O voo solo do Ódio

Uma ira desmedida acaba em loucura; por isso, evita a ira, para conservares não apenas o domínio de ti mesmo, mas também a tua própria saúde (Sêneca)

Duas notícias aparentemente desconectadas me chamaram a atenção. Juninho Pernambucano, ex-jogador de futebol, atualmente trabalhando na França (é dirigente do clube Lyon), deu entrevista ao jornal inglês Guardian. Analisou a conjuntura brasileira e informou que, por não tolerar quem fez a opção eleitoral bolsonarista, cortou relações com boa parte da família. Não esclareceu se o voto dos parentes foi por identidade totalitária ou por reação ao petismo. Para mim, isso faz uma diferença importante. O fato, sabemos muito bem, é que a atitude do Juninho está longe de ser um caso isolado. A polarização devastou relações a granel, e não apenas familiares.

Nos Estados Unidos, uma carta-aberta acendeu intenso debate. Cento e cinquenta personalidades de várias áreas de atuação assinaram documento (A letter on justice and open debate), publicado na revista Harper’s. É gente identificada com lutas antirracistas e por liberdade de expressão, militante contra a violência policial e os desvarios trumpistas. Demonstraram preocupação com o que consideram tendências de “exigência de uniformidade ideológica, seguida de intolerância às diferenças” dentro do campo democrático. Alertam que a “inclusão democrática que desejamos só pode ser alcançada se combatermos o clima de intolerância que se espalha por todos os lados”. Não acompanho a cena intelectual americana e, por isso, não sou capaz de dimensionar as ameaças relatadas pelos signatários. Sou, entretanto, muito sensível ao comportamento rígido que muitas vezes se impõe nas ações coletivas, com graves prejuízos à lucidez e à criatividade. Nós, da esquerda que não nasceu em São Bernardo, sabemos muito bem disso.

Em sua autobiografia (Uma vida em seis tempos), Leôncio Basbaum, ex-dirigente do PCB, relata uma reunião em célula do partido décadas atrás. Discutindo tema da pauta, uma mulher usa como argumento, imbatível por supuesto, ser filha de operário. Reinava o obreirismo, idolatria da classe operária que, nas circunstâncias, esterilizava qualquer forma de razão.

Voltando ao início. Intolerância, de matiz variado, é o ponto comum entre o que disse Juninho e o que publicou a Harper’s. Minha posição a respeito de Bolsonaro é conhecida. O bolsonarismo raiz, seita de maníacos, de medíocres provocadores, não chama diálogo. Oferece a guerra permanente, único ambiente em que se reconhece. No entanto, se a proposta bélica é aceita a seco, sem diferenciar quem se alistou na urna eletrônica, correm-se muitos riscos. Deixo o político de lado por ora. Quero elaborar um outro, menos visível mas igualmente corrosivo: o de transformar a intolerância em ressentimento, sem ponderar quem é o objeto do ódio.

Ódio e ressentimento são dinâmicos, ocupam vácuos existenciais. Certa vez, Balzac disse que “o ódio é um tônico, faz viver, inspira vingança”. Pode parecer estranho, mas ambos têm valor utilitário. Vidas vazias, solitárias, tediosas, podem ser preenchidas pela construção de um inimigo imaginário. O problema é que, no confronto, quem sai ferido pode ser quem odeia. No fim do filme, quem morre é o capitão Ahab, não Moby Dick.

Conheço gente que rompeu amizades e/ou relações familiares apenas por saber que o amigo/parente votou no Bolsonaro. Sem conversar, sem ter o trabalho de argumentar, sem valorizar trajetórias de afeto que mereciam vozes desarmadas, sem constatar as razões do Outro. Quantas oportunidades foram perdidas em nome deste vale-tudo ? Por motivos de outra natureza, interrompi algumas relações familiares por muito tempo. Sei o tanto de dor que isso provoca. Consegui refazer parte delas e aprendi a valorizar as convergências, sem ignorar as veredas das nossas desconfianças e diferenças.

No conto No ha claudicado, pequena obra-prima de Mario Benedetti, dois irmãos deixam de se falar por 25 anos. Cada um deles achava que o outro tinha ficado, injustamente, com algumas joias deixadas pela mãe falecida. No final, descobrem que as joias estavam com uma prima. Não foi suficiente para restabelecer a relação. O ódio acumulado por tanto tempo, por tanto silêncio ressentido, já tinha vida própria. Mais do que isso: era imprescindível para que seguissem suas vidas. Não há final feliz nesse tipo de história.

Numa atmosfera tão carregada de adjetivos estridentes, de tantas perdas e danos por falta de palavras e ouvidos, achei que valia a pena coçar estes pensamentos. Como dizia Millôr Fernandes, o Irritante Guru do Méier: Livre pensar é só pensar.

Abraço. E coragem.

Lágrimas das depressões

Em tempos tristonhos, convém aceitar a tristeza, o desânimo, a solidão. Não conheço ser humano que não viveu suas perdas que doem como uma dor de dente. Depressão é um tempo em que tudo está mais lento, frente a uma separação, perda profissional, uma desilusão. As dores e os dissabores acompanham o ser humano ao longo de sua vida. Somos seres dependentes mesmo na imaginação de ser independente, porque em cada etapa da existência, da infância à morte, o desamparo ou a ameaça de desamparo está presente. O desamparo é um sentimento de vazio, uma sensação de fragilidade angustiante. Aliás, o desamparo está no centro da clínica psicanalítica; a arte de viver está nos destinos criativos do desamparo.

As depressões, as maiores e as menores, são intensas, extensas, onde o desânimo domina o espírito. Quem nunca caiu num poço, pode não entender os depressivos, que não vivem acelerados, ao contrário. Diminuem as capacidades de amar, trabalhar, conversar e a energia de viver se esvai, e o desânimo cresce. Diminui a energia sexual, o erotismo e aumenta a vontade de dormir. Algo semelhante ao que escrevo, vivi no meu primeiro ano de Buenos Aires, há quase cinquenta anos. Foi quando comecei o aprendizado da depressão na pele, que durou uns oito meses. Perdi o riso, fiquei sem norte, as lágrimas brotavam do nada, sentia saudades do passado. As árvores de Buenos Aires não eram as do Bom Fim, tudo era estranho no mundo portenho, e aos poucos comecei a gostar dos tangos. Na solidão dos sábados à noite escutava os lamentos de Gardel e de Julio Sosa, e assim me sentia acompanhado. Nesse tempo conheci o desamparo, o imenso buraco, um vazio de sentido, e como era difícil conviver com a solidão. Depressão é uma doença do amor, da falta de amor a si mesmo e ao mundo.
O deprimido não tem provas de amor, as que tem são insuficientes; falta a visibilidade, a fé, é difícil perder a segurança, e a vida se torna insuportável.

Nas depressões, em geral, ocorre uma insuficiência de ausência, a criança não pode ficar suficientemente só em suas brincadeiras. Haveria nos depressivos um excesso de presença – uma função materna espaçosa – e um filhinho de mamãe, que sem amparo desaba. Por outro lado, é possível pensar também que o depressivo não enfrenta o pai, fica passivo diante dele, não se rebela, permanece mais dependente da mamãe. A questão é como passar da passividade à atividade, da humilhação para uma atitude ativa da construção de um novo sentido. Construção do crescimento, do amadurecimento, uma nova estrada. Em geral os depressivos reagem bem ao tratamento, onde a transferência é essencial. A depressão tem crescido, fazendo a felicidade da indústria de antidepressivos. Entretanto lembro o provérbio zulu: “Uma pessoa é uma pessoa por meio de outras pessoas”. Vivemos em sociedade.

Já no nível social, os sonhadores andam tristonhos, quase já não cantam que outro mundo é possível. Porque, se cada um precisa construir sua vida particular, está também integrado na construção ou destruição da vida pública. Nesse sentido talvez os humanistas estejam meio perdidos, pois, entre tantos perigos virais, suportam aqui os ataques mortíferos dos poderes poderosos.

Escrever é um fermento para aumentar a coragem, e assim sustentar a imaginação do amanhã. No fim de semana, aqui, ocorrem os encontros nas esquinas do Face, que é um espaço de conversas. Um dia, sairemos de casa, voltarão as danças circulares, o abraço, mesmo se for com máscara. Aliás, está tudo invertido, pois agora a gente do bem anda com máscara e as do mal sem máscara.

E o amor voltará a mover o Sol e as outras estrelas, como escreveu Dante. Então o Sol secará as lágrimas, sua luz fará renascer o entusiasmo, e os sonhos serão recolhidos do lixo. A poesia não penetra nas rochas, ela toca a alma dos humanistas, realça as cores, excita a vida, vibra com as músicas que secam as lágrimas.

O brasileiro e seu best self

Em meados do primeiro trimestre deste ano, viu-se de forma quase aturdida as ações de desprezo por parte do presidente e seus apoiadores pela vida dos brasileiros. Ao examinar jornais e fotos daquele mês, é possível detectar as ações das pessoas que participaram das passeatas no dia 15 de março. Postadas em redes sociais e em grupos de mídia de ampla abrangência, muitos desses atualmente investigados na CPI das Fake News, prestavam apoio incondicional ao seu líder. Saudosos à ditadura e a um militarismo a la república de bananas, bem como a pauta presente à época, e ainda hoje: a aclamação (in)popular pelo fechamento do Congresso e Supremo Tribunal Federal, viram suas ações desmoronar, até certo ponto.

Com o bloqueio e a extinção de vários sites que saíram de circulação, e também pelas imposições causadas pela pandemia, além da prisão de uma representante do grupo “300”, o qual raramente contou com mais de 20 pessoas, essas ações ficaram um tanto quanto adormecidas. Com isso, parece que paira uma certa latência no ar. Estariam os bolsonaristas fazendo um espécie de download existencial? Talvez. É possível que exista relação com o contundente envolvimento em corrupção pelos filhos do presidente, ou ainda, pela própria inoperância e incompetência com que o executivo tem lidado com a administração pública, ou mesmo pelo fato de que se vive a maior pandemia do século sem um ministro da saúde. As razões são infinitas.

O grande número de apoiadores surpreende. E com tudo que têm enfrentado os brasileiros, nestes 18 meses de governo, qualquer um questionaria se há algum traço que identifique tais pessoas (latentes) como anormais. No entanto, não há! Possivelmente, se fala em sujeitos que levam uma vida como a de qualquer outro ser humano que trabalha, estuda, cuida dos filhos, vai à feira, ao supermercado. Devem ser considerados cidadãos de bem. Pergunta-se, porém, o leitor, por qual razão empenham-se em uma cruzada rumo às trevas? Sem qualquer relação direta com o Estado Democrático de Direito?

Ao contrário, é observado um certo fervor em exaltar os anos de chumbo vividos neste país, bem como as múltiplas ações arbitrárias que vão de encontro à própria democracia e às liberdades individuais. Nem nos tempos da ditadura houve tantos militares em cargos políticos. Apontar que esses apoidores são contra a corrupção é uma forma rasa e simplista de tratar o assunto, visto que todos são contra a corrupção. O que gera aqui uma questão pragmática, pois ao falar em corrupção, é preciso dizer de quem, ou como, ou ainda, quando? Fala-se até em perdoar o PT, como se houvesse algo do tipo: “eu sei o que vocês fizeram no verão passado”, mas segue-se a máxima de que não há nada tão ruim que não possa piorar. No campo da educação, a exemplo das trocas com diversos ministros, bem como seus respectivos perfis “técnicos”, essa máxima é levada a níveis consideravelmente altos.

Esses mesmos cidadãos levantam a bandeira do que consideram política e o dito “politicamente correto”, no entanto, estão há anos-luz do pensamento crítico, o qual realmente leva as pessoas a pensarem de forma política, dentro de um contexto sócio-histórico e cultural. Isso, no Brasil, virou coisa de comunista. E é facilmente evidenciado quando empregam frases de efeito e sugestões de tomada do poder pela força, utilizando-se dos símbolos nacionais, para com isso, fortalecer uma ideia suprema de governo, de povo. Estão de fato não só fazendo apologia ao pensamento obscurantista, como à própria ignorância política, característica de quem vê em formas democráticas de poder, um problema a ser vencido. A esses, se lhes fosse dado o direito de escolher, não seriam brasileiros, mas Americanos, Canadenses, Alemães.

Obviamente que esses mesmos sujeitos encontram respaldo em manifestações de caráter neofascista, distorcendo informações e conhecimento, conforme suas orientações ideológicas e até religiosas. Atualmente o que se vê é uma onda negacionista, em parte alimentada por outra esfera altamente ideológica do governo, a ala evangélica. Fica nítido que a necessidade de se fazer presente, mesmo em um momento de pandemia, coloca a figura política (do presidente) e seus apoiadores, ainda com todos os riscos à saúde pública, e infringindo a própria constituição, em uma espécie de simbiose histérica.

Lembra inclusive o líder religioso Jim Jones, que motivado por questões religiosas, e uma loucura coletiva, levou 909 pessoas a cometerem suicídio. Aqui, os apoiadores agem como suicidas, mas também como assassinos indiretos. Uma pesquisa liderada pela FGV apontou que o comportamento do presidente está ligado a pelo menos 10% das mortes decorrentes de Corona Vírus no Brasil, que hoje conta com mais de 75 mil mortos, ocupando o segundo lugar em mortalidade, atrás apenas dos EUA. Isso corresponderia a mais de 7 mil mortes diretas. A pergunta que fica é: quanto ainda o Brasil caminhará para trás e pagará com vidas, por conta de um irresponsável e seus fanáticos seguidores, que têm causado um verdadeiro genocídio em nome de uma obsessão política inoperante?

 

Ai de ti, Rio de Janeiro !

Inspirado em Rubem Braga, criador da imperatriz das crônicas (Ai de ti, Copacabana !)

Jacob e Wilhelm, dois alemães muito criativos, entenderam o forrobodó. No século XIX, contaram a minha história. Vinha eu despreocupada numa estrada de terra, quando um carroceiro me atropelou. Fui socorrida, sem maiores estragos, por um jovem camponês. Agradecida, fiz-lhe uma promessa: como sou inevitável e imprevisível para todos, disse que não o visitaria antes de enviar mensageiros. Assim, o susto se diluiria no tempo.

Anos depois, bati na porta do camponês. Apavorado, protestou. Você não disse que antes me enviaria mensageiros? É sempre assim, suspirei, nunca sou bem-vinda. Eu não lhe enviei mensageiros ?, perguntei ao pobre homem. A Febre não te jogou na cama ? A Vertigem não te desorientou ? A Dor de Dente não estremeceu tuas bases ? O Lumbago não te fez pedir socorro aos ancestrais ? Acima de tudo, meu irmão Sono não te fez lembrar de mim todas as noites ? Dito isso, transportei-o para a Noite Sem Volta. Um poeta brasileiro me chamou de Indesejada das Gentes. Ah, Jacob e Wilhelm são mais conhecidos como Irmãos Grimm.

Certo dia, envolvida na colheita eterna, ouvi alguém assobiar e cantar uma valsa. Bonitinha. Falava de uma gente feliz, de céu, mar, gente despreocupada passando pela calçada. Por fim, a declaração de amor: Rio de Janeiro, gosto de você. Fiquei desconfiada. Será que os relatórios de atividades dos meus mensageiros valem tanto quanto o currículo do Carlos Decotelli ? Os recados não foram passados ?

Ai de ti, Rio de Janeiro !

Quem pensa que nasci com o bispo chapado, não entendeu meus recados. Há um século, supervisionei a expulsão dos pobres do centro da cidade, desmontando, a golpes de jato d’água, o morro do Castelo. Enriqueci especuladores e inaugurei o êxodo que hoje se espalha pelas periferias abandonadas. Tinha know-how do processo que transformou escravos libertos em fantasmas urbanos, sem direitos, sem sombra. Será que fui muito sutil ?

Ai de ti, Rio de Janeiro !

Fui o alterego da degradação de tua natureza. Nos anos 1970, seduzi Sérgio Dourado e Gomes de Almeida Fernandes. Não me decepcionaram. De suas pranchetas saíram monstrengos de concreto e bairros estéreis. O pessoal do Pasquim, uma turma que me aplicou dribles de almanaque, sintetizou aquele período num hipotético nome de condomínio: Désir d’Argent. Hipotético, mas, cá entre nós, muito verossímil. A cidade, ferida pelo ouro de tolo, se afastou da imagem romântica da boa vizinhança, da conversa no portão da casa, do moleque soltando pipa, do campinho de pelada, do pé descalço que subia na mangueira, da favela idealizada, da bisnaga quente que o padeiro trazia na bicicleta, em enormes cestas de vime.

Ai de ti, Rio de Janeiro !

E vieram os emergentes da Barra, as gerações que não conheceram nada além do território fortificado de seus condomínios, os alçapões travestidos de moradias, os viadutos engolindo silêncios, os paredões de concreto adulterando a paisagem, a miséria centrifugada pela desigualdade estrutural. Aos poucos, sou paciente, ganhei musculatura, confirmei alianças e cumplicidades. Vivo meus anos dourados. Nesta cidade, derreteram-se noções de solidariedade, de pertencimento a uma vontade comum, de reconhecimento do Outro. Como uma doença, a população elege quem a odeia e despreza. Parece reprise do filme – um dos meus prediletos – Invasores de corpos.

Pensando bem, a valsinha assobiada precisava de uma boa revisão. Vou trocar umas ideias com o Antonio Maria. Gente feliz ? Há controvérsias. Estou perto de concluir meu trabalho. Com a colaboração valiosa do presidente da República, que afirma ser o uso de máscara contra a Covid-19 “coisa de viado”. Também conto com o esforço genocida dos que se aglomeram, sem proteção, em bares e praias, na mureta da Urca, em festas e bailes. A resistência, empacotada em gritos e sussurros, não dá nem pra saída.

Vocês foram avisados.

Ai de ti, Rio de Janeiro !

Ai de ti.

Abraço. E coragem.

Samba Perdido – Capitulo 12

Capítulo 12

“... aí eu vou misturar
Miami com Copacabana,
Chiclete eu misturo com banana
E o meu samba vai ficar assim...”

Jackson do Pandeiro – Chiclete com Banana

 

Apesar do fiasco na Escola Britânica ter quase acabado com o projeto de estudar cinema no exterior, ele continuou. A única alternativa que sobrou no Rio de Janeiro foi a Escola Americana ou a EA (pronunciada i-ei por todos que a conheciam). Inegavelmente era um melhor e mais sólida para adolescentes e ainda tinha a vantagem de que os cursos iam até a idade pré-universitária. O currículo, porém, era inteiramente voltado ao sistema americano. Quando me formasse teria que fazer faculdade nos Estados Unidos. Por todas serem privadas, isso custaria uma fortuna. Ao contrário, se fosse estudar no Reino Unido, muitas das melhores universidades eram praticamente gratuitas e melhores do que a maioria das Americanas. Ciente como nunca de que estávamos, mas não éramos, ricos, Rafael aprovou a decisão salgada. Um detalhe preocupante era que se mudasse de ideia e resolvesse permanecer no Brasil a escola não preparava para o vestibular.

O início foi desconcertante. O colégio possuía tudo o que se poderia esperar de uma High School americana: garotas e garotos ruivos e loiros falando inglês anasalado, um campo de baseball, uma equipe de futebol americano e a competição social inerente àquele tipo de instituição. Cobrindo o morro logo em frente a favela da Rocinha, a maior do mundo, era um lembrete de que aquele terreno enorme abrigando prédios futurísticos era o foco de um vírus estrangeiro.

O lado pedagógico da EA era tão avançado quanto sua arquitetura apesar das aulas serem ridiculamente fáceis. Não havia uniforme, construíamos nosso próprio currículo e estudávamos com diferentes alunos em diferentes salas de aula. Havia uma área de fumantes para os estudantes e vários professores, todos americanos e muito profissionais, tinham cabelos compridos, algo que nenhuma outra escola no Rio tinha nos anos setenta.

Numa cidade influenciada pela cultura Estado Unidense, em matéria de curtição, a escola era o Olimpo para a juventude da Zona Sul carioca. Quem havia introduzido o surfe, os biquínis e a maconha à cidade tinha estudado ou estava estudando ali. Meus colegas de turma eram filhos dos estrangeiros poderosos enviados para assegurar que a filial seguisse de perto as diretrizes da matriz na construção do “Novo Brasil”. Essa mentalidade colonial era visível na maioria dos estudantes e eu tinha que tomar cuidado para não absorver o sentimento generalisado de superioridade em relação aos brasileiros.

A maior parte dos colegas não era santa e estava vivendo junto com suas familias os melhores momentos de suas vidas. Longe de sua terra, os pais ganhando mais do que estariam ganhando em casa e onde tudo era mais barato, a rapaziada fazia todas as coisas erradas que outros da mesma idade faziam, mas com a vantagem de poder contar com a IBM, a Merck ou a Esso para intervir quando as aventuras terminavam mal. Esse tipo de impunidade era normalmente reservada apenas às famílias locais do mais alto escalão.

A elite da escola se conhecia bem por meio das festas, dos clubes e das organizações que seus pais participavam. Era fácil excluir os que não faziam parte da roda. Com o status de brasileiro, não-surfista, não-sarado e filho de um judeu idoso dono de um pequeno negócio, me barraram na hora. Os que faziam parte daquela turma tinham imaculados pedigrees americanos ou europeus, irradiavam autoconfiança, eram atléticos e pareciam arrasar em qualquer atividade física na qual se envolviam, menos no futebol. É claro que as meninas só davam bola para eles.

Aquela galera levava um estilo de vida difícil de se imaginar. Para começar, a maioria tinha barcos a sua espera na marina do Iate Clube do Rio de Janeiro. Muitos moravam em casas espaçosas, uma raridade mesmo naquele tempo. Os que moravam em apartamentos, viviam nos melhores endereços da cidade como as avenidas beira-mar de Ipanema e do Leblon, a Vieira Souto e a Delfim Moreira. Sempre que era convidado para suas festas ou para passar um tempo com algum deles, pensava comigo mesmo: “Então são essas as pessoas que moram aqui!” Aquela turma tinha acesso a coisas que eram ficção científica: videogames (algo que quase ninguém tinha na época), pranchas de surf e skates importados, discos de todas as bandas imagináveis e os melhores equipamentos de som disponíveis nos Estados Unidos. Seus fins de semana, quando não passados velejando num iate, eram passados em casas de veraneio que pareciam saídas de revistas especializadas e isso nas melhores localidades. Lá utilizavam todos os seus brinquedos.

Como se isso não bastasse, suas mesadas em dólar eram muito maiores do que o que eu recebia em um ano inteiro, que, por sua vez, era mais do que um salário mínimo. Meu pai tinha ganho bastante dinheiro extra com sua jogada na bolsa, mas comparados a essas famílias éramos pobres.

Os poucos amigos que fiz estavam numa situação parecida. No entanto trouxeram uma novidade: fumavam maconha. Depois que ficaram sabendo que tocava violão e dos meus gostos musicais não demorou muito para que me convidassem a descobrir qual era o motivo de tanto barulho.

Minhas primeiras tentativas foram decepcionantes. “Cara, cadê? Esse bagulho não era bom pra caralho? Já é o segundo e nada!”

“Calma, Rique, não bateu porque você está nervoso. Vou colocar um Pink Floyd para relaxar, Dark Side of The Moon. ”

“Tenho em casa, sei até tocar Time no violão.” Paranóico de que minha tirada de onda tinha caído mal, mudei de assunto. “Será que não bateu porque tossi demais?”

Aquilo foi a chave de ouro para a minha pagação de mico e todos caíram na gargalhada.

Rod, um cara que não ia com a minha cara, conseguiu parar de rir e falou. “Não falei que esse cara é muito louco?! Não bateu porque ele tossiu demais!!” E as gargalhadas voltaram.

Na terceira ou quarta sessão, tomando mais cuidado para não falar bobagem, fiquei na minha e de repente a ficha caiu que estava muito chapado.

“Caralho, cara, esse som tá muito bom!!”. Os caras olharam para mim esperando que eu falasse mais besteira. Levantei, olhei em volta me sentindo diferente e emendei. “Porra!!! Eu tô doidaço!!”. Dessa vez todos riram comigo.

A experiência não foi como tinha esperado, não havia unicórnios galopando pelo ar e as coisas não tomaram cores psicodélicas. A única mudança foi que a gente continuou rindo sem parar sem motivo nenhum enquanto trocavamos discos de bandas obscuras na vitrola. Sem dúvida, a onda dava uma dimensão diferente às coisas. Talvez por estar aprendendo violão, o efeito da fumaça deixava nítida as diferentes camadas da música. Eu parecia compreender o que se passava na cabeça dos músicos quando as criaram e quando as gravaram.

Enquanto a turma ficou inventando mentiras sobre ácido, heroína e maconhas mais potentes, falei que tinha que ir ao banheiro e fui curtir a novidade dando uma volta pelo apartamento. Os pais do dono da casa, Fred, tinham viajado e a casa estava vazia. Fiquei vagando no escuro pela sala de estar enorme vendo pinturas na parede, esculturas e plantas decorativas. Tudo tinha adquirido uma beleza que nunca teria notado em meu estado normal.

Quando voltei, já estavam fumando outro.

“E aí, Rique? ”

“Cara, esse negócio é muito bom! Me passa essa porra aí!” e todo mundo caiu de novo na gargalhada.

Depois daquela noite entrei numa sintonia diferente tanto na escola quanto na praia, no clube e em casa: agora pertencia a um clube secreto. Coisas e pessoas que nunca tinha entendido passaram a fazer todo sentido. Participar dessa realidade paralela era como a conquista de uma nova identidade. Na minha cabeça, meus pares em outras rodas, o Maurício, o Jaime e o Léo estavam morrendo de vontade de fazer o mesmo mas não tinham coragem.

O lado negativo foi que passei a levar uma vida dupla. Não disse nada para os meus outros amigos, muito menos para os meus pais. Os dois Riques não se misturavam, para um grupo continuei sendo o mesmo de sempre só que com sumiços e momentos estranhos, para o outro era um iniciante estabanado. Logo descobriria que a maconha era um repelente contra as garotas, mas e daí? Nunca iria conseguir nada com as beldades da Escola Americana mesmo.

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Carpintaria

Carpintaria

 

Nas férias de julho, lá pelos anos 60/70, esperávamos ansiosas pelo carpinteiro, o Sr. José Pedro, um grande contador de histórias. Papai o contratava para a fabricação de gamelas, [grandes pratos de madeira para alimentar o gado]. Durante o dia, o oficio era executado com esmero, ora ou outra a gente se aproximava para conhecer o trabalho e recolher uns pedacinhos de madeira que sobravam para serem mesas, cadeiras, camas de nossas casas de brinquedos. Nossas bonecas eram de sabugos ou de pano feitas por mamãe. Eram lindas! As bocas sempre vermelhas como o batom que ela usava. Tempos que sinto saudades…

 

Após a lida do leite, dos queijos, das louças lavadas, todos e todas banhados com o sabonete alma de flores, sentávamos na varanda da casa para ouvirmos histórias encantadas. O Sr. José Pedro não era só carpinteiro profissional de objetos de madeira, ele era carpinteiro da palavra. Nenhuma história era contada sem gestos, sem o corpo ficar em movimento. Nossos olhos brilhavam, as gargalhadas infantis ou as lágrimas encerravam as noites daqueles tempos ditosos e felizes.

 

Também tinha em seu repertório histórias de assombração. Mamãe sempre pedia que não contasse muitas para que eu não fizesse xixi na cama. Eu sempre fazia. Talvez por isso tenho uma paixão pelos contos de Edgar Allan Poe e já escrevi três novelas e nunca publiquei.

 

Fui uma criança feliz, mesmo tendo vivido a maior parte do tempo longe de meus pais, porque precisava estudar. Posso dizer-lhes que saí de casa aos seis anos e nunca mais voltei. Meus retornos eram nas férias e feriados. Mas eram tão lúdicos que parecia a eternidade. Papai sempre preparava os balançadores, as pedrinhas que encontrava nos riachos, as burras leiteiras, as galinhas de pereiro [brincadeiras da natureza]. Mamãe fazia doces, bolos, sequilhos, e uma das coisas que eu mais gostava de fazer era quando me dava a tarefa de colher ovos. Eram os tesouros a serem encontrados. Fico pensando em meu neto e netas com seus tabletes nas mãos.

 

A carpintaria exerce em mim um fascínio. Seja a arte em esculturas ou a construção de um texto. Exatamente como esmerilar. A palavra se torna sagrada quando exerce a função de historiar a vida, os mundos distantes… Hoje, quero agradecer a possibilidade, com muita humildade e dizer que o senhor José Pedro, meu pai e minha mãe foram os meus professores de sonhos e carpintaria.