por Mauro Nadvorny | 31 ago, 2020 | Crônica
É preciso sonhar, mas com a condição de crer em nosso sonho. De observar com atenção a vida real, de confrontar a observação com nosso sonho, de realizar escrupulosamente nossas fantasias. Sonhos, acredite neles (Lenin)
Hoje, meu tema seria outro, mas não tem jeito. Vai ter que esperar. As notícias sobre o Rio são tão devastadoras que não dá para passar batido. Não me refiro às imagens das praias no fim de semana, lotadas de gente inconsequente, negacionistas objetivos. O que desmonta a alma é a implosão política e administrativa da cidade. Estamos nos transformando numa espécie de academia de tipos caricatos, oportunistas, medíocres, subprodutos dos vários tons de demagogia. A destituição do governador Witzel é apenas mais um capítulo, bizarro sem dúvida, na fila de governantes criminosos eleitos nas últimas décadas. É bom não esquecer que todos eles tiveram cumplicidades partidárias, que foram da direita à esquerda. Não há ingênuos nessa história.
As consequências do assalto ao poder, no sentido literal e não da tomada do Palácio de Inverno, estão em todo canto. A cidade sangra, amputada de referências afetivas, desovando miséria em cada esquina e cada vez menos acolhedora. Clima propício para que uma espécie de depressão cidadã prospere, levando muita gente a abandonar o barco. Quantos já partiram, empobrecendo a ciência, a cultura, a ginga, o partido alto, o violão virtuoso, tão caros à tradição carioca ?
Jerry Seinfeld publicou artigo no New York Times, defendendo a cidade de New York, criticada em algumas redes sociais. Seinfeld, para quem não sabe, é comediante, criador da série considerada a melhor de todos os tempos. Ele se refere à choradeira de gente que lamenta que, com a pandemia, “todo mundo foi embora”. Reconhece a dureza dos tempos atuais, mas detona os que acreditam que tudo vai se resolver “remotamente”, por isso não faria diferença aonde se mora. Bobagem, rebate Jerry. Uma cidade tem focos de inspiração, uma espécie de personalidade que se coagula em espaços surpreendentes e em memórias em construção. São matéria viva em constante transformação. Nada que se possa resolver com bytes acelerados e conexões virtuais. Enfático, garante que “a cidade se recuperará, por conta de todos os verdadeiros nova-iorquinos, gente batalhadora que compreende a cidade e escolheu ficar para reconstruí-la”.
Gostaria de ter a convicção do Seinfeld. Minha única certeza imediata é de que, embora a razão jogue no sentido contrário, continuarei no Rio. O coração não dá bola para a sensatez. Praticamente todos os meus laços, meus traços, meus abraços, estão aqui. Uma vida que jamais se resumiu à impotência do lamento biliar. Uma pequena passagem ilustra isso. Durante anos, visitei regularmente a rua onde passei a infância. Passava em frente à vila de casas onde morei e dava uma rápida olhada. Tudo sempre parecia igual, engessado. Até que um dia, olhei para o fundo, onde havia um matagal, e um vento mudou a percepção. A árvore, sempre silenciosa e parada, se agitava, criando a sensação de movimento nos arredores. Que me incluíam. Toda a infância, toda a história, despertara. Era Galileu sorrindo. Eppur si muove.
Há focos de resistência, guerrilha que nos prepara para os tempos que virão. A UFRJ, que completa 100 anos, é um desses focos, centro de excelência didática e de criação científica. Ensino público de qualidade. Sou cria dela. Não teria tido acesso ao ensino superior se ele não fosse gratuito. Saí de uma espécie de bolha homogênea (antes da faculdade, só frequentei escolas judaicas) para o ambiente plural do Fundão. Gente de várias rendas e ideias. Turma de suburbanos, como eu, e de mauricinhos, que na época chamávamos de playboys. Salada que me abriu olhos.
Em meio a tanta incerteza e insegurança, uma convicção. A reconstrução do Rio terá que ser obra coletiva, arquitetura militante que talvez jamais tenhamos experimentado. É preciso que nos libertemos, de uma vez por todas, da cultura salvacionista, que cria santos e beatos ao invés de articuladores. Há muito trabalho pela frente, e ele vai além das tribunas virtuais e das carpideiras conformadas.
por Mauro Nadvorny | 28 ago, 2020 | Crônica
Na minha adolescência nasceu o desejo de entender o ser humano, mas aprendi que desejava saber quem eu era. Hoje sei algo do quem eu sou, pois é toda uma odisseia conhecer quem se é por dentro. Uma das lições foi aprender a palavra paradoxo, como é a expressão “Trapaça Sagrada”. Esse paradoxo surgiu numa aula de estudos do livro “Finnegans Wake”, a labiríntica obra de James Joyce. O tradutor para o português foi o conhecido Donaldo Schüler, que sugeriu um grupo para ler esse livro composto de uns 65 idiomas. É uma leitura em voz alta para se escutar para pensar os vários sentidos de cada frase. Na primeira reunião me chamou a atenção uma referência de Joyce sobre o patriarca Isaac. Ele foi o pai de Esaú, o mais velho, e Jacob, o mais moço, e foi iludido ao abençoar Jacob como primogênito. Não sabia que muitos anos antes Esaú pediu um prato a mais de lentilha ao Jacob, que prometeu dar em troca da primogenitura. Disse no grupo que Jacob fizera uma trapaça, pois a primogenitura não podia ser vendida. Donaldo concluiu que tinha sido então uma Trapaça Sagrada, pois fora aceita na Bíblia.
Paradoxo vem do grego (paradoxos), em que o prefixo “para” quer dizer contrário a, ou oposto de, e o sufixo “doxa” quer dizer opinião; logo, o paradoxo são opiniões contrárias. Exemplos são afirmar que o riso é uma coisa séria, ou a eterna novidade do mundo, pois são verdades opostas que constituem outra verdade. São expressões paradoxais, pois envolvem contradições que geram um sentido novo, desconcertante. Pensar a complexidade do humano requer conhecer os paradoxos, como a palavra amoródio, que não tem no dicionário. As palavras amor e ódio, em princípio, são excludentes, pois ou é amor ou é ódio, são afetos opostos. Entretanto, as relações amorosas são paradoxais, pois convivem o amor e o ódio em diferentes proporções, daí o amoródio. Pensar o paradoxo é facilitado à medida que se conhece a realidade psíquica na qual o inconsciente tem uma lógica própria, porque nele não há contradições entre o certo e o errado, o amor e o ódio.
A trapaça sagrada é para diferenciar da trapaça profana, conhecida como fraude, dolo, roubo. A trapaça está a serviço do poder, seja do dinheiro, da fama, da vaidade ou do poder político. Uma ambição desmedida leva um país a amputar sua alma, para viver à base da trapaça. A trapaça pode estar num falso atentado contra a vida de um candidato a presidente. Trapaça também são as “fake news” diárias, as mentiras repetidas que se passam por verdades. Trapaças na economia não faltam, como a de queimar a Amazônia, que pertence ao povo, para beneficiar a uns dez milionários. Os índios na Amazônia, na Bahia, estão sendo atacados e a mídia está indiferente. E seguem os mortos da pandemia, já se calcula que chegará a 150 mil mortos, há cem dias sem Ministro da Saúde. A nação foi ocupada pelos fantasmas vivos do passado como a escravidão e as ditaduras. A esperança de uma sociedade democrática, com alguma justiça social, foi atacada pelo ressentimento.
O paradoxo brasileiro hoje, que desconcerta o mundo, é como o país do carnaval, foi dominado pelas sombras da cruel melancolia. Um governo eleito, em nome do combate à corrupção, liderado por um político travestido de juiz. Um dia será escrita a verdadeira história das devastações desse querido país que teve sua alma amputada. A lista dos antifascistas prova que o poder teme a resistência, mesmo ela sendo frágil. O amanhã está vivo na imaginação, e a dignidade será recuperada para o bem de todos.
por Mauro Nadvorny | 25 ago, 2020 | Crônica
O medo é constitutivo. Sem medo, sem ódio, sem nojo, a gente morre. São funções básicas de sobrevivência (Maria Homem, psicanalista)
Personagem dos anos 40, o Spirit sacudiu dogmas dos heróis dos gibis. Will Eisner o concebeu como um (quase) igual aos leitores. Enquanto seus congêneres mascarados Fantasma e Batman jamais se arranharam no enfrentamento dos vilões, o Spirit levava muita pancada, era traído e seu universo pedia meia-luz. Andava de metrô como qualquer mortal. Frequentava ambientes sórdidos e não tinha nascido em berço de ouro.
O mascarado vulnerável do Eisner será meu guia no balanço parcial do confinamento, que já bateu a marca dos cinco meses. Balanço pessoal, bem entendido. Enquanto as redes sociais continuam entupidas de gente sorrindo em selfies inexpressivas, estão rindo de quê ?, a situação está mais pra olho roxo. A verdade é que a máscara do Spirit, como as mazelas da pandemia, não esconde sua insegurança, sua identidade mutante, suas indefinições.
Poderia começar com a caquistocracia brasileira (apud Sérgio Rodrigues). Governo exercido pelos piores indivíduos da sociedade. Não há dia que passe sem as vilanias do Grande Bufão e seus Blue Caps. Mais do que isso. Parte significativa da sociedade vai soltando seus instintos mais abjetos, seus comportamentos indignos. Enfrentar o isolamento sabendo que o que anda por aí é um processo acelerado de autodestruição só faz aumentar a sensação de atordoamento. Poderia falar um pouco mais sobre isso, mas quero olhar para a rotina, o samba do tempo em pequena escala.
Pra começo de conversa, fui apresentado a panelas e vassouras. Não posso dizer que as saudei com um “muito prazer”. Prazer ? Ora, vá pentear macacos. Panelas, vocês sabiam ?, têm vida própria. Quando você acha que terminou a tortura detergente, surge uma nova pilha. São gremlins de teflon, um horror. E as gloriosas piaçavas ? Nunca tinha imaginado que o mundo é tão empoeirado. Você varre cada cantinho, acha que está livre do tormento por, digamos, um ano. Ilusão de calouro. O troço é como o tecido de Penélope, trabalho que sempre recomeça. Trabalho um tantão assim, cansaço é bastante sim. Cartola sabia das coisas.
Gestos de solidariedade ? Não comigo. No meu raio de visão, necas de pitibiribas. Confirmando a solidão nas grandes cidades, nenhum vizinho do meu prédio fez contato para saber como vamos, se precisamos de apoio. Também, pudera, de muitos deles sequer sei o nome.
Você consegue imaginar Woody Allen, notório hipocondríaco, isolado de seus médicos e de suas mezinhas ? Perda de controle, sensação de morte iminente. Pois é, não chego a tanto, mas neste tempo de privações tive que aprender a conviver, longe dos consultórios, com os discursos do meu corpo. E ele nem sempre está de bom humor. A ausência física de amigos e familiares cobra um preço. Nos poucos contatos ao vivo que tive, a sombra do medo nublou o prazer do convívio. Se tudo anda desequilibrado, como acordar disposto a correr a maratona ? Como driblar aquela angústia persistente, que teima em não se identificar na portaria ? Isolamento é ambiente ghost friendly, nossos fantasmas na tocaia grande, ansiosos para aproveitar as fragilidades do momento.
Choro os mortos, compartilho poesias, converso com quem quer conversar, sangro minhas saudades, leio sobre a vida de quem enfrentou outras dores, planejo a fila de abraços para depois, me fortaleço lembrando de gente que passou por guerras, deportações, perseguições, despedidas indesejadas, e não se dobrou. Cheio de hematomas, mas também de esperança. O que resta fazer ? Fazendo colagem com uma letra do Chico, mesmo com toda a lama, com todo o emblema, todo o problema, com a sala escura, com a cara dura, não tem mais jeito, a gente vai levando essa chama.
Abraço. E coragem.
por Mauro Nadvorny | 22 ago, 2020 | Crônica
A palavra esperança é capaz de transpor a página ao estimular a vibrante imaginação. Esperanças, ilusões e desilusões se desenvolvem tanto na vida privada como na vida pública. Um exemplo é o dos imigrantes que sonharam com novas terras para viver, e com sacrifícios viajaram animados com a mudança de ares, em busca de outro mundo. O mundo em geral é composto de mudanças, são movimentos no tempo e no espaço, em que os dias parecem iguais. Se o mundo progride, a esperança dança alegremente, mas a vida oscila entre o entusiasmo e a apatia, a fé e o desânimo, a graça e a desgraça.
Quando milhões de pessoas atacam a cultura, desprezam a vida, é um choque, mas é porque a gente esquece do poder da crueldade no mundo. A crueldade é humana, e ela se revela pela falta de empatia, ao estimular a violência e a divisão das famílias e de um povo. O mundo é destrutivo e criativo, a vida é tecida de altos e baixos, por isso a esperança pode dançar ou não. Quando os tempos são de elogios à ignorância, de proteção ao estuprador e agressividade à vítima, são tempos torturantes.
Não faltam motivos para os tristonhos dizerem que a esperança não dança mais, são os amados que perderam o norte, diante das trevas. Uma letra só separa as palavras amados de armados, a letra “r”, “r” de raiva, a raiva dos armados a serviço não da pátria, mas da elite brasileira responsável por esse desgoverno que. Só dez pessoas hoje são os principais responsáveis pela devastação da Amazônia, com lucros incalculáveis e destruições alarmantes.
Entre as histórias sobre a esperança e a dignidade, lembro essa: Um velho, bem velhinho, estava plantando uma árvore quando um homem viu e disse: ‘Que bobagem você está fazendo. Essa é uma árvore que você não verá crescer, pois ela tardará muitos anos para crescer e você vai morrer antes’. O velhinho então disse calmamente: ‘Quando nasci o mundo já tinha árvores e aproveitei-as, logo, hoje planto para os que vão nascer’. Convém seguir plantando, dançando com a esperança, mesmo que seja noite, com a dignidade desse velho sábio.
As paixões movem o mundo, movem para o melhor, como são os caminhos da liberdade e da fraternidade, mas as paixões também movem para o pior do ser humano.
Quando ocorre o pior na sociedade, a esperança diminui, fica atordoada, mas um dia se recupera e volta ao baile da vida. Convém repetir o momento em que Sartre, já cego e próximo da morte, foi perguntado se ainda tinha esperança na humanidade. Disse: ‘Sim, mas a esperança precisa ser construída’. Portanto, a questão é como construir, criar caminhos para melhorar a vida, tanto a pessoal como a social. E o primeiro passo é a paciência, o que nunca é fácil, ao contrário, pois o imediatismo é um obstáculo a ser contornado.
Para construir a esperança é necessário o conhecimento sobre a psique, pois não é fácil mudar. O ser humano tem uma tendência a repetir seus comportamentos, tem uma compulsão à repetição. Já a nível social é diferente e mais difícil mudar, pois os poderosos, que já experimentaram o poder quase absoluto, ambicionam lucrar mais e mais, e aí se transformam em inimigos da democracia. Já ocorreu em vários países, e hoje retornou aqui com a fúria dos armados.
Construir imaginando o amanhã é o sonho amoroso é manter o entusiasmo na dança da esperança. Ninguém se cura de si próprio, mas estar próximos fortalece a manutenção da luta diante a elite perversa. Dançar em tempos sombrios no meio do terror, alivia o peso da existência e fortalece a dignidade. O gigante deitado em berço esplendido irá se erguer apesar da brutalidade das armas.
por Richard Klein | 22 ago, 2020 | Brasil, Crônica, Política
Capítulo 16
“Apesar de você
amanhã há de ser outro dia. “
Chico Buarque
O Teatro Tereza Rachel em Copacabana, era uma das principais casas de shows do Rio no final dos anos setenta. Estava sempre lotado. Quase todos se apresentavam lá: Rita Lee, o Terço, Raul Seixas, A Cor do Som, Vímana – a banda de rock progressivo em que Ritchie, Lobão e Lulu Santos começaram – Moraes Moreira, Belchior, Alçeu Valença, Joelho de Porco, João Bosco entre vários outros. Não me lembro de quem era o show do qual estava saindo, só sei que com meus ouvidos ainda zunindo do volume ouvi alguém dizer.
“Caralho! Mataram o John Lennon a tiros em Nova York! Tá dando aqui na rádio!”
“Que é isso, tu tá maluco!?”
“Não! Tão dizendo aqui que um psicopata atirou nele quando estava saindo de casa!”
Todos ficaram em silêncio. Ninguém conhecia o cara, talvez estivesse de sacanagem. Mesmo assim, fomos para casa com aquilo rodando na cabeça. Na manhã seguinte, os jornais confirmaram. Naquele dia o planeta parecia estar de luto. Mais que um artista, John Lennon representava uma postura uma promessa, como que podia ter terminado daquela maneira? E por quê?
Na televisão repórteres no Brasil inteiro e no exterior entrevistavam pessoas comuns nas ruas e artistas famosos, todos com olhos lacrimejantes. Para mim, essa separação final dos Beatles parecia, de alguma forma inexplicável, ter conexão com a minha experiência na subida para o Noites Cariocas e com uma outra notícia – a prisão de alguns amigos de escola por posse. Para completar, havia o drama familiar da repentina separação entre Sarah e seu noivo de longa data. Era como se uma onda de mudanças negativas estivesse encobrindo a todos.
Por outro lado, no contexto mais amplo havia uma onda de mudanças mais positiva. A classe média brasileira estava começando a reconhecer que a falta de alternativa para o regime militar era um problema. A gota d’água tinha sido a prisão, a tortura e o assassinato mal disfarçado como suicídio em 1977 do jornalista Vladmir Herzog, em São Paulo. Isto tinha desencadeado uma onda de indignação e protestos sem precedentes pelo país. Pela primeira vez depois do AI-5, várias lideranças políticas, culturais e mesmo religiosas haviam expressado suas consternações. Esquecendo o medo, quase todos os veículos de comunicação tinham publicado estes protestos.
Havia mais. Agora que ninguém podia em sã consciência temer que o maior país da América Latina se tornasse um satélite soviético, o status dos generais brasileiros no exterior havia mudado. Apesar dos Estados Unidos ainda estarem apoiando ditaduras sanguinárias no Chile e na Argentina, seus lobistas e especialistas em America latina tinham passado a ver a ditadura desengonçada e corrupta do Brasil como um embaraço desnecessário.
Sentindo a mudança de atitude de seus apoiadores, tanto dentro como fora do país, os militares tomaram medidas conciliatórias. O gesto mais significativo acabou sendo justamente a concessão de anistia para a maioria dos exilados e dos prisioneiros políticos. Mesmo que isso os tenha ajudado a permanecer no poder por mais tempo, este gesto e a abertura política que veio a seguir foi uma vitória da oposição e marcou o início do ciclo democrático mais longo que o país viria a vivenciar.
De volta ao Brasil, do dia para a noite, os dissidentes políticos passaram de assunto tabu a celebridades com status de herói. Estavam toda hora nos jornais, em programas de entrevistas na televisão e suas memórias se tornaram best sellers. Lendo-as, descobrimos que muitos, tais como a gente, eram jovens típicos da classe média carioca que tinham se deixado levar pela agitação política do seu tempo.
Descobrimos também que alguns haviam passado períodos treinando como guerrilheiros em Cuba e em outros lugares fora do país. A seguir, discretamente se infiltraram no Brasil, onde pegaram em armas, assaltaram bancos e sequestraram gente importante. Depois que suas organizações foram reprimidas e ficou claro que a resistência armada à ditadura tinha fracassado, os que sobreviveram foram obrigados a repensar, no exílio ou na prisão, seus conceitos sobre militância e sobre como se posicionar num mundo sem revolução.
Após os festejos pelo seu retorno, tomando um rumo parecido com o adotado pelos artistas exilados, muitos dos anistiados se reintegraram à vida do país com agendas mais práticas. A maioria usou sua recém-adquirida popularidade para progredir na política convencional. José Genoíno, Fernando Gabeira e Carlos Minc, por exemplo, se tornariam senadores ou ministros enquanto Dilma Rousseff seria eleita presidente. Outros ex-exilados ocuparam lugar de destaque no processo de redemocratização. Entre eles o político veterano Leonel Brizola o ex governador do Rio Grande do Sul que viria a ser o governador do Rio de Janeiro, seu companheiro de chapa, o lendário antropólogo Darcy Ribeiro, o ex e futuro governador de Pernambuco, Miguel Arraes, assim como outros políticos mais ao centro, como o futuro presidente sociólogo Fernando Henrique Cardoso e o futuro líder do PSDB, José Serra.
Apesar de admirarmos todos e nos deleitarmos nas ondulações criadas pelos ventos democráticos, havia questões de identidade. A militancia heróica tinha se tornado uma coisa do passado. Mesmo assim, queriamos as mesmas coisas pelas quais tinham sacrificado a sua liberdade e, em alguns casos, a própria vida. Apesar da conquista da abertura política, a desigualdade econômica e o aparelhamento antidemocrático do estado continuavam. Sem intimidade com a democracia, achando que só uma revolução resolveria, do nosso ponto de vista estes ídolos estavam retornando ansiosos para se juntar a um sistema ao qual, pelo menos ideologicamente, estávamos resistindo. Era decepcionante ver muitos deles usando, sem um pingo de vergonha, o seu passado de lutas para promover suas carreiras num rumo que não tinha nada a ver com suas intenções iniciais.
Deveríamos aceitar sua liderança, dar tudo por encerrado e concluir que éramos inúteis? Estava claro que para eles esse era o caso. Para nós a pergunta que não queria calar era a de como se posicionar. A ditadura havia simplificado as coisas; a escolha tinha sido entre ser a favor ou contra o regime. Dependendo do lado que você estava, você podia jogar a culpa por todos os males do mundo nos generais ou nos comunistas. Com o fim do governo militar agora no horizonte, havia novos desafios. As pessoas já não se sentiam tão convictas de suas opiniões e pareciam não saber lidar com as sutilezas da liberdade. Levaria algum tempo para que o país atingisse um estado de maturidade política.
Alguns copiaram os retornados e entraram em partidos convencionais, principalmente no recém-criado PT, o Partido dos Trabalhadores, uma das poucas opções de resistência preenchendo o vácuo existencial dos progressistas naqueles dias. O partido não tinha nada a ver nem com a resistência glamorosa dos ex-exilados e dos ex-presos políticos, nem com a postura anti-imperialista da Revolução Cubana. Proveniente de sindicatos na periferia de São Paulo, seu objetivo era proteger os direitos e os salários dos trabalhadores nos moldes do Partido Trabalhista Britânico quando começou.
Eu e alguns amigos até chegamos a ir em algumas reuniões para ver como é que era. Porém, por não termos nem “pedigree” operário nem “pedigree” na militância tivemos uma recepção fria. Na hora que a militância de raiz via cabeludos bronzeados da Zona Sul entrando no recinto, pensavam ou que eramos imbecis ou que eramos o inimigo. Nos outros partidos “underground” a rejeição era igual ou pior. Eram elitistas às avessas, herméticos e exigentes demais com seus novos recrutas. Os únicos “burgueses” bem-vindos nessas organizações ou eram celebridades ou era gente bem conectada que podia trazer votos e respeitabilidade, o que não era o nosso caso.
Talvez não tínhamos maturidade para aquilo. Perdemos o tesão pela política. O conceito de eleições livres com partidos profissionais voltados para eleger quadros e exercer mandatos era difícil de digerir. Por outro lado, para os que eram contra a abertura política, o conceito de aceitar reveses eleitorais se provaria um de difícil assimilação. Para mim, acreditando que a luta deveria ser pautada na melhoria dos padrões de vida de cada indivíduo e não de uma classe, faltava a utopia e a visão humanista nos novos partidos. Está certo que vencer eleições e se organizar era fundamental, pero sin perder la ternura.
Naqueles tempos de reconstrução democrática só uma coisa parecia clara: os militares iriam tentar se agarrar ao poder por mais tempo que fosse possível. Com uma crise econômica no horizonte, todos sabiam que quando chegasse a hora de largarem o osso, o país estaria nas últimas. Isso colocava duas perguntas urgentes: em que estado o Brasil estaria e como seria a vida sem eles?
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por Mauro Nadvorny | 18 ago, 2020 | Crônica
Ao Alvaro Costa e Silva, o Marechal, pela inspiração involuntária
Gaaarrafeiro ! Camiseta regata, bigode farto, às vezes boina, tamanco de madeira machucando a calçada, lá vinha aquele personagem empurrando o burro sem rabo. À espera de cascos velhos de garrafa que lhe rendiam alguns centavos. Era o português de almanaque, imigrante pobre que enfeitou bairros do Rio com seu sotaque carregado, sim senhor, doutoire, pança nos balcões de botecos oferecendo tremoços, seus pequenos varejos. Uma joia da nossa identidade.
Às vezes, os sons vinham adornados por aromas irresistíveis. O lig-lig, vendedor de pirulitos de açúcar queimado e biscoitos doces, se anunciava por uma pequena matraca. Algodão doce, terror dos pais e paraíso dos dentistas, envolvia o ambiente com a antessala do prazer. Nos finais de semana, o chamado para o almoço nos levava para o angu judaico, de apelido mameligue. O fubá, levemente endurecido e salpicado com doses generosas de queijo, era cortado pelos adultos com um barbante. Fascínio daquele ritual, que combinava os quase sussurros da pequena família com o aroma ancestral.
Pouco resta destes tipos, engolidos por uma modernidade cada vez mais impessoal. Ainda ouço o chamado do vassoureiro, vez por outra passa por aqui alguém comprando ferro velho. Desapareceu o amolador de faca, que chamava a atenção improvisando um instrumento musical. Usava a grande roda, que afiava facas e tesouras, para emitir um som agudo, friccionando-a contra uma haste de metal. Hoje, com facas que cortam até a luz dos teus olhos, o simpático amolador foi arquivado na gaveta de obsoletos.
Não se trata de nostalgia barata, agravada pela sensação de conviver com um mundo que se despedaça. Personagens e situações sobrevivem, a seu modo, na memória afetiva, nos diálogos que sugeriam. Um dia, como tudo, desaparecerão de vez. Ocorre que, como dizia o Barão de Itararé, há no ar mais do que aviões de carreira. As relações de trabalho por via remota ganharam grande impulso, e me pergunto se isso não é apenas um primeiro, e largo, passo para que as relações pessoais caminhem nessa direção. Estaremos nos tornando seres bidimensionais ?
Em artigo recente, Fernando Gabeira aborda a questão de forma inteligente. Com ironia, ou não ?, disse: “O país se transformou num imenso centro espírita, e nós baixamos nos computadores de conversa que chamamos de lives, mas poderiam também ser chamadas de deads”. O segundo tempo de qualquer encontro, quando as pessoas relaxam, tomam um cafezinho e trocam dois dedos de prosa, agora some na névoa virtual. Sei de um grupo de leitura, que se reúne mensalmente. Compartilham textos curtos e conversam sobre eles. Finda a leitura, sentam por algumas horas em torno de comes e bebes, e a vida corre frouxa, leve, importante. Os encontros estão suspensos e não acho que zoombidos os substituem. Os sentires são tridimensionais.
A vida em sociedade é cada vez mais mediada por máquinas e a velocidade das inovações não para de crescer. Acaba de surgir um programa de computador capaz de entender qualquer frase, de escrever textos complexos e coerentes. Consegue replicar o comportamento de personagens de livros, dando-lhes voz para opinar, por exemplo, sobre quando será a próxima pandemia. A ficção científica já se fez uma interrogação essencial: existirá um momento em que a máquina criará, por conta própria, um caminho independente do programador ? Ou, como desdobramento, conseguirá desligar-se dos humanos e criar territórios virtuais autônomos ? Como o computador Hal, do filme 2001: uma odisseia no espaço, e os androides do Exterminador do futuro.
Melhor não rir dessas hipóteses. O Homem, sempre curioso, está avançando em áreas até aqui tabus. Vejam só isso. Pesquisadores alemães e japoneses identificaram o gene regulador do desenvolvimento do córtex cerebral humano. Inseriram-no em embriões de micos, depois transplantados para o útero de uma fêmea mico. Em cem dias, verificaram que o cérebro do mico transgênico começava a adquirir configurações semelhantes ao dos primatas maiores, que somos nós. O laboratório conseguiu imitar o que a natureza levou milhões de anos para aprimorar. Analisando a experiência, o neurocientista Roberto Lent cravou: “Os computadores inteligentes podem ser controlados. Poderão sê-lo também os macacos humanizados, homens reinventados ?”. No que eu aconselho os cientistas: corram para rever O planeta dos macacos (o primeiro, com o Charlton Heston) !
Abraço. E coragem.