por Richard Klein | 12 set, 2020 | Brasil, Crônica
Se esquecêssemos a desigualdade social refletida tão simples e claramente na nossa presença ali, o povo de Ajuda vivia bem e ainda não tinha sido tocado pelo “Brasil Novo”. Sem interesse, malícia, nem conhecimento para explorar turistas, ganhavam a vida usando seus barcos artesanais para trazer seu sustento do mar. Alguns alugavam quartos ou cozinhavam para fora para completar o orçamento. O pessoal da terra era curioso a nosso respeito e nós a respeito deles. Às vezes, nos honravam com convites para conversar e ouvir suas histórias sobre a comunidade, suas lendas, o mar e a natureza que nos cercava.
“Tem vários pescador que viu uma luz branca aparecê de noite no meio da pescaria. Quando eles via de perto, aparecia uma mulher vestida de branco lá de dentro. Todos os que viram aquilo acabaram morrendo no mar de um jeito ou de outro.”
“U mió mês de se pescar é março, a corrente traz muito peixe do Sul para cá, o mar fica mais frio e de vez em quando nóis pega até tainha.”
“Aqui dá cação, principalmente por volta do mês de junho, mas é ruim pras rede. Eles rasga tudo e depois nóis tem que remendá tudo de volta. A gente mata eles com peixeira, mas é, difícil. O bicho é grande, maior que sinhô. A carne nem é muito boa, é dura. A gente tem que cozinhá várias veiz até amassiá, que nem carne de sol.”
“Nos rio daqui tem peixe sim sinhô, mas é tudo pequeno. Tem muçum, o sinhô conhece? Já experimentaste? É feio como a peste, mas é muito saboroso. Tem que saber cozinhá.”
“Nadá?! Nós não sabe nadá não, quando um cai na água, nóis vai lá e traz ele de volta do jeito que dá.”
“Ôceis num pesca no Rio de Janeiro, não? E aprendeu a nadar por quê? Oxente, se eu tivesse o dinheiro que oceis tem, mandava fazê uns três barco e fazia os outro pescá para mim. Que nem aquele minimo de Salvador tá fazeno. Eu ia ficá rico que nem ele!”
Os visitantes mais sortudos que estavam lá há mais tempo eram convidados para sair nas pescarias, mas isso nunca aconteceu comigo.
O pessoal de fora, todos na faixa dos vinte a trinta anos, era uma mistura de estudantes universitários, professores, jornalistas, artistas e profissionais de todos os tipos. As conversas longas e frequentes refletiam a paz e a beleza do lugar e a explosão de liberdade de expressão que se seguiu à repressão do regime militar. Todos faziam questão de dar a sua opinião sobre tudo; de futebol à ecologia, da política ao sexo.
“Quando a eletricidade chegar aqui, vai mudar tudo e para pior. Eu sou do Mato Grosso, lá tem um monte de aldeias como essa. Quando modernizam, o povo mais humilde acaba virando favelado e quem se dá bem é o pessoal das cidades vizinhas maiores que chegaram sabendo como lidar com dinheiro.”
“Pois é, eles são muito ingênuos. Não valorizam o que possuem. Eu sou do interior do Paraná, e lá é igual. Os nativos, não têm parâmetros para comparação. Os caras de fora vêm na malícia e deitam e rolam em cima deles.”
“Vai ser uma pena ver essa natureza toda ser transformada em resorts à lá americana mas pode crer que vai virar.” Profetizou um.
“Pois é, mas ficar aqui sem luz elétrica é bom demais, a gente tem que aproveitar enquanto dá.”
Todos concordaram.
“Mudando de assunto, se vocês querem ver natureza de verdade, têm que ir para Caraíva. No ano passado fiquei lá o verão inteiro. Foi muito, mas muito bom!”
“Caraiva? Os nativos disseram que não dá para chegar lá nem a pé!”
“Que dá, dá, mas é difícil por causa da maré e dos rios no caminho. Teve um maluco de Belo Horizonte que saiu de Trancoso e conseguiu, mas levou dois dias. A gente foi de barco. Tem um que sai de Porto Seguro toda sexta-feira, leva umas três horas.”
“E como é que é lá?”
“Muito louco, parece uma aldeia perdida no meio do Amazonas. Tem uma reserva indígena do lado, os caras nem falam português direito, só que o bicho pega com os nativos. Tem muita briga, principalmente depois que os índios descobriram a cachaça. Quando bebem, enlouquecem.”
“Você entrou em alguma confusão?”
“Ah, não, com o pessoal de fora eles são diferentes. A gente dá roupa, traz ferramentas, facões e isqueiros. Por isso adoram a gente.”
“É contra a lei, não é?”
“É, pela lei eles nem poderiam comprar esse tipo de coisa mesmo se tivessem grana, mas os caras precisam para lidar com o mato. Fiz amizade com um monte deles. Eles são muito doidos, não conhecem o conceito de propriedade privada.”
“Como assim?”
“Tipo assim, você vai para a praia e quando volta tem um monte de índio sentado na tua sala, tranquilos, sem pedir desculpas nem permissão. Teve um dia eu estava transando com a minha namorada e quando a gente acabou, nos demos conta que tinha uns cinco ou seis debruçados na janela olhando para nós em silêncio. Só faltaram aplaudir… minha namorada ficou puta!”
Todo mundo deu risada.
Quando o papo ficava mais sério, todos concordávamos que esses eram os últimos dias de um mundo no qual a natureza era maior do que o homem.
“Épocas de mudanças são um problema, decisões que parecem pequenas acabam tendo consequências enormes.” Falou um cara mais velho que, se não me engano, era professor de universidade. “Essa geração está presenciando toda essa devastação e vai ser cobrada pelo que deixou fazer e pelo que não fez no futuro.”
“Pode crer, vão dizer que deixamos a coisa rolar.” comentou um hippie bom de percussão.
O professor continuou: “Não sou muito otimista, acho que vamos ser vistos como os porcos que estragaram o planeta em nome de farra.”
Uma menina com cara de estudante de mestrado emendou: “É verdade, somos o vírus e a cura, tudo depende das decisões que vamos tomar ou que vão tomar por nós. O xis da questão é acreditar ou não que a gente pode fazer uma diferença.”
Discussões à parte, havia algo de especial no ar. Nenhum de nós jamais havia sentido esse tipo de conexão coletiva antes. Era como se estivéssemos em uma realidade paralela, destilada por séculos de ideais utópicos e pela camaradagem criada na resistência clandestina ao regime. Naquele paraíso tropical, essa proximidade permeava festas, a música, risos, relacionamentos e amizades que aconteciam. Elas tinham uma qualidade e uma sinceridade muito diferentes do que normalmente aceitaríamos como realidade imutável nos grandes centros urbanos.
*
A experiência não tocou Davi como a mim. A meu ver, ele estava se reprimindo ao escolher se misturar com uma galera de universitários mais caretas. Eles eram parte importante das conversas, mas participavam somente marginalmente de nossa “sociedade secreta”. Não estando ligados à erva, perdiam um elemento essencial. Não era uma questão de tirar uma onda ou de se enturmar por estar fumando maconha, mas pelas dimensões e perceptivas que ela parecia abrir nos papos e até na integração com os arredores.
Uma frase de efeito do Gabeira resumia bem a diferença entre nossas perspectivas: “Sem tesão, não há solução.” Esse era o pensamento dos envolvidos naquela microrevolução quixotesca. Nela, as coisas se resumiam a ações ao invés de palavras. Queriamos um mundo onde as pessoas vivessem mais proximas à natureza – a interna e a externa, sem distinções -, sem hierarquias, principalmente a hierarquia da mente sobre o corpo. Ninguém queria saber de dogmas, tanto à esquerda quanto à direita, muito menos as vindas dos altares da vida. Naquele verão utópico, quem precisava do peso da história, da escola, da tradição e da ciência pairando sobre suas cabeças?
O caminho para o fim da nossa amizade culminou quando conseguimos rachar uma cabana maior com três garotas de Brasília que ele havia arranjado perguntando ao pessoal local. Assim que as conheci, as achei feias e certinhas demais e portanto, fora da minha zona de interesse. A antipatia foi mútua: minha atitude de carioca descontraído que não estava nem aí para as praticidades de uma convivência diária contrastava com seus esforços em serem sociáveis e seus pedidos para que dividíssemos as tarefas domésticas. Talvez estivessem certas ao me considerar um riquinho preguiçoso e mimado, acostumado a ter uma mãe e uma empregada sempre correndo atrás dele. Só que com 17 anos, era imaturo demais para compreender isso e as descartei como “mocréias” chatas.
Um dia após a praia, já de saco cheio da minha preguiça, exigiram que eu preparasse a refeição daquele dia. Avisei que nunca tinha cozinhado na vida, mas, talvez achando que isso fosse uma desculpa esfarrapada, se recusaram a ouvir e me forçaram a embarcar na primeira aventura culinária da minha existência. O fogão era uma grelha apoiada em alguns tijolos que ficava na área atrás da casa. Meu primeiro passo procurar por lenha seca e papel para acender o fogo, o que era quase impossível com o vento que estava soprando. Depois que tive a ideia de pegar uma cartolina que encontrei para proteger a chama, finalmente consegui. Quando as chamas diminuíram, seguindo as explicações do Davi, coloquei uma panela velha sobre a grelha, com água, óleo, sal e o espaguete.
Como bom filho de Aries fiquei agachado curtindo as chamas arderem e aproveitei o fogo para acender uma ponta que achei no bolso. Tudo estava correndo bem até levantar para adicionar os ovos. Enquanto afundavam na água fervente, percebi que o resto dos ingredientes não estavam borbulhando como deveriam. Quando cutuquei com o garfo, senti que o macarrão tinha se tornado uma massa uniforme grossa e grudenta. Mesmo para um iniciante era óbvio que aquilo estava errado. Só que quanto mais tentava concertar a coisa, mais ela lutava de volta dificultando os movimentos do garfo. O que era para ser uma refeição à base de espaguete se degenerou em um bloco de massa incomível. Para tornar as coisa ainda pior, percebi que os ovos haviam sumido lá dentro. Comecei a escavar a “coisa” numa tentativa de salvá-los, mas o garfo ficou preso antes de desaparecer naquela deformidade.
Depois de um pânico inicial, achei aquilo engraçado. Respirei fundo e tomei coragem para dar a notícia dentro da casa.
As meninas estavam esperando com fome.
“Aê, vocês não vão acreditar, o macarrão virou um tijolo e engoliu os ovos e até aquele garfo. Vocês querem ver? Tá hilário!”
“Como assim?”
“O macarrão ficou todo grudado e acabou, sei lá, fundindo num bloco de massa sólido. Nem tô conseguindo nem tirar da panela.”
“Não estou acreditando, você sabia que a panela é da casa? Sabe quanto custou a massa e os ovos? Não deve saber? A empregada não foi comprar, né?”
“Olha só, foi um acidente!” Elas estavam sérias e nervosas e eu não estava gostando do rumo que a conversa estava tomando. “Está todo mundo de prova que avisei que nunca tinha cozinhado na vida.”
“Como é possível um marmanjo da tua idade não saber cozinhar um macarrão?!”
“Isso não vem ao caso. Eu avisei, foi um acidente, se vocês quiserem eu pago o macarrão de vocês, mas baixa a bola aí, porque gritar não tem nada a ver.”
“Ah, e você vai pagar o nosso jantar?”
“Compra mais macarrão, cozinha um arroz, sei lá, se é para pedir desculpas já pedi, só não enche!”
Havia coisas melhores a fazer do que ouvir aquelas três garotas gritando comigo e saí da cabana, deixando elas falando sozinhas. Mais tarde, naquela mesma noite, caiu a última gota. Estávamos todos num boteco, e depois de beber demais, a mais nova, que era a mais sossegada e a mais atraente das três, me pediu para a trazer de volta para a casa porque estava passando mal. Estava bêbado também e no portão nos beijamos. Quando entramos e já estávamos prestes a finalizar a coisa, as outras duas entraram como um foguete, chegando perto de me agredir fisicamente. No dia seguinte me colocaram para fora. O Davi, que já estava farto das minhas doideiras, também não gostou e ficou do lado delas.
Peguei minhas tralhas resignado e um tanto zangado e fui bater na porta da cabana de uns uruguaios camaradas que me acolheram na hora. Só que não demorou muito para descobrir que o clima na casa dos caras era caótico demais, até para mim. Era gente entrando e saindo da casa 24 horas por dia para zoar e se chapar. Por outro lado, talvez pelo acontecido, o Davi decidiu voltar ao Rio mais cedo do que o planejado. Agora sozinho no Sul da Bahia, carregando o gosto amargo da rejeição, seguindo recomendações, resolvi me mudar para Trancoso, o próximo vilarejo ao sul.
…
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por Mauro Nadvorny | 11 set, 2020 | Crônica
O viciado em leitura olha excitado uma biblioteca, a casa onde os livros dormem. O livro fechado é um objeto morto, só vive quando aberto. O livro chama o leitor, uma atração como um ímã, uma sedução irresistível como o canto das sereias da “Odisseia”. Um dia, eu estava na cidade de Perugia, diante de uma pequena biblioteca de livros italianos. Um chamou minha atenção pelo título, abri e aos poucos fui decifrando, pois o italiano não é grego, mas não é fácil. Passei horas com o pequeno volume vermelho, era uma edição simples, composta por mensagens de condenados à morte, os partisans da Resistência Italiana. Resistência construída durante a Segunda Guerra Mundial, em especial a partir de 1943. Ler as últimas palavras de jovens, escritas na noite que antecedia as execuções, foi angustiante.
Todo o dia lia mais algumas das mensagens tristonhas, eram despedidas da vida. A introdução do livro esclarecia que todos os condenados tinham sido mortos por pelotões de fuzilamento. Haviam lutado contra o fascismo e o nazismo, e nos bilhetes constavam as idades dos partisans, que eram em torno de vinte a vinte e cinco anos. Um ou outro tinha trinta e só um quarenta anos, era casado, escreveu primeiro à esposa, que conhecera na adolescência, e se despediu dela e depois de cada um dos seus filhos, bem como dos pais e de uma irmã. Lembro que ao terminar de ler e reler essa carta fechei o livro para respirar diante das lágrimas das palavras. Um livro, as vezes, requer uma leitura lenta, afinal lia as palavras essenciais na vida de quem já vai morrer, sua última mensagem. Frases que expressavam gratidão aos seus, e o encorajamento para os seus amores seguirem a vida.
Os condenados entraram na Resistência sabendo da possibilidade da morte, e escreveram que morriam com o sentimento de terem lutado no lado certo da vida. Combateram o fascismo, a extrema direita, aliado histórico dos nazistas. Todos os dias dediquei algum tempo ao livrinho vermelho, era uma dor ler jovens sabendo que em horas mais estariam mortos, e um alívio estar vivo e no outro dia não enfrentar um pelotão de fuzilamento. Alguns comentaram que não iriam ter tempo de ter filhos, outros até de se casarem. O denominador comum nas cartas eram duas palavras: uma, a gratidão por serem italianos antifascistas, outra, o amor aos seus familiares. Todas as resistências às ditaduras envolvem desafios pessoais, opções existenciais.
Nas leituras das cartas se pode perceber, mais uma vez, como a morte e o amor, o amor e a morte se encontram. Não por acaso, um versículo da Bíblia é um canto repetido do Cântico dos Cânticos: “O amor é forte como a morte”(8,6). No meio da crueldade o amor insiste, resiste, se mantém forte, é a vivacidade pura da vida. O escritor Macedonio Fernández, mestre de Jorge Luis Borges, escreveu que a morte vence a vida, mas o amor vence a morte. Depois da morte o amor segue vivo na vida dos vivos, vivo e gerando efeitos amorosos. Com o tempo os mortos passam a ser os visitantes noturnos através dos sonhos.
Um sonho pode se manifestar como pesadelo, mas sempre é melhor assim que um pesadelo real como se vive hoje aqui. Nossa história é marcada por regimes ditatoriais ditados por medíocres, dominado por Forças Desalmadas, que permitem intervalos democráticos. Para quem está triste, desanimado, e são muitos, vale a pena ler, ver filmes sobre a resistência tanto ao nazismo e ao fascismo, como as ditaduras militares. E escutar a música “Bella Ciao”, hino da Resistência Italiana, que se transformou no hino mundial contra o autoritarismo. E imaginar o vento secando as lágrimas, e o amor voltando a brilhar.
por Mauro Nadvorny | 10 set, 2020 | Crônica
Marina, Morena Marina, Você Se Pintou
Marina , Você Faça Tudo
Mas faça um favor…
Lembro perfeitamente o dia que descobri que no Brasil existem vários brasis. Aqui narro: Certa feita, uma moça , negra foi fazer um trabalho lá em casa e levou a filha da minha idade. A menina, que só vi uma vez e não lembro o nome, ao entrar no meu quarto, ficou maravilhada com as Suzies, fogõezinhos de brinquedo feitos para treinar as meninas a serem donas de casa, aquele monte de tralha de criança de classe média. Minha mãe avisou que iríamos lanchar. E sabe-se lá porque essa criança começou a me falar, com deleite, do pão que havia comido na casa de uma patroa de sua mãe.E repetia sem parar:”Mas era um pão com muita manteiga, muita manteiga”.Logo depois mamãe surgiu com um misto quente para cada uma, eu devorei o meu como bárbara que sou e ela comia devagarzinho, como se quisesse que aquele gosto ficasse na lembrança. Sua mãe chamou, elas se foram e nunca mais as vi. Era um trabalho avulso, acho que a mãe foi substituir uma passadeira que havia faltado.
Sei que fiquei incomodada com o “muita manteiga”.Não era boba, sabia que não podia ser pelo fato dela ser aficionada por essa comida tão trivial. Sozinha entendi o óbvio: Se deseja o que se falta.
Apesar de nascida e criada no Rio, uma cidade que expõe suas diferenças sociais na própria geografia, minha vida se resumia a escola de classe media, colegas do mesmo meio, carro pra levar e buscar na escola e férias em Valença, visitando o sítio que minha avó morava.
Só que a gente vai crescendo, vai olhando ao redor e ter pais esquerdistas e avô comunista ajudam bastante nesse processo. Ainda assim foi com dificuldade que entendi que esses brasis não apenas existem como também se misturam num mesmo espaço. Eles coexistem.
Essa percepção me chegou através de Maria das Dores.Das Dores era ex-interna do hospital psiquiátrico, não tinha família e foi acolhida lá em casa pelos meus pais como vários outros.Era nossa babá.Negra, magrinha, fala rápida, o Brasil de Das Dores era representado por um poster de Amado Batista na parede, Revista Sétimo Céu e um repertório musical completamente diferente do que se costumava ouvir fora dos limites do seu quarto.
Enquanto no mundo dos meus pais e avós imperava Chico Buarque ,muita bossa nova, o jazz da Ella Fitzgerald e uma biblioteca repleta de livros clássicos, no mundo de Das Dores eu mergulhava nas fotonovelas. O programa do Chacrinha também ajudava nessa travessia. Meu avô Arthur, intelectual de porte, não perdia. E eu ficava lá ao lado dele, dividindo o biscoito maisena piraquê com suco de caju, assistindo aquela loucura. No mesmo palco cantava Caetano, logo depois chamavam Almir Rogério. As chacretes e suas botas platinadas de Barbarellas tupiniquins me fascinavam..Quando crescesse, queria ser chacrete. Era meta de vida. O Programa do Chacrinha era o retrato do Brasil.E sim, Abelardo era um gênio.
Essa é a minha lembrança do que eram as músicas populares daquele Brasil dos anos 70.Toda essa rememoração veio através de uma discussão em um grupo que faço parte entre um dos membros e minha amiga Marina Costim. O post em questão falava que Paulo Coelho era ruim de ler, era um autor menor. Marina , firme, defendeu que foi através dele, tanto ela quanto sua geração, que começou a tomar gosto pela leitura. E eu que sou uma intrometida, lembrei que falem o que quiserem mas a historia do Mago é sensacional. Lembrei que só fui saber já bem velha que o meu eterno ídolo Sidney Magal era cover de um cantor argentino de sucesso chamado Sandro.E que quem fazia as traduções das músicas era ninguém mais, ninguém menos, que Paulo Coelho.
Fui tão fascinada pelo Sidney Magal e sua eterna Sandra Rosa Madalena, que guardo profunda inveja de amiguinha que foi ao show dele, foi chamada ao palco e recebeu das mãos dele uma rosa vermelha e um beijo na bochecha. Nem mesmo Ney Matogrosso, meu ídolo máximo, que num show dedicado a Ângela Maria, desceu do palco e dançou babaloo exclusivamente para mim me fez debelar essa inveja.
Não cabe aqui nesse texto discutir sobre o que se considero alta ou baixa cultura. Até porque essas nomenclaturas para mim não importam , deixo isso para os acadêmicos .O que posso falar, da minha vivência, é que existe uma enorme afetividade da minha parte em relação a esses músicos considerados “cafonas”, que fizeram sua história na década de setenta. Foi lendo o definitivo livro de Paulo César de Araújo, historiador, jornalista e escritor “Eu Não Sou cachorro Não” que pude ter compreensão de fatos que até então me passavam batidos. Paulo César, ele mesmo de familia humilde, filho de lavrador de Vitoria da Conquista, ao querer escrever um livro sobre a dita musica cafona da década de setenta, ´percebeu que nada constava na historiografia musical oficial. É uma musica que nasceu bem longe do apartamento da família Leão em Copacabana.É o preconceito que grita.É uma musica banal, óbvia, direta, sentimental, rotineira, palavras do próprio Paulo Cesar.
Independente de ser consumida do Oiapoque ao Chuí, de seus cantores serem recordistas de venda, ao invés desse fato ser visto como uma vitória, é tomado como um defeito.
Paulo César diz que ao contrário das musicas engajadas, de Chico, Caetano, Gil, a musica cafona , para determinados críticos, atuaria como elemento alienante para o povo, daí o desprezo dos historiadores. Lêdo engano.A censura era para todos. Exemplos não faltam. Waldick Soriano quis regravar um bolero dos anos 50 e foi impedido. O título era “Torturas de Amor”.Tortura era a última palavra que poderia existir naqueles tempos numa musica.
Odair José que o diga, Vindo de Morrinhos, interior de Goiás, veio tentar sucesso no Rio.Sem apadrinhamento, sem dinheiro,não foram poucas as vezes que dormiu em escada de hospital para ter uma noite de sono.Odair, que recebeu a alcunha de Bob Dylan da Central, cantava para seu público. Suas músicas eram verdadeiras crônicas .Suas letras eram dedicadas as empregadas domésticas (que nem tinham registro oficial) , as mulheres do baixo meretrício (Eu Vou Tirar Você Desse Lugar) e aquelas mulheres que por necessidade estavam se inserindo no mercado de trabalho. Eram musicas que falavam a alma. Almas que passavam bem longe de barquinhos a navegar.
Morei numa cidade do interior do Rio, dei aulas na universidade de lá e por ser jovem, meio que fui adotada por um grupo de senhores professores do IME. Um deles me contou algo que nunca esqueci. Primeiro sobre a velha tríade da cidade brasileira: Por menor que seja há de se ter uma igreja, um campo de futebol e um puteiro. Engenheiro militar, muitas vezes ia parar em lugares impensáveis, num desses rincões do Brasil, que funcionavam com gerador.Seis da tarde, tudo fechado, menos a casa de tolerância, que sabe-se lá como sempre tinha cerveja gelada.E não era incomum ver uma prostituta, sozinha, diante de uma garrafa cerveja, chorando ao som de Odair José. Não se trata aqui de glamourizar a prostituição e sim de falar que esse sim era o som do Brasil Grande.
Odair, com sua Pare de Tomar a Pílula, tratando de um assunto tabu, acabou caindo nas garras da censura e do governo militar .Numa entrevista ao jornalista Silvio Essinger ele narra: Eu fazia shows pelo Brasil. Uma vez, no Espírito Santo, numa faculdade, me pediram para tocar a “Pílula”. Como estava no interior, cantei, achando que não ia acontecer nada. Mas, naquele mesmo dia, tive que ir prestar depoimento. Depois, a gravadora me levou a Brasília para tentar entender por que a música não poderia ser tocada, e foi só aí que me explicaram o motivo. O governo tinha um programa de distribuição de pílulas nos hospitais públicos, então como é que poderiam permitir uma música chamada “Pare de tomar a pílula”? O programa do governo fracassou. Minha música está aí até hoje.
O estrago maior do regime foi a autocensura. Passei a ter medo da forma como colocava as coisas no papel. Fiquei mentalmente amarrado, tinha dificuldade para compor. Perdi o pique. A música foi proibida de tocar não só no Brasil, como em toda a América Latina..Portanto, não foi por não desafiar a censura que esses cantores dito “cafonas” ficaram excluídos da historiografia musical do Brasil.
E sim, as musicas tocavam a minha alma infantil. Chorei baldes de lágrimas ouvindo Menina da Cadeira de Rodas, de Fernando Mendes. Apesar de ter vários senões em relação a Agnaldo Timoteo, não há como negar sua importância. Quando canta A Galeria do Amor, está a falar da Galeria Alaska, reduto gay do Rio de Janeiro.Se isso não é coragem, não sei que nome dar. Agnaldo como quase todo musico dessa vertente, começou trabalhando cedo, para ajudar sua mãe. Mas sua madrinha foi a maravilhosa Ângela Maria, de quem foi motorista e quem o lançou como cantor.
Há uma história fantástica e deliciosamente improvável narrada por Paulo Cesar.Apesar de estilos e turmas diferentes, Agnaldo e Gonzaguinha desenvolveram uma bela amizade.Gravavam na mesma gravadora e muitas vezes Gonzaguinha ia para a casa do amigo, tomar aquele uisque fim de noite.Numa dessas Agnaldo contou sobre o seu amor, Paulinho.Um rapaz mais jovem, bonito, a quem Agnaldo dava tudo que podia e por quem realmente era apaixonado. Paulinho porém, a cada viagem de Agnaldo, ia se aventurar por aí. E quando sabia disso, Agnaldo morria por dentro. Quem nunca? Ao mesmo tempo que o queria longe da vida, não suportava a dor da perda. Foi com essa historia que Gonzaguinha escreveu, na mesma noite, Grito de Alerta, imortalizada na voz da Bethania.
Nosso caso é uma porta entreaberta
E eu busquei a palavra mais certa
Vê se entende o meu grito de alerta Veja bem,
É o amor agitando o meu coração
Há um lado carente dizendo que sim
E essa vida da gente gritando que não
Essas pessoas fabulosas fizeram parte da minha vida.Vanusa, Nelson Ned, Antonio Marcos, Almir Rogerio, Perla e sua beleza guarani e tantos outros. Sim, era o som do Brasil Grande. Era o som da Maria das Dores .E provavelmente era o som que a garotinha da manteiga ouvia em casa. Meu enorme respeito e carinho por essas pessoas. Li na Piauí que Paulo Cesar de Araújo desenvolveu uma amizade com João Glberto, numa dessas coincidencias estranhas da vida. E passaram a se telefonar.João Gilberto aconselhou-o a ir em busca do pai lavrador, que havia se distanciado da família.E, quando finalmente o gênio da bossa nova e o historiador foram apresentados pessoalmente João Gilberto disse:”Eu sou o João”.E Paulo Cesar de Araújo, apenas respondeu:”Eu sou o Brasil”.
PS: O texto é dedicado a Marina Costim e por isso a epigrafe de Caymmi. Mais do que isso, é preciso dizer, que num encontro entre o velho baiano e Odair, o que Dorival falou foi:”Rapaz, ninguém nunca fez uma musica de puta como você nesse país, que beleza!”.Se isso não é Brasil, não sei o que é.
PS2:Para quem se interessar, histórias deliciosas e muitas críticas pertinentes no livro de Paulo César de Araújo.ARAÚJO, Paulo Cesar de. Eu não sou cachorro, não: música popular cafona e ditadura militar. Rio de janeiro: Record, 2010. 7ª. Ed.
por Mauro Nadvorny | 7 set, 2020 | Crônica
A faxina que não termina acabou me levando a um velho dicionário. Olhei a lombada castigada pelo tempo, os dedos escorregaram para a primeira página. Lá estava. A dedicatória ao Menino, desejando que continuasse a ser “o ótimo aluno que tem sido”. Tios e primos não tinham como saber, mas aquilo foi recebido não como a declaração de bem-querença, de afeto, mas como um imperativo que exigia dedicação monástica, o “melhor aluno” era uma prova atlética de quem se exigia nada menos do que a medalha de ouro. Sempre. Uma carga que deixou não poucas cicatrizes.
O documentário de João Moreira Salles sobre Nelson Freire captou um raro momento de sorriso do enorme pianista. Ele aponta para uma tela que exibia um solo de Errol Garner. O jazzista praticamente brincava com as teclas do piano, intimidade quase erótica que desabrochava em alegria. Para Garner, tocar piano, improvisar, era um grande prazer. Pois Nelson disse invejá-lo. Claro que não se referia a questões técnicas, mas ao espírito livre de cobranças, à leveza de quem não está obrigado a bater recordes olímpicos em cada apresentação. Pelo que se conhece da biografia do mineiro, a música redimiu uma infância solitária e angustiada. Nós, ouvintes encantados pela sua arte, ganhamos um pianista genial. No entanto, o custo para ele foi pesado. Difícil conciliar o prazer de tocar com a leveza, impossível ?, de viver.
Henry Cole, também pianista, personagem do filme A última nota, passava por uma crise. Começou a ter lapsos no meio dos concertos, imperdoáveis para um músico erudito de sua categoria. Conversando com uma amiga, falou sobre como percebia o público. Tinha a impressão de que ninguém se interessava verdadeiramente pelas músicas, de resto velhas conhecidas. Todos esperavam, sádicos ora essa, que ele tocasse um bemol fora de hora, ou pior, glória !, que esquecesse um acorde inteiro. Comparava com as exibições dos trapezistas. Segundo a neura de Cole, a torcida sempre é para que o trapezista se desequilibre e se esborrache. Peso, cobrança.
O Menino jogava suas peladas sempre descalço. Bailava sem precisar de sapatilhas. Um olheiro intuiu o craque (!) por trás daquele moleque e o convidou para treinar num clube tijucano. Como mandava o figurino. Tênis, meião, uniforme. Quando terminou de vestir a camiseta, teve a estranha sensação de estar entalado numa armadura. Dito e mal-feito. Observado pelo técnico, juiz implacável, suas asas foram decepadas. Não conseguiu dar um drible, um passe arrojado. Esquentou o banco até ser logo cortado. Voltou alegre para o campinho de cimento áspero, as balizas de chinelos velhos e as orgulhosas cicatrizes da infância. Peso, cobrança.
Do dicionário cobrador à ilusão de que toda a sabedoria está concentrada nos livros foi um pequeno salto. Levei muita bordoada até me livrar da tradição bacharelesca, bem conveniente para um tímido. Há muita vida fora do papel e isso nem sempre é óbvio. Aqui cabe citar Washington Novaes, jornalista e ambientalista morto recentemente. Em 2000, foi entrevistado no Roda Viva. O então senador Blairo Maggi, magnata do agronegócio, questionou Novaes sobre se ele achava que todos deveríamos viver como índios. A resposta desmascarou o hoje bolsonarista: “Não, nós não teríamos competência para isso. Mas nós poderíamos aprender com eles”. Cultura de transmissão oral, que vem sendo dizimada.
Creio que cheguei a uma forma de equilíbrio. Precário, instável, provisório, como tudo na vida. Uma quietude que, às vezes, não passa de lampejo, mas conforta e estimula. O fiscal interno está menos exigente, os livros deixaram de ser apenas combustível para batalhas imaginárias. Quanto a estes, paixão sensorial, me sinto cada vez mais perto do que disse António Lobo Antunes: “Gosto de descobrir escritores que me ajudam a conhecer a mim mesmo, que me mostram o país que eu sou, (…) a casa cheia de portas fechadas que eu sou, porque no fundo vivemos numa parte muito pequena de nós mesmos”.
por Richard Klein | 5 set, 2020 | Brasil, Crônica
Foto: Gita – Fotografia Profissional
Capítulo 17
“Bom viver graças ao calor do sol
Benfeitor dessa região…”
Gilberto Gil – Cores Vivas.
A situação não podia ser melhor na chegada do verão de 1979. Integrado ao estilo de vida carioca, enturmado graças ao violão, membro titular da turma dos malucos do Colégio Andrews, tinha passado de ano com facilidade. As férias que vinham pela frente prometiam. Como recompensa pela boa atuação escolar – sem ter ideia do que se passava nas horas vagas – Renée e Rafael concordaram em patrocinar mais uma aventura de verão. O plano era ficar um mês e meio no sul da Bahia, a nata dos destinos alternativos na época, novamente na companhia do Davi.
A região ao sul de Porto Seguro era um dos refúgios hippies mais procurados do país. Louvada em musicas por Caetano Veloso, Gilberto Gil e outros filhos da Bahia, aquele ecossistema praieiro, vasto, quente e verde tinha sido poupado do saqueamento que os litorais dos estados do Rio e de São Paulo estavam sofrendo. A área era tão virgem que ainda havia tribos indígenas vivendo em reservas, o que contribuía para a sua aura de paraíso tropical. Somado a isso tudo, era próxima a cidade natal de Jorge Amado, Ilhéus, prometendo, em minha imaginação, uma imersão na cultura afro-baiana.
Desta vez, fomos sozinhos à rodoviária o que fez com que nos sentissemos mais maduros na hora de embarcar. A viagem era “apenas” trinta horas e nossos companheiros eram na sua maioria gente da região voltando para passar os feriados de fim de ano em casa.
Dada a destinação, como era de se esperar, para nossa alegria, havia um grupo de seis ou sete garotas de Ipanema com ar hipongo entre os passageiros. Assim que o ônibus pegou a estrada todas se levantaram para ficar conversando em pé no corredor do ônibus ou de joelhos nos assentos. Felizes por estarem saindo de férias longe da tutela dos pais num lugar da moda, cientes de que estavam chamando a atenção do ônibus inteiro, ficaram horas num papo animado.
“Menina! Você tem que ver o biquíni que comprei na Company. Cheio de detalhes indianos, o máximo!”
“É?! A Marcinha foi lá na semana passada e disse que viu umas cangas de batik lindas, meio sedosas, importadas da Índia. Fiquei morrendo de vontade de comprar, mas não deu tempo.”
“Amo de paixão tudo na Company!”
“Também adoro!”
“Por falar em adorar, você já viu as fotos da pousada onde vamos ficar? Maravilhosa!”
“Vi, o Flávio tirou quando ficou lá o ano passado, uma viagem.”
“E a praia, viu que escândalo?”
“O Flávio mudou muito depois que passou a namorar a Adriana, não acha?”
“É, ele se afastou, mas pudera, ele é um gato, você não faria o mesmo se fosse ela?”
“Não sei, não gosto daquela menina.”
Aquelas vozes altas ficaram abafando qualquer outra possibilidade de conversa entre os passageiros. O problema para nós é que, apesar da superficialidade, eram todas lindíssimas, os corpos torneados por muita academia de ginástica, a pele bronzeada pelo sol de Ipanema e tratada com os melhores produtos disponíveis nas prateleiras das melhores lojas. Com certeza não eram frequentadoras do Nove, burguesas demais para isso. Talvez fossem frequentadoras da praia em frente ao Country Club, onde a galera abonada ia. Mesmo que talvez fossem areia demais para o meu caminhãozinho, pensei comigo que não custava nada tentar.
No dia seguinte, depois da parada para o café da manhã, quando voltaram para seus lugares, a que estava sentada do lado oposto ao meu assento olhou para o meu lado e aproveitei para puxar um assunto.
“E aí? Vocês estão indo para Ajuda também?”
“Não, a gente está indo para Prado, mais ao Sul, é linda! Você conhece?”
Feliz por sentir um sutil desapontamento por a gente estar para um destino diferente continuei. Quem sabe a gente não se esbarrasse depois das férias no Rio?
“Ouvi mararavilhas sobre o Sul da Bahia, mas nunca ouvi falar de Prado. Deve ser muito legal.” Mentira, pelo que tinham me dito era um lugar sem graça, com areia meio estranha e pouca gente de fora.
Já ciente que as amigas estavam antenadas no papo ela falou “Pois é, queria ir pra Ajuda também, mas o ex-namorado da minha amiga ficou numa pousada lá no ano passado e convenceu todo mundo a ir. Não sei como, Ajuda é bem mais legal.”
Desajeitado, tentei dar uma risada madura, “E por que Ajuda é mais legal?”
“O pessoal que vai lá é bem mais interessante, a aldeia é bem mais bonita e além do que, o Gabeira está indo passar o verão lá.”
Aquela notícia me tirou do estado de azaração. “Sério? O Fernando Gabeira, o Rei do Nove, está indo para o Arraial d’Ajuda?” Senti que estava perguntando por um monte de gente ali dentro. “Como é que você sabe?!” soou meio grosso, mas senti que ela curtiu a sensação que tinha causado.
“Minha irmã conhece uma amiga dele. ” ela respondeu com orgulho. “Mas está todo mundo sabendo.”
O Davi se meteu na conversa. “Putz, será que o preço das pousadas vai subir por causa disso?”
A pergunta foi tão cretina que queimou o meu filme por tabela. Foi uma outra que respondeu. “Uma coisa não tem nada a ver como a outra, de qualquer maneira ele vai alugar uma casa lá.”
O único cara do grupo das meninas, desmunhecadíssimo, se levantou e se meteu na conversa com ar de especialista: “A Yara disse que ele está indo primeiro de avião para Salvador e depois vai descer de carro. Ele chega na quinta-feira que vem.”
Aquilo matou o papo, agradeci e, sem ter mais assunto, fiquei em silêncio, ela também.
Na próxima parada, comendo um sanduíche de queijo suado num pão francês duro e bebendo café com leite num copo de vidro brinquei com o Davi.
“Não basta ficar vendo o cara de tanguinha no Nove, vamos ter que engolir ele aqui na Bahia. A culpa é tua, bonitão! Ele está te seguindo!”
As garotas desceram antes de todo mundo, perto de Prado, deixando o ônibus menos florido. Contudo, o efeito da notícia-bomba que largaram seguiu. Mesmo a peonada que só o conhecia da foto entrou na conversa.
“O Gabeira que cês tão falando é aquele homi de tanga na praia?! Iche! Que coisa horrívi!”
Depois que chegamos, descobrimos que dos motoristas de Kombi aos hippies velhos, todos estavam estavam sabendo do visitante ilustre. Não só lá mas no país inteiro. A imprensa tinha uma tradição de dar nomes aos verões. Naquele, quem levou o título foi o ex-demonizado ex-guerrilheiro urbano que depois de ser anistiado tinha se revelado articulado, inteligente e bissexual. Dava um certo orgulho pensar que no auge do verão do Gabeira, o teríamos como vizinho de praia por seis semanas.
*
O ônibus só ia até Porto Seguro, que ficava a poucos quilômetros do Arraial d’Ajuda. Para chegar lá, ainda tinha que pegar uma balsa de madeira tosca que cruzava o largo e lamacento rio Buranhém. De lá, pegariamos uma Kombi/lotação que ia até o nosso destino final.
Quando chegamos na outra margem, parecia que estavamos entrando num outro mundo. Depois que descemos e da balsa ter partido de volta, havia apenas a kombi vazia, mato e silêncio em torno do casebre tornado estação das barcas. O sol estava forte e uma brisa soprava o cheiro do rio misturado com o do mar trazendo consigo o barulho das águas. Ficamos ali pelo menos uma hora esperando pela Kombi que só iria sair depois que todos os lugares estivessem tomados. Era como estivessemos na fronteira da chamada civilização. Nossa companhia eram duas mulas pastando e os dois ou três locais que tinham atravessado conosco sentados olhando para o nada. A balsa que veio a seguir trouxe outros aspirantes a hippie e mais um punhado de locais. O motorista apareceu do nada e com todos os lugares tomados, partimos. A estrada, meio de terra e meio de areia, passava por um mato fechado que abria para uma clareira, que me pareceu um campo de futebol. Logo depois dela subimos um morro e a Kombi parou na praça de terra batida da aldeia.
Já era fim de tarde quando descemos. Não tínhamos lugar para ficar, mas já no caminho um cara de São Paulo que já estava ali a três semanas tinha se oferecido para rachar um quarto naquela noite, já que seus amigos só iam chegar no dia seguinte. Pegamos nossas mochilas e saímos acompanhando ele até a casa. A dona, uma senhora da terra simpática com ar sereno e com cheiro de banho recém tomado, nos deu as boas vindas num sotaque bahiano charmosíssimo. Fomos para o quarto e assim que colocamos as tralhas no chão, agradecemos e saímos par dar uma volta de reconhecimento.
Não havia luz elétrica na aldeia. Nunca tínhamos presenciado um anoitecer assim e ficamos encantados no ato. O fim do dia e a brisa fresca vinda do mar pareciam amalgamar tudo numa coisa só; a vista de praias selvagens que pareciam não ter fim e aquela aldeia encravada no topo do morro.
Não havia carros, asfalto ou lojas propriamente ditas num raio de kilometros. As casas velhas e pequenas eram pintadas com cores vibrantes, fazendo a praça principal e as ruelas a sua volta parecerem uma pintura cubista.
O lado de fora das janelas parecia integrado com a vida acontecendo do outro lado delas. As velas e as lamparinas flamulando nas casas eram bem mais aconchegantes do que as lâmpadas elétricas às quais estávamos acostumados na cidade e cuja agressividade destruiria o zen daquele anoitecer.
*
No dia após nossa chegada, achamos um quarto na área destinada aos visitantes menos endinheirados. Eram cabanas erguidas às pressas em torno de um terreno baldio, logo atrás das construções originais. Seus proprietários eram gente das cidades próximas investindo no futuro da aldeia onde a eletricidade estava programada para chegar possivelmente no ano seguinte. Havia bastante deles começando a perceber o potencial para o turismo do lugar. Alheios a tudo, jumentos, vacas magras e cães de rua pareciam gostar do isolamento dessa parte da vila, talvez porque os veranistas os deixassem em paz.
Conforme fomos conhecendo os moradores do lugar melhor fomos vendo que, tal qual os menos favorecidos nas grandes cidades, tinham dificuldades para colocar comida na mesa. Só que comparados com moradores de favelas, o povo d’Ajuda parecia mais saudável, mais harmonizado às cercanias e em paz com a vida. Já havia sinais de “progresso”. Ao redor da praça tinham aberto um ou dois bares destinados aos visitantes, também pertencentes à pessoas de fora. Mesmo assim, a infraestrutura era básica, não havia água encanada e os preços da hospedagem e da alimentação eram ridiculamente barato.
Na semana seguinte, ficamos sabendo que o Gabeira tinha alugado uma das acomodações caras e isoladas de frente à praia. Apesar de não se misturar conosco, meros mortais, era frequentemente visto com sua tanga fio-dental, às vezes só, às vezes acompanhado por um ou outro seguidor dedicado. Embora vê-lo causasse uma certa comoção, o ex-guerrilheiro-tornado-estrela parecia fazer questão de não interagir com ninguém. Resolvemos ignorá-lo também.
Em contrapartida, depois de alguns dias já éramos amigos – ou pelo menos conhecidos – de todos, tanto os locais quanto os outros visitantes. Nossa rotina diária era divina. Acordávamos no meio da manhã e íamos direto até um restaurante natural para tomarmos um café composto de banana amassada com calda e aveia. Com a barriga cheia e o corpo se sentindo bem do mar e do sol do dia anterior, pegávamos a trilha de areia que levava à praia pelo meio do mato selvagem. Lá, passávamos o resto do dia jogando futebol, frescobol ou vôlei, caminhando pelas praias desertas e conhecendo pessoas novas. Uma das melhores facetas d’Ajuda era que os locais não nos viam como máquinas de sacar dinheiro, mas sim como convidados ilustres e ficavam na sua. Às vezes, um ou outro passava vendendo banana frita, água ou cerveja. Se a gente quisesse comprar com ele, beleza, mas se não, ficava no seu canto curtindo a praia na sombra e apreciando discretamente a beleza generosamente exposta das visitantes da cidade grande.
O sol era tão forte que as poucas nuvens que vinham do oceano eram bem-vindas. Havia pancadas de chuva ocasionais que nunca duravam mais do que quinze minutos. Quando derramavam sua agua, todos na praia corriam para o mar para sentir os pingos doces molharem seus rostos com o resto do corpo protegido pela água salgada, morna e calma.
No fim da tarde, a gente retornava ao vilarejo para se reunir atrás da velha igreja da cidade. O sol se punha devagar no oceano por tras do vale coberto pela mata se transformando em uma gigante bola alaranjada, suas cores colorindo o mar e o céu azul-escuro. Após um dia inteiro de sol forte, o corpo castigado, mas refrescado, pela água salgada recebia com carinho o sopro de ar quase frio do fim de tarde. Às vezes, havia uma roda de capoeira, onde os caras demonstravam suas habilidades enquanto os outros em volta cantavam e batiam palmas ao toque do berimbau.
*
O único lugar com água corrente ficava numa caverna com uma fonte natural cuja existência os vilarinhos atribuíam a um milagre. Na entrada havia uma estátua de Nossa Senhora d’Ajuda em frente da qual os veranistas tinham que esperar sua vez em fila segurando suas toalhas e seus apetrechos de banho. Já o banheiro era o maior do mundo, o mato.
Depois de nos livrarmos do sal grudento nas águas da santa, voltávamos à cabana para colocar um short seco, uma camisa e os chinelos. De lá, com fome, mas nos sentindo ótimos, íamos comer os pratos feitos que as mulheres da aldeia vendiam nas portas de suas casas: peixe frito, arroz, feijão e farinha. Satisfeitos, estávamos animados para as festas improvisadas nos poucos bares e botequins do lugar. Dentro deles, as lamparinas de querosene colocadas nas mesas conferiam uma aura de antiguidade, projetando sombras espessas sobre as paredes e nos clientes. Eu, como vários outros, tinha trazido o violão e nossos sons improvisados eram a trilha sonora que animava as noites. Quem chegava tinha que afinar com quem já estava lá.
“Acho que o Lá não afinou, dá para ouvir de novo? ” Dava uma torcida na ararracha, conferia de novo. “Valeu!”
“Conhece a levada de Frevo Mulher? É fácil, começa assim; em Fá sustenido menor e depois sobe para sol, aí fica num vai e volta e depois desce para mi menor. Entendeu?”
“Acho que sim.”
A percussão não precisava de afinação. “Zinho, a batida é de frevo, tá pronto?”
“Vambora!?”
“Vamo!”
O som começava e a energia entre os tocadores decolava. Não era só frevo, era afoxé, samba, rock, blues, funk e o que mais desse na telha. A gente ficava feliz quando as garotas mais bonitas se levantavam para dançar e isso era a regra. Às vezes, um outro instrumento aparecia do nada com um alguem que tocava muito. Estas novas adições; flautas, saxofones, violões, ou mesmo percussão eram sempre bevindas e faziam com que o som tomasse um rumo especial. Várias sessões terminavam com o povo dançando e cantando músicas que todos haviam criado juntos na hora.
A lua era tão radiante que podíamos descer até a praia como se estivéssemos fazendo uma caminhada à luz do dia. Lá embaixo, a areia clara e brilhante, a espuma branca, o som das ondas e do vento nos uniam à natureza de uma forma intraduzível. O céu limpo, juntamente com a inexistência de luzes elétricas por quilômetros, fazia com que as constelações se destacassem de uma maneira que nunca tinha visto antes. A coisa mais impressionante eram as estrelas cadentes que volta e meia cortavam o firmamento. Sentávamos na areia durante horas, conversando e tocando violão. Quando retornávamos à vila e entravamos de volta nos bares, era como se o calor humano emanando das pessoas lá dentro renovasse a energia colhida na praia.
*
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por Mauro Nadvorny | 5 set, 2020 | Crônica
Na história das religiões e civilizações o coração tem sido a principal metáfora do amor. No “Cântico dos Cânticos” da Bíblia, já se usava a expressão “conquistar o coração” nas relações afetivas. E amor se associa tanto ao curativo do vazio como às feridas narcisistas das separações, é quando o coração é partido. Portanto, como as perdas ocorrem desde o nascimento até a morte, a história de cada um também pode ser escrita a partir dos sofrimentos. Um diferencial entre as pessoas são as reações diante das situações traumáticas, quando ocorrem desequilíbrios e crescem as vivências de desamparo. Por outro lado, são emocionantes as reações diante de histórias assustadoras, quando alguém consegue, recuperar a potência criativa. São muitas as explicações para os que caem e se levantam, como a maior possibilidade de suportar as frustrações, a capacidade negativa, a resiliência, entre outras. Entretanto, nada é melhor do que as histórias, pois são elas que revelam como o impossível acontece. São narrativas que ajudam a diminuir o peso das dores e fortalecem a coragem no amanhã.
Nos momentos de coração partido, é bom conhecer como outros viveram e lembrar a frase: “Nada mais inteiro que um coração partido”, que consta do Zohar, o trabalho essencial da literatura cabalística. Quanta verdade encerra essa frase poética, pois a tristeza das perdas envolve sentimentos intensos que podem ser cicatrizados no tempo. O coração partido como expressão de humanidade revela a vitalidade de sonhar. O coração quebra a cada perda, diante das ilusões perdidas, do desânimo político, da decepção com a condição humana. Anima conhecer como os demais suportam tragédias e encontram caminhos para se reerguer.
Nesse sentido impressiona a vida do diretor de cinema Roman Polanski, que se pode ver no excelente documentário “A vida em filmes”. Roman recorda sua vida no Gheto de Cracóvia dos seis aos doze anos, durante a Segunda Guerra Mundial. Perdeu cedo a mãe, morta pelos nazistas, mas a maior quebra de seu coração, ele diz, foi o assassinato de Sharon Tate, sua bela esposa grávida. Na entrevista aborda sua relação sexual com uma adolescente, fala como um erro grave e pagou por ele com uma prisão nos Estados Unidos e outra na Suíça e um pedido de desculpas à moça e sua família. Sua existência transcorreu entre altos e baixos, mas se diz um otimista, diz que vê sempre o copo meio cheio. O documentário mostra como Polanski suportou as quedas e festejou as conquistas sem queixar-se da vida.
Queixas e corações quebrados não faltam hoje no Brasil, que já foi definido como o país do carnaval, como se aqui só desfilassem alegrias. O choque vivido está no desconhecimento da História e na idealização de um país bom e pacífico. Nunca faltou desprezo e violência aos negros, índios e pobres neste país, situação que se mantém ainda hoje.
Diante das piores ditaduras, há ocorrências que desafiam a crueldade, tanto aqui como na História Mundial. Pensando na frieza que se vive aqui, na falta de empatia e humanidade, escolhi relatar sobre o menino e o olho de vidro. Os nazistas atacaram uma aldeia da Europa Oriental cercando o último reduto de resistência concentrado numa casa. Após horas de tiroteio, os soldados alemães conseguem entrar na habitação, onde estão todos mortos, menos um menino de dez anos. Forma-se um pelotão de fuzilamento, mas o comandante se aproxima do condenado e diz:“Não sou assassino de crianças e lhe dou uma chance para não morrer. Tenho um olho perfeito de vidro, e se você acertar qual é ficará livre”. O menino olhou bem e apontou um dos olhos e o comandante disse “Como você acertou qual era meu olho de vidro?”. O menino disse: “Ele tem algo de humano”.