Além de Teori Zavascki, foi morta Maira Lidiane Panas Helatczuk, a bailarina!

Além de Teori Zavascki, foi morta Maira Lidiane Panas Helatczuk, a bailarina!

Além de Teori Zavascki, foram mortas mais quatro pessoas: o piloto, um empresário, a massoterapeuta e bailarina Maíra Lidiane Panas Helatczuk (foto do post) e sua mãe. Fiquei sabendo apenas hoje, e com imensa tristeza, os nomes das outras vítimas, além do Ministro, por intermédio do meu querido amigo, Iehudá, que me deu a notícia por celular, e me informou que, entre as vítimas, estava Maíra Panas.

Tristeza imensa, pois conhecia Maíra Lidiane Panas Helatczuk (Maira Panas) desde quando (final de 2009) coordenei um Projeto de Faculdade de Direito do Vale do Juruena, atuando na graduação e pós-graduação, na região que ia da Amazônia legal até Cuiabá, principalmente no Vale do Juruena. Maíra era uma guria ávida, inteligente, super bailarina, muito linda e com uma alma imensa.

Nosso primeiro contato se deu quando ela soube de um Curso de “Teoria e Crítica Literária”, que ministrei na região. Durante algum tempo a orientei sobre possibilidades de atuar na dança, dentro do Brasil e na Europa. Indiquei várias Faculdades e Cursos da região Sudeste. Um ano depois que deixei o projeto, ainda consultei amigos de Milano para apresentá-la. Ela merecia todo o apoio, todo carinho e afeto. Era uma pessoa singularmente formidável. Recebi notícias que, mesmo depois da queda do avião, ela estava viva – e lutando pela vida… Ela era isso mesmo: lutadora!

Uma vez, após ela relembrar uma palestra que proferi na região sobre “O Elemento Feminino do Judaísmo”, passamos horas falando sobre a “dança” na tradição judaica e, principalmente, sobre a obra “Shir Hashirim” (Cântico dos Cânticos de Salomão) e suas conexões com a Literatura e Música.

Em outra ocasião, meados de 2012, depois de ver sua dança e, sobretudo, ouvi-la falando sobre dança, escrevi e dediquei a ela a Poesia “Bailarina, Porque Danças!”. Hoje, em sua homenagem, depois desta trágica morte, publico aquela Poesia aqui, pois uma bailarina tão ávida e intensa, tão cheia de vigor e alegria, deve continuar, em algum lugar, dançando. E que dance com a Poesia!

Eis a Poesia, escrita e dedicada à Maíra:

BAILARINA, PORQUE DANÇAS!
e
enquanto
moves os pés
e danças,
assim, plena e única,
te darei o sorriso
que nasce no canto
esquerdo da minha boca
que canta
e o fogo da poesia
que te liberta da túnica
e vem de entre
os sabores da língua
em tons
sem rimas
nem formas
na noite, madrugada e dia
para o amor
que cria a dança,
sorriso
e poesia
dos pés às bocas,
agora, abertas
em
recanto de descobertas
nas
mesmas asas
e, outra vez,
o canto
em uma mesma língua.

[© Pietro Nardella-Dellova, “Bailarina, Porque Danças!”, escrita e dedicada à Maíra Panas”, em 2012. O texto sobre sua morte foi escrito em janeiro de 2017]

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foto do post: de Maíra Panas, talvez de 2011 ou 2012

Ruminâncias

Ruminâncias

Que é isso, menino? Maneira mais feia de se comportar na mesa. Mais respeito com as visitas, o que vão pensar de nós? A cara de poucos amigos dos Grandes era convincente: o arroto pegara mal. Não reconheciam a urgência do som. Era questão elementar de Física. Ar se concentra, pressão aumenta, et voilà. O que tinha de mais? Eructe-se, ora bolas, a bem do alívio na pança e do choque nas boas maneiras dos adultos.

Fico sabendo que as vacas, aquelas cuja saúde foi exaltada pelo Nelson Rodrigues, são uma das principais vilãs do efeito estufa. Os arrotos destes ruminantes, que têm quatro estômagos, são potentes geradores de metano, gás nada inocente, que compete com o gás carbônico como principal veneno para a atmosfera do planeta. A imagem serena das vacas suíças em bucólicas paisagens ofusca o potencial tóxico das emissões estomacais.

Cientistas canadenses encararam o problema e puseram o ovo em pé. Não, não prescreveram o veganismo em massa, nem extermínio dos rebanhos. Desenvolveram um produto que, ingerido, dá ao sêmen do touro um traço genético de baixo teor de metano. As vacas e novilhas melhoraram o comportamento à mesa e, sem abrir mão de capins gourmetizados e rações nutritivas, deixaram de arrotar tanto.

Minha geração tem uma relação afetuosa com estes mamíferos e seus familiares. Isso aparece nas muitas referências, divertidas e nostálgicas, a eles e aos alimentos que nos proporcionam. Quando o Rio ainda era uma cidade horizontal, certa figura invisível frequentava as portas das casas. O leiteiro, cujo rosto ninguém conhecia, chegava quando o dia era ainda uma fresta e deixava garrafas com leite. Os cascos vazios eram devolvidos para, no dia seguinte, voltarem com o líquido branco que alimentou gerações. O leiteiro, personagem tão importante na paisagem urbana quanto o garrafeiro, o amolador de facas, o homem do realejo, o funileiro e o vendedor de chica-bon, inspirou Drummond num poema-crônica de rascante beleza.

No dicionário ludopédico, quem, veterano como eu de gramados e charangas, não lembra da leiteria do Castilho? Carlos José Castilho foi goleiro do Fluminense entre os anos 40 e 60. Tinha fama de sortudo. Se a bola passava por ele, batia na trave ou fazia estranhas curvas, mas não entrava no gol. Por razões que se perderam no tempo, associava-se leiteria com sorte. Fora do campo, ela não ajudou o guarda-valas. Abatido por uma depressão, suicidou-se aos 59 anos.

Castilho não conheceu a categoria dente-de-leite nas chamadas divisões de base dos clubes. Hoje, há uma coleção de sub isso, sub aquilo. Em outros tempos, o grande problema era a subnutrição que devorava muitos garotos que chegavam para treinar.

Na República Velha, era a política do café com leite que garantia às oligarquias paulista e mineira a hegemonia no jogo viciado do poder. Com isso, avacalhava-se qualquer ameaça de democracia no país. Quem não concordava, apanhava que nem boi ladrão. Os políticos comportavam-se como vacas de presépio, mamavam nas tetas dos coronéis.

Ainda na política, Aparício Torelly, o Barão de Itararé, foi eleito vereador no Rio de Janeiro (ainda era Distrito Federal), em 1946, pelo PCB. Um de seus lemas de campanha era: “Mais água e mais leite. Mas menos água no leite”. Para quem não liga a com b, produtores inescrupulosos misturavam água no leite distribuído no país. Era o leite batizado.

No tempo de vacas magras, o Menino não podia comprar os discos que queria. Os adultos não tinham mão de vaca, era somente bolso vazio. Assim, a boiada passou e o Lp do Pink Floyd, Atom Heart Mother, com a enigmática vaca malhada na capa, ficou no desejo.

Os lacradores que me perdoem, mas vou citar uma das minhas heroínas. Não, não é a Vaquinha Mococa. É a boneca Emília, criada pelo escritor que me abriu o mundo das letras e as veredas da imaginação, Monteiro Lobato. A levadíssima bonequinha de pano disse que, se a Natureza fosse mais prática, vacas teriam 2 tetas. Uma, para uso dos leiteiros. Outra, para os bezerros.

Por fim, sem desprezar os leites de rosas e de onça, sem viajar para Cuernavaca ou Vacaria, convoco o jornalista, radialista e humorista José Martins de Araújo Júnior, mais conhecido como Don Rossé Cavaca, morto em 1965 aos 41 anos de idade. Mestre de ótimas tiradas, sentenciou: “Meu bem, agora desliga a televisão que eu quero te apresentar os amigos que jantaram conosco”. Hoje, a televisão foi ultrapassada por celulares e computadores. É preciso tirar leite de pedra para ganhar a atenção do interlocutor que, pescoço torto, não desgruda da luz azul que abduziu meio mundo. Os eletrônicos são a mais recente vaca sagrada e a gentileza do diálogo é a vaca que foi pro brejo. Na arquibancada, vendo o circo pegar fogo, a vaca que ri.

Abraço. E coragem.

Abraços

Abraços

Era uma cabana de pano desmontável. Herança de outras infâncias. A pequena chega no quarto, olha curiosa para o tecido amarelo e entra no abrigo frágil. Com seu pouco mais de um ano de idade, devia sentir-se soberana de um reino invisível. Olhou-me com ar pidão. Convite silencioso, mas irrecusável, para dividir intimidade. E também entrei na casinha.

Dentro, percebi que as varetas que sustentavam a frágil construção estavam desalinhadas. Abaixei-me o quanto pude, tentando encaixar as peças. No meio do trabalho, a surpresa. O pinguinho muito querido aproximou-se e envolveu minha cabeça com seus pequenos braços. Para completar a festa, encostou sua cabeça na minha. Ficamos ali, unidos por um sentimento leve, sem palavras, por uma identidade que se inaugurava. Sem pressa. Fora da cabana, o mundo e suas circunstâncias podiam esperar.

Abraço.

Na noite festiva, o Menino discursaria. Treinado durante meses, falaria em ídish, idioma que não dominava. Tudo memorizado para confirmar a entrada na maioridade religiosa. Um ritual praticamente obrigatório nas famílias judias. A ancestralidade dizia presente.

O nervosismo era natural. Na manhã do dia anterior, tinha cumprido a etapa litúrgica do processo. Agora, no salão de festas, repetiria palavras que os adultos já estavam cansados de saber, mas mesmo assim não dispensavam. Antes da boca livre, digo, do jantar, eu falaria. E a expectativa era de que não titubeasse, como se fora um grande orador a iluminar as gentes. Logo eu, um dentuço a caminho da redenção, que mais preferia ver e ouvir.

E o silêncio se fez. O terno e a gravata, tortura para um adolescente, pareciam pesar algumas toneladas. O microfone, que já tinha conhecido dias e falantes melhores, estava ali, inquisidor. Como dar a largada? De onde viria o sinal para tocar o bonde?

O Grande se aproximou. Pegou o microfone com a intimidade de um Antônio Cordeiro, de um Heron Domingues, de um Gontijo Teodoro, e, meio sorriso nos lábios, sorriso inteiro nunca foi possível, falou: Manda brasa! E me passou a geringonça.

Todos os temores desapareceram. Todas as formalidades derreteram. Falei sem parar durante, sei lá, uns dez, quinze minutos. Libe eltern, zeide un bobes un hoshuve fraind… Queridos pais, avô e avós e distintos amigos. Ainda lembro esse início.

Tudo foi gravado e se transformou num pequeno disco de vinil, que ainda guardo, com seus chiados estranhos. Infelizmente, aquelas duas palavras libertadoras do Grande foram apagadas. Crueldade do cara que editou o discurso. De qualquer forma, elas foram um grande abraço na alma, autorização para entrar num mundo que ele gostaria de compartilhar comigo. Neste sentido, pintou eternidade. Ou e-terna-idade.

Abraço. E coragem.

Diálogos

Diálogos

Navegar por memórias antigas é como andar no fog de Baker Street à luz de um velho candeeiro. A gente vê vultos, silhuetas, sem ter muita certeza do que temos pela frente. Ou por trás, já que de passado se trata.

Numa dessas caminhadas opacas, esbarrei no Claudio Correa e Castro. Estava vestido a caráter como no dia em que estreou a peça Galileu Galilei, do Brecht, encenada pelo teatro Oficina em 1968. Fazia os gestos enfáticos do italiano, no enfrentamento da ignorância e do dogmatismo de seu tempo. Desafiou os poderosos com as armas da ciência. Subverteu a falsa teoria de que a Terra era o centro do universo. Duvidou, pecado grave para batinas e coroas. Sob ameaça de tortura e morte, foi forçado a renunciar às suas convicções.

Há uma cena na peça que jamais esqueci. Com um pequeno telescópio na mão, Galileu convida um prelado (ou seria monarca?) a olhar o céu através das lentes. Argumentando que a hipótese do Sol ser o centro do sistema planetário era uma heresia, o poderoso se nega a fazê-lo. Prefere o dogma, confortável, embora falso.

Galileu é a antítese dos nossos tempos acelerados e volúveis. Como bem disse o Zeca Baleiro, ninguém tem mais tempo pra nada. Ele defendia o vá e veja, observe e conclua, debata e conheça. Hoje, qualquer um se sente autorizado a emitir opinião, por exemplo, sobre um livro mesmo sem tê-lo lido. É dessa forma que se criam tribunais virtuais instantâneos sem fundamento real, sem o indispensável conhecimento do que se está avaliando. Creio que isso está acontecendo com o livro Que bobagem!, da dupla Natalia Pasternak, microbiologista, e Carlos Orsi, jornalista.

Antes da chuva de conclusões apressadas, que fique bem claro: não li o livro, não acho honesto julgá-lo. É exatamente por isso que me assusto quando percebo que tantos não-leitores como eu estejam deitando cátedra sobre a obra. Mais ainda. Acendem-se as fogueiras da Inquisição, como se os autores fossem apenas oportunistas que, através da blasfêmia, estivessem tirando proveito de calculadas provocações.

Não conheço Carlos Orsi, mas meus neurônios ainda vibram com a doutora Pasternak. Ela foi, junto com a pneumologista Margareth Dalcolmo e o oncologista Drauzio Varella, entre outros honrados médicos, uma voz poderosa contra o negacionismo e a favor da ciência durante a pandemia de Covid-19. Sua presença foi fundamental para manter nossas sanidade e esperança no auge da praga. Com postura densa e corajosa, ajudou a salvar vidas. Não se trata, portanto, de uma charlatã. Devagar com o andor, distintos jurados! Criticá-la, se for o caso, é legítimo e enriquecedor, mas através de argumentos e postura respeitosa. É preciso retomar o hábito saudável de debater em bom nível.

Quando ouvi falar de Anitta pela primeira vez, fiz cara de paisagem. Pesquisei, ouvi algumas de suas músicas, assisti alguns clipes, vi (envergonhado e atônito) a apresentação dela antes da final da Libertadores da América de 2022, em Montevidéu. Formei opinião, sem me deixar influenciar pela eficiência empresarial da moça e suas posições políticas. Como arte, é lamentável. Mistura de soft-porn com efeitos especiais, excesso de carne e gordura, caras e bocas bem ensaiadas. Vende como pão quente. Segui meu receituário. Fui, vi, ouvi, opinei.

Voltando ao livro de Pasternak & Orsi. Um bom exemplo de comentário elegante e propositivo foi escrito pela psicóloga Vera Iaconelli, colunista semanal da Folha. Sem duelar com os autores, menciona abordagens diferentes sobre um tema polêmico do livro (psicanálise e ciência). Cita fontes bibliográficas relevantes e, nas entrelinhas, sugere que o debate deve continuar. Vejo o espectro sorridente do Galileu depois do ponto final.

Não se vai derrotar a extrema-direita apenas com um governo reformista vulnerável ou a boa vontade antifascista. É preciso fecundar a estrada, cultivando desde já valores que contrastam com a truculência e a ignorância dos galinhas verdes. Reaprender a dialogar, e diálogo se faz reconhecendo e respeitando as diferenças, é um desses valores.

Abraço. E coragem.

 

Ela vem chegando

Ela vem chegando

Na volta triunfal ao cinema de rua, um susto. Procurei, em vão, a bilheteria. O antigo box onde comprávamos ingressos estava lacrado. Procura daqui, assunta dali, descobri que a vendedora de drops do bar interno passou a acumular a função dos bilheteiros. Pronto, mais uma profissão extinta. Segue o caminho dos trocadores de ônibus, lanterninhas de cinema, sorveteiros em carrinhos da Kibon, vendedores de pirulitos cônicos, tocadores de realejo, radioatores.

Entre os exterminadores de empregos, a mais nova estrela é a chamada Inteligência Artificial (IA). Estamos na primeira infância de uma revolução tecnológica que se espalha por inúmeros processos de produção material e simbólica. O cérebro eletrônico deixou de ser uma denominação genérica dos computadores e avança para dissolver a fronteira entre o real e o imaginário. Como em toda transição, há muita insegurança sobre o que pode acontecer. O mundo, tal como o conhecemos, balança, sem que esteja claro como será aquele que o substituirá. Se, por um lado, surgem equipamentos que aperfeiçoam diagnósticos médicos e ajudam cientistas a traduzir textos milenares em instantes (é o que está acontecendo com o idioma acadiano, que existiu há mais de 2 milênios), por outro os vídeos das chamadas deep fakes corroem as noções mais elementares de realidade.

Um exemplo preocupante é o que acaba de acontecer no México. Certa candidata de oposição nas eleições presidenciais, a senadora Xóchitl Gálvez, viralizou nas redes com um vídeo em que desautorizava sua adversária governista. Descobriu-se que tudo, desde as imagens de Gálvez até seu pequeno pronunciamento, era falso. O material foi inteiramente produzido por ferramenta de IA. É previsível a massificação destes programas falsificadores, com sistemas cada vez mais sofisticados.

O desemprego provocado pelo incremento acelerado da automatização de processos produtivos pode chegar a 20% dos empregos globais. É o paraíso dos burgueses, proprietários dos meios de produção. As máquinas automatizadas são trabalhadores dóceis, sem necessidade de descanso ou sindicatos, manutenção barata. É o inferno para as multidões de desempregados crônicos, que se somarão aos milhões de centrifugados pela lógica implacável do capital. Já pensei muito sobre o destino dessa gente. Abandonados e sem o mínimo para sobreviver, simplesmente morrerão de fome, em silêncio? Perambularão pelas cidades em contingentes cada vez maiores, assustando os “incluídos”, que, claro, chamarão os meganhas para resolver o inconveniente? Surgirá uma centelha de rebeldia, com consequências globais e inéditas?

Centenas de cientistas e pesquisadores subscreveram um pequeno texto de alerta sobre o descontrole na evolução da IA. “Mitigar o risco de extinção por IA deve ser prioridade global, ao lado de outros riscos de escala social, como pandemias e guerra nuclear”. Creio que se inspiraram em Hal, o computador de 2001: uma odisseia no espaço. A máquina estava programada para garantir o sucesso da missão espacial a Júpiter. Concluiu que os tripulantes eram uma ameaça para se alcançar o objetivo. Ato contínuo, tratou de eliminá-los. A Criatura aniquilou (quase) todos os Criadores. Seria apenas uma conjectura da ficção científica? Poderíamos entrar na linha de tiro dos algoritmos fora de controle? Perguntas que assombrarão a existência de nossos filhos e netos.

Aqui jaz uma dúvida fascinante. Em algum momento, poderão as máquinas “sentir”, “criar”, “improvisar”? Terão redes neuronais que admitam surpresas? Até aqui, não há nada parecido com isso. O máximo que se pode projetar é uma simulação burocrática destes movimentos humanos. Não imagino um androide criando a coreografia de Fred Astaire dançando com um cabideiro (!) em Royal wedding. Menos ainda improvisando o drible humilhante que Pelé aplicou em Mazurkiewicz em 1970 ou dirigindo a cena final de Eles não usam black-tie, com os personagens de Fernanda Montenegro e Gianfrancesco Guarnieri catando feijão em silêncio. Aliás, como seria um “silêncio introspectivo” destes mecanismos? Não há planejamento eletrônico que autografe a primeira bicicleta do Leônidas da Silva ou um improviso pianístico do Count Basie. Como seria a amizade de duas máquinas? Empatia de arruelas, chips e óleo nas juntas?

De nada, entretanto, adiantará nossa orgulhosa capacidade de improvisar, sentir, se a decisão de uma IA mal-humorada e bem equipada for varrer-nos da face da Terra. Aí, então, não poderemos ir nem para Pasárgada.

Abraço. E coragem.

Nos caminhos de Robert

Nos caminhos de Robert

Duas almas, ai de mim!, habitam meu peito (Göethe)

Prepare-se, você vai ser o promotor. A tarefa não parecia difícil. No júri simulado da escola eu teria que arrumar argumentos para condenar o físico Robert Oppenheimer, um dos cérebros por trás das bombas atômicas que haviam dizimado Hiroshima e Nagasaki. Parecia estar no papo.

No dia do julgamento, sala de aula lotada, o colega que advogaria pela inocência do físico veio muito bem municiado. Não lembro do seu arrazoado, devia ter base na “neutralidade da ciência”. O fato é que impressionou o professor e a turma. Apesar disso, ganhei a causa. Certamente não por meu desempenho, mas pelas imagens aterradoras das vítimas dos bombardeios nucleares. Não havia, na nossa lógica ginasiana, possibilidade de absolver um personagem que abriu as portas do inferno para a Humanidade. O horror nuclear que, no Baghavad-Gita, texto sagrado hindu, poderia ser definido na passagem “Agora eu sou a Morte, a destruidora de mundos”.

O professor acatou a vontade da maioria. Vox populi. No entanto, sabiamente, considerou que seria meu colega o mais talentoso numa eventual carreira jurídica. Tão certo na sua ponderação que, poucos anos depois, eu estava envolvido com sulfetos, isótopos e bicos de Bunsen, não com sursis, habeas corpus e meritíssimos.

Oppenheimer retorna agora, protagonista de um filme magnífico, dirigido por Christopher Nolan. Um filme que, ao contrário do padrão hollywoodiano, não pretende fechar questões, mas abri-las. Quem for ao cinema esperando respostas categóricas, vai sair frustrado. Temos o hábito de criar rótulos, reduzir a complexidade do humano a meia dúzia, se tanto, de características, e encaixá-lo em conclusões definitivas. Dá conforto, mas é falso. Expandindo a linda poesia do Mario Benedetti, do amor para a sociedade, “somos mucho más que dos”. Somos muito mais do que preto e branco. E Nolan condensou isso, com sensibilidade e espírito aberto, nas muitas facetas de Oppenheimer.

Impossível comentar todas as questões que o filme apresenta. Vou concentrar-me em duas. A primeira volta à velha sala de aula na Tijuca. Até onde vai a culpa de Oppenheimer pela destruição das duas cidades japonesas? Em termos objetivos, ele coordenou a equipe de cientistas que desenvolveu Little Boy e Fat Man, apelidos dos artefatos nucleares. Impossível saber suas motivações exatas ao se envolver no projeto em Los Alamos, claramente militarista. Tenho minhas suspeitas. Ele não era um armamentista fanático. Ao contrário. Tinha formação humanista, simpatia por causas progressistas. Antifascista, gostaria de colaborar para a derrota do Eixo na guerra. Isso não significa que apoiava calcinar populações indefesas, sem objetivos militares contundentes. Pensou, e o filme mostra isso, que a arma assustadora que estava criando serviria como dissuasão para que a guerra terminasse mais rápido. Uma dissuasão demonstrável para observadores internacionais, em ambiente controlado. Foi engolido pelos militares e políticos, que tinham lógicas e objetivos diferentes.

Há outro elemento, menos explícito, que pode ter colaborado para o engajamento de Oppenheimer no projeto Manhattan. Seu campo de pesquisa, a física quântica, era eminentemente teórico. Tudo muito especulativo, habitando quadros negros e papel. Evocava a imagem caricata do cientista alheio ao mundo em que vive. A possibilidade de sair do ambiente acadêmico e desembarcar num mundo palpável, material, quod erat demonstrandum, pode tê-lo excitado a ponto de não medir, ou subestimar, as consequências do que estava criando? Não sei, ninguém sabe, nem poderá saber. Não estou falando de mocinhos e bandidos, apenas reconhecendo as contradições internas do homo sapiens.

A segunda questão é a variável militar. Havia necessidade de usar o armamento nuclear? Se por necessidade entendemos quebrar a espinha dorsal dos japoneses, a resposta é um sonoro não. Usando números frios. Em março de 1945, Tóquio foi atacada por bombas incendiárias. Numa única noite, 100 mil moradores foram queimados até a morte, 130 quilômetros quadrados reduzidos a fogo e cinzas. As imagens da capital japonesa em ruínas fumegantes lembram o holocausto nuclear de Hiroshima e Nagasaki. Naquele período, os bombardeios de 67 cidades japonesas mataram entre 50 e 90% das populações locais. Historiadores tiveram acesso a documentos que mostram que, já então, o país estava se preparando para render-se.

Por que, então, a barbárie nuclear? Também aqui não existem explicações definitivas. Uma razão plausível seria a Guerra Fria que começava a esboçar-se depois das grandes vitórias do Exército Vermelho na Europa. Hiroshima e Nagasaki, cidades sem qualquer importância militar, pagaram o pato, ao custo de milhares de mortos (impossível determinar o número exato). Teriam sido uma clara mensagem à União Soviética. A expansão da influência bolchevique não seria tolerada. Se necessário, barrada manu militari, ou melhor, manu nucleari.

Oppenheimer disse a Truman que sentia as mãos manchadas de sangue. O presidente norte-americano desprezou aquele homem atormentado por sua criação e que acreditava, ingenuamente, que a cooperação internacional prevaleceria sobre a lógica da indústria da guerra. Hoje, os artefatos lançados sobre o Japão não passam de traques juninos comparados com o poder letal das milhares de bombas atômicas armazenadas em 9 países. O gênio, definitivamente, saiu da lâmpada.

Qual a dimensão da culpa de Oppenheimer em tudo isso? Insisto que o filme de Nolan não garante respostas para essa pergunta. Tem o mérito, enorme, de reativar questões importantes num mundo apressado, às voltas com a Inteligência Artificial, que muitos garantem ter potencial de extermínio superior ao que foi parido num lugar remoto do Novo México.

Abraço. E coragem.