Não dá para perder a mostra de fotografias de Porto Alegre do fotógrafo judeu nascido na Ucrânia Sioma Breitman. Está no Santander Cultural, e os painéis ocupam todo o térreo, com reflexões do artista sobre a fotografia e a vida. Ele dizia que a técnica se aprende, o conhecimento se compartilha, e o talento se exercita. Nasceu na cidade de Olgopol, em 1903, Ucrânia, filho mais velho de Nissin Breitman, que era fotógrafo. Em 1923, chega ao Estado após passar uns anos em Buenos Aires, onde também trabalhou em fotografia. Suas fotos da enchente de 1941, que levou a cidade a construir o nosso muro da vergonha, estão na exposição. Também os retratos de Getúlio Vargas, Erico Verissimo, muitas noivas e pessoas desconhecidas. Fotos que resistem ao tempo e podem ser conferidas na exposição do Farol Santander, que terminará no domingo, dia 24 de abril (esse dia será grátis).
Não dá para perder, pois são fotos que já viajaram o mundo, com exposições em Paris, Estados Unidos, Israel, Portugal, Espanha, Brasil, entre outros. Sioma Breitman usava, segundo uma das curadoras da exposição, quase sempre uma única fonte de luz, era um escultor de luz e sombras, pois ele realmente fazia o que queria com essa única fonte de luz. Meu primo Wremyr Scliar conheceu o Sioma, e numa entrevista descreve como era esse artista que precisa ser mais conhecido. Relembra os laços que ligam as famílias Breitman e Scliar desde que saíram da Ucrânia: “Sioma morou um tempo em Cachoeira do Sul, e seus irmãos eram casados com minhas primas-irmãs. A relação com Sioma era estreita, já que ele se ligava por esses laços de parentesco aos Scliar. Foi nesse período, final dos anos 1940, que conheci Sioma. Eles sempre vinham de Cachoeira do Sul para os aniversários e visitas aos demais membros da família Scliar”.
“Desde cedo, ainda adolescente, Sioma interessou-se pela fotografia, inicialmente como aprendiz num estúdio em Kiev”, segue contando Wremyr. “Ele participava ativamente da vida comunitária judaica no bairro Bom Fim. Extrovertido, uma figura elegante, com voz e opiniões muito firmes, ideias avançadas. Me lembro de dois episódios, típicos da sua personalidade. Ao final da Segunda Guerra, na Praça da Alfândega, durante a celebração da vitória dos aliados, ele retirou seu manto vermelho e pediu para que fosse hasteado, incluindo assim a União Soviética na homenagem que se realizava. Como a banda militar não possuía a partitura do hino soviético, Sioma propôs que ela tocasse novamente a Marselhesa, que fora tocada em homenagem à França. Criou o primeiro curso de russo da UFRGS. E, no auditório daquela universidade, foi o leitor-intérprete, instantâneo, na cabine de som, das legendas em russo de um memorável festival de cinema russo. Sioma, mais do que fotógrafo de personalidades, era, ele mesmo, uma personalidade humana e criadora, respeitado e admirado.” Sugiro a quem se interessar um belo curta-metragem sobre Sioma Breitman que está no YouTube, feito pela fotógrafa Eneida Serrano e uma grande equipe.
Por fim, na exposição há uma foto de 1960, com integrantes do grupo alemão Zugspitz Artisten, que caminharam num cabo de aço da Prefeitura Nova ao Edifício União. A foto foi tirada quase da altura do equilibrista, ele está de costas, com um capuz preto. Uma multidão assistiu ao espetáculo, e, se olharem bem, verão que eu estava lá no meio da multidão. Nunca vi nada igual. Acreditem, não dá para perder as fotos artísticas de Sioma Breitman, um amante da cidade e do País, que veio da Ucrânia para Porto Alegre e, por ser sábio, ensinou: “A técnica se aprende, o conhecimento se compartilha, e o talento se exercita”.
Heinrich Heine(1797-1852) foi um poeta, reconhecido universalmente, ao lado de Goethe e Rilke, teve em Sigmund Freud um dos seus milhares de fãs. No livro “O mal estar na cultura”, talvez o mais lido da obra freudiana, consta essa história escrita por Heine:“Índole pacífica. Desejos: cabana modesta, telhado de palha, porém uma boa cama, comida gostosa, leite e manteiga bem frescos, flores em frente à minha janela, belas árvores defronte à porta; e se o bom Deus quiser me fazer totalmente feliz, que me conceda a alegria de ver, nessas árvores, cerca de seis ou sete de meus inimigos enforcados. De coração comovido hei de perdoar, antes de suas mortes, todas as infâmias que me infligiram em vida- sim, temos que perdoar nossos inimigos, mas não antes de serem enforcados. Perdão, amor e compaixão”.
Essa piada (só para os que sorriram), expressa os desejos agressivos inconscientes, ela surpreende ao final pois começa com a declaração suave e pacífica de Heine, conclui com violência surpreendente. Heine por expressar duras verdades aos prussianos teve opositores raivosos, tanto que se exilou em Paris.
Por que se ri de uma piada? O riso ocorre porque há uma suspensão da inibição, e parte da energia psíquica se torna livre, e assim se encontra uma via de descarga na risada. O prazer procede de um alívio de tensão. Isso deve-se ao fato de que um pensamento pré-consciente é abandonado à elaboração inconsciente, e o resultado disso é captado imediatamente pela percepção consciente. A chegada de uma representação inconsciente na consciência gera prazer, é o riso da piada. Freud define a piada como expressão de uma surpresa, a piada revela o sentido do absurdo, tudo semelhante ao modo infantil de pensar. Rimos das piadas como se, naquele momento, fôssemos crianças que desfrutam da graça. Jacques Lacan, em seu seminário As formações do inconsciente, escreve que o prazer provocado pela piada se deve ao retorno do período lúdico da atividade infantil. Enfatiza a analogia entre a piada, o sonho, o ato falho e o sintoma. Ele conclui afirmando: “a piada restitui o gozo e gera o prazer da surpresa e a surpresa do prazer”
A piada é uma das provas que o prazer só pode ser entendido nas relações com os demais, como a primeira experiência de satisfação que o bebe viveu. Todas as identificações que formam a personalidade derivam das relações com os pais e familiares. As identificações que constituem o sujeito vêm sempre de fora. As marcas psíquicas do inconsciente foram primeiro externas. Não é difícil observar como um bebê depende de forma absoluta de alguém que o alimente, cuide e ampare. Nenhum animal nasce mais dependente que o ser humano.
A piada é definida por quem escuta ao ser surpreendido pelo final da história. Há um aumento de tensão ao longo da piada, pois não se sabe o final. A piada oferece para quem escuta um prazer estético semelhante ao da obra de arte, um prazer que estimula o viver. Relacionar a palavra piada com a sofisticada palavra inconsciente surpreende, mas é só uma das provas que uma piada revela os desejos eróticos ou agressivos que estavam recalcados.
A piada revela o inconsciente, o outro lado, assim como os humoristas estão sempre a nos surpreender gerando graças até das desgraças. Exemplo recente é a cantora e compositora Rita Lee que chamou seu tumor maligno de “Jair” numa homenagem a Bolsonaro.
Cientistas chineses descobriram que nostalgia pode, sim senhor!, ter efeito analgésico, reduzindo, em alguns casos, a percepção de dor física. E tem mais. Se você pensou apenas em fotos antigas, daquelas em preto e branco, coladas em álbuns vestidos em tons de amarelo, enganou-se. O efeito analgésico se estende a músicas, filmes, histórias, cheiros e sabores. Portanto, ilustre passageiro, não se acanhe em derramar uma furtiva lágrima emocionada se navegar em lembranças significativas. Você estará não apenas nutrindo-se de prazer e construção afetiva, mas defendendo-se melhor das dores de viver.
Esta semana começa a celebração do Pessah, uma das principais festividades do calendário judaico. Talvez a liberdade seja a principal marca por trás das reuniões familiares que recontam, a cada ano, a história do fim da servidão hebreia no Egito antigo. Disso tratarei adiante, agora fico nas imagens nostálgicas dos meus Pessahim anciãos. São fotografias na parede da memória, mas, à diferença dos retratos itabiranos do Drummond, não costumam doer. Ao contrário. Aliviam e não se cansam de criar vida e novos significados.
Como nos desejos de qualquer criança, já sonhei que a família original jamais se desfalcaria. Aquela gente seria para sempre. No jantar de Pessah, o time vinha completo. Depois de uma rápida leitura da história tradicional, a conversa adornava o caldo de galinha fumegante, onde boiavam soberanos os kneidlach (bolinhos de farinha de matzá, o pão ázimo consumido no Pessah), evoluía para o guefilte fish invencível (bolinhos de peixe), salpicados com hrein (raiz forte), fazia um pit stop no ovo cozido mergulhado em água salgada e desembarcava, lânguida, no ferfale com frango. As crianças, hipnotizadas por aquele festival de aromas e sabores, eram convidadas a cantar músicas típicas. O Menino adorava o Avadim ainu (fomos escravos, agora somos homens livres) e o Ma nishtaná (por que esta noite é diferente das outras?). Por breves momentos, aquela comunhão parecia eterna. Homens e mulheres esqueciam suas dores e angústias, confraternizavam, sorriam sem freios, reconheciam-se nas memórias comuns. Minha fascinação por aqueles encontros não conhece limites.
Como antecipei linhas acima, no Pessah se recorda a saída dos hebreus do Egito antigo. O povo egípcio foi duramente castigado pela recusa do faraó em libertar espontaneamente seus escravos hebreus. O deus da história, juiz e carrasco, é implacável e vingativo. Aplicou, com extrema violência, uma punição coletiva, indiscriminada, selvagem. Mesmo que, crianças, não tenhamos percebido, ali estava uma demonstração evidente de poder absoluto. No filme “Crimes e pecados”, meu predileto na obra do Woody Allen, há uma cena do jantar de Pessah. Ali entram em confronto as visões religiosa e laica da libertação dos escravos hebreus. Prefiro, sem dúvida, a laica, que destaca o significado da liberdade. É o imperativo da razão infiltrando-se na narrativa mitológica.
Cada época tem seus faraós, opressores de diversos matizes e coturnos. A quais servidões estamos sujeitos nos tempos que correm? O que nos ameaça e amedronta? Na fila quilométrica dá para fazer alguns destaques. A gente não consegue sequer respirar sem o risco de morrer intoxicado. Segundo a Organização Mundial da Saúde, quase toda a população mundial (99%) respira ar poluído que faz mal à saúde. A poluição do ar é responsável por cerca de 7 milhões de mortes por ano. Nosso modo de vida é suicida.
O que dizer da solidão, que atinge proporção de epidemia no mundo? A comunicação direta, calorosa, é cada vez mais substituída por tralhas eletrônicas, que abrem um mundo ilusório, mas tentador e espetaculoso. Bom exemplo desta servidão é o TikTok, que propaga vídeos curtos e tem mais de 1 bilhão de usuários. O público-alvo, principalmente jovens, costuma passar muitas horas com olhos vidrados na tela do celular. A ciência comprova: quanto mais tempo ficam, mais demandam novas imagens. É um poder viciante que se assemelha ao tabaco e a certas drogas pesadas.
As fronteiras entre o público e o privado estão implodidas. É a cultura do buraco de fechadura, na qual acabamos prisioneiros de curiosidades tão mórbidas quanto paralisantes. Estamos famintos por um pouco de paz, de diálogo, mas no cotidiano somos prisioneiros de sectarismo, fanatização, guerra real ou virtual, movimentos puramente musculares. Como disse Tostão, “há cada vez mais pessoas que não querem aprender. Preferem a repetição, a polarização e a visão estreita de só enxergar e escutar o que está de acordo com as próprias convicções”.
Para além da repetição mecânica de uma tradição, o Pessah pode ser uma boa ocasião para pensar sobre o quê nos agride, sufoca, impede de ter uma vida mais livre e criativa. Sobre, enfim, os faraós e as pragas da modernidade. Não custa nada sonhar que essas reflexões sejam apenas um primeiro passo para transformar de verdade os grilhões em liberdade pessoal e coletiva.
Já ia pingar o ponto final, quando senti um leve tremor numa foto pendurada na parede da memória. Espantado, vi o tio Bóris se levantar da mesa do Pessah, colocar o rosto para fora da moldura e fazer um psiu categórico. Aproximei-me e ouvi o audaz bessarabiano dizer: Main taiere quind, querido Menininho, o texto até que não está ruim, mas, cá entre nós, e falo em nome de toda a família, não faltou alguma coisa? O principal, talvez, já que falou em libertação? E piscou a sabedoria milenar do seu shtetl. Dei um tapa na testa! Claro, é como dizia um personagem do Scholem Aleichem: Der ikar shahahti. O principal ficou de fora. Bóris retornou à mesa bidimensional e o vi levantando uma taça de vinho junto com o resto da trupe. Lehaim, disseram, à vida! Fiz um brinde imaginário e acrescentei o principal ao texto, o tijolo que faltava na jornada contra a tirania: Fora Bolsonaro!
As semanas passavam, os meses passavam, e era sempre tudo igual: o paciente quase não falava, dava para contar suas palavras nas mãos, e quando eu fazia perguntas ele respondia sempre: “Mais ou menos”. Depois de muitos “mais ou menos”, sem saber o que dizer ou fazer, me ocorreu perguntar-lhe o que fazia quando criança, do que mais gostava de brincar. Contou sobre um autinho que manejava no hall do edifício onde morava e desviava das colunas e adorava essa brincadeira diária. Fiquei contente, e ele disse como na infância sabia brincar tão bem e agora como adulto era tudo mais ou menos, mais menos que mais. Não sei se foi isso que disse ou só a recordação do passado, mas após pouco tempo veio com uma novidade: comprara a melhor caixa à venda na cidade, pois era baterista além de ser funcionário federal. Quando contou a novidade, eu disse: “Enfim fizeste algo excelente e não mais ou menos”. Uma importante mudança começava a ocorrer nele e na nossa relação.
Mudar de casa, mudar de cidade, são vontades possíveis. Diferente e mais difícil é mudar a si mesmo, pois o que é possível ou não mudar não se sabe ao certo. Mudança é um movimento, uma metamorfose, como o poema de Mario Quintana sobre o amor intitulado “Carreto”: “Amar é mudar a alma de casa”. A mudança é uma dança de amor, em que é preciso alterar o ponto de observação, ver a vida sob outra ótica, outra lógica. A dança da mudança é rever o passado através de novas histórias que diminuam as dores das identificações. Enfim, mudar é diminuir a condenação ao peso e aumentar a leveza de viver.
Quem busca um tratamento, uma análise, está desejando melhorar. As questões mais frequentes são como viver melhor, entender-se, superar seu tédio, conquistar um entusiasmo de viver. Construir curativos dos vazios que liberam energias libidinais para novos laços amorosos. Rever o passado, entender seus pais, irmãos, desprender-se dos apertados laços familiares. Recuperar, aos poucos, a capacidade de jogar, brincar, que se tinha quando criança. Aliás, foi o que ocorreu com o jovem baterista de “rock”, pois ao lembrar a sua brincadeira trouxe o passado para o presente e ajudou a despertá-lo da letargia. Um aprendizado essencial na vida adulta é o quanto cada pessoa aprende a se fazer cargo de si, aprendendo a ser sua própria mãe e o seu próprio pai, a tomar conta de si mesmo.
É um alívio encontrar certa leveza de viver ao recuperar o poema interrompido, como ocorreu com o baterista. Os desafios da mudança se enfrentam com as tendências de conservar o conhecido, o poderoso masoquismo moral. Quando o analisando consegue despertar sua curiosidade sobre como foi aprendendo a ser o que é, a partir das identificações pode ir se abrindo, na transferência, às novas janelas que permitem viver desde novas perspectivas. Os desafios de mudança em psicanálise são tanto para o analisando como para o analista, uma abertura às metamorfoses é o viés poético de existir. Talvez esteja escrevendo sobre mudanças como um desejo de abraços com música na pós-pandemia, na pós-devastação do país, e da Ucrânia. Desafios de mudanças.
P.S.: Escrevendo sobre mudanças, desejo indicar um livro diferente, repleto de fotos e alguns textos saborosos, como “As curvas da Protásio Alves”. São registros de desenhos, grafites nas paredes e nos muros de Porto Alegre. “poalaroides urbanas” é uma obra revolucionária do escritor Breno Serafini, que passou dez anos fotografando como a periferia é criativa ao embelezar a cidade. A obra está à venda na Livraria Bamboletras e com o autor: breno@brenoserafini.com.br, WhatsApp 51 98579.0179 (Breno ficará feliz se vocês escreverem a ele e comprarem o livro).
Ao José Sambursky, suave habitante das minhas origens.
Não tinha muitas expectativas. Os últimos filmes do Woody Allen andaram bem abaixo de suas obras-primas (Crimes e pecados, Hannah e suas irmãs, A era do rádio, meus prediletos), todas com fortes referências autobiográficas e o indisfarçável – e ácido – humor judaico. De qualquer modo, grife é grife. Submetido a um boicote tão impiedoso quanto histérico e injustificável, Woody superou minhas expectativas e fez lembrar seus momentos mais criativos em “O festival do amor” (tradução horrorosa para “Rifkin’s festival”), produção de 2020.
A relação conflituosa de Woody, e certamente de meio mundo, com a Morte, é carimbo na testa do cineasta. Ele usa o humor para acalmar a aflição por saber, como todos nós, o fim inegociável. É uma de suas obsessões recorrentes, que deriva para a folclórica hipocondria. Certa vez, disse: “Não tenho medo de morrer. Só não quero estar lá quando isso acontecer”. Em “Rifkin’s festival”, Woody homenageia seus ídolos cinematográficos, em especial Ingmar Bergman. Lá está, satirizada, a famosa cena do jogo de xadrez da Morte com Antonius Block, cavaleiro medieval recém-chegado de uma Cruzada. Costuma ser a primeira lembrança de quem assistiu “O sétimo selo”, de 1956.
No filme de Bergman, Block é atormentado por uma crise de fé. Que deus seria aquele, mudo, invisível, indiferente ao sofrimento que devastava a Europa com a Peste Negra? Divindade insensível à tão humana busca por um objetivo para viver! Dialoga com a Morte, que não teme (“meu corpo está preparado, minha cabeça não”), e através dela tenta descobrir se há algo “depois”. O jogo de xadrez é oportunidade para a Morte (excepcional interpretação de Bengt Ekerot) mostrar paciência e total independência de padrões morais e crenças religiosas. Ela dá razão, concluo, ao que disse, no século XVII, Cyrano de Bergerac: “E depois, morrer não é nada, é terminar de nascer!”.
Antes de voltar ao Woody, breve parênteses. Em entrevista sobre seu filme, ele critica a infantilização da atual indústria cinematográfica, com seus blockbusters de histórias em quadrinhos. “Se eu tivesse onze anos, adoraria. Acontece que já sou adulto, gosto de personagens mais complexos”.
Adiante. Mort Rifkin, intelectual e alter ego do Woody, está insatisfeito com os rumos de sua vida. Não consegue escrever um livro, “tem que ser uma obra-prima”, não faz por menos, sua esposa o trai, e ele se frustra quando tenta flertar com uma mulher bem mais jovem. É nessa hora atormentada que surge a Morte (Christoph Waltz, excelente) e propõe um jogo de xadrez.
Os diálogos na frente do tabuleiro são geniais. A Morte, condescendente, didática e algo entediada, mostra ao melancólico Rifkin que deve aceitá-la ou será condenado a morrer muitas vezes. “Não aguento ver um pobre coitado estragar a vida porque não reconhece o inevitável”, comenta, num pedaço que remete a outros fragmentos obsessivos de filmes do Woody. Respondendo à reclamação de Rifkin de que sua vida era vazia, a Morte sentencia: “A vida não tem sentido para ninguém, mas não significa que tenha que ser vazia”. Batata. Buscar sentidos para a vida, trabalho que se renova diariamente, é a única forma de ofuscar, temporariamente, a sombra insistente do grande Buraco Negro. Estar envolvido em trabalhos prazerosos, em relações pessoais interessantes, em leituras estimulantes, em planos que geram filhotes, combate uma espécie de maldição exposta por Louis-Ferdinand Céline: “A maior parte das pessoas morre apenas no último momento, outras começam a morrer e a se ocupar com a morte vinte anos antes, e às vezes até mais. São os infelizes da terra”.
A Morte se despede de Rifkin (“sua hora ainda não chegou”) recomendando-lhe que comesse muitos vegetais e frutas, fizesse exercícios leves, mas regulares, não fumasse. Ah, e que não esquecesse da colonoscopia! Woody Allen em grande forma. Se fechar os olhos, sou capaz de ouvir estas recomendações na voz de um ancestral, ditas em ídish e com gestos típicos. Oi vei!
No final de “O sétimo selo”, o casal de artistas itinerantes e seu pequeno filho são os únicos que sobrevivem à blitzkrieg da Morte. Um recado de Bergman sobre a Arte? Possivelmente sim. Chama a atenção o contraste entre a desorientação melancólica do cavaleiro medieval, com suas dúvidas insolúveis, e a leveza, o dom do improviso, a esperança sorridente, a alegria de criar, dos artistas. Fez-me lembrar de Ferreira Gullar: “A arte existe porque a vida não basta”. Bergman, Allen, grandes artistas. Diretores de estradas que fazem a vida permanecer.
Perguntado sobre a passagem do tempo, Mário Lago, que fez de um tudo na vida, de oficial nazista na novela Sheik de Agadir (com o inesquecível tapa-olho!) a compositor de Aurora e Saudades da Amélia, tinha sua fórmula para seguir vivendo: “Eu fiz um acordo com o tempo. Nem ele me persegue, nem eu fujo dele. Qualquer dia, a gente se encontra e, dessa forma, vou vivendo intensamente cada momento”.
Primeiro a peça foi só “EU”, mas com o tempo ela mudou para “Eu é Nós” e aí seguiu a frase poética: “Eu é outro”, do poeta Rimbaud. Tanto essa frase como o novo título da peça revelam o quanto em cada um há outro, há outros, há uma pluralidade de pessoas psíquicas em cada pessoa. É como Fernando Pessoa escreveu: “Não sei quantas almas tenho. Cada momento mudei. Continuamente me estranho.” Essas diferentes almas, os outros, constituem cada um, são as identificações, essa pluralidade de pessoas psíquicas que convivem em conflito na vida da gente. Essa pluralidade é conhecida como as identificações que começam cedo num bebe e são essenciais, pois cada pessoa se constitui a partir da assimilação de aspectos, atributos dos outros. São incorporações que vão ocorrendo através da via oral em especial e, aos poucos, vão se formando as características de cada um, até seu ideal de eu, o super eu. As identificações também são exigências conflituais, não são harmônicas, entende-las leva mais que uma vida. As artes, os artistas, ajudam a viver, bem como o humor e a capacidade de brincar.
Uma de nossas artistas é Suzana Saldanha que já era uma conhecida atriz em Porto Alegre quando decidiu ir viver no Rio de Janeiro para novos desafios. Agora lança o livro “Nunca pensei em ser atriz” da Suzana Saldanha, onde escreve suas aventuras como atriz, diretora, professora de teatro. Incluiu no livro uma carta que escrevi a ela quando o espetáculo “Eu é Nós”, já estava por estrear:
“Porto Alegre, oito de dezembro de 2010”.
Suzana
Apesar da velocidade do e-mail, prefiro o calor de uma carta. Se eu tivesse que escolher uma só palavra para definir o século que começa, poderia ser desamparo. Hoje todos nós precisamos nos confrontar com o desamparo num mundo sem norte, onde muitos se perguntam para onde ir. Felizmente temos a arte, que resiste e insiste em não sucumbir. Por isso artistas desenham, fotografam, escrevem, cantam, atuam, dançam. A arte nos ampara e é sempre bom estar perto dos artistas e dos nossos essenciais amigos. O amigo é um espelho extrafamiliar que dá sustentação a quem a gente é. E manter um velho amigo aumenta a felicidade pelas graças e desgraças vividas em comum. Cuidemos de nossos amigos que nos cuidam, porque o encanto de viver depende das parcerias que aumentam o prazer de viver.
E, por fim, segue firme a âncora que procuramos nos momentos de grandes desamparos- que é o amor. Mas também o amor, como tudo, um dia pode terminar, desiludir, gerando um terrível desamparo, ou seja, nada nunca é seguro. Já que vivemos em tempos de insegurança pública e privada, saibamos ver os obstáculos como desafios para reinventar a vida a cada dia. Se não, crescem os adictos de remédios, de comidas, drogas, igrejas, seitas salvadoras, plásticas. Tudo para preencher seus vazios. Enfrentar o desamparo é fundamental, pois é nesse enfrentamento que se joga o destino de cada um.
Tu, Suzana, tens mesmo que fazer uma peça com esse tema, desamparo, onde estejas só no palco, só tu e toda tua tribo te apoiando. Estás pronta de verdade. Boa noite. Um beijo, Abrão.
P.S. Amiga, talvez eu nunca tenha dito isso: quando o Eu é Nós, ocorre uma metamorfose, uma mudança, porque o sofrimento só pode ser aliviado quando nós sentimos que temos irmãos da vida.
“Eu é Nós” será apresentada no Teatro São Pedro na quarta feira dia seis de abril de 2022, começando às 19 horas, logo cheguem antes. Sonho que vocês possam ir nesse dia do espetáculo e do lançamento do livro “Nunca pensei em ser atriz” da Suzana Saldanha. Há depoimentos no livro entre os quais lembro uma carta de Caio Fernando de Abreu, mensagens de diretores de teatro como Aderbal Freire Filho, Maria Helena Lopes, Luís Artur Nunes. Trabalhou no cinema com Domingos de Oliveira e foi premiada com kikito em 2002. Tanto o livro como o espetáculo revelam a vida empolgada da Suzana.