Ouvido na Ouvidor

Compositor de destinos/ Tambor de todos os ritmos/ Tempo, tempo, tempo, tempo (Caetano Veloso)

E lá estava eu, num salão dos anos 40, tombado pelo Patrimônio Histórico. Restaurante à moda antiga. A rua, antigo centro de gravidade do comércio carioca, agora era um canteiro de espectros. Da livraria Garnier à confeitaria Paschoal, da loja Ao Trovador à Casa Leuzinger, nada sobrara além de memórias. Eu mesmo, naquele momento, me sentia como ruína em busca de reconstrução.

No salão da Confeitaria Manon conversava com um amigo querido. Conhecíamos os garçons, a quem chamávamos pelos nomes. De vez em quando, intimidade. Falávamos dos solavancos da vida. Naquele dia, precisava mesmo de um bom par de orelhas amigas. Era uma fase difícil. Procurava me encontrar depois de décadas dissolvido em projetos coletivos. Começava a perceber como era mais fácil falar numa assembleia do que num tête-à-tête. Olhar para alguém, enxergar de verdade, é compartilhar histórias, criar espaços comuns, armazenar dores e ardores, oferecer confidências. A massa tem aspecto volúvel, falar com ela é como dialogar com sombras. É um diálogo importante, política é arte sofisticada. No entanto, quando exclusivo, perde-se a dimensão, fundamental, do encontro afetuoso, da descoberta de afinidades. E eu buscava esse encontro, no fundo um reencontro comigo mesmo.

Durante o almoço, conversa pesada, meu amigo percebeu que eu não era chegado a bebidas alcoólicas. Verdade, sou um abstêmio gustativo, não gosto do sabor de nenhum destilado ou fermentado. Defeito de fabricação. Inconformado, sentenciou: Está faltando álcool na tua vida ! Espantado no início, logo percebi o tanto de acolhimento que me presenteava. Ele, que hoje praticamente não bebe, me oferecia uma chave para destravar o imbróglio existencial em que eu estava metido. Perca-se para poder se achar. Fique tonto, perca o controle. Sem saber, me passava uma versão da sabedoria do rabi Nachman de Breslau: Nunca pergunte o caminho para quem o conhece, porque então você não será capaz de se perder. Séculos depois do rebe, Noel Rosa diria de outra forma: quem acha, vive se perdendo.

Em momentos de ruptura, é comum idealizar o passado. Nele, estaríamos seguros e, visitando-o, essa a ilusão, seríamos capazes de reparar o que deu errado na vida, costurar feridas que teimam em latejar. São os anos dourados, que, como bem disse Ruy Castro, não passam de roteiro seletivo da realidade. Pensamos nas festinhas, no descompromisso, na energia borbulhante, na preguiça sem culpa. Esquecemos da falta d’água, das quedas de energia, das doenças que não tinham vacina, nem remédio, da moral vitoriana. O sentimento de perda de uma essência imaginada, aprisionada no passado, aparece em todo canto. Millôr Fernandes, na pele de Vão Gogo, dizia que a saudade é a última nuvem que sobra de toda a, para sempre, irrecuperável realidade. Em 1949, inaugurou nonsenses no livro Tempo e contratempo. Um deles é um resumo lírico do que estou falando: Pegamos o telefone que o menino fez com duas caixas de papelão e pedimos uma ligação com a infância.

Gosto de um episódio da série Twilight zone (Além da imaginação), dos anos 50/60, chamada Walking distance. Pequena obra-prima, exibida em 1959. Viajando numa pequena estrada, um executivo para num posto de gasolina para fazer pequeno reparo no carro. Está próximo da cidade em que passou a infância. Enquanto aguarda o conserto, resolve visitar a cidade. Percebe, surpreso, que tinha voltado no tempo. Revê seus pais e a si mesmo como criança. Tem uma vontade louca de ficar por ali, mas seu pai, reconhecendo a estranha visita, o convence de que deve procurar os bons momentos não atrás, mas na frente, na vida que estava por vir. The best is yet to come.

Correr contra o tempo é batalha perdida. Seremos, sempre, legiões derrotadas. Cronos é implacável, devorador insaciável. Depois de visitar, às vezes obsessivamente, pessoas e lugares do meu passado, entrei num acordo com ele. Na linha que Mário Lago ensinou: “Fiz um acordo de coexistência pacífica com o tempo: nem ele me persegue, nem eu fujo dele, um dia a gente se encontra”. Enquanto isso, vou jogando conversa fora – essas são as melhores ! – com meu amigo. Sem álcool, com uma porção generosa de Freud e um farto buquê de ombros providenciais.  Sem o peso da encruzilhada resolvida.

Abraço. E coragem.

Tecidos da vida

A palavra tecido é usada, em geral, numa conversa sobre roupas, se o tecido é de algodão, seda, linho, entre tantas combinações. Entretanto, há os tecidos da vida, pois o tecido, o fio, com que é feita a vida de cada um, são símbolos do destino. A vida é feia por tramas, que se originam nas identificações como é eleição do nome próprio, uma expressão do desejo dos pais. A palavra tecido vem do latim “texere”, construir, tecer, mas já no século XIV a palavra atingiu o sentido de tecelagem como estruturação de palavras, ou composição literária. E aí se cria a palavra “texto”, que faço neste momento, costurando as palavras fios invisíveis.

E foi num texto de Antonio Candido que li sobre o tecido da vida:
“O capitalismo é o senhor do tempo.
Mas tempo não é dinheiro.
Isso é uma monstruosidade.
O tempo é o tecido da nossa vida”.
Muitos caminhos se abrem a partir da expressão “tecido da nossa vida”, pois a vida de cada um é um drama, uma trama, assim como a vida de uma família, a história de um país. Em Psicanálise se parte do drama de uma pessoa, e agora, por exemplo, recordo um conhecido que me escreveu sobre não saber mais quem ele era. Funcionário federal, trabalho enfadonho em suas palavras, tinha encontrado na música, na bateria, sua alegria. Tocava muito bem, integrava vários conjuntos, e agora se sente perdido, sem banda, sem tocar sua bateria, inquieto, e se pergunta quem mesmo ele é hoje e o que será o amanhã. Pensei na cigarra vivendo seu inverno, e hoje os artistas vivem seu pior inverno, e nós com eles. A vida sem arte perde o brilho, é uma vida tristonha, empobrecida.

Em tempos de pandemia, cada história pessoal, as insônias, as ansiedades, o cotidiano vai sendo tecido em tempos lentos e inquietantes. Ainda bem que a primavera se aproxima, e depois virá o verão, e, lentamente, a vida vai melhorar, pois chegarão os tecidos coloridos. As roupas serão outras, devem diminuir as mortes, e com coragem e sorte serão construídos novos caminhos. Todos estão desafiados a criar, a inventar as estradas novas que hoje passam pelas redes, pela realidade virtual, mas já, já se encontrarão com a realidade presencial. Mais do que nunca é indispensável a imaginação, cada dia é preciso paciência para seguir tecendo a vida nas parcerias solitárias e solidárias.
O tempo é o tecido de nossa vida, ao contrário do que escutamos, de ser o tempo é dinheiro como se aprendeu com essa frase em inglês: Time is Money. Frase pobre com que os milionários gostam de encher a boca e os bolsos. Um dia escutei que nos Estados Unidos, quando alguém se exibe, lhe perguntam: “Quantos milhões já fizeste?”. No capitalismo o poder é medido pelo dinheiro. Que maravilha os que perguntam sobre os amores, os ardores, as graças, a música que toca o coração, ou conversar sobre as histórias que a gente vive e já viveu.

É tempo de aprender, e a cada dia se pode aprender algo novo ao ler, ao ver um filme, ou os encontros nas redes. É bom sonhar, plantar, e lutar para levantar o ânimo, levantar a cabeça, levantar o astral, para não sucumbir. É verdade que os tempos são traumáticos, tempos de medo, logo convém buscar bons amparos, apoios seguros. Há motivos de sobra para queixas, mas um dia essa loucura irá diminuir, e a gente se abraçara e novos amores nascerão. E então as pessoas irão para os parques, o Jardim Botânico, museus, shows, num congraçamento como nunca antes já se viu. Esse dia há de chegar, e eu estarei lá, com certeza, e convido a vocês para comemorar a vida sem medo.

P.S.: Agradeço muito a turma do face, pelas palavras e os cliques da semana passada, pois é assim que se podem afrouxar os nós da nossa solidão.

Samba Perdido Capítulo 14 – parte 02

Apesar das frustrações no departamento amoroso, se é que  podia ser chamado disso, a gente adorou o pré-Carnaval do Recife. No Rio, a classe média fugia da folia para descansar, mas ali todos faziam questão de ficar e participar. A cidade inteira entrava na onda e ficava de cabeça para baixo. À noite, havia a tradição do “Mela-Mela”. Blocos improvisados cruzavam pelas ruas abarrotadas de foliões que passavam melando uns aos outros, conhecidos ou não, com uma mistura de água, açúcar e farinha que preparavam em casa. Nossos anfitriões fizeram questão de fazer alguns sacos da coisa para a gente. É claro que era previsível que dois caras de fora seriam mais alvos do que atiradores. Nós revidamos, mas quando nossa munição acabava, tinhamos que voltar para casa parecendo dois pães franceses crus mas felizes e exaustos da diversão.

Nos fins de semana, durante o dia as pessoas passeavam em carros sem portas e em caminhões alugados jogando baldes de água nos passantes. Nas calçadas, as vítimas os aguardavam com jatos d´água de madeira de um metro e pouco de comprimento preparadas para revidar. Quando os carros passavam, era uma guerra e os embates aconteciam em meio a gritos e gargalhadas. A tia do Davi nos avisou para tomar cuidado com as coisas que as pessoas podiam colocar na água, mas nunca saímos cheirando a algo estranho.

O primeiro baile de pré-Carnaval daquele verão foi na parte velha da cidade, junto ao porto. A praça, o Marco Zero, ficava numa área que, por causa do arranjo estreito das ruas e das lojas mal cuidadas, parecia com o pano de fundo de um velho filme preto e branco passado no Oriente Médio, mas com prédios coloniais europeus e povoada por caribenhos.

O ritmo do Recife é o frevo, que para nós parecia uma batida militar acelerada com um quê de africano. Nos bailes, ele era executado por uma sessão rítmica considerável, acompanhando uma orquestra de metais tocando arranjos rápidos e complexos. O jeito tradicional de se dançar aquele ritmo envolvia agachar-se e pular no ritmo da música agitando um guarda-chuvas. Porém a multidão na Praça da Sé estava bêbada demais para acrobacias. Quando a música pegava fogo, a sensação era parecida com a de se estar em um show de punk-rock, onde ninguém sabia ao certo se estava brigando ou se divertindo. Tínhamos que ficar dando cotoveladas acima de nossas cabeças para não sermos atingidos naquela enxurrada de loucura musical.

Chegou uma hora que os organizadores pararam a música e ergueram uma garrafa de whisky nacional, anunciando “Boa noite, povo do Recife! Esta aqui uma garrafa de uísque Drury’s, o melhor do Brasil. Ela vai para o folião mais animado desta gente maravilhosa. Quem está animado aí?”

A praça foi ao delírio.

“Então vamos ver quem é o mais animado de vocês, valendo essa garrafa!”

A banda voltou a tocar e a turba caiu no frevo ainda mais enlouquecida.

*

Algumas semanas mais tarde, o Carnaval começou oficialmente e nós tínhamos duas opções. A primeira delas era ir para Olinda, a cidade histórica ao lado do Recife, onde as autoridades fechavam a cidade para carros pelos quatro dias inteiros. Fora os inúmeros blocos nas ruas da cidade, havia sempre no mínimo quatro ou cinco orquestras de frevo tocando em diferentes lugares ao mesmo tempo. Podíamos pular de Carnaval em Carnaval e nos juntar às multidões que nunca tinham menos de mil pessoas.

A outra escolha era ir aos bailes de Carnaval em Recife. Nos primeiros três dias escolhemos a primeira opção: o Carnaval de rua de Olinda, mas, apesar da animação não obtivemos sucesso com as garotas. No último dia, para tentar mudar nossa sorte, partimos para a segunda alternativa, onde talvez a receptividade feminina fosse ser maior. Foi assim que acabamos no Carnaval do Sport Clube do Recife, sede do famoso clube de futebol.

A entrada estava apinhada. O ingresso era barato e havia uma mistura de gente do povão e de gente rica, sócia do clube. No salão havia uma grande orquestra de frevo no palco. A música estava pegando fogo, o Carnaval lotado e o clima incrível. Havia pessoas dançando onde quer que podiam – na pista, nas mesas e nas cadeiras. Volta e meia tocavam o hino do clube e o refrão levantava todo mundo.

“Este ano o Sport vai ser mesmo campeão,

Todo mundo vai cantar e dizer, ninguém segura o Sport não!”

Depois de semanas de frustração, mas agora inspirados pela animação e por muita cerveja, obtivemos sucesso. A maneira de se “pegar” as garotas, quase todas de saias curtas e vestindo a camiseta do clube, era sair as agarrando pela cintura. Não precisava falar nada, o próximo passo era dançar um pouco ao redor da pista e depois arrastá-las para um canto do lado de fora e lá tentar chegar o mais longe possível.

Depois de fazer isso com várias, “peguei” uma morena maravilhosa. Como as outras, a levei para o escuro ao lado da barraca de cerveja. Ela era bem nova, com certeza menor de idade, cabelo macio, carnuda, deliciosa de se pegar. Quase não deu para ouvir o nome dela por causa da música alta, mas entendi que se chamava Gê. Com ela o amasso foi mais intenso do que com as anteriores. O jeito que ela me deixava pegar nela e a maneira com que se esfregava na minha “barra de balas drops” me diziam que, pela primeira vez na vida, havia a possibilidade de levar a coisa para o próximo nível.

A certeza bateu quando ela falou no meu ouvido: “Ah, seu carioca gostoso, estou ficando louca.”

Embriagado pela cerveja e pela a sexualidade dela, sem motivo para ter vergonha na cara respondi: “Você já me deixou louco faz tempo, está sentindo isso? Ele está doido para te conhecer todinha.”

“Aff, seu maluco, deixa eu sentir. Hmmmm…, ela apertou, deu uma olhada safada e disse: “Assim eu não aguento. Vem comigo!”

Ela pegou na minha mão e foi me guiando. A gente se afastou do Carnaval. Depois de passar por umas casinhas dentro do clube chegamos num portão semiaberto e entramos na área da piscina do clube. Depois de mais amassos, descemos uma escadinha e fomos parar na sauna que estava vazia e com a luz desligada.

“Num se preocupe, carioca, eu sou sócia do clube e ninguém vem aqui à noite.” Estava tudo escuro, mas dava para ver ela se sentar em um dos degraus. “Venha cá, meu lindo.”

Apesar de mais nova, ela parecia ter mais experiência na coisa. No meio dos beijos, ela me agarrou e perguntou. “Não tiraste a camisa ainda?! Tire agora!”

Enquanto colocava a camisa no chão, ela foi se esfregando e entendi que era para eu também tirar a camisa dela. Em silêncio, acabamos nus. Depois da delícia da pele contra pele, ela se recostou de joelhos num dos degraus. “Eu gosto assim. Vem.”

Foi a melhor coisa que já tinha experimentado na vida.

*

O ônibus saía às dez da manhã do dia seguinte, quarta-feira de cinzas. Cheguei na rodoviária virado e exaurido pela Gê. A gente tinha amanhecido na beira da piscina, ido tomar café numa padaria e depois passamos para pegar minhas coisas. Ela ficou me esperando embaixo enquanto me despedia de meus anfitriões. Querendo que ficasse, acabou vindo até a porta do ônibus para os últimos amassos na frente de todo mundo.

Embarquei sozinho, o Davi ia ficar com uns amigos que tinham vindo para o Recife.

Por coincidência, alguns dos membros da banda que tinha tocado no Carnaval do Sport Club Recife pegaram o mesmo ônibus. Não eram frevistas mas tocavam as marchinhas de carnaval enquanto a orquestra de frevo descansava. Eram todos ligados à escola de samba Unidos de Vila Isabel e ainda estavam em clima de folia. A festa continuou pela viagem inteira: 43 horas com muita bebida e batucada no ônibus até voltarmos ao Rio. Quando cheguei em casa, tomei café e depois de um banho mergulhei na cama de onde não saí pelas próximas 24 horas. Tudo seria diferente depois daquela injeção na veia de frevo, suor, Recife e Gê. Meu tempo de aprendizado teórico sobre o Brasil tinha acabado. Agora só queria saber das aulas práticas. Volta e meia pensava na minha recifense, mas apesar de a gente ter trocado telefones, nunca mais tivemos contato.

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Mundo virtual, incertezas reais

“Tenho que preservar minha imagem” – como diz o velho palhaço traçando uma linda boca sobre a boca sem dentes (Millôr Fernandes)

Gosto da vida monástica. Assim começou a falar meu amigo pelo telefone, quando perguntei como ia o isolamento. Compreendo o acasalamento dele com a solidão. É uma figura rara. Não usa celular, nunca teve computador. Quando queremos nos comunicar, usamos o velho Graham Bell ou marcamos um almoço. Já brinquei com ele dizendo que, proximamente, evoluiremos para o telegrama. Posso garantir que não se trata de um ogro ranzinza, nem de nostálgico furioso. Nossas conversas são riquíssimas, varam horas. Com ele, divido gostos musicais comuns e a estranheza por um mundo que aderna para a cenografia virtual.

Nos últimos meses, prensado pelo vírus, usei, com desconforto, a ferramenta zoom. Meus amigos reduzidos a um mosaico de pequenos quadrados planos. A balbúrdia calorosa dos encontros ao vivo reduzida ao esforço para apertar botões na hora certa. Ah, mas quebra um galho, alivia a saudade. Pode ser, mas me lembra os sampurus japoneses. No Japão, restaurantes exibem vitrines com as especialidades da casa esculpidas em material plástico. Têm aparências e cores de comida, mas são apenas imagens. A refeição real – como a conversa verdadeira, com seus aromas, espantos e expressões – está em outro lugar.

Fala-se muito na transição dos ambientes de trabalho e das escolas para a comunicação à distância. Como que a reconhecer a extravagância, uma empresa está desenvolvendo um aplicativo que simula um auditório. Nas poltronas virtuais sentarão os participantes de videoconferências e reuniões. Este tipo de simulação não tem nada a ver com ambientes reais. Meu período mais fértil de trabalho foi no BNDES. Uma das razões foi a possibilidade de, no meio do dia, sair da sala, me encontrar com colegas de outras áreas e conversar sobre assuntos fora de pauta. Sem os grilhões de monitores e auditórios plastificados. Sem a competição de pratos por lavar e banheiro por limpar. A relação mediada pelas máquinas tem um potencial desumanizador, de enrijecimento da rotina, que não deve ser subestimado.

O coronavírus levou milhões de pessoas a trabalhar em casa, submetidas à comunicação apenas verbal, tão calorosa quanto um tijolo de sorvete napolitano. Já se detecta um aumento de sintomas de depressão, insônia e irritabilidade. Os primeiros levantamentos indicam que aumentaram, também, as desigualdades no acesso às tecnologias necessárias a essa forma de trabalho. Em países como o Brasil, com obscena desigualdade na distribuição de renda, isso não tem a menor chance de melhorar.

O cinema começa a explorar o que se pode chamar de novo filme catástrofe. Perto dele, terremotos, ondas gigantescas, erupções vulcânicas, não passarão de matinée infantil. Com tudo tão conectado, tão controlado, o que seria do planeta se viesse um blackout, interrompendo o fluxo de informações via internet e extinguindo a memória eletrônica ? Duro de matar 4.0 é um aperitivo. Uma equipe de hackers ameaça apagar tudo o que está armazenado em bancos de dados de sistemas previdenciários, ministérios, bancos. Claro que, depois de muita pancadaria (afinal de contas, o mocinho era Bruce Willis), há um final feliz, mas a vida não costuma amar roteiros de Hollywood. Se a ameaça fosse consumada no plano real, o que seria do mundo como o conhecemos ? Chuva de suicidas, como no crash da bolsa de valores, em 1929 ?

Tive na faculdade um professor de Física apelidado de Topo Gigio. Quem tem certa quilometragem, vai lembrar. O Topo Gigio era um ratinho muito chato, de voz melosa e arrastada, que contracenava com o Agildo Ribeiro nos anos 70. No meio de uma aula, céu escuro, a luz apaga no Fundão. Revoada geral ? Nada disso. O ratinho, digo, o professor, pediu que usássemos a imaginação e foi desenhando conceitos no breu. Silêncio no coliseu. A Física nunca foi tão luminosa, tão clara. Usamos o que tínhamos de mais precioso para construir o conhecimento: a curiosidade. Sei que tenho uma certa inclinação saudosista e, por isso, me concedam um desconto, mas eu pergunto: alguma chance de uma história como essa acontecer numa vídeoaula, cada moleque no seu canto, isolado, grudado no monitor, sentindo falta do olhar amoroso dos amigos ? Sei não …

Abraço. E coragem.

PROPOSTAS para não se adaptar a vida como ela é ENCONTRAM 2020

No dia 24 de julho de 2010 a página central do segundo caderno da Zero Hora era: PARAR PARA PENSAR. Essa reportagem foi sobre um ciclo de palestras: “Cinco propostas para não se adaptar a vida como ela é”. Durante cinco noites os psicanalistas Edson Sousa, Julio Conte, e eu falaríamos no Festival de Inverno de Porto Alegre.
No primeiro dia o tema foi o invisível, presente nas religiões monoteístas. Entretanto o invisível também está nas artes como na peça de teatro “Esperando Godot”, de Samuel Beckett; o principal personagem é o invisível Godot.

Também Freud baseou a Psicanálise na invisibilidade do inconsciente, que ele denominou de “outra cena”, a cena que determina o comportamento humano. Essa cena invisível gera efeitos psíquicos como os sonhos e os sintomas. Por fim a questão essencial do amor, que por ser invisível, requer provas de amor. Em todas as relações amorosas, se cobram demonstrações de amor.

Já um governo expressa seu amor ao povo quando defende a saúde do povo, a educação do povo, defende a natureza do país que é do povo. Muitos usam a bandeira do Brasil e dizem que amam esse país. Amam como homens que matam suas mulheres e dizem que o fizeram por amor. O governo executa uma destruição planejada como ocorreu na reunião do dia 22 de abril, onde não houve referência a luta contra a pandemia. Impressionante como em 2010, há só dez anos, o país era festejado no mundo e hoje é desprezado. Não se prestou atenção quando o historiador do Brasil, Luiz Felipe de Alencastro, já em 2005 alertou: “Um possível regresso reacionário estava na mira dos conservadores e dos militares”.

A palavra DESTRUIÇÃO talvez seja a palavra para se pensar o ano de 2020. O Brasil está em guerra, já morreram mais de oitenta mil pessoas, uma guerra invisível, onde ninguém vê e quem vê está quase sem voz. Hoje, para não se adaptar a vida como ela é, a rebeldia deverá crescer. Vem ocorrendo os protestos da juventude, de lideranças, de partidos. O país dos Poderes poderosos, despreza o país da maioria, essa é a trágica história nacional. Contudo, será preciso dizer, cantar, sair do Dó, para o Sol, com afinação num sonoro: NÃO a destruição.

INOMINÁVEL

por Edson Luiz André de Sousa

Cada tempo tem seus inomináveis. Há dez anos quando tive a chance desta conversa tão inspirada com meus amigos Abrão e Júlio , minhas reflexões tentaram cercar esta palavra muito mais perto do que é da ordem do sublime , da utopia e do sonho. Evidentemente, tínhamos também muitas violências para dar conta neste Brasil sempre engolfado por uma amnésia da história, mas parece que tínhamos naquele momento algumas luzes que nos faziam ter esperança de uma mudança de rumo desta história. Fui rever minhas anotações da fala que fiz naquele encontro/ festa que lotou a sala Álvaro Moreyra. Iniciei trazendo uma imagem do filme de John Houston de 1962 “ Freud Além da Alma”. A cena que me detive era o momento em que Freud esta na estação de trem de Viena indo para Paris e recebe de presente do seu pai o relógio que pertencera a seu avô. Nesta cena buscava colocar em pauta o valor da transmissão da história e o valor de uma herança concentrada na simbologia deste objeto marcador de tempo.
Hoje nosso relógio caiu no chão e espatifou. Vivemos um tempo de paralisia diante do horror do cenário político de um país à deriva e que parece ter esquecido que somos sujeitos de linguagem. A violência, o ódio, a estupidez e a ignorância tem nos levado a uma catástrofe inédita: em poucos dias serão 100 mil mortes por uma pandemia viral e politica , destruição assustadora da floresta amazônica e de comunidades indígenas, falência completa e programada das instituições de cultura, educação e saúde deste país. É assustador constatarmos que esta politica chegou ao poder deixando muito claro um projeto de destruição. Estes são os inomináveis de nosso tempo e que vamos ter que nos responsabilizar. O impasse já foi muito bem definido por Samuel Beckett ao nos mostrar que diante destes inomináveis não podemos nos calar. Vamos ter que ir buscar, onde forem, estas palavras.

INCERTEZA

Julio Cesar Conte

Foi uma semana incrível. Tudo que aconteceu naquelas noites ainda reverbera. Os três “in” ainda estão vivos. Desastrosamente vivos. Nos três primeiros dias Abrão, Edson e eu, expomos cada qual a sua proposta. No quarto todos juntos. E o quinto? Sugeri uma performance onde a forma falasse mais do que o conteúdo. A sala disposta em círculo e no centro três cadeiras vazias. Um foco de luz sobre elas. A escuridão envolvendo o público. O sonho era dar vida a indignação sem a presença do indignado. A voz do pensamento que prescinde do pensador. Começamos a perguntar para nós mesmos. O que eu queria dizer com tal coisa? Uma voz perguntando revela lacunas, contrastes, contraditório, absurdo. O pensamento é eterno, in-finito enquanto o pensador é finito, mortal. O público ocupa as cadeiras vazias dos palestrantes, uma força silenciosa se apropria. Entre luz e sombra a noite evoluiu como uma cintilante comunhão ao descentrar a propriedade do saber e a apropriação dos conteúdos.
Corte para 2020 e tudo que era sólido se desmanchou no ar, a peste nos impede de pensar. Autoritarismo faz apologia da ignorância, da estupidez e da burrice. Incerteza ressuscitaria a dúvida contra todas as afirmações psicóticas. Insensíveis frente a dor alheia representada nos “e daí?” multiplicados em automatismo mimético. O Brasil optou pela segurança das milícias espalhando certezas falsas, optou pela ignorância. Atacando o conhecimento científico, a arte e educação constrói um universo de robôs. A ciência se alimenta da dúvida, a arte é expressão da incerteza, e a educação mira o futuro que é sempre incerto. Todas compõem a saúde de um povo atacado pela peste, pois a certeza se impõe em relação vertical do poder arrogante, desemboca em preconceito, discriminação e injustiça. Doses homeopáticas de incerteza serviriam para suportar novos

Samba Perdido – Capítulo 14 – parte 01

Capítulo 14

 

“... quero sentir
A embriaguez do frevo
Que entra na cabeça
Toma o corpo
E acaba no pé."

Capiba – Voltei Recife

 

Fui parar no Colégio Andrews, uma escola para a classe média carioca situada de frente às inúmeras pistas de trânsito que cercam a belíssima praia de Botafogo. Estava contente, finalmente meus colegas seriam como quaisquer outros adolescentes da minha idade e as férias que ofereciam eram maravilhosas. Além de serem no verão – nas das escolas britânica e americana eram em julho e agosto – eram enormes. Se as notas fossem boas começavam no início de dezembro e só terminavam no meio de março. Contudo, o início foi puxado. As aulas eram em português e disciplinas como química, matemática e física eram muito mais avançadas. Por isso não fui bem no meu primeiro ano e terminei ficando de recuperação em dezembro e janeiro. De qualquer forma, passar a manhã inteira “pegando jacaré” para depois ir à escola por uma hora ou duas não era nenhuma tortura.

Depois de passar nas provas finais, ainda sobravam dois meses sem aulas pela frente. Do nada, Davi, um amigo novo da turma do Maurício, me convidou para passar um mês em Recife na casa de uns parentes, carnaval incluso. Por ser dois anos mais velho, ter acabado de passar no vestibular e pertencer a uma respeitável família judaica, e talvez por sentirem culpa pela bagunça que fizeram com minha educação, meus pais deram sua permissão sem maiores problemas.

No nosso preconceito viamos o Nordeste como um país exótico dentro do próprio Brasil que vivia cinco ou dez anos atrás do Rio e de São Paulo. Por outro lado, a região havia se tornado um destino turístico da moda graças a uma onda de artistas vindos de lá – Alceu Valença, Fagner, Belchior, Elba e Zé Ramalho, Geraldo Azevedo e Robertinho do Recife, todos no auge do sucesso. Independentemente disso, a reputação do Carnaval do Recife era a melhor possível.

A única coisa diminuindo a empolgação era a viagem em si. A distância entre o Rio de Janeiro e o Recife é de 2.300 km. Aviões na época eram coisa de milionário e o único jeito seria encarar uma viagem de ônibus de 43 horas.

*

Pronto para a aventura, com a mesma mochila dos tempos das machanés nas costas, cheguei com meus pais na rodoviária numa noite quente de Janeiro. O terminal estava apinhado de gente de todo jeito, cores e classes sociais; passageiros e acompanhantes fazendo fila nos balcões das viações e passeando pelas bancas de revistas, pelas barraquinhas de comida e pelas lojas de lembranças. Para mim, o buchicho era uma vibração fascinante mas para o seu Rafael e a dona Renée o excesso de gente humilde era incomodo.

Fomos sentar num pé sujo, o melhor da rodoviária, onde tinha marcado de encontrar o Davi. Pedimos um café e ficamos esperando.

“Tem certeza que é isso que você quer nessas férias, Richard? Você ainda pode mudar de ideia.” Rafael não podia acreditar que seu filho quisesse se misturar àquela gente e partir numa viagem estúpida e de mau gosto. “Viajar nessas condições tendo uma casa confortável para passar o verão em Teresópolis? Não entendo.”

“Sim pai, férias foram inventadas para curtir, não para ficar escondido.”

“Mas o Sérgio Birman e o Mario Halpern têm casa lá. Por que você não faz como eles e passa o verão com a família?”

“De novo!? Eles gostam de ir para lá porque ficam em condomínios jogando bola, saindo e curtindo com um monte de amigos. Entende? Curtir?”

O tom da conversa piorou. “Depois das notas que tirou, você deveria estar pensando em estudar para alcançar os colegas.”

Odiando o lugar, já sabendo o que eu ia responder e com uma ponta de inveja por estar fazendo algo que ela gostaria de fazer, Renée se meteu. “Você é egoísta demais, não quer saber de estudar, nem de ficar com seus pais nas férias. Cadê a apreciação pelo esforço que fizemos para construir uma casa de campo para vocês?!”

“Pra gente? Ah! Dá um tempo!” Já não estava vendo a hora de entrar naquele ônibus. “Vocês construíram a casa para tirar onda com os teus amigos! A gente nunca pediu aquela casa e você sabe disso!”

Meu pai me reprovou com um olhar, mas o sangue já tinha subido à cabeça e continuei. “Egoísta? Eu, né? Quem é que me internava todos os anos numa colônia de férias para ir curtir na Europa? Agora é a minha vez, tá legal?”

O Davi chegou com os pais na hora certa. Paramos de falar em inglês e nos levantamos para cumprimentá-los. A apresentação foi formal e um tanto constrangedora. Seus pais não eram tão velhos, falavam português sem sotaque mas era visível que estavam igualmente desconfortáveis com a “diversidade” na rodoviária. De qualquer maneira, tinhamos pouco tempo para ficar ali; faltava meia hora para o ônibus partir.

Depois de pagar a conta, fomos todos para a área de embarque. O sistema de informação era confuso e demorou para acharmos a plataforma. Quando descemos a escadaria de metal, lá embaixo havia filas de famílias nordestinas falando alto e colocando malas velhas e bolsas gigantescas nos compartimentos de bagagem. Nossos pais não conseguiam disfarçar o choque. Constrangidos pela sua presença e sem ver a hora de embarcar, Davi e eu já estávamos de olho em umas “gatinhas” que também pareciam da zona sul, igualmente perdidas naquela confusão. Estavam de vestidos floridos, cheias de pulseiras artesanais e colares de contas. Nos decepcionamos quando subiram no ônibus para Maceió com suas mochilas.

Depois das recomendações finais de nossos pais, demos as passagens ao motorista, entramos, encontramos nossos assentos e nos despedimos na janela enquanto o ônibus saía da baía de ré.

*

Davi era um cara introvertido, porém superinteligente e craque no futebol. Ele tinha acabado de passar para as faculdades de psicologia e de economia e ia cursar as duas. Não o conhecia a muito tempo mas a gente se dava bem. Assim que o ônibus começou a acelerar para fora da cidade, ele soltou um desconfortável “Agora que os pais ficaram para trás, é com a gente.” Mudei de assunto e ficamos batendo papo e fazendo planos até conseguirmos dormir.

Quando o dia raiou, já estávamos em território desconhecido. Os primeiros vilarejos começaram a passar pela janela com homens de chapéu de palha montados em jegues descendo estradas de terra ao lado de carros velhos, gente escovando os dentes nos tanques fora das casas, coqueiros e casebres de barro com cobertura de palha.

Conforme fomos avançando pela BR-101 o que mais chamou a nossa atenção foi a extensão do desmatamento. Na escola, tínhamos aprendido que a Mata Atlântica cobria toda aquela área. Estávamos esperando o ônibus passar por baixo de árvores com macacos pulando de um lado da estrada para o outro. Em vez disso, em ambos os lados, via-se uma paisagem desoladora formada por campos devastados que pareciam não ter fim. As únicas árvores ainda de pé eram aquelas feitas de madeira dura demais para as motosserras e resistentes ao fogo.

Enquanto isso, no ônibus, as coisas começaram a mudar. Quanto mais ao norte chegávamos, mais parecia que um peso havia sido retirado das costas dos nossos companheiros de viagem. Todos tinham começado a ser mais amigos, a falarem mais alto e a perder a vergonha de seu sotaque.

“Oxente, esse ônibus num vai chegar nunca, não? Tamo aqui faz mais de um dia!”

“É verdade, já tô aperreado! Mas pelo menos esse ônibus da Cometa é mió que os de lá!”

“Você é di ondi?”

“Sou de Teresina, mas tô indo mais os filho visitar a família no Recife e você?”

“Sou do interior, de Itapetim. Tou trabalhano no Rio faz dez anos e tô voltano só agora pra visitar a família.”

“Cunheço Itapetim, uma das minhas irmãs se casou e foi pra lá pra morar.”

Os restaurantes de beira de estrada foram mudando também: a comida ficou mais barata, porém bem menos saudável e a quantidade de moscas sobrevoando os pratos, os talheres e os copos baratos começou a incomodar. Os DJs das rádios passaram a soar nordestino e entre anúncios de pamonha, rapadura e do comércio local, tocavam os ritmos da terra que nossos artistas favoritos tinham estilizado.

Nossos companheiros de viagem começaram a se abrir com a gente.

“Já experimentaste rapadura? Não? Pega um pouquinho aqui. Isso com queijo coalho é mió do que caviar importado.”

“Ocês tão indo para o Recife? Para o Carnaval, né? O sinhô sabia que lá a gente não fala aipim, a gente fala macaxeira.”

Um outro acreditou na nossa curiosidade forçada e emendou: “É, e abóbora a gente chama de jerimum. É tudo diferenti!”

Outro começou a falar sobre as maravilhas da cachaça pernambucana. “O Geovina! Ainda tem daquela cachaça de alambique para o rapaz experimentar? Traz aqui pra esses minino. Vê, tome um pouquinho, num tem gosto de cana memo?”

Eles sabiam quem éramos: bons garotos da elite educada, para eles o orgulho da nação. Em vez de raiva ou inveja, mostravam por nós um respeito genuíno. Não tinha certeza se podiam enxergar a diferença entre a gente e a maioria das pessoas de nossa idade com o mesmo status social. Nós os respeitávamos e tínhamos algum interesse pelas coisas que tinham a dizer, algo bastante incomum.

Apesar do encantamento com a acolhida calorosa, para nós aquela viagem não era um exercício político-social. Nossas intenções não eram, de forma alguma, nobres. Como todos adolescentes do sexo masculino no planeta, só tínhamos um objetivo em mente: pegar garotas. Estávamos a caminho do Carnaval do Recife atrás de sexo gratuito, consentido e sem o envolvimento das mãos. Nossas expectativas eram grandes. Estávamos prontos para se dar bem usando a vantagem de vir do Rio, terra da TV Globo e de seus atores atrizes famosos, e a reputação sexy dos cariocas.

*

Quando finalmente chegamos, fomos recebidos calorosamente pela família do Davi. Sua tia morava com o marido num sobrado charmoso no bairro da Boa Vista. A casa era antiga, o chão era de azulejos e o frescor do vento fresco entrando pela janela imensa compensava a falta de ar condicionado no quarto a noite.

Quase não parávamos em casa. De dia partiamos para praia de Boa Viagem e a noite, ou ficávamos por lá ou nos aventuravamos nos pré carnavais do bairro. Neles, nossas esperanças de aspirantes a faunos foram confirmadas apenas parcialmente: as únicas garotas que nos davam qualquer tipo de bola eram as certinhas vindas de boas famílias. Só que sexo para elas era só depois do casamento. Apesar dos olhares assassinos e de até conseguirmos dar uns amassos, os avanços sempre acabavam bem antes do motivo pelo qual tínhamos viajado tão longe.

“Se acalme minino, não pode botar a mão aí não.”

“Mas você não está gostando?”

A cara dizia tudo. “Pare! Se meu irmão ali vê, ele conta pra minha mãe e ela me mata. Num era nem para eu estar aqui com você!”

“Então me dá teu telefone que a gente marca para outro dia!”

“Aff, se meu pai atender ele me deserda! Num dá!”

E elas não davam de jeito nenhum. Beijar um estranho vindo do Sul já era muita audácia. Se para conseguir ao menos isso a gente tinha que suar a camisa e ter paciência, o resto era inimaginável.

Houve uma exceção: uma loira falsa, um pouco mais velha e sem sutiã, que a gente deu uma azarada casual enquanto um bloco pré-Carnavalesco passava numa tarde na praia. Agimos como sempre: a elogiamos enquanto passava e ficamos esperando por uma reação. Ao contrário das outras que olhavam para trás ou sorrindo ou fechando a cara, mas que continuavam em seu caminho, ela parou para conversar.

Apesar de estar sozinha, aceitou vir com a gente para os fundos de uma construção e sentou entre nós dois. Sua calça jeans justa revelava um corpo magro e torneado. O seu perfume e suas unhas pintadas de vermelho, meio “aputalhadas”, nos encheram de tesão adolescente. Ela parecia estar gostando da situação. Havia muita excitação no ar, mas nem o Davi nem eu queria deixar o prêmio para o outro. Conforme a bagunça começou a esquentar ela não demonstrou qualquer preferência, só que acabou não conseguindo lidar com o ataque de quatro mãos adolescentes, se levantou e foi embora.

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