Tenho descrito os fenômenos primários e secundários da pandemia da COVID-19 como uma verdadeira síndrome. Chamamos de síndrome quando um determinado conjunto consistente de sinais e sintomas se apresenta não tendo necessariamente as mesmas causas. A má resposta à pandemia em muitos países ou regiões, embora com os mesmos resultados catastróficos, pode ter raízes variáveis, desde as condições puramente biológicas determinadas por questões geográficas, demográficas, etnográficas, até aquelas que dependem unicamente da ação política de governos. Entretanto, vejo como participante obrigatório, ainda que em níveis diferentes de intensidade, o fator educação.
O que temos visto em diversas sociedades (que de algumas jamais se esperaria isto), é que a vulnerabilidade que populações inteiras tiveram aos fenômenos biológicos e políticos da pandemia foi determinada certamente por verdadeiros abismos desconhecidos nos processos educacionais, no que se inclui a educação médica, infelizmente. Sem estas imensas e profundas falhas na formação dos indivíduos, jamais haveria massa crítica ou caixas de ressonância para o volume de desinformação, na maioria das vezes, criminosa, que levou a perdas vultosas de vidas e tantos prejuízos aos sobreviventes, seus próximos, e à sociedade.
Um dos aspectos mais trágicos é o que se verificou consistentemente por estudos robustos, que encontraram uma correlação linear entre o perfil político de cidades ou regiões e o grau de acometimento fatal e não fatal pela COVID-19. Quanto maior a proporção de votantes no presidente Bolsonaro, maior a incidência e número de mortes, sendo a relação inversa também verificada com clareza.
Estima-se que no Brasil, só no ano de 2020 foram demandados 524 bilhões de reais em custos diretos relacionados à pandemia, número que certamente se repetirá em 2021 com viés de alta. Este número é talvez superior a todo o orçamento da educação de um ano no país.
Será uma tarefa vultosa a dos cientistas sociais, pedagogos, historiadores, jornalistas, filósofos e agentes políticos a de esmiuçar com voracidade o volume de dados e informações sobre este período sindrômico que vivemos, pois a próxima pandemia ou o próximo evento planetário está a caminho, é uma questão de tempo. A geração dos mais jovens e as que virão devem ser providos de vastas doses de novas “vacinas”, estas formadas por uma nova educação que tenha a competência de pelo menos reduzir significativamente a vulnerabilidade intelectual das populações aos embustes produzidos massivamente pelas mídias, por um lado, e por sistemas políticos perversos por outro lado, sob pena de perpetuarmos esses ciclos patológicos que geraram o nazifascismo, que retornaram na década de 1980 com o neoliberalismo, e que pavimentaram a eclosão desse sistema tão destrutivo que nos assola cruelmente no momento.
Há um fenômeno curioso, descrito no jargão médico como a “lei de Velpeau”, e na visão junguiana como “sincronicidade”, onde coisas de características muito semelhantes e incomuns ocorrem aos pares, ou em trios. Entre ontem e hoje, um claro exemplo deste fenômeno se abateu sobre o Brasil, curiosamente vindo de duas juristas e tratando de coisas distintas mas que compartilham o fundo comum do discurso disruptivo, aquele que se destina a corromper os alicerces das comunicações e dos significados que sustentam a substância abstrata da civilização.
E do que é feita essa substância? Basicamente, do conjunto de relações de confiança. Explico. Quantas vezes você leu ou soube de alguém que observou a queda de uma maçã de sua árvore e iniciou um conjunto de experiências, medidas e formulações teóricas para que se entendesse o fenômeno da queda e as leis da física universal que a determinam? Sabemos apenas de dois episódios, o clássico de Isaac Newton e a vultosa revisão de Einstein, que embora tenha rompido radicalmente com seu antecessor em suas formulações, não causou mudanças práticas nas dimensões em que habitamos como humanos. Em outras palavras, a teoria da gravitação de Newton continua a ser usada na prática do dia a dia, por que é simples e atende às necessidades mundanas.
Assim, ainda que saibamos que a teoria de Newton não é uma explicação válida para o universo das dimensões astronômicas, ela nos abastece plenamente para calcular tudo o que precisamos enquanto humanos terrestres. Temos o conhecimento de tudo isso, e sabemos que podemos confiar, pois é algo amplamente aceito e facilmente verificável, sendo que não temos notícia de que as pessoas ficam observando maçãs caindo e quebrando a cabeça novamente para recriar a teoria ou reverificá-la.
Na minha serara, a prática médica, também valorizamos o conhecimento acumulado pela experiência científica casado com a vivência empírica do dia-a-dia, que constantemente nos informa que as diretrizes da ciência funcionam na prática clínica, de modo que uma boa teoria refletida em bons experimentos cujos resultados são bem conhecidos e facilmente alcançáveis não são cotidianamente reverificados, dado que não se esperam resultados novos com a mera repetição de procedimentos.
Já a prática política, no que tange ao campo da opinião, dos enunciados e das propostas, é hábito saudável que se mantenham no campo dos grandes contratos sociais, entre eles, a Constituição do país, se for o caso de uma república constitucional, ou ao conjunto de valores acumulados pelas jurisprudências e outros códigos. Em síntese, toda sociedade que tem como pretensão a sua evolução, só pode fazê-lo com a confiança nos seus alicerces éticos, morais, científicos, históricos, jurídicos e filosóficos. O emprego de proposições e valores que desarmonizam esses bens abstratos podem sim, em caso de ressonância com algumas estruturas sociais, provocar o solapamento de toda uma sociedade, ou, no mínimo, um trauma grave com enormes perdas humanas, inclusive. Não podemos nos esquecer que todas as catástrofes sociais do século XX – e de outras eras – tiveram como fundamento o domínio das palavras e dos significados. Não se conduz qualquer agrupamento humano sem esse domínio.
Janaína Paschoal e Lindôra Araújo, em um espaço de 24h nos deram uma aula sobre como contribuir para o solapamento das nossas estruturas abstratas que nos mantêm como sociedade. A primeira, em um tweet de hoje, assevera: “Há muitos brasileiros que não concordam com as verdades eleitas pelos formadores de opinião, que são muito fortes, mas não são a maioria! Aliás, penso que o Brasil seja um raro exemplo de país, em que a ditadura é feita pelos que NÃO ganharam a eleição”. A segunda, em parecer exarado pela Procuradoria Geral da República, desincrimina o delinquente da República na sua conduta contumaz de não usar máscaras e promover aglomerações em meio à pandemia de COVID-19, sob a alegação de que “não existe base científica suficientemente robusta que afirme com grande grau de segurança que as máscaras impedem ou diminuem o contágio pelo coronavírus”.
Janaína Paschoal corrompe gravemente e em pouquíssimas palavras, com seu viés patologicamente personalista e autoritário, parte do pressuposto que em uma democracia o eleito pode tudo ao dizer que há uma ditadura dos não eleitos. Nesta formulação sofismática, ela claramente reclama da falta de liberdade dos eleitos imposta por o que ela chama de “não eleitos”, insinuando sutilmente que cada eleição pode (ou deve) fazer de tudo, induzindo o incauto a acreditar que a democracia, regime de instituições estruturadas, estruturantes e estáveis, não é um pressuposto para o exercício de poder por parte de seus eleitos. Quer ela fazer o leitor crer que a vontade do eleito pode facilmente se sobrepor ao conjunto de experiências vividas e praticadas pela sociedade. Assim, chama de “ditadura” o conjunto de forças da sociedade que na realidade são conservadoras, ou seja, as forças que tentam preservar o patrimônio democrático construído até o momento. Aqui jaz um imenso ato corruptor, aquele que pretende através da linguagem sofismática atribuir um valor minoritário, autoritário e individualista a um conjunto que é o que melhor representa o coletivo histórico desenhado por legisladores e cumprido por governantes anteriores, ainda que com qualidades e defeitos que guardam boa distância de danos estruturais graves. O que Janaína nos mostra na realidade é o seu inconformismo com a crítica feita ao seu eleito, que como ela, nutre uma visão peculiar, infantil, paranóica e autoritária de mundo, exibindo pornograficamente a sua estreiteza de visão e sua incapacidade de compreender a nossa Constituição e nossas experiências como nação, dado que não compreende que a Carta Magna é a nossa grande e permanente eleição; que o STF é a instituição que a guarda e que deve ser respeitada; que a ciência é o principal norte de qualquer política pública na nossa civilização, para dizer o mínimo.
Já a Dra. Lindôra, não tão sofisticada em seus métodos e linguagem, ainda que abuse de forma obscena do literalismo na sua compreensão da lei no seu parecer que pretende inocentar um delinquente, (lembrando mesmo o episódio onde o filho de um certo ministro foi absolvido de uma omissão de socorro dado que a vítima morreu no acidente, assim descaracterizando juridicamente a omissão, que só se aplica a vivos!), tenta convencer a sociedade que todo o conhecimento que temos sobre a propagação de vírus respiratórios e suas respectivas medidas de contenção, por mais que secularmente testadas, praticadas, aprovadas e comprovadas, não é válido simplesmente por que ela, com sua douta autoridade de sub-procuradora geral da República, determinou que as informações científicas que temos não são suficientes para caracterizar como infração o seu não uso, ainda que a lei diga o contrário. Em apertada síntese lógica, Lindôra afirmou que a lei é ilegal, tentando justificar sua posição com farta argumentação sofismática e falaciosa.
Tudo isso na mesma semana em que o delinquente da República afirmou que “nossa Constituição é comunista e que isso tem que acabar”, dando a clara impressão de uma ação articulada, o que não seria implausível, dado que estas três pessoas partilham do mesmo projeto de destruição do estado democrático de direito, ardilosamente usando as estruturas constitucionais da República para atingir as suas posições de poder e seus respectivos lugares privilegiadíssimos de fala.
Se há algo a ser aproveitado neste cenário é a compreensão clara dessas mentes doentias, imaturas, deficientes e perversas, eventualmente desonestas (até por que ignoram o significado de honestidade) desfilando agora e à nossa porta, à imagem e semelhança pelo menos simbólica dos desfiles nazistas que adoeceram a sociedade alemã na década de 1930.
As atuais 570.000 mortes e a terra arrasada deixada pela pandemia são indissociáveis desse projeto perverso que infelizmente veio como consequência natural e planejada das manipulações iniciadas já à época do “mensalão” e que se multiplicaram pelo lavajatismo, expressões do moralismo raso que fomenta os projetos fascistas. Caberá aos historiadores, sociólogos, antropólogos e cientistas políticos a tarefa de ligar todos os pontos desse mapa do inferno.
Finalmente a pauta da saúde mental chegou às olimpíadas, que em sua estruturação e função terminaram de absorver tudo de ruim que o capitalismo tem a oferecer. De suas origens gregas baseadas no culto do corpo como forma de dominação e sintonia com as forças da natureza e de uma estética épica aos dias atuais, o ideal olímpico foi substituído por um meio de disputa por lucros financeiros sugados das jugulares dos atletas e pelo qual nem mesmo uma pandemia de um vírus tão destrutivo chega a ser um obstáculo. Assim, aquilo que poderia servir aos atletas em formação e aos já formados como meio de conexão cultural e eventualmente espiritual com suas raízes pessoais, geográficas e étnicas, passa a ser objeto de consumo externo sobre os quais sobrevêm expectativas “industriais” que desumanizam o imenso esforço e sacrifício dedicados simplesmente para que se chegue às arenas olímpicas. O pódio passa a ser assim apenas um lugar de uma brutal distopia, se fizermos uma comparação entre o antigo e o novo.
Certamente poucos passam incólumes por esse processo, e certamente não ficamos sabendo nem de uma pequena fração do que se passa na história de cada participante, desde o início de seus treinamentos até a categorização como atleta olímpico. Nesta corrida, quanto mais à frente, maiores as expectativas. Pode se dizer, com pouco exagero, que a vida de um atleta olímpico passa a ser vivida de forma artificial, o que provoca necessariamente um isolamento progressivo do atleta em relação à sua própria vida, que passa a girar em torno de superações e dores físicas com o olhar voltado quase exclusivamente às míticas medalhas.
Não há dúvida de que esta progressiva distância vivida pelo(a) atleta da “vida real” exerce enorme pressão sobre a essência do indivíduo, que ao nascer e crescer cria seus vínculos naturais com o ambiente “normal” e que muito precocemente é escolhido por um sistema para seguir esta carreira. O desenvolvimento das capacidades físicas neste contexto certamente ultrapassa a capacidade da mente de um jovem, especialmente no período da adolescência onde o cérebro passa por intensas transformações em sua microestrutura para atingir a maturidade morfológica por volta dos 20 anos de idade. A intensa atividade física e a intensa relação com o mundo dos treinamentos joga para trás o desenvolvimento de outras habilidades que dependem de uma vida mais complexa e interativa, massacrada pelo intenso regime de treinamentos repetitivos.
Certamente chega a hora em que alguns e algumas, geralmente os mais destacados e sobre os quais são exercidas as maiores pressões, sofrem uma fratura em suas estruturas emocionais, causando os gritos de dor que desta vez, munidos de uma “acústica” fornecida pelas redes sociais, chegam aos ouvidos do mundo, denunciando a desumanização desta atividade, supllicando por uma trégua nesta guerra de superações cujos vencedores não estão propriamente nas arenas, nas pistas e nas quadras, e, na melhor das hipóteses, terminam por levar os atletas à condição de ídolos, ícones, imagens de um sucesso distópico, onde o que está em jogo é o que a pessoa faz em referência a padrões dominantes impostos por regramentos frios, absolutamente distantes e cegos à essência da pessoa, tratada literalmente pela essência da indústria.
Infelizmente me parece que isto não mudará tão cedo, mas espero sim que os gritos sejam ouvidos e que causem reflexões por parte dos envolvidos na produção desses espetáculos que dos tempos antigos até hoje vêm se descaracterizando como processos onde o indivíduo, através do esporte, cultiva os seus laços com a natureza, com o ambiente, com a cultura, e com a espiritualidade, pois as coisas do jeito em que estão já não conseguirão mais abafar a patologia subjacente.
O episódio da tentativa de queima da estátua do Borba Gato no bairro de Santo Amaro em São Paulo não chegou a produzir dano significativo ao objeto, e certamente os autores do “atentado” estavam cientes de que o tal do gato mal churrascado não se abalaria. Nada que um bom banho não resolva. Assim, tratar o episódio como terrorismo, ou como “destruição da história” ou mesmo como alguns analisam como sendo um ato de burrice política revela talvez uma grande incompreensão sobre o contexto e os objetivos do fato.
Se as dramáticas fotos que correram as redes atiçaram diversas correntes políticas (inclusive da esquerda) e ganharam tanto espaço na mídia, trata-se então de vitória política. Se política é ocupar espaços, o ato o fez com maestria, e sem qualquer destruição significativa. Em síntese apertada, portanto, não se pode e não se deve tratar o episódio como a “queima do Borba Gato” ou como destruição de patrimônio. Muito menos como burrice política.
Ao contrário, o que se viu (e certamente se previu) a estátua continua lá. E agora, não conta apenas uma história. Conta três. A primeira, óbvia, é a conhecida e divulgada onde o personagem é tratado como herói da formação do Brasil, tendo “desbravado” as terras Brasil adentro. A segunda, menos óbvia, é que a criatura conquistou a terra às custas de assassinatos em massa, estupro, escravização e outros crimes.
Se à época, como pretende Felipe Pondé, a vida era assim, e quem faz a crítica não passa de “bundão” que jamais sobreviveria naquela época, vale lembrar que conquistar o Brasil nunca passou de uma invasão brutal e sanguinária, necessária apenas aos que dela se locupletaram e por ela exerceram seus instintos mais brutais, algo que até onde me consta, não era algo exatamente essencial. Muitas civilizações e agrupamentos humanos existiam à época e até muito antes dela sem que para sua sobrevivência ou estabilidade necessitassem de tantos corpos, butim e sangue. E curiosamente, essa normalização pretendida por Pondé ao justificar a vida do “herói” como algo habitual e ajustado para a época, é o que permeia toda a nossa história e sociedade brasileira atual com todos esses vícios estruturais (e estruturantes, no pior sentido) que sustentam o atual governo genocida, ignorante, obscurantista e brutal.
A terceira história, é a que ficou gravada pelo significativo fato político em imagens, história, e sobretudo, significado. É a que ficou indelevelmente marcada a carvão no corpo do obtuso objeto artístico.
Resta então a compreensão de que o episódio mereceria sim uma certa comemoração e verdadeira reverência à história enquanto entidade viva e que agrega uma poderosa lógica na sua cadeia de eventos. Nada poderia ser mais simbólico e verdadeiramente dialético enquanto força de expressão de um inconsciente coletivo de chagas vivas e sangrantes dos acontecimentos do passado que tragicamente “edificaram” nossa nação, em um processo de construção que culmina no atual genocídio associado à pandemia da COVID-19.
Assim, posso dizer que o episódio me agradou. Pude testemunhar uma sociedade viva, onde por mais que restritos que sejam as pessoas que ali promoveram o ato em termos de representação da sociedade, ali fizeram história, respondendo ao contexto do tempo atual com uma precisão conceitual e simbólica que muito raramente se viu na nossa história recente, se é que se viu alguma. Não haveria melhor dia para aquele churrasco.
Não é fácil lidar com nossas perdas nesta pandemia. Creio que já não exista no Brasil alguém que não tenha sofrido a perda de um parente, de um amigo ou conhecido. Todos os dias recebo notícias de pessoas em luto. Comigo não é diferente, mesmo vivendo longe, a pandemia já me trouxe muita tristeza.
Ontem veio a notícia de mais um falecimento, Sergio Storch, um brasileiro, humanista, progressista, um judeu de esquerda nos deixou. Não resistiu ao descaso no cuidado da população para fazer frente a pandemia. Não foi somente a falta de preparo, foi também corrupção nos casos de compras de vacinas e meios de tratamento.
Onde todos viram uma tormenta, alguns viram uma oportunidade de enriquecerem. Com a dispensa de licitação para atendimento emergencial, políticos ligados ao governo acharam que era o momento de se locupletarem. Vacinas necessárias para salvar vidas tiveram seus preços alterados para atender gente inescrupulosa.
O Sergio sempre esteve ligado as ações progressistas com a parecela da comunidade judaica que não fazia parte do mainstreem. Eu o conheci há muitos anos atrás. Ele tinha esta capacidade de reunir os desgarrados da comunidade judaica. Aqueles que não coadunavam com a política subserviente a todo governo, especialmente durante a ditadura militar. Mostrava que não estávamos sós. Sabia encontrar o melhor que havia em cada um e logo apresentava outros, e cada vez mais gente ia se reunindo. Logo já havia um grupo.
Um idealista inconteste sempre pronto para a batalha por um mundo melhor. Defendia o Estado de Israel e um Estado Palestino, acreditava que todos os seres humanos nasciam iguais, buscava o socialismo e se empenhava nas causas sociais. Há poucos anos me disse que havia deixado de ser sionista. Nem por isso deixou de se importar com Israel.
Fizemos muitas coisas juntos. Uma delas foi a visita a um grupo do MST para se encontrar com o Stédile. Lá vimos como as crianças eram educadas para a paz e o Sergio os presenteou com uma música israelense tocada ao som do violino. Fomos até lá como sionistas socialistas. Participamos juntos da iniciativa J-Amlat, um grupo ao estilo J-Street, de judeus latino-americanos e de muitas outras ações.
Claro que tivemos muitos desacordos, muitas desavenças, como acontece em toda família, mas no final, decorrido uma par de meses a gente voltava a se falar por conta de um novo projeto, de uma nova necessidade, ou apenas para pedir uma opinião. Quem conviveu com o Sergio sabe perfeitamente do que estou falando.
Seu legado é esta enorme manifestação de amigos e conhecidos que reconhecem sua grandiosidade, sua generosidade e sua paixão pela boa luta. Um bom sujeito, uma boa pessoa, um amigo que nos deixou. Um bom homem.
A passagem do Sergio se soma a de milhares de brasileiros que perderam a vida para este vírus. Boa parte deles poderia estar entre nós, não fosse a falta de ações do governo central que deixaram o país sem vacinas e induziram a população a tratamentos precoces protagonizados por charlatões sem nenhuma base científica.
Todos eles precisam ser alcançados pela justiça. Suas mãos estão sujas com o sangue dos que partiram. Eles são os verdadeiros assassinos, os que sonegaram informações, que indicaram tratamentos ineficazes até prejudiciais a saúde, contrariaram as medidas de prevenção consensuais da OMS e deixaram de importar vacinas quando elas mais foram necessárias.
Se o Sergio estivesse conosco agora, estaria como sempre esteve, na linha e frente contra este governo genocida e corrupto. Não é verdade que existam pessoas imprescindíveis, mas existem pessoas que são necessárias e ele foi uma delas. O Sergio era uma pessoa necessária. Fica um vazio na nossa trincheira, descanse em paz.
Existem muitas razões para explicar como Bolsonaro chegou ao poder. Afinal de contas o Brasil tinha experimentado um crescimento econômico, saído do mapa da fome, estava livre de dívidas internacionais, emprestava dinheiro ao FMI, o petróleo descoberto no Pré-Sal garantia saúde e educação para as próximas gerações, havia pleno emprego e milhões de brasileiros ascendiam socialmente.
Em primeiro lugar, os brasileiros tinham perdido a fé no sistema político da época. A jovem democracia não trouxera os benefícios que muitos esperavam. Muitos sentiam raiva dos corruptos cujas políticas forjaram uma crise econômica. Buscava-se um novo rosto. Um antipolítico promoveria mudanças de verdade. Muitos dos eleitores de Bolsonaro ficaram incomodados com seu radicalismo, mas os partidos estabelecidos não pareciam oferecer boas alternativas.
Em segundo lugar, Bolsonaro sabia como usar a mídia para seus propósitos. Contrastando o discurso burocrático da maioria dos outros políticos, Bolsonaro usava um linguajar simples, espalhava fake-news e os jornais adoravam sugerir que muito do que ele dizia era absurdo. Ele era politicamente incorreto de propósito, o que o tornava mais autêntico aos olhos dos eleitores. Cada fala era um espetáculo. Diferentemente dos outros políticos, ele foi recebido com aplausos de pé onde quer que fosse, empolgando as multidões.
Em terceiro lugar, muitos brasileiros sentiram que seu país sofria com uma crise moral, e Bolsonaro prometeu uma restauração. Pessoas religiosas, sobretudo, ficaram horrorizadas com a arte moderna e os costumes culturais progressistas que estavam em voga com as mulheres se tornando cada vez mais independentes e a comunidade LGBT ganhando visibilidade. Os conservadores sonhavam com restabelecer a antiga ordem. Os conselheiros de Bolsonaro eram todos homens heterossexuais brancos. As mulheres, ele argumentou, deveriam se limitar a administrar a casa e ter filhos. Homens inseguros podiam, de vez em quando, subverter a ordem para reafirmarem sua masculinidade.
Em quarto lugar, apesar de Bolsonaro fazer declarações ultrajantes – como a de que negros deveriam ter seu peso medido em arrobas e gays deveriam ser mortos – muitos pensavam que ele só queria chocar as pessoas. Muitos brasileiros que tinham amigos gays ou negros votaram em Bolsonaro, confiantes de que ele nunca implementaria suas promessas. Simplista, inexperiente e muitas vezes tão esdrúxulo, que até mesmo seus concorrentes riam dele, Bolsonaro poderia ser controlado por conselheiros mais experientes, ou ele logo deixaria a política. Afinal, ele precisava de partidos tradicionais para governar.
Em quinto, Bolsonaro ofereceu soluções simplistas que, à primeira vista, faziam sentido para todos. O problema do crime, argumentava, poderia ser resolvido aplicando a pena de morte e aumentando as sentenças de prisão. Problemas econômicos, segundo ele, eram causados por atores externos e conspiradores comunistas, seu bode expiatório favorito. Os brasileiros “verdadeiros” não deviam se culpar por nada. Tudo foi embalado em slogans fáceis de lembrar: “Brasil acima de tudo”, “O Trabalho Liberta”, “Um povo, uma nação, um líder.”
Em sexto lugar, as elites logo aderiram a Bolsonaro porque ele prometeu — e implementou — um atraente regime clientelista, cleptocrata, que beneficiou grupos de interesses especiais. Os industriais ganharam contratos suculentos, que os fizeram ignorar as tendências fascistas de Bolsonaro.
Em sétimo, mesmo antes da eleição de 2018, falar contra Bolsonaro tornou-se cada vez mais perigoso. Jovens agressivos, que o apoiavam, ameaçavam verbalmente os oponentes. Muitos brasileiros que não apoiavam o então candidato preferiam ficar calados para evitar problemas com os bolsonaristas.
Três anos depois, com mais de 500 mil mortos pela Covid-19, muitos brasileiros que votaram em Bolsonaro disseram a si mesmos que não tinham ideia de que ele traria tanta miséria ao Brasil. “Se soubesse que ele trataria a pandemia desta maneira, eu nunca teria votado nele ”, contou-me um amigo da minha família. “Mas como você pode dizer isso, considerando que Bolsonaro falou publicamente que era preciso matar uns 30 mil antes da campanha?”, perguntei. “Eu achava que ele era pouco mais que um palhaço, um trapaceiro”, respondeu minha avó, cujo irmão morreu de Covid.
De fato, uma análise mais objetiva mostra que, justamente quando era mais necessário defender a democracia, os brasileiros caíram na tentação fácil de um demagogo patético que fornecia uma falsa sensação de segurança e muito poucas propostas concretas de como lidar com os problemas do país. Diferentemente do que se sabe hoje em dia, Bolsonaro não era um gênio. Não passava de um charlatão oportunista que identificou e explorou uma profunda insegurança na sociedade brasileira.
Bolsonaro não chegou ao poder porque todos os brasileiros eram bolsonaristas ou homofóbicos, mas porque muitas pessoas razoáveis fizeram vista grossa. O mal se estabeleceu na vida cotidiana porque as pessoas eram incapazes ou sem vontade de reconhecê-lo ou denunciá-lo, disseminando-se entre os brasileiros porque o povo estava disposto a minimizá-lo. Antes de muitos perceberem o que a maquinaria fascista do bolsonarismo estava fazendo, ele já não podia mais ser contido. Era tarde demais.
Este artigo é um “plágio” de uma publicação do El País de outubro de 2018, assinada por Oliver Stuenkel, intitulada “Por que votamos em Hitler“. Eu apenas fiz a adaptação com a intenção de trazer ao nosso cenário atual que dispensa maiores explicações.