Nossos mortos vivem em nós

Em tempos de milhares e milhares de mortos, cresceu a morte no imaginário. Pensar na morte, recordar os mortos, é perceber as cicatrizes no coração que podem sangrar com lágrimas. São os sofrimentos das separações, e quando o desapego é impossível, se revelam os laços eróticos com o morto, e cai à sombra da melancolia. Os queridos mortos vivem na gente, tanto na consciência como no inconsciente, através dos sonhos, sintomas e atos falhos.

O livro de Freud, “Psicopatologia da vida cotidiana”, é o livro dos diferentes atos falhos, que começa com o esquecimento de um nome próprio estrangeiro. É o caso Signorelli, pintor esquecido numa conversa sobre os costumes dos turcos quanto ao sexo e à morte. As causas do esquecimento do nome do pintor são os pensamentos reprimidos: a morte e a sexualidade. Portanto, pensar os mortos envolve conhecer os laços afetivos com ele, as identificações.

Identificação é a mais precoce manifestação de ligação de sentimentos com outra pessoa, é um processo psicológico pelo qual um bebê assimila um aspecto, uma propriedade do outro, e assim tanto se forma como se transforma. A personalidade se constitui pelas identificações com irmãos, tios, todos que são marcantes e integram as identificações de cada um.As identificações são mantidas pelos desejos inconscientes dos progenitores, que marcam cada pessoa já na escolha do seu nome próprio.

Os nossos mortos vivem em nós, às vezes, no erotismo do luto, e nas dificuldades do desapego. Os mortos costumam visitar nos sonhos, ademais a gente, ao envelhecer, fica aqui e ali mais parecido aos progenitores. A questão é como cada um constrói seu espaço próprio, mais livre do poder desejante dos pais. A pergunta “Quem sou eu?”, quem é mesmo cada um, tem a ver com as identificações, a pluralidade das pessoas psíquicas que formam a psique- alma em grego.
No livro “Sobre a morte”, do escritor Elias Canetti, ele escreve que tinha sete anos quando seu pai morreu subitamente em casa. Elias estava na rua brincando e sua mãe gritou várias vezes para ele: “Meu filho, você está brincando e seu pai está morto!”. Elias buscou saber os porquês da morte de seu pai, de quem ele tanto gostava, e para isso sempre tentou averiguar, até que, 23 anos após a morte do pai, sua mãe fez uma confissão. Ela se entusiasmou com um médico que a tratou e contou isso ao pai de Elias, que ficou abalado. O casal discutiu, e no dia seguinte ele enfartou. Canetti foi o Prêmio Nobel de literatura em 1981, e seu livro mais importante foi “Massa e poder”. Durante vinte e cinco anos buscou entender o comportamento humano diante o autoritarismo, em especial as grandes ditaduras da primeira metade do século XX.

Durante quatro décadas escreveu frases reflexivas sobre a morte que foi reunida no seu livro sobre a morte e se opôs sempre ao conceito de que o homem é um ser para a morte. Defendeu que o com ênfase que o homem é um ser contra a morte, que é preciso combater a morte. Talvez fosse uma forma de protestar pela morte precoce do pai, pois escrever sobre a morte é também escrever sobre o pai morto. Sonhou com uma solidariedade entre os vivos contra a morte Diante dos mortos se apresentam muitos caminhos, e cada um faz o que pode com seu cemitério particular. No velório do pai de Michael Jordan, que foi assassinado, o jogador chorava copiosamente e sua mãe disse a ele: “Seja grato, seja grato” e isso o acalmou.

Nossos mortos vivem em nós, e neste ano a pandemia acentuou o medo da morte, e a luta pela vida. Elias Canetti, nas suas reflexões sobre a morte, se revelou um combatente solidário com os seres vivos contra a morte. Todos os profissionais da saúde, todos os seres de bem, deveriam se opor aos governos que trabalham a favor da morte.

Xadrez

Levanto âncora. Um bocadinho. A sensação é estranha. Depois de sete meses de isolamento espartano, arrisco ir ao supermercado, a uma farmácia, caminho no calçadão da orla, lotado de kamikazes sem máscara. Inseguro, me desvio das pessoas nas ruas, mesmo daquelas que usam máscaras. É uma neura que, desconfio, vai demorar a passar. O mundo virou ameaça invisível, à espera de um espirro imprudente ou uma fresta desleixada. Coisas triviais, como ir ao barbeiro, fazer uma fezinha no bicho ou comprar um engradado de guaraná Jesus, viraram bicho-papão. Caso de vida ou morte.

No início do isolamento, virei atleta de sala-e-quarto. As caminhadas monótonas dentro do apartamento deram lugar a uma esteira, igualmente monótona. A gente anda, anda, e não sai do lugar. Deve haver aí uma metáfora inteligente ou uma conclusão genial, mas não sei qual é. A verdade é que, mesmo com esses exercícios tediosos, não consegui evitar uma pança esplêndida. Devidamente avacalhada pelos netos, que não se cansam de perguntar de onde veio esse barrigão. E dão nele uns tapinhas, confirmando que a visão grotesca não é pura imaginação. Sorrio meio sem jeito.

Já os pássaros parecem felizes. Nas árvores, celebram a vida à sua maneira. Voam, o que está sendo difícil para nós, mesmo como licença poética. Cantam neste tempo ruim, com ou sem nuvens. Agitam-se, numa liberdade que definha nos bípedes sem asas. Procuram seus pares em linguagens coloridas, comunicação interditada nos ninhos pandêmicos, cinzentos e acuados.

As emoções, para variar, flutuam. Não dá para enfrentar essa encrenca viral impávido colosso. A escritora argentina Silvina Ocampo, descoberta recente, diz que somos um compêndio de contradições, afetos, amigos, mal-entendidos. Somos mutantes e carentes, em suma. Um certo isolamento, via aberta à introspecção, é vital para qualquer um. No entanto, o impedimento do encontro, da troca, do toque, empobrece, atrofia e angustia. Acrescente-se a absoluta indefinição de quando vamos conseguir trocar a marcha e estará aí um convite à valsa Mephisto.

Em aulas à distância (ô praga !), minha neta, sete anos, aprendeu a jogar xadrez. Encantou-se com o jogo e me desafiou para partidas virtuais. A cada lance impacientava-se, e então, vovô, não vai jogar ? E eu mostrando que a gente tem que pensar antes de agir, as peças não têm vida própria, há uma coletividade em jogo. Veio o dia em que, nos visitando depois de longos meses de quarentena, ela viu tabuleiro e peças de madeira que, adolescente, ganhei do Grande. Quis levar para casa, sempre leva alguma coisa para nos fazer presentes em seu cotidiano. Pelo menos é assim que interpreto, na persistência narcísica dos analistas de botequim. Daquela vez não deu. O jogo de madeira faz parte do caleidoscópio afetivo que não pretendo liberar. Ao lado de peões e realeza, minha neta começa a aprender que frustração faz parte do jogo.

Quando comecei a aprender a jogar xadrez, ganhei dois livros sobre o jogo. Relíquias que conservo. Reproduções de partidas famosas, a arte da abertura. Adolescente, vivia uma fase de desafio à autoridade, de afirmação não sabia do quê. Nas férias de verão, Ilha do Governador, passava os dias estudando aqueles livros. Quando o Grande chegava, moído pela rotina triste, eu já tinha colocado as peças no tabuleiro e o desafiava para uma partida. Era a situação ideal. Se ganhasse, melhorava meu ranking de entrada na “adultice”. Se perdesse, confirmava a imagem heroica que pintava do Grande. Não sei quantas ganhei, quantas perdi, meu parceiro foi generoso. Ajudou a atravessar o rio tormentoso. Pena que caiu da ponte no meio da travessia.

Como não somos retilíneos, tem gente que permanece adolescente, nesta zona cinzenta, até a maturidade. Desloca conflitos semeados na insegurança dos 14, 15 anos para as relações adultas. Não costuma dar certo. Pior. Pode causar rupturas, às vezes definitivas. Faltou a eles um bom jogo de xadrez na hora certa.

Um abraço. E coragem.

Ninguém enriquece com dinheiro

Um rei chamou seu ministro para conversar sobre o chefe dos jardineiros do palácio.
– Acompanho pelas janelas o trabalho cuidadoso dele– disse o Rei –, e me impressiona sua felicidade, mesmo sendo um homem pobre.
– Certamente – disse o ministro –, ele ama a natureza, mas se sua majestade tiver uma moeda de ouro para doar a ele, veremos como reagirá.
O ministro foi ao encontro do jardineiro e disse que o Rei havia doado uma moeda de ouro pelo trabalho que fazia nos jardins do palácio há anos. O homem tímido ficou feliz, pois nunca tivera uma só moeda de ouro em suas mãos. Após alguns anos, o jardineiro seguia trabalhando bem, mas aos poucos o Rei foi notando uma mudança no seu semblante, e com o tempo uma nova metamorfose. Então, após anos, o ministro foi falar com o trabalhador e perguntou como ia sua vida.
– “Estou bem e contente agora, pois cansei de me preocupar com a moeda de ouro. Um dia contei à minha esposa sobre a moeda escondida, da qual ela não sabia, e sua reação foi achar graça da história. Seu suave sorriso me fez pensar que não precisava mais da moeda. Cansei de cuidar do ouro e hoje estou aliviado, tenho uma boa família, e um bom trabalho. Eis a moeda, obrigado”.

Quando o dinheiro passa a ser o maior objetivo da vida de uma pessoa, já está instalada uma certa loucura. Ademais, ao longo da História, o dinheiro esteve também unido à guerra na compra de armas e mercenários. O dinheiro é tão sedutor que pode diminuir a vida amorosa, como ocorreu com o Tio Patinhas que tinha uma imensa caixa forte de ouro, e se banhava nas moedas. Os avarentos se casam com o dinheiro. O conhecido economista inglês J. M. Keynes escreveu que o entusiasmo pelo dinheiro pode ser um sabotador ao revelar propensões criminosas e patológicas. Keynes parece aqui escrever sobre as milícias. O dinheiro não é o vilão, ele é necessário em sociedade, o problema, disse o sábio Mujica, é o tempo que a gente se dedica a ganhar para comprar.

O tema do dinheiro no mundo psi e na cultura em geral, tem sido quase um tema tabu. Isso que Freud escreveu sobre o dinheiro em “Sobre as transmutações das pulsões, especialmente do erotismo anal”. A essência desse escrito de 1917 é uma equação regida pelo “falo”, o significante do desejo quanto a ser ou não ser o falo e tê-lo ou não. A essência da equação entre os vários equivalentes está no falo, que é uma representação do órgão viril que foi pintada e esculpida na Antiguidade. O falo expressa o poder soberano, a virilidade, pois o mundo se constituiu na lei do mais forte e o dinheiro é um dos poderes fálicos da equação. Entretanto, é a mulher hoje que ocupa o centro da vida social, como diz a música de Zé Keti: “Dinheiro pra que dinheiro, se ela não me dá bola…”.

Passados uns cem anos do ensaio sobre as transmutações das pulsões, convém repensar os elementos da equação simbólica. Ademais a palavra transmutações expressa os movimentos das pulsões em busca dos desejos. Quem vive só para enriquecer está fadado a empobrecer seu mundo desejante. Terríveis os que enriquecem a custa das florestas, a custa da fome e miséria dos demais, pois são expressões da crueldade. São os protegidos pelas Forças Desalmadas, que desprezam o amor, estupram a Mãe Terra, idolatram o dinheiro acima de tudo e de todos.

Bem que escreveu o poeta Carlos Drummond de Andrade: “O cofre do banco contém apenas dinheiro; frustra-se quem pensar que lá encontrará riqueza”. A riqueza humana vive e sobrevive em todos os tempos e espaços, como essa que chegou pelos ventos dos Andes. No Chile as mulheres e a juventude lideram a luta pela justiça, a liberdade e a própria dignidade. As lutas pela dignidade passam por pensar que ninguém enriquece com o dinheiro, como o jardineiro da história aprendeu com sua esposa.

É pó, é pedra

A vida é feita de cacos. Quem tentar reuni-los, vai se frustrar. Assim falou Eliav, pai do consagrado coreógrafo israelense Ohad Naharin. Tinha razão. Por mais potente que seja a cola, jamais se consegue recompor o vaso original. A curiosidade científica, no entanto, vive desafiando esta lógica. Arqueólogos são curiosos profissionais, de fragmentos tentam remontar civilizações e rituais, de restos dispersos buscam as pegadas do Homem.

A nave Osiris-Rex, no espaço desde 2016, acaba de recolher amostras do asteroide Bannu, que está a mais de 320 milhões de quilômetros da Terra. Qual é a importância de raspar este pedregulho imemorial ? Acontece que ele é uma espécie de DNA viajante em busca de nada. Na certidão de nascimento consta que existe há 4,5 bilhões de anos, tão velho quanto o Sistema Solar. Em suas entranhas podem existir pistas sobre a gestação da nossa família de planetas. É atrás disso que correm os cientistas. Uma curiosidade tão compreensível quanto aquela que sempre levou o Menino a imaginar Bessarábias e Polônias, origens de uma história que jamais será totalmente contada.

Há nisso aí uma contradição. Enquanto se destrói metodicamente o planeta, extinguindo espécies vegetais e animais, permanece agudo o interesse de responder uma pergunta-chave: de onde viemos ? Não vale, claro, responder com a ironia do Carlos Heitor Cony. Não hesitava na resposta: vim do Lins de Vasconcelos e vou para a Lagoa.

A distância percorrida pela Osiris-Rex equivale a duas vezes a distância entre a Terra e o Sol e mais de 830 vezes a da Terra e a Lua. Estamos vasculhando essa imensidão para recolher algumas gramas de pó e pedra, que só devem estar de volta em 2023. Tudo nessa missão impressiona e mostra a capacidade inventiva da nossa espécie. Atingiu-se um corpo celeste lá nos cafundós com uma precisão molecular. O “beijo”, que durou seis segundos, precisou levar em conta a baixíssima gravidade do asteroide e sua rotação permanente. A margem de erro foi de um metro.

Podemos, então, bater no peito e dizer que somos os maiorais, os reis da cocada cósmica ? Bem, entre o lançamento da Osiris-Rex e seu retorno, terão morrido de fome cerca de 63 milhões de terráqueos. Outros 14 milhões, de diarreia. Somos bambas em olhar outras galáxias, insensíveis para enxergar a vizinhança. Distraídos, pisamos nos astros. E nos corpos.

Vindas de tão longe, guardo a esperança de que as amostras do Bennu, se não desvendarem os segredos da nossa origem planetária, solucionem outros mistérios igualmente transcendentes. Onde está meu time de botões, campeão invicto dos Jogos Infantis, patrocinados pelo Jornal dos Sports, em 1963 ? A escalação ainda sei de cor: Ari, Joubert, Jadir, Bolero e Jordan, Carlinhos e Gerson, Joel, Henrique, Dida e Babá. Onde estão os ossos de Dana de Teffé ? A crônica policial do Rio e, sobretudo, a memória do Cony, merecem uma resposta definitiva. Onde ficou o manual de convivência com os meus mortos ? Um bom rascunho está aqui, bem à mão, no poema Reabilitação, da polonesa Wisława Szymborska. Não basta. Se o roteiro completo estiver perdido no espaço, terei que reconstruí-lo. Quem sabe convidando os espectros para um shnaps amigo ? Pelo sim, pelo não, já vou botando a mesa e separando a garrafa.

Com paciência de monge, espero pó e pedras, emaranhados em mistérios e respostas.

Abraço. E coragem.

Samba Perdido – Capítulo 20 – Parte 02

Independentemente da consciência existencial-política, não passava de um garoto pré-universitário da Zona Sul carioca. 1980 seria um ano não só de muita curtição, mas também de contradições. A mais estranha dessas incoerências era que fazer parte do clube de músicos doidões teve um efeito positivo em meus estudos. Não tinha problemas para dormir, não tinha sequelas de stress e, apesar da loucura quase diária, meu estado de espírito era bem mais equilibrado do que o dos colegas caretas. Além disso, quando resolvia estudar, conseguia absorver as matérias.

A nível de galera, com alguns de nós mandado bem no violão e sabendo lidar com a malandragem das ruas melhor do que estudantes comuns, deixamos de ser vistos como os esquisitos da escola para nos tornarmos a galera descolada. As nossas festas eram as melhores e mesmo as garotas mais bonitas começaram a nos notar.

No meio do ano escolar mais puxado de nossas vidas, surgiu uma nova Meca: a região de Visconde de Mauá, uma coleção de pequenos vilarejos rurais aninhados na Serra da Mantiqueira entre o Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo. Quando era criança, a família costumava passar temporadas rurais por lá. Muitas das pousadas tinham sido erguidas por imigrantes do velho continente. Isso e o ar mais temperado faziam com que os arredores lembrassem a Europa Central onde Rafael havia crescido. Ele adorava desfrutar as férias lá com seus filhos de uma maneira parecida com a que passara sua própria infância. Íamos juntos para ver as vacas sendo ordenadas e outros afazeres rurais de manhã bem cedo. Sempre que encontrava uma oportunidade ele parava numa porteira para nos explicar a vida na fazenda, apontando para galinhas, vacas, porcos, perus, ovelhas e outros animais e dizendo como deveriam ser criados. 

No começo dos anos 1980, Visconde de Mauá havia mudado muito. Ainda havia famílias indo passar o verão e fins de semana prolongados nas suas pousadas, mas em geral a região tinha se tornado refúgio para os únicos hippies autênticos que ainda existiam no Brasil e talvez no mundo. Com seus cabelos longos e descuidados, suas roupas não convencionais caindo aos pedaços e estampadas com motivos indianos, desenhos de cogumelos alucinógenos e de folhas de cannabis, eram alienados para valer; totalmente fora da sociedade, loucos demais até mesmo para nós. 

Suas cabanas tinham um ar de tendas celtas, com desenhos psicodélicos, retratos de Jimi Hendrix, Janis Joplin e John Lennon espalhados nas paredes, ao lado de referências a viagens lisérgicas, letras de músicas e o sempre presente símbolo hippie. Sua intensidade evocava talvez os últimos ecos de Woodstock. Para nós, conviver com eles era como fumar a ponta de um baseado acendido por gigantes num passado neolítico.

Mauá ficava cerca de quatro horas do Rio e nos feriados chuvosos e sem praia, não havia dúvida para onde ir. As montanhas, as florestas e os rios nos faziam sentir próximos de nossos heróis do rock inglês, ou pelo menos do visual das capas de seus discos. Em uma de nossas idas, conseguimos levar algumas garotas da escola. Lidar com membros do sexo oposto na mesma frequência intelectual que a gente era uma enorme novidade. O que era ainda mais constrangedor, é que podiam estar interessadas em nós. Quando as levamos para conhecer uma cachoeira e elas ficaram de topless, nós encaramos sua iniciativa de forma madura conseguindo manter nossas bocas fechadas e sem babar.

À noite, de volta ao acampamento montado no Vale do Pavão, acendemos uma fogueira, abrimos garrafas de vinho e compartilhamos a comida enlatada. O bem-estar do banho forte e gelado na cachoeira tinha aberto nosso apetite. Apesar da comida horrível, o vinho, e principalmente o fogo, criaram uma atmosfera especial. Depois da janta, fomos até as barracas, tiramos os violões de suas capas e nos preparamos para tocar. 

“Porra Kristoff, esse baseado está todo babado, toma cuidado!”

“Meu irmão, foi você que apertou ele frouxo demais de novo, coloquei a goma para ver se ele não abria. ”

“Nunca pensei que você fumasse também Leninha, muito bem!” Depois de provavelmente ter dado uma de babaca misógeno, dei uma risada sem graça. “E aí? Está curtindo Mauá?”

“Muito legal aqui, lindo, sem sítios, rústico, adoro coisas assim.”

Uma das outras meninas, a Tetê, falou: “E então, vocês não iam fazer um concerto para a gente? Cadê?”

“Aê! Vamos levar Stairway to Heaven para elas.”

 Era uma do Led Zeppelin, fácil demais, quase apelativa, mas a gente sabia que elas iam curtir. Logo na abertura da música, a flauta transversal do Kristoff ressoou no silêncio da mata. Por ser o único som na redondeza, foi uma viagem. A música evoluiu de um estilo medieval para um rock mais pesado. Não conhecia a letra inteira, mas enrolava num inglês convincente.

“There’s a lady who knows, all that glitters is gold…”

O primeiro número foi um sucesso e dava para ver que tinham adorado. Se fôssemos espertos, teríamos parado ali ou tocado só mais uma, talvez Time do Pink Floyd. Mas não, encorajados pela receptividade, partimos para uma improvisação meio jazzística e dali a coisa desandou. Para a gente, os acordes, as levadas e os solos eram um bate-papo sofisticado e emotivo ao qual a gente já estava acostumado. Para as garotas, aquela era uma linguagem que não entendiam e que as fizeram se sentir excluídas. A ideia original era a de impressioná-las, mas o resultado não poderia ter sido mais diferente: elas ficaram olhando umas paras as outras, se perguntando o que diabos estava acontecendo.

Eu era o tipo de cara que nunca sabia quando uma garota estava dando em cima dele, mas apesar da leseira, podia perceber que havia uma tensão rolando entre a Leninha e eu. Embora fosse cara de pau com meninas que nunca tinha visto na vida, era tímido demais com as que conhecia e isso impediu uma aproximação direta naquele contexto. Contudo, tive a malícia de colocar meu saco de dormir ao lado do dela na barraca, pensando que quando ela entrasse, a seguiria imediatamente e uma coisa acabaria levando a outra. Por conta da nossa viagem musical, só a primeira parte saiu de acordo com o plano. Leninha foi para a barraca dormir antes de acabarmos. A segunda parte nunca aconteceu. Quando, horas depois, me deitei ao seu lado e tentei acordá-la, ela não respondeu e fiquei com medo de como reagiria se insistisse.

Na segunda noite, o frio tinha se tornado insuportável. Esquecemos a bobagem roqueira anglo-saxã e um dos caras foi até a Maromba – o vilarejo hippie que ficava próximo – para ver se havia algum lugar para a gente ficar, mesmo que tivéssemos que alugar. Depois de três ou quatro horas, ele voltou com boas notícias: tinha encontrado um quarto, um quarto apenas, para oito de nós e fomos para lá felizes.

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A vassoura, a mendiga e o analista

A vassoura é um objeto humilde, vive escondido, envergonhado. Desde criança vi vassouras sem fim, sejam as de palha, como as feitas por galhos, dos varredores de rua. Vassoura é o símbolo da limpeza impossível, pois o pó e a sujeira sempre voltam. Tristes os maniáticos por limpeza bem como os que vivem no meio da sujeira total. Bobagem, é claro, cada um vive como pode, sem regras de limpeza ou de sujeira. No meio de certo tédio, fiquei espantado com uma vassoura que foi a ponte entre uma mendiga e um analista. Nunca li sobre a relação entre um colega e uma moradora de rua, pois um mendigo dificilmente conhece um psicanalista. Os que vivem em pobreza extrema são obrigados a pôr todos os seus esforços em se alimentar e dormir. Um mendigo tem uma vida de sobrevivência, já um analista teve a chance de estudar e assim vive de escutar histórias. Definitivamente, vivemos em uma sociedade desequilibrada, são muitas as injustiças. Logo, os personagens dessa história são quatro: a vassoura, uma mendiga, um analista e um mundo enlouquecido.

Tudo começou quando a mendiga que caminhava na rua perguntou ao analista: “Tens uma vassoura velha para me dar?”. Ela era uma senhora com roupas que arrastavam pelo chão, com duas panelas velhas e pedaços de papelão. Primeiro foi um choque, os dois se olharam intrigados, curiosos até, e ela então se aproximou do colega e perguntou se ele tinha uma vassoura. Não haveria história se o analista se fizesse de surdo, mas, felizmente, disse sim. Quando ela havia se aproximado, ele pensou que iria lhe pedir dinheiro ou comida e já pensava em dar uma esmola.

Quando a mendiga recebeu a vassoura, foi logo varrendo seu espaço na rua, pois desejava um lugar limpo para suas panelas e roupas. Às vezes, varria toda a rua, como se fosse uma dona de casa. Um dia, ela queria pegar água no jardim e perguntou se podia, e o colega, mais uma vez, disse que sim. Então, ela falou mais ou menos assim: “A vida não é fácil! Já tive carro, trabalhei em escritório, mas é tudo bobagem… Não quero saber de mais nada. Vou levando minha vida. As pessoas correm atrás disso, depois daquilo, e depois morrem. Vou levando minha vida, moro na rua. Tudo é bobagem. Não quero saber de nada, nada é importante…”. O colega poderia silenciar, no entanto, disse: “Uma vassoura, às vezes, é importante…”. Os olhos tristonhos da mendiga sorriram. O sorriso, muitas vezes, confirma a interpretação, pois o colega, ao dizer que uma vassoura, às vezes, é importante, surpreendeu a senhora, que havia falado com tanta raiva da vida.

Como e por que a mendiga deixara seu trabalho, sua casa, seu automóvel, para viver na rua? Abandonou tudo após uma desilusão, exilou-se do seu mundo para se tornar uma mulher de rua. Que traumas a levaram à mais terrível solidão? Eis uma história que daria um livro entre a ficção e a realidade. Interessante como o fato de pedir uma vassoura revelou sua educação de cuidado com a limpeza. Um dos aspectos dessa história da mendiga é que ela não tem nome, aliás, os mendigos em geral não têm nome conhecido, são ignorados em seu nome próprio. São completamente marginais na sociedade. Todos buscam passar longe deles, poucas vezes recebem alguma atenção.

Uma simples vassoura é importante, assim como um fogão, um brinquedo, um toca-discos, marcam a vida. São mais que simples objetos, fazem parte da história de cada um. A importante vassoura foi uma ponte entre a mendiga e o analista, num diálogo espantoso. As boas conversas são inesquecíveis, são carícias na alma.