O homem moderno perdeu o prazer do silêncio (Mário da Silva Brito, poeta)
Entrar numa banca de jornais nos anos 50 e 60 era uma festa. Além dos quadrinhos clássicos, criados por craques como Will Eisner, Hal Foster, Lee Falk, Al Capp, Alex Raymond, Jerry Siegel e Joe Shuster, havia a transcrição para gibis de personagens radiofônicos. Quem acompanhava as aventuras do Jerônimo, herói do sertão, pelo rádio (“quem passar pelo sertão, há de ouvir alguém falar, do herói dessa canção, que eu venho aqui cantar”), podia vê-lo desenhado nas páginas dos gibis. Ao lado da Aninha e do Moleque Saci (um jovem negro subalterno, espécie de Lothar sertanejo, que certamente seria vetado hoje em dia). O mesmo acontecia com o detetive Anjo, interpretado no rádio por Álvaro Aguiar. Auriverde homenagem ao Nick Holmes.
Tempos ingênuos. Como ingênuas eram as histórias de terror nacionais que se vendiam ao lado de Ferdinando, Príncipe Valente e Mandrake. Mortos-vivos se levantando das tumbas, mulheres em poses sensuais, roupas rasgadas em áreas estratégicas, assediadas por vampiros sedentos de sangue (ou seria de partes menos declaráveis para a moral da época?), frankensteins em múltiplas versões, mulas sem cabeça. Os desenhos podiam até ser pouco elaborados, mas eram suficientes para deixar o Menino sobressaltado, inseguro sobre mundos de além-túmulo.
Hoje, o terror ganhou capilaridade. Ultrapassou as fronteiras de cemitérios, cantos escuros, caninos afiados, morcegos, peles em decomposição. Tudo não passa de invenção amadorística perto do cortejo de sustos e arrepios que nos assalta a cada dia.
Estupro e morte de uma garota yanomami. Maldição das madrastas, que andam envenenando enteadas e jogando criança pela janela (será que aposentaram as sogras?). Milicos debochando de torturados pela ditadura. Projetos obscurantistas de expansão da homeschooling e cobrança de mensalidades nas universidades públicas. Armamento amplo, geral e irrestrito. Invasão de terras indígenas pelo garimpo ilegal. Falanges histéricas antivacina e anticiência. “Eu não posso usar meu Viagra, pô?”. Massacres policiais no Rio, execução em câmara de gás improvisada por policiais em Sergipe. Insegurança alimentar dobrando no Brasil em sete anos e afetando mais as crianças. Entre os mais pobres, a fome tem nível de países africanos. Lembram do que o Animal Abjeto disse em 2019? “Falar que se passa fome no Brasil é uma grande mentira”. Sabujismo explícito de autoridades a um bilionário norte-americano golpista, aliado de Donald Trump. Concentração obscena de riqueza: nos últimos dois anos, o mundo ganhou um novo bilionário a cada 30 horas; em 2022, nas mesmas trinta horas surgirão um milhão de novos pobres. “O nazismo era um movimento de esquerda”. Perto de tantas e tamanhas mediocridades e assaltos à razão, ao estômago e a um mínimo de decência, quem tem medo de Virgínia Woolf, digo, de Drácula?
Nessas horas, dada a dimensão dos estragos provocados no país por Sua Ignorância Repugnantíssima e as quadrilhas de seguidores fanatizados, certos problemas aparentemente menores parecem murchar. Quem dá bola, por exemplo, para o barulho descontrolado nos espaços comuns e áreas densamente habitadas em cidades grandes? No Rio, a tentativa de banir caixas de som das praias e reduzir a balbúrdia na praça São Salvador, em Laranjeiras, é criticada como “elitista” e inibidora de manifestações populares. A pessoa chega na praia, saca sua arma, digo, a potente caixa de som, atormenta até os pobres albatrozes, e acha que tem direito à “válvula de escape”. Na praça, rodeada por prédios habitados, o barulho que vai madrugada adentro produz, há anos, olheiras aterrorizantes em gente que não consegue dormir. Tristes tempos, em que o silêncio virou privilégio da “elite” e insidioso censor antipopular.
Na reconstrução nacional que, espero, não demora a começar, estará na pauta recuperar a noção de cidadania. Um conceito que envolve, obrigatoriamente, olhar em volta e perceber o alcance das ações individuais, em que medida um gesto pessoal afeta o ambiente em que ele se insere. Uma coisa é fazer uma roda de samba, um barulho amplificado ou uma batucada enlouquecida no deserto do Atacama, cercados por cobras, lagartos e a música do vento. Outra, muito diferente, é invadir sistematicamente com ruídos infernais residências de trabalhadores, massacrando o seu direito a um pouco de descanso e paz. Precisaremos educar os cidadãos a aceitar que espaço público não é área de vale-tudo, nem propriedade privada de desejos individuais.
São, São Paulo quanta dor/São, São Paulo meu amor (Tom Zé)
Nunca pisei na Estação da Luz, muito menos esperei o trem das onze. Apenas imaginei a cena de sangue num bar da avenida São João. Convidado pelo Adoniran em pessoa, talvez fosse a um samba no Bexiga. Só não gosto da ideia de um quebra-pau com bracciolas arremessadas no Nicola. Povero ragazzo. Queria sentir o cheiro do Buraco da Sara, lá no Bom Retiro. Houve nariz, mas faltou oportunidade. Meu sonho de boleiro era assistir um treino da primeira Academia, no gramado do Palestra. Ficou só no devaneio. Valdir, Djalma Santos, Servílio e Julinho Botelho são apenas um retrato desbotado que sorri.
Com esses antecedentes, minha relação com São Paulo nunca passou de uma vaga declaração de intenções. Jamais dei bola pra lendas como túmulo do samba, o Vinícius devia ter tomado whisky batizado quando falou isso, e população sempre apressada, sem tempo para afetos. Em épocas diferentes, tive pequenos encontros com a cidade. Sem perceber, invadiram solo sagrado: o das lembranças formadoras.
Meados dos anos 70. Animado com a leitura de um livro sobre a história do movimento sindical brasileiro, propus uma extravagância ao amigo com quem rachava o apartamento em esquema mezzo república estudantil. Leia-se: penúria escrachada. Que tal, atrevi-me, darmos um pulo em São Paulo e conversarmos com imigrantes italianos que tiveram alguma experiência de luta sindical? A seco, sem conhecer ninguém, com a cara, escassos trocados e a coragem. Para meu espanto, o amigo topou. No fim de semana, partimos no fusquinha desabituado a atravessar fronteiras.
Nem me perguntem como, mas acabamos dando no Bexiga. Ainda cedo de manhã, batemos na porta de uma casa qualquer. Apareceu um daqueles personagens saídos de manuais anarquistas. Cabeleira vasta, embranquecida, bigode à la Bartolomeo Vanzetti, olhos pregados no futuro. Nos convidou a entrar, serviu um café e abriu os trabalhos. A gente não conseguia acreditar no que estava acontecendo. Ligamos o gravador e registramos passagens vividas da história social do país. Greves de sapateiros, alfaiates. Enfrentamento da repressão. Construção de fraternidades operárias. Imprensa anarquista. Saímos deslumbrados, tínhamos em mãos um documento precioso. Na volta ao Rio, choque de realidade. Passávamos por um dos momentos mais duros da ditadura civil-militar. Terrorismo de Estado, Armando Falcão anunciando com ar sinistro o estouro de uma gráfica clandestina do PCB, militantes sequestrados e mortos. Medo. Tomamos uma decisão terrível, mas necessária. Não podíamos conservar as fitas cassete, eram prova de “subversão”, perigo de vida. Foram destruídas. O que não se apagou foi a memória da São Paulo de imigrantes, da São Paulo pelejadora, da São Paulo operária.
Não muito tempo depois, voltei à cidade. O Ibirapuera estava promovendo uma Arca de Noé, exposição zoológica com demonstrações de adestramento de animais, extração de venenos de cobras e outros detalhes mimosos. O programa não era exatamente excitante, apenas pretexto para um passeio. Hospedamo-nos no hotel Jaraguá, centro histórico de São Paulo, sede do Estadão. Ao desfazer as malas, dei um tapa na testa. Caramba! Esqueci de trazer sapatos. Entre meus pés e o chão havia uma fina película de borracha chamada sandália. Bem, pensei, se não chover dá para levar na esportiva. Torci contra a fama de terra da garoa. Sempre achei que ela não passava de uma demonstração do que Pedro Nava dizia: o sentimento mais comum do ser humano é a má vontade. Que nada. Por dois dias, com persistência bíblica, choveu aos potes, suficiente para justificar a arca que viéramos assistir. A sandália só não virou pé de pato por descrença no transformismo. Ali estava, pujante, a São Paulo úmida, a São Paulo aquífera, a São Paulo glub glub.
Nos últimos dias, duas notícias paulistanas contrastantes. Na contracorrente do que se observa, por exemplo, no Rio, há uma onda de abertura de livrarias de rua. Desde 2021, abriram pelo menos dez. Artesanais, especializadas, focos de atividades culturais, há de tudo. Inclusive uma que ocupa o lugar onde anteriormente funcionava um bar (quem dera isso indicasse uma tendência!). Na outra ponta da civilidade, uma loja de armas promoveu festança para lançar fuzis para pronta entrega. São armas semiautomáticas, vendidas por módicos R$ 20 mil, proibidas para venda no Brasil até o Repugnante tomar posse. No seu mandato, já foram produzidos 38 documentos que facilitam armar “cidadãos de bem”. Além de armas de fogo, a loja vende, por exemplo, bastões de beisebol utilizáveis para espancar gente. Neles, há inscrições como Amansa Loco, Respeito, Direitos Humanos e, sem surpresa, Diálogo.
Esta é a São Paulo que, como todos nós, está envolvida numa gangorra de Vida e Morte, de Cultura e Barbárie, de Futuro e Desesperança, de Criatividade e Destruição. Valei-nos, Juó Bananère!
Ira furor brevis est (A cólera é uma loucura breve – Horácio, no livro de Epístolas)
Chegou a minha vez. Fui cancelado. Verdade que não foi aqueeele cancelamento, reação em cadeia de eliminação sumária nas redes sociais, mas a supressão do meu nome da lista de uma frequentadora do Facebook.
Como se deu o furdunço? A drag queen Rita von Hunty, pessoa muito politizada e com importante penetração em redes sociais, fez críticas ao Lula, com argumentos respeitosos. Sugeriu que os eleitores avaliassem um “voto radical” para presidente no primeiro turno, acompanhando as candidaturas lançadas pelo PCB e pela UP. Em nenhum momento subestimou o perigo do continuísmo bolsonarista, nem descartou a unidade antifascista para o segundo turno.
Houve reações furiosas, baseadas numa espécie de imperativo categórico: só o voto no Lula já no primeiro turno é correto, não existe legitimidade para quem pensa diferente. Incomodado com essa encarnação torta de infalibilidade papal, recheada de cólera e autoritarismo, resolvi dar um pitaco e escrevi pequena nota defendendo não apenas o direito de Rita emitir opinião, mas também concordando que, na hipótese de não se configurar vitória de ninguém no primeiro turno (como todas as pesquisas até agora indicam), é perfeitamente defensável um voto à esquerda do companheiro ex-metalúrgico. Claro que fundamentei meu raciocínio em premissas que julgo corretas.
A maioria das reações à minha nota foi educada, inclusive as de pessoas que discordam de mim. Todas elas foram muito bem-vindas. Ocorre que, em meio aos comentários, houve um bombardeio cruzado entre dois comentaristas, que terminaram por azedar o clima. A escalada terminou em ofensas e os estilhaços explodiram no meu colo. Impressionante a incapacidade de se conviver com o dissenso, na mesma linha das briguinhas infantis quando trocávamos de mal. Lembram? Cruzar os dedos mindinhos era sinal de racha…
Uma das comentaristas, indiferente ao fato de que a troca de ideias era sobre visões distintas de táticas eleitorais e não sobre a necessidade de derrotar o fascismo, resolveu não apenas sair da conversa, mas me cancelou. Ela, que sempre demonstrou interesse pelo que divulgo, me condenou no tribunal da linha justa, do dogma viscoso. Acho que por trás deste tipo de atitude está, além de um claro autoritarismo, a frustração de uma fantasia bem observada pela psicanalista Vera Iaconelli. Temos muita dificuldade de lidar com aquilo que sai do nosso controle, do que é por natureza incontrolável. Se minha opinião não pode ser controlada, como numa ordem unida, sou eliminado. Que democracia é essa?
Há um clima de muita intolerância no ar. As divergências resvalam para pugilatos verbais. Onde estará o tesão pelas batalhas de ideias, pelo prazer do argumento bem construído, pela possibilidade de aprender fora do quadrado defensivo? Lembro-me do jornalista John Reed descrevendo as vibrantes assembleias no período revolucionário bolchevique. Oradores se revezando, o clima fervendo, mas sempre na procura do melhor e sem desrespeitar ninguém. Agora, a disputa política se dá, não raro, no terreno da desqualificação, do ganhar no grito, passar o rodo. Como foi que chegamos a isso?
Não há dúvida de que os acontecimentos pós-2018 acentuaram o azedume. No entanto, quero olhar para o meu campo, o da esquerda. Não me refiro aos que, legitimamente, se satisfazem com reformas dentro do modo de produção capitalista. Penso nos que não renunciaram ao projeto de mudança radical na sociedade, transformando não apenas relações de produção, mas formas de relacionamento social e cultural. Creio que, nessa altura da História, já estamos convencidos de que não haverá mudança instantânea com a tomada do Palácio de Inverno. Não há, enfim, bala de prata. A revolução, o treino para ela, já começou. Precisamos, desde já, construir espaços libertários que desafiem o status quo que leva à desigualdade e à injustiça, à exploração e às guerras. Bloqueando o dissenso, como parecem fazer muitos companheiros, só estamos ajudando a perenizar a ordem que queremos desafiar. Onde está o bom e velho processo de convencimento tão caro aos que inspiram nossa sempre renovada utopia?
Nessas horas, gosto de lembrar o anarco-ipanemense Millôr Fernandes: “Imprensa é oposição, o resto é armazém de secos e molhados”. Oposição que, em sentidos variados, pode nos alertar: quem sabe vocês estão errados? Errado, eu? Não, o negócio é o seguinte… Mas pera lá, você deixou de perceber que assim e assado, na medida em que…
O intervalo pro cafezinho era de lei na repartição. Sem pressa, aliviavam o peso das tediosas rotinas. Naquele dia, Carvalhinho estava todo pimpão. Fez um cafuné suspeito no Afrânio e tome gozação. Sete a zero, Afrânio! O Russinho estava impossível. Teu timinho não deu nem pra saída! Afrânio resmungou, que fazer? O Flamengo tomar de sete logo do Vasco era como beber, de um gole, o frasco inteiro de Emulsão Scott. O café descia azedo, com trilha sonora do cruzmaltino.
De mansinho chegou o Pacheco, alisando o bigode ralo. Falou de deslumbramento. Só assim para descrever a visita com a patroa, dona Etelvina, ao recém-inaugurado monumento do Cristo Redentor. Um portento, coisa do gênio pátrio, para marcar de vez aquele ano morno de 1931. Soprando o líquido fervente, segurando a asa da xícara de louça grossa entre o polegar e o indicador e ajeitando o suspensório, Pascoal entrou na roda. Cavalheiros, ouviram falar de um tipo chamado Bela Lugosi? Estivemos, eu e dona Lurdes, no cinema Odeon e assistimos uma fita estranhíssima. Já imaginaram alguém que prefere beber sangue ao invés de conhaque? O sujeito, um conde muito do chinfrim, era assim. Minha senhora não conseguia nem piscar quando o Drácula aparecia na tela. Ora, façam-me o favor! A gente tem por aqui sanguessugas muito mais assustadores. Hmmm, vampiro brasileiro… Alguém ainda vai aproveitar essa ideia. E com um único slurp esvaziava a xícara de café.
Antes de voltarem ao batente, debocharam do pedido feito por um tal de A.W. O Departamento Nacional de Indústria nunca tinha recebido nada igual. O cidadão, polonês, solicitava patente para produzir “uma forma de doces gelados e sorvetes”, denominada Peixe Gelado. Cáspite! De onde tinha tirado aquela doidice? Seria uma carpa salpicada com açúcar de beterraba? Com ou sem escamas? Por acaso era nostalgia de casa, terrinha gelada? Precursor involuntário do Eládio Sandoval, que, junto com o Contrarregra Maluco, criou, seis décadas depois, entidades como a Orelha Carnívora, o Tchaco de Pepino e … o Picolé de Peixe? Também estava na bruma futura o Cadillac Rabo de Peixe. Gargalhadas burocráticas. O pisciano A.W. ganhou cartão vermelho. Seu pedido foi indeferido.
Um ano depois, o persistente polonês gerenciava uma pequena sorveteria, a Casa Picolé. Nunca, porém, desistiu de criar seu próprio sorvete. A persistência não era nova. Vinha da vida limitada na Polônia profunda e passava pelos tempos difíceis em Buenos Aires, onde fez um pit stop prolongado antes de embarcar, casado e com uma filha a caminho, para o Rio de Janeiro, em 1930.
Em 1939, finalmente, ei-lo na Tijuca, fabricando o sorvete Sibéria. De alguma forma, tinha vencido os obstáculos burocráticos e colocado sua digital nas massas geladas. Consta que a loja também tinha prateleiras com pó para sorvete, sabores chocolate, damasco e abacaxi. Sem a Kibon nos calcanhares, deslizava tranquilo na cidade acostumada a calores saarianos.
Em algum momento, a produção artesanal entrou em crise. O emigrante, com filha pequena para criar e já mais familiarizado com usos e costumes do Rio, buscou outro ramo. Usou o talento com tecidos, linhas e agulhas e foi bater em portas na rua da Alfândega, um dos afluentes onde desaguava o rio judaico no centro da cidade. Lá, durante muitos anos, vestiu a gente remediada que circulava pelo comércio popular carioca. Quiçá o ambiente escuro e solitário, onde desenhava, cortava e costurava tecidos, tenha ajudado a transformá-lo numa pessoa quieta, de pouco sorriso, escorregadia.
Pena que os sorvetes tenham derretido tão cedo. Mais alguns anos e eu seria recebido com as honras de imperador da Abissínia naquela Sibéria tropical. Sim, porque, A.W. era Abraham Wittman. Meu avô materno.
Quando corto o cabelo, aproveito para matar as saudades de folhear um jornal. São uns vinte minutos nos quais olho mais de um jornal, e aí li que Porto Alegre é a cidade mais tristonha do País, ao ter 17,5 por cento de deprimidos. Belém do Pará tem 7,2 por cento, menos da metade, e o País tem uma média de 11 por cento, mais ou menos. São números, e sempre se pode duvidar de como foi feito um trabalho assim, mas parece certo que aumentou o número de depressivos aqui e no Brasil. O primeiro fator apontado é a pandemia, pois o trabalho foi feito no ano passado, mas me chamou atenção que não há referência ao clima social e político que se vive. Nada também sobre o desemprego, nada sobre a fome, nada sobre o empobrecimento real e o empobrecimento humano que se vive nos últimos anos. Um país em que predomina o ódio, um país dividido.
As lágrimas podem ser mais frequentes em Porto Alegre, mas as depressões aumentaram no País e no mundo, com lágrimas secas que não lavam a alma. As depressões são no plural, as maiores e as menores, por causas psíquicas e também de origem orgânica. Nesse mundo de lágrimas secas é preciso ir devagar, como são em geral os deprimidos, lentos diante dos desafios, pois carregam pesos nas costas, o peso da existência. Os tristes sofrem com uma lista de desgraças, e muitos não levantam os olhos, perderam os horizontes. Os dias são de desânimo, perda de interesse pelo mundo, perda da capacidade de amar, com uma baixa autoestima, recriminações tanto aos demais como a si mesmo. Suas energias de viver foram perdendo sua carga como as velhas baterias de carros, e assim não podem sair do lugar.
Aprendi sobre depressões não só atendendo, estudando, mas vivendo meses intermináveis em que acordar pela manhã era um sacrifício. Viajei a Buenos Aires após concluir a faculdade de medicina, sem perceber, minha vida acelerada e, após um semestre, ocorreu a desaceleração, que era a depressão. Percebi que um mundo tinha terminado e outro começava, e não me senti à altura, a queda foi dura. As árvores da capital portenha não eram familiares, muito menos os costumes, eu era um estranho no mundo dos “hermanos”. Falei muito do sofrimento em cada sessão de análise e, após um longo tempo, me acostumei a uma nova realidade e aprendi as maravilhas da cultura portenha, os coletivos, as novas amizades. Saí do poço e vi o Sol, as nuvens, os novos horizontes.
O psicanalista francês André Green escreveu um ensaio sobre as depressões a partir do que definiu como “A mãe morta”, uma mãe com tendência depressiva, dificuldades de cuidar do bebê, gerando o que se definiu como clínica do vazio: bebês que não recebem investimentos libidinais eróticos suficientes. Quando essas crianças crescem, são vulneráveis, em especial na vida amorosa, e às vezes também na vida profissional. Na vida adulta, o desafio de construir um sentido da vida se depara com o sentimento depressivo de um vazio de sentido. Diante de pessoas tristonhas, de baixa autoestima, são dois os caminhos principais: um é o de repetir na análise um sentimento de aborrecimento fúnebre, de fracasso, uma desilusão entre analista e analisando. Outro caminho, o indicado por Green, é o de criar um espaço na dupla psicanalítica de vitalidade, com laços em que o analisando perceba um investimento libidinal do analista. Construir esse vínculo leva tempo, e aos poucos se gera uma nova vitalidade, uma relação com um movimento criativo. O guardião do túmulo de uma mãe morta pode se desprender do seu lugar fúnebre, sair da sombra de viver morrendo, construindo um sentido de ser. Recordemos sempre: “Umuntu ngumuntu ngabantu” – “Uma pessoa é uma pessoa por meio de outras pessoas”.
Nasci alguns anos depois do fim da Segunda Guerra Mundial. Às vezes, tenho a impressão de que as ruínas ainda fumegam e a história do conflito jamais terminará de ser contada. Melhor seria dizer as histórias que aconteceram durante o conflito. Ora se descobre um documento, depois é localizada uma partitura composta em condições indescritíveis, mais tarde é um diário que desvenda a rotina de carências e terror. Recentemente, li um livro, ainda sem tradução para o português, sobre seis adolescentes e jovens judeus, residentes na Europa Oriental, cuja vida foi violentamente interrompida em 1939. Ali estão descritos seus corpos mutantes, suas inseguranças, seus primeiros desejos amorosos, seus sonhos. Tudo registrado em pequenas folhas de papel, escondidas nos tubos de um órgão em Vilna, cidade que era conhecida como Jerusalém da Lituânia, e descobertas não faz muito. Vozes silenciadas.
Uma história que desconhecia acabo de descobrir na revista Devarim. Ela me reanimou o dever de contar, para que não se esqueça. Amnon Weinstein, luthier residente em Tel Aviv, tem uma coleção inusitada de instrumentos de corda. São violinos, violas e violoncelos cuidadosamente restaurados e expostos na oficina de trabalho. O que têm de especial?
Todos pertenceram a músicos judeus, profissionais ou amadores, atingidos pelas perseguições antissemitas nazistas. Muitos foram recuperados de campos de concentração e extermínio. Em Auschwitz, por exemplo, existia uma Orquestra Feminina, mulheres forçadas a tocar marchas e músicas selecionadas pelos algozes para criar uma sensação de normalidade no ambiente sombrio. Alma Rosé, sobrinha de Gustav Mahler, violinista excepcional, regeu essa orquestra. Foi assassinada ali mesmo, em 1944.
Nos anos 30, em Amsterdam, Helena Visser, não judia, era vizinha e amiga de Fanny Hecht, judia que gostava de tocar violino. Com a invasão nazista na Holanda, em 1940, Fanny anteviu que seria presa e pediu a Helena que, caso a Gestapo a levasse embora, fosse a seu apartamento, recuperasse o violino e o guardasse até sua volta. Fanny foi levada pelos nazistas e jamais voltou. Helena e depois seus descendentes guardaram o violino, de muito boa qualidade, durante 74 anos, até descobrirem o trabalho de Weinstein. Foram a Israel e o entregaram pessoalmente a ele.
O luthier criou o projeto Violinos da Esperança, através do qual os instrumentos recuperados são tocados em concertos mundo afora. Na entrevista concedida à Devarim, Weinstein disse: “Fazemos concertos com estes instrumentos históricos em todas as partes do mundo. Nós não vendemos os violinos. Levamos – um, dois, vinte, a quantidade que for combinada – para o local e organizamos concertos onde músicos locais usam os instrumentos. Depois fazemos palestras sobre eles”. Imagino a emoção destes músicos ao ressuscitar sons sufocados pela bestialidade nazista.
De alguma forma, Weinstein incorpora a intenção de Emmanuel Ringelblum. Intelectual socialista, Ringelblum esteve no gueto de Varsóvia. Testemunhou a rotina de morte, doenças e desespero e resolveu registrá-la, mesmo que em condições precárias. Formou um pequeno grupo e todos passaram a recolher tudo o que podiam. Cartas que jamais seriam expedidas, anúncios de todos os tipos, pequenas publicações, poemas, embalagens, etc. Aos poucos, foram organizando um arquivo respeitável, a que deram o nome de Oineg Shabes. Para preservá-lo, colocaram tudo em latões de leite e enterraram no subsolo de uma casa. Ringelblum e seus auxiliares acabaram assassinados. Depois da guerra, escavações permitiram recuperar boa parte do arquivo, que, até hoje, constitui material inestimável para contar a história do gueto. Os documentos dão voz aos que foram metodicamente liquidados.
Karl Marx disse que “a tradição de todas as pessoas mortas pesa como um pesadelo sobre a mente dos vivos”. Numa interpretação livre, penso que a palavra “tradição” poderia ser substituída, com a devida cautela, por “memória dolorosa”. No entanto, Weinstein e Ringelblum comprovam, podemos transformar o que foi motivo de perdas e desconsolo em beleza renovada e conhecimento libertador. Melhor assim.