Início dos anos 1990. Minha filha precisava fazer uma pesquisa escolar sobre esquimós e batia cabeça na pobreza de fontes bibliográficas. Tentei ajudar. A internet ainda era jovem criatura e modestos os mecanismos de busca. Apelei para o ancestral do Google, cujo nome esqueci e hoje deve ser verbete em alguma nuvem que nunca se vê. Abriram-se as portas do Nirvana. Lá havia tudo sobre esquimós, cuja palavra significa “aqueles que comem o peixe cru”. Nada a ver com os sashimis do japa da esquina. Vivendo em ambiente hostil e sem acesso a equipamentos de conservação de alimentos, os primitivos esquimós pescavam e comiam imediatamente o que vinha em anzóis e arpões.
Aquela foi uma época de rápida transição tecnológica. Os computadores entravam velozmente para a lista dos eletrodomésticos e a linguagem coloquial incorporava o dialeto internetês. Os correios perdiam espaço para a comunicação instantânea dos e-mails. Aquilo tudo era muito mais voraz e desequilibrante do que a relativamente lenta introdução das máquinas de calcular no cotidiano, processo que comecei a viver na faculdade. Os poucos donos das maquininhas de bolso eram, no início, tratados a pão-de-ló.
Passados mais de trinta anos, os monitores e telas em geral invadem todos os domínios, com consequências cada vez mais preocupantes. Novas gerações de equipamentos se sucedem em ritmo alucinante e a cultura da novidade infinita – e vazia – cria fanáticos viciados. Observo a molecada lendo pouco, confinada dentro de casa e dedicando cada vez mais tempo a celulares e seus satélites de luz azulada. Aonde isso vai parar? Que tipo de gente o ambiente eletrônico produz? Um artigo do doutor Daniel Becker deu régua e compasso a estas indagações.
O pediatra cita extensamente o psicólogo social Jonathan Haidt, da New York University, estudioso das repercussões do uso abusivo de celulares sobre a infância e a adolescência. O que encontrou é aterrador. Não dá para falar de todos os aspectos, mas vou destacar alguns.
A dedicação obsessiva aos celulares e às redes sociais leva a infância ao que o doutor Becker chama de múltiplo exílio. De seu corpo, que tem os movimentos empobrecidos; do seu território durante séculos, ou seja, das interações ao ar livre, do contato com a natureza; da socialização com seus pares, essencial para criar um senso de coletividade; dos estímulos que ensinam, pelo contato físico e emocional, a entender a complexidade das relações humanas; do sono reparador, substituído por jogos hiperestimulantes, projetados para induzir ao vício.
Depois de 2010, quando começa o salto geométrico em direção às telas de natureza vária, há um crescimento notável de casos de automutilação, depressão e suicídio em crianças e adolescentes. Uma correlação sólida entre estes fatores foi provada.
Tudo o que acontece neste mundo virtual é acelerado. Nos Estados Unidos, os adolescentes ficam, em média, sete horas diárias usando celular. Recebem cerca de 15 notificações por hora todos os dias, numa demanda caudalosa e estressante por respostas. Descobri que determinados serviços de streaming oferecem a opção de acelerar de duas a quatro vezes a velocidade dos vídeos. Para muitos jovens, ficou insuportável acompanhar histórias em tempo real. É tudo o oposto da leitura de livros, que exige introspecção, paradas para absorver conteúdos e eventual revisão de passagens já lidas, e audição de música, exercício prazeroso que não se esgota em poucos segundos.
Agora, chega ao picadeiro a Inteligência Artificial, ainda com cheiro de placenta, mas com potencial devastador nada desprezível. Já existe uma ferramenta que clona voz com simples amostra de 15 segundos de qualquer pessoa. Duas empresas desenvolvem IA que seja capaz de “raciocinar”. Na guerra, algoritmos definem listas de alvos com base apenas em dados gerais fornecidos por inteligência militar. Autorizações para “eliminação”, com efeitos devastadores, passam a ser quase automáticas. O Anjo da Morte está com agenda lotada. Stuart Russell, uma das maiores referências em inteligência artificial, fez a pergunta-chave: “Como manter para sempre o poder sobre entidades (sistemas que usam inteligência artificial) que são mais poderosas que nós mesmos?”.
Enquanto o chão ferve sob os pés humanos, leio que, no Brasil, quase 10% de pessoas acreditam que a Terra é plana. Ciência pra quê? Informação onde? Junto as peças e visualizo o simpático robô do seriado Perdidos no espaço. Vejo-o agitando os braços mecânicos à moda do biruta de aeroporto e avisando, aflito: Perigo! Perigo!
Gosto das crônicas do angolano José Eduardo Agualusa. Especialmente quando sua filha Kianda, de 5 anos, é a musa inspiradora. Criança sempre desconcerta, dribla, inventa, implode datas vênias.
Em texto recente, Agualusa contou uma conversa que teve com Kianda sobre o que é alma. Isso mesmo, assunto nada uni-duni-tê. A pequena quis saber o que significava dizer que um lugar tem alma. Descontando os religiosos raiz, ninguém tem a resposta na ponta da língua. Agualusa não fugiu à regra, e devolveu o assunto para a filha.
Sabes o que é alma?, indagou. A resposta: A alma é uma luz muito pequenina escondida no coração. É o que continuamos a ser depois que deixamos de ser… Caramba, pensei, essa molequinha passou batida pela Peppa Pig e pelo Pateta.
Tentei me intrometer na conversa. À distância, sem pedir licença, mas oferecendo em troca memórias e olhares curiosos. Minha avó materna usava com parcimônia uma expressão em ídish: guite neshume. Ao pé da letra significa boa alma. No entanto, há mais sustança nesta sopa. Pouca gente se enquadrava no perfil do gente boa, do disponível para conversar e aliviar o peso de exílios forçados, desassossegos e rotinas duras, do que oferecia afagos a quem mal conhecia. Do que abraçava tanto até doer de dorzinha gostosa. Um Jeremias, o Bom, intergaláctico.
Acho estranha a imagem de um imenso almoxarifado, de onde são retiradas almas virgens e sopradas em matérias inanimadas. Estou falando de certas crenças religiosas. Quais seriam os critérios da seleção? Haveria uma oficina, devidamente autorizada, para recauchutar sopros defeituosos? Prazo de garantia? Como o dono tem paradeiro desconhecido, não existe balcão de reclamação. Em mistério tão denso e processo tão categórico, cabe a poesia, suave desmanchadora de certezas. Mario Quintana dizia que “alma é essa coisa que nos pergunta se a alma existe”. Ele, como nosotros, jamais encontrou o endereço do estoque nas Páginas Amarelas.
No poema Te quiero, Mario Benedetti nos garante que, no amor, “en la calle, codo a codo, somos mucho más que dos”. É assim a matemática da vida: não obedece a linhas retas de almas únicas. Tenho certeza de que, dentro de mim, há uma assembleia permanente de almas. Uma confusão dos diabos. Há tempestades e secas, grupos que buscam hegemonia permanente, passados disputando privilégios, conchavos, idiomas que se cruzam, o bloco das ansiosas e das imprescindíveis silenciosas. O presidente da mesa, eu, ora essa!, pode até se exasperar, mas no final conforma-se e segue o conselho do Chico e do Caetano: A gente vai levando.
A hipótese de alma única, aquela que a Kianda supõe se esconder no coração, é confortável (sem assembleias), mas não vai longe. Há dias em que a alma vencedora pede cantatas de Bach, outros em que o clima está mais para quartetos de cordas de Schubert. Tempos de Elizeth Cardoso, momentos de Cássia Eller. Sede de Woody Allen, fome de Bertolucci. Clima ora para chanchada, ora para Assalto ao trem pagador. A assembleia tem um velho caso de amor com a vida e esta, mutante, oferece cardápio variado.
Não acredito que exista a tão citada alma de um povo. Como é possível encaixotar multidões de desejos e olhares numa única embalagem? Acho possível, no entanto, imaginar a alma de um lugar. Penso logo no meu escritório, que, mesmo silencioso, comunica momentos diferentes todo dia, cada qual desfiando pedacinhos desta alma. A foto emoldurada do The Who, presente da irmã, o cartaz republicano espanhol convocando resistência antifascista, o livro censurado oferecido por um livreiro corajoso durante a ditadura, o CD da Jacqueline Du Pré comprado num camelô improvável, o mamulengo de Juazeiro do Norte, o dicionário de ídish evocando leituras de Scholem Aleichem. As memórias, seus sons e imagens, são a alma do lugar, que estará sempre em construção. Como eu.
A emancipação dos trabalhadores será obra dos próprios trabalhadores (Karl Marx)
Acabo de ler uma seleção de crônicas inéditas em livro escritas pelo Vinicius de Moraes. Vão dos anos 1940 até 1970 (quando escreveu para O Pasquim). Muitas surpresas no calhamaço de 400 páginas. Uma delas foi a paixão política do poeta, derramada em muitos textos. A gente imagina o Vinicius bebericando seu whisky num bar em Ipanema, maltratando o fígado (órgão que ele homenageou numa crônica hilária) e arremessando olhares sugestivos para o mulherio ao redor. O Moraes foi muito além disso.
Durante algum tempo, Vinicius manteve a coluna Crônica da Cidade na revista Diretrizes. A publicação, lançada em pleno Estado Novo por Samuel Wainer e Azevedo Amaral, teve muitos colaboradores ilustres, como Rubem Braga, Álvaro Moreyra, Jorge Amado e Graciliano Ramos. No dia 5 de julho de 1945, saiu a crônica A grande convenção. É uma das várias em que Vinicius demonstra profunda admiração por Luiz Carlos Prestes e seu papel político no tempo que se seguiu ao final da Segunda Guerra Mundial.
A que convenção Vinicius faz referência? Estava em curso a organização, em nível nacional, de centros e comitês populares para discutirem as reivindicações mais sentidas da população. A ideia da convenção que integraria os grupos regionais foi verbalizada por Prestes no comício do PCB realizado no estádio do Vasco da Gama, em 23 de maio de 1945. A pauta era extensa: ia da luta contra o fascismo à melhoria de abastecimento, transportes e educação. Vinicius previa que aquela seria “mais uma vitória das massas politizadas contra as forças da reação, mais um marco plantado no caminho da redemocratização do Brasil”. Quem o visualizasse no Villarino, frequentador assíduo da casa ao lado do Antônio Maria, do Rubem Braga e do Tom Jobim, falando das massas, logo associaria com um farto espaguete à bolonhesa ou uma lasanha carregada no molho branco. Outros tempos, outras massas.
O entusiasmo do poeta/diplomata/cronista fazia sentido. Dava gosto de ver a mobilização intensa de gente desabituada a debater como a política interfere no cotidiano. A imagem do político entrincheirado numa galáxia distante era hegemônica na sociedade. Outro aspecto era o encontro da esquerda com sua essência existencial: a organização de oprimidos, humilhados e ofendidos na luta contra as raízes da desigualdade e a exploração de classe. Prestes e seu partido eram, naquele momento histórico, a melhor representação deste impulso.
Estamos hoje muito longe daquela movimentação. Houve, durante a ditadura civil-militar, a multiplicação de formas de resistência. Das entrelinhas dos textos à luta armada, da agenda parlamentar à crítica pelo humor, da solidariedade internacionalista à reconstrução sindical, não deixamos os milicos e seus lambe-botas em paz. Foi um período difícil, mas rico em criatividade. Brotaram no Rio, por exemplo, associações de moradores, que, sonhávamos, poderiam ser embriões de formas mais avançadas de organização e luta. Não chegaram a tanto.
Participei da AMAL, uma das associações de moradores na zona sul. Em Laranjeiras, chegamos a nos reunir na rua, embaixo de postes de luz, cada um trazendo sua cadeira. Discutia-se de tudo, o importante era recriar o hábito da conversa e da busca por formas diferentes de fazer política, sem os reducionismos tão comuns nos dias que correm. Conseguimos barrar o projeto da chamada Via Paralela, que transformaria o bairro num mero lugar de passagem.
O ímpeto organizacional murchou lentamente após 1985. Aqui não é o espaço para debater em profundidade as causas disso. Quero, no entanto, destacar um aspecto. Parte significativa da esquerda renunciou ao papel de organizar o povo, de representar interesses de classe, de integrar lutas isoladas num projeto comum de conquista de poder. Resumiu-se ao uso do espaço parlamentar, que tem os limites comuns a todas as democracias burguesas. Desviou a atenção das causas profundas das enormes desigualdades no Brasil para o campo, certamente importante mas secundário, do identitarismo. Neste cenário, a direita nada de braçada. Pode perder eleições, pouco importa. Seu projeto estratégico, de hegemonia do capital, permanecerá intacto. Sabe que, com a esquerda conformista no tabuleiro, tudo que terá pela frente são sonhos. Como disse lá atrás o Milton Nascimento: Sonho feito de brisa/vento vem terminar.
Naquela esquina, o corre-corre de sempre. Muitos olhos abduzidos por celulares, gente em luta inútil contra o relógio e a solidão, driblando buracos, ilusões, camelôs e ruídos. All the lonely people/Where do they all come from?/All the lonely people/Where do they all belong? Um ou outro mendigo desfila agonia em busca de restos.
E de repente… Atrás de uma teia negra de fios em postes percebo letras. Tantas vezes por ali e jamais as havia visto. Cegueira de cidade grande. Chego perto. Na parede ao lado de uma velha janela de madeira, num sobrado que já conheceu dias melhores, a frase: Reservada para pichador amador. Fiquei encantado, com uma pontinha de curiosidade. Que convite era aquele? Alguém cansado das pichações “profissionais” que emporcalham a cidade, dando vez à turma criativa? Ou seria a transgressão do entendimento comum da palavra amador, o não-profissional? Uma sugestão aos enamorados, ou amadores, para colorirem seus afetos em paredes mortas.
No auge da pandemia de Covid-19, ingênuos acreditavam que o mundo sairia diferente da calamidade. Não era possível, diziam, que, depois de tanta dor e sofrimento tamanho, saíssemos iguais ao que éramos. Estamos a ver que estavam redonda e quadradamente enganados. Apesar da velocidade de expansão do Universo estar desacelerando, continuamos acelerados, cada vez mais dependentes de telas e geringonças eletrônicas, olhando gentes e coisas em planos horizontais. As cidades entregues a interesses corporativos, agredindo espaços de memória que constroem identidades. Não se consegue notar uma calçada livre sem que os “empreendedores” planejem entupi-la com bagulhos lucrativos. Silêncio é desperdício, sacrilégio. Os incomodados que se mudem e, pelo andar da carruagem, chegará o tempo em que os incomodados não terão mais para onde se mudar. A não ser que aceitem colonizar a Lua, transportados por bólidos construídos pelo Elon Musk.
É libertador, nesse contexto, ver uma ideia original, como a que vi na tal esquina. Se conhecesse seu autor, proporia estendê-la. Vamos colocar tabuletas em jardins abandonados e praças maltratadas, dizendo-os abertos a jardineiros em flor? Que tal jogar garrafas ao mar com mensagens poéticas, antecipando a surpresa e o prazer de quem as encontrar? Em pleno delírio, que não seria tremens, semearíamos coretos pelos cimentos tristes e ali ressuscitaríamos Noel, Vadico, Chiquinha, Jacob, Donga, Nazareth, Alfaiate, em acordes do balacobaco.
Tudo bem, confesso que estou soltando a franga hippie que existiu em mim. Paz e amor em meio a guerras, rancores e estupidez da cobiça suicida. Às vezes, este tipo de sonho é essencial para manter a sanidade em meio aos destroços da humanidade em marcha batida para o precipício.
Dia desses, revi Yellow Submarine, produzido em 1968. No desenho animado (ainda se chama assim?), os Beatles propunham uma revolução pela música. Na idílica Pepperland, onde tudo é harmonioso, surgem os Meanies, os bad guys, que transformam o lugar em gelo e cor única. É pela música que são derrotados, numa grande apoteose psicodélica animada por All together now. Em cena típica daquele ano, John, Paul, Ringo e George caminham, enquanto sua sombra é pintada com arcos-íris mutantes. O sonho ainda estava vivo. E ativo.
Racionalmente, não creio que apenas a música vai salvar o planeta. Talvez um cabeludo chapado em 1968 acreditasse em utopia sonora. No entanto, não consigo imaginar uma sociedade revolucionada sem música e poesia. Nestes terrenos a alma humana tem enorme grau de liberdade. Ela, convém lembrar, é sempre radical e transformadora.
Ao meu parceiro imaginário, sugiro um nome para nossos sonhos. Seria o Projeto Xenohyla Truncata. Essa coisa esquisita é o nome científico de uma pererequinha (do tamanho de um botão de rosa), espécie endêmica da Mata Atlântica do Rio de Janeiro. É vegetariana (só come frutas e pétalas de flores) e único caso de anfíbio polinizador do mundo. Ao sugar néctar, o pólen anexo gruda em suas costas úmidas. Quando pula, de flor em flor, espalha o pólen e fecunda novas vidas vegetais. Salve ela! E salvemo-nos todos, polinizando de belezas as cidades brutas!
A todos os que resistiram ao golpe civil-militar de 1964 e à ditadura que se seguiu a ele
Praia do Flamengo, 132. Ali funcionou por quatro décadas a sede da União Nacional dos Estudantes (UNE) e da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (UBES). Mais do que representação cartorial do movimento estudantil, foi o epicentro de notáveis iniciativas culturais e formação de quadros que atuaram na vida política nacional. Naquele prédio nasceu o CPC – Centro Popular de Cultura, cujo projeto generoso era levar cultura ao povo onde fosse possível. Teatro nas ruas, portas de fábricas, palcos modestos em bairros periféricos. Oduvaldo Vianna Filho, Cacá Diegues e Ferreira Gullar, entre outros, militavam lá. José Serra, presidente da UNE eleito em 1963, esteve no palanque ao lado de Jango no comício da Central, em 13 de março de 1964. Conclamou a estudantada a preparar uma greve geral para protestar contra o golpe que estava em marcha. Denunciou a “direita fascista” e os governadores que apoiavam a articulação golpista.
Minha mãe, assistente social, trabalhou na UNE no início dos anos 1960. O Menino acompanhou sua luta, enfim vitoriosa, para vencer a resistência machista do Grande e “trabalhar fora”. Mulher compartilhando o sustento da família era uma ousadia e tanto naquela época. Ser “do lar” era cláusula pétrea para as mulheres na cartilha masculina dominante. Dona Lilia, sem o perceber, foi uma desbravadora.
Lembro-me muito pouco daquela fase. Lilia me levou algumas vezes para conhecer o local onde trabalhava. No prédio estudantil, ganhava blocos de papel, fórmula garantida para cativar-me. Pré-adolescente, já era viciado naquelas folhas em branco, sedutoras, a chamar-me para inventar histórias e desenhar impossíveis desfechos. Em imagens embaçadas, oníricas, ouço um show que assisti no pequeno auditório local. Diziam que era uma turma boa que vinha das Gerais. Milton? Tiso? Guedes? Será? Vai saber. A imaginação e o desejo não têm limites.
No primeiro dia após o golpe de 1964, uma horda de vândalos, excitados pela furiosa maré anticomunista, depredou e incendiou as instalações do prédio. Cena digna da barbárie nazista e reveladora do caráter antipopular da quartelada. A classe média, patusca de marré deci, aplaudiu os piromaníacos. Sobrou uma carcaça enegrecida pela fuligem. Começava a República dos Generais e seus cúmplices civis. Um Festival de Besteira e Truculência que assolou o país por 21 anos, banhado em sangue e dor.
Estive na ABI, poucas semanas atrás, no evento que lembrou o 60º aniversário do Comício da Central. Já na saideira, dão a palavra para um venerável senhor de cabelos brancos. Fez questão de levantar-se sem ajuda e suas palavras porejaram História. Era Ivan Cavalcanti Proença, 93 anos, capitão do exército na época do golpe. No meio de sua intervenção, aproximou-se Victória Grabois, uma das fundadoras do Grupo Tortura Nunca Mais/RJ. Contou que aquele homem era um herói. No dia seguinte ao golpe, um grupo paramilitar, armado com metralhadoras, revólveres e bombas de gás lacrimogêneo, cercou 300 estudantes na Faculdade de Direito, no Rio. A invasão parecia iminente, a tragédia batia na porta. Pois o capitão Proença enfrentou os milicianos e, depois de momentos de discussão tensa, estes retiraram-se. Os estudantes saíram em segurança. Salvou nossas vidas, disse uma emocionada Victória, que estava na Faculdade. O ex-capitão foi ovacionado.
Incêndio criminoso na UNE, brutalidade, ódio, perseguições de todos os tipos. Carne e ossos da ditadura. Cerca de 6.600 militares, de sargentos a generais, foram punidos, torturados e perseguidos pelo regime. Muitos não tinham qualquer envolvimento político, eram apenas legalistas. Militantes de coloração vária, sindicalistas, operários, intelectuais, políticos oposicionistas, jornalistas. Todos viveram o inferno da censura, das ameaças, da prisão, do exílio, do assassinato. É vital manter viva a memória daqueles tempos. Depois de 60 anos, a sociedade brasileira ainda não completou o balanço da ditadura. Os criminosos que agiram a serviço do Estado estão por aí, gozando de uma impunidade vergonhosa. As famílias das vítimas ainda reclamam justiça. Não ajuda em nada o silêncio proposto pela presidência. Ao contrário. É antipedagógico e negador da política como instrumento fecundo para se compreender a realidade. 1964, em muitos aspectos, ainda não acabou.
Era 1984. A ditadura civil-militar já respirava por aparelhos, mas tinha força suficiente para dilatar um pouquinho o prazo de validade. Neste clima, Chico Buarque e Francis Hime compuseram uma espécie de samba-enredo que, lambendo as feridas, fertilizava a esperança do que estava por vir. Lá pelas tantas, diz a letra: Num tempo/Página infeliz da nossa história/Página desbotada na memória/Das nossas novas gerações. Há 60 anos, portanto, nossos luminosos artistas já levantavam a bola da memória histórica. Ou da desmemória.
Às vésperas do golpe de 1964 completar seis décadas, a triste convocação para uma amnésia oficial veio de um ex-sindicalista metalúrgico atingido pela repressão d’antanho. Em entrevista à Rede TV!, o presidente da República disse que “64 já faz parte da história(…) Eu não vou ficar remoendo e vou tentar tocar esse país pra frente”. No primeiro momento, não acreditei que Lula tivesse cometido essa barbaridade, especialmente usando argumentos medíocres. Justificou sua posição lembrando que generais de hoje eram crianças ou sequer nascidos naqueles tempos sombrios. Bem, eu era um pré-adolescente em 64 e a ditadura, que durou 21 anos, marcou em brasa toda a minha geração. E daí? Minha idade diminuiu o estrago? Certidão de nascimento não conta histórias, não cancela responsabilidades, nem dimensiona traumas e pesadelos.
Vejam vocês que ironia cruel. Em maio de 2020, a Viúva Porcina, claramente surtada, sorria para as câmeras e regurgitava: “Fiquem leves. Não quero arrastar um cemitério de mortos nas minhas costas. Vamos ficar vivos, por que olhar para trás?”. Lula e Regina Duarte de mãos dadas, propondo não olhar para trás. Dói na alma, e não é pouco. Como disse Conrado Hübner Mendes, professor da USP: “Como Regina, Lula não se dispõe a entender que esse passado é sobretudo presente e futuro, não só para os filhos e filhas de pais mortos por generais, mas também para a democracia que venceu as eleições por 1% dos votos. Não é revanche, mas construção de horizonte. Nem mesmo o bolsonarismo essa democracia venceu”.
Faço questão de desobedecer a sugestão inconsequente do Lula. Vou lembrar, contar, testemunhar, escrever, silenciar com expressividade, cantar o canto da memória, denunciar, o que foi a República dos Generais e seus capangas civis. Criminosos que, em grande parte, ficaram impunes. É um dever e um compromisso com as novas gerações, para que não sobre página desbotada na memória.
Estou convencido de que a história dos anos de chumbo jamais será integralmente contada. É um interminável inventário de proibições, censura, violências e perseguições que destruíram a vida de milhares de brasileiros. Como descrever o cotidiano de medo? Como aferir o choque da informação de que um amigo havia desaparecido? Como conviver com o fantasma do frei Tito, que não suportou a tortura aplicada pelo infame delegado Fleury e acabou matando-se no exílio? Como entender demissões “políticas”? São heranças que não se pode eliminar com canetada, arranjos de cúpula ou desejo de “pacificação”.
O que temem as Forças Armadas? A mesma pergunta foi feita em 1966, quando a gorilada ameaçou prender Nara Leão. O que fez Nara? Disse, em entrevista à imprensa, que “os militares podem entender de canhão ou de metralhadora, mas não pescam nada de política”. Naquela época, palavras divergentes eram consideradas ameaça à segurança nacional. Medo das contradições, dos argumentos não hierarquizados. O lema dos ditadores sempre foi: Roma locuta, causa finita. Quando falam os quartéis, todos abaixam a cabeça. Foi assim por mais de duas décadas. E o Luiz Inácio prefere passar uma borracha. Ora, faça-me o favor!
A corporação que hoje conspira contra a democracia tem longa tradição golpista. Militares tramaram em 1954 (o suicídio de Getúlio abortou o golpe), 1955 (para impedir a posse de Juscelino), 1961 (tentaram bloquear a posse de Jango depois da renúncia de Jânio) e 1964. Prontuário gordo, obsceno, persistente.
Até quando a sociedade brasileira vai sustentar uma casta armada que se acredita acima das leis, não se subordina ao poder civil e faz política nas sombras? Pergunto novamente: o que temem os militares? Qualquer sociedade democrática aceita com naturalidade o choque de opiniões diferentes. Não é o que mostra a tradição do segmento militar, que, no Brasil, tem mostrado uma vocação ditatorial contínua.
É possível resistir? Certamente. Sempre. Resistência tem múltiplas faces. Mesmo em condições adversas, no limite do possível, dá para encontrar formas de resistir a situações inaceitáveis. Cada um encontrará a sua. Neste momento, minha forma de protestar contra o falso apaziguamento, que não passa de capitulação disfarçada de concórdia, é convidando cada um dos que me leem a passar adiante as histórias da noite que se abateu sobre o Brasil por 21 anos. Conhecimento é ferramenta de luta.
Nos 60 anos do golpe de 1964, gritemos: Não esquecer, não perdoar! Ditadura nunca mais!