Se deus é tão bom, como pode deixar as pessoas sofrerem desse jeito? (Toshiko Sasaki, sobrevivente da bomba atômica lançada pelos norte-americanos em Hiroshima)
O noticiário torrencial sobre a Venezuela dá o que pensar. Não tenho a menor simpatia pelo “socialismo” de Nicolas Maduro, caricatura lamentável de liderança política. A lisura das recentes eleições presidenciais é contestada mesmo por setores à esquerda, como o Partido Comunista Venezuelano, partido que Maduro hostiliza faz tempo. Na América Latina, entretanto, temos o direito, e mesmo o dever, de não sermos ingênuos. Em nome deste direito, lanço algumas dúvidas ao vento.
Haverá mesmo um surto democratizante, de caráter global e por questões de princípio, que não se limita à vigilância sobre a Venezuela? Daqui por diante, todas as eleições no mundo, de Madagascar a Bangladesh, de Fiji às Malvinas, serão minuciosamente acompanhadas por observadores internacionais, amplamente noticiadas com destaque e submetidas a apurações paralelas? Suspeito que não é esse o caso. O interesse é seletivo, circunstancial, e convém observar o panorama geral incluindo este fator.
Quando o Iraque invadiu o Kuwait em 1990, os Estados Unidos intervieram imediatamente para expulsar o invasor. Um analista ianque ferino comentou que se o Kuwait produzisse brócolis ao invés de petróleo, Saddam Hussein poderia permanecer ad aeternum em solo kuwaitiano, sem ser molestado. Eis aí o detalhe. A Venezuela tem a maior reserva petrolífera do planeta. Maior do que a da Arábia Saudita, onze vezes maior do que a brasileira. Aos olhos do imperialismo, tem que ficar em mãos confiáveis. De preferência, nas das oligarquias corruptas que dominavam o país antes de Hugo Chávez. Com elas no poder, ninguém ouvia falar da Venezuela. Estava tudo dominado.
Acho curiosa a posição norte-americana no imbróglio venezuelano. Parecem, oh céus!, preocupados com a democracia. Não há país no mundo com maior histórico intervencionista. A América Latina nunca deixou de ser vista como quintal do Grande Irmão do Norte. A lista de golpes apoiados política, militar e financeiramente pelos EUA é robusta. Quando Allende presidia o Chile, Nixon e Kissinger combinaram “lançar o caos” no país andino. No golpe civil-militar de 1964 no Brasil, a embaixada norte-americana era uma espécie de QG golpista. O embaixador Lincoln Gordon flanava com desenvoltura no meio da malta fardada. Com este currículo sombrio e dados os interesses geopolíticos em jogo, é preciso incluir no cenário a mão pesada do establishment norte-americano. Repito: não há que ser ingênuo nesta hora.
É aqui, na bruma densa da História, que trago uma triste lembrança. Amanhã será o 79º aniversário do maior ataque terrorista da história da humanidade (terrorismo na definição da ONU). No dia 6 de agosto de 1945, às oito horas e quinze minutos, o bombardeiro norte-americano Enola Gay lançou sobre a cidade japonesa de Hiroshima a primeira bomba atômica da história. A área não tinha qualquer interesse militar. Denominada Little Boy, a bomba causou cerca de 100.000 mil mortes imediatas e dezenas de milhares a mais ao longo do tempo, por causa dos efeitos da radiação. Mais de 70% de todas as edificações foram destruídas. O calor gerado pela explosão chegou a 6.000 graus Celsius. Três dias depois, outra bomba, a Fat Man, seria lançada em Nagasaki, matando instantaneamente cerca de 50.000 pessoas.
Como classificar estas carnificinas, que se seguiram aos bombardeios de saturação sobre outras cidades japonesas (numa única noite, causaram 80.000 mortes em Tóquio, civis em sua enorme maioria)? Uma boa ideia é comparar com a definição que o presidente norte-americano Harry Truman usou para os bombardeios nazistas sobre Espanha (durante a Guerra Civil), Inglaterra e Holanda: “Barbárie desumana que chocou profundamente a consciência da humanidade”.
Batman e Coringa, Super-Homem e Lex Luthor, Sherlock Holmes e James Moriarty, Branca de Neve e a Bruxa da Maçã, Popeye e Brutus, Tio Patinhas e os Irmãos Metralha. Tudo bem que na ficção é oito ou oitenta, mas a História real não pode ser entendida como uma contenda simples entre a Virtude absoluta e o Mal definitivo. Há cruzamentos, opacidades, linhas sinuosas, tentações, idas e vindas. Difícil, trabalhoso, mas quem disse que viver e compreender é um passeio na orla?
Fiquem tranquilos: nenhum humorista atira para matar (Millôr Fernandes)
Era só o que faltava. A cidade de Yamagata, no Japão, aprovou uma lei em que regulamenta … o riso! Por ela, os cidadãos precisam rir uma vez por dia e os distintos parlamentares sugeriram o oitavo dia do mês como “o dia para os moradores promoverem a saúde através do riso”. Por que justamente o oitavo dia? Mistério da meia-noite. Para confeitar o bolo, pedem aos capitalistas que “desenvolvam um ambiente de trabalho repleto de risos”. Que importam jornadas de trabalho canibais e competições internas doentias? O negócio é seguir os manuais de autoajuda e o compositor brega Evaldo Braga. Sorria, meu bem, sorria!
A imagem do japonês sorridente me faz lembrar os tipos caricatos dos desenhos animados e gibis da época da Segunda Guerra Mundial. O Império do Sol Nascente era o inimigo e, como tal, tinha que ser ridicularizado pela máquina de propaganda. Popeye, na base do sopapo e umas latinhas de espinafre, afundava porta-aviões japoneses. Os marinheiros orientais aparecem como imbecis dentuços, usando óculos fundo-de-garrafa e … rindo o tempo todo!
Pode ser que os japoneses tenham especial apreço pelo controle não apenas dos espaços públicos, mas também dos comportamentos privados. Não estão sozinhos. O desejo de controle, do qual só a Morte escapa, é um nutrido ativo universal. Quando Zico foi jogar no Kashima Antlers, o futebol japonês era uma piada. O Galinho de Quintino tentou mostrar rudimentos de táticas de jogo, de colocação em campo. Foi surpreendido quando lhe pediram que fizesse um diagrama, indicando passo a passo a sequência de jogadas. Da figura A para a B, da C em direção à D, e por aí vai. Sem improviso, sem surpresas. Até chegar aos dribles, às manhas, às bicicletas, às trivelas, aos passes de letra e de três dedos, uma eternidade e meia se passou.
Rir por obrigação, por decreto, não tem graça. Certa vez, na velha cinemateca do MAM, exibiram uma espécie de Jean Manzon chinês. Lá pelas tantas, atarantados, vimos na tela uma cirurgia de grande porte e o cidadão recebia acupuntura como anestesia. Ele sorria (mesmo?), mas de nervoso. Lá dentro dos miolos devia pensar: “Desliga a filmadora, pô@##%!rra, e me dá uma dose extra de anestesia! A legítima e de boa safra!”.
Riso pode ser libertador, não tenho dúvida. Não precisa ser gargalhada. Harpo Marx, o meu Marx Brother predileto, emulava Chaplin e não falava uma única palavra nos filmes. Não precisava. Seus jogos cênicos, sua zombaria contínua, suas expressões, bastavam para descobrirmos a falta que a graça faz.
Noutra chave, tivemos Oscarito. Quem foi infante nos anos 50, há de lembrar a saraivada de chanchadas da Atlântida que assistimos. O mundo, como dizia o título de uma delas, era um pandeiro. Há cenas inesquecíveis. Em Nem Sansão, nem Dalila, Oscarito está em Gaza (!) e, vestindo um modelito saiote grego, imita Getúlio Vargas num daqueles discursos sonolentos, com sotaque gaúcho no ponto certo: “Trabalhadores de Gaza! A situação política nacional (e acentuava o ele)… está uma pouca vergonha!”. O inusitado, no caso um político sendo sincero, costuma ser bem engraçado.
Em Os dois ladrões, Oscarito contracena com Eva Todor e ambos criam um clássico. Vestido de mulher, com a mesma roupa de Eva, ele simula ser um espelho e imita todos os gestos da parceira, numa sincronia perfeita. As expressões de Oscarito tornam a cena hilariante.
Teremos motivos para rir espontaneamente na atual quadra histórica? No Rio, cientistas detectaram cocaína em tubarões. O mundo acaba de contabilizar os três dias mais quentes da história recente. A extrema-direita avança. Trump diz que o riso de Kamala é doentio. Olha, numa hora dessas vale o que o filho da dona Hermínia, Paulo Gustavo, disse com serena sabedoria: “Rir é um ato de resistência”. Porque satirizar os autoritários, com seus mal disfarçados preconceitos, os mentirosos compulsivos, os intolerantes, os chatos do politicamente correto, os picaretas de coturno variado, é uma catarse e tanto, um alívio em meio à aspereza da vida. Não é pouco.
Palavra boa/Não de fazer literatura, palavra/Mas de habitar/Fundo/O coração do pensamento, palavra (Chico Buarque)
Lá se vai mais uma. Seguindo a trajetória de extermínio sistemático das livrarias do Rio, está fechando as portas a Malasartes, pioneira em literatura infanto-juvenil no Brasil. Criada há quase meio século, ajudou a formar gerações de leitores, que lá apareciam latejando curiosidades e buscando letras, imagens e sobretudo afeto e acolhimento. Dona Yaci Mattos de Moraes sabia disso e foi uma espécie de mestre de cerimônia que abriu portas para a literatura.
O Rio está cada vez mais parecido com um cemitério de livrarias. Perdi a conta de quantas naufragaram nos últimos anos. Uma antiga música, lindamente cantada pelo Milton Nascimento, precisa de atualização carioca. “Estan clavadas dos cruces/en el monte del olvido”. Por aqui, as ruínas de estantes são muito mais do que duas. Não param de crescer. Eldorado, Saraiva, Entrelivros, Brasileira, São José, Emanuel, Mestre Jou, Cultura, Padrão, Galileu, Timbre, Arlequim, Camões. E aquela na rua 7 de Setembro, como se chamava mesmo?, onde numa pilha de equilíbrio incerto descobri, fantasiado de poeira, um exemplar original do Almanhaque 1955, do Barão de Itararé, com autógrafo escrachado do insigne gaúcho? Que dizer do quase esconderijo no centro velho, apertadinho que só ele, onde iniciei-me no mundo, vasto mundo, do Rubem Braga?
Bairros inteiros, com populações maiores do que muitas cidades, não têm mais livrarias. Em Copacabana, com mais de 160 mil habitantes, resiste apenas um sebo, o 2005, simpático herdeiro de uma tradição que está sendo nocauteada pelas vendas online. Perde-se o contato com livreiros interessantes, o prazer de ser surpreendido por obras que não procurávamos (e nos chamam em silêncio).
Não me esqueço do dia em que esbarrei com o Joaquim Ferreira dos Santos numa livraria. Tomei coragem e me aproximei para uma prosa rápida. Simpático, sem a menor afetação, meu cronista cativo das segundas-feiras no jornal falou sobre o leilão da discoteca do Big Boy, lendário DJ de épocas radiofônicas. Hello, crazy people, Big Boy rides again! Lembramos histórias do Zózimo Barroso do Amaral, meu parente postiço, que ele biografou com a tradicional eficiência. Se eu tivesse usado o teclado para encomendar o livro que procurava, o encontro não aconteceria.
Será acidental a coincidência do colapso das livrarias com a ascensão irresistível dos dispositivos eletrônicos? Recorro a um artigo recente do Ruy Castro para dimensionar o tamanho da encrenca. Ruy se refere à experiência narrada por uma amiga, professora universitária. Disse ela: “É uma luta fazer com que os alunos leiam um livro inteiro. Eles vivem grudados no TikTok ou no Instagram e não têm concentração. Outro dia, ao ver que todos estavam no celular, parei a aula. Perguntei a alguns o que estavam lendo – e muitos não se lembravam do que tinham acabado de ver 15 segundos atrás! Um deles disse que estava comprando uma calça comprida. Para usar a palavra que eles mais usam, não têm foco”. Mais adiante: “O vocabulário encolheu, o que significa que, em breve, só poderão expressar ideias muito simples. Não toleram nada que passe de dois minutos e meio”.
Velho rato de livrarias, fico jururu neste universo desfolhado e desencapado. Como é que tanta gente vai comunicar seus sentimentos, suas sensações por estarem no mundo, seus gostares e estranhares? Através de grunhidos? O Paulo Mendes Campos dizia que “escritor é quem não tem nenhuma facilidade para escrever”. Exatamente. Traduzir em palavras as subjetividades, o difícil exercício de viver, é correr duas maratonas por parágrafo. Sem nenhuma garantia de que se subirá ao pódio.
Há lusco-fuscos de esperança. Minha netinha querida, desde sempre fuçadora de textos e encantadora de histórias, foi comigo a um pequeno sebo. Comportou-se como veterana. Olhou sem pressa as estantes, chamou o livreiro para tirar dúvidas, deixou o inesperado fazer surpresas. Acabou escolhendo um exemplar meio velhusco em inglês (!) e voltou feliz para casa. Um tipo de felicidade que comecei a cultivar cedo e dá sentidos para seguir na estrada.
Se algum político graúdo dissesse que, no sistema capitalista, não precisa prestar contas a ricaços e banqueiros, das duas uma: caiu de boca numa viagem lisérgica ou avaliou muito mal a correlação de forças que o sustenta no alto do pódio. Em qual das duas hipóteses você enquadraria o Lula, que disse exatamente isso dias atrás?
No primeiro momento, pensei que havia um mal-entendido. Depois, vi que a declaração era verdadeira. O companheiro ex-metalúrgico subestimou grosseiramente o terreno movediço em que pisa, iludiu-se ao achar que seu cargo executivo, com as pompas de praxe, elimina as verdadeiras fontes de poder na várzea capitalista. Seria o caso de perguntar: há mobilização popular para colocar em segundo plano os interesses do capital? Existe um projeto político, com apoio de massa e liderança consistente, para substituir o modo de produção que não para de gerar ricaços e encher as burras da especulação financeira? Um dado relevante para mostrar o desequilíbrio de forças. A parcela de trabalhadores sindicalizados no Brasil caiu pela metade nos últimos onze anos.
Sobre quem manda neste tipo de jogo, uma pequena mostra. Muita gente comenta o desempenho desastroso do Biden no debate com o Trump. Verdade, o canastrão tóxico de Mar-a-Lago, navegando num oceano de mentiras, reduziu a pó seu adversário. Poucos, no entanto, mostram o que realmente importa. Quem ganha com uma liderança como o Topete Laranja? Durante seu mandato, ele aprovou uma grande redução de impostos para os ricaços, que resultou num ganho de US$ 240 bilhões entre 2018 e 2021. Neste período, lucraram 44% a mais e pagaram 16% a menos de impostos federais. Wall Street, sempre atuando nos bastidores, não está nem aí para democracia formal, sobrevivência do planeta e outros penduricalhos “esquerdistas”.
Não acredito em mudanças a golpes de perdigotos. Isso pode ter alguma validade apenas no trololó eleitoral. Há muitos anos perdi todas as ilusões sobre o reformismo. O sistema que gera lucros privados como objetivo e espalha miséria, desigualdade e exclusão sempre terá limites para autorreformar-se. Pode-se maquiar a realidade usando, por exemplo, metáforas velhacas para exprimir velhas dominações. Chamar trabalhadores de colaboradores muda apenas as letras, a exploração permanece intacta.
Ao longo da vida, trabalhando em empresas públicas e privadas, testemunhei a cobiça, a má-fé e a desonestidade crônica de muitos capitalistas. Uma das primeiras experiências foi numa empresa produtora de fibras sintéticas, no Polo Petroquímico de Camaçari. Lá estive acompanhando o projeto pelo BNDES. Conversei com um engenheiro que estava em licença médica. Disse-me que havia contraído hepatite tóxica por falta de equipamentos de proteção que deveriam ter sido fornecidos pela empresa. A absoluta indiferença pela saúde dos trabalhadores era regra geral numa área de enorme lucratividade. Surpresa nenhuma.
Em outro momento, já como dirigente sindical, ajudei a população da Penha, zona norte do Rio, a lutar contra a poluição atmosférica despejada por um curtume no bairro. Os donos da empresa recusavam-se a instalar sistemas para reduzir a carga poluidora. O balancete tinha mais valor do que a saúde dos trabalhadores e da vizinhança.
É urgente trabalhar pela ultrapassagem do sistema que deteriora a humanidade e devasta o planeta. A desigualdade e a crueldade não surgem por geração espontânea. A apropriação privada do fruto do trabalho coletivo gera monstros como a obscena desigualdade de renda. Segundo a Oxfam, a fortuna dos cinco homens mais ricos do planeta dobrou desde 2020. No mesmo período, as 5 bilhões de pessoas mais pobres tiveram sua renda reduzida. Estudos recentes avaliam que, a seguir na mesma batida de hoje, os oceanos terão mais plásticos em 2050 do que peixes. Enquanto os super-ricos aquecem o mercado de submersíveis, gente desesperada cruza os mares em barcos precários, morrendo a granel. Como naquele que levava 170 passageiros e afundou na costa da Mauritânia, matando quase 90 deles.
Sem mobilização e luta mudarão apenas superfície e retórica. Os poderosos regurgitam migalhas anestésicas, financiam guerras e não se incomodam com gerações futuras. Para eles, a palavra de ordem estruturante é “Dilacerai-vos uns aos outros!”. Vai ficar por isso mesmo?
Pra lá deste quintal/Era uma noite que não tem mais fim (Chico Buarque)
Aparecem sempre nos mesmos dias, à noite. Abrem os latões de lixo dos prédios, mexem e remexem catando o que for aproveitável. Olhando-os do alto, parecem sombras tristes, compartilhando a ruína comum. Recolhem as sobras de nossa vida farta para aliviar a fome crônica e material reciclável para ganhar uns trocados. Certa vez, tive a impressão de que encontraram uma pequena garrafa onde se lia no rótulo “Tônico anti-indiferença: devolve o sentido de viver e alivia dores melancólicas”. Estava vazia. Irremediavelmente.
O exército de sombras é silencioso, pede, sem palavras e cabeça baixa, perdão por existir. Um dia, porém, ouvi travessuras. Fui à janela e vi crianças correndo pra lá e pra cá, soltando gritinhos de alegria improvável em meio ao lixo. Olha só, mãe, o que eu achei!, e a menininha mostrava, com orgulho de campeã olímpica, a garrafa de plástico vazia. Ali adiante, um molequinho chutava a bola imaginária, lance de gênio capaz de reverter o trauma do Maracanazo e absolver Barbosa e Bigode. Os sombrinhas davam sinais de vida. Era a infância que eclodia, triunfal, por breves momentos.
Em pouco tempo a algazarra constrangida desapareceu. Larguei a imaginar. Como se marcará na memória das crianças a vivência do lixo? Perceberão que é assim que todos as veem, descartáveis, incômodas, no máximo dignas de piedade? Como a falta de espaços abertos, campinhos de pelada, escorregas e balanços, habitará seus viveres? O Sol, definitivamente, não é para todos.
Enquanto discutimos a censura ao livro do Ziraldo, a crise no colégio Pedro II, as celulites e a estratégia empresarial da Anitta, a devastação do Pantanal e da Mata Atlântica, os crimes abomináveis praticados por bancadas religiosas, o aquecimento do mercado de iates luxuosos e as falcatruas no futebol, cresce a multidão dos abandonados à própria sorte, que só querem, mal e mal, sobreviver. Faz lembrar um velho episódio da minha série predileta de ficção científica, The Twilight Zone (Além da Imaginação). Chamava-se O homem obsoleto. Uma parte nada pequena da humanidade está se tornando obsoleta. São esses que vagam desesperados em botes precários e rotas perigosas, à espera de impossíveis acolhimentos. São os que estão empilhados em guetos urbanos, à mercê de grupos criminosos. São os clandestinos que trabalham em locais insalubres e enchem os cofres de grifes famosas. A família mais rica do Reino Unido, os Hinduja, foi acusada de exploração de mão-de-obra e tráfico humano. Bilionários, estes cidadãos de bem traziam indianos para cuidar de seus filhos e casas. Confiscavam-lhes os passaportes e impunham uma jornada de trabalho diária de 18 horas, remuneradas a US$ 8 por hora.
O Menino ouvia os adultos falarem de flagelados. Não entendia o que aquela palavra significava. Na escola, colegas disseram que eram pessoas açoitadas, miseráveis, submetidas a castigos degradantes. Muito assustador. Aos poucos, soube da verdade. Eram em sua maioria nordestinos que fugiam da seca endêmica na região. Gente que vi de passagem numa pequena estação ferroviária em Bonfim, interior da Bahia. Trouxa na cabeça, olhos vazios.
Os flagelados de hoje não andam de trem, vêm de todos os cantos e estão em todas as esquinas, são espectros sem esperança de luz. Viramos sociedades moedoras de carne, Humanidade que detesta a raça humana.
Comecei citando Chico e volto ao recém-octogenário. Diz ele num pedaço da Gota dágua: E qualquer desatenção/pode ser a gota dágua. Haverá limite para a geringonça grotesca e descompensada que identifica o mundo de hoje? Se chegar a gota d’água, para onde escorrerá tanto fel, tanta angústia, tanta ira, tanta revolta reprimida?
Esta é uma crônica da perplexidade. Ou das perplexidades. Quantas vezes, com expressão assombrada, temos ouvido perguntas do tipo “como isso é possível?”, “de onde saiu essa gente?”, “mas logo ele?”, “aonde vamos parar?” ? Não tenho a menor intenção de matar as charadas, isso deve ser trabalho coletivo, com fôlego olímpico. Fiz um pequeno exercício de livre associação e apareceram paternidades (há muitas) desta sensação de desconforto, que em alguns beira o desalento.
Era novembro de 1998. Ariel Dorfman estava no Chile e passeava tranquilamente pelo centro de Santiago. Numa praça, viu um grupo de mães, irmãs e mulheres de presos desaparecidos durante a ditadura Pinochet. Portavam fotos dos assassinados e, mãos dadas, cantavam baixinho, dispostas a não esquecer o tempo sombrio e as consequências da barbárie. Reivindicavam o direito aos corpos de seus mortos.
Atrás de Ariel, uma mulher de seus 60 anos, meio descontrolada, começou a gritar: “Comunistas de merda! Mentirosos! Deveríamos ter matado todos vocês!”. O golpe sanguinário contra o governo socialista de Salvador Allende já tinha mais de 25 anos, o muro de Berlim caíra há uma década e o ódio contra a experiência democrática radical da Unidade Popular permanecia intacto no coração de madame e dos de sua classe. O pinochetismo deixara filhotes e neles a Morte substituía o confronto de ideias.
Antes de seguir adiante. Ariel Dorfman, escritor, poeta e professor universitário nos Estados Unidos, participou do governo Allende, atuando na área da cultura. Foi obrigado a exilar-se depois do golpe de 1973. Seu livro Para ler o Pato Donald, em que analisa a linguagem dos quadrinhos, foi leitura obrigatória para nosotros que lutávamos contra a milicada brasileira e seus capangas civis. Uma visão original sobre o papel da linguagem na dominação de classe.
Pinochet acreditava ser o “salvador do Chile contra o marxismo”, missão à qual atribuía caráter divino. Essa característica messiânica de ditadores estava longe de ser inédita. Na Espanha da Guerra Civil, por exemplo, o general Francisco Franco se autoatribuiu o título de “caudillo de España por la gracia de diós”. Para tanto, tinha a cumplicidade de boa parte do clero espanhol. Em 1936, no início da guerra, quase 8 mil prelados foram mortos pelo lado republicano. Era a manifestação do ódio profundo das classes populares contra o apoio secular da Igreja à monarquia parasitária e aos latifundiários (o país era maciçamente rural). Nos anos 20 do século passado, havia províncias inteiras de propriedade de uma pessoa. Franco dizia que “na Espanha, ou se é católico ou não se é nada”.
Violência extremada contra adversários políticos, promiscuidade entre Estado, política e religião. Soa familiar? Em 1999, um deputado federal medíocre deu entrevista na TV Bandeirantes defendendo não apenas tortura, mas a eliminação de 30 mil adversários numa guerra civil. Em julho de 2016, entrevistado pela rádio Jovem Pan, ejaculou: “O erro da ditadura foi torturar e não matar”. A indisposição para o debate civilizado sempre foi marca do equino que acabou nos governando.
Em 2017, num comício, o mesmo deputado não teve o menor pudor em declarar que “não tem essa historinha de Estado laico não. É Estado cristão, e quem for contra que se mude”. Já na presidência, disse várias vezes que sua eleição era parte dos planos de deus. A esposa não fez por menos, sempre em clima de prédicas religiosas travestidas de atos políticos: “E eu declaro todos os dias: Jair Messias Bolsonaro, sê forte e corajoso, não temas. Ele é um escolhido de deus”. Num grande ato religioso, um aliado anunciou o mesmo: “Esse homem é escolhido por deus”. E completou: “Jesus Cristo é o Senhor de São Paulo e do Brasil”. Parecem reproduções de cloacas da Idade Média, mas estão aqui mesmo, nas nossas esquinas, nas escolas, em atos públicos e, sobretudo, em redes sociais. Púlpitos & palanques, devoção & rigidez inegociável, vestem o modelito filofascista.
A superestrutura do fascismo, suas tripas mais visíveis, é esta. É a espuma que esconde os beneficiados por elas: as classes dominantes, que não são propriamente o falangista intoxicado ou o pastor de ovelhas desesperadas. Às vezes, tentam maquiar-se para esconder os caninos afiados. No entanto, e volto a um provérbio ídish, se o porco usa um shtreimel (chapéu de pele típico de judeus ortodoxos), isso não o torna um rabino. Por trás de aparências civilizadas escondem-se porteiros do inferno.