Nós, quando moleques, fanáticos por futebol, crescemos com aquela interminável questão: quem é o melhor de todos os tempos? Pelé ou Maradona? Ah, para nós brasileiros era fácil: Pelé era incomparável. E já dizia algum “filósofo do futebol”, que ele era o número um e Maradona e era o número cinco, afinal números dois, três e quatro simplesmente não havia. Que orgulho era para nós assistir aos vídeos do Rei do Futebol, do Atleta do Século. Era um deleite para os olhos observar os gols que fez e também os que não fez, na Copa de 70. Até mesmo sua parceria musical com Jair Rodrigues nos soava tão bem aos ouvidos… É, o homem tinha três corações mesmo e nós tínhamos ele em nossos.
Em minha visão ingênua e pequena de menino era simples: Pelé era um ícone, um herói, e Maradona era um vilão, um cocainômano, alcoólatra e envolvido com a máfia napolitana. E ainda por cima havia trapaceado no gol de mão de 1986!
Ok. Ainda bem que este tempo em minha existência já passou. Diferentemente de Drummond que tinha saudades dos seus oito anos e da aurora de sua vida, e de Chico que cantava a saudade ingrata dos seus 12 anos, eu fico feliz por ter crescido. Não tenho saudades alguma daquelas épocas, mas isto é outra história. O que importa aqui é dizer que hoje me sinto feliz em ser consciente e sabedor de coisas. E também sabedor de que não sei muitíssimas coisas ainda. Ah, também cabe dizer que parei de assistir futebol há muito tempo, afinal a máquina capitalista simplesmente destroçou o antes saudável esporte, transformando-o em mero “entretenimento-pop-enlatado-multibilionário”.
Mas voltemos ao propósito deste breve artigo: Maradona, que hoje sei, é o verdadeiro ícone e herói, faleceu ontem e este texto é dedicado à sua memória. É dedicado à sua incontestável posição política socialista, à sua convicção ideológica e ao seu desejo de sempre externar tudo isto. É dedicado à sua camiseta de Che, à sua tatuagem de Fidel, à sua camisa da Seleção com o nome de Lula. E é também – por que não – uma celebração ao seu “gol roubado”, que gerou a melhor resposta da história dos esportes, quando o argentino foi perguntado se assumia que o tento foi feito com a mão. Sim, hermano de Lanús, foi mesmo com la mano de Dios.
Já Pelé, fui compreender depois, era a pessoa que aceitou com “imensa satisfação a honrosa missão de representar o ilustre governo” ditatorial brasileiro em 1970. Tais palavras estão contidas em uma carta do atleta ao militar Emílio Médici, ao qual ele se dirige como “muito digno Presidente” (história publicada em 2014 pelo jornalista Lúcio Castro no portal da ESPN Brasil).
Pelé era também a pessoa que não reconheceu sua falecida filha legítima, a vereadora Sandra Regina Machado. Como se justifica algo assim?…
Compreendi também que aquela fala aos prantos após seu milésimo gol no Maracanã, “Vamos proteger as criancinhas necessitadas”, era só demagogia mesmo. O tempo provou. Este sempre foi o caminho de Pelé: pensar somente nele mesmo e se alinhar àqueles que detêm o poder. Desde 1970, quando a famosa a foto erguendo a Jules Rimet ao lado de Médici foi tirada, só poderíamos esperar dele isso que vemos em 2020: o cidadão sujando a camisa do Santos Futebol Clube com o mais nefasto nome da história da política brasileira. Simplesmente asqueroso e vergonhoso, da mesma forma que provou ser o patético Neymar e tantos outros neymares que existem por aí.
Maradona, ao contrário, ao invés de falar à imprensa mainstream sobre “as criancinhas”, decidiu falar diretamente ao Papa João Paulo II, lembram-se? E que “enquadrada”, hein? Ele próprio depois explicou a discussão:
“Discuti com ele porque estava no Vaticano e vi todos aqueles tetos dourados e depois ouvi o Papa dizer que a Igreja estava preocupada com o bem-estar das crianças pobres. Venda seu teto, amigo, faça alguma coisa!”
Por fim, cabe ainda lembrar que Maradona se pronunciava sobre a causa do povo palestino, sobre o conflito das Malvinas e era muito consciente sobre as questões políticas em seu próprio país e na América Latina como um todo.
Infelizmente Maradona sofreu sempre com problemas de drogas e de alcoolismo e certamente isso contribuiu para que partisse muito antes da hora certa. Termino este breve tributo ao maior personagem da história do futebol com as palavras de quem dispensa apresentações, Presidente Lula:
“O Maradona, além de ser um grande futebolista, era um grande político. Falava de política, de soberania, de América Latina, em defesa dos pobres, em defesa da vida. O Maradona tinha palpite para quase todas as coisas que aconteciam no mundo que prejudicavam o povo trabalhador e o povo humilde. E quero dizer ao povo argentino: poucas vezes vi um jogador de bola parar de jogar e não parar. Porque Maradona parou, mas continuou jogando. Continuou jogando em pensamento, em suas opiniões políticas, em suas críticas, e continuou jogando para o povo pobre do mundo inteiro.”
Valeu, Pibe de Oro! Realmente você e Pelé são mesmo incomparáveis. Saudações da Resistência daqui da Terra aí ao Céu.
O País vive uma pandemia e passa pelo pior momento de sua história, sofrendo devastações de toda ordem. É traumático ter que se enfrentar com um Brasil vulnerável, sem direção, com um governo que ataca às ciências, as artes, a natureza, a saúde, a educação e ainda despreza mais de 165 mil famílias enlutadas. Parte do choque decorre do espanto de como pode estar acontecendo tantas maldades no país cantado como o da cordialidade, do samba e do futebol, das praias e das florestas. São as narrativas históricas dos brancos que transformaram a crueldade da escravidão na liberdade que a boa Princesa Isabel fez ao assinar a Lei Áurea em 1888.
Muito já se repetiu de que somos um povo sem memória, mas essa abolição da memória foi construída. Desde o início da nossa História não houve interesse em registrar a violência que ocorreu aqui, pelo contrário. Uma das provas é que no dia 14 de dezembro de 1890, Ruy Barbosa, ministro da Fazenda, assinou um despacho para destruir milhares de arquivos da escravidão. Eles continham as origens dos escravos, identidades, preços e destinos. As justificativas da decisão foram porque a escravidão era uma instituição funesta, e a destruição dos documentos era pela honra à pátria. Em nome da honra dos que comandavam a Pátria, se impunha destruir como os negros eram mercadorias e o quanto foram maltratados. Para salvar a honra de poucos se aboliu a memória de todos. Essa política de destruir os vestígios dos crimes se seguiu no século XX e agora, com torturas e desaparecimento de mortos e a indiferença do país como se fosse tudo normal.
As memórias não são apenas sobre o passado, algo que passou e sobre as quais a gente conversa. As memórias são plurais, seguem tendo efeito hoje, bem como amanhã. Quem não sabe o que ocorreu consigo no passado, ou quem sabe só os fatos, termina não se apropriando de sua história, sabe pouco das origens, até do seu nome próprio. Já a memória social, que integra a individual, é um fator importante na construção da História.
No final do século XIX, quando se queimavam as memórias sobre a escravidão no Brasil, emergia um interesse pela memória de restos, resíduos esquecidos na Europa. O historiador Carlo Ginzburg escreveu que aumentaram os estudos sobre as memórias na arte, na psicanálise, nas histórias de detetive. Em termos de reflexão sobre a memória, ocorreu uma nova valorização das imagens psíquicas, mesmo as mais “absurdas”, que eram negligenciadas. Exemplos foram as obras de Proust, Freud e Walter Benjamin, que buscaram criar novas pontes entre o ontem, o hoje e o amanhã.
Freud gostava de ter em seu consultório peças arqueológicas para despertar em seus pacientes a curiosidade sobre o passado infantil recalcado. Uma de suas frases famosas foi: “Wo Es war, soll Ich werden” – “Onde o Isso era, o Eu deve advir”. Ou seja: uma análise deve permitir que o paciente desenvolva um trabalho de investigação sobre si, abrindo brechas nas certezas imaginárias. Aprender a perguntar a si mesmo e desejar novas respostas, abrindo assim os caminhos para pensar suas convicções. Abolir a memória a nível pessoal é recalcar para o inconsciente o indesejado, o sofrido, o traumático. Abolir a memória social é construir uma narrativa mentirosa dos que comandam o País, como se eles fossem os verdadeiros patriotas.
A luta contra a abolição da memória brasileira levou os negros a recordar o dia 20 de novembro como o Dia Nacional da Consciência Negra. Nesse dia no ano de 1695 foi assassinado o Zumbi dos Palmares que lutou pela liberdade, contra a escravidão. A luta antirracista é uma luta de todos, pela honra de todos. Para entender o violento país de hoje, é preciso conhecer a História de ontem, para construir o amanhã.
P.S. Ontem foi assassinado, na véspera da Consciência Negra, João Alberto Silveira Freitas, negro, num Supermercado de Porto Alegre. João foi barbaramente golpeado sem dó nem piedade como rev
Tenho comigo as lembranças do que eu era (Milton Nascimento)
Há uns dois anos, pouco mais talvez, a seção Memorabília da Folha de São Paulo publicou lembranças da Regina Casé. Com seu jeitão escrachado, lembrou a ligação afetivo-confortável com a poltrona mole, obra-prima do arquiteto Sérgio Rodrigues. A casa não podia ser imaginada sem aquele esqueleto de tauari forrado de couro e preguiça. Engraçado que ela foi pensar na poltrona a partir de férias remotas em Caruaru. Reinações da memória. “Minha memorabília é minha mobília”.
Meu móvel entrava pelo ouvido. Nasceu de uma carência. Melhor seria dizer combinação de carências. Um vizinho era vendedor da Anderson Clayton. Chegava ao mercado a margarina Claybom, que prometia nos salvar da alma de pedra das manteigas. Quem não esfacelou uma fatia de pão tentando lambuzá-la com manteiga recém-tirada da geladeira? Margarina, coquetel químico, não tinha esse problema. Pois o tal vizinho foi demitido. Na vila de baixa classe média, isso era a antessala do desastre. O que fazer?
Um dos remédios foi vender a rádio vitrola. Evolução do gramofone, era um móvel que não existia na casa do Menino. Casa seminua destas modernidades. O Grande topou o negócio, e pouco depois a caixa de madeira branca desembarcava na sala austera. Trazia leveza e promessa de música. Uma novidade !
No início, os sons pareciam se estender para além da eternidade. Quem já viu os olhos de uma criança ao ganhar um presente muito desejado sabe do que estou falando. Verdade que os botões do rádio tinham conhecido dias melhores, bom contato não era sua especialidade. A vitrola dava para o gasto, mecânica imutável de braço e prato, mas os alto-falantes … Imaginem o violino do Itzhak Perlman, Stradivarius que viaja em poltrona exclusiva nos aviões, com cordas legítimas compradas no Camelódromo da rua Uruguaiana. Na minha mão é só dez real ! Qualquer concerto para violino parecia aula do Bolinha.
Foi assim que comecei a educar meus ouvidos. Cheguei a pensar num adendo à Declaração Universal dos Direitos Humanos: “Todo homem terá direito a um som limpo”. Bem ou mal foi na frente da caixa branca que vi os Grandes darem boas e raras gargalhadas. Um LP com a dupla de humoristas Dzigan e Schumacher produzia a mágica. Falavam em ídish, idioma que os Grandes não dominavam. Filhos de imigrantes, mas nascidos no Rio, foram educados em português. Mas a alma ancestral e rudimentos da então língua universal dos judeus eram suficientes para compreender os sketches. Um deles lembro até hoje. Um bombeiro conserta o chuveiro e, na hora de cobrar, enlouquece o cliente dizendo que ele poderia pagar quanto quisesse pelo conserto. Vifl ir fashtai. Tinha colocado dois novos shpecalingumalech (vai saber o que era isso !). A entonação, a melodia das palavras, tudo desaguava em riso. E o cinza da vida esmaecia por breves minutos.
Há 4.500 anos, era costume da realeza egípcia colocar na tumba de seus mortos um conjunto de bens que seriam usados no além-vida. Bebida e comida, por exemplo. Dependendo da riqueza do morto, colocavam até mesas prontas. Não consta que minha rádio vitrola, mumificada antes mesmo de chegar na casa do Menino, tenha sido encontrada em alguma pirâmide. Azar dos faraós. Não tiveram o privilégio de ouvir a guitarra de Hendrix num timbre inusitado.
Hoje, trato de combinar música sem estáticas ou alto-falantes rachados com a batalha diária pelas palavras. Fazem bom dueto. Agora mesmo, enquanto ouço o concerto para piano de Schumann (um dos meus prediletos), lembro Drummond: Palavra, palavra/(digo exasperado)/se me desafias/aceito o combate.
O destino daquelas férias era a encantadora capital da Bahia, Salvador. Não dava para ir de Blues Boy, a viagem de 1.200 quilômetros seria puxada demais para um fusca antigo além de muito mais cara do que a passagem de ônibus. Também, dirigir aquela distância em uma pista simples seria um desafio grande demais para minha recém adquirida habilidade automobilística. A opção que sobrou foi encarar 30 horas de ônibus, e foi assim que fui conhecer a cidade pela qual tinha me apaixonado nos livros de Jorge Amado e na música dos Novos Baianos.
Meu companheiro de viagem dessa vez foi o Maurício, aquele do joelho machucado na Casa Rosa. Ele tinha virado ainda mais careta que o Davi e sequer era chegado em correr atrás de mulher. O negócio dele era se provar em assuntos chatos: contas, problemas de matemática e física e outras questões teóricas.
Talvez devido a esses atributos, o cara tinha uma tendência à histeria quando ficava nervoso, o que era frequente. Seu corpo franzino não era propício a tais arroubos, já que não garantiria sua integridade fisica caso alguém reagisse com a mesma intensidade da gritaria. A sua sorte era que esses episódios pegavam os incautos de surpresa que ficavam se perguntando que porra era aquela. Os conhecidos já sabiam que não era para levar a sério.
Na segunda parada do ônibus, não deu outra, o caixa se equivocou no troco do sanduíche e isso causou um surto.
“O troco é dois e setenta, e não dois e vinte!!” o Maurício já estava com a cara toda contorcida.
“Ih, é mesmo seu moço! Deixa eu pegar os outros cinquenta centavos aqui.”
“Está querendo me roubar, né seu marginal!? Isso é inaceitável!!” Os gritos já chamando a atenção de todo mundo.
“Desculpa, doutor! Os cinquenta centavos estão aqui.” Disse o cara já arrependido de ter acordado naquele dia.
Isso, por alguma razão, fez o Maurício ficar com ainda mais raiva. “Desculpa o caralho, seu ladrão safado!! não tem desculpa! Cadê o gerente desse estabelecimento!! Gerente!!! Gerente!!” No canto do olho espiei um sujeito com pinta de gerente colocar a cabeça para fora da porta da cozinha e, depois de ver a encrenca, voltar para dentro.
“Cadê o gerente!? Não tem gerente nessa porcaria!!?? Eu quero a polícia aqui para prender esse ladrão agora.”
A essa altura, a parada do ônibus inteira estava presenciando o mico, chocada. Ainda que não desse para se acostumar, já conhecia esse lado do meu amigo e tive que ir lá para acalmar a situação.
“Aê Maurício, o ônibus já tá saindo, o motorista tá esperando. Deixa isso para lá, vamos embora!”
“Eu não saio daqui antes de prenderem esse marginal!!” O tom ainda não tinha baixado.
“Maurício, são cinquenta centavos, o cara já admitiu que estava errado e te ofereceu o troco certo.”
“Mas ele é um marginal! Tem que ir preso!” O tom dessa vez baixou e aquela foi só para mim, embora todos também tivessem ouvido.
“É, mas até acharem o gerente, chamarem a polícia, você prestar depoimento e tudo mais, o ônibus já vai ter partido e a gente não vai ter como chegar a Salvador. Você já mandou o teu recado. Duvido que o cara faça isso de novo.”
Essa finalmente o sossegou, mas antes de sair vieram os argumentos conclusivos. “É por isso que este país não vai para frente! Um vagabundo desses tenta me roubar e fica todo mundo do lado dele!!”
O Maurício era um cara bem-intencionado, mas era difícil. Nossos país eram amigos, nossas irmãs eram amigas, ele também era sócio do Paissandu e vivíamos jogando bola juntos até depois que tinha me juntado à “esquadrilha da fumaça”. Havia um fio de lealdade inquebrável depois de anos de amizade. Entretanto, só esperava que aquele constrangimento não fosse o presságio de umas férias pesadelo.
*
Chegamos a Salvador esperando um dos melhores – senão o melhor – carnaval no mundo. De minha parte, estava doido para ver o trio elétrico. Ainda nos seus dias de glória, esse era um gênero musical que, de acordo com os baianos, foi o pioneiro mundial no uso da guitarra elétrica. Nos anos 1940, dois músicos, Dodô e Osmar, descobriram que colocar cera de baleia ao redor dos captadores permitia que amplificassem cordas de aço num braço de bandolim sem causar microfonia. Foi assim que criaram o “pau elétrico” e quando viram que o som caía bem com frevo, foram para o carnaval de rua e o estilo virou febre. Já no fim dos anos 1960, com a chegada do rock, os trios adicionaram mais instrumentos e percussão para dar mais peso às suas performances, os instrumentos melhoraram, as influências mudaram e o som se tornou mais afiado.
Durante o carnaval, caminhões apinhados de aparelhagem de som e de alto-falantes percorriam as ruas de paralelepípedos da parte histórica da cidade com os músicos se equilibrando para não cair enquanto tocavam. As milhares de pessoas acompanhando essas fortalezas musicais se lançavam num frenesi semelhante ao de uma procissão hindu misturada com um show de punk rock.
Contrabalançando a loucura amplificada dos trios, havia blocos rústicos que desfilavam a pé. Tocavam o ritmo afro-brasileiro mais suave do afoxé. Contando apenas com seus tambores e vozes para contagiar a multidão, faziam com que ela respondesse de uma maneira mais calma, mas com a mesma intensidade aos cantos que faziam linha direta com o continente Africano. Dentre eles estavam os Filhos de Gandhi, um grupo originado de trabalhadores da estiva. Eles saiam de túnicas brancas e nos seus desfiles paravam para fazer passos ensaiados, puxavam refrões familiares ao povo – muitos do Candomblé – e passavam sua mensagem de paz baseada nos ensinamentos e na filosofia de Mahatma Gandhi.
O palco para essa folia especial eram os sobrados e as calçadas de uma das primeiras metrópoles do continente americano, a primeira capital do Brasil. Os blocos percorriam suas ruas num caminho em forma de um oito. Na junção central, onde as duas voltas se encontravam, ficava a Praça Castro Alves, o epicentro do Carnaval. Nosso hotel ficava logo depois da esquina. As bandas paravam lá para permitir que a multidão engrossasse e então tocavam seus maiores sucessos. Era comum duas bandas vindas de direções opostas chegarem na praça juntas. Esse fenômeno era chamado de encontro dos trios. Quando isso acontecia, as bandas se intercalavam e competiam pelo apreço da multidão enlouquecida. Quem saía ganhando eram as dezenas, às vezes centenas, de milhares de foliões pulando na praça.
Por uma sorte incrível, estava lá no encontro entre a realeza do carnaval de Salvador – os Novos Baianos de um lado e o Trio Elétrico de Dodô e Osmar do outro. O primeiro, a minha banda preferida de todos os tempos e o segundo, os criadores do trio elétrico que contavam com o melhor guitarrista do gênero, Armandinho Macedo, filho de Osmar. Depois de se instalarem nas extremidades da Praça Castro Alves, os dois trios deram uma pequena pausa enquanto os músicos e a multidão se preparavam para o que eles sabiam ser um dos pontos altos do Carnaval daquele ano.
Quem pegou primeiro no microfone foi Paulinho Boca de Cantor, vocalista dos Novos Baianos, que saudou a massa.
“Boa tarde, Salvador!”
Não teve uma alma na praça que não tenha ido à loucura.
“Como é bom estar aqui nessa praça, na nossa terra e tocando para a nossa gente. Viva Salvador e viva o Carnaval da Bahia!” Novamente a massa foi ao delírio.
” Queria aproveitar para mandar um abraço para o Moraes, o nosso irmão Moraes Moreira, que está do outro lado da praça com o trio de Dodô e Osmar.” Moraes tinha saído dos Novos Baianos e no Carnaval ele cantava com o trio “rival”. “Fala Moraes!! Fala Armandinho, Dodô e Osmar! A Bahia saúda vocês!!”
Quando a gritaria baixou, o Moraes respondeu: “Fala meu querido Paulinho! Um abraço e muito carinho para meus irmãos dos Novos Baianos!” Depois, ele se voltou para a multidão. “Fala Salvador! Fala Bahia!! Muito amor e muita paz para todos vocês!”
Com noção de timing, Moraes continuou. “Há cinquenta anos atrás, Osmar aqui do meu lado e Dodô começaram o trio elétrico e fizeram do Carnaval da Bahia o melhor do mundo. Esta música e uma homenagem a eles. Viva Dodô e Osmar!”
Ele olhou para a banda, deu o sinal e a guitarra baiana do Armandinho rasgou o ar da praça. Depois do solo curto, mas espetacular, o resto da banda veio atrás.
Dodô! Dodô!
Antes do gringo a guitarra ele inventou,
Osmar! Osmar!
O Carnaval veio o trio eletrizar.
Viva Dodô e Osmar!
Com a música veio o deleite, era como se a energia do Carnaval estivesse jorrando do céu e se espalhando pela praça. Depois da primeira música, os Novos Baianos retrucaram com uma marcha de Carnaval do Caetano Veloso.
A praça Castro Alves é do povo,
Como o céu é do avião,
Um frevo novo, eu peço um frevo novo,
Todo mundo na praça
E muita gente sem graça no salão…
Em toda e qualquer música a galera reunida parecia estar celebrando uma vitória incessante de Copa do Mundo. A energia irresistível parecia fazer a multidão se fundir num ente único.
*
Eu ia sozinho. O Maurício se recusava a se misturar com o povão, ele odiava multidões e gente esbarrando nele. Eu não queria perder aquela energia por nada nesse mundo. Assim, enquanto mergulhava a fundo no Carnaval de rua que não parava durante os quatro dias de festa, ele ia para bailes de Carnaval em clubes que eram uma escolha mais sensata, mas completamente sem graça.
Estava ciente do que poderia acontecer se deixássemos nossas diferenças crescerem mais do que já estavam. Já tinha quase perdido a amizade do Davi e não queria repetir isso com o Maurício. A única coisa que a gente fazia junto era comer e sair de dia para descobrir as praias de Salvador. Por isso, na última noite de Carnaval, concordei em fazer alguma coisa juntos. Decidimos entrar de penetra no baile mais exclusivo de Salvador, o do requintado Clube Baiano de Tênis. Este era um clube frequentado pela elite da cidade onde poucas pessoas realmente jogavam tênis, mas onde muita gente gostava de ter seu home associado a um esporte britânico considerado chique.
A segurança na porta estava pesada, mas os muros que cercavam o clube eram baixos e fáceis de pular. Não tardou muito para nos juntarmos a alguns passantes que haviam tido a mesma ideia que a gente. O Maurício foi um dos primeiros a pular o muro – e um dos poucos a obter sucesso. Antes da minha vez, a polícia chegou correndo e a gente teve que se dispersar. Eu e alguns dos meus camaradas de fuga achamos uma outra parte mais afastada do muro, discreta e igualmente fácil. Pulamos e caímos no meio das quadras de tênis. Assim que pusemos os pés no chão, enormes cães vieram correndo em nossa direção. Sem pensar duas vezes, subimos o muro de volta com uma rapidez de desenho animado. Depois disso desisti. Voltei ao hotel tão desanimado que nem tive vontade de me juntar a folia pegando fogo a meia quadra de distância. O Carnaval de Salvador tinha terminado para mim.
O Maurício voltou de madrugada. Como era de se esperar, não tinha comido ninguém. Esse também tinha sido o meu caso em Salvador, mas pelo menos tinha vivenciado um dos melhores encontros de trios da história.
Ele estava só diante do espelho e segurou uma lágrima. Saiu logo para jogar golfe e, após algumas horas, voltou e viu um cartaz: “Você perde e todos nós ganhamos”. Uma jornalista escreveu que o viu entrar na Casa Branca, pela porta lateral, fazendo um sinal de positivo, mas sua arrogância tinha diminuído, seus ombros estavam caídos, seu abatimento a mostra. Lembrou à história do “Outono do Patriarca”, do Gabriel García Márquez. O protagonista do romance era um ditador com superstições, medos, onde o mal e o bem conviviam. Evidente que Trump não é um ditador, foi eleito e agora recebeu setenta milhões de votos. Entretanto, ataca a democracia que o elegeu e aí gostou, mas agora ataca as eleições em que foi derrotado.
Atualmente, as democracias estão ameaçadas desde dentro, ou seja, os riscos já não são tanto dos golpes, mas dos inimigos internos. O presidente derrotado hoje dificulta a transição, acusa sem provas, vive seu declínio magoado com a vida.
Trump está certo ao se sentir roubado, pois na sua imaginação ele ambicionava ser invencível, e seu delírio de nunca perder não se confirmou. O presidente que se imaginou rei está sem saber ao certo o que fazer. Entretanto, não está só, outro presidente, que também pensa ser rei, um reizinho para ser exato, segue ao seu lado e prometeu ser leal ao rei. Aliás, mais leal até que ao seu próprio país. Pobres presidentes que se acham reis, pobres povos que elegem pessoas cruéis. Talvez o psicanalista Jacques Lacan definisse esses reis como canalhas, pessoas sem empatia, mentirosos, perigosos espertalhões.
As massas, às vezes, amam líderes como se fossem representantes do Todo-poderoso na Terra. É preciso recordar os grandes ditadores da primeira metade do século XX, e os pequenos ditadores militares na América Latina da segunda metade do século XX. Todos, grandes e pequenos, se diziam salvadores da pátria, prometeram o paraíso e seus povos conheceram os infernos. Viveram de mentiras ditas com esperteza, apoiadas pelos donos do Poder. A Psicanálise, aos poucos, implica-se em estudos sobre a questão do Poder, essencial na vida em sociedade, essencial na vida de cada um.
As civilizações estão sempre ameaçadas, pois os comportamentos civilizados, os padrões de respeito aos costumes e a cultura são atacados. As pulsões destrutivas vivem à espreita para atacar sem dó nem piedade. Portanto, a pacificação de uma sociedade sempre corre perigo, como ocorreu nas guerras mundiais. Ditadores e presidentes enlouquecidos apoiados por massas sedentas de segurança, ameaçadas pelo medo da liberdade. Elas optam pela servidão voluntária diante do desamparo e se entregam a uma certeza ilusória.
As civilizações vivem as tensões entre a violência das arminhas, o desprezo pela vida e a pacificação criativa. Esse é o tema central do livro “Os alemães: a luta pelo poder e a evolução do ‘habitus’ nos séculos XIX e XX”, de Norbert Elias. No subtítulo aparece a palavra “habitus”, que é uma sociedade de indivíduos na qual os indivíduos se diferenciam uns dos outros, mas compartilham uma língua, uma história, rituais, tradições, costumes, religiões. O ‘habitus’ é um espaço de interações onde as identidades são tanto pessoais como sociais. Elias estuda como o habitus alemão gerou o nazismo. Diante do choque que se vive hoje aqui, estudar o habitus brasileiro é essencial, pois a gente esquece as marcas da escravidão dos negros por três séculos e meio. O racismo estrutural integra nosso habitus hoje, junto ao ódio aos pobres como expressões da crueldade. Frente a essa realidade, é preciso defender o que é certo: a vida, a justiça social, e ser contra o racismo.
Nenhuma dor envelhece (Osmair Camargo Cândido, o Fininho, sepultador do Cemitério da Penha, em São Paulo)
Não sei vocês, mas as cenas que mais me comovem nesta pandemia são as imagens de pessoas que enterram seus mortos sem fazer a despedida convencional. Os ritos da separação definitiva ficam incompletos, as aglomerações são perigosas.
Não adianta racionalizar o sentimento de incompletude. O que prevalece é uma sensação de que algo muito sério foi interrompido, um nó nos gragomilhos que não desata. Descrição impressionante foi publicada pela Folha de S. Paulo, na cobertura do último Dia de Finados. Fininho, o sepultador, fala sobre o desespero das famílias, proibidas de se aproximar dos enterros: “Dias marcados pela dor e pelos gritos que chegavam antes dos caixões e se enfileiravam como carros em estacionamento. Apanhávamos os corpos, ainda na calçada, e de longe víamos as pessoas em total desespero gritando contra a morte (…) Seguíamos com o caixão sem flores, sem preces, sem acompanhantes. Mas os gritos permaneciam do lado de fora”.
Lendo essa descrição, me transportei para outras despedidas que não se consumaram. O ramo materno da minha família veio da Polônia, pequenas cidades, planos de vida limitados. Tocado por uma grave crise econômica nos anos 20, meu avô seguiu para Buenos Aires. Lá, trabalhou como clientelchik (comerciante ambulante), com autorização da prefeitura buenairina. A partir daí, alguns mistérios. Conta a saga familiar que voltou à Polônia para se casar com minha avó. Deu meia volta e, por motivos não esclarecidos, emigrou, já casado, para o Rio. Por que não Buenos Aires, onde tinha amigos e atividade legalizada ? Contei essa história para um amigo, que me sugeriu um enredo improvável, embora apetitoso. Numa milonga, Abraham teria se engraçado por uma dançarina de tango e a engravidado. Não podia retornar à Argentina, sob pena de levar uma navalhada de um parente da tangueira.
Pois bem, quem não saiu da Polônia acabou trucidado pelos nazistas. Pelo que sei, não foram poucos. Jamais conversaram comigo sobre o assunto. Como souberam do destino trágico de seus parentes ? De que forma reagiram ? O que sentiam com perdas tão dolorosas, sem corpos a velar, com a ausência inapagável de tantos familiares ? Há uma espécie de pacto de silêncio entre os que passaram por experiências tão traumáticas. É como se evitassem voltar no tempo e reviver tristezas tamanhas. Meu sogro, também polonês, com parentes exterminados na guerra, visitou Auschwitz nos anos 80. Na frente do campo de extermínio, abaixou a cabeça e chorou. Minha sogra disse que foi a primeira vez que o viu chorando. Diz um ditado ídish (reproduzo de cabeça): Trern zainen di zaif far di neshume. As lágrimas são detergente para a alma.
A cineasta Lúcia Murat, presa política durante a ditadura, foi torturada e viu companheiros de luta morrerem nas mãos de sádicos. Esses que um figurão da República hoje chama de “humanistas”. Ela diz sentir culpa por estar viva e que esse é um sentimento generalizado. A pergunta “por que sobrevivi e ele não ?” é angustiante. Quanta dor sufocada. Quanto grito parado no ar. Quanto vazio por despedidas que não aconteceram.
Na minha pré-história, botei mochila nas costas e viajei para o interior da Bahia, até Juazeiro, fronteira com Pernambuco. Estava em Bonfim, na Bahia, na pequena estação ferroviária. Havia um movimento febril, que não compreendi. Uma pessoa me informou que eram retirantes, fugindo da seca. Olhei para aquelas caras tristes, franzidas, maltratadas. Não estavam apenas esperando o trem. Tocados pela miséria, estavam se despedindo, muitos sem volta, de suas raízes, de muitas memórias afetivas, dos sons que deram forma à sua sensibilidade. Como nos versos de Patativa do Assaré: Se arguma notícia das bandas do Norte/Tem ele por sorte/O gosto de uvi,/Lhe bate no peito sodade de móio,/E as águas dos óio/Começa a caí.