armas se aproxima hoje da velha Sicília, onde o crime não tinha castigo, porque a tradição histórica impedia a revelação da verdade.

Foi muito difícil desmontar o poder nazista, o fascismo, as ditaduras militares, mas hoje há um novo desafio: criar astúcias para diminuir o poder dos inimigos internos da democracia, como Trump e os trompetes. A sabedoria é a forma mais elevada de uma sociedade que requer tolerância, prudência, inovação e a busca da justiça que não aceita pressões das armas. É preciso astúcia, unir as forças nas odisseias da vida e manter o sentimento do mundo. Bravos são os amantes da poesia, do conhecimento, das parcerias amorosas apesar do desânimo. Apesar do fogo dos dragões armados, apesar do cansaço, apesar dos pesares, a dignidade da luta está na paciência e no entusiasmo.

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De cara, a coisa assusta. O que pensar quando você está prestes a entrar no período dos Dias Temíveis ? Não, nada a ver com a Covid-19 ou com a última batatada dos demolidores da República. São os Iamim Noraim, período de dez dias em que se celebra o ano novo judaico. Começa na próxima sexta-feira, dia 18, à noite, e termina dia 28, também à noite, quando o shofar é tocado e se quebra o jejum do Iom Quipur.

O que haverá de tão assustador nesta celebração da passagem do tempo ? Os religiosos acreditam que é nesse período que seu destino será selado por um juiz inacessível e implacável, ao qual não cabe apelar com as armas da razão humana. Para quem, como eu, a devoção é de outra natureza, os dez dias entre o Rosh Hashaná e o Iom Quipur podem ser um bom pretexto para meter o pé no freio e fazer um balanço da vida. Isso nunca é fácil, e não recomendo que seja feito como exercício solitário. Enfrentar nossas circunstâncias, nossa fragilidade, nossos mortos, nossas mortes. Perceber as consequências das nossas ações sobre indivíduos e sociedade.

Com o tempo, sempre ele, fui aprendendo que os significados dos Iamim Noraim são muitos e variáveis. Criança, eu os encarava como festa. Afinal de contas, as aulas eram suspensas, comidas típicas, adocicadas para atrair dias de mel, não faziam feio, as bobes eram craques. Já menos inocente, comecei a prestar atenção especialmente ao Iom Quipur. Cheguei a jejuar na adolescência, um jejum radical que não permitia sequer escovar os dentes. Prova de macheza pós-bar mitzvá, que, numa das vezes, terminou mal. Ensinam os faquires das escolas tradicionais que jejum prolongado se quebra com prudência. Biscoito de água e sal, um pedacinho de bolo, chá. Pois os adultos, igualmente famintos, resolveram cortar caminho. Encomendaram uma pizza. Daquelas pingando gorduras cis, trans, e outros babados. Passei mal a noite inteira, botando bofes e estrofes pra fora.

Com mais quilometragem, me libertei da liturgia severa e me dei o direito de entender os símbolos. Saí dos manuais e transitei para a arte de perguntar. O Kol Nidrei, oração que inaugura o jejum do Quipur, é uma espécie de feijoada completa. Tem de tudo. Uma de suas possíveis origens é exemplo de respeito às diferenças. Seria um legado da época da Inquisição, quando os judeus foram forçados a abandonar sua fé e se converter ao catolicismo. Sob pena de exílio ou, pior, fogueira. As palavras de abertura do Kol Nidrei dizem que, na congregação reunida, todos são iguais, aí incluídos os que cometeram faltas graves. Os que foram forçados a fazer o que não queriam não são discriminados. O espírito é de tolerância e acolhimento, democrático, tão importante quanto a sentença do destino. Mishivo shel malo, mishivo shel mato, com a autoridade do Tribunal Celeste, e com a aprovação do tribunal terrestre. As instâncias se equivalem, numa surpreendente concessão do dogma ao crivo social. Tudo cantado pelo hazan, o cantor litúrgico, numa melodia belíssima (que inspirou Max Bruch, um não-judeu, a compor uma das mais lindas peças eruditas de todos os tempos). Diálogo, democracia, arte.

Momento solene da sequência quipuriana é o Izkor. Lembrança, literalmente. Os que perderam familiares são convidados a rezar o Kadish, a oração dos mortos. Desde muito cedo eu a aprendi, e até hoje a sei de cor. Falar sobre a passagem do tempo é, inevitavelmente, lembrar da nossa finitude, parte inseparável de qualquer balanço de vida. Não com melancolia, mas como memória em trânsito. Converso com meus mortos, sempre torcendo para que estejam de bom humor. Já tomei shnaps com eles, outras vezes me deram boas palmadas, noutras gargalharam com sotaques diversos.

Às vésperas da virada de ano, peço desculpas a quem não compreendi e, involuntariamente, magoei. Também a quem ofendi com silêncio quando o afeto pedia diálogo. A quem frustrei, ignorei, subestimei, irritei. Que possamos reconstruir pontes danificadas pelas humanas fraquezas. Nenhum de nós é o nebech, o coitadinho do folclore ídish. Somos todos, consciente e inconscientemente, responsáveis por nossos atos. O nebech, lembram meus mortos, é aquele que, quando cai de costas, quebra o nariz.

Salve 5781 ! Gut ior ! Shaná tová ! Anyada buena !

Abraço. E coragem.