Duro de acabar

Duro de acabar

Nessa época do ano, o senso comum pede assuntos leves. De pesada basta a vida, vox populi. Aí é que está o busilis. Ou a porca torce o rabo. Não é nada fácil desligar o botão. O mundo gira, a Lusitana roda, e a gente continua pregado nos acontecimentos, sem direito a férias.

Vejam só. Enquete realizada pela Universidade de Harvard revelou que dois terços dos jovens norte-americanos entre 18 e 24 anos consideram que os “judeus” (assim mesmo, genericamente) são uma classe de opressores, que merece ser tratada como tal. Não é, apenas, déficit informativo. Assim fosse, seria muito fácil combater o antissemitismo. Bastaria uma educação humanista, intelectualmente honesta, para sufocar o preconceito. Ocorre que há, por trás da constatação da pesquisa, uma longa história de perseguições, agressões individuais e coletivas, mitos de natureza religiosa, farta literatura infame e ignorância estimulada por poderes constituídos. Fundamente arraigados no imaginário dos povos. Aí o bicho pega. É mais fácil desintegrar um átomo do que o preconceito, disse um certo Albert Einstein.

A notícia vem junto com o triste aumento de eventos antissemitas em muitas partes do mundo. Coquetéis molotov atirados contra uma sinagoga em Berlim. Estrelas de David pichadas em portas e fachadas de edifícios em Paris. Vandalização de cemitérios. Crescimento substancial de incidentes antissemitas em capitais europeias. No Brasil, não é diferente.

Ah, dirão os mais apressados, é resultado do que “vocês” estão fazendo em Gaza. Duplo erro. Este “vocês” não existe. Os judeus são um povo heterogêneo, onde cabem religiosos, ateus, múltiplas nacionalidades, direitistas, esquerdistas, sionistas, antissionistas, brancos, negros, humoristas, dramaturgos, gênios, canalhas, e por aí vai. Há instituições para todos os gostos, com opiniões frequentemente antagônicas. Dois judeus, três sinagogas, diz a velha piada. Além disso, e muito importante, o antissemitismo já existia muitos séculos antes do conflito Israel-Hamas. Às vezes discreto, subterrâneo, até envergonhado, outras explícito e violento. O que está acontecendo agora foi apenas um pretexto, a senha, para libertar o gênio da lâmpada. E ele não perde tempo.

Antes que me cobrem, faço dois esclarecimentos. Não considero necessariamente antissemitas as críticas a Israel. Muitos judeus fazem isso todos os dias, pessoal ou institucionalmente. Não raro de forma muito dura. Qualquer solução, se existir, para o conflito palestino-israelense, tem que passar pelo reconhecimento do Outro. Desumanizá-lo, ignorar que é um produto histórico, vai perpetuar o ciclo de violência. Neste sentido, a criação da West-Eastern Divan Orchestra foi exemplar. Idealizada pelo pianista e regente argentino-israelense Daniel Barenboim e o intelectual palestino Edward Said, a orquestra congrega jovens músicos israelenses, palestinos e de vários países árabes. Já se apresentou em Ramallah e, durante os ensaios na Alemanha, os jovens visitaram um campo de concentração nazista e depois compartilharam informações e sensibilidades. Aos poucos, terão a chance de dizer: eu Te conheço e reconheço.

Sou pessimista em relação à chamada solução de dois estados. Com a Faixa de Gaza transformada numa pilha de escombros, inabitável por muito tempo, e a Cisjordânia invadida por centenas de milhares de colonos israelenses, portando armas pesadas, protegidos pelo exército israelense e vivendo em assentamentos ilegais em constante expansão territorial, um Estado palestino nestas condições não passaria de uma farsa. Estes colonos sentem-se à vontade para praticar atos terroristas contra palestinos, destruindo plantações e equipamentos agrícolas e matando gente. A curto prazo, os fundamentalismos ganham popularidade, alimentando novas bombas relógio.

Não faço a menor ideia de como tudo isso evoluirá. Há muito ódio e ressentimento acumulados. Mesmo com várias iniciativas não-governamentais de quebra do gelo, o terreno para qualquer forma de entendimento entre israelenses e palestinos está cada vez menor. A pergunta que fica no ar: por quanto tempo será possível manter o status bélico, de horror e medo, de opressão e desespero?

Abraço. E coragem.

Passagens

Passagens

E de repente… Uma barulheira dos diabos aqui perto me lembra que é hora de olhar a folhinha. Uma turma aos urros, alimentada por hectolitros de álcool, antecipa o final de ano e comemora, sei lá, o mal que já passou e a beleza que sonham pela frente. É o que dizem alziras e bartiras. Horas depois, um vapor etílico azulado envolvia o bar. Minha porção Fradim faz uma força danada para não jogar um fósforo aceso e … bum! Imagino o desfile dos bebuns e suas babas bovinas.

Curioso, parece que só nestas datas simbólicas as pessoas percebem a passagem do tempo. A rigor, o dia 1 de janeiro não tem nada de diferente do 31 de dezembro. Ambos são convenções, escolhas arbitrárias, que não mudam a velocidade de translação da Lua, a má vontade da florista da esquina ou a goiabeira da Damares. No entanto, é um tal de preparação de rituais, uma busca de sinais e garantias de que o tempo perderá peso e o futuro será, claro, melhor. Pode ser a cor da calcinha, a semente de uma fruta vermelha, um chá milagroso, um alimento camarada, uma frase enigmática, tudo conspira a favor das crendices de final de ano.

Tudo bem, cada um usa o método que lhe convém para acalmar a consciência da finitude, do que é incerto e incontrolável. A tentação de encontrar fórmulas prontas e universais para baixar a ansiedade é muito grande. Daí a popularidade dos videntes, quiromantes, tarólogos e influenciadores espirituais, cada vez mais assanhados e adornados com coberturas vistosas e pretensamente sérias. Quando os vejo, suspeito que ainda vivemos nas cavernas, amedrontados pelos relâmpagos que cortavam os céus na escuridão dos tempos. Sem entender patavinas, nossos ancestrais atribuíam aquela maravilha natural a forças sobrenaturais, e lhes rendiam tributo.

Já mencionei várias vezes uma dessas ilusionistas, que escreve regularmente num grande jornal. Leio seus textos como divertimento. Desopila o fígado. Acontece que, nessa fase do ano, ela capricha nas bulas salvacionistas. Sugere contatos com constelações (!), anjos, arcanjos, espíritos, como se nossa presença neste planeta ensandecido fosse influenciada por trupes invisíveis e estrelas remotas. Pior que acho que ela tem muitos leitores reverentes. Para mim, é como oferecer sarapatel para um vegano. Faço cara feia, mas é diversão garantida.

Vejam vocês. Um belo dia na era Cretácea, bagatela de 66 milhões de anos atrás, uma enorme pedra com nove quilômetros de extensão entrou em rota de colisão com a Terra. O choque brutal, sem direito a tortillas, guacamoles e mariachis, aconteceu na península de Yucatán, no México. O impacto abriu uma cratera de 16 quilômetros de profundidade por 160 de largura. O resultado foi devastador para o planeta. Nuvens de poluentes escureceram os céus durante anos, plantas sumiram e, com elas, os herbívoros que as tinham como alimento e os carnívoros que se alimentavam deles.

Houve extinção em massa de seres vivos, dinossauros entre eles. Uns poucos mamíferos conseguiram sobreviver e iniciaram um longo processo evolutivo. Como dizem os cientistas, se a rota do pedregulho tivesse se desviado um milésimo de grau, ele teria se perdido no espaço, sem tocar a Terra. O resultado provável é que os tiranossauros e seus aparentados, espécies dominantes, continuariam até hoje no topo da cadeia alimentar. O Homo sapiens não sentaria nem no banco de reservas da Natureza e eu não estaria aqui dedilhando relações ariscas.

Se chegamos até aqui, foi fruto de uma tempestade perfeita de acasos. A vida é um enorme e finito depósito de surpresas. Dominamos muito pouco o que está por acontecer. Esta falta de previsibilidade traz insegurança e garante o sustento de muito pilantra que vende falsas profecias. Não adianta apelar para forças etéreas. Somos nós, com todos os defeitos, ilusões e limitações siameses da natureza humana, os construtores de sentidos e caminhos para a vida. Comer lentilha é nutritivo, guardar sementes de romã é simpático, mas isso não faz a menor diferença na engenharia existencial.

Abraço. E coragem.

Dezembros

Dezembros

Dezembro era mês difícil para o Menino. A quase coincidência entre Hanucá e Natal incomodava. Os Outros amanheciam pedalando Monarks novas, chutando bolas Pelé, reforçando os escretes de botões com galalites novas e abrindo sacos alentados de bolas de gude. Papai Noel dava o que era possível na Vila remediada. O Menino olhava, invejava, abaixava a cabeça e se conformava. Era o Diferente, que merecia, no máximo, um pião, dreidl, de Hanucá. Pequeno consolo eram as comidas típicas da chamada Festa das Luzes. A avó, querido Pássaro de Makow-Mazowiecki, preparava porções fartas de latkes, espécie de patanisca de batata, e sufganiot, sonhos recheados de creme ou doce de leite.

A família original não celebrava Hanucá. Na escola, de orientação conservadora, reforçavam o lado “milagroso” da história. Para quem não conhece, breve relato. Houve uma época em que a Judeia era dominada pelo império grego. Um milico, general de maus bofes, Antíoco IV, tornou-se figura destacada no império por volta do ano 175 antes da Era Comum. Como forma de reforçar a dominação imperial, resolveu desfigurar a identidade religiosa e cultural dos judeus. Em 167 antes da Era Comum, transformou o Templo de Jerusalém em local de culto a Zeus e sua patota de divindades. Exigiu, sob pena de morte, que os judeus deixassem de seguir a Torá e aderissem a cultos politeístas.

Camadas privilegiadas de judeus helenizantes aceitaram as restrições e ajudaram os ocupantes a reprimir quem resistia. Colaboracionistas existem em todo canto e tempo. No entanto, o caldeirão começou a ferver. O patriarca dos Hashmonaítas, Matatias, liderou uma revolta, hoje chamaríamos de guerra de guerrilhas, junto com seus cinco filhos. Embora em condições muito difíceis, o movimento ganhou corpo e, depois da morte do patriarca, em 165, seu filho Judah conduziu a revolta até a vitória final.

Reconquistada Jerusalém, era preciso limpar e rededicar o Templo, grosseiramente profanado pelos gregos. Este trabalho, que incluiu a recuperação do altar dos sacrifícios, levou oito dias. Os macabeus, como passaram a ser chamados os guerrilheiros, decidiram registrar a vitória com uma celebração anual que duraria os mesmos oito dias necessários à rededicação. O evento é a certidão de nascimento da Festa da Rededicação (Hanucá).

Cerca de seis séculos depois destes acontecimentos, religiosos descobriram uma forma, cá pra nós bem oportunista, de se apropriar simbolicamente da vitória dos macabeus. Inventaram o “milagre” de Hanucá. Segundo a lenda, uma lâmpada com óleo suficiente para apenas 24 horas de combustão durou os oito dias necessários à rededicação do Templo.

A versão “milagrosa” foi a mais lembrada até que, no século XIX, grupos de judeus russos e poloneses, identificados com correntes de esquerda e empenhados na autodefesa contra pogroms e ondas antissemitas, recuperaram o caráter libertário do exemplo dos macabeus. É este caráter que me interessa, pois atualiza um evento acontecido há cerca de 22 séculos. Não se trata, portanto, de reproduzir mecanicamente uma tradição, mas entendê-la na e com a História.

O direito à autodeterminação está na origem da guerrilha macabeia. Valeu então e segue em vigor. Ao longo da História, hordas de conquistadores submeteram, manu militari, povos inteiros. Entre as táticas de dominação, sempre ampliadas e aperfeiçoadas, estão apagar a memória comum dos dominados, prender, torturar e matar lideranças populares, usar a violência física e psicológica para domesticar potenciais rebeldes, desumanizar os dominados. Povos oprimidos por forças ocupantes têm o direito de se levantar contra quem os oprime. É a lição primordial de Matatias, Judah e seus guerrilheiros.

Estamos no período de Hanucá. Não acenderei velas de parafina. Estas deixo aos homenageiam o sobrenatural. Prefiro repassar a saga macabeia, a ensinar que é o Homem, e apenas ele, que constrói a História. Com as condições objetivas e subjetivas que lhe são dadas para viver.

Abraço. E coragem.

Tô arrebentando

Tô arrebentando

Leitor aflito escreve ao jornal, prevendo encrenca. Ele está certo. A prefeitura do Rio pretende transformar a área ao redor da Praça Xavier de Brito, na Tijuca, em “polo gastronômico”. Velha conhecida dos tijucanos, a também chamada Praça dos Cavalinhos é um espaço bucólico, despretensioso como deve ser um lugar que nada oferece além de silêncio e uns pangarés cansados pra garotada. Não fica longe de onde morou o Aldir Blanc e um certo Menino encolhido. O burgomestre alegrinho, como tantos de seus pares, não gosta. Prefere gourmetizar, bloquear calçadas com mesas e cadeiras, desentocar decibéis e liquidar a vida de algumas centenas de cariocas, reféns da agitação que está por vir. É o roteiro do derretimento metódico da cidade, que já vai longe na estrada. Ao som da batucada e gritos de bebuns.

Em entrevista de 2006 ao Globo, Chico Buarque, mesmo não sendo catedrático em nostalgia, lembrava que “ainda garoto, eu subia no Morro da Babilônia para soltar pipa e ver a paisagem lá do alto (…) Não havia hostilidade. Não havia o tráfico de drogas, que criou essa tragédia carioca”. Entendo o lamento do craque do Politheama. No último ano da faculdade, fui com um amigo ao Morro dos Tabajaras. Aquilo parecia uma vila rural, moleques batendo bola no chão de terra batida, vizinhos batendo papo sem pressa. Não chegamos a ver a Maria com lata d’água na cabeça. Hoje, adeus tranquilidade. O pessoal que mora perto é capaz de identificar as armas pelo som dos tiros que se disparam regularmente na favela.

Os sintomas do derretimento espalham-se por todos os lados e eras. Millôr Fernandes, em data não identificada mas certeiro, chegou a definir o Rio de Janeiro como “antiga cidade brasileira, hoje desaparecida”. No início dos anos 70, um deputado alemão, se não me engano ligado ao incipiente movimento ecológico, veio ao Rio. Visitando o canteiro de obras do futuro elevado da avenida Paulo de Frontin, ficou estarrecido. Disse que aquilo jamais seria permitido em seu país. Um monstrengo de concreto e asfalto, parido para beneficiar principalmente transporte individual, ficava a poucos metros de distância de milhares de residências, transformando-as em cavernas poluídas. Derretiam-se as noções mais elementares de convívio na cidade grande. Parte de um bairro ficou imprópria para a vida. E segue o ziriguidum.

Se a cidade é tão insensível com seus moradores, por que eles deveriam respeitá-la? Da ideia à prática. Depredação virou esporte popular. Aqui em Copacabana, há uma estátua do Drummond. O itabirano morava perto dali. Os óculos de bronze do poeta precisaram ser repostos 14 vezes desde a inauguração da estátua. O monumento ao general Osório, na praça Quinze, era cercado por um pesado gradil produzido a partir da fusão de canhões usados na guerra do Paraguai. Duas toneladas de metal. Em façanha digna dos bons ilusionistas, o gradil foi furtado. Imagine a operação de transporte disso! Lixeiras, coretos, bueiros, imagens de matérias variadas, nada escapa. O grande Cartola compôs uma canção, quase lamento, que dizia assim: Ensaboa, mulata, ensaboa/Ensaboa/Tô ensaboando. No Rio, parafraseio: Arrebenta, carioca, arrebenta/Arrebenta/Tô arrebentando. E roda a baiana.

Já fizeram desenho animado sobre o Rio no início dos anos 2010. Passarada deslumbrante, cenários pra turista ver. Agora, os bichos mais presentes na cidade são os cachorros. Provavelmente fruto da pandemia, que agravou problemas de solidão, muita gente adotou animais, especialmente cães. O resultado é que a cachorrada solta o verbo furiosa, neurotizada, sem controle dos donos indiferentes. Devem achar latidos sinfonias modernosas. Tem gosto pra tudo. Competem com frequentadores de bares (11ª praga bíblica) no quesito de infernização e derretimento urbano.

Durante a pandemia, pude ouvir, encantado, os pássaros que habitam as árvores que sobrevivem à poluição e aos maus tratos. Sem o barulho do tráfego, os bichinhos mostraram do que são capazes. Cheguei a perceber, será?, broncas de dona bem-te-vi com os travessos bem-te-vizinhos. Certo dia, uma rolinha, armada de graveto ameaçador, lascou um canto guerreiro contra seu cônjuge, que voltara de um galho suspeito e cheirando a alpiste escocês. Imaginação? Ora, pesquisadores descobriram que o canto de pássaros no auge da Peste ficou mais suave, em tons mais graves, com muito mais variação de voz. Sem a barulheira das cidades, o canto voltou a ser mais complexo, cheio de conteúdo. Mais interessante: parece que, sim!, os pássaros voltaram a se ouvir, e reagiram espalhando beleza. O cinza urbano, a incivilidade, os ruídos ensandecidos e desrespeitosos, nos fazem desconectar ainda mais das maravilhas que nos cercam e permanecem invisíveis.

O Rio, que uns ingênuos disseram que era de luz, envelhece mal. Trata mal gentes e bichos, memórias e flores, sons e silêncios. Termino com o Chico. Na mesma entrevista que mencionei no início, ele disse que “ser carioca era motivo de orgulho, era covardia. Agora não é mais… E talvez por isto seja um bom momento para me afirmar carioca”. É nesta estranha, mas afetuosa, dialética buarquiana que me banho, e vou até o fim.

Abraço. E coragem.

Dos rabos insolentes às crendices vãs

Dos rabos insolentes às crendices vãs

Valia mais do que revólver de espoleta, estrela de xerife e lenço do Cavaleiro Negro. Só os mais abonados tinham espingarda de ar comprimido. Com os chumbinhos, era possível atingir alvos reais, longe do controle dos adultos. Lagartixas eram vítimas preferenciais. O sangue frio dos lagartos lhes dava velocidade e alguma proteção na pedreira. Inútil, porém, para escapar da pontaria certeira dos amigos do Menino. Acionado o gatilho e, tum!, voava o rabo do bicho, ceifado para glória da tribo (e horror retroativo dos verdes).

A amputação cobrava um preço. Não chegava a ser a maldição da múmia, habitante karloffiana dos poeiras tijucanos. Corria a lenda de que, sem o rabo, a lagartixa se vingava xingando a mãe do algoz. Daí, sabe como é espírito corporativo, cabia o golpe de misericórdia. O atirador terminava o servicinho sujo esmagando o bicho e desfalcando a fauna da Vila.

Lagartixa ofendendo gente… Bobagem? Bem, não sei se já repararam na quantidade de superstições que nos cercam. Até a partida final, assisti os jogos da Copa de 1970 na casa de um vizinho. Quem viu há de lembrar os bailes memoráveis do escrete formado pelo Saldanha e entregue de bandeja ao Zagalo. Ocorre que fui convidado para ver a decisão contra a Itália no apartamento de um amigo, no prédio onde morou Carlos Lacerda, em Copacabana. Em 1954, foi ali em frente que o Corvo sofreu um atentado. Arquitetura interessante, amigo do peito, TV moderna, convite irrecusável. Houve pânico na casa do vizinho. Não pode quebrar a escrita! Assistir o jogo em outro lugar vai dar zebra, o Brasil perderá! Resisti, não sem antes, confesso, espantar três gotas de suor aflito. Como se sabe, a seleção deu uma coça na Squadra Azzurra. Pelé, Gerson, Tostão e os demais bailarinos nem tomaram conhecimento da minha traição.

Futebol é terreno fértil para todo tipo de mandinga, crendice, praga. Há um vasto folclore a respeito. Desde a maldição do sapo do Arubinha, na década de 30, até São Judas Tadeu, padroeiro do Flamengo, passando pelos trabalhos do massagista Pai Santana, campeiam as superstições. Eu não gostava de ver o Flamengo usando a chamada camisa número 2, fundo branco com faixa rubro-negra horizontal na altura do peito. Achava que o time ficava lento(!) e, claro, dava azar. Paulo Machado de Carvalho, chefe da delegação brasileira nas copas de 1958 e 1962, radicalizou no pacto com o Além. No Chile, vestiu a mesma roupa que usara na Suécia, providenciou os mesmos avião e comandante de 1958 para levar a delegação ao Chile. Os mais crédulos atribuirão a isso a conquista do bicampeonato. Prefiro culpar o Garrincha, que, ele sim, incorporou os santos dos craques de todos os tempos e demoliu defesas, botinadas e a ausência do Pelé.

Fora do futebol, a impressão é de que não saímos das cavernas, quando nossos ancestrais atribuíam a deuses os fenômenos naturais que não compreendiam. Goethe disse que “superstição é a poesia da vida”. Certo, mas poesia tem hora, né? Será mesmo que falar o nome de alguém de maus bofes atrai mau agouro? E usar o pé direito quando adentra o gramado dá um upgrade em qualquer perna de pau? Se a lagartixa não tem poder para xingar a mãe, por que o espelho quebrado conseguiria jogar maldição por 7 anos? Um abraço energético (sic) transformaria o Íbis Sport Club, pior time do mundo, em celeiro de craques? Haja rima.

Como sempre, os espertos capitalizam a insegurança e o medo. Uma certa senhora ganha a vida nas páginas de importante jornal distribuindo crendices. Garante, por exemplo, que, se você plantar alecrim, atrairá prosperidade e alegria. Caso prefira arruda, afastará ilusões e protegerá a casa. Salsinha? Barrará olho gordo(sic). Coentro? Estimulará compaixão. Impressionante a atualidade do empresário circense P. T. Barnum. A ele atribui-se a frase “nasce um otário a cada minuto”.

Andei pensando. Os enormes avanços da ciência, da capacidade humana de inventar, criar beleza (não percam o documentário Elis & Tom), duvidar, explicar, convivem com a crença de que gato preto dá azar, bater na madeira afasta o dito cujo e comer romã e vestir roupa branca no dia 31 de dezembro garantem um ano novo feliz. Contradições que não se resolverão. Seremos sempre, como espécie, uma combinação esquizofrênica de avanço e retrocesso. Pelo sim, pelo não, passo longe dos despachos nas esquinas e não topo fazer piquenique em cemitério à meia-noite.

Abraço. E coragem.

Trilhas sonoras

Trilhas sonoras

Confio no taco do Álvaro Costa e Silva, o Marechal. Ele costuma acertar no alvo. Na crônica da semana passada, exumou uma figura que não me traz qualquer saudade ou lembrança significativa. É Nelson Ned, o cantor anão que nadou de braçada entre as décadas de 60 e 80 e acaba de ser biografado. Antes de “aceitar Jesus” (esta é a linguagem dos convertidos) e mudar o repertório para pregações, cantava bolerões regados a muito violino e histórias repetitivas de amores plácidos e dores de corno. Minha praia era outra. Fui boleiro, lateral-esquerdo descalço e atrevido, nunca tolerei bolero. Minto. Os boleros eram perfeitos para o tum-e-tum das aulas de dança de salão, vã tentativa de destravar a cintura bessarabiana, dura por natureza. Não houve Trio Los Panchos ou Besame mucho que desse jeito.

Enquanto Ned soltava o vozeirão e preparava o desembarque nas louvações, eu descobria o imprevisível no jazz. Aquele mundo de improvisos, de vozes impossíveis e solos provocantes, foi um encantamento que dura até hoje. Como é que se poderia comparar Nelson Ned com Billie Holiday, Altemar Dutra com Ella Fitzgerald, Agnaldo Timóteo com Bessie Smith? Galáxias paralelas.

Pequeno breque. Na trupe bolerizada habitava um personagem exótico. Era Orlando Dias, famoso homem de um só sucesso. Cantava, com aflição calculada, “Tenho ciúme de tudo”. No final, arrancava a camisa ou o paletó e lascava o “Tenho ciúme até da roupa que tuuuuuu veste”. Se deixassem, jogava-se no chão em desespero encenado para a arquibancada. Era a forma primitiva, quase ingênua, de chamar a atenção. Hoje, os clipes simulam todo tipo de bizarrice para esconder a mediocridade de canções e cantores.

Voltando ao ambiente do tum-e-tum. A televisão, antes dos programas da antiga Record, tinha pouco espaço para música. Com charme em preto e branco, Almoço com as estrelas trazia celebridades para, depois de um rango (cenográfico?), darem uma canja. Nos intervalos, a tecnologia começava a dar as caras. Não é linho, é Linholene, avisava o reclame. As elegantes toalhas de tecido passavam o bastão para o plástico. No programa Um instante, maestro!, o apresentador Flávio Cavalcanti, com caras e bocas ensaiadas (tudo nele era fingido, artificial) e delicadeza equina, quebrava discos que não lhe agradavam. Disputava com o Chacrinha a atração mais esdrúxula para ganhar audiência. Ficou famosa a rasteira que Abelardo Barbosa aplicou no Flávio, sequestrando o Seu Sete da Lira e fazendo-o receber uma entidade em pleno auditório. Sob chuva de bacalhaus, pepinos e abacaxis. Alto nível, pois não?

Enquanto boleros e sambas-canção dominavam a cena musical e a bossa nova dava os primeiros passos na classe média carioca, o Rio radicalizava um processo que começara nas primeiras décadas do século XX: a metamorfose urbana em cidade-empresa. Bom exemplo foi o desmonte do Morro do Castelo. Sob o pretexto de melhorar a circulação de ar na região central da cidade e eliminar focos de doença, o governo iniciou, em 1921, a expulsão da população que morava no morro e partiu para desmontá-lo a jatos d’água do mar. O resultado foi o êxodo de gente pobre, maioria de negros, para a periferia da cidade, a valorização do terreno aplainado após o desmonte (especulação imobiliária é história antiga) e a corrupção de sempre na execução das obras. No fundo, o que se queria era deslocar a pobreza para fora do centro. Os pobres continuariam a existir. Agora, no entanto, menos visíveis.

Nos anos 60, enquanto o barquinho ia, a tardinha caía e tudo passava, a Favela da Praia do Pinto pegava fogo. Incêndio suspeito. Numa madrugada de maio de 1969, cerca de mil barracos da favela horizontal, localizada na região da Lagoa Rodrigo de Freitas, foram destruídos pelas chamas, deixando 9 mil pessoas desabrigadas. Os moradores foram deslocados para a Cidade de Deus, quase 35 quilômetros de distância da lagoa. No lugar da favela, em terreno altamente valorizado, construíram-se um condomínio e um shopping. Os pobres tiveram o mesmo destino da população do Morro do Castelo. Não se eliminava a pobreza, mas os pobres deixavam de atrapalhar a vista dos abonados.

Qual seria a trilha sonora mais adequada à atual conjuntura? Os vozeirões embolerados estão, felizmente, aposentados. A nostalgia do Adoniran Barbosa, saudosa maloca, e o olhar romântico do Cartola para a alvorada no morro comeram poeira. Talvez o Manuel Bandeira tenha dado um bom palpite premonitório no poema Pneumotórax. Depois de receber uma notícia ruim do médico, o sujeito pergunta o que se pode fazer. A única coisa, responde o doutor, é tocar um tango argentino. Ao bandoneon, compañeros!

Abraço. E coragem.