Uma BIC na sala de tortura

Uma BIC na sala de tortura

Sou o poeta dos torturados/ dos desaparecidos/ dos atirados ao mar
Sou os olhos atentos/sobre o crime
Pedro Tierra
Uma caneta BIC esquecida pelo torturador fez o preso torturado se animar no meio das maiores dores que sofrera em seus 24 anos de vida. Lentamente chegou até a BIC que brilhava na sala meio escura onde se sentia cheiro de suor e sangue, e logo escondeu-a, pois os torturadores voltariam. Quando foi levado a sua cela, dolorido com hematomas e sangrando aqui e ali, se sentia vitorioso com a caneta, era sua taça, seu troféu, e dias depois catava papel de cigarro, papel higiênico, para escrever. Foi assim que começou a nascer o poeta Pedro Tierra, que viveu cinco anos em várias prisões sendo interrogado, torturado, convivendo com mortes de companheiros. Decidiu viver para escrever poesias e homenagear tanto os amigos como os desconhecidos presos e torturados que não tiveram sua sorte de viver. Entrou no cárcere como Hamilton Pereira da Silva e ao sair era Pedro Tierra, o poeta que nasceu na prisão graças a uma BIC esquecida pelo torturador.
Nas poesias estão presentes os choques elétricos, cadeira do dragão, espancamentos e mais e muito mais poesias sobre suplícios, sangue, gritos, coragem, povo, liberdade. É um espanto tudo isso se transformar em poesia. Essa poesia silenciada mais aqui que no exterior começa a ser mais conhecida através de muitos, mas especialmente do professor e poeta Alberto Pucheu. Aliás, agradeço a ele a primazia de ler seu impactante ensaio que será publicado em livro, PEDRO TIERRA: ESTA OBSTINADA VONTADE DE RESISTIR. As poesias de Pedro Tierra começaram a ser publicadas no exterior traduzidas primeiro ao espanhol por Dom Pedro Casaldáliga. Vencedor de muitos prêmios, Pedro Tierra se integrou nas lutas sociais ao sair da prisão, tendo sido um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores. Ocupou cargos no Ministério da Cultura, em Secretaria de Cultura, integrou o MST, teve a coragem de seguir sua vida na política mesmo após cinco anos de tortura e prisão. Nunca esqueceu seus amigos que morreram, e dedicou suas poesias aos que conheceu e aos que não conheceu. Nome e sobrenomes que precisam ser recordados e que Pucheu nomeia um a um no seu emocionante ensaio com quase oitenta laudas.
Impactante foi o encontro de Pedro Tierra com o imigrante judeu Mayer Kucinski que buscava Ana Rosa, sua filha desaparecida e integrante da ALN como o poeta. “Desejava, para seguir vivendo, ver o rosto de Ana Rosa. Varava meus olhos com o cravo dos seus e me pedia, patético – a mim, que àquela altura cumpria já o terceiro ano de prisão –, uma palavra, ainda que fosse a notícia de sua morte. Eu não tinha nenhuma palavra para lhe dar.” Não tinha palavras para dizer ao velho pai Mayer, pai também do escritor Bernardo Kucinski, que escreveu o romance “K” sobre a busca do pai pela sua irmã Ana Rosa. Minha irmã mais velha, a Bluma, conheceu a adolescente Ana Rosa num Movimento Juvenil Judaico na década de 50 do século passado, e isso me aproximou dessa tragédia.
Escolhi parte do “Poema-Prólogo”, no qual Pedro Tierra sintetiza sua missão:
Fui assassinado.
Morri cem vezes
e cem vezes renasci
sob os golpes do açoite.
Meus olhos em sangue
testemunharam
a dança dos algozes
em torno do meu cadáver.
Tornei-me a mineral
memória da dor.
Para sobreviver,
recolhi das chagas do corpo
a lua vermelha de minha crença,
no meu sangue amanhecendo.
Em cinco séculos
reconstruí minha esperança.
A faca do verso feriu-me a boca
e com ela entreguei-me à tarefa de renascer.
Fui poeta
do povo da noite.
Se tivesse a capacidade de fazer um filme sobre Pedro Tierra, começaria filmando a sala de interrogatório, os torturadores e a BIC que o torturador esqueceu. Esse foi o momento em que começou a nascer Pedro Tierra, que precisamos conhecer mais, como conhecer nosso Brasil invadido. Invadido por enlouquecidos em busca de lucros. Nesses dias traumáticos que o País vive, será preciso passar o inverno, muitos invernos num só, sabendo que a primavera vai chegar.
Gato por lebre

Gato por lebre

A raça humana não consegue suportar muita realidade (T. S. Eliot)

No Brasil, está mais fácil encontrar influenciadores digitais (“influencers”) do que dentistas ou arquitetos. Segundo uma empresa multinacional de pesquisas, há no país meio milhão de influenciadores digitais, contra 374 mil dentistas e 212 mil arquitetos. Quem são estes iluminados, que conseguem a proeza de chamar a atenção na selva virtual? Teriam a mesma capacidade de envolver interlocutores como faziam os que nós, das antigas, chamávamos de formadores de opinião?

Uma pequena pesquisa e tiro o coelho da cartola. Trata-se, essencialmente, de um enorme departamento de vendas, maquiado como inocente peça da indústria de entretenimento. Usa o voyeurismo patológico que se espalha como praga pelo planeta e vende de tudo. Os influenciadores são veículos de propaganda, que vendem de shampoo a leite de cabra, de cortes de cabelo a pacotes turísticos. Donos de animais, há sacerdotes da fofurologia que usam os bichinhos para faturar no mercado pet (bleargh!). Estão à venda também espaços para lançamento de carreiras políticas. Em São Paulo, policiais influenciadores aproveitam o sucesso de vídeos de operações espetaculosas e lançam candidaturas às próximas eleições.

O fenômeno está longe de ser apenas verde-amarelo. Deu no New York Times. A notória Kim Kardashian, com 316 milhões de seguidores, lançou uma linha de produtos para manter a pele jovem. Mesmo sabendo que suas opiniões são levadas a sério por milhões de pessoas, que tendem a imitar seus gostos, afirmou que “se você me dissesse que literalmente teria que comer cocô todos os dias para parecer mais jovem, eu comeria, eu simplesmente comeria”.

O mercado de influenciadores segue uma lógica simples. Quanto mais repercussão alcança uma postagem, mais valorizado fica seu divulgador e mais chance terá de ser contratado para campanhas promocionais. A repercussão é medida pelo número de acessos às postagens. Como era de se esperar, já existem artifícios para turbinar perfis na internet. São as chamadas fazendas de cliques. Gente que, usando contas falsas, multiplica as curtidas e os comentários nos perfis dos influenciadores. É um trabalho mal remunerado, sem qualquer proteção social ou trabalhista, típico da precarização que engole boa parte dos empregos no Brasil.

Os números deste mercado impressionam. Em 2021, as redes sociais receberam R$ 1,43 bilhão em investimento publicitário. Valor maior do que a soma do investimento em rádio, jornal, revista e cinema.

Acho que mal arranhei a superfície deste planeta estranho. Um planeta onde tudo é aparência e, lembrando o que Marx disse sobre o capitalismo, se transforma em mercadoria. Desde relações amorosas até espaços reservados à privacidade. Não me surpreende que se projete para o futuro próximo a consolidação de um metaverso, onde cada indivíduo terá um avatar a representá-lo. A fronteira entre o real e o virtual estará definitivamente violada.

Quem terão sido meus influenciadores ao longo da vida? Os de carne e alma, que abriram veredas de encanto, beleza e criatividade e mostraram sentidos que eu desconhecia? Fujo por um instante do clichê freudiano (pais, tios avós, primos) e penso nos músicos e cronistas, nos jogadores de futebol que saíram da rotina e no professor de química que sabia grego, nos (poucos) que souberam combinar política e afeto, nos atores e diretores de cinema e teatro, nos que souberam dizer as palavras certas em momentos incertos. Talvez nenhum tenha sido tão fundamental quanto Long John Silver, o pirata n’A Ilha do Tesouro. O livro de Robert Louis Stevenson foi devorado pelo Menino e a identificação com o pirata da perna-de-pau foi instantânea. Acho que até hoje sou um pouco como ele. Sei, ou suponho saber, qual é o tesouro na ilha remota, mas o caminho até lá não é fácil, não é tarefa individual e o mapa para alcançá-lo não basta. Mesmo sem resultado garantido, a viagem vale a pena.

Abraço. E coragem.

“O diário de Anne Frank”- o diário mais famoso do mundo segunda parte

“O diário de Anne Frank”- o diário mais famoso do mundo segunda parte

Sonho de amor 06/01/1944:
“Estava sentada numa cadeira, e diante de mim estava Peter, Peter Schiff. Estávamos olhando um livro de desenhos de Mary Bos. Os olhos de Peter subitamente encontraram os meus, e fiquei olhando durante muito tempo aqueles olhos castanhos aveludados. Então, ele disse em voz baixa: “Se eu soubesse, teria procurado você há muito tempo”. Virei-me bruscamente, esmagada pela emoção. E então senti um rosto macio, cálido e suave contra o meu, e foi tão bom, tão bom.” Anne se acordou lembrando do Peter da escola, seus olhos se encheram de lágrimas. Nas semanas que se seguem ao sonho, Anne escreve o quanto o sonho aumentou sua autoestima. E pouco depois do sonho, estreita suas relações de amizade e de namoro com o seu amigo que estava no Anexo Secreto e também se chamava Peter, que morava num quartinho onde estava a escada para o famoso sótão que Anne tanto gostava. No seu diário ela descreve suas transformações sexuais de adolescente, suas excitações, bem como as rebeldias.
A menina negra encontra a menina judia.
A escritora brasileira Conceição Evaristo e Anne Frank viveram em tempos e espaços distantes. Foram se conhecer como leitora e escritora, gerando uma comovente relação entre quem escreve e quem lê. Ambas usaram armas simbólicas para enfrentar a violência e a crueldade. Evaristo escreve que encontrou Anne como as duas sendo meninas, e o quanto o mundo adulto não deixou viver uma escritora pelo fato de ser judia. Se identifica como menina negra maltratada, rejeitada, podendo construir uma fraternidade com a menina judia. Conceição Evaristo construiu uma ponte com os tempos atuais: “Digo também que estamos em dias vazios de humanos sentimentos. A leitura de “O diário de Anne Frank” se faz necessária mais e mais nesses tempos em que a brutalidade e a prepotência de pessoas e grupos imperam buscando se colocar como donos do mundo”. Tanto Nelson Mandela como Conceição Evaristo viram em Anne Frank um símbolo de luta pela liberdade, contra o racismo com a qual se identificaram.
A última carta:
Sua última carta foi no dia primeiro de agosto de 1944, uma terça feira. Tanto essa carta como as duas últimas mereciam um estudo a parte, como a frase que cita:“Todo filho tem de se criar”. Frase que seu pai dizia e ela reflete sobre como foi educada, faz uma crítica, começa um processo de desidealiazação do ótimo pai, ela já estava com quine anos. Na sua última carta vai mais longe quando reflete sobre a acusação que ela seria um “feixe contradições”. Toma essa expressão e analisa o que isso significa, pergunta o que é contradição e daí entra, sem saber, por uma via em parte filosófica, mas também psicanalítica. “Como já disse muitas vezes, sou partida em duas”. É uma carta de duas páginas e meia, vale a pena ler, e sem Anne saber, foi sua carta de despedida da vida.
Prisão e morte: Dia quatro de agosto de 1944 a casa e o anexo foram invadidos por um sargento da SS uniformado e três holandeses da Polícia de Segurança. Os moradores foram presos e transferidos para Westerbork, um campo de triagem, e em tres de setembro deportados para Auschwitz. A mãe de Anne decidiu dar sua comida para as filhas e as três dormiam juntas, unidas para sobreviver. Em fins de outubro Margot e Anne foram levadas para Bergen-Belsen, campo de concentração perto de Hannover (Alemanha). Ambas contraíram tifo e amigas de Anne, que a viram, descrevem como estava magra, doente e no inverno com neve só enrolada num cobertor. As irmãs Frank morreram entre fevereiro e março de 1945 e foram enterradas em covas coletivas.
Pesadelo:
Durante os estudos do diário tive um pesadelo, despertei quase chorando ao recordar ataques de gente onde eu corria risco de vida e imaginei que seria morto. Logo percebi que estava identificado com os judeus do Anexo secreto, pois o envolvimento com o diário fez com que entrasse no pequeno espaço de cinquenta metros quadrados. O resto diurno do pesadelo fora a leitura da morte de Anne Frank, percebi então minha identificação com os judeus assassinados nos campos de extermínio da Europa.
Confiança no futuro.
O pai Otto Frank, foi o único sobrevivente do grupo do anexo, apesar de estar muito doente conseguiu se recuperar. Foi o responsável pela edição do livro “O diário de Anne Frank” bem como pelo museu de Amsterdam e da Fundação que leva o nome de sua filha. Anne Frank escrevendo o diário se fez escritora, com amor e humor, confiante como na mais famosa de suas frases: “Apesar de tudo ainda creio na bondade humana”. Após oitenta anos que foi escrito o diário, ele continua sendo muito lido por jovens que se identificam com ela e por pessoas de todas as idades. Tres semanas antes de ser presa, escreveu: “Vejo o mundo ser lentamente transformado numa selva, ouço o trovão que se aproxima e que, um dia, irá nos destruir também, sinto o sofrimento de milhões. E mesmo assim quando olho para o céu, sinto de algum modo que tudo mudará para melhor, que a crueldade também terminará, que a paz e a tranquilidade voltarão”.
Precisamos falar da escritora Anne Frank
Anne é a vítima mais conhecida do nazismo, e a crueldade passada reaparece com novas roupagens. O dever da memória é lembrar os seis milhões de judeus mortos, mas também recordar a escravidão brasileira, o assassinato de Marielle Franco, de negros e índios. Não devemos silenciar o passado, nem o presente para construir o futuro. O Diário de Anne Frank emociona judeus, negros, o mundo no amor a liberdade, a bondade e a tolerância, daí seu sucesso.
O diário mais famoso do mundo – primeira parte

O diário mais famoso do mundo – primeira parte

Muitos perguntam os porquês do sucesso mundial do Diário de Anne Frank, um livro escrito durante o nazismo na Segunda Guerra Mundial. Traduzido em setenta idiomas com uns quarenta milhões de livros vendidos, tema de filmes e peças de teatro. Editado em 1947 levou alguns anos para conquistar o público, e, aos poucos, algumas personalidades e escritores perceberam que o diário não era só de uma adolescente, mas sim o de uma escritora jovem. Anne ganhou de presente o caderno que escreveria seu diário no dia do aniversário de 13 anos, 12/06/1942.
O humor de Anne Frank:
Uma das primeiras histórias do livro é a do professor de Matemática que passou de castigo à ela por falar muito a redação: “Uma tagarela”. Anne escreveu três páginas argumentando que falar era uma característica feminina, tentaria se controlar, mas sua mãe falava tanto ou mais que ela. O professor riu, mas ela seguia falando, e então deu outra redação: “Uma tagarela incorrigível”. Ela fez e seguiu falando, logo recebendo uma terceira redação: “Quac, quac, quac, tagarelou e dona pata”. Riram na aula, ela também, mais aí pensou que devia fazer algo diferente e pediu ajuda à sua amiga Sanne para escreverem em versos. Fizeram um poema sobre uma mãe pata e um pai cisne com três patinhos que grasnavam muito e foram bicados até a morte pelo pai. O professor gostou tanto que leu o poema em várias salas de aula.
Anexo Secreto:
No dia 09/07/1942 Anne e sua família se
esconderam pois os judeus estavam sendo presos por serem judeus. No diário descreve o sofrimento dos judeus, pois deviam usar uma estrela amarela, proibidos de andar nos bondes, carros, comparecer aos teatros, cinemas entre outras proibições. Esse espanto de Anne leva a pergunta ainda viva de como foi possível o nazismo que buscou matar todos os judeus da Europa. Parêntesis: poucos traçaram um painel mais amplo dos porquês do assassinato de seis milhões de judeus que o historiador Saul Friedländer, em seu livro “A Alemanha nazista e os judeus”.
No dia 21 de setembro escreveu: “Atualmente papai e eu estamos trabalhando em nossa árvore genealógica, e ele me conta alguma coisa sobre cada pessoa”. Seus antepassados marcaram a vida na comunidade judaica e na Alemanha. Ler e acompanhar a vida de uma adolescente, através de seu diário, é conviver com medos, sonhos, suas transformações na luta contra a solidão. Já tinha escrito no diário sobre a experiência de escrever: “o papel tem mais paciência do que as pessoas”, e inventa uma amiga imaginária que chamou de Kitty, para quem passa a escrever. Descreve as tensões e discussões com sua mãe Edith, e a irmã Margot que era mais amiga da mãe que dela. Elogia seu pai escrevendo que é o “mais adorável que já vi”, era o que mais tinha paciência com sua aceleração criativa.
Nelson Mandela: prêmio Nobel da Paz e Presidente da África do Sul disse que Anne Frank é a prova da invencibilidade do espírito humano. Durante os dezoito anos que passou na Ilha de Robben exortou seus companheiros de prisão a lerem o diário. Quando as páginas do único exemplar do livro na prisão começaram a cair, os presos se revezaram, clandestinamente, a copiar o livro a luz de velas. Todos os presos leram o “Diário de Anne Frank”, de como uma jovem viveu dois anos escondida no sótão de uma casa. Muitos anos depois, em 1994, Mandela foi homenageado pela Fundação Anne Frank, e visitou a Casa de Anne Frank. Antes, em um discurso para uma multidão em Johanesburgo, relembrou ter relido o livro enquanto estava na prisão, com o qual afirma ter “extraído muito incentivo” na luta contra o “apartheid”. Comparou a luta contra o Nazismo com a travada contra o Apartheid, expressando que ambas “são crenças evidentemente falsas e sempre serão desafiadas por pessoas como Anne Frank e estão fadadas ao fracasso”.
A casa na qual o diário foi escrito hoje é um museu visitado por um milhão e duzentas mil pessoas anualmente, mais de três mil por dia. Visitei a casa de Anne Frank em fevereiro de 1968 num inverno rigoroso em Amsterdam, com um grupo de estudantes do Colégio Israelita Brasileiro. Chegar ao Canal Prinsengracht número 263, emocionante entrar na casa, subir os degraus de dois andares por corredores estreitos, até ultrapassar uma biblioteca atrás da qual se escondia o anexo secreto. Oito judeus viveram dois anos em 56 metros quadrados, e pude ver tudo que é descrito no livro, sentindo emoções e tensões que agora recordo. Minha maior curiosidade era conhecer o lugar aonde foi escrito o diário, o sótão da casa, que se chega após subir uns dez degraus de uma pequena escada íngreme. Só se podia olhar o amplo espaço desde o último degrau, e ver uma janela inclinada, a única que não tinha cortina e da qual Anne podia ver uma grande árvore-uma castanheira- os pássaros, o céu, as nuvens e onde sonhava com a liberdade.
Mata um homem e come

Mata um homem e come

A voz da consciência e da honra é bem fraca quando as tripas gritam (Diderot)

Na porta da pequena agência bancária ele surgiu. Muito magro, andrajoso, olhar de desespero. Pedia, ou melhor, implorava algum dinheiro, estava com muita fome. Repetia e repetia, os ouvidos que passavam não o ouviam. Invisível. Até que alguém se compadeceu e lhe deu uma pequena quantia. O homem se retirou, não sem antes agradecer a Jesus por aquela caridade. “Jesus é muito bom”, asseverou. Na penúria obscena, era-lhe impossível ocorrer a pergunta evidente: se Cristo é realmente uma boa alma, por que permite a degradação da miséria e de corpos famintos? Olhando a cena, não pude evitar a imagem de Primo Levi: era aquilo um homem?

Poucos metros adiante, uma igreja. Imponente. Ao lado de sua escadaria frontal, uma mulher dormia na calçada. Despertou devagarzinho e seu olhar me chamou a atenção. Era meio morto, desprovido de qualquer traço de esperança. Quase se arrastando vai até uma banca de jornais e pede, com o embaraço dos resignados, um pacote de biscoitos. Silêncio como resposta. Invisível. Afasta-se, preparada para mais um dia de triste sobrevivência.

Entre a agência bancária e a igreja, cruzo com famílias abrigadas do frio nas calçadas. Há cada vez mais gente se amontoando nas ruas, exércitos de miseráveis que buscam as sobras de uma sociedade que prefere ignorá-los. Exércitos desarmados, hospedeiros de uma revolta adormecida. O que acontecerá quando acordar? No tempo do Menino, costumávamos brincar quando o estômago gemia: “Tá com fome? Vai na rua, mata um homem e come”. Não devíamos nos espantar quando um desesperado rouba ou até mata para comer.

Enquanto o Abominável Homem das Trevas bravateia que o Brasil alimenta um bilhão de pessoas no mundo, surgem números da fome no Brasil. Cerca de 6 a cada 10 brasileiros convivem com algum grau de insegurança alimentar, isto é, “não possuem acesso físico, econômico e social a alimentos de forma a satisfazer suas necessidades” (definição da FAO). Aproximadamente 33 milhões de pessoas passam fome no país. Outro dado que chama a atenção. Em 2022, um a cada três brasileiros fez alguma coisa que lhe causou vergonha, tristeza ou constrangimento para conseguir alimento. Não é difícil imaginar que tipos de situações humilhantes/degradantes. Lembram do Gonzaguinha? “Mas doutor uma esmola/para um homem que é são/ou lhe mata de vergonha/ou vicia o cidadão”. Segundo um estudo da FGV, a proporção de brasileiros que não teve dinheiro para comer em algum momento em 2021 subiu quatro vezes mais do que a média dos 120 países pesquisados. Para adornar a torta letal, o IBGE informa que os 5% da população com menor renda, os mais pobres entre os pobres, tiveram queda de quase 34% no rendimento médio de 2020 para 2021.

Enquanto as hordas liberais vão despejando políticas econômicas que privilegiam os barões do capital, concentram renda e multiplicam o desespero, surgem aqui e acolá soluções mágicas para melancolias e carências. Verdade que são do ramo das Organizações Tabajara, mas vai que…

Uma certa senhora, que ocupa espaço nobre em jornal de grande circulação, ensinou o mapa da mina. Anote aí, não seja incrédulo. Espalhe a rodo e as massas serão redimidas. Começa com uma para mim desconhecida versatilidade do Santo Antônio. Achava que era apenas o santo casamenteiro. Pelo visto, tem mais poderes. Vamos lá. Asse treze pãezinhos e coloque-os ao lado de uma imagem do santo, na noite de 12 para 13 de junho. Se for em outra noite, peça à prodigiosa criatura para dar um jeito. Afinal de contas, estamos no Brasil. Não se esqueça de acender uma vela. No dia seguinte, deposite um dos pães na sua despensa. Dê os demais para pessoas de suas relações, alertando-as para que também os coloquem na despensa. Voilà! Seus problemas acabaram. Você terá um ano de alegria e fartura. A garantia de sucesso é a mesma de qualquer horóscopo, tarô, bola de cristal, borra de café. Como diria o seu Creysson: Eça eu agarantio!

Abraço. E coragem.

Milícia, Cel Jairo e menino Henry

Milícia, Cel Jairo e menino Henry

“Capital do sangue quente do Brasil
Capital do sangue quente
Do melhor e do pior do Brasil
Cidade sangue quente
Maravilha mutante
O Rio é uma cidade de cidades misturadas
O Rio é uma cidade de cidades camufladas
Governos misturados, camuflados, paralelos
Sorrateiros, ocultando comandos
Rio 40 graus
Cidade maravilha, purgatório da beleza e do caos”

                Início dos anos 90. Estudava na PUC e o point daquela época era o Baixo Gávea, mais precisamente o bar Hipódromo. Quando comecei a frequentar era um pé sujo e ir fazer xixi era uma aventura. A porta não fechava direito e papel higiênico na bolsa era item indispensável. Ao entrar naquele horror, vc se sentia transportado para a Escócia. De repente Edimburgo. Naquele banheiro de Trainspotting. Depois teve a reforma, o bar ficou bacana, mas hoje ele só sobrevive na nossa memória, visto que fechou e seus 75 anos de existência foram reduzidos a um bar boutique, um pé limpo, ou seja lá o que isso quer dizer.

          Sei que nesse dia que se perde no tempo eu precisava voltar logo pra casa, teria prova na manhã seguinte. Então alguém me levou até o ponto e peguei o 750, que dava uma puta volta no Itanhangá, passava pelo Rio das Pedras, mas me deixava perto de casa. Entrei, sentei. Ao meu lado no banco estava um senhor (que nem era tão velho assim, mas pra uma molecota de vinte anos qualquer um com mais de 30 é idoso), cara de trabalhador, cansado, provavelmente garçom de algum bar da Zona Sul, abraçado a bolsa, querendo tirar um cochilo. De repente o ônibus, ainda parado no ponto, foi invadido. Vários jovens com a camisa do Flamengo, vindos de um jogo, entraram pelas janelas, até que o motorista diante do caos liberou as portas para eles. Estavam indo para a Rocinha, o que significava alguns minutos de viagem. Era só atravessar o túnel Zuzu Angel, na época conhecido como Dois Irmãos e chegariam ao destino.

              Pois bem, no ponto da favela eles foram descendo. Mas não o garoto que estava de pé ao nosso lado. Esse virou para o meu companheiro de viagem, que estava adormecido e gritou: “Passa o relógio, filho da puta!”. O cara ostentava um Orient, com fundo azul metálico, que para ele naqueles tempos deve ter custado muitas horas de trabalho. O homem não acreditou e olhou sem entender. Um soco foi o que ele levou, no meio da cara, com força e covardia. Entregue o relógio, aquele que parecia o líder do lado de fora, gritou: “O que está acontecendo aí, que demora é essa?” Um dos meninos que assistia tudo, respondeu de volta:” É o Caverna, tá ganhando o relógio do coroa”.Caverna já estava na porta para descer. E aí que digo, a autoridade do líder é inconfundível. Só ouvi: “Caverna, ta maluco porra, vai lá devolver o relógio do coroa e pede desculpa caralho!”. Então eu testemunhei umas das cenas de assalto mais nonsense da minha história. Caverna entrou no ônibus, mesmo sob coação, cabeça baixa, devolveu o relógio da vítima e sim, entre os dentes pediu desculpas pra o assaltado.

         No dia seguinte, no café da manhã, contei para o meu pai o absurdo que vivenciara. Obti como resposta: “Não assaltam esse ônibus. A maioria dos passageiros mora no Rio das Pedras. Polícia Mineira minha filha, se Caverna não devolvesse, eles iam catá-lo no inferno”. Acostumada a uma cidade dominada pelo tráfico, fiquei boquiaberta.

         Cabe aqui uma explicação para os não cariocas. Rio das Pedras é uma comunidade extensa da Zona Oeste, entre os bairros do Itanhangá, Jacarepaguá e Anil. Nascida na década de setenta, foi formada sobretudo por migrantes nordestinos. Hoje é a terceira maior favela do Brasil, com 54000 habitantes, perdendo apenas para a Rocinha e para a Favela Sol Nascente, no DF. Se você leu Cidade de Deus, o livro, de Paulo Lins, deve saber do enorme preconceito entre nordestinos migrantes e negros nas favelas do Rio de Janeiro. Não vou entrar nesse mérito, o que posso dizer é que lá atrás, os negros eram considerados os responsáveis pelo tráfico de drogas, que durante um tempo se limitava a maconha. Nessa comunidade, basicamente nordestina, formada principalmente por cearenses, havia um rígido código moral no qual as drogas não estavam incluídas.  

             Li o relato de um morador antigo da comunidade e o que ele narrou é que havia inicialmente o casal Otacílio e Dinda. A ideia era proteger a favela do tráfico de drogas e de tudo que advém daí. E sim, essa atitude era completamente aceita pelos moradores. Eles eram aquela força que substituía a polícia, mas dentro de suas próprias leis. Marido batia na mulher, era colocado pra fora. Moleque era pego roubando na área, era “desaparecido”. Otacílio morreu, Dinda iniciou o seu comando e foi desastroso. Começou a abusar do poder, tomar a casa de desafetos, mas não durou muito, logo foi assassinada. Começou aí uma briga interna, matança sem fim. E foi nesse vácuo que os agentes de estado acharam por bem tomar conta da parada. Tomar conta, entendam, no sentido de explorar comercialmente o que a favela tinha a oferecer. Pois é, eis a milícia no sentido que bem conhecemos. Esse é só um resumo, para aqueles que não conhecem o caos da cidade camuflada.

            O que eu achava incrível é que a mídia e a classe média propagavam que aquilo era uma boa. Antes nas mãos dos policiais e ex-policiais, que não permitiam o tráfico, do que na mão dos psicopatas que transformavam menores em soldados, que matavam com requintes de perversidade, etc etc etc  Ninguém porém perguntou a um morador quem ele preferia de algoz. A classe média sempre nos dando motivo de orgulho! A voz mais dissonante foi a do meu pai, o que provocou várias celeumas: ”Não vende drogas? Ainda. É questão de tempo”

        O que me provocou a escrita dessa crônica foi na sexta-feira o julgamento, transmitido ao vivo, do caso Henry Borel, de 4 anos. No Brasil, morte violenta de criança não é nenhuma novidade. Segundo levantamento da Unicef em conjunto com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, entre 2016 e 2020, 1070 crianças de 0 a 9 anos foram assassinadas. A maior parte dentro de casa. A grande maioria negra. Casos, porém, como o do menino Henry, de Bernardo Boldrini e de Isabella Nardoni, nos atingem mais por dois motivos: O primeiro é por se tratar de crianças brancas, com pais supostamente esclarecidos, o que gera uma identificação na classe média. O segundo é que todos três foram mortos por aqueles que deviam estar cuidando deles, com tudo que a relação pai e mãe impõe. Bernardo foi morto pela madrasta, mas com conhecimento do pai, Isabella atirada pela janela pelo próprio pai depois de viver momentos de pânico, surra e terror com a participação da madrasta e Henry, por um sádico infanticida, entregue ao algoz pela própria mãe. Poucos dias depois da morte do garoto, testemunha disse que Monique e Jairinho falavam em ter um filho. Pois é. Filho pra essa gente é peça de reposição.

     Não vou me ater ao julgamento, que apesar do circo armado pela defesa, parece que vai a júri popular. Mas, já que começamos falando da Polícia Mineira, quero focalizar um personagem que participa dessa triste história. Sobre o “Doutor” Jairinho já sabemos muita coisa. Não vou chamar de suposto assassino um homem com histórico de agressões e torturas em crianças (dos outros, não há registro que fizesse algo do gênero com os 3 filhos naturais), que sempre se envolvia com mulheres com filhos pequenos (ora, ora, por que será?) até finalmente dar a sorte de encontrar uma mãe omissa, mais preocupada com as vantagens financeiras que a união lhe trazia do que com a criança (isso está nos autos) visto que avisos sobre as agressões não faltaram .23 lesões encontradas no corpo de um bebê de 4 anos, como laceração do fígado, danos nos rins e hemorragia na cabeça, me impedem de chamar esse sujeito de suspeito.

         Jairinho é acostumado com a impunidade. O que ocorreu foi uma morte que deixou rastros. Esse que foi o ponto fora da curva. E ele teve um ótimo professor. Jairão, seu pai, que deve estar agora com muita raiva. Não pelo ato abominável do filho, mas pelo desleixo que acabou incriminando-o. Vamos a esse senhor: Jairo Souza Santos, coronel aposentado da PM, tem três grandes paixões: Bangu, o bairro que nasceu e foi criado, futebol (foi presidente do time Ceres de Bangu, uma agremiação fundada em 1933 por marinheiros que residiam na rua Ceres, que deu nome ao time e cujo maior êxito foi em 1990, quando se sagrou campeão da Terceira Divisão. Adhemir da Guia jogou em suas bases, antes de ir para o Bangu, nem tudo é derrota) e escola de samba, quase se tornou presidente da Mocidade Independente de Padre Miguel, mas foi preso antes, pela Operação Furna da Onça, acusado de receber mesada para aprovar os projetos do então governador Sergio Cabral Filho. O Coronel Jairo foi um precursor da milícia que conhecemos hoje. O bairro de Bangu é seu. Está nas suas mãos. Aliás, ao lado de Rio das Pedras e Duque de Caxias, foi lá que teve origem os primeiros grupos milicianos com a configuração que possuem hoje. Pesquisas acadêmicas, relatório produzido pelo Laboratório e Análise da Violência da UERJ, além da CPI das Milícias conduzida por Marcelo Freixo na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, citam o Coronel como fundador da Liga da Justiça, a maior liga paramilitar do estado do Rio de Janeiro.

     Fundada em meados dos anos 90, o grupo iniciou-se com transporte público, ocupações de terra, cobrança de taxa de segurança, distribuição de gás, gatonet.  A Liga da Justiça ao longo dos anos foi mudando de nome e expandindo suas atividades. Atualmente conhecida como Bonde do Ecko , domina mais de 60 por cento da cidade. Dois de seus líderes foram presos, muitos membros assassinados, mas Jairão e seu filho infanticida continuaram firmes. O que só revela uma grande capacidade de articulação e uma filha da putice sem limites.

      O Coronel e seu filho foram envolvidos na tortura de jornalistas do Dia, amplamente divulgada. A milícia nada mais é que grupos armados criminosos tomando territórios e coagindo moradores. Execução sumária é brincadeira para essas pessoas. Eles só visam uma única coisa: DINHEIRO. De acordo com o sociólogo José Claudio Souza Alves (UFRRJ), a relação desses grupos com a política é onde assenta o seu funcionamento e é uma imensa evidência do porque as investigações com os envolvidos empacam no sistema Judiciário. Sim queridos, eles se elegem. E são bem votados. E ele diz mais:”A milícia é estruturada a partir da sólida base com a política institucional, é isso que a protege e faz com que ela se projete cada vez mais. Não vai haver atuação do Estado para investigar ou trazer algum dano a eles, pelo contrário, a estrutura do Estado em todas as suas dimensões, do Executivo, do Legislativo, do Judiciário, vai ser movimentada para proteger, para impedir que sejam investigados, para fazer escapar da operação”.O coronel, com apoio do Flavio Bolsonaro, concorreu em 2018 mas não levou. Porém, devido ao remanejamento do deputado do qual era suplente, que foi trabalhar com o governador do Rio, ele cheio de pendenga na justiça, com habeas corpus que ainda não foi julgado, foi pegar o que é seu. Tá na ALERJ.

        Jairão não é miliciano, é poeta. Palavras dele, chamada de uma matéria inclusive. Há dez anos atrás lançou o livro de poemas Pedaços da Vida, ou seja, comete versos. É bom desmistificar aquele papo de que todo homem deve ter um filho, escrever um livro e plantar uma árvore. Tivesse ele se limitado a plantar um pé de pitanga, o mundo estaria muito mais feliz. Tem onze stents no coração, mas vaso ruim não quebra. Seu grupo está completamente fechado com o Terceiro Comando, facção criminosa do Rio e claro, drogas rolam. Narcomilícia na veia. Como disse o meu pai, para idiotas que defendiam os milicianos por coibirem o tráfico: ”É só questão de tempo”.