Messias, Deus, chefes supremos,/Nada esperamos de nenhum!/Sejamos nós quem conquistemos/A Terra-Mãe livre e comum! (do hino A Internacional)
Ando mergulhado na formidável biografia da Clarice Lispector, escrita pelo norte-americano Benjamin Moser. Clarice é um personagem intraduzível. Banhada em contradições, apaixonada pelo ofício de escrever mas cética quanto à sua capacidade de transformar, pela palavra, quem quer que fosse. Econômica na comunicação verbal, esparramada nas histórias que criou, sem a menor preocupação de “ser fácil”. “Escrevo para mim mesma, para ouvir minha alma falando e cantando, às vezes chorando”, disse. Lê-la jamais é um exercício ligeiro. Nada mais distante do rosa Barbie do que Clarice.
Uma de suas contradições me pegou pelo pé. Ou melhor, pela interrogação. Procurou, com insistência, as fontes do misticismo judaico. Aliás, foi além. Já no final da vida, consultava videntes. Amigos garantiam que ela acreditava nas previsões. Na outra ponta da corda, rejeitou cedo a religião convencional, descartando a hipótese do deus humanizado que informa, em geral, as práticas religiosas ocidentais. Em um de seus textos, afirma, categórica: “Se acima dum homem há os homens, acima dos homens nada mais há”.
A origem do ateísmo clariceano não é difícil de explicar. A pista está em sua própria história de vida. Nascida numa aldeia remota da Ucrânia, região da Podólia, onde havia um antissemitismo endêmico, com longo prontuário de pogroms, sua família sofreu dores e agressões até a fuga final para o Brasil. Inicialmente Alagoas, depois Pernambuco e Rio de Janeiro. A mãe foi estuprada por vândalos ucranianos e contraiu sífilis. O pai foi sistematicamente perseguido e mal conseguia garantir o sustento da casa. Juntando os cacos dos dramas familiares com as informações posteriores sobre o genocídio judaico na Segunda Guerra Mundial, reproduziu a pergunta que Primo Levi e tantos outros fizeram: Como se pode acreditar num deus indiferente a tantas e tamanhas monstruosidades?
Ao longo dos séculos, ilusionistas, charlatães, doutrinadores oportunistas, supersticiosos e até mesmo gente de boa fé, passaram adiante as lendas de seres sobrenaturais, com poder de vida e morte sobre os homens. Sempre fabulando que há uma separação rígida entre Bem e Mal. Muita dor, muita ignorância e muito sangue jorraram por conta deste tipo de mistificação. No Brasil, não foi diferente e está em curso uma radicalização do que alguns chamam de guerra santa ou cultural, mas que não passa de uma NeoInquisição sem fogueiras. Quem não pensa como eu, dizem os fanáticos, será execrado, perseguido e isolado. Não se satisfazem, porém, com isso. O poder terreno exige altas finanças.
Em nome de suas crenças, autodefinidas como de moralidade superior, grupos religiosos conseguiram que a Câmara dos Deputados aprovasse isenções tributárias não apenas para seus templos, mas para organizações assistenciais e beneficentes ligadas a eles. Agora, tentam ampliar esta anomalia no Senado, acabando com a tributação para construção e reformas de templos, escolas, asilos, creches e comunidades terapêuticas vinculadas a eles. Não há limites para a gula, cuja satisfação é barganhada nos jogos eleitoral e parlamentar.
Como têm se manifestado alguns destes profetas da bondade e parasitas dos recursos públicos? Um deles não teve o menor pudor de afirmar que “africanos descendem de ancestral amaldiçoado por Noé” e “Aids é uma doença gay”. Outro incitou, claramente, sua comunidade a se livrar dos homossexuais, trabalhinho sujo terceirizado por seu deus. Uma expoente da bizarrice reacionária pressionou, covardemente, uma menina que engravidou após estupro para que não interrompesse a gestação. Tudo em nome da vida (sic).
Renúncia fiscal implica em menos recursos públicos para investir em prioridades que beneficiem amplos setores da sociedade. Assim sendo, cabe perguntar quem fiscaliza as instituições religiosas, muitas vezes lideradas por gente que vive com luxo num país com dezenas de milhões de famintos. Como pode uma atividade baseada na fé, necessariamente limitada a grupos restritos, ser financiada por toda a sociedade? Por que um ateu, por exemplo, deveria aceitar que seu imposto pagasse a construção de um templo, qualquer que fosse a denominação deste? Quem quantifica o “benefício social” de uma associação dita beneficente? É tudo muito escandaloso e revoltante.
Já que estamos no Brasil, que nunca renunciou ao título de Terra do Crioulo Doido, tomo a liberdade de sugerir outras isenções tributárias. Que se liberem dos impostos os jardineiros, que nos dão beleza e perfume. Que se aliviem os livreiros, guardiães dos mistérios que importam. Que anulem a carga dos poetas, tradutores das almas partidas e dos corações aflitos. Que tirem das planilhas os grafiteiros, gênese do milagre da arte nos muros carentes. Que eliminem dos tributáveis os professores, centímetros iniciais da estrada que ferve sob nossos pés hesitantes. Que, por fim, apaguem da listagem as prostitutas. Elas, afinal de contas, acabam sendo, injusta e involuntariamente, o modelo de conduta dos cínicos que fundem religião com política.
No outro dia, chegamos bem cedo aos arredores da Provincia di Napoli, bem perto do nosso antigo Quartiere Ebraico e da antiga Sinagoga Scuola (Ah, a Sinagoga Scuola!). Fomos entrando e meu filho vendo aquelas construções antigas, outras modernas, com flores nas janelas iluminadas pelo sol da manhã. Já havia alguma movimentação pelas ruas e ele ficou com os olhos arregalados por chegarmos ali. Deixamos, então, o carro em determinado lugar, e saímos caminhando pela Via Appio Claudio e Piazza della Republica. Meu filho olhava tudo em redor, aqueles terraços com roupas penduradas no alto, parecendo cantinas a céu aberto, quando atravessamos a Via Giambattista Vico, meu filho parou, emocionado, e disse-me:
– Babbino, estou sentindo aquele mesmo perfume do meu nonno neste lugar – que saudade!
Abracei-o sem dizer nada, e fomos a um bar, próximo ao Castello Baronale,pois aquele momento exigia mais um caffè na Piccola Caffetteria, e nas mesinhas da calçada, deixando o frágil sol sobre nossos rostos, porque estava muito frio, pedimos nosso macchiato.
Meu filho é de expressão aberta, e se está aborrecido vê-se em sua face, e quando alegre, seus olhos verdes brilham, sua pele fica iluminada e o sorriso fica estampado! Ele estava com os olhos vívidos, a face iluminada e o sorriso marcadamente estampado, e seu café à mão, olhando-me profundamente e vocalizando ‘O Paese d’ ‘o Sole. Pus meu café sobre a mesa e minha mão sobre seu ombro:
– Ecco figlio, das sementes que plantamos, recebi flores, árvores e frutos! Porém, a maior alegria é tê-las plantado, porque a vida fica por conta da simplicidade e vale mais, bem mais, que a existência. A vida é Poesia e música, caminho, encontro, planícies, ar. A existência é poema e barulho, estrada, distância, labirinto, gases sufocantes. E a violência feita contra um ser, qualquer ser, é feita contra todos e contra o Eterno!
O amor é mesmo semear atos de bondade! A sabedoria é nunca chamá-las de semente! E o coração é o universo onde a vida é privilegiada com Shalom. Ali não há gritos, mortes, violação – somente música, e serenidade, e lealdade, e afeto, e delicadeza! Se eu falhar, filho, não importa. Faça do seu coração o lugar com terra boa, e deixe flores nele, de todas as que se encontrarem, com variados perfumes e cores. Mas, não morra entre elas! Faça caminhos delineados, com pedras que durem e espalhe muitas placas, placas grandes, imensas, expressivas, em todos os cantos:
AQUINÃOSEMATA!
Caminhos largos para pessoas, porque, afinal, um jardim não é sem pessoas. E não se aborreça se elas criarem passagens entre flores, de terra socada apenas, para irem e virem, e estarem, porque essa é a vida de ser humano, abrir passagens – mas, não destruir o jardim. Não queira mais que isso! As borboletas e anjos ficam por conta do Eterno.
Transforme a vida numa casa, mas não use material descartável. Ela deve durar e trazer saudades, deve deixar lembranças, lançar raízes profundas e dar frutos. Abra janelas em todas as direções e erga um teto alto, que acompanhe o telhado, a fim de ter bastante ar e música espalhada como unção e bênção humanas.
Na casa, filho, tenha poucas coisas – mais pessoas. Nenhum negócio e muitos encontros. Entre coisas, prefira as simples, rústicas e duradouras. Entre pessoas, as plenamente humanas. E, entre elas, as mulheres, especialmente as que cheiram Poesia e possam ser chamadas “bênção de D’us”, pois os seus sentidos são desenvolvidos mais que em pessoas, o seu cheiro é mais agradável e quando abrem a boca, levam os Poetas para todos os mundos.
E não se esqueça do café – ele é vital. Feito, nunca por empregadas, em coadores de pano, e servido, nunca para apressados, em xícaras pequenas de ferro esmaltado. Tudo deve ser demoradamente vivido e visto, cheirado, degustado, escutado, falado e compreendido – nunca amanhã! Por isso, a sua casa deve ser o encontro de pessoas boas, coração e música, muita música! E Poesia, muita Poesia!
Deixe pra fora aquele que coisifica e faz do mundo um manicômio, da floresta um deserto, do rio uma privada química, do humano um escravo, de um Rabi um ídolo, dos lugares sagrados um mercado. Deixe para fora o que pisa em formigas, o que pesca por esporte, o que mantém cachorro na corrente e não lhe tira os carrapatos, o que atira contra aves, sobretudo, os que matam pequenos passarinhos ou os exibem em gaiolas – com estes nem cumprimentos! Deixe fora, quem amaldiçoar crianças (sobretudo, no ventre) e desprezar idosos (inclusive aos asilos) e se chamar geração espontânea.
Deixe fora o que ama hambúrguer e o necrófago – que fotografa e filma demais, incessante e desesperadamente, e o que se põe à mesa como que diante do cocho – e ama maledicências e lashon hará, e ama celular e noites de Internet, e ama carros, e dinheiro, o necrófilo que ama fita pornô, principalmente, pedófilos, ainda que virtuais.
Aliás, deixe fora o que ama qualquer coisa e despreza o humano e o Eterno, sobretudo, o íncubo opressor, preconceituoso, prepotente, corporativista, agiota, banqueiro, latifundiário, traficante, legalista, pedófilo, sádico, mercenário, imperialista, nazista, fascista, antissemita, terrorista, torturador, carrasco (e qualquer vampiro e parasita) e, ainda, o súcubo covarde, invejoso, voyeur, masoquista, fanático, racista (negro ou branco), monarquista, republicano caffellatte, getulista, militarista, antiético, traidor, que abraça e ri o riso odontológico, sem razão, e não olha nos olhos. O mentiroso, carlista, malufista, congressista (e qualquer hospedeiro e escória da humanidade).
E, deixe para fora, também, aquele, com ou sem anel – angustiado, que espia e ama falar (bem ou mal) da vida alheia, seja em casamento, reunião de pais e mestres, formatura, churrasco, encontro eleitoral, beneficente e orgiástico, aniversário, dia das mães, dia dos pais, natal, ano novo, reunião pedagógica ou velório, esteja no cabeleireiro e Câmara, sinagoga, mesquita, templo e terreiro, SPA, clínica e academia, condomínio e favela, avião, ônibus, elevador, escada, portão, porta e janela, corredor e sala de espera, mercado e escola, boteco, clube, novela, TV, jornal, revista, Internet e ordem secreta (e qualquer maledicente em qualquer viela escura e sufocante da sociedade).
E deixe, também, o que ama flores – e outras coisas indizíveis de plástico, diplomas pendurados, relação solitária, artificial, virtual e via telefone, e o que suga o tempo alheio, a vida alheia, principalmente, de seus familiares, e o que não paga pensão alimentícia, e o que transforma uma mulher bonita em bibelô e trofeuzinho ou escrava e zumbi. Porque esses falam de mulher como de uma coisa ou ser inferior – ah, filho, este é o pior! É tão imbecil e inútil que não acredita em amor de pupilas, lábios, pão e umbigo; não acredita em Poesia, música, suor, intimidade e comunhão! E não sabe nem acredita que haja múltiplos vôos femininos. Para ele – que tranca a adega, o vinho é para negócios, ostentação e frescura. E não para ungir o umbigo e a boca de uma mulher. Este jamais leu cada uma das linhas do Cântico dos Cânticos nem sabe coisa alguma da Criação e, menos ainda, da Creação!
Então, abra a sua casa para poetas, músicos e mulheres-Poesia. Homens, só os de caráter humano, moderados na Torá e nos Nevi’im, porque a luz está (e virá com eles) e não criarão obstáculos para o seu crescimento diante do Eterno. Hai capito? Porém, não seja impiedoso, tenha misericórdia daquele que desconhece o céu, a terra, o mar, o inferno e o paraíso, e nunca perdeu o sono, nem contou estrelas, nem parou diante da lua, nem se deixou à brisa e nunca viu anjos e demônios nem olhou o vazio, nem riu à toa, nem chorou à toa, nem xingou à toa, e nunca viu uma casinha no campo vazia e abandonada, nem pôs as mãos à boca diante de uma cama e de um espelho antigos, nunca possuiu asas de arcanjo ou de inseto, para voar sobre oceanos nem quis escalar montanha alguma. Ele desconhece o material de que a alma é formada. Misericórdia, filho! Ele é insípido porque não amou nem foi amado, ainda!
Va bene, figlio mio, va bene, não é tudo! Por agora descanse, e quando estiver diante do Eterno, cubra-se com seu Talit e Kipá. E quando estiver com sua família, ponha sobre a sua mesa o pão feito em casa. Rasgue-o com as mãos, as mesmas que tocam a Mezuzá – nunca com faca. O pão puro sem as injustiças! O pão sem a liberdade de outrem, nem a fome, a cárie ou a privação de outrem, nem a nudez ou a dignidade de outrem, nem a opressão sobre outrem, nem a tristeza ou dor de outrem. O pão sem o corpo, a alma, o espírito e as afeições de outrem, nem o sangue ou a vida de outrem. A mesa deve ser simples. O seu pão, suado. E as suas mãos, filho, justas!
Pietro Nardella-Dellova, Ao Figlio e la Piccola Caffeteria, in A Morte do Poeta nos Penhascos e Outros Monólogos. São Paulo: Editora Scortecci, 2009, p. 35)
Naquele tempo, a cidade era menor, as noites mais longas e quietas, as pessoas mais cordiais (do conto Essa mulher, de Eric Nepomuceno)
Primeiro, veio a surpresa. Um imenso pano opaco cobria um pedaço da areia da praia de Copacabana. Distribuídos embaixo dele, em intervalos regulares, dez volumes cujas silhuetas insinuavam corpos humanos. Depois, veio a aflição. Por que os cadáveres, quem eram? Percebi, então, que se tratava de ato revoltado e sofrido em memória do ajudante de pedreiro Amarildo Dias de Souza, desaparecido há 10 anos. Os corpos eram manequins, cada qual representando um ano do sumiço do Amarildo, depois de ser detido em casa por PMs na Rocinha e levado para “prestar esclarecimentos”. A investigação, que resultou na condenação de 12 policiais, concluiu que Amarildo foi torturado (com descargas elétricas, saco plástico na cabeça e afogamento em balde com água) e morreu em consequência das sevícias.
Não foi fácil concluir minha caminhada. O lindo dia de céu claro e a paisagem embriagadora no horizonte não combinavam com o clima da tragédia que destruiu mais uma família de despossuídos. Uma família que, como tantas outras, não teve sequer o direito de enterrar um dos seus.
O crime bárbaro cometido contra um trabalhador acaba afogado pelas incontáveis violências cotidianas. É como se todos estivessem apenas aguardando a próxima tragédia, como destino manifesto, inevitável como a noite que se segue ao dia. Os rostos tristes e machucados que vi na praia de Copacabana sumirão rapidamente na poeira anônima dos noticiários.
Ruy Castro fez recentemente um pequeno apanhado de crimes e incidentes que andam acontecendo em larga escala no Brasil. São quase miudezas se comparados com a devastação ambiental planetária e as crises que resultam em milhares de refugiados. Quem quer saber da mulher que, na Bahia, envenenou marido e filhos e filmou o gajo estrebuchando até morrer? Ou do pai que, em Uberaba, atirou no filho por causa do uso de um roteador? O que dizer do cliente que, em São Paulo, fuzilou o segurança do bar após ser impedido de entrar no estabelecimento? É de amargar! Todos os casos, no entanto, desenham o país perturbado, em estado de ansiedade crônica, com violência em expansão. E não me venham dizer que tudo isso é fruto do quadriênio monstruoso que vivemos a partir de 2018. Como qualquer processo fermentativo, a coisa vem de longe.
Dois casos mobilizaram em especial meu imaginário. Num condomínio na Taquara, Zona Oeste do Rio, um policial civil, morador do local, abriu fogo contra seus vizinhos que participavam de uma festa no salão do conjunto. Três deles ficaram feridos. A causa? Uma reclamação contra o volume do som. Assim é. Do desconforto à agressão física, a distância é o gatilho de uma arma. Entre janeiro de 2018 e dezembro de 2022, houve 70 homicídios e mais de 14 mil agressões durante brigas entre vizinhos no Estado do Rio.
Na vila de minha infância, a vizinhança era de outra natureza. O vizinho era aquele que, na emergência, cedia um pouco de sal para o refogado e um tantinho de fermento para o bolo improvisado. Era aquele que abria as portas para assistirmos televisão, luxo a que poucos de nós tinham acesso. De quebra, emprestava a revista Intervalo, com a programação dos poucos canais. Era o interlocutor noturno, nas cadeiras que, em círculo, compartilhavam angústias e esperanças. Era o peladeiro botinudo que me transformava, por contraste involuntário, em Dida ou, vá lá, Garrincha. Era, sobretudo, o que enxugou minhas lágrimas e meu desânimo no momento da ferida profunda.
O segundo caso foi o de Gabriela Anelli, torcedora palmeirense estupidamente assassinada por um flamenguista idiota. A garrafa que arremessou na direção de Anelli espatifou-se e os fragmentos a atingiram mortalmente no pescoço. É assustador como a cultura da violência invadiu os estádios de futebol. Hoje, é programa de risco frequentar arquibancadas. Como bem observou Carlos Eduardo Mansur, a violência nossa de cada rodada já parece não chocar.
Impossível não lembrar do tempo, já encurralado nas névoas da memória longínqua, em que, ainda moleque, eu frequentava o Maracanã em dias de grandes jogos, todos com mais de 100 mil torcedores. Jamais me senti ameaçado pela multidão, a rivalidade se exprimia por ferramentas, digamos, civilizadas. Ao final da partida, a gente descia a rampa de acesso às arquibancadas lado a lado com a torcida adversária, sem que fluíssem rios de sangue ou rolassem cabeças quebradas. É como disse Obdulio Varela, El Negro Jefe, capitão da seleção uruguaia campeã da Copa de 1950: Afinal de contas, ora bolas, futebol é apenas um jogo.
Nesta semana encontrei duas leitoras, e logo perguntaram se nosso país enlouqueceu. Não disse a elas, mas escrevo agora, que um psicanalista hoje entende e explica as questões individuais menos que os antigos. E as questões sociais são ainda mais difíceis, por isso só escrevi sexta pela manhã, pois passei a semana imaginando o que escrever, mas tudo me parecia já escrito. O caminho diante da complexidade é ser lento, ainda mais diante o domingo, o histórico 8 de janeiro. Nunca os três Poderes da Democracia – Executivo, Legislativo e Judiciário – tinham sido devastados por hordas raivosas. Quebraram obras de arte, urinaram, defecaram, arrasaram três dos mais belos palácios criados por Oscar Niemeyer e construídos pelo suor dos trabalhadores. Provaram com seus atos que o problema não é a urna eletrônica, mas sim a derrota nas eleições, e reagem à derrota querendo golpe militar.
O dia 8 de janeiro de 2023 não será esquecido, foi um dia de traumas, o povo brasileiro se chocou com as cenas de invasão e destruição. Tudo feito por gente disfarçada de verde e amarelo, que felizes e se sentindo heróis arrasaram as sedes da Democracia. No dia primeiro do ano ocorreu a posse do novo governo numa festa de um amor entusiasmante feita por uma multidão. Uma semana depois quatro milhares realizaram a festa do ódio à liberdade, ódio à maioria do povo que elegeu uma frente ampla para governar o país.
Quando conversei com as duas leitoras, me referi aos traumas do dia e logo perguntaram o que são, exatamente, traumas. Trauma é um evento muito intenso, surpreendente, que não se consegue responder bem devido aos transtornos que provocam na realidade psíquica de cada um. Todas as pessoas já viveram e viverão traumas como perdas, separações, frustrações, derrotas ou até vitórias. O trauma é um grande afluxo de excitações que está acima da capacidade pessoal de dar conta, dominar psiquicamente tanta excitação surpreendente.
O trauma pode ser pessoal, familiar, social ou mundial. Exemplo recente é a pandemia da COVID-19, que gerou um trauma mundial com efeitos pessoais. Cada ser humano reage ao trauma com sua personalidade. Há os que se desequilibram com sofrimento e os que reagem e tomam providências objetivas. No dia 8 de janeiro o Brasil ficou traumatizado e o mundo ficou impactado com o terrorismo que estuprou a Democracia. Há um Brasil que odeia o Brasil, se fantasia com o verde e amarelo, mas tem raiva de um país para todas e todos os brasileiros. Assim foi na nossa História, assim foi nas ditaduras, assim ocorre agora quando uma parte da população passou mais de dois meses gritando para que os armados voltassem. Dizem que os armados adoraram serem chamados, lembrados, amados, seduzidos. As pessoas, cansadas de permanecer diante dos quartéis, decidiram, orientadas por líderes, radicalizar e assaltar Brasília. Viajaram apoiados e guiados por armados, empresas e empresários.
O trauma é um choque violento, uma ruptura no conjunto de uma organização psíquica. Em pouco tempo há um aumento de excitação psíquica sem possibilidade de elaborar, gerando angústias, desamparos e reações desconcertantes. Trauma diante de uma perda, por exemplo, como ocorreu comigo no dia 8 de janeiro à tarde, quando estudava desamparo. Que ironia! No meio do estudo, fui espiar o UOL, como faço às vezes, e li e vi a invasão e a destruição na capital federal. Não pude mais estudar, vivi um desamparo que me obrigou a ficar diante da TV até o fim do dia. Aliás, o trauma está ligado ao desamparo, pois o povo brasileiro, em sua imensa maioria, se sentiu desamparado, chocado com tanto ódio e crueldade. Os invasores terroristas fantasiados de verde e amarelo destruiram artes brasileiras, estocaram cinco vezes o painel “As Mulatas” de Di Cavalcanti. Aliás, nada me foi mais traumático que essas estocadas no mural, quanto ódio à arte, quanto ódio das Mulatas, que poder tem a arte para gerar tanta agressividade. “As Mulatas” VIVEM.
Quando agora escrevo, percebo que passei toda a semana buscando caminhos de como escrever sobre as imagens da destruição de domingo. Criei títulos e desprezei, decidi não escrever, mas não me resignei, diante dos traumas é preciso escrever, conversar e esboçar respostas. Por que tanta loucura brasileira, loucura humana, nossa loucura, eis a questão. O Brasil é um país traumatizado pela escravidão de 350 anos e que segue no racismo estrutural. Vejam que foram “As Mulatas” que foram estocadas. O Brasil traumatizado pelos assassinatos de jovens negros, de indígenas, de indianistas, de pobres. País traumatizado com a ditadura militar da tortura e dos desaparecidos sem julgamento. Por isso o ex-presidente, em pleno Congresso, em 2016, saudou o maior torturador brasileiro e ainda disse que ele foi o terror da presidente Dilma.
O governo anterior não aceitou a derrota nas eleições, os armados e os poderes financeiros tampouco, são gente que deseja o golpe. Se esse golpe fracassou, outros podem ser tentados. Os últimos seis anos fizeram muito mal ao País, passamos da civilização a uma quase barbárie como se viu na pandemia, em que médicos desprezaram até as vacinas! Felizmente vem nascendo há tempos um novo país, um novo Brasil. É difícil mudar a história do País já definido como da Casa Grande e Senzala, é um desafio para muitas gerações, muitas mesmo. Essa luta começou no distante passado com Zumbi, Dandara e milhares de negras, negros, indígenas, trabalhadores, estudantes, sonhadores de um Brasil para todas e todos. É urgente que os armados entendam que a guerra fria terminou, o comunismo definhou, estamos no século XXI, agora é a Democracia. Ah, os armados precisam estudar que eles não servem a um governo, mas servem sempre ao Estado, são pagos por todo o povo, devem respeito aos três Poderes.
O Brasil é um país traumatizado, pois boa parte do nosso povo não está no retrato e agora está começando a se fazer presente. No dia 11 de janeiro, houve a posse dos dois novos ministérios: o dos povos originários, com a ministra Sonia Guajajara, e o ministério da igualdade racial, com a ministra Anielle Franco. Aliás, ver, três dias depois do ataque a Brasília, as novas ministras com novos ministérios assumindo foi um show. Show da Democracia, um show da justiça social, diminuindo assim o impacto traumático do dia 8. Viva as artes, as ciências, a cultura brasileira, o povo brasileiro. Democracia Sempre.
Não há nada mais terrível do que uma ignorância ativa (Goethe)
Juca Kfouri é dos raros cronistas esportivos que respeito. Daqueles que sabem que a dança do esporte está colada na melodia da sociedade. Pois o Juca suspendeu por alguns instantes o tema usual de suas colunas para tratar de outro, muito mobilizador e doloroso. A eutanásia.
Sua irmã Maria Luiza enfrentou um câncer de pâncreas e, depois de muito sofrimento, dor e total desesperança de remissão, morreu semana passada. Lúcida até quase o fim, havia deixado o desejo, registrado em cartório, de que não esticassem artificialmente sua vida. Pode-se chamar de viva a pessoa que já não respira espontaneamente, depende de tubos para manter os metabolismos, apaga a consciência com sedativos potentes para não sofrer dores fortíssimas? Os médicos estão proibidos, no Brasil, de assessorar um fim suave e rápido para quem, irreversivelmente doente, expressou claramente esta vontade.
Há um bloqueio obscurantista em nosso país, impedindo que se discuta, com seriedade, temas como a eutanásia. Em nome da religião, grupos organizados, como a nefasta Bancada da Bíblia, atacam qualquer tentativa de conversar com a sociedade sobre o direito que cada um tem de dispor de sua Vida. Em nome de deuses imaginários, preferem que se prolongue a agonia de quem suplica apenas um fim digno para uma existência que, no sábio dizer do Juca, “deve ser morrida com suavidade, sem estraçalhar a rota dos anos percorridos”.
Infelizmente, no Brasil, Estado laico pra inglês ver, é comum ver o espaço público sequestrado por correntes religiosas. Quem não se surpreende ao entrar numa repartição pública ou na sala de deliberações do STF e ver crucifixos pendurados? Onde a separação Igreja-Estado? A promiscuidade produz aberrações, assimiladas como “naturais” pela frequência com que ocorrem. Vou ficar em apenas alguns casos mais recentes.
Na última Marcha para Jesus, evento privado, parcial e indevidamente financiado por recursos públicos, um representante do atual governo federal disse que “nós estamos em Brasília não pela nossa perna, mas levantados por Deus para cumprir um propósito”. Discursinho rigorosamente igual ao do Negacionista Inelegível, que sempre afirmou estar “cumprindo missão divina” na presidência. O que dizer da campanha do advogado Cristiano Zanin para garantir vaga no STF? Peregrinou até os membros do consórcio evangélico que habita o parlamento, para assegurar que é “homem de família” e “católico” e sinalizar que não moverá palha para colaborar no debate de temas como o aborto. Capitulações que desinformam, despolitizam, privilegiam. Assustam, e medo é matéria-prima de todas as formas de autoritarismo.
Por falar em privilégios. Entre 2018 e 2022, o segmento evangélico foi presenteado com isenção de ICMS por até 15 anos, perdão de dívida de R$ 1,4 bilhão referente à Contribuição Social sobre Lucro Líquido e isenção de IPTU sobre imóveis alugados. Na reforma tributária aprovada há poucos dias pela Câmara dos Deputados, entidades religiosas, templos de qualquer culto, incluindo suas organizações assistenciais e beneficentes, estão isentos de impostos. A tradução (à moda de Orwell): todos os brasileiros são iguais, mas uns são mais iguais do que os outros.
Quem tem no currículo Inquisição e Cruzadas, cumplicidade com expedições coloniais, discriminações variadas contra mulheres e homossexuais e um número descomunal, e crescente, de casos de pedofilia, não deveria ter autoridade para criticar a liberdade de interromper a Vida de forma espontânea. Um assunto que se deve abordar sem o cutelo chantagista do pecado.
Está mais do que na hora dos brasileiros ultrapassarem as ameaças dos arcaicos e debaterem a eutanásia. Como fizeram Alemanha, Bélgica, Espanha, Holanda, Luxemburgo e Portugal. Não consta que afundaram na perdição e no caos. À revelia dos perversos que defendem o sofrimento acima de tudo e dos supersticiosos que invocam o invisível para justificar a dor, é preciso, e aqui chamo novamente o Juca, “sem medo das patrulhas obscurantistas, modernizar a legislação para que cada um possa escolher como fazer com a própria vida”.
Ao Juca Kfouri, irmão de memórias e esquadrões inesquecíveis.
Sua senhoria trila o apito. Começa agora o match decisivo da Copa do Mundo, neste estádio de Rasunda. Dia chuvoso na capital sueca, momento histórico para o esquadrão de ouro. Assim imagino que Oduvaldo Cozzi começou a transmitir a partida entre as seleções do Brasil e da Suécia, decidindo a Copa de Mundo de 1958. O estilo elegante do locutor paulistano, extinto faz tempo, nos transportou, em êxtase, ao gramado onde se jogou uma das mais espetaculares partidas do selecionado brasileiro. Em meio aos chiados de rádios a válvula, adivinhávamos o baile, que completou 65 anos. Baile regido por Didi (eleito o melhor jogador da Copa), Garrincha e Pelé.
O Menino comemorou como pôde. Ladeando um pequeno gramado na vila de casas, havia uma mureta de cimento áspero, lixa perfeita para fabricar as bainhas dos botões artesanais. Craques eternizados na memória. Alguns buracos na mureta permitiam que a água da chuva, acumulada na terra encharcada, escoasse. Pois foi nestes buracos providenciais que extravasamos nossa euforia. Substituímos os tradicionais traques Caramuru por cabeças de nego, pequenos cilindros de papel pardo com pólvora socada. Quando explodiam nos buracos, o efeito era poderoso, megatônico. O eco reproduzia estrondos parecidos com os de canhões. Viva!
Se perguntar a alguém que viveu aqueles momentos qual seria a trilha musical da Copa, é pule de dez que cantarolará “A taça do mundo é nossa/com brasileiro não há quem possa”. Por artes sempre misteriosas dos recuerdos, meus tralalás são outros. O primeiro é a marchinha Mané Garrincha, composta por Jorge de Castro, Wilson Baptista e Nóbrega de Macedo para o carnaval de 1959. Cantada por Angelita Martinez, vedete do teatro rebolado, tinha um trecho que convidava ao duplo sentido. Dizia: “Mané que brilhou lá na Suécia/Mané que nasceu em Pau Grande”. Claro que adolescentes e nem tanto substituíam o “em” por “com”. Garrincha, que com mulher não era mole (sem ou com duplo sentido) e ainda não tinha encontrado Elza Soares, teve um caso com Angelita.
O outro, cujos nome e compositor desconheço, dava a escalação completa da seleção antes da final (!) e celebrava a conquista. Vale a pena registrar: “Gilmar, De Sordi, Belini, Zito, Orlando e Nilton Santos, Garrincha, Didi, Vavá, Pelé e Zagalo, esse é o escrete nacional/Que vencendo a Suécia, com bravura e decisão,/Conquistou para o meu país o cobiçado título de campeão”. Tá, a coisa tem jeito de rapé, mas quem disse que memória é júri de festival?
Era tempo de futebol romântico. Ninguém chamava técnico de professor, craques faziam carreira completa no mesmo clube, criando vínculos duradouros com a torcida, as camisas não eram outdoors ambulantes. Não existiam dancinhas midiáticas, nem gestos devocionais caricatos, na comemoração dos gols. Em 1958, Vicente Feola, técnico da seleção, ouviu os conselhos de Didi e Nilton Santos, boleiros experientes, e escalou Garrincha e Pelé na partida decisiva contra a União Soviética. Os titulares Joel e Dida, ambos do Flamengo, eram muito bons, mas quem seria páreo para os dois gênios que os substituíram? Jogadores influenciando técnicos. Hoje? Impossível.
Há uma história saborosa sobre a partida contra a URSS. Garrincha comeu a bola. Logo no primeiro minuto, demoliu a defesa soviética e mandou um petardo na trave de Iashin, o Aranha Negra, um dos melhores goleiros do mundo. Foi assim durante todo o jogo. O lateral-esquerdo Kuznetsov não viu a cor da bola. Terminada a partida, os soviéticos, derrotados por dois a zero, voltaram para o vestiário. De repente, ouviu-se um forte estrondo. Tinha sido Kuznetsov, que arremessara sua chuteira contra a parede e disse, aos berros: Nunca mais jogo futebol! Nós não sabemos que jogo é esse! Quem sabe são eles!
O pessoal da velha guarda afirma que a conquista da Copa em 1958 curou a ferida do Maracanazo. Não penso assim. Acho que não há o que cicatrizar. A vida é construída pela lembrança dos bons e maus momentos. Não dá para eliminar uns ou outros. A derrota para a Celeste, em 1950, é poderosa fonte de ensinamentos, não uma página vergonhosa. Interferência da política no esporte, arrogância, ufanismo da imprensa, são apenas alguns dos graves equívocos brasileiros que facilitaram a vida de Obdulio Varela e seus companheiros. Aprendemos a lição? Não sei. Futebol hoje é, cada vez menos paixão e mais business, e os idos de 1958 são apenas uma imagem bela e criativa do que já fomos. E jamais voltaremos a ser.