Espectros à mesa

Espectros à mesa

Algum dia tinha que acontecer. E foi hoje, neste início de 5784. Envolvidos por uma dessas brumas cinematográficas que anunciavam vampiros e espíritos aflitos, eles iam chegando aos poucos.

No princípio, intrigados. Não costumavam ficar juntos, mas aquele lugar os acolhia bem, logo ficaram à vontade. Com abraços mais ou menos apertados dei-lhes as boas-vindas. Shul’m aleich’m, reb Zissi! Vus machstu, reb Avrum? Kum aher, reb Shmil! E o cortejo só aumentava. Primeiro, os homens, na hierarquia secular a que se habituaram. Depois, menos intrigadas (elas sempre captam melhor as vibrações), as mulheres, já de avental e sabedoria a postos. Algumas, dissidentes, usavam o avental como adorno exótico, sem qualquer valor utilitário. Eram vanguardistas avant la lettre.

Os espectros que chegavam, tão familiares, nunca haviam a rigor saído daquela sala, da mesa posta, dos aromas ancestrais impregnados na alma. Acomodaram-se e o que veio a seguir me fez lembrar Lilian Helman: “Eu gosto das pessoas que se negam a falar até que tenham algo a dizer”. Naquele encontro, cada palavra tinha um pedaço carnudo de eternidade.

Enquanto esvaziavam cálices sucessivos de bronfn, a pinga ashquenazita, faziam perguntas. À moda judaica, ou seja, dessas cujas respostas jamais são pontos finais. Onde anda a boa música? Um deles havia lido num site – sim, eram espectros atualizados! – que “o mundo tem música demais que significa cada vez menos”. Oi vei, por onde andarão os Heifetz, os Rosenblatt, os Zukerman, os Horowitz, os Barenboim? Onde se podem ouvir os klezmorim? Tentei mostrar novidades criativas. Abram a cabeça, taiere neshumes! Qual o quê. Eram celularmente nostálgicos.

Neste momento, entraram em cena as mulheres. Aquelas dissidentes. Peraí, argumentaram, o mundo não parou nas aldeias, na dor do exílio, nas perdas tão sentidas. Olhem em volta. Já ouviram falar em choro, em Hamilton de Holanda, Henrique Cazes, Maurício Carrilho, Zé Paulo Becker, Paulinho da Viola? Já escutaram Yamandu Costa? E foi proclamada a confusão. Eu me divirto à distância. Ora, a vida me ensinou que o ideal seria um Paulinho Heifetz, um Daniel Carrilho, um Henrique Rosenblatt. A salada rítmica, a sopa cultural, a combinação de experiências, costumam dar liga. Choro e klezmer não são criações quimicamente puras. Poros abertos, resultam de assimilações ricas de significados. Diálogos no mundo das partituras.

O forrobodó espectral corria solto, quando chegaram à mesa, em marcha triunfal, os primeiros guefilte fish, bolinhos de peixe. Salgados, levemente adocicados, tinha para todos os paladares (que permaneciam exigentes mesmo na etapa espectral da existência).  Como sempre, as divergências derretem e abrem alas ao gosto comum, à comunhão pelo sabor. Cada garfada condensa histórias e memórias.

O banquete continua com o yuach mit kneidlech, o caldo fumegante e dourado de galinha com bolinhos de farinha de matsá. O silêncio na mesa demonstra reverência àquela maravilha. Simples, terrivelmente trabalhosa, identificadora.

Quem ainda tem fôlego, enfrenta a etapa do ferfale com carne. Arremata-se com maçãs generosamente banhadas em mel. Há um afeto, uma plenitude, fluindo no ar, que nos gruda, material e subjetivamente, nas cadeiras. São encontros sempre improvisados, cada pedaço de lembrança, cada riso ou lágrima, definindo nossa silhueta e nossos caminhos. O tio Bóris, discreto mobilizador, sereno, dá interpretação laica a uma velha tradição religiosa judaica e nos junta num abraço coletivo: Shehehianu vequimanu vehiguianu lazman hazé! Que a nossa relação continue viva pois foi ela que nos trouxe até aqui! E todos, ateus ou não, respondemos: Umain! (amém com sotaque polonês-bessarabiano).

Cada qual no seu canto, voltamos à realidade inconstante. Com uma única certeza: não existe cada qual no seu canto. É cada qual em todos os nossos cantos.

Que 5784 continue permitindo os encontros que nos batizam e constroem.

Abraço. E coragem.

Cinquenta anos

Cinquenta anos

Às mulheres de Calama, que jamais desistiram.

Às vésperas do 50º aniversário do golpe que derrubou o governo da Unidade Popular no Chile, foi anunciado um plano nacional para localizar as cerca de 1.100 pessoas que desapareceram durante a ditadura e ainda não foram localizadas. Calcula-se que mais de 40 mil pessoas foram presas, torturadas e/ou mortas pelos militares durante os 17 anos que durou o regime.

A barbárie começou logo após a deposição do presidente socialista Salvador Allende. A jornalista Patricia Verdugo descreveu o que foi a Caravana da Morte, monstruosidade que espanta mesmo num continente que se habituou ao horror. Um general, acompanhado por oficiais, percorreu o Chile, caçando “inimigos do regime”. No final da operação, 75 pessoas haviam sido trucidadas com inacreditável sadismo. Não bastava assassinar. Era necessário batizar a nova etapa com sangue e medo. Era vital para os algozes afogar em sangue a memória da experiência da Unidade Popular.

Interessante notar como os milicos golpistas latino-americanos sempre foram apaixonados pela morte e movidos por covardia. No Chile, a Caravana. Na Argentina, os Voos. Prisioneiros políticos sedados, embarcados em aviões, foram arremessados ao rio da Prata. São ecos das falanges fascistas espanholas. Em 1936, durante um evento na Universidade de Salamanca, cujo reitor era o poeta e filósofo Miguel de Unamuno, o general franquista Millán Astray gritou: “Abaixo a inteligência! Viva a morte!”.

O documentarista chileno Patricio Guzmán dirigiu o belo Nostalgia da luz. Nele, aparecem mulheres que percorriam o deserto do Atacama, lugar mais árido do planeta, buscando com ferramentas rudimentares ossos de parentes sequestrados e assassinados por verdugos pinochetistas. Mais do que comovente, é um registro em dupla direção. Na primeira, demonstra a estarrecedora capacidade humana de infligir sofrimento. Na outra, a contrapartida da memória, da dor que não aceita resignação, da dignidade que enfrenta a violência. Lembrar, aprendemos a duras penas, é resistir.

O Centro Cultural do Banco do Brasil está exibindo uma exposição de fotografias do Evandro Teixeira, grande craque do fotojornalismo. Entre muitas imagens, as que ele captou no Chile em 1973, logo após o 11 de setembro. Lá estão a UTE, universidade bombardeada e vandalizada (abaixo a inteligência!, lembram?), o Palácio de la Moneda arruinado por caças da Aeronáutica, o funeral do poeta Pablo Neruda, morto menos de duas semanas após o golpe. Evandro conta, emocionado, como fotografou a enorme multidão que, mesmo ameaçada por forte aparato militar, acompanhou o caixão do poeta até o cemitério. Gente que declamava versos de Neruda, cantava às lágrimas e de punho cerrado a Internacional, saudava o companheiro que foi amigo pessoal de Allende e militante comunista (senador pelo PC em 1945).

O impacto da exposição me fez retornar a velhas perguntas e inquietações. O governo da Unidade Popular foi extremamente importante para minha geração. Política, ideológica e culturalmente. O aprofundamento da experiência da Nueva Canción Chilena, unindo tradição folclórica e lutas populares. Ouvíamos Victor Jara, Violeta, Isabel e Angel Parra, Inti Illimani, Quilapayun, Rolando Alarcón. Os artistas iam aonde o povo estava. Os trabalhadores se organizavam, participavam, ganhavam voz na hierarquia política. A juventude despertava para a política com entusiasmo e criatividade. As ruas, os estádios, os muros, as livrarias, todos ferviam.

A pergunta que insiste em permanecer atual é: será possível transitar ao socialismo dentro da institucionalidade burguesa? Foi o que Unidade Popular tentou. Como se pedisse licença para ultrapassar o modo capitalista de produção. Licencinha aí, seu dotô. Contra isso agiu uma combinação de forças internas e externas. Hoje já se conhece a extensão da interferência do imperialismo no processo chileno. A Internacional Capitalista, com a ajuda da classe dominante chilena, abortou tudo com táticas sórdidas. Na luta de classes, a burguesia venceu um round.

Terá sido em vão? Certamente não. A História se constrói com luta, mas também com memória. Há muito o que aprender com a experiência chilena. Transfiro a palavra ao Neruda, para sintetizar a esperança de retomada de um projeto de construção do socialismo, ideia tão generosamente abraçada pelo povo chileno nos idos de 70. É o trecho final do discurso que o poeta proferiu em 1971, ao receber o Prêmio Nobel de Literatura. Deixo no original para conservar sua força.

“Yo creo en esa profecía de Rimbaud, el vidente. Yo vengo de una oscura provincia, de un país separado de todos los otros por la tajante geografía. Fui el más abandonado de los poetas y mi poesía fue regional, dolorosa y lluviosa. Pero tuve siempre confianza en el hombre. No perdí jamás la esperanza. Por eso tal vez he llegado hasta aquí con mi poesía, y también con mi bandera. En conclusión, debo decir a los hombres de buena voluntad, a los trabajadores, a los poetas, que el entero porvenir fue expresado en esa frase de Rimbaud: solo con una ardiente paciencia conquistaremos la espléndida ciudad que dará luz, justicia y dignidad a todos los hombres”.

Compañero Allende: presente!

Camarada Neruda: presente!

Compañeros de la Unidad Popular: presente!

Abraço. E coragem.

Minha nonna e o “Shemá Israel”

Minha nonna e o “Shemá Israel”

ש
Minha nonna, nascida no Ghetto, não era exatamente uma “religiosa”, era uma anarquista, antifascista e que se opôs muito às forças opressoras garibaldinas (do Norte).
מ
O tanto que ela me ensinou de Judaísmo era fundamentalmente o “Shemá Israel” (e coisas de ética e comida judaicas), e me dizia que isso, apenas isso, me ajudaria a não ser submetido ao mundo, à idolatria ou a homens (mitos, heróis, deuses fálicos etc).
ע
De fato, o “Shema Israel” é quase tudo o que tenho precisado no meu giro pelo mundo, é quase toda energia de que preciso para não ser submetido. O “Shema Israel” deu a ela, minha querida nonna, e dá a mim – e aos meus filhos depois de mim, um sentido de judeidade, uma alma judia (bastante anarquista) e alguma coisa que me faz ficar no alto, no bem alto.
ישראל
Enfim, todas as vezes em que ouço ou profiro o “Shemá Israel”, não escuto a voz de “D-us”, escuto a voz da minha nonna
*
(Pietro Nardella-Dellova)
Passione ou, porque minha amiga tem asas

Passione ou, porque minha amiga tem asas

Encontrei a amiga em uma manhã de sol, brisa suave e muita vida para viver, pois, afinal, não tenho tempo para morrer entre vampiros, asnos e vias públicas. E ela, então, perguntou-me sobre a palavra passione e seu sentido no modo italiano de viver.

Va bene! Não tente traduzir esta palavra em português, seja do Brasil, de Portugal ou de Angola, nem em inglês britânico e, menos ainda, em inglês americano! Em alemão não é possível sequer pensar em passione. Para o hebraico também não se pode traduzir e, por falta de uma palavra, o rei Salomão escreveu um livro todo sobre passione: o Cântico dos Cânticos (Shir HaShirim)! Enfim, não há tradução para passione! Seria preciso viver alguns anos na Itália, da Sicilia aos extremos alpinos.

Seria preciso caminhar entre construções de pedra e ouvir pessoas cantando com suas janelas abertas e passar muito tempo em Napoli, em suas vias estreitas, descobrindo como nascem tenores e, quem sabe, beber em Milano com seu encanto feminino e multifacetado. Seria preciso ir a Firenze e descobrir o que é Rinascimento. Ou, simplesmente, ver um filme, talvez, Cinema Paradiso, Il Postino e Il Poeta ou La Vita è Bella!

Passione no modo italiano inclui variados aspectos, do tipo mergulhar de boca na mulher amada, promover o bem integral da mulher amada, fazer com que a mulher amada voe e, diante disto, aplaudi-la com entusiasmo incontido. É voar com a amada sobre os mares e fazer com que ela veja estrelas um montão de vezes até ficar vermelha e lançada sobre os lençóis com os cabelos esguedelhados – colorida e maravilhosa, como pintura feita à mão. Passione é viver um dia com a amada como se fosse a própria eternidade…

É uma experiência única, singular e linda! Não há esta coisa de chorar pelos cantos, beber até morrer, de magoar-se ou de prantear, transformando tudo em música sertaneja, cachaça e churrasco, isto é, em monólogos, rezas sem fim, pedidos a Santo Antonio e programas de auditório, com gritinhos e tudo. Não, de fato não! A experiência da passione é algo superior, capaz de transformar animais em gente, transeuntes em pessoas – é alguma coisa entre o Jardim do Éden e os desertos dos enfrentamentos humanos. É roubar o fogo de Zeus e entregar, doar, experienciar as musas noite adentro – ainda que isto custe o fígado durante o dia. Não é ficar com uma viola órfica na porta dos infernos chorando nostalgias sem fim e cortando-se os pulsos, mas descer aos infernos, fundo e consciente, dar umas boas porradas em Plutão e trazer Eurídice em beijos tresloucados, sonoros e escandalosamente públicos!

Passione não inclui egoísmo, mas, cumplicidade. Não inclui choro, mas risos. Não inclui oitavada desarmônica, mas a música plena e o canto pleno em afinação absoluta de corpos que se completam na delícia humana! É a experiência do diálogo – não da conversa! É um estado de envolvimento intenso que exige o mergulho na última gota de vinho: o mistério das pérolas escondidas no mais profundo deste mar tinto e bravio! Por isso mesmo, no estado de passione não se perde a última gota do vinho, aliás, nem se bebe vinho em duas taças e, poucas vezes, em uma. É experiência do vinho na boca, da boca na boca, da procura da gota do vinho no umbigo, no abdômen, nas faces, no pescoço, nos lábios, do perfume do vinho no seio desnudo – o movimento de vida! Passione é vida!

Passione é a intensidade com solidariedade. Fazer amor, intenso e sem limites, com amizade. O estado de envolvimento, com prazeres sem fim, mas, sempre, de mãos dadas, juntos, voando juntos. Não há previsão de futuro no modo passione – apenas de carpe diem, daquela intensidade presente que não se perde em prognósticos, futurismos, profetismos, rezas. No modo passione não lemos as linhas das mãos da pessoa amada, tentando ver seu dia porvir, apenas, beijamos as mãos, acariciamos as mãos, apertamos as mãos na intensidade plena do encontro dos corpos presentificados. Nas mãos não ficam linhas nem marcas, mas, impressões indeléveis de ternura, encontro e sabores do corpo inteiro!

Em passione ninguém pensa em morrer de dor ou de sofrimento, ou em arrastar correntes por corredores sem fim! Ao contrário, passione é luz, é salvação, é bênção. O momento máximo que dá sentido a uma pessoa, que a resgata da caverna e da mesmice cotidiana, pois é neste momento que é possível ver-se, encontrar-se e plenificar-se na pessoa amada! Na passione tiramos as asas da mala empoeirada e as colocamos de volta nas costas (e nos pés).

Minha amiga ficou em silêncio, trêmula e com os olhos brilhantes. E eu lhe disse: Hai Capito adesso? Então, ela olhou para suas costas e viu suas asas. Minha amiga tem asas!

Ah, minha amiga, passione nos faz voar, por isso não tem esta coisa de sofrimento, dor e choradeira. Depois que aprendemos a voar não tem mais jeito – é preciso voar sempre! Depois que você reencontra suas asas escondidas naquelas malas estranhas dos comportamentos socialmente compatíveis, sai de perto… Pois, elas grudam em suas costas e se tiver alguém por perto que não voa ou com tesouras nas mãos, ui… As asas grudadas às costas empurram idiotas ao chão, pois elas têm um poder próprio, vida própria, por isso mesmo, quando se abrem as asas o melhor é voar junto ou “vixe, fodeu!”, ou seja, cai a casa, cai o muro, cai a máscara, cai o beco, cai tudo e a vaca vai para o brejo! Asas é o que melhor retrata o movimento da passione! Gostou disso, amiga? Então, olhe para suas costas agora…wow!!! você tem asas! Quem se atreve a colocar você na gaiola? Como esconder esta maravilha que aparece no seu andar e no seu dia? Como prender você? Mulher! Encanto! Fogo! Vida! Inteligência! Voe! Abra suas asas, grandes, abertas e vença os olhares idiotizantes de asnos que passam!

E lembre-se, minha amiga, se alguém quiser ter você, na cama ou no sofá, o melhor a fazer é destruir gaiolinhas e aprender a voar…

Sem asas, ou seja, sem passione, as pessoas definham e perdem o canto. Especialmente a maioria dos homens, que têm medo psicanalítico de Freud e não resistem a cinco páginas de suas obras! Passam longe dele e sequer o mencionam, pois para ler Freud é preciso ter asas e senso de humanidade e, sobretudo, é preciso ter senso de si próprio! Voar é viver, mas, não para todos os homens! Todos não viverão nem voarão – apenas alguns. Porque para voar é preciso duas capacidades com habilidades expressivas. A primeira é ter asas! A segunda, é ver as asas de uma mulher e aprender a voar com ela, pois, somente a mulher pode ensinar o vôo a quem tiver asas. Se um homem souber ver asas em uma mulher, e se tiver as suas próprias asas, aprenderá com ela e voará alto e liberto. Mas, se tiver asas e for cego, suas asas serão sua mortalha e passará seus dias escondido entre arbustos edênicos, nomeando bichos, e terminará fazendo culto ao falo. Sim, o culto fálico é a condenação para quem não vôa, nem enxerga o vôo e, ao contrário, prefere se esconder nas cavernas de sua estupidez!

É no desenho feminino, nas asas femininas, na alma feminina e na intensidade feminina, que um homem pode ser homem completamente, com vôo, liberdade e alma! É ali, e apenas ali, que ele descobre o movimento da passione, o tempo, a experiência de voar e a vida na plenitude de uma gota de vinho. Ecco, amica mia, la passione è così!

(Pietro Nardella-Dellova, 28 de maio, 2010)
Será que ele é?

Será que ele é?

Correnteza de rio/que não vai se acalmar (Edu Lobo)

Dia desses, um articulista da Folha de S. Paulo perguntou se Lula é de esquerda. Nas atuais circunstâncias, essa talvez seja uma questão meramente retórica. Luiz Inácio foi a única alternativa viável para derrotar, nas urnas embora não nas relações de poder, a extrema-direita. Sob esse prisma, não há qualquer dúvida de que o ex-metalúrgico é um homem à esquerda no espectro político nacional. O que me interessa, contudo, é dialogar com outros aspectos.

Para começo de conversa, é evidente que Lula não é, jamais foi e não pretende ser comunista. Chegou mesmo a declarar que, ser de esquerda, é uma espécie de doença quando se manifesta na maturidade. Isso aí é o fantasma oportunista e ignorante que, despolitizados e seduzidos pela estupidez bolsonarista, setores da população assimilaram.

Pesquisa recente feita pelo Datafolha desenha o nível de desinformação, neurose e descolamento da realidade de uma grande massa de brasileiros. Fico em duas conclusões da pesquisa. Mais de um terço dos entrevistados (36%) defendem, total ou parcialmente, que a ditadura civil-militar (1964/85) beneficiou o país. Mais da metade (52%) concordam, total ou parcialmente, que o Brasil “corre o risco” (!) de se tornar comunista. É neste imaginário popular, deformado e semiesquizofrênico, que atuam as forças políticas. Um cenário quase catastrófico.

Lula tem origem na militância sindical, que se limita a negociar a redução nas taxas de exploração do trabalho. Não está em sua agenda questionar a permanência desta exploração e a possibilidade de ultrapassá-la. Luiz Inácio usa, com habilidade, esta formação política, negociando sem alterar a hegemonia do capital. Não vai, nem irá, além disso. Quer reformar o que for possível, sem confrontar regras inegociáveis do modo de produção capitalista. Antes de esquerdista, ele é um reformador.

O articulista da Folha usa a régua diversionista para definir a esquerda. Navega nas pautas de costumes, ambientais, identitárias. Como se a esquerda devesse limitar-se a discutir a extinção de baleias, a liberalização do uso de drogas, os direitos dos povos originários, os preconceitos. Passa longe de categorias como a luta de classes, que não é apenas o embate direto entre exploradores e explorados, mas o reconhecimento de que existem conflitos que não se resolvem idealizando a boa vontade e o “bom senso” dos antagonistas. Evidente que o combate ao racismo e a preservação ambiental, por exemplo, são importantes, mas representam antes consequências de um tipo de sociedade predatória, fundada em desigualdades, injustiça e desprezo pelo bem-estar coletivo.

Lula, ora pois, não é um revolucionário, durmam tranquilas as hienas protofascistas. Por isso, dele não espero que siga uma das tradições mais consistentes da esquerda histórica: ajudar o povo a compreender os mecanismos que geram e reproduzem pobreza, discriminação, desesperança. Mecanismos que não são meras armadilhas do destino, mas construções determinadas pelas relações entre os homens. Uma pedagogia que estimule organização e participação. Passo inicial para a emancipação dos trabalhadores das múltiplas formas de dominação do capital.

Dou um exemplo prosaico. O governo acaba de divulgar a proposta de Orçamento para 2024. Quem consegue compreender a salada numérica? Quantos se interessam por isso? Os cálculos são apresentados como se não fossem afetados pela política, sem pressões, higienizados pela burocracia estatal. No entanto, entender a distribuição de recursos, as razões das prioridades, seria uma bela lição de como funciona a dinâmica do poder. Um político, já não digo de esquerda, mas ao menos progressista, usaria os números para esclarecer, educar, mobilizar. Um “você sabia?” politizado, difundido à larga em redes sociais. Nada disso passa pela cabeça do companheiro ex-metalúrgico. O jogo dele é agradar o “mercado”, não fazer marola, ceder continuamente espaço político para os de sempre.

Voltando à pergunta inicial. Lula tem uma respeitável trajetória política, foi importante na luta contra a ditadura. A preocupação com os segmentos mais vulneráveis do país é louvável. Entretanto, sua visão assistencialista dos problemas sociais não combina com a necessária transformação do povo em protagonista de sua história. Pelo contrário. O fôlego reformista depende de lideranças carismáticas, do “fique tranquilo, deixa comigo que eu resolvo”, da prevalência dos bastidores e das mediações burocráticas sobre a participação popular. Se o projeto for apenas administrar a dinâmica de acumulação do capital, amenizar seu apetite canibal por lucros, Lula é um bom quadro. De esquerda? Há controvérsias. Se a intenção for superar este modo de produção material e subjetivo, a chave será outra e Lula será ultrapassado. Pela esquerda.

Abraço. E coragem.

Scarpe da donna (sapatos de mulher)

Scarpe da donna (sapatos de mulher)

SAPATOS DE MULHER
(originalmente “scarpe da donna”)
(…)
O Poeta estava ali um pouco ao norte, forasteiro, olhando o pó de florestas moídas e, então, Ela veio, entrou pelos corredores apressadamente e foi deixando os sapatos, altos e pretos, jogados pelo portão.
(…)
Aqueles sapatos lançados ao chão resmungaram uma voz concentrada, como se fosse possível ouvir por intermédio deles a voz musical distante, intensa. Sim, porque há mulheres que usam os pés para dançarem, mas, outras, usam-nos para primeiro gemerem, e depois, se libertarem, para o salto que as tire da cola asfáltica, e para o impulso que arrebente paredes, cartórios, anéis – e muros.
(…)
Quem tira os sapatos, e Ela tirou os sapatos, busca a leveza e o conforto de um ato libertário de desnudamento – busca o mar, e busca a brisa, e busca o estado de comunhão, e busca a poesia, e busca aqueles olhos que enxerguem, e busca o espaço, e busca o vento, e busca a tempestade, e busca o toque das mãos feito escultura renascentista.
(…)
Em algum ponto dos pés femininos começa o caminho ao paraíso!
(…)
Ela, então, agora descoberta mulher e gente, tirou os sapatos e os manteve ali, jogados no corredor, feito símbolo de resistência e escárnio, marco de libertação, desenho melódico, expressão de inteligência, convite ao encontro dialógico pleno. Aquela mulher tirou os sapatos em busca da pele, dos poros e do corpo – em busca da alma que transita pelas veias, da vida que organiza os músculos e arrebata os seios – em busca da luz que cintila nos lábios e faz dilatar as pupilas.
(…)
Aquela mulher tirou os sapatos porque as asas não estavam em suas costas, mas, nos pés – e ela buscou asas em seus pés, asas que a levassem para as cabanas alpinas – de onde chegara o Poeta – e para beber na mão da Poesia ou, quem sabe, mais próximo, ao alcance de um dedo, nas vias e pousadas andinas ou, simplesmente, para o risco de um verso possível no encontro de gente e seres apenas.
(…)
E, agora, Aquela mulher (Esta mulher!) tão próxima assim, com os pés soltos – sapatos jogados – pisaria uvas com intensidade, cantando e dançando por toda a noite. Ela ergueria os vestidos para pisar uvas mais profundamente ainda e, ao amanhecer, lançaria mais uvas ao lagar e continuaria cantando alegremente com os vestidos levantados, pés descalços, mergulhada em vinho e poesia achada na rua, no corredor, no portão, sob a entrega do olhar de um Poeta anarquista que apenas passava por ali.
(…)
© Pietro Nardella-Dellova. “trechos” do capítulo “Porque é Preciso Dançar”, do livro INFLEXÕES ANÁRQUICAS E ALGUMA POESIA NO UMBIGO DA MULHER AMADA (prelo). Escrito na região amazônica (Vale do Juruena), em 6 de Iyar, 5770 (2010)
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* imagem: pintura de Marc Chagall