Em cima da queda, coice

Em cima da queda, coice

A casa não difere das outras da zona rural de Teresina. Paredes de barro, chão de terra batida, sala, quarto e pequena cozinha. Dentro do espaço apertado, vivem sete pessoas. O casal e seus quatro filhos dormem todos no único quarto, espalhando-se como podem em camas, redes e colchão no chão.

Alguém mais atento vai dizer: peraí, tem uma conta errada. Casal, quatro filhos, tudo junto dá meia dúzia, não sete. Verdade, esqueci de acrescentar o bebê de nove meses, que dorme aninhado nos pequenos braços de sua mãe, menina de 11 anos. Ela foi estuprada por um primo quando tinha 10 anos, em matagal próximo à casa. Quando soube da gravidez, a mãe a levou ao médico, que desaconselhou o aborto, alegando que havia perigo de morte para a menina e o bebê.

A jovem mãe abandonou a escola, tornou-se quieta, reclusa, nervosa e agressiva. Recusa-se a conversar com psicólogos. Sequelas comuns aos menores que sofrem abuso sexual no Brasil. Entre 2017 e 2020, mais de 179 mil crianças e adolescentes foram vítimas de estupro. Quase um estupro a cada dez minutos. Na grande maioria dos casos, ele acontece dentro de casa e os violadores são pai, padrasto, tio, avô, irmão. As vítimas, traumatizadas e carregando danos psíquicos severos, têm suas infâncias sequestradas.

Vi a foto de perfil da menina piauiense na primeira página da Folha de S. Paulo. Com seu bebê no colo, à maneira com que devia fazer com as bonecas. Tive um misto de revolta e dor. Fora do meio acadêmico e dos nichos feministas, não existe um debate sério no Brasil sobre o aborto. O espaço público está dominado por fanáticos fundamentalistas, que interditam o diálogo mais do que necessário. Já tivemos uma ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos que fez o que pôde para evitar que uma criança de 10 anos, no Espírito Santo, grávida por estupro, interrompesse a gravidez. Mulher dada a delírios místicos sobre árvores frutíferas, acompanhou impassível as manifestações de odor medieval que pressionaram a menina a persistir na gravidez. Antes de assumir o cargo, afirmou que “especialistas” holandeses recomendavam que meninos devem ser masturbados a partir de 7 meses de idade. Esse é o nível asqueroso em que vivemos, combinando religião com ignorância, preconceito com desinformação. Não é de se espantar que as falanges reacionárias tenham celebrado a decisão da Suprema Corte norte-americana, que suspendeu o direito ao aborto legal. Retrocesso civilizacional de meio século.

Com medo de desagradar eleitores, os políticos se acovardam e evitam incluir o tema em seus programas eleitorais. Pior. Quando assumem cargos executivos, apagam-no de seu mapa de prioridades. O resultado me faz lembrar de um velho adágio popular. Em cima da queda, coice.

A psicóloga Daniela Pedroso, que atende vítimas de violência sexual em São Paulo, relata um caso que reforça a dimensão da tragédia humana em curso. “Atendi uma vez uma menina de dez anos que chegou grávida ao serviço. Ela estava no banho e viu sair leite do seio. Gritou pela mãe. Foi aí que ela conseguiu contar para a mãe que tinha sido estuprada pelo padrasto. Estava grávida de cerca de 20 semanas”.

Crianças que, sem qualquer condição física e psíquica, assumem maternidades. Infâncias assassinadas por abuso. Millôr Fernandes desenhou poeticamente esta fase da vida: “Pegamos o telefone que o menino fez com duas caixas de papelão e pedimos uma ligação com a infância”. Para as violentadas, o barbante é bruscamente cortado. Sobram os fantasmas que as assombrarão pelo resto de suas vidas.

Abraço. E coragem.

Uma BIC na sala de tortura

Uma BIC na sala de tortura

Sou o poeta dos torturados/ dos desaparecidos/ dos atirados ao mar
Sou os olhos atentos/sobre o crime
Pedro Tierra
Uma caneta BIC esquecida pelo torturador fez o preso torturado se animar no meio das maiores dores que sofrera em seus 24 anos de vida. Lentamente chegou até a BIC que brilhava na sala meio escura onde se sentia cheiro de suor e sangue, e logo escondeu-a, pois os torturadores voltariam. Quando foi levado a sua cela, dolorido com hematomas e sangrando aqui e ali, se sentia vitorioso com a caneta, era sua taça, seu troféu, e dias depois catava papel de cigarro, papel higiênico, para escrever. Foi assim que começou a nascer o poeta Pedro Tierra, que viveu cinco anos em várias prisões sendo interrogado, torturado, convivendo com mortes de companheiros. Decidiu viver para escrever poesias e homenagear tanto os amigos como os desconhecidos presos e torturados que não tiveram sua sorte de viver. Entrou no cárcere como Hamilton Pereira da Silva e ao sair era Pedro Tierra, o poeta que nasceu na prisão graças a uma BIC esquecida pelo torturador.
Nas poesias estão presentes os choques elétricos, cadeira do dragão, espancamentos e mais e muito mais poesias sobre suplícios, sangue, gritos, coragem, povo, liberdade. É um espanto tudo isso se transformar em poesia. Essa poesia silenciada mais aqui que no exterior começa a ser mais conhecida através de muitos, mas especialmente do professor e poeta Alberto Pucheu. Aliás, agradeço a ele a primazia de ler seu impactante ensaio que será publicado em livro, PEDRO TIERRA: ESTA OBSTINADA VONTADE DE RESISTIR. As poesias de Pedro Tierra começaram a ser publicadas no exterior traduzidas primeiro ao espanhol por Dom Pedro Casaldáliga. Vencedor de muitos prêmios, Pedro Tierra se integrou nas lutas sociais ao sair da prisão, tendo sido um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores. Ocupou cargos no Ministério da Cultura, em Secretaria de Cultura, integrou o MST, teve a coragem de seguir sua vida na política mesmo após cinco anos de tortura e prisão. Nunca esqueceu seus amigos que morreram, e dedicou suas poesias aos que conheceu e aos que não conheceu. Nome e sobrenomes que precisam ser recordados e que Pucheu nomeia um a um no seu emocionante ensaio com quase oitenta laudas.
Impactante foi o encontro de Pedro Tierra com o imigrante judeu Mayer Kucinski que buscava Ana Rosa, sua filha desaparecida e integrante da ALN como o poeta. “Desejava, para seguir vivendo, ver o rosto de Ana Rosa. Varava meus olhos com o cravo dos seus e me pedia, patético – a mim, que àquela altura cumpria já o terceiro ano de prisão –, uma palavra, ainda que fosse a notícia de sua morte. Eu não tinha nenhuma palavra para lhe dar.” Não tinha palavras para dizer ao velho pai Mayer, pai também do escritor Bernardo Kucinski, que escreveu o romance “K” sobre a busca do pai pela sua irmã Ana Rosa. Minha irmã mais velha, a Bluma, conheceu a adolescente Ana Rosa num Movimento Juvenil Judaico na década de 50 do século passado, e isso me aproximou dessa tragédia.
Escolhi parte do “Poema-Prólogo”, no qual Pedro Tierra sintetiza sua missão:
Fui assassinado.
Morri cem vezes
e cem vezes renasci
sob os golpes do açoite.
Meus olhos em sangue
testemunharam
a dança dos algozes
em torno do meu cadáver.
Tornei-me a mineral
memória da dor.
Para sobreviver,
recolhi das chagas do corpo
a lua vermelha de minha crença,
no meu sangue amanhecendo.
Em cinco séculos
reconstruí minha esperança.
A faca do verso feriu-me a boca
e com ela entreguei-me à tarefa de renascer.
Fui poeta
do povo da noite.
Se tivesse a capacidade de fazer um filme sobre Pedro Tierra, começaria filmando a sala de interrogatório, os torturadores e a BIC que o torturador esqueceu. Esse foi o momento em que começou a nascer Pedro Tierra, que precisamos conhecer mais, como conhecer nosso Brasil invadido. Invadido por enlouquecidos em busca de lucros. Nesses dias traumáticos que o País vive, será preciso passar o inverno, muitos invernos num só, sabendo que a primavera vai chegar.
Gato por lebre

Gato por lebre

A raça humana não consegue suportar muita realidade (T. S. Eliot)

No Brasil, está mais fácil encontrar influenciadores digitais (“influencers”) do que dentistas ou arquitetos. Segundo uma empresa multinacional de pesquisas, há no país meio milhão de influenciadores digitais, contra 374 mil dentistas e 212 mil arquitetos. Quem são estes iluminados, que conseguem a proeza de chamar a atenção na selva virtual? Teriam a mesma capacidade de envolver interlocutores como faziam os que nós, das antigas, chamávamos de formadores de opinião?

Uma pequena pesquisa e tiro o coelho da cartola. Trata-se, essencialmente, de um enorme departamento de vendas, maquiado como inocente peça da indústria de entretenimento. Usa o voyeurismo patológico que se espalha como praga pelo planeta e vende de tudo. Os influenciadores são veículos de propaganda, que vendem de shampoo a leite de cabra, de cortes de cabelo a pacotes turísticos. Donos de animais, há sacerdotes da fofurologia que usam os bichinhos para faturar no mercado pet (bleargh!). Estão à venda também espaços para lançamento de carreiras políticas. Em São Paulo, policiais influenciadores aproveitam o sucesso de vídeos de operações espetaculosas e lançam candidaturas às próximas eleições.

O fenômeno está longe de ser apenas verde-amarelo. Deu no New York Times. A notória Kim Kardashian, com 316 milhões de seguidores, lançou uma linha de produtos para manter a pele jovem. Mesmo sabendo que suas opiniões são levadas a sério por milhões de pessoas, que tendem a imitar seus gostos, afirmou que “se você me dissesse que literalmente teria que comer cocô todos os dias para parecer mais jovem, eu comeria, eu simplesmente comeria”.

O mercado de influenciadores segue uma lógica simples. Quanto mais repercussão alcança uma postagem, mais valorizado fica seu divulgador e mais chance terá de ser contratado para campanhas promocionais. A repercussão é medida pelo número de acessos às postagens. Como era de se esperar, já existem artifícios para turbinar perfis na internet. São as chamadas fazendas de cliques. Gente que, usando contas falsas, multiplica as curtidas e os comentários nos perfis dos influenciadores. É um trabalho mal remunerado, sem qualquer proteção social ou trabalhista, típico da precarização que engole boa parte dos empregos no Brasil.

Os números deste mercado impressionam. Em 2021, as redes sociais receberam R$ 1,43 bilhão em investimento publicitário. Valor maior do que a soma do investimento em rádio, jornal, revista e cinema.

Acho que mal arranhei a superfície deste planeta estranho. Um planeta onde tudo é aparência e, lembrando o que Marx disse sobre o capitalismo, se transforma em mercadoria. Desde relações amorosas até espaços reservados à privacidade. Não me surpreende que se projete para o futuro próximo a consolidação de um metaverso, onde cada indivíduo terá um avatar a representá-lo. A fronteira entre o real e o virtual estará definitivamente violada.

Quem terão sido meus influenciadores ao longo da vida? Os de carne e alma, que abriram veredas de encanto, beleza e criatividade e mostraram sentidos que eu desconhecia? Fujo por um instante do clichê freudiano (pais, tios avós, primos) e penso nos músicos e cronistas, nos jogadores de futebol que saíram da rotina e no professor de química que sabia grego, nos (poucos) que souberam combinar política e afeto, nos atores e diretores de cinema e teatro, nos que souberam dizer as palavras certas em momentos incertos. Talvez nenhum tenha sido tão fundamental quanto Long John Silver, o pirata n’A Ilha do Tesouro. O livro de Robert Louis Stevenson foi devorado pelo Menino e a identificação com o pirata da perna-de-pau foi instantânea. Acho que até hoje sou um pouco como ele. Sei, ou suponho saber, qual é o tesouro na ilha remota, mas o caminho até lá não é fácil, não é tarefa individual e o mapa para alcançá-lo não basta. Mesmo sem resultado garantido, a viagem vale a pena.

Abraço. E coragem.

“O diário de Anne Frank”- o diário mais famoso do mundo segunda parte

“O diário de Anne Frank”- o diário mais famoso do mundo segunda parte

Sonho de amor 06/01/1944:
“Estava sentada numa cadeira, e diante de mim estava Peter, Peter Schiff. Estávamos olhando um livro de desenhos de Mary Bos. Os olhos de Peter subitamente encontraram os meus, e fiquei olhando durante muito tempo aqueles olhos castanhos aveludados. Então, ele disse em voz baixa: “Se eu soubesse, teria procurado você há muito tempo”. Virei-me bruscamente, esmagada pela emoção. E então senti um rosto macio, cálido e suave contra o meu, e foi tão bom, tão bom.” Anne se acordou lembrando do Peter da escola, seus olhos se encheram de lágrimas. Nas semanas que se seguem ao sonho, Anne escreve o quanto o sonho aumentou sua autoestima. E pouco depois do sonho, estreita suas relações de amizade e de namoro com o seu amigo que estava no Anexo Secreto e também se chamava Peter, que morava num quartinho onde estava a escada para o famoso sótão que Anne tanto gostava. No seu diário ela descreve suas transformações sexuais de adolescente, suas excitações, bem como as rebeldias.
A menina negra encontra a menina judia.
A escritora brasileira Conceição Evaristo e Anne Frank viveram em tempos e espaços distantes. Foram se conhecer como leitora e escritora, gerando uma comovente relação entre quem escreve e quem lê. Ambas usaram armas simbólicas para enfrentar a violência e a crueldade. Evaristo escreve que encontrou Anne como as duas sendo meninas, e o quanto o mundo adulto não deixou viver uma escritora pelo fato de ser judia. Se identifica como menina negra maltratada, rejeitada, podendo construir uma fraternidade com a menina judia. Conceição Evaristo construiu uma ponte com os tempos atuais: “Digo também que estamos em dias vazios de humanos sentimentos. A leitura de “O diário de Anne Frank” se faz necessária mais e mais nesses tempos em que a brutalidade e a prepotência de pessoas e grupos imperam buscando se colocar como donos do mundo”. Tanto Nelson Mandela como Conceição Evaristo viram em Anne Frank um símbolo de luta pela liberdade, contra o racismo com a qual se identificaram.
A última carta:
Sua última carta foi no dia primeiro de agosto de 1944, uma terça feira. Tanto essa carta como as duas últimas mereciam um estudo a parte, como a frase que cita:“Todo filho tem de se criar”. Frase que seu pai dizia e ela reflete sobre como foi educada, faz uma crítica, começa um processo de desidealiazação do ótimo pai, ela já estava com quine anos. Na sua última carta vai mais longe quando reflete sobre a acusação que ela seria um “feixe contradições”. Toma essa expressão e analisa o que isso significa, pergunta o que é contradição e daí entra, sem saber, por uma via em parte filosófica, mas também psicanalítica. “Como já disse muitas vezes, sou partida em duas”. É uma carta de duas páginas e meia, vale a pena ler, e sem Anne saber, foi sua carta de despedida da vida.
Prisão e morte: Dia quatro de agosto de 1944 a casa e o anexo foram invadidos por um sargento da SS uniformado e três holandeses da Polícia de Segurança. Os moradores foram presos e transferidos para Westerbork, um campo de triagem, e em tres de setembro deportados para Auschwitz. A mãe de Anne decidiu dar sua comida para as filhas e as três dormiam juntas, unidas para sobreviver. Em fins de outubro Margot e Anne foram levadas para Bergen-Belsen, campo de concentração perto de Hannover (Alemanha). Ambas contraíram tifo e amigas de Anne, que a viram, descrevem como estava magra, doente e no inverno com neve só enrolada num cobertor. As irmãs Frank morreram entre fevereiro e março de 1945 e foram enterradas em covas coletivas.
Pesadelo:
Durante os estudos do diário tive um pesadelo, despertei quase chorando ao recordar ataques de gente onde eu corria risco de vida e imaginei que seria morto. Logo percebi que estava identificado com os judeus do Anexo secreto, pois o envolvimento com o diário fez com que entrasse no pequeno espaço de cinquenta metros quadrados. O resto diurno do pesadelo fora a leitura da morte de Anne Frank, percebi então minha identificação com os judeus assassinados nos campos de extermínio da Europa.
Confiança no futuro.
O pai Otto Frank, foi o único sobrevivente do grupo do anexo, apesar de estar muito doente conseguiu se recuperar. Foi o responsável pela edição do livro “O diário de Anne Frank” bem como pelo museu de Amsterdam e da Fundação que leva o nome de sua filha. Anne Frank escrevendo o diário se fez escritora, com amor e humor, confiante como na mais famosa de suas frases: “Apesar de tudo ainda creio na bondade humana”. Após oitenta anos que foi escrito o diário, ele continua sendo muito lido por jovens que se identificam com ela e por pessoas de todas as idades. Tres semanas antes de ser presa, escreveu: “Vejo o mundo ser lentamente transformado numa selva, ouço o trovão que se aproxima e que, um dia, irá nos destruir também, sinto o sofrimento de milhões. E mesmo assim quando olho para o céu, sinto de algum modo que tudo mudará para melhor, que a crueldade também terminará, que a paz e a tranquilidade voltarão”.
Precisamos falar da escritora Anne Frank
Anne é a vítima mais conhecida do nazismo, e a crueldade passada reaparece com novas roupagens. O dever da memória é lembrar os seis milhões de judeus mortos, mas também recordar a escravidão brasileira, o assassinato de Marielle Franco, de negros e índios. Não devemos silenciar o passado, nem o presente para construir o futuro. O Diário de Anne Frank emociona judeus, negros, o mundo no amor a liberdade, a bondade e a tolerância, daí seu sucesso.
O diário mais famoso do mundo – primeira parte

O diário mais famoso do mundo – primeira parte

Muitos perguntam os porquês do sucesso mundial do Diário de Anne Frank, um livro escrito durante o nazismo na Segunda Guerra Mundial. Traduzido em setenta idiomas com uns quarenta milhões de livros vendidos, tema de filmes e peças de teatro. Editado em 1947 levou alguns anos para conquistar o público, e, aos poucos, algumas personalidades e escritores perceberam que o diário não era só de uma adolescente, mas sim o de uma escritora jovem. Anne ganhou de presente o caderno que escreveria seu diário no dia do aniversário de 13 anos, 12/06/1942.
O humor de Anne Frank:
Uma das primeiras histórias do livro é a do professor de Matemática que passou de castigo à ela por falar muito a redação: “Uma tagarela”. Anne escreveu três páginas argumentando que falar era uma característica feminina, tentaria se controlar, mas sua mãe falava tanto ou mais que ela. O professor riu, mas ela seguia falando, e então deu outra redação: “Uma tagarela incorrigível”. Ela fez e seguiu falando, logo recebendo uma terceira redação: “Quac, quac, quac, tagarelou e dona pata”. Riram na aula, ela também, mais aí pensou que devia fazer algo diferente e pediu ajuda à sua amiga Sanne para escreverem em versos. Fizeram um poema sobre uma mãe pata e um pai cisne com três patinhos que grasnavam muito e foram bicados até a morte pelo pai. O professor gostou tanto que leu o poema em várias salas de aula.
Anexo Secreto:
No dia 09/07/1942 Anne e sua família se
esconderam pois os judeus estavam sendo presos por serem judeus. No diário descreve o sofrimento dos judeus, pois deviam usar uma estrela amarela, proibidos de andar nos bondes, carros, comparecer aos teatros, cinemas entre outras proibições. Esse espanto de Anne leva a pergunta ainda viva de como foi possível o nazismo que buscou matar todos os judeus da Europa. Parêntesis: poucos traçaram um painel mais amplo dos porquês do assassinato de seis milhões de judeus que o historiador Saul Friedländer, em seu livro “A Alemanha nazista e os judeus”.
No dia 21 de setembro escreveu: “Atualmente papai e eu estamos trabalhando em nossa árvore genealógica, e ele me conta alguma coisa sobre cada pessoa”. Seus antepassados marcaram a vida na comunidade judaica e na Alemanha. Ler e acompanhar a vida de uma adolescente, através de seu diário, é conviver com medos, sonhos, suas transformações na luta contra a solidão. Já tinha escrito no diário sobre a experiência de escrever: “o papel tem mais paciência do que as pessoas”, e inventa uma amiga imaginária que chamou de Kitty, para quem passa a escrever. Descreve as tensões e discussões com sua mãe Edith, e a irmã Margot que era mais amiga da mãe que dela. Elogia seu pai escrevendo que é o “mais adorável que já vi”, era o que mais tinha paciência com sua aceleração criativa.
Nelson Mandela: prêmio Nobel da Paz e Presidente da África do Sul disse que Anne Frank é a prova da invencibilidade do espírito humano. Durante os dezoito anos que passou na Ilha de Robben exortou seus companheiros de prisão a lerem o diário. Quando as páginas do único exemplar do livro na prisão começaram a cair, os presos se revezaram, clandestinamente, a copiar o livro a luz de velas. Todos os presos leram o “Diário de Anne Frank”, de como uma jovem viveu dois anos escondida no sótão de uma casa. Muitos anos depois, em 1994, Mandela foi homenageado pela Fundação Anne Frank, e visitou a Casa de Anne Frank. Antes, em um discurso para uma multidão em Johanesburgo, relembrou ter relido o livro enquanto estava na prisão, com o qual afirma ter “extraído muito incentivo” na luta contra o “apartheid”. Comparou a luta contra o Nazismo com a travada contra o Apartheid, expressando que ambas “são crenças evidentemente falsas e sempre serão desafiadas por pessoas como Anne Frank e estão fadadas ao fracasso”.
A casa na qual o diário foi escrito hoje é um museu visitado por um milhão e duzentas mil pessoas anualmente, mais de três mil por dia. Visitei a casa de Anne Frank em fevereiro de 1968 num inverno rigoroso em Amsterdam, com um grupo de estudantes do Colégio Israelita Brasileiro. Chegar ao Canal Prinsengracht número 263, emocionante entrar na casa, subir os degraus de dois andares por corredores estreitos, até ultrapassar uma biblioteca atrás da qual se escondia o anexo secreto. Oito judeus viveram dois anos em 56 metros quadrados, e pude ver tudo que é descrito no livro, sentindo emoções e tensões que agora recordo. Minha maior curiosidade era conhecer o lugar aonde foi escrito o diário, o sótão da casa, que se chega após subir uns dez degraus de uma pequena escada íngreme. Só se podia olhar o amplo espaço desde o último degrau, e ver uma janela inclinada, a única que não tinha cortina e da qual Anne podia ver uma grande árvore-uma castanheira- os pássaros, o céu, as nuvens e onde sonhava com a liberdade.
Mata um homem e come

Mata um homem e come

A voz da consciência e da honra é bem fraca quando as tripas gritam (Diderot)

Na porta da pequena agência bancária ele surgiu. Muito magro, andrajoso, olhar de desespero. Pedia, ou melhor, implorava algum dinheiro, estava com muita fome. Repetia e repetia, os ouvidos que passavam não o ouviam. Invisível. Até que alguém se compadeceu e lhe deu uma pequena quantia. O homem se retirou, não sem antes agradecer a Jesus por aquela caridade. “Jesus é muito bom”, asseverou. Na penúria obscena, era-lhe impossível ocorrer a pergunta evidente: se Cristo é realmente uma boa alma, por que permite a degradação da miséria e de corpos famintos? Olhando a cena, não pude evitar a imagem de Primo Levi: era aquilo um homem?

Poucos metros adiante, uma igreja. Imponente. Ao lado de sua escadaria frontal, uma mulher dormia na calçada. Despertou devagarzinho e seu olhar me chamou a atenção. Era meio morto, desprovido de qualquer traço de esperança. Quase se arrastando vai até uma banca de jornais e pede, com o embaraço dos resignados, um pacote de biscoitos. Silêncio como resposta. Invisível. Afasta-se, preparada para mais um dia de triste sobrevivência.

Entre a agência bancária e a igreja, cruzo com famílias abrigadas do frio nas calçadas. Há cada vez mais gente se amontoando nas ruas, exércitos de miseráveis que buscam as sobras de uma sociedade que prefere ignorá-los. Exércitos desarmados, hospedeiros de uma revolta adormecida. O que acontecerá quando acordar? No tempo do Menino, costumávamos brincar quando o estômago gemia: “Tá com fome? Vai na rua, mata um homem e come”. Não devíamos nos espantar quando um desesperado rouba ou até mata para comer.

Enquanto o Abominável Homem das Trevas bravateia que o Brasil alimenta um bilhão de pessoas no mundo, surgem números da fome no Brasil. Cerca de 6 a cada 10 brasileiros convivem com algum grau de insegurança alimentar, isto é, “não possuem acesso físico, econômico e social a alimentos de forma a satisfazer suas necessidades” (definição da FAO). Aproximadamente 33 milhões de pessoas passam fome no país. Outro dado que chama a atenção. Em 2022, um a cada três brasileiros fez alguma coisa que lhe causou vergonha, tristeza ou constrangimento para conseguir alimento. Não é difícil imaginar que tipos de situações humilhantes/degradantes. Lembram do Gonzaguinha? “Mas doutor uma esmola/para um homem que é são/ou lhe mata de vergonha/ou vicia o cidadão”. Segundo um estudo da FGV, a proporção de brasileiros que não teve dinheiro para comer em algum momento em 2021 subiu quatro vezes mais do que a média dos 120 países pesquisados. Para adornar a torta letal, o IBGE informa que os 5% da população com menor renda, os mais pobres entre os pobres, tiveram queda de quase 34% no rendimento médio de 2020 para 2021.

Enquanto as hordas liberais vão despejando políticas econômicas que privilegiam os barões do capital, concentram renda e multiplicam o desespero, surgem aqui e acolá soluções mágicas para melancolias e carências. Verdade que são do ramo das Organizações Tabajara, mas vai que…

Uma certa senhora, que ocupa espaço nobre em jornal de grande circulação, ensinou o mapa da mina. Anote aí, não seja incrédulo. Espalhe a rodo e as massas serão redimidas. Começa com uma para mim desconhecida versatilidade do Santo Antônio. Achava que era apenas o santo casamenteiro. Pelo visto, tem mais poderes. Vamos lá. Asse treze pãezinhos e coloque-os ao lado de uma imagem do santo, na noite de 12 para 13 de junho. Se for em outra noite, peça à prodigiosa criatura para dar um jeito. Afinal de contas, estamos no Brasil. Não se esqueça de acender uma vela. No dia seguinte, deposite um dos pães na sua despensa. Dê os demais para pessoas de suas relações, alertando-as para que também os coloquem na despensa. Voilà! Seus problemas acabaram. Você terá um ano de alegria e fartura. A garantia de sucesso é a mesma de qualquer horóscopo, tarô, bola de cristal, borra de café. Como diria o seu Creysson: Eça eu agarantio!

Abraço. E coragem.