Intimoratas

Intimoratas

A cena seria apoteótica. Tambores rufando, equipes de fotógrafos por toda parte, correspondentes internacionais zapeando sem parar. Chegara, enfim, o grande momento. Os tambores param, a expectativa da grande massa cresce, é quase palpável. E então … caem as máscaras! Urros, desmaios, corre-corre, fogos ao léu, lágrimas e soluços. Depois de dois anos de isolamento forçado, minha neta veio dormir aqui em casa e, pela primeira vez, ficamos sem máscaras. Curiosos, olhamos a pele dos rostos com uma cor esquisitona, os narizes que jaziam adormecidos na memória, o sorriso que tanto merecíamos. Imaginei a tal cerimônia apoteótica, solene, seguida de festa popular, palmas na vizinhança. Que nada. A queda da Bastilha, digo, da necessária proteção facial, deu-se com sobriedade, passou quase despercebida, como se todas as restrições tivessem durado apenas uma noite mal dormida. E fomos à vida.

A neta não dorme sem ler alguma coisa. Me pediu uma sugestão. Consultamos juntos as lombadas da pequena biblioteca infantil e tiramos um livro que ela não conhecia. Tratava-se de uma troca de correspondências fictícias, primorosamente impressas. Desses livros em que a experiência da leitura se combina com a vontade de tocar e cheirar. Em algumas páginas, havia envelopes com os textos das cartas, tornando-nos voyeurs das intimidades dos personagens. Uma delas estava datilografada, estilo que a neta desconhecia. Como é que se imprimiam aqueles caracteres? Pergunta natural para alguém da geração dela, que já nasceu durante o reinado de laptops e adjacências. Disse-lhe que tinha uma máquina de escrever, testemunha silenciosa de muitos trabalhos. Prometi desarquivá-la no dia seguinte.

Café da manhã tomado, subi numa escada e perturbei o sono já antigo da heroica Hermes Baby. Modelo que guarda certo parentesco com a “intimorata Remington” do Stanislaw Ponte Preta. Coloquei-a na frente da minha pequena querida. Olhou para as teclas, o cilindro preto, a fita rubro-negra, as engrenagens misteriosas. Mostrei-lhe como colocar o papel e, de brincadeira, usando uma linguagem que ela domina, disse-lhe que era possível digitar e imprimir ao mesmo tempo. E começou uma fantástica viagem por tempos tecnológicos.

No início, estranhou a força que precisava imprimir aos teclados para que as letras aparecessem. Decepcionou-se ao perceber que, cometido um erro, não era possível apagá-lo. Aos poucos, com desenvoltura surpreendente, entendeu o espírito da coisa. Parecia fascinada com a visibilidade das tarefas que a máquina lhe permitia. Via os tipos se movimentarem para se transformarem em letras, girava o cilindro quando queria mudar a linha. Ela via as entranhas do processo. Master of her domain. No laptop, tudo é caixa preta.

Saiu maravilhada do tec-tec-tec. Catou milho à beça. Soube mais tarde que, ao chegar em casa, pediu à mãe que comprasse uma igual. Eu imaginava que máquinas de escrever já tinham sido banidas do mercado. Que tivessem tido o mesmo destino de penteadeiras, cristaleiras e proficiência em latim. Ledo e ivo engano. Elas não apenas existem, como alguns modelos custam mais caro do que certos laptops. Inventadas em 1867, foram equipamento obrigatório em redações e empresas. Velhos classificados informam que vagas para secretárias só seriam preenchidas por mulheres que tivessem habilidade, entre outras, em datilografia. Cursos de datilografia tinham turmas cheias, a diplomação neles era chave para ascensões profissionais.

Não creio que a nostalgia ocupe o mercado de computadores. Há, no entanto, espaço para uma guerrilha. Gente assustada com a total perda de privacidade no mundo virtual anda recorrendo às velhas máquinas de escrever. Os conteúdos escritos só podem ser lidos pelo datilógrafo. Na cauda deste cometa, surgem profissionais que as consertam e mantêm, máquinas usadas são muito disputadas em leilões. A precursora do Word exibe surpreendente longevidade.

A velocidade do mundo atual reforça, em permanente conflito, o desejo de mais vagar e mais tempo para os mergulhos nas nossas vísceras existenciais. Desejo impossível? Numa velha história da revista Mad, aparece uma senhorinha produzindo bolos artesanais que, aos poucos, passam a ser vendidos numa pequena loja. O negócio prospera, a lojinha se transforma numa enorme linha de produção industrial. Depois de um tempo, aparece ao lado da fábrica uma lojinha, com outra senhorinha, as filas começam a aumentar… É isso.

Abraço. E coragem.

Naquela tarde

Naquela tarde

Acordou naquele 15 de novembro de 1963 obcecado com Ronald Cordovil. Ficava imaginando como seria entrar na rua Augusta a cento e vinte por hora. Também especulava: que coragem ficar repetindo versos inspirados como “hi-hi Johnny, hi-hi Alfredo, quem é da nossa gang não tem medo”!  Junto com Ray Charles cantando sem parar I can’t stop loving you, eram blockbusters do programa radiofônico Peça bis pelo telefone, durante o qual as precárias linhas telefônicas ficavam impraticáveis. Não dava para cultivar um gosto musical muito diferente. Os adultos da casa iam, quase invariavelmente, de Ray Conniff, com muito metal e bocca chiusa no bagageiro, Herb Alpert, Domenico Modugno, boleros triviais e alguma coletânea melosa da Reader’s Digest.

Assoviando Neurastênico, também do Ronald, viu a previsão do tempo no jornal. Pura loteria. O índice de acertos era tão pequeno que passava a impressão de que os meteorologistas tiravam conclusões no par ou ímpar. Tempo nublado, com possíveis pancadas. Texto padrão, nada que alarmasse. Resolveu então ir ao Maracanã. O Flamengo completava oito anos de abstinência, o último título carioca conquistado em 1955. Na terceira partida da melhor de três contra o América, o zagueiro rubro-negro Tomires, um gentleman com sangue nas chuteiras, quebrou a perna do atacante americano Alarcón. O grêmio de Campos Sales ficou, então, com dez jogadores (não existia a chamada regra três, que permite substituições durante a partida). Com o alagoano Dida endiabrado, o Flamengo enfiou uma goleada de 4 a 1, chegando ao segundo tricampeonato de sua história.

O jogo era Flamengo e Vasco. Nenhum dos dois tinha um grande time. No Flamengo, os poucos destaques eram o goleiro Marcial, os laterais Murilo e Paulo Henrique e o ponta-direita Espanhol. O centro-avante Aírton Beleza era do tipo trator sem freio. Eficiente, sem frescura. A posição na tabela dava para sonhar com uma arrancada para o título. Os daquele tempo lembrarão que os jogos do campeonato carioca nada tinham a ver com os do desvalorizado torneio de hoje. As partidas contra os chamados pequenos costumavam ser duríssimas, especialmente quando jogadas nos alçapões suburbanos. Ruas Bariri, em Olaria, Teixeira de Castro, em Bonsucesso, e Conselheiro Galvão, em Madureira, frequentavam meu imaginário como estádios assustadores.

Na chegada ao Maracanã, chuva. E não era pouca. Mesmo com o campo pesado, o jogo foi empolgante. No primeiro tempo, o Vasco abriu dois a zero. No segundo, cinco gols. Quatro do Flamengo e um do Vasco. Do gol da vitória, guardo uma lembrança onírica. Sonho que Aírton recebe a bola quicando pela esquerda do ataque, próxima à meia lua da grande área. Ajeita o corpo e, de primeira, desfere uma meia-bicicleta mortal. Gol para os anais do futebol-arte. Se não foi assim, merecia ser. Como nas vitórias épicas que o Nélson Rodrigues só atribuía ao Fluminense ou à seleção brasileira. Naquele momento, eu pude sentir o aroma de grama molhada, o mesmo que me acompanhou em toda a infância, no matinho raquítico da vila tijucana. Afonsinho, pioneiro no enfrentamento da tirania dos cartolas, gostava de jogar em dias de chuva. Sentia prazer na corrente olfativa que misturava terra e grama molhadas.

Alguém consegue imaginar qualquer jogador de hoje falando sobre a festa dos sentidos num gramado encharcado? O Flamengo de 1963, como de resto todos os clubes de então, não tinha marcas comerciais no uniforme. A história dos times se fazia sem a mediação do capital despersonalizado, a empatia da torcida se cozinhava com paixão. Com a difusão das chamadas SAF (Sociedades Anônimas do Futebol), a tendência é agudizar o processo de mercantilização do esporte. As “peças de reposição”, como certos bocós da imprensa esportiva costumam chamar os jogadores, serão trocadas com velocidade cada vez maior. A mais-valia precisa circular, seu Valdemar! A identidade com clubes, camisas, histórias, ilusão de “idealistas”, vai para o ralo. Meu Maracanã é apenas uma memória desgastada. É tempo dos Nosferatus.

Quando saí do estádio, continuava chovendo. Voltei para casa flutuando na primeira nuvem que passou. No caminho, pensei numa trilha sonora para aquela tarde úmida e bela. Que tal Jorge Ben, rubro-negro das antigas, cantando “chove chuva, chove sem parar”? Ah, antes que me esqueça. Ronald Cordovil, mineiro de Manhuaçú, era Ronnie Cord, uma brasa nos tempos da Jovem Guarda.

Abraço. E coragem.

Para não se conformar

Para não se conformar

Talvez o melhor da vida é a gente não se conformar, o melhor é buscar o caminho em que cada um se perceba singular. Esse encontro consigo mesmo, livre da dependência coercitiva das ordens familiares, sociais, morais, é uma longa travessia pelo desconhecido. A gente desde criança vai recebendo orientações do que ser e do que não ser, há em cada ser humano uma forte tendência a submissão. Submeter-se aos mandatos e às ordens dos pais, pois só assim a gente se sente amparado e assim se protege da maior angústia da vida que é o desamparo. Em outras palavras, é preciso se proteger da ameaça de não ter amparo, e aí a forma de subjetivação não é ser singular, mas plural, um membro obediente dos desejos da família.
Portanto, o objetivo do tratamento não é se conformar com as normas sociais, nem se encher de prazeres absolutos, mas que cada um possa descobrir que é singular. Somente assim é capaz de inovar em seu pensamento e em seus laços, é capaz de criar. Atravessar os abismos do desamparo em busca de si mesmo, em busca do seu desejo, de lutar por uma vida própria, autônoma. Para não se conformar, para ser rebelde, requer uma mudança de ideia.
A primeira história de rebeldia é a do conde Cosme de Rondó, no ano de 1767. No dia 15 de junho, o conde, com doze anos, filho do barão, afirmou que não comeria “escargots”. Naquela época, essa era uma desobediência grave, e seu pai, o barão Armínio Chuvisco de Rondó, perguntou ao seu filho: “E então?”; e Cosme disse: “Não e não”. Escutou na hora: “Fora da mesa”, e Cosme, em seguida, se dirigiu a um carvalho e lá trepou, da maneira como estava vestido. Houve um diálogo tenso com o pai que o ameaçou, já cansado: quando descesse, se veria com ele. Cosme disse confiante: “Não vou descer nunca”. Assim começa a história do livro “O barão nas árvores”, do escritor Italo Calvino. Cosme manteve a palavra, e a história é o que ocorre com esse quase menino que decidiu não comer “escargots” e viver em cima das árvores toda sua vida. De cima das árvores Cosme pode ver a poesia da natureza. “A primavera onde os esquilos amavam-se com movimentos e gemidos quase humanos, os pássaros se acasalavam batendo as asas, e os porcos-espinhos pareciam ter se tornado macios para fazer os mais doces abraços.” Cosme viveu sempre em árvores, onde encontrou gente que vivia lá, onde pôde conquistar uma jovem de seus sonhos, fez sua vida, encontrou sua singularidade.
A segunda história ocorreu há muitos anos, numa quarta série ginasial, no Ginásio Israelita Brasileiro. A direção da escola determinou que devíamos escolher o professor paraninfo e o fizemos com unanimidade, seria o professor de Matemática. A turma estava feliz, começávamos a nos despedir do querido colégio, e, sem exagero, era uma turma muito boa. Eis quando ficamos sabendo que a direção dissera não à escolha, pois esse professor não era da comunidade. Revolta da turma que deveria ter em torno dos 15 anos mais ou menos. Ficamos indignados e sugerimos um funcionário querido. Então o diretor, irritado, suspendeu a turma de um churrasco que haveria no domingo. Turma chocada, silenciosa, quando um aluno que nunca tinha sido expulso ou suspenso, disse: “Turma, no domingo ao meio-dia, vamos nos encontrar na frente do colégio e vamos todos à churrascaria Sherazade”. O diretor fulminou raivoso: “Abrão, estás suspenso por um mês”. Foi meu primeiro ato de rebeldia, e não pedi diminuição de pena, nem senti pena de mim. Como meus pais viajavam, me senti mais tranquilo e na mesma época peguei uma hepatite e descobri em casa o mundo mágico dos livros. Li os trinta dias que fiquei em casa e hoje agradeço pela pena do velho diretor da velha escola que me abriu o caminho dos livros. O melhor da vida é a gente não se conformar, mas desenvolver a capacidade de desejar, pensar, indo atrás dos sonhos. As suspensões passam, os livros ficam.
Dois pontos

Dois pontos

O europeu não pôde fazer-se homem senão fabricando escravos e monstros (Jean-Paul Sartre)

A essa altura vocês já devem estar saturados de imagens e comentários sobre a invasão da Ucrânia pela Rússia. Conflitos “menores”, ou seja, sem o peso geopolítico do leste europeu e os enormes interesses econômicos envolvidos, jamais mereceram sequer fração da cobertura que este anda recebendo. A seletividade não é nova, daí que não me espanto. Para os médicos legistas, mortos iraquianos, iemenitas e somalis não são diferentes de cadáveres russos e ucranianos. A lógica “civilizada”, no entanto, caminha noutra direção. Se entendermos a letra num sentido mais amplo, tinha razão a Elza Soares quando cantou “a carne mais barata do mercado é a carne negra”.  Negra pode ser estendida, metaforicamente, para toda gente despossuída, pobre, oprimida, invisível. O humanismo seletivo é tão abjeto quanto a indiferença e o preconceito.

Não precisam se assustar. O cronista não pretende adicionar novas interpretações às incontáveis análises sobre o conflito. Há no mercado sapiências que cheguem. Tenho cá minhas opiniões sobre ele, mas vou beber Millôr Fernandes: “Livre pensar é só pensar”. Seguindo essa trilha, quero apenas sair da superfície em dois temas que sobrevoam tudo o que está acontecendo no conflito russo-ucraniano.

O primeiro aparece num artigo do sociólogo Bernardo Sorj. Conheço-o há anos. Já me solidarizei institucionalmente com ele, em 2016, quando foi vilmente atacado pelo então cônsul honorário de Israel no Rio de Janeiro. No artigo Putin, Bolsonaro e certa esquerda, publicado n’O Globo, afirmou que “os Estados Unidos, apesar das várias brutalidades cometidas, protegem a ordem mundial do capitalismo democrático”. Fiquei intrigado. Difícil acreditar que o Bernardo não tenha percebido a contradição abissal entre brutalidades e qualquer coisa remotamente concebida como democrática. Estamos fartos do discurso hipócrita dos campeões da democracia, cujas ações intervencionistas sempre trouxeram destruição e morte. Que tipo de ordem democrática se constrói com arrogância imperial? Quantos mortos Kissinger, McNamara, Kennedy, Lincoln Gordon, Johnson, Nixon, George W. Bush, carregam em suas sombras sinistras? Que sanções o mundo acovardado aplicou quando os Estados Unidos usaram armas químicas no Vietnã (napalm) e biológicas em Cuba (bombardeio com pragas para destruir plantações)? Que punição mereceram pela destruição do Iraque, baseada numa mentira escandalosa e deixando cerca de meio milhão de mortos e uma legião de desterrados? Uma frase resume o “capitalismo democrático” de que fala Sorj. O carniceiro Henry Kissinger disse que não via nenhuma razão para permitir que qualquer país “se tornasse marxista” só porque “seu povo era irresponsável”. Referia-se ao Chile e a consequência foi um golpe sanguinário. Com apoio “democrático”. Capitalismo e democracia, a gente não se vê por aqui. Por quê?

O capitalismo é um modo de produção muito dinâmico. Marx reconheceu isso desde cedo. No entanto, ele se assenta num processo de acumulação que gera desigualdade estrutural. Internamente, entre classes. Externamente, entre nações. Não é possível acreditar numa “ordem capitalista mundial democrática” quando, segundo a FAO, quase uma em cada três pessoas no mundo (2,37 bilhões) não tiveram acesso adequado a comida em 2020. No mesmo ano, o gasto militar global, puxado pelos Estados Unidos (cerca de 40% de todas as despesas militares), equivaleu a um ano de Bolsa Família por dia. É assim que opera o monstrengo. Ao mesmo tempo em que é capaz de maravilhas tecnológicas, como as incríveis fotos de um átomo e um buraco negro, martiriza o planeta produzindo armas cada vez mais letais, convivendo com uma fome obscena e uma distribuição de riqueza assassina, parasitando esquemas de poder excludentes e liberticidas (desde que não interfiram no livre fluxo do capital).

No final do artigo, Sorj faz um desafio político e intelectual. E esse é o segundo tema do meu interesse. Quem não quiser aceitar o mundo existente, diz, “se dissocie dele e produza teorias de um mundo alternativo”. Bingo! A nós, que não nos sentimos representados pela pantomima “democrática” e queremos, a exemplo do que escreveu Marx nas Teses sobre Feuerbach, não apenas interpretar o mundo mas transformá-lo, cabe conceber e ajudar a criar as bases de um modo de produção radicalmente justo e emancipador. Temos que estudar as primeiras experiências socialistas, seus avanços e desvios, seus acertos e erros. É, afinal de contas, nossa ancestralidade política. Herança se compreende e se avalia, não é obrigatoriamente um destino manifesto. É trabalho político para gerações, mas, como dizem os pacientes chineses, para se andar mil quilômetros é preciso dar o primeiro passo. Ainda é atual o que disse Rosa Luxemburgo: socialismo ou barbárie. E não me refiro ao socialismo do Geraldo Alckmin…

Abraço. E coragem.

Escrever para conversar

Escrever para conversar

Comecei a escrever na adolescência, mas logo percebi que era difícil essa forma de comunicação. Optei por textos curtos, convidado para escrever num jornal feito em mimeógrafo. Entretanto, bom mesmo eram as longas conversas onde me via mais solto. Um dia, já em Buenos Aires, nos começos da formação psicanalítica, escrevi um breve trabalho que foi elogiado pelo professor. Incrível, mas suas palavras me assustaram e parei um bom tempo de escrever. Na verdade, tenho escrito por tempos, às vezes sai até um livro, e depois durante anos não escrevo.
No século passado, um colega me contou que escutara alguém se referir a mim como escritor de coisinhas. Sorri, achei interessante e me ocorreu que deveria passar de escrever coisinhas para coisas. Talvez, daí surgiu o título do livro “Humor é coisa séria”. De coisinha para coisa é um crescimento, mas também porque gosto da palavra coisa, que é um significante e tanto.
Por que escrevo? Um leitor viciado termina sonhando em escrever, alguns se arriscam. Nesta semana me ocorreu que escrevo mesmo para conversar, pois escrevendo satisfaço meus desejos de diálogos existenciais em que se fala de tudo. No ano passado, antes de ser lançado o livro “Imaginar o amanhã”, que escrevi com o amigo Edson Luiz André de Sousa, sonhei com encontros. Imaginei reunir no Jardim Botânico, num sábado pela manhã, gente animada para conversar. Pensei em lugares possíveis, ora era um, ora outro, e como se faria tudo tecnicamente. Ao fim, nem falei com o sócio do livro, desisti, mas imaginar me fez bem. Na prática, no final do ano, ocorreram diversas “lives” com instituições psi sobre o livro, nas quais se matou um pouco as saudades dos encontros.
Escrever é uma forma de conversar, um meio de construir pontes com gente e perceber que as palavras se encontram. Nos últimos dois anos, andamos mais distantes, eventuais conversas por celular, atendimentos virtuais ainda, e aí aumentaram os contatos nas redes culturais. Creio que nós aqui temos construído uma rede cultural, não só rede social, onde uns escrevem, outros clicam e compartilham.
Nessa rede cultural é possível ler poemas, resenhas, ensaios, dicas de arte, enfim, falta tempo para escolher nesse menu variado. Se não há ainda encontros presenciais, bem-vindos as palavras que se abraçam, se beijam, fantasiam. Aliás, só aqui para escrever sobre a morte recente da querida Nilce Azevedo Cardoso, torturada quase até a morte na ditadura militar. Nilce foi uma amiga de sempre, conheci seus filhos desde pequenos e ambos estavam no velório. Semiramis, sua filha, cuidou dela dia a dia, noite a noite, a quem cumprimento aqui junto ao seu irmão Paulinho que mora em outro estado. Inesquecível foi ver o abraço de ambos no velório diante da mãe. Querida Nilce, uma mulher guerreira do bem, com uma força e uma coragem que iluminam.
No meio de tanta crueldade, tanta destruição, no meio das injustiças, de mortes sem fim, temos nossa rede humanista. Nos piores dias há duas maravilhas que validam a existência, como escreveu George Steiner em seu belo livro “Errata”: o amor e a invenção do tempo futuro. Sua junção pode nunca ocorrer, mas é sonho de Profetas, o messianismo, a utopia, a imaginação.
Na boa conversa um fala e outro escuta, agora é minha hora de escutar.
Tio Schula

Tio Schula

Sérgio Porto ainda nem sonhava em ser Stanislaw Ponte Preta. Morava numa casa em Copacabana, roçando a areia da praia. Lá passou vinte e quatro anos felizes. O bairro, como tudo no Rio, entrou no radar da demolição impiedosa, da reconstrução sem alma, da memória desrespeitada.

Certo dia, já no prédio que substituiu a casa, abriu a gaveta da escrivaninha onde costumava guardar contas velhas, caixas de fósforos, caderninhos de telefones que já não valiam. Quinquilharias que vão ficando, mortos que se recusam a ser enterrados. No meio delas, um envelope amarelado com alguns retratos batidos no dia da mudança. Registro “dos cantos queridos daquela casa”.

Sérgio não gostou da descoberta. As imagens o deixaram melancólico. Não dava para pegar um bonde e voltar para a escada que rangia no quinto degrau, o banco de madeira do jardim, a sala de jantar, o quintal. Resolveu rasgar as fotos. “De que vale sofrer por um passado que demoliram com a casa?”. E concluía: “Como se precisássemos de máquina fotográfica para guardar na memória as coisas que nos são caras!”.

Tinha razão o Lalau. No entanto, há outra serventia para retratos. Certo, eles podem coçar a memória imediata, mas também desencadear lembranças adormecidas ou soterradas. A imagem original, então, acaba se multiplicando e leva a lugares não percebidos no primeiro olhar. É um processo indomável.

Recebi há duas semanas a versão digital de um livro do Henrique Veltman. Passageiro da Kombi onde se abriga a torcida do América, Henrique está exilado há muito tempo em Santos. Em meio a uma saraivada de memórias, ele recorda o Colégio Hebreu Brasileiro, onde ambos estudamos. Folheio em câmera lenta. De repente, a foto. De 1960. No pátio de cimento áspero, onde ralei joelhos e estraguei muitos Congas em peladas memoráveis, adultos estavam reunidos em torno de uma longa mesa para uma solenidade. Na cabeceira percebo a careca inconfundível, dessas que têm impressão digital e registro no cartório. Só podia ser ele. Tio Schula.

Salomão Rozental nasceu em Iedenitz, pequena aldeia na Bessarábia, no início do século passado. Chegou ao Rio em 1930, fugindo da pobreza e da falta de perspectivas. Como tantos outros emigrantes, trazia no bolso os endereços de parentes de amigos da aldeia natal, que o ajudaram nos primeiros e duros tempos. Conterrâneo do meu avô paterno, acabou se relacionando com os Gruman, que, àquela altura, moravam numa casa em São Cristovão.

Junto com um amigo, trabalhou no comércio de Angra dos Reis e Parati. Lá, conta a saga familiar, introduziu um sistema de crediário, inédito naquelas bandas. As visitas aos Gruman se intensificaram quando Schula percebeu o borogodó de Eva, irmã de meu pai. Dos primeiros passeios na Cinelândia e olhares sugestivos mútuos, acabou saindo o noivado, espécie de estágio probatório das antigas, e, em 1940, o casamento.

Voltando à foto no Hebreu. A presença de Schula revela nele um ativista, voluntário na administração do colégio. Era um sistema comum em escolas judaicas. Os pais formavam um coletivo e distribuíam as tarefas, que iam da contratação de professores à contabilidade geral. Meus primos estudavam naquele colégio e Schula não se limitava a acompanhar o desempenho escolar dos filhos. Dedicava parte do seu tempo ao bem comum, sacrificando lazer e convívio familiar.

Vejo em outra foto que Schula e meu pai participaram, juntos, da criação do primeiro clube judaico da Tijuca, o Monte Sinai, inaugurado em 1959, onde dei vazão à minha canhota formidável nos treinos de futebol de salão. As imagens confirmam um senso comunitário admirável e uma disponibilidade para o trabalho social que me orgulham. Gente modesta e inquieta, que tinha uma rotina desgastante mas não se omitiu e deixou uma herança agregadora fértil. Quantos podem dizer o mesmo?

Num verão quase apagado pelo tempo, eu, meu pai, tio Schula e seu filho David nos hospedamos num hotel barato em Angra dos Reis. À noite, David improvisou uma musiquinha em ídish que aludia às consequências, digamos, gasogênicas que o Toddy de todas as noites produzia no pai. A gente caía pra trás com a gozação, mas quem se esbaldava mesmo era o tio Schula. O careca da foto, o aeroporto de mosquitos bessarabiano, ajudou a construir quem sou. De alguma forma, quem somos.

Abraço. E coragem.