Samba Perdido – Capítulo 15 – Parte 02

Foto de Magno Lima.

A melhor casa noturna do Rio, o Noites Cariocas, ficava no primeiro dos dois morros do Pão de Açúcar, o Morro da Urca. As hordas de turistas vindos do mundo e do país inteiro que passavam por ali de dia não podiam imaginar que nas noites de sexta e sábado aquilo ficava abarrotado de gente querendo festa. O lugar era fantástico. Artistas variados, de Caetano Veloso e Gilberto Gil a Egberto Gismonti, se apresentavam no seu anfiteatro a céu aberto coberto por árvores com o público sentado, ou soltando a franga, no chão e nas plataformas ao redor do semicírculo à sua frente. Nos intervalos e depois dos shows, ligavam o som mecânico e o lugar virava uma pista de dança.

As noites estreladas e a brisa do oceano pontuavam a magia. Saindo do palco central, vários caminhos levavam até a beira do morro por entre a vegetação rala. As filas de postes de luz iluminando a orla e delineando os contornos das ruas, os edifícios cercados por morros escuros e, do outro lado do morro, o mar aberto refletindo a lua faziam do Rio de Janeiro uma obra de arte tridimensional.

A alquimia daquele banquete visual fazia o ponto ideal para atrair o sexo oposto. As garotas se tornavam irresistíveis. Nem todas eram da Zona Sul e a maioria jogava no time das cautelosas. Mesmo assim, quando chegava a hora de ganhar elas no papo, a aura romântica à meia-luz, um flertezinho aqui e uma cervejinha ali operavam milagres.

*

O lado frustrante desta e das outras descobertas que fiz nos tempos o Colégio Andrews era minha magra mesada que não arcava com as despesas com ingressos para shows, “bagulho”, boates, cervejas e idas ao cinema. Isso sem contar as coisas normais do dia a dia: passagens, lanches na escola, entre outras coisas. O item mais caro da lista era exatamente o Noites Cariocas. A solução da malandragem era pular a portaria subindo o morro a pé ao invés de pagar o ingresso ao pegar o bondinho, a unica forma legal de se chegar lá. Apesar de não ser iluminada, a trilha era fácil.

O porém era que havia surpresas indesejadas no caminho. Feito caçadores à espera da presa, policiais e seguranças ficavam de tocaia esperando que caras como eu aparecessem para extorquir um suborno. No caso dos seguranças, os desembolsos eram para que pudessemos seguir na trilha. No caso dos policiais, eram para que não nos levassem para uma delegacia onde nos indiciariam por posse de maconha real ou fabricada. Caso lhe pegassem e você não tivesse dinheiro algum, eram brutais. Uns camaradas da escola caíram na cilada, e por não terem dinheiro suficiente, em vez de prender todo mundo, os guardas os forçaram a tirar a roupa e voltar para casa pelados.

Apesar desse perigo, escalar a entrada do Noites Cariocas daquela maneira sempre tinha sido tranquilo, até uma noite especial.

Era fim de mês e minha mesada tinha secado. Porém, uma de minhas bandas favoritas, A Cor do Som, ia se apresentar. O único jeito de ver o show era a trilha. Daí fui subir com um amigo, o Márcio, sob a luz da lua cheia. Na metade do caminho, cruzamos com um grupo descendo que nos falou que o caminho estava “sujeira”, querendo dizer que havia policiais escondidos em algum lugar mais adiante.

Determinados, decidimos pegar uma rota alternativa, normalmente utilizada somente de dia por escaladores experientes. Apesar da nova trilha ser “limpeza”, a decisão se revelou insensata. Só percebemos o perigo quando já era tarde demais: do nada, de repente nos vimos tendo que atravessar um trecho com uma queda livre de 200 metros na pedra bem embaixo dos nossos pés.

Quando estávamos quase lá, meus sapatos de festa perderam aderência e escorreguei. Por um milagre inacreditável uma raiz saindo daquele paredão imenso parou minha queda depois de alguns segundos de desespero. Era o único, ainda que pequeno, pedaço de vegetação saindo daquela rocha num raio de 50 metros; se tivesse escorregado um pouco mais para lá ou um pouco mais para cá daquele ponto, teria sido meu fim.

Isolado naquele paredão maciço, dava para ouvir a música saindo a poucos metros acima e um pessoal gritando que alguém tinha caído. Para o alto havia uma rocha vertical e para baixo havia um precipício. Com meus pés mal tocando a raiz daquele abençoado, ainda que mínimo, tronco, me forcei a olhar para cima e a me concentrar em como sair dali vivo, um reflexo adquirido em situações perigosas no bodyboard em ondas grandes. Coloquei meus sapatos nos bolsos e consegui, não sei como, escalar a pedra descalço.

Quando ressurgi uma galera veio perguntar se estava tudo bem. Enquanto respondia que sim e calçava os sapatos, um segurança abriu caminho, me agarrou pelo braço dizendo que ia me entregar para a polícia. Levantei, me livrei e o desafiei.

“Meu irmão, não vou para delegacia nem pelo caralho, não está vendo que eu quase morri?!”

Um sujeito que tinha acompanhado o drama emendou: “Isso mesmo, larga o cara, eu vi! Ele quase caiu lá embaixo, não tem nada a ver levar o rapaz!”

Uma menina se juntou e foi mais contundente. “Vai ganhar a vida honestamente, seu otário! Vai pedir propina para ele agora?”

Tinha umas quinze pessoas protestando e um monte de curiosos chegando junto. Um outro segurança se aproximou, mas com tanta pressão tiveram que ceder.

“Tá bom! Tá bom! Não vai ter delegacia, mas ele vai descer no bondinho agora.” Eu queria continuar o protesto, mas a oferta era justa e a galera pareceu aceitar.

Na ida para o bondinho pensei no Márcio que devia ter sumido com medo de ser pego também.

“Tu tem sorte garotão, o último que a gente pegou aqui a gente encheu de porrada.”

A gente chegou na estação e ficou esperando em silêncio até o próximo bondinho estar pronto para descer. O cara da portaria veio perguntar o que estava acontecendo.

“A gente ia levar esse para a delegacia, mas ele teve sorte.”

“Como assim? Por quê?”

“Depois a gente explica.”

Antes da porta fechar, o que tinha me liberado falou: “Tu teve muita sorte, playboy, agradece a Deus e dorme bem.”

Fiquei pensando naquilo, nem zangado, nem arrependido. Dadas as circunstâncias, só podia agradecer ao meu Criador por estar vivo e vendo o terminal ficando para trás no céu escuro enquanto a Praia Vermelha, lá embaixo, se aproximava. Para além do que está escrito nos textos sagrados e nos livros de filosofia, para além do que dizem padres, rabinos e mulás, para além da própria razão, acreditava – como ainda acredito – na existência de um Deus onipotente que tinha decidido que aquela não tinha sido a minha hora. O porquê, nunca vou saber, mas uma boa conduta é o mínimo com o que posso retribuir.

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Humor é uma visão de mundo

Ser humorista é um ato de coragem, visto que o humor é uma visão de mundo, que desnuda os poderes. O humor, antes de ser rebelde, pensa diferente, é livre para pensar, é irreverente, goza as proibições. Os dicionários definem a palavra rebelde como ser do contra, contra a ordem, as instituições, e aí revelam uma carga negativa. O humor expõe sua forma de ver o mundo, vê o outro lado da ordem e do progresso, goza qualquer poder, se diverte ao buscar o outro lado. O humor é um jogo, como já escreveu Freud em 1927: “Vejam este mundo que parece tão perigoso. Um jogo de crianças, bom nada mais que para brincar com ele”. E no final de seu “Humor” elogia o sentido de humor ao escrever que ele é um dom precioso e raro. Apesar disso ainda é difícil o humor abrir espaço na seriedade do mundo psicanalítico.

Aliás, um dos livros menos valorizados da obra de Freud é “A piada e sua relação com o inconsciente”. Título engraçado ao elevar a palavra piada à importância do inconsciente. Um dos méritos de Lacan foi ter recuperado o “witz” (a piada), e escreveu que a própria clínica tem um viés “witzig”, gracioso. Aliás, não faltam pesquisas hoje das neurociências sobre o sorriso do humor e do riso.

O humor começa na infância, aos dezoito meses, no final da Fase do Espelho, dando início a capacidade simbólica da criança. Humor é erótico, abre portas, corações e mentes, e o Supereu no humor alivia, trata de suavizar as derrotas, é mais leveza que peso. O humor é uma ética que elimina toda forma de hierarquia, seja ela econômica, política ou religiosa. Uma ética em que os ricos podem revelar-se pobres de espírito, milionários sem espirituosidade. Uma ética que suporta o inevitável, e pode, como Dom Quixote, sorrir diante dos fracassos. Por isso tudo o humor está presente nas artes, no amor e na vida cotidiana em geral. Já os mal-humorados não acham graça, carecem de sentido de humor, amam as certezas e têm no ódio ao diferente uma razão de viver.

O humor se arrisca a brincar até com as Forças Armadas e a terrível Lei de Segurança Nacional. E foi o que fez Gregório Duvivier no seu recente Gregnews “A ideologia do General”, onde expôs sua visão da história militar. Assegura que não deseja ser acusado de infringir qualquer lei, e então, em vez de criticar, faz um programa em defesa dos armados, saúda a instituição ilibada, infalível, fundamental na República. Revela que a maioria das intervenções das Forças Armadas foi contra nós mesmos. O Brasil está cheio de inimigos internos, como prova a intervenção militar em “Canudos” na Bahia, com vinte e cinco mil mortos entre homens, mulheres e crianças. E depois a guerra do “Contestado” em Santa Catarina, com dez mil mortos em nova intervenção do Exército. Sem esquecer o golpe de 1964, chamado de “Revolução”, mas que foi um golpe na democracia que durou vinte e um anos. Saudosos do poder agora voltam com mais de seis mil militares no governo, e ainda ocuparam o Ministério da Saúde. Um ministro do Supremo Tribunal Federal afirmou que eles podem ser responsabilizados pelo genocídio, e foi logo repreendido pelas Três Forças. Aliás, às vezes, se tem a impressão que há muito receio diante das forças ilibadas e infalíveis.

Realmente é preciso ter coragem para ser humorista, que ao brincar revela as mazelas dos poderes. Lembro o poema “Áporo” de Carlos Drummond de Andrade em que um inseto cava, cava em busca de um escape, em busca de saída. Buscar saídas, furar muros, são desafios atuais diante do autoritarismo, logo bem-vindo o humor capaz de animar os desanimados, dar sua graça diante a desgraça. O humor é um sorriso entre lágrimas.

Ana e Hannah

Existe apenas um único problema filosófico realmente sério: o suicídio. Julgar se a vida vale a pena ou não de ser vivida significa responder à questão fundamental da filosofia (Albert Camus)

Era só o que faltava. Justo nesta fase pandêmica, em que a morte e o medo dela se fazem tão presentes, me caiu nas mãos a obra poética da Ana Cristina César. Louvada por gente de peso, espécie de musa da geração 70, transição para a de 80, resolvi encarar. O livro é uma egotrip interminável, hermético, garrafa ao mar com mensagem intraduzível. Drummond dizia que sob a pele das palavras há cifras e códigos. Devoto do itabirano, insisti. Tentei, mais de uma vez, filtrar o que lia com um olhar benevolente, curioso. Quem sabe uma pepita no meio do cascalho ? Em vão. O que terá acontecido ?

Intrigado com tanta e tamanha falta de comunicação, resolvi pesquisar a vida de Ana. Pistas. Internou-se várias vezes para tratar de uma depressão persistente. Suicidou-se, aos 31 anos, atirando-se da janela do apartamento dos pais. Terei, então, ouvido gritos de socorro ? Era disso que se tratava ? Não sei. Estou habituado à dificuldade de transformar em palavras aquilo que sinto. Escrever é uma aflição, as palavras serão sempre insuficientes para exprimir a essência dos sentimentos, dos desejos. É, como disse Alberto Manguel, um exercício sempre incompleto. Em que medida a poeta conseguiu fazer-se ouvir ?

Tive um amigo que cometeu suicídio. Emparedado pela névoa depressiva, desligou-se aos poucos do mundo. No final, já não conseguia fazer contato. Seus olhos, antes tão expressivos, estavam vazios. Tomou veneno, morte fulminante. Tal como Ana, teve a consciência definitiva de que queria morrer. Durante anos cultivei um ódio profundo ao seu psiquiatra, que não providenciou uma internação que, talvez, salvasse a vida do meu amigo. Tratamento intensivo, quem sabe ? A tragédia estava mais do que anunciada, só a insensibilidade metodológica não viu. Há, no mundo, cerca de 100 milhões de pessoas com o tipo mais resistente de depressão, que não tem nada a ver com melancolias passageiras. O suicídio é a segunda maior causa de mortes de jovens no mundo.

Não acredito que existam sentidos obrigatórios para a vida. O trabalho de construí-los, permanente, talvez não seja possível para quem sofre de alguma tirania bioquímica ou genética, que leva à depressão. Se o tirano for existencial, é possível, já disse Jards Macalé na pré-história, ser livre e sair de Gotham City. Mas, cuidado, sempre haverá um morcego na porta principal. Isso me leva a Woody Allen.

No filme Hannah e suas irmãs, Mickey Sachs, personagem de Woody, vive crises sucessivas. Novidade ! Queria saber onde estava a mão de deus num mundo cruel, paradoxal e opressivo. Questão trivial, né ? Tenta se aproximar de várias religiões e só acumula fracassos. São hilárias as cenas com os hare krishnas, a compra de símbolos cristãos num supermercado e a discussão com os pais sobre a divindade no judaísmo. Atormentado, sem resposta à dúvida sobre a existência de deus, tenta o suicídio. Encosta uma carabina na testa e, nervoso, erra o tiro. Desorientado, sai à rua, procurando uma “perspectiva racional”. Entra num cinema, sem saber o que estavam exibindo. Na tela, os irmãos Marx, para variar, botam o mundo de cabeça para baixo. Dançam, cantam, tocam xilofone nos capacetes de soldados, riem. Foi uma iluminação. Mickey percebe que, mesmo sem deus, sem uma entidade organizadora, controladora, é possível fazer parte do roteiro dessa vida sem o peso de perguntas sem respostas e uma dieta de angústias intermináveis. Não levar tudo tão a sério, sobretudo não se levar tão a sério. Estava lá a chave para recuperar o prazer de estar vivo. Apenas isto: estar vivo. Sai do cinema transformado.

Se fosse roteirista, eu poderia “nacionalizar” a cena. Nem Sansão, nem Dalila, de 1954. Oscarito, no papel de Sansão nonsense, faz uma paródia impagável do Getúlio Vargas. Usando um saiote grego, discursa: “Trabalhadores de Gaza ! A situação política nacional (e aqui carrega na letra ele, à la São Borja) está uma pouca vergonha. As mamatas andam soltas por aí e todos querem se defender”. Getúlio, que adorava as paródias que lhe faziam no teatro de revista e não tinha o mau humor das hordas ostrogodas de hoje, deve ter dado boas gargalhadas. Assim como nossa saúde mental. Cresci assistindo o chafariz da Atlântida e as chanchadas do Oscarito. Eu os convoco, junto com Grande Otelo, Cyl Farney, Eliana Macedo, José Lewgoy e Wilson Grey, quando os morcegos se insinuam no ambiente, e os espanto para seguir em frente.

Abraço. E coragem.

Cada um tem o apresentador que merece. Sobre ser criança nos anos 70

Comandando uma astronave
Rasgando o céu
Vou pisando em estrelas, constelações
Deixo longe o mundo aflito e a bomba H
Corpo livre no infinito eu vou
Na estrada do sol …”

 

Postei dia desses uma foto da Xuxa, de 1986, na TV Manchete, quando começou a trabalhar como apresentadora. Ainda fazendo sucesso como modelo, amargando o fracasso como atriz num filme (Amor estranho amor) em que interpretava uma prostituta que seduzia um menino de 12 anos, Xuxa resolveu apostar suas fichas como apresentadora de programa infantil. A história está aí, provando que sua intuição não falhou.

Ninguém, em lugar nenhum do mundo, acreditaria que uma modelo que usava roupas minúsculas, era símbolo sexual e tinha acabado de fazer um filme em que interpretava uma pedófila poderia virar carro-chefe de programas voltados para crianças. A não ser alguém que conhecesse a história da TV brasileira.

A precursora nessa linha foi nada mais, nada menos que a exuberante Virgínia Lane, vedete do teatro rebolado. Em 1955, trajada com roupas sensuais e orelhinhas de coelho, apresentava o programa O Coelhinho, na TV Tupi, voltado para o público infantil. Era a alegria das crianças, e provavelmente dos marmanjos, afinal, além de belíssima, era dona das pernas mais bonitas do Brasil e o pesadelo das donas da casa, que achavam aquele trajar um descabimento. Meu amigo Nélio foi vítima dessa má vontade para com a sassaricante. Estava num show de auditório e Virgínia pegou no seu queixinho. Apaixonou-se. Perdidamente. A mãe não deixou o romance seguir em frente, afinal ele tinha 4 anos e a apresentadora, 36. O primeiro amor, porém, a gente nunca esquece.

A roupa da Xuxa no programa de 1986 seria hoje um descalabro. Um decote até o umbigo, com seios quase desnudos, não era propriamente indicado para um programa infantil. Para nós, que fomos adolescentes na década de 80, assistindo às duas da tarde o Cassino do Chacrinha, com suas chacretes voluptuosas de collant fazendo danças sensuais no palco, vendo modelos como Monique Evans com um ínfimo fio dental na praia, nada de novo no front. Eram outros tempos. Fumava-se no ônibus, na sala de aula, poucos usavam cinto de segurança e vestíamos saias balonê com scarpins, o que por si só mereceria cadeia por falta de senso estético. Ah esses anos 80…

O fato é que Xuxa fez escola. No seu rastro vieram outras loiras que faziam brincadeiras com as crianças, apresentavam desenhos animados e exibiam sua forma física nas telas de televisão.

Sou do tempo que, ao anunciar o programa que seria passado, aparecia um documento de liberação na TV que indicava a idade mínima para assisti-lo e, o principal, que não era censurado, assinado pelo então Ministro da Justiça Armando Falcão. Homem de triste memória, fazia parte do governo nefasto da ditadura militar linha duríssima, pior que Golbery. Legou-nos, porém, duas coisas importantes. Sempre que, por um motivo ou por outro, você utilizar a expressão “Nada a declarar”, saiba que foi ele que a cunhou, é da sua lavra. A outra merece uma narração e é uma comprovação de que D’us é roteirista e, às vezes, mistura de forma inacreditável os núcleos das novelas. Digo isso e posso provar: Falcão, cearense, estudava Direito no Rio de Janeiro. Morava numa república de estudantes. Foi na mesma época que o grande Luiz Gonzaga largou o exército, saiu de Pernambuco e migrou para o Rio, no intuito de fazer carreira musical. Foi trabalhar na área do mangue, no baixo meretrício, em meio a rufiões, cafetinas e prostitutas. Luiz dedilhava sua sanfona, tocava milongas, tangos, foxtrotes, músicas que animavam o cabaré e depois passava um pires ou o chapéu.

Com o tempo, passou a frequentar a república dos estudantes, estava numa situação financeira difícil. Lá ele cantava, tocava e o pires corria. Até que o jovem Armando virou para ele e perguntou: “Por que você, tão talentoso, não toca o nosso forró de pé de serra? É por aí que você tem que seguir a sua carreira!”. Essa força foi determinante para que Gonzagão abraçasse seu Nordeste, definisse sua música, voltasse para as suas raízes.

Espero que, no julgamento final desse senhor, isso tenha sido levado em conta.

Nós, os nascidos nos anos 1970, fomos privados de loiras lânguidas e ninfetas dançantes ajudantes de palco. Engana-se, porém, quem pensa que, só por ter sido o período mais feroz da ditadura, não tivemos nosso animador infantil! Claro que a infância não passaria incólume às transformações de 64. Eles criaram seu herói, e a saudosa TV Tupi, entre 1966 e 1979, levou ao ar o programa Clube do Capitão Aza. O dono do clube trajava um uniforme da aeronáutica, usava um capacete com duas asas e falava de dentro de uma nave espacial antes de virar modinha (Chupa Xuxa!). Como tudo naqueles tempos, nada era por acaso. O linguajar desse herói era inspirado no militarismo. Capitão Aza (que recebeu esse nome em homenagem ao capitão aviador Azambuja, herói da Força Expedicionária Brasileira – FEB) se proclamava Capitão Chefe das Forças Armadas Infantis.

Hoje, com o distanciamento necessário, vejo que a intenção do programa era melhorar a imagem das Forças Armadas para as crianças, valendo-se das inovações da mídia de massa ao trazer novos produtos culturais importados da TV norte-americana. Desejava-se construir no imaginário infantil um consenso entre valores conservadores e autoritários.

Cercado por uma boa equipe, tendo Oduvaldo Vianna Fiho, o Vianinha, como diretor, com uma linda canção de abertura (Sideral) composta por Tibério Gaspar, autor de Sá Marina, imortalizada na voz de Simonal e Durval Ferreira, que, além de tocar com Sergio Mendes, teve suas músicas gravadas por Sarah Vaughan, Claudete Soares e Leny Andrade, pegava a criançada de jeito. Não sei se por influência dos meus pais, que nutriam grande antipatia pelo personagem, por perceberem o que tinha por trás da programação, ou por feeling mesmo, nunca fui fã do apresentador. No entanto, amava os desenhos e seriados veiculados pelo programa. Turma da Pantera Cor-de-Rosa, Capitão América, Homem de Ferro, Thor, Hulk, A Corrida Maluca, Speed Racer, Mr. Magoo e séries antológicas que fazem parte da minha memória afetiva: Jeannie é um gênio e A feiticeira.

O Capitão Aza costumava visitar as escolas. Levava sempre com ele um bombeiro uniformizado, um policial militar e um ex-membro da FEB, para dar lições de cidadania. Um dia, esteve na minha. Lembro-me de nós todos colocados em fila indiana, em blocos separados. Era uma escola que ia do Maternal à Alfabetização. Vimos o helicóptero pousando, um verdadeiro espetáculo. Sabe-se lá por que, nesse dia ele quebrou o protocolo e apareceu com dois palhaços. Os profissionais circenses que me perdoem, mas tenho fobia a eles que se arrasta até os dias de hoje. Na malandragem dos meus 5 anos, inventei uma dor de barriga e fiquei no banheiro até o evento acabar. Se já não gostava dele, associá-lo a dois palhaços foi um pesadelo. E foi assim que, após ver um clipe no Fantástico com um ser andrógino colorido e cheio de penas, meu ídolo supremo passou a ser Ney Matogrosso acompanhado pelos Secos e Molhados. Sim, existe sabedoria no mundo infantil.

Ah, já ia esquecendo. O ator que fazia o Capitão Aza, Wilson Vianna, era delegado da polícia civil.

Ser criança na década de 70 era isso. Somos sobreviventes. A andar soltos nos bagageiros de carros como Caravan e Belina, geralmente guiados por um adulto embriagado e sem cinto de segurança, a não morrer sufocados por uma bala soft e a ter, como herói infantil, um meganha.

Samba Perdido – Capítulo 15 – Parte 01

Capítulo 15

 

“Vida louca, vida
Vida breve,
Já que eu não posso te levar
Quero que você me leve.”

Vida Louca - Cazuza

 

De volta às aulas, descobri que a fama no violão tinha chamado a atenção da turma dos aspirantes a músico. Naqueles tempos de rock and roll, esta era uma casta importante na escola. Tinha ouvido falar que se encontravam regularmente para levar um som e e estava doido fazer parte. No início, impuseram uma distância por não saberem bem qual era a minha mas quando um deles finalmente me convidou, fiquei para lá de amarradão. Nas sessões fui percebendo que todos eram igualmente ávidos para aprender e absorviam tudo que podiam uns com os outros. Todos gostavam de rock, mas ninguém tinha nada contra experimentar com jazz progressivo e ritmos brasileiros. Paradoxalmente, apesar de ser visto como meio estrangeiro, meu interesse estava mais para o batuque do que para a levada da guitarra distorcida. Havia aqueles que eram melhores de solos, outros que, mais parecidos comigo, conheciam mais acordes e criavam levadas interessantes, alguns tocavam bateria, outros teclado, baixo e instrumentos de percussão como bongôs e atabaques.

Haviam varios subgrupos. O ponto de encontro da turma que me acolheu era a casa do Fernando, ou Fefo, que morava numa cobertura no Leme com uma vista fantástica da praia de Copacabana. Por algum motivo, ele e seu irmão mais velho viviam sem os pais, o que fazia daquele apartamento de dois andares uma zona livre. Nas terças e quintas, com a desculpa de ir estudar, a gente se reunia para tocar no quarto reservado para aquilo. Ele era ideal, espaçoso, cheio de almofadas confortáveis espalhadas pelo chão de madeira. Havia duas janelas grandes com grades de metal em estilo art déco lindíssimas que emolduravam a vista do Morro do Leme. Um dos membros da banda do Júlio, o irmão do Fefo, guardava seu amplificador lá. Sempre coberto de pontas de cigarro, copos sujos e garrafas de cerveja vazias, ele servia como o único móvel do quarto.

O som começava com a gente mostrando as últimas músicas e riffs que tínhamos aprendido ou criado. Quando os outros curtiam a novidade, todo mundo ia atrás, dando ideias e adicionando o que podiam. A atitude era parecida com a que tínhamos em relação ao futebol – aquilo era uma pelada musical. Queríamos aprender, curtir, sem nenhuma pretensão de formar uma banda.

Nos finais de semana, Júlio e seus amigos se juntavam à gente. Eles tocavam melhor e sempre traziam uma fartura de “bagulho” bom. Antes de qualquer coisa, enrolavam uns baseados que de tão gigantescos só davam para “pilar” com o dedo. Quando aqueles charutos chegavam ao fim, vinha uma chapação que parecia durar uma eternidade. Ficavamos feito zumbis olhando o cachorro, Pepe, balançar o rabo, latir e nos cutucar com suas patas tentando nos trazer de volta à vida. Volta e meia alguém o segurava e soprava a fumaça para dentro da sua fuça para ver se sossegava, mas, que me lembre, isso nunca funcionou.

Com um esforço sobre-humano, alguém finalmente conseguia se arrastar até o outro quarto onde a gente deixava os instrumentos. Um ou dois iam atrás e começavam a tocar alguma coisa. Aos poucos todos iam entrando e pegando os instrumentos. Com energias renovadas, atingíamos zonas de inspiração esotéricas de onde surgiam uns sons mucho locos. Algumas criações faziam a moçada ir ao delírio, outras faziam a gente cair na gargalhada. No dia seguinte ninguém conseguia se lembrar ou reproduzir nada que tinha acontecido, só sabíamos que tinha sido muito bom. Coisas da madame Cannabis Sativa.

*

Quase que sem perceber passamos à categoria dos doidões da escola; malditos, porém respeitados pelo espírito livre e contestatório. Para os menos simpáticos, éramos um bando de “porra-loucas”, todos fadados a se dar mal na vida, mas e daí? Quem estava falando eram eles ou o medo de levar porrada dos pais? Ainda que não nos víssemos como nem uma coisa, nem outra, os considerávamos caretas. Acreditávamos que, ao contrário deles, sabíamos das coisas e que havíamos descoberto a fórmula de gozar nossas existências sem as paranoias da burguesia. Independentemente de estarmos certos ou não, a divisão era clara e ninguém era de ficar em cima do muro.

Conforme as diferenças foram aumentando, fomos criando nossa própria subcultura. Nela, quem tinha a moral de comprar maconha na favela, atingia um status mais elevado. Resolvi ver qual era. A primeira boca de fumo que visitei foi no Cosme Velho, conhecida como “os trilhos”. Ela ficava logo no começo da linha do bonde que levava turistas ao Corcovado. Daquela vez, todo mundo tinha contribuído com alguma grana, mas fomos somente eu, o Juca e o Pitéo, um cara do ano acima que já tinha ido lá e sabia como lidar com o pessoal do “movimento”, ou pelo menos dizia que sabia.

Descemos no ponto final do ônibus perto da entrada para o Túnel Rebouças e fomos até um caminho na beira da Floresta da Tijuca. O Pitéo pediu para a gente dar o dinheiro e ficar esperando ali.

“Qual é Pitéo? Vai fugir com a nossa grana?”

“Não é isso, mané, os caras me conhecem e não gostam de muita gente chegando ao mesmo tempo.” Ele tinha se ofendido. “E tem mais, não precisa dar a grana agora. Fica com essa porra! Os caras vão descer para entregar o bagulho e aí a gente paga.”

Depois disso, subiu a ladeira cheio de si e sumiu na curva dos trilhos. Ficamos esperando por uns dez minutos que pareceram uma eternidade. Nosso colega voltou nervoso, dizendo que o “vapor” estava vindo logo atrás e que tínhamos que dar a grana agora. Logo depois, um mulato magro de short, chinelo e sem camisa apareceu na curva, olhou para a gente e fez um sinal. Pitéo subiu lá e passou o dinheiro discretamente. Em contrapartida, o cara olhou em volta para ver se não havia ninguém espiando e passou os papelotes de dentro da cueca para a mão do nosso camarada. Depois da entrega, o cara subiu apressado e o Pitéo desceu fingindo ser um morador tranquilo do bairro. Quando chegou, abriu a mão sem falar nada e mostrou as trouxinhas, cada uma pesando dez gramas. Cada um pegou a sua. Depois disso atravessamos a rua e subimos no primeiro ônibus nos sentindo como soldados voltando de uma operação bem-sucedida.

*

O risco me deu uma infusão de adrenalina e eu queria mais. A partir dali, frequentemente era eu quem ia lá para comprar para o pessoal. Um dia, o “vapor” de plantão disse que não tinha nada naquele dia.

“Tá a maior seca, meu irmão!”

Cocei a cabeça sabendo que a galera ia ficar desapontada se chegasse de mãos vazias. Queria fazer bonito com a Soninha, uma menina em quem estava de olho.

Havia dois outros “fregueses” na mesma situação. Um deles perguntou: “E lá no Morro dos Prazeres? Será que tem?”

“Lá é capaz de ter, eles estão esperando um carregamento do bom, mas não tenho certeza se chegou ainda.” O cara olhou para cima e apontou para o mato do outro lado do vale. “É lá em cima daquele morro, vocês sabem como chegar lá?”

Um dos outros dois respondeu: “Eu sei, bora lá?”

“Bora!”

A gente virou para o traficante. “Valeu pelo toque, meu irmão!”

“Valeu! Na semana que vem volta aqui que tem.”

Descemos os trilhos e fomos rumo ao morro do lado oposto do trânsito. Cruzamos a rua e depois que a calçada acabou, tomamos uma trilha que primeiro seguia ao longo do tráfego pesado em direção ao Túnel Rebouças, mas que depois adentrava mato acima. Subimos e no topo do morro chegamos num campo de futebol onde garotos estavam batendo bola. Cruzamos o campo. Por saberem o que a gente estava fazendo ali, continuaram com a sua pelada sem nos dar atenção. De lá, passamos por entre os barracos até chegarmos no final de uma viela. Do alto dos telhados à nossa volta, um pessoal da nossa idade mantinham guarda. No fim do beco, havia uma espécie de quintal e um barraco de frente para o mato. Um mulato alto e magricelo com um revólver na cintura saiu para falar com a gente.

“Aê, playboys, estão procurando alguém?”

Tentando disfarçar nossa apreensão, dissemos da maneira mais calma possível que queríamos comprar cinquenta gramas.

“Ah, é pra isso!” Já dava para ver que o cara estava chapado e estava adorando estar tirando uma onda com a nossa cara, uma péssima combinação para alguém com uma arma na cintura. “Espera aí.”

Ele voltou à porta do barraco e gritou para alguém que estava lá dentro: “Aê, Geraldo, tu já separou aquele tijolo?”

A voz gritou de volta. “Ainda não, o patrão falou que só precisava para hoje à noite.”

“Hoje à noite não dá, mané, já tem freguês aqui fora.”

Ele virou para nós fazendo um gesto para a gente esperar e entrou no barraco. Dois minutos depois, o cara voltou com um baseado enorme na boca e um tablete de dois quilos da coisa debaixo do braço. Aquilo era maior do que vários tijolos de alvenaria juntos – a maior quantidade do produto que já tinha visto na vida.

“Isso chegou hoje de manhã, é paraguaio, prensado, bom pra caralho. Já viu tanta maconha junto?” Ele levantou a mão calejada e ofereceu o cigarro improvisado. “Experimenta aí, playboy!”

Não dava para recusar. O que ele disse era verdade, era do bom e imediatamente sentimos o efeito, mas o medo era demais para relaxarmos a guarda. “Podes crer, é bom!”

Enquanto fomos passando o baseado em silêncio, ele foi separando nossa parte no olho. “Isso aqui é cinquenta gramas, é para dividir por três?”

A gente se olhou e concordamos que sim. Depois que os papelotes estavam prontos, nós entregamos o dinheiro.

Ele gritou para dentro: “Aê, patrão, os fregueses pagaram, quer conferir?” Ele se virou para nós e levantou as sobrancelhas como se dissesse que aquilo era chato, mas tinha que ser feito.

Um cara mais velho, negro e mal-encarado, saiu do barraco e sem falar uma palavra contou o dinheiro e verificou se os pedaços para a gente estavam certos.

“Tá tudo certo, pode liberar. ” Já com o dinheiro na mão, ele pegou o baseado, deu uma baforada e relaxou. “Vocês se deram bem! Essa porra aí chegou fresquinha hoje de manhã e é boa pra caralho.” Ele se voltou para mim e deu uma risada. “Olha só a cara desse maluco, já tá doidão!”

Depois daquela confraternização, colocamos os papelotes na cueca, nos despedimos e fomos embora. Passamos pelos becos enlameados separando as paredes de tijolos dos precários barracos. Apesar de ser minha primeira vez numa favela, não estava com medo. Talvez por causa do efeito e da descontração da despedida, o povo e o local pareciam familiares e passamos desapercebidos.

Quando saímos, percebi que estávamos em Santa Teresa, o bairro às margens da Floresta da Tijuca. Dali, subimos num dos seus bondes e partimos rumo ao Centro da Cidade. O sol estava se pondo e o odor doce das árvores flutuava por entre os bancos de madeira do carro velho e amarelo chacoalhando conforme passava pelas casas coloridas que caracterizavam o bairro histórico.

Longe da Gê, estava de novo em estado de graça, me sentindo de férias, mas com saudades dela. Depois que o bondinho chegou ao seu destino final, seguimos cada um por seu caminho através da selva de concreto do Centro da Cidade.

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Brasil em tempo sombrio

No capítulo XI da “Odisséia” Odisseu baixa até o Hades para se aconselhar com Tirésias e encontra o herói Aquiles. Logo elogia o maior guerreiro grego e diz que ele não pode se queixar da morte pela fama que fez. E logo escutou:“Ora não venhas, solerte Odisseu, consolar-me da morte”. A morte é inevitável mas sempre é sofrida pela perda, há sempre um luto a ser realizado. A morte une os amigos, os vizinhos, os familiares em torno do ritual de enterrar seu amores. O sentimento de ser insuportável a ausência, o perder de vista inquietante do ser amado, pois não é fácil amar o invisível. A Psicanálise define o luto como trabalho, o que é uma redução da realidade, pois há uma distância entre a palavra trabalho e a dolorosa vivência do enlutado.

O ritual funerário marca uma divisão entre os homens e os animais, uma importante evolução da capacidade simbólica do hommo sapiens. Os rituais diante da morte ocorrem no mundo há mais de cem mil anos e os que não podem homenagear seus mortos sofrem feridas difíceis de cicatrizar. Muitos que as ditaduras militares mataram, e sumiram com seus corpos, não tiveram os rituais de despedida dos familiares, logo são ferimentos sociais traumáticos.

Diariamente hoje a morte está presente no Brasil, que tem um saldo de três milhões de contaminados e cem mil mortos. É a parte mais visível de um problema mais amplo: a desigualdade social, que fez a doença contaminar e matar mais pobres do que ricos, junto a negação da pandemia, que foi fator decisivo para a quantidade de mortos. A Universidade Federal de Pelotas,fez a maior pesquisa sobre coronavírus no Brasil. Os estudos epidemiológicos indicam que a pouca testagem e as flexibilizações promovidas pelos governos federal, estaduais e municipais são os vilões de tantas mortes.

No pior momento o pior governo, pois um líder bufão, sempre expressou indiferença, e desprezo pelos mortos e suas famílias. Tudo fez para não unir o povo na luta contra a pandemia: brigou com os governadores, prefeitos, demitindo dois médicos como ministros de saúde e indicou um general sem qualquer conhecimento de saúde para ministro interino. Desprezar, descuidar, ser indiferente aos brasileiros que sofrem e morrem resultou na acusação de genocida pelo ministro Gilmar Mendes do Superior Tribunal Federal. Desde o início da pandemia Jair Bolsonaro dizia que era uma gripezinha, e que havia uma histeria. Ele fez diagnóstico de histeria diante a maior tragédia do povo brasileiro, e por isso foi diagnosticado como psicopata. Choca sua insensibilidade, frieza, a falta de empatia, diante dos mortos. Não sei ao certo seu diagnóstico, mas sua crueldade é inegável.

Quando os mortos do covid 19 eram 5 mil, no dia 28 de abril de 2020, ele foi brincar de tiro. Quando o Brasil chegou aos 10 mil mortos, ele foi passear de jet ski no Lago Paranoá. Quando o país superou os 25 mil óbitos ele andou a cavalo no meio de seus seguidores. Depois foram 30 mil brasileiros mortos e quando chegou aos 40 mil mortos desconfiou dos hospitais e disse para seus seguidores invadirem:“Arranja uma maneira de entrar e filmar”. Acusou os hospitais, suas direções, os médicos de mentirosos! Aí o humorista Aroeira o pintou como nazista e foi processado, mas muitos humoristas seguiram seu exemplo.

Agora o presidente não diz mais ser uma gripezinha, mas o que ele representa na História do Brasil é a questão. Entre as tentativas de resposta sobre o que é nosso país, temos agora o Gregório Duvivier na sua última Gregnews: “Ideologia de General”. O humorista fez um breve retrato histórico do país desde a escravidão, que já vi três vezes, e está no youtube. O humor não é só um dom ou virtude é uma vacina contra o desespero, é uma visão de mundo.