Welcome to the jungle/It gets worse here everyday (Guns N’ Roses)
Volta e meia lembro de personagens do seriado Seinfeld, que alguns consideram o melhor de todos os tempos. Um deles, certamente ironizando a onda zen-oriental da época (anos 1990), vivia repetindo “Serenity now!”, mesmo em situações tensas, venenosas, injustas. Até que um dia … bum! Sai quebrando tudo em volta a sopapos e pontapés. Então, descobre que pode até ser um “Serenity now!” forçado, mas chega a hora do “Insanity later!”.
Difícil manter um ar blasé, uma postura de mestre iogue, na atual conjuntura. Daí que resolvi usar este espaço para descarregar a acidez acumulada pela onda planetária de estupidez e retrocesso civilizatório. Minha geração, que foi sequestrada em pleno voo por uma ditadura, lutou não apenas para derrotá-la, mas para construir uma sociedade alternativa, mais justa e fraterna. É duro admitir, mas levamos um chocolate, sete a um na veia. Esmagados em todas as frentes.
Jamais imaginei que o Brasil fosse viveiro tão portentoso de reacionários, oportunistas e mistificadores. Um esgoto que corria subterrâneo e agora dá o ar da (des)graça. Fala-se muito, e com razão, do Congresso nacional. Ele, no entanto, é espelho de vontades coletivas bem estabelecidas. Já estamos nos habituando com um falso conservadorismo que, na verdade, não passa de retorno a fumaças medievais, com forte teor religioso. O debate parlamentar é diálogo de surdos, contaminado por moral tacanha de natureza religiosa e encenações patéticas para o mundo virtual. Na feliz expressão de um professor da UFBA, os bagunceiros do fundo da sala chegaram na primeira fila.
As baixarias, adornadas por verborragia ultrajante, produzem cenas de mundo cão. O governador de São Paulo declarou, num evento evangélico, que seu estado pertence a Jesus Cristo. Interessante que ninguém viu a escritura com registro em cartório. O mesmo bolsonarista sancionou a lei que institui escolas cívico-militares em São Paulo. Alega que os alunos vão “desenvolver o civismo” e “cantar o Hino Nacional”. Caramba, já não tivemos doses elevadas de caserna na vida nacional? Os celerados querem ordem unida, continência e obediência fanática. Pesadelo.
A lista de aberrações é extensa. Privatização de praias (com enorme prejuízo ambiental) e da gestão de escolas públicas, criminalização da posse de pequenas quantidades de drogas, divulgação maciça da “cura gay”, isenções tributárias para templos de todas as denominações. Tudo isso é café pequeno perto do projeto que transforma em assassina a mulher que aborta, depois de 22 semanas de gravidez, o filho de um estuprador.
Um mínimo de informação torna este projeto uma bestialidade sádica. No Brasil, quase dois terços das vítimas de estupro têm, no máximo, 13 anos. Muitas só descobrem tardiamente a gravidez e, quando descobrem, são muitas vezes desencorajadas a abortar por médicos que desonram a profissão. Outro dado abominável, muito conhecido: 60% das crianças abusadas o são por seus próprios familiares.
O que acontece em nosso país é a ascensão da extrema-direita, que parece mais e mais ganhar musculatura. Sente-se à vontade com a absoluta falta de reação articulada, orgânica, da sociedade. O governo atual não pode levar a culpa por tudo, mas claramente está acuado, sem ação, frente à ofensiva obscurantista. De recuo em recuo vai-se ao tombo.
A lembrança do Guns N’ Roses aí em cima veio pela minha irmã, morta recentemente. Morava nos Estados Unidos e, quando nos visitava aí pelos anos 90, chegava no Galeão, abria um sorriso sacana e dizia: Welcome to the jungle! Eu ficava uma arara! Como ousava falar assim da minha cidade, do espírito de luta que derrotou uma ditadura, das perspectivas que, àquela época, pareciam promissoras? A gente mudava rapidamente de assunto. Se acontecesse hoje, minha revolta, confesso com tristeza, não seria tão grande. Continuo ativo e olho com alguma esperança para a frente. Há momentos, entretanto, em que a vontade é chutar o balde, esquecer a racionalidade e mandar a choldra reacionária, seus filhotes e apoiadores, trocar umas ideias com o Sete-Pele. Sem ar condicionado e mastigando brasa viva. Melhor ainda, como numa velha praga em ídish: que todos vão ao banheiro a cada três minutos ou a cada três meses.
Há três espécies de mentiras: mentiras, mentiras deslavadas e estatísticas (Disraeli)
Dias atrás Lula anunciou, empolgado: o FMI prevê que o Brasil está próximo de se tornar o 8º maior PIB do planeta. Compreendo a animação. Isso parece ser boa notícia e políticos se nutrem delas para permanecer no topo da cadeia alimentar. Meu Fradim de estimação, no entanto, fez uma associação com épocas azedas e não deu boa coisa. Vamos lá.
Aloysio Biondi, jornalista de economia obcecado por dados e rigor analítico, colaborou com a imprensa alternativa no período da ditadura empresarial-militar. Escrevia regularmente para o semanário Opinião, severamente perseguido pela censura. Com ele aprendi o beabá das manhas estatísticas. Renda per capita, por exemplo. Biondi era didático. Suponha que existam 2 frangos assados e 2 pessoas famintas. Na aparência, um frango per capita. Proteína garantida. Na realidade, é possível que uma das pessoas, poderosa e sem escrúpulos, coma os dois frangos, matando de fome o outro fulano. Nas tabelas oficiais, tudo paz e amor, bicho.
No período do “milagre econômico” (1969/73), o PIB brasileiro cresceu a taxas elevadas (perto de 10% anuais), abastecido por gordos empréstimos externos, e a inflação oficial estava baixa. Ganharam todos? Faz-me rir. Num raro momento de sincericídeo, o ditador Garrastazu Médici disse que “a economia vai bem, o povo vai mal”. Estava confirmada a pensata do Millôr Fernandes: “As estatísticas provam: as estatísticas não provam nada”.
Como está o Brasil real, fora da euforia lulista? Os 10% mais ricos concentram 51% da renda total do país. Os 50% mais pobres ficam com 14% dos ganhos. No quesito Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) ficamos em 89º lugar entre 193 países. Atrás de Uruguai, Argentina, Chile, Irã, México, Equador, Peru e Cuba, entre outros. O reacionarismo de base religiosa está em alta, as correntes protofascistas movimentam-se com desenvoltura, o fisiologismo é cláusula pétrea no parlamento. O resumo da ópera é o seguinte: o crescimento do que se produz no país não o torna mais justo nem tolerante. Há desequilíbrios obscenos, e o companheiro ex-metalúrgico deveria ter a honestidade política de moderar o entusiasmo e denunciar, dia sim, outro também, as enormes mazelas que nos tornam um animal disforme. Mais do que isso: deveria discutir com o povo as causas estruturais de tanta e tamanha distorção. Luta de classes, no entanto, está fora do radar do ex-sindicalista. Sua abordagem sempre foi a da administração do capital. Tudo fica na superfície de algarismos, conchavos, arranjos, quebra-galhos. “Ninguém quer abrir mão de privilégio”, disse um dos seus ministros. Jogo de poder. Poder aparente.
Quem não se lembra do Bernie Sanders? Um hippie extemporâneo, voz menos convencional dentro do Partido Democrata dos EUA (do qual acabou desligando-se). Deu entrevista à Folha de S. Paulo e foi certeiro nos números. “Três pessoas no topo possuem mais riqueza do que a metade de baixo da sociedade americana. Globalmente, você está vendo o 1% superior possuir mais riqueza do que os 95% inferiores e essa disparidade está se ampliando cada vez mais. Não é apenas injusto: as pessoas no topo com toda essa riqueza têm um enorme poder político”.
Bernie e seus pares constatam os sintomas da doença, mas suas terapias partem do princípio de que as causas são e serão permanentes. No máximo, podem ser atenuadas. Penso diferente. Os modos de produção de bens materiais e simbólicos que garantiram a sobrevivência do homem até aqui são produto do próprio homem. Podem, portanto, ser alterados pela ação do homem. Todas as tentativas de reformar, “humanizar” e maquiar o modo capitalista de produção fracassaram. Seus princípios levaram à exploração brutal da trabalho humano, ao descaso com o meio ambiente, à proliferação de doutrinas supremacistas, ao belicismo crônico. A História, madame caprichosa e enigmática, pode se encantar por um pós-capitalismo. Ao som de Cazuza: “Mas se você achar que eu tô derrotado/Saiba que ainda estão rolando os dados/Porque o tempo, o tempo não para”.
Quantos filmes belgas você já assistiu? Até uns dias atrás, eu não havia assistido a nenhum. Eis que surge Close, de 2022. Grande filme. Olhar sensível para assuntos de perturbadora atualidade. Parte da relação de amizade intensa entre dois meninos adolescentes, naquela fase que combina espanto, medo e delícia, e debate as consequências desastrosas dos preconceitos. Mais não posso falar, sob pena de dar spoilers. O filme está disponível na Netflix.
Foi inevitável associar cenas do filme com situações que vivemos numa sociedade infectada por desigualdades extremas, sectarismos e fundamentalismos religiosos. Um exemplo, para alguns chocante, acaba de vir do papa Francisco. Em reunião a portas fechadas com bispos italianos, ele disse que os seminários estão “cheios de viadagem”. Sei que, para efeito público, o pontífice adota uma linha suavemente liberal, que descriminaliza a homossexualidade (embora continue considerando-a pecado; não entendo a lógica “perdoa-se o pecador, não o pecado”). A portas fechadas, no entanto, parece que suas camadas inconscientes afloram e triunfa o preconceito. Não é caso isolado de dupla face, mas a visibilidade papal deixa tudo mais grave.
Tenho conversado bastante com gente amiga sobre os preconceitos em geral. Racionalmente, somos todos antirracistas, pelo respeito às diferenças e entre os gêneros. Salve nós. Ocorre que minha geração foi educada em ambiente carregado de desconfiança, às vezes desprezo, por vários grupos sociais. O diferente era visto como ameaça a valores que constituíam família e relações sociais. Esta formação, que combina preconceito de classe, ignorância e otras cositas más, cobra um preço. Às vezes, nossas placas tectônicas se movimentam e os preconceitos mais escondidos, mais negados, se manifestam. Entre risos debochados, seremos então capazes de ofender negros, homossexuais, judeus, árabes, estrangeiros e muitos mais. Não se ofenda, diremos sem constrangimento, é apenas brincadeira…
Vou citar dois exemplos, que mostram como tudo isso está espalhado, sem poupar gregos nem troianos. O ano era 1957. Em carta para a irmã mais nova, comentando que outras pessoas estavam em situação pior, ele escreveu: “Mas não há de ser nada. Conheço gente que tem filho cego, veado, ou que são cegos ou veados eles mesmos”. “Ele” é Vinícius de Moraes. O Poetinha, tão progressista na política e criativo nas letras, reproduz a visão do seu tempo. Dissesse isso hoje numa rede social, estaria lascado. Digo, lacrado. Direto para as galés.
Início de 1925. Num giro pela América do Sul, o cientista famoso foi encontrar-se com Aloysio de Castro, chefe da Faculdade de Medicina do Brasil. Sabem o que escreveu sobre o doutor brasileiro? “Legítimo macaco”. Antes da viagem, havia reclamado por carta: “Não tenho vontade de encontrar índios semi-aculturados usando smoking”. O homem de ciência era Albert Einstein. Ele mesmo vítima de preconceito antissemita na Alemanha, foi, anos mais tarde, enfático militante pelos direitos civis dos negros nos Estados Unidos.
Por que dei estes exemplos? Ao contrário que prega a cultura tribalista e raivosa tão em voga atualmente, oscilamos, variamos, revemos, reafirmamos. Somos organismos em movimento, complexos, muitas vezes contraditórios. Não é à toa que subo nas tamancas quando acompanho as tentativas de sanitização de livros clássicos (feliz expressão do diplomata Alexandre Vidal Porto). Apagar determinados termos e conceitos destes textos, considerados “sujos”, elimina o direito de leitores e ouvintes conhecerem o que se pensava em outros tempos e, a partir daí, assumir posições esclarecidas. Esta censura não educa, apenas esconde.
Não conheço fórmula para acabar com as discriminações. Aliás, não existe bala de prata para isso. Minha convicção é de que não haverá solução duradoura enquanto a sociedade continuar dividida em classes, legitimando o domínio econômico e a hegemonia das subjetividades de certos grupos. Estas disparidades alimentam, e muitas vezes criam, visões deformadas sobre os que não estão “em cima”. Não digo que numa sociedade pós-capitalista todos os preconceitos seriam automaticamente extintos. Não há como subestimar as raízes dos preconceitos, alguns deles multisseculares. Apenas imagino que a mudança para uma sociedade que valorize e consagre radicalmente a igualdade em todos os níveis criaria melhores condições para não demonizar o Outro. Lutar em terreno menos bloqueado já seria um bom início.
Há cerca de três meses, meus dois telefones fixos pifaram. Dois? Pois é, até hoje sinto-me mais à vontade, relaxado, quando falo através do fone de gancho. Já superei a fase da discagem pela roleta com números. Sou moderno, meus aparelhos operam pressionando botões. Raramente me deixam na mão, mas, como dizia, resolveram emudecer.
A simples perspectiva de fazer contato com a operadora e seus robôs que simulam voz humana quase me paralisou. Antes de contar o dramalhão que se seguiu, viajo brevemente pela era pré-celulares.
Houve época em que linhas telefônicas eram artigo de luxo. Seu valor de mercado tinha que constar do patrimônio na declaração anual do imposto de renda. Enquanto não surgiam os orelhões, a tribo dos sem-telefone recorria aos poucos comerciantes que possuíam o valioso artefato. Botecos ajudavam a facilitar a vida dos vizinhos. Cediam os aparelhos, sem muito resmungo, para rápidas chamadas. Salvaram muitos relacionamentos, consolaram almas solitárias, testemunharam negócios escusos.
Os orelhões, que pareciam cuias invertidas, democratizaram o acesso aos telefones. À custa de filas e caras amarradas para os prolixos sem noção que faziam relatórios intermináveis sobre a rotina, o “sabe da última, menina?”, a frieira do Severino e o joanete da patroa. Enquanto isso, conseguir que o telefone de casa “desse linha” era uma loteria diária. Melhor ter um banquinho e o repertório de palavrões à mão. Xingar a Telerj, que depois virou Telemar e, por fim e sem surpresa, Telemerda, fazia parte do ritual.
Leitor voraz de gibis, nunca entendi uma passagem obrigatória nas histórias do Super-Homem. Para quem não sabe, o repórter Clark Kent, do jornal Planeta Diário, era a identidade secreta do Homem de Aço. Quando havia um pedido de socorro, Clark se metia numa cabine telefônica, tirava roupa e óculos “civis”, exibia o uniforme azul com capa e botinhas vermelhas e saía voando por aí. No corre-corre de Metrópolis, à luz do dia, ninguém via a metamorfose? Onde ficavam a roupa e os óculos? Acho que só o Sombra sabe as respostas. Por enquanto, e para a eternidade, ficam as imagens de aventuras que nós, para sempre de calças curtas, gostaríamos de ter vivido e, de preferência, dado um amasso na Lois Lane. Éramos generosos. Sobraria um carinho para a princesa Narda e Diana Palmer.
Voltando ao início. Tomei um chá de camomila, mentalizei um mantra qualquer, assobiei o hino da Baixa Eslobóvia, respirei fundo e liguei para a operadora. Num cândido delírio, esperava que me atendessem com um Alô Daisy ou, melhor ainda, Seu criado, obrigado. Rapidamente caí na real. O que veio mesmo foi a voz xinfrim de um robô, que me encaminhou para um emaranhado de opções, sem que uma voz humana fizesse a gentileza de perguntar o que eu queria. Várias tentativas em vão, todas invariavelmente terminando com um metálico “é tudo o que sabemos no momento”.
Era o início de uma novela de humor negro. Durante meses, o máximo que consegui foi que, finalmente, marcassem uma visita técnica. Claro que ninguém apareceu. Eficiência privada é isso aí. Os telefones continuavam mortinhos da silva. Um dia, no meio da tormenta, recebi, pelo celular, ligação da Ouvidoria da tal operadora. Coitada da senhora do outro lado da linha! Despejei, catarticamente, toda a indignação sobre ela. Que fosse arengar em outra freguesia, ora essa. Vá pentear macacos.
Há duas semanas, cancelei, com dor no peito, uma das linhas e transferi a outra para uma operadora qualquer. Dizem que todas funcionam mal. Quando privatizaram na bacia das almas a telefonia, nos prometeram o paraíso, a concorrência geraria bons serviços e preços melhores. Sei, conta outra, mané. Isso faz lembrar do Apparício Torelly, o grande Barão de Itararé. Eleito vereador pelo Distrito Federal logo após o fim do Estado Novo, perdeu o mandato com a cassação canalha da legenda do PCB. Ao se despedir da Câmara, fez um de seus antológicos discursos. Lá pelas tantas, ironizou: “Saio da vida pública e entro na privada!”. Lugar apropriado também para serviços caros e displicentes que nos enfiam goela abaixo em nome do livre mercado (sic).
Pelo sim, pelo não, já estou combinando com meus netos a montagem de telefones de lata. Aqueles feitos com duas latas e barbante. Com um pouco de engenho e arte, funcionarão melhor do que essas geringonças cheias de caprichos e escangalhos.
Centro e trinta e seis anos da abolição da escravatura no Brasil. Na escola dos meus primórdios, a professorinha falava de uma bela cerimônia palaciana, onde a princesa magnânima encerrava séculos de exploração brutal de escravos africanos. Uma canetada, e pronto.
Cada vez que penso nisso, lembro de uma passagem uruguaia. Tive o privilégio de estar em Montevidéu quando a ditadura desabou, em 1985. A cidade era uma festa só. Bandeiras de todos os tipos, choros de alegria, buzinaços, vontades libertadas, sonhos reanimados, abraços desabortados. O Palácio Legislativo foi afogado num mar de faixas e bandeiras. A avenida 18 de Julio flutuava em nuvens de afeto e esperança.
Em meio à euforia, passei por um muro grafitado. Um grupo anarquista mandou ver: “Pero qué mierda festejan?”. Para aquela turma, o fim da ditadura não era motivo de grande celebração. Os problemas estruturais do país permaneciam intactos, a burguesia continuaria explorando o trabalho assalariado, e por aí vai. Socialismo? Nem pensar. Achei aquilo meio exótico, afinal de contas, tal como no meu país, não era pouco sair de um regime que exilou, prendeu, torturou e matou a granel. Passado un ratito, acho que compreendi. Era a afobação de recuperar o tempo maltratado pelas baionetas, fundida com a percepção de que o principal estava por fazer. Depois do porre, a ressaca.
Que destino tiveram os negros libertados formalmente em 1888? Sem formação escolar, profissão, moradia, foram jogados na barriga da miséria nas cidades e descobriram-se andrajosos no campo. O que havia para comemorar era a extinção dos castigos físicos e dos grilhões. No mais, o horizonte era o pior possível. Castigos e grilhões seriam de outra natureza. A República, proclamada um ano depois, provou-se um projeto segregador, promovendo um projeto de branqueamento que se estendeu por décadas.
Cresci num tempo em que mesmo as famílias de classe média baixa tinham empregadas domésticas. Moças, em geral negras, que vinham das periferias urbanas ou do interior rural. Trabalhavam sem limite de horário, dormiam no trabalho, neca de direitos trabalhistas, salários ao sabor dos patrões. Convivi com várias ao longo da infância e delas guardo imagens tristes, de submissão e resignação, “deus quer assim”. A distância social era intransponível. Para mascarar a situação injusta, dizia-se que as empregadas eram tratadas “como se fossem da família”. Na realidade, prevalecia o “ponha-se no seu lugar”. Naquela etapa da vida, os descendentes dos escravos eram para mim figuras remotas, quase sobrenaturais, confinadas em bairros distantes, malvestidas, coadjuvantes do mundo branco dominante.
Hoje, mais de metade (55,5%) da população brasileira é composta por negros e pardos. Entre os pobres e miseráveis, negros e pardos representam 75% do total. O racismo se manifesta de muitas formas, embora 76% dos brasileiros digam que ele não existe no Brasil. “Como posso ser racista? Até já namorei um negro” é clichê conhecido, noves fora irmão de sangue do “negro de alma branca”. É uma forma de negação, de escravidão mental.
Certamente serão os discriminados que desenharão as melhores formas de luta contra o preconceito. Há exemplos históricos que mostram alianças políticas com brancos neste caminho. Joe Slovo, judeu lituano residente na África do Sul, foi proeminente lutador contra o apartheid e companheiro querido de Nelson Mandela. Muitos judeus norte-americanos engajaram-se na luta pelos direitos civis dos negros nos Estados Unidos, oferecendo-lhes ajuda jurídica e manifestando-se nas ruas. Agregar setores sociais não-negros aos movimentos antirracistas, evitando o sectarismo, tem sido uma relevante estratégia política. Longo será o caminho até uma verdadeira liberdade.
Espero que meus amigos negros não se ofendam com minhas observações/sugestões. Sobretudo que não me processem no tribunal do “lugar de fala”. Semana passada, opinei sobre movimentos feministas e fui bombardeado por … não ser mulher. Acho este reducionismo empobrecedor, flertando com a censura. Opinar, observar, analisar, não implicam em exigir, coagir, decidir. Diálogo sempre se faz com os diferentes.
(ESCLARECIMENTO: Esta crônica foi escrita na sexta-feira, 3 de maio, um dia antes da apresentação da Madonna em Copacabana)
Numa foto antiga, provavelmente anos 1950, Danuza Leão caminha tranquila pela calçada do Leme. É uma imagem simples, mas algo chama imediatamente a atenção. Não há nada entre a calçada e o mar, exceto um esporádico banhista. A praia não era vista como “oportunidade de negócio”. O máximo de comércio que se achava na orla, que vai até o final de Copacabana, eram os carrinhos amarelos da Kibon.
Dou um salto de algumas décadas. A ocupação da areia e do calçadão ganhou proporção selvagem. Quiosques privados formam uma parede, bloqueando parte da vista para o mar. Som amplificado virou rotina, enviando ondas “musicais” assassinas para moradores das redondezas. Há cada vez mais academias particulares a céu aberto na areia, que também é alugada para todo tipo de evento privado. Urge atualizar a letra de Copacabana, música composta por Braguinha e Alberto Ribeiro. Ela deixa de ser a Princesinha do Mar e transforma-se em CEO of the sea.
Em determinados momentos, o bairro convulsiona. Constroem-se palcos babilônicos na areia, artistas assim ou assado atraem público enorme e moradores ficam confinados por segurança. Ruas, calçadas e areias recebem sobrecargas de imundícies durante os “concertos”. Foi assim, por exemplo, quando uma certa Chlaudya Leitttte apresentou-se por estas bandas. O inferno nas ruas internas avançou madrugada adentro.
Semana passada, uma senhora sessentona desembarcou em jato privado no aeroporto do Galeão. Sua comitiva mereceu das autoridades fluminenses tratamento de imperatriz da Abissínia. Os carros foram escoltados por batedores até o hotel, onde pequenos grupos de fieis aguardavam a cantora- celebridade. Gritinhos, choros represados, cenas patéticas de “mamãe, olha eu aqui!”. O transe contaminou repórteres deslumbrados, que fizeram cobertura medíocre dos acontecimentos.
Enorme trecho da areia de Copacabana foi interditado para a construção de um palco onde a cantora vai se apresentar em playback. Isso mesmo, a voz dela sairá de gravadores. Não haverá músicos tocando ao vivo. A enorme, descomunal, máquina de propaganda na mídia faz o espetáculo ganhar uma duvidosa dimensão cósmica. Com patrocínio parcial de dinheiro público (R$ 20 milhões). Não perguntaram se estou de acordo com esta aplicação do meu dinheiro.
Nas minhas caminhadas diárias, cruzo com os preparativos. O frisson nas redondezas lembra Caramuru. Aquele que enganou índios com um tiro, levando-os à idolatria. Na frente do palco, destaca-se o curral VIP, onde se alojarão os ricaços que patrocinam o furdunço. A cantora permanece trancada no hotel, não dá as caras para os adoradores. Faz parte do roteiro de excitação.
Nos tempos em que assistia clipes na MTV, nunca fui chegado à Madonna. Preferia, por exemplo, o Nirvana, cujo Smells like teen spirit inspirou uma sátira hilária do Weird Al Yankovic. Até hoje, meus netos riem a bandeiras despregadas quando a assistem. Ah, contesta a seita madônnica, ela veio de baixo, é uma guerreira, foi pioneira na luta por direitos de minorias. Bem, estou falando de música, não de comportamento.
Madonna já se definiu como “piriguete”. Em bom português, predadora sexual. Talvez classifique isso de vanguarda de libertação feminina. Data vênia, discrepo. Houve vanguardas femininas muito mais consistentes ao longo da História. A chamada geração de 68, por exemplo, comandou a revolução do amor livre, livrando-se, com muita luta, das amarras conservadoras que predominavam. Sem playback. Nas ruas, escolas e lares. Quanto a ter tido vida difícil, não é mérito em si e não devia chamar atenção especial no Brasil, país de contrastes sociais obscenos.
Sábado, dia do show, ficarei recluso. Não saio de casa nem que a vaca tussa ou o boi assovie. Fico a pensar se não virei um chato ranzinza. A verdade é que meus heróis não morreram de overdose ou faniquitos em cadeia. Minhas referências musicais passam longe dessa que vai bloquear o bairro onde moro por muitas horas e mobilizar um aparato público a que não temos acesso na rotina carioca. Aprendi a ser cuidadoso com venerações, a desconfiar de histerias e a valorizar silêncios gestantes. Devo estar ultrapassado, mas assumo isso sem playback ou luzes artificiais.