Farda, fralda e fraude

Farda, fralda e fraude

“Tempos estranhos”, a forma que com alguma frequência, gradualmente mais alta, o quase ex-ministro Marco Aurélio Mello define as quadras históricas que vivemos, é uma forma definitivamente corolária se quisermos definir as almas que habitam nestes mesmos tempos e lugares, onde qualquer tentativa de ordenamento e compreensão lógica sobre as trajetórias e narrativas sucumbe escalafobeticamente. Tanto que para dar um pouco mais de sentido a este texto, tive que inserir este primeiro parágrafo que nem trata do tema principal para justamente estabelecer um corolário ao descrever o estranho e ilustre personagem acima, que permite a compreensão daquilo que ele mesmo chama de estranho a partir de sua perspectiva civil sobre assuntos mais atinentes ao polo militar da sociedade brasileira.
Mello, o campeão absoluto de votos vencidos no STF, talvez até em escala global se feito o devido comparativo ponderado com outras supremas cortes ocidentais, pelo menos, parece mesmo querer “encher a fralda” daquilo que jocosamente se diz da “cabeça de juiz”, que por sua vez encontra fundamentos na história das sentenças escatológicas que permeiam a história jurídica brasileira, em especial, quando, nos últimos estertores de seu mandato na suprema corte, dá a Sérgio Moro o status de herói nacional e ao golpe militar de 64 a alcunha de salvação nacional, apoiando-se para esta tese na ideia de uma “possível instalação de uma ditadura comunista”, à época, sobre a qual, ainda que sem qualquer apoio em evidências concretas ou razoáveis, não deveria-se correr o “risco”.
Nem de todo o caos vem a ordem, ou alguma ordem, para ser mais preciso, já que caótico seria um elogio ao “corpus” filosófico do ilustre ministro, que com essas esdrúxulas assertivas finalmente revela a ordem subjacente de seus pesos e contrapesos internos, esta por sua vez marcada pela necessidade intestinal de ser exótico (e de conquistar fama e notoriedade por esta via) e de personalizar uma visão de mundo e de país em uma escala e método antagônicos aos princípios republicanos delineados pela Carta de 1988, a qual nitidamente impôs-lhe um trauma do qual parece não ter se recuperado, e que talvez tenha mesmo sido o ordenador de sua conduta, que a título de exemplo, no passado recente pôs em liberdade um dos mais perigosos e violentos traficantes por questões de formalidade processual, causando um imenso prejuízo ao aparato do estado na medida em que altos recursos são hoje mobilizados para a recaptura, dado que este aparentemente fugiu rapidamente do país, e pelo seu brilhante diagnóstico sobre a atuação do juiz que talvez tenha sido o maior usurpador de direitos fundamentais e não fundamentais de nossa história recente, pelo menos.
Tudo isso para dizer que Hamilton Mourão não habita solitário nestes estranhos tempos onde as reputações são tratadas como fardas e fraldas, ou seja, como objetos de uso temporário, sujeitas a lavagens e descartes sistemáticos como se necessário fosse. O por muitos admirado general é tido como pessoa bem formada, articulado, disciplinado e culto, o que de imediato estabelece um paradoxo com seu perfil político de primeira viagem embarcado nesta nau autoritária e obscurantista que certamente ajudou a projetar, tendo o cardo de vice-presidente como prêmio de consolação a alguém que dificilmente alcançaria esta posição pelas vias civis e partidárias comuns.
De fato, Mourão é dotado de algo que em algum tempo e lugar poderia ser chamado de fino senso de humor, mas que hoje não ultrapassa as fronteiras do simples exacerbar preconceitos, abusar dos falsos pressupostos e abandonar os verdadeiros à própria sorte. Quem viu ou ouviu suas últimas entrevistas e tem uma mínima formação em lógica, história, economia e ciência política pode observar a patética desarticulação entre ideias, valores, objetivos e dos elementos da realidade, curiosamente recheadas de um otimismo cínico, de justificativas que fariam corar um adolescente ainda que inundado de hormônios, e do tal senso de humor que no contexto atual só pode ser percebido como as chacotas que seu chefe propaga quando fala das vítimas da COVID-19.
Ao tentar justificar-se com os princípios da obediência, da hierarquia e de um “patriotismo”, Mourão esquece-se que não está na ativa e que a vida civil não submete-se primariamente a estes princípios, e sua resistência a entender sua função e lugar é sintoma de perfil psicológico. Isto para não dizer de seu desprezo pela soberania nacional na medida em que serve a um governo entregacionista e sabujo do capital internacional mais selvagem em circulação. Suas justificativas em relação à sua submissão sumária, rasa e vergonhosa ao verdadeiro maluco que ocupa o Planalto tentam convencer o ouvinte de que é o caminho a ser seguido, e tenta dizer isso por uma boca sorridente e relaxada, tentando trazer ao interlocutor a sensação de ser um netinho no colo do vovô aprendendo sobre a vida com os ditos em voz doce, amorosa e paciente. Também a título de exemplo, na mesma entrevista dada a Roberto d’Ávila na GloboNews, lamenta as imensas desigualdades que nos definem e adoecem como se o projeto político que abraçou nada tivesse de responsabilidade histórica e atualíssima com o fenômeno, e aprofunda o destrato com sua farda e patente ao se colocar como cumpridor fiel e acrítico das ordens emanadas pelo seu superior hierárquico, olvidando-se do antigo adágio militar fundacional que reza pelo não cumprimento de ordens absurdas.
Fraude também seria elogioso se como adjetivo dos comportamentos que vimos observando por parte daqueles que teriam que primar pela coerência interna de suas proposições e atos. Isto por que até a fraude exige uma arquitetura intelectual e uma metodologia passível de exame e desmonte pelo ferramental lógico, jurídico, filosófico e ético que nossa civilização tenta construir e sustentar. A estrutura do comportamento destas figuras é tão absurda que nos faz sentir como que se areia tivesse sido jogada nos nossos olhos. A cada assertiva, uma rajada, e a cada rajada, a nossa cegueira reflexa e temporária. Parece mesmo não haver ferramenta ou método para desarmar essa gente. O que revela-se nesses tempos estranhos é por demais vil, covarde, cínico e aterrorizante, deixando-nos às vezes com o amargo desejo de tempos ainda mais estranhos como forma de sairmos disso que mais parece um horizonte de eventos dos buracos negros.

Bolsonaro tua hora está chegando

O que mais se pode dizer sobre Bolsonaro que ainda não foi dito? As notícias e publicações começam a se tornar repetitivas, praticamente todos concordam no desastre de sua presidência, na intimidade com as milícias, na inépcia para o cargo, na incapacidade de gerir crises, na incoerência de seus pronunciamentos, enfim um sujeito que perdeu o respeito dos brasileiros.

Por muito menos do que isto, dois presidentes foram afastados, Collor e Dilma. Ambos sofreram processos de Impeachment quando perderam o apoio político que os sustentavam. As razões alegadas eram mera razão para abertura do processo. Condenados já estavam desde o dia Zero. Afastar um presidente no Brasil obedece um processo teatral, não exige a comprovação do cometimento de nenhum crime.

Bolsonaro não teve ainda a abertura de um processo contra ele por que ainda conta com apoio político, crimes comprovados não faltam. A lista de razões para um Impeachment é longa e todo dia se somam novos pedidos. Já faltam gavetas para guardar tanto papel.

Pelo andar da carruagem, não se espera que ele deixe o cargo pela porta da humilhação. Talvez a próxima eleição em 2022 seja a única via de retirar do cargo máximo da nação o pior presidente da história do Brasil. Isto se houverem eleições já que o flerte com as forças armadas segue de vento em popa.

A sociedade brasileira que elegeu Bolsonaro está dividia. Existem os que votaram contra e os que votaram a favor. Entre estes últimos, os que mantém sua adoração e os arrependidos. Neste grupo os que dizem agora votar em Lula e os que dizem votar em qualquer um, menos nos dois prováveis nomes em um eventual segundo turno.

Desde a última eleição que falo em uma Frente Ampla. Aqui em Israel foi o que aconteceu depois das últimas eleições. Os partidos que compõe o novo governo concorreram de maneira independente, mas o resultado mostrou que uma união da esquerda, centro e direita de partidos anti-Netanyahu era possível. Foi graças a perseverança e a capacidade de compreender o momento histórico que seus líderes foram capazes de chegar a um acordo para formar um governo sem o Likud e sem os partidos religiosos.

Depois de 12 anos com um fascista no poder, Israel respira novos ares. Quem está dizendo que o novo primeiro ministro é um extremista de direita e trocamos alhos por bugalhos, não entende nada de política, menos ainda da política israelense. O que acaba de acontecer aqui é histórico em vários sentidos e deve servir de exemplo para o Brasil. Forças políticas antagônicas podem se unir em nome do bem maior, relevar suas ambições ideológicas para que o país possa reconhecer que é possível ser governado por outro líder.

Existe uma geração que não conheceu outro primeiro-ministro que não fosse Netanyahu. Seus seguidores estão em pânico, inconformados. Para muitos deles a ficha ainda não caiu e sua família ainda segue morando na residência destinada ao primeiro-ministro em exercício. Ainda repetem para quem quiser escutar que tiveram a eleição roubada e que vão voltar em breve. Trump deixou discípulos por todo lado.

Os americanos se livraram de Trump. Nós em Israel nos livramos de Netanyahu, falta os brasileiros se livrarem de Bolsonaro. A eleição americana deixou uma lição, o mesmo aqui em Israel. É preciso aprender com elas e escolher o melhor caminho para se livrar desta chaga.

As manifestações, como a programada para este sábado dia 19, são muito importantes e precisam crescer cada vez mais. As entidades civis e os partidos políticos de oposição a Bolsonaro precisam estar afinados para levar cada vez mais manifestantes as ruas. Cada vez ter mais cidades participando e mostrando que o fim de Bolsonaro está próximo e é apenas uma questão de tempo.

O « pas-de-deux » do capitão e Lula

As estratégias eleitorais para a presidencial 2022 se precisam, partido e candidaturas potenciais se posicionam. Por enquanto, a mais clara é a do ocupante do Palácio, que está em campanha desde o primeiro dia de seu mandato, usa e abusa da máquina do Estado e ultimamente vem desafiando a pandemia ao acelerar à frente de seus fanáticos seguidores motoqueiros. Como é sabido de longa data, ele não admite perder, o que só lhe deixa uma opção: vencer custe o que custar. Ou, em bom português, vencer pelo voto ou tentar o golpe. Que não haja dúvidas quanto à determinação do capitão, que a um ano e meio da eleição avança suas peças no tabuleiro e busca encurralar o adversário com vistas ao xeque-mate , usando e abusando de golpes baixos. Se ele vai ter força e cacife para conseguir são outros quinhentos. Mas que vai tentar, isso vai. 
Com 25 a 30% de apoiadores cegos e surdos Jair Messias é um candidato fortíssimo à sua própria sucessão. Tem todas as chances, senão a quase certeza, de estar no segundo turno e então novamente jogar a carta do antipetismo que, a despeito da massa de decepcionados, sobrevive. Apesar das provas de descaso no combate à pandemia colhidas na CPI da Covid  e de sua responsabilidade direta na morte de cem mil brasileiros, o impeachment não avançou, nem avançará enquanto Augusto Aras for o Procurador Geral da República. O relatório da CPI do Senado, com um eventual pedido de indiciamento do presidente, dependerá de seu crivo para seguir adiante. O que ele não dará. Nunca. Aras é tão responsável pela permanência de seu chefe no poder quanto Moro o foi no resultado eleitoral de 2018, ao  tirar Lula do páreo. Descartado de uma eventual indicação para o STF na vaga do ministro Marco Aurélio , que se aposenta em 5 de julho, o PGR busca desesperadamente assegurar um novo mandato no cargo, a ponto de jogar no lixo, de forma descarada, a Constituição, que deveria ser seu livro de cabeceira.  Em defesa dos “amigos do rei”, ultimamente pediu o arquivamento do inquérito sobre os atos antidemocráticos,  a rejeição da ação de advogados contra a lei de Segurança Nacional, que serve aos interesses autocráticos do governo, e agora quer que os juízes do Supremo sejam obrigados a consultar o Ministério Público antes de atuar em investigações, medida cujo primeiro beneficiado seria o ministro do Meio Ambiente, pego em flagrante de cumplicidade de contrabando de madeira extraída ilegalmente. Sua lealdade ao criminoso é admirável. Aras tem se mostrado um escudo intransponível. 
Quem aposta na fragilização do “Messias que não faz milagres” daqui até a eleição se engana. Ele poderá contar com a vacinação, que tanto combateu, e com o crescimento da economia, puxada pelo resto do mundo. A situação portanto deverá ser um pouco melhor e muitos esquecerão todo ou parte do incomensurável mal que ele fez ao país. Os brasileiros não praticam o exercício da memória, como demonstraram ao eleger um sujeito que defende a ditadura e tem por ídolo um torturador. 
Se mesmo assim não for reeleito, hipótese mais provável, ele imitará seu amigo Trump, a quem jurou amor eterno num rompante linguístico em que gastou seu inglês limitado a três palavras : I love you.
Só que Jair não é Donald e Washington não é Brasília. Trump tentou o golpe alegando fraude maciça e reclamando a anulação do voto; contou para tanto com os supremacistas brancos  e outras organizações neonazistas, mas não teve o apoio das forças armadas nem das polícias. O brasileiro fará a mesmíssima coisa : alegará fraude maciça e reclamará a anulação da eleição. Preparando o caminho, já defendeu o fim da urna eletrônica, de longe o sistema mais seguro e transparente, e sua substituição pelo voto em papel, facilmente manipulável. 
A diferença fundamental no entanto está no fato de que o capitão conta com o apoio de ao menos parte das Forças Armadas (que se negaram a punir o general Pazuello por violação das regras militares), das polícias militares de inúmeros estados, das polícias civis e das milícias, que agem a céu aberto tanto no combate ao crime organizado como no apoio político à família presidencial. Esses grupos paramilitares matam indiscriminadamente traficantes, líderes comunitários, políticos de esquerda como Marielle Franco e até crianças. As chamadas forças de segurança, que foram presenteadas com armas ao bel prazer e impunidade, fecham com o capitão.
Quanto às Forças Armadas, recentes episódios deixaram claro que entre a obediência à Constituição, caucionada pelo ex-ministro da Defesa e pelos então comandantes das três armas, e a submissão ao presidente, os quartéis hesitam. 
As cenas que virão a ser filmadas no Brasil pós-eleitoral serão infinitamente mais chocantes que aquelas do Capitólio, em janeiro de 2021. O golpe poderá desembocar num confronto mais amplo e sangrento. A previsão é de que 2022 será um ano violento. 
A cultura autoritária, que estava dispersa após a ditadura, convergiu em direção de Bolsonaro, se organizou em torno do bolsonarismo. É forte e não desaparecerá tão cedo, mesmo que não haja reeleição. 
Para derrotar o fascista adorador da morte e tentar evitar o golpe, o caminho parece ser a formação de uma Frente Ampla, da direita à esquerda, unindo todos os antibolsonaristas. 
Essa estratégia está sendo aplicada com sucesso em Israel, onde se constituiu uma coalisão heteróclita para varrer Bibi Netanyahu, agregando  partidos de extrema-direita, centro, esquerda e até um Partido árabe muçulmano israelense. 
Também na Hungria, uma frente ampla se formou para vencer o direitista radical Viktor Orban, com relativo sucesso. Nas municipais do ano passado, a mais estranha coligação de partidos jamais vista elegeu prefeitos de uma dezena de cidades importantes, inclusive a capital, Budapeste. 
No entanto, a situação nesses dois países governados por hipernacionalistas de direita amigos do capitão (ambos estiveram em sua posse) é muito diferente da brasileira.
Em Israel, o líder centrista Yaïr Lapid, que costurou a união da oposição como uma colcha de retalhos, abriu mão do cargo de primeiro-ministro nos dois primeiros anos do mandato em favor de Naftali Bennett, sionista religioso do partido nacionalista Nova Direita, apesar das diferenças ideológicas entre ambos e do fato de Lapid ter maior número de deputados na Knesset.
Quanto à Hungria, a nova coalisão tem conseguido apresentar candidaturas únicas em todos os níveis . Já está definido que em 2022 haverá um só candidato oposicionista para enfrentar Orban. Hoje, as pesquisas apontam empate.
No Brasil essa estratégia não vinga. Nenhum presidenciável parece disposto a abrir mão da candidatura em prol da união por uma vitória incerta. Pelo menos não no primeiro turno. A recente reaproximação entre Lula e FHC são provas cabais da dificuldade que nos espera. O tucano admitiu publicamente votar no petista no segundo turno e mostrou-se arrependido de não tê-lo feito com Haddad. Mesmo assim, o PSDB apresentará um candidato à presidência, que poderá ser Tasso Jereissati, Doria ou outro que, como os dois primeiros, não terá chance de se eleger. 
No primeiro turno haverá, quando muito, a constituição de federações de partidos de uma mesma família política e não a formação de uma ampla frente antibolsonarista com candidaturas únicas.  As negociações de hoje só serão concretizadas entre os dois turnos, mesmo que a missão seja salvar a democracia.  
No campo progressista, o PSOL se radicaliza, puxa ainda mais para a esquerda em busca do impeachment, sonhando com uma mudança na correlação de forças. Esta estratégia levou à saída de Marcelo Freixo do partido. Ao anunciar sua candidatura ao governo do Rio de Janeiro, ele busca formar ao menos uma aliança dos partidos de esquerda. Missão mais que difícil. 
Ao contrário, o PT quer manter essa correlação, que colocaria face a face Bolsonaro e Lula, com vantagem para o ex-presidente, conforme as pesquisas. Lula conta com seu poder negociador e lança pontes para a direita. Paradoxalmente, esse também é o cenário preferido do capitão, que acredita ainda ser possível capitalizar em cima do antipetismo entre os dois turnos. O « pas-de-deux » é a coreografia mais provável desse balé eleitoral. 
Enfim, Ciro Gomes parece ter se dado conta que não tem nem terá espaço à esquerda. Por isso ataca Lula e o PT, espera ganhar a direita não bolsonarista e entrar na disputa como um candidato híbrido, metamorfoseado em Terceira via. É uma aposta improvável, mas o cearense não tem opção. A direita, também por falta de melhor, ver-se-ia disposta a abrir-lhe os braços. Terceira via é uma falácia.
De qualquer maneira, não veremos no ano que vem Lula e Ciro dividindo palanques, lembrando porém que em política a palavra nunca há muito foi excluída do dicionário.
Assim, tudo leva a crer que a Frente Ampla, se houver, só sairá do papel após o primeiro  turno, com negociações e negociatas de último minuto. Tempo sempre haverá  para uns e outros bandearem para Paris.
Bolsonarismo, nazismo, genocídio: há comparação?

Bolsonarismo, nazismo, genocídio: há comparação?

Nestes tempos sombrios em que a doença, a fome e o desemprego avançam no Brasil, qualquer pessoa de boa fé e minimamente informada reconhecerá o papel crucial do presidente Bolsonaro e sua equipe neste quadro. A negação do perigo que o novo coronavírus representa; a insistência em terapias comprovadamente inócuas; a protelação na aquisição de vacinas; o mau exemplo das suas andanças, sem máscara e aglomerando seguidores à sua volta; o pífio (quando não inexistente) auxílio emergencial aos que mais precisam; a ausência de centralização no combate à pandemia, com ministros despreparados e de atuação desastrosa; os agentes econômicos, combalidos e atordoados com um abre-e-fecha errático, quando outros países já estão liberando com restrições a circulação sem máscara e o retorno às atividades econômicas. Estes e outros comemorativos configuram um quadro de desprezo à sociedade e uma aposta no “quanto pior, melhor”, dentro de um cálculo político perverso para perpetuar seu projeto de poder. Truculento e autoritário, ao defender reiteradamente o AI-5 como instrumento de poder, explicita seu inegável desejo de ser um ditador, acobertado por uma fachada apenas formalmente democrática. Nenhuma dúvida de suas intenções.

Indo além deste ponto pacífico, há uma discussão recente se é possível chamar Bolsonaro e seguidores de nazistas e genocidas. Exagero retórico ou comparação procedente? Sabemos que as palavras tem um peso, e, portanto, esta é uma discussão importante. Como cada um tem sua régua moral, política e ideológica, faz-se necessário iniciar esta discussão com digressões dos três elementos do enunciado.

Iniciemos com o bolsonarismo.  Importante deixar claro que bolsonarista não é necessariamente quem votou em Bolsonaro para presidente, mas quem segue apoiando seu governo e seus métodos neste momento, após dois anos e meio de mandato. Este é obviamente um termo novo, tanto que ainda nem foi incorporado pelo corretor ortográfico do programa Word. Não obstante, já há robusta produção acadêmica sobre o bolsonarismo. Para mencionar apenas uma, em “Notas para a compreensão do bolsonarismo”1, Daniel Aarão Reis credita a ascensão do bolsonarismo à tradição autoritária de nossa sociedade, à evolução da crise da democracia brasileira no período de 1988 a 2018 -em especial após a reeleição de Dilma Rousseff (2014) – e à campanha eleitoral de 2018, de curta duração e baseada em meios eletrônicos. Disseca a aliança do forças que compõem o bolsonarismo (Forças Armadas, milícias, igrejas evangélicas, agronegócio, agentes financeiros ultraliberais), e termina com um alerta familiar aos que estudam o fenômeno nazista (p.9):

Seja como for, não é de se imaginar que o
bolsonarismo vá ser um fenômeno passageiro
ou acidental.  Trata-se de uma força política e
social relevante. E permanente. E mais: em caso
de fracasso, já tem um discurso pronto – “não nos
deixaram governar”. E, certamente, o que é mais
sombrio, não se conformará em ser apeado do
governo por métodos pacíficos e democráticos.
Reagirá usando a força. De que modo e com que
procedimentos concretos, o tempo dirá.

A admiração servil e o apoio cego de Bolsonaro ao ex-presidente Trump e seus métodos estendeu-se à tentativa de golpe deste, ao contestar sem base fatual o resultado das eleições nos EUA e estimular a invasão do Capitólio, com sua trágica consequência em mortes. Não é improvável que Bolsonaro tente o mesmo no Brasil. A campanha pelo fim do voto eletrônico, a facilitação da posse e porte de armas por qualquer cidadão, e a ascensão de Luís Inácio Lula da Silva nas pesquisas convergem para esta possibilidade tenebrosa.

As semelhanças do bolsonarismo com a ascensão do nazismo ao poder avolumam-se. Discurso ultranacionalista, desprezo à democracia (só serviu para elegê-los), estímulo à violência, negação da ciência e promoção de uma pseudociência, ataques à imprensa livre e mentiras repetidas ad nauseam traçam uma linha comum. Não obstante, para muitos há uma distância grande entre chamar um regime autoritário de nazista. Argumentam que nazismo só houve um, e qualquer comparação entre este e o bolsonarismo é historicamente imprecisa, além de desviar a atenção dos reais crimes do bolsonarismo e dificultar seu combate. Nesta comparação entre governos, qual período do governo nazista é referência? À tomada do poder, em 1933? Às leis raciais de Nuremberg, de 1935? Ao pogrom da Noite dos Cristais, de 1938? Ao início do genocídio judeu, em 1941? Por acaso Bolsonaro colocou fogo (literalmente) no Parlamento, como Hitler em 1933? Assassinou seus aliados iniciais, como na Noite das Facas Longas, em 1934?

Os tempos são outros, os métodos, idem. Bolsonaro não incendiou o Congresso: garantiu apoio dos deputados do Centrão com bilhões do dinheiro público, prática antiga, mas que ele levou ao paroxismo. Não assassinou seus aliados: usou o PSL para se eleger, e depois saiu da legenda. Descarta aliados como se joga guardanapos usados no cesto de lixo. Mas nem quero me estender a outras semelhanças. Pretendo focar no nazismo. Desde quando o bolsonarismo é passível de comparações com o nazismo? Desde quando o nazismo é nazismo? Valem seus resultados finais ou suas intenções iniciais?

Tinha como referência de ponto inicial das intenções do nazismo o livro Minha Luta (“Mein Kampf”), escrito por Hitler na prisão, após tentativa abortada de golpe, em 1925. Tudo o que ele pretendia fazer, está lá. Fim da democracia, regime de partido único, controle absoluto do Estado sobre meios de comunicação, conquista territorial como “espaço vital”, destruição das “raças inferiores” e escravização das “raças intermediárias”.

Ledo engano. Em 24 de fevereiro de 1920, Adolf Hitler e Anton Drexler apresentavam um programa nacionalista, antissemita e anticapitalista. No mesmo dia, o Partido Alemão dos Trabalhadores, fundado em 1919, tornou-se Partido Nacional-Socialista Alemão dos Trabalhadores (NSDAP). Os 25 pontos do Programa do Partido Nazista2 são estes:

  1. Exigimos a unificação de todos os alemães na Grande Alemanha, com base no direito de autodeterminação dos povos.
  2. Exigimos igualdade de direitos para o povo alemão em relação às outras nações; revogação dos tratados de paz de Versalhes e St. Germain.
  3. Exigimos terra e território (colônias) para o sustento do nosso povo, e colonização para a nossa população excedente.
  4. Apenas membros da raça podem ser cidadãos do Estado. Apenas aqueles de sangue alemão, sem consideração de credo. Consequentemente, nenhum judeu pode ser membro da nação.
  5. Quem não tem a cidadania pode viver na Alemanha apenas como convidado, e deve estar sob a autoridade de uma legislação para estrangeiros.
  6. O direito votar e de determinar as questões relativas à legislação pertence apenas ao cidadão. Por isso exigimos que todos os cargos públicos devem ser preenchidos apenas por cidadãos. Nos opomos ao sistema parlamentar corrupto, de preencher cargos apenas de acordo com as inclinações partidárias, sem consideração de caráter ou capacidade.
  7. Exigimos que o Estado se encarregue primeiro em prover meios de subsistência para os cidadãos. Se é impossível sustentar a população total do Estado, os membros de nações estrangeiras (não-cidadãos) devem ser excluídos do Reich.
  8. Toda imigração de não-alemães deve ser impedida. Exigimos que todos os não-alemães que imigraram para a Alemanha desde 2 de agosto de 1914, sejam forçados a deixar imediatamente o Reich.
  9. Todos os cidadãos do Estado devem ter igualdade de direitos e obrigações.
  10. A primeira obrigação de cada cidadão deve ser o trabalho produtivo, mental ou físico. A atividade do indivíduo não deve colidir com os interesses do todo, mas deve ser realizada no contexto do todo, para o benefício de todos. Consequentemente, exigimos:
  11. A abolição de rendimentos não adquiridos por trabalho e emprego. Quebra da escravatura do rentismo.
  12. Em consideração ao sacrifício monstruoso de vidas e propriedade que cada guerra demanda do povo. O enriquecimento pessoal através de uma guerra deve ser considerado como um crime contra a nação. Por isso exigimos o confisco total de todos os lucros de guerra.
  13. Exigimos a nacionalização de todas os negócios constituídos como companhias (trustes).
  14. Exigimos uma divisão dos lucros de todas as indústrias.
  15. Exigimos uma expansão em larga escala dos benefícios aos idosos.
  16. Exigimos a criação de uma classe média saudável e a sua conservação, imediata disponibilização dos grandes armazéns para sua locação a baixo custo para as pequenas empresas, e a máxima consideração àquelas pequenas empresas com contratos com o Estado, condado ou município.
  17. Exigimos uma reforma agrária adequada às nossas necessidades, a promulgação de uma lei para a livre desapropriação de terras para fins de utilidade pública, a abolição dos impostos sobre a terra e a prevenção da todas as especulações de terra.
  18. Exigimos um esforço sem limite contra aqueles cuja atividade é prejudicial para o interesse geral. Criminosos comuns, usurários, agiotas e assim por diante devem ser punidos com a morte, sem consideração de credo ou raça.
  19. Exigimos a substituição de uma lei geral alemã no lugar do Direito Romano, que serve a uma ordem mundial materialista.
  20. O Estado deve ser responsável por uma reconstrução fundamental de todo o nosso programa nacional de educação, para permitir que todos alemães capazes e produtivos obtenham educação de qualidade e, posteriormente, introdução em posições de liderança. Os planos de ensino de todas as instituições de educação em conformidade com as experiências da vida prática. A compreensão abrangente do conceito de Estado deve ser buscada pela escola, logo no início das aquisições do conhecimento. Exigimos a educação custeada pelo Estado de crianças intelectualmente dotadas de pais pobres, sem consideração de posição ou profissão.
  21. O Estado deve providenciar um elevado padrão de saúde nacional pela proteção de mães e crianças, proibindo o trabalho infantil, encorajando a aptidão física, por meio do estabelecimento de uma obrigação legal de ginástica e desporto e pelo máximo apoio a todas as organizações preocupadas com a instrução física dos jovens.
  22. Exigimos a abolição das tropas mercenárias e a formação de um exército nacional.
  23. Exigimos oposição legal às mentiras conhecidas e da sua divulgação através da imprensa. A fim de capacitar uma imprensa alemã, exigimos que:
    a. Todos os escritores e funcionários dos jornais em língua alemã sejam membros da raça;
    b. Jornais não-alemães sejam sujeitos à obrigação de autorização expressa do Estado para ser publicado. Não poderão ser impressos em língua alemã;
    c. Não-alemães são proibidos por lei de qualquer interesse financeiro em publicações alemãs, ou qualquer influência sobre eles, e como punição para violações o fechamento da publicação, bem como a expulsão imediata do Reich para não-alemães. Publicações que são contra o bem geral, devem ser proibidas. Exigimos processo legal para produções artísticas e literárias que exercem uma influência destrutiva sobre a nossa vida nacional, bem como o encerramento de organizações que se opõem a estas exigências.
  24. Exigimos a liberdade de religião para todas as denominações religiosas dentro do Estado, desde que não ponham em perigo a sua existência ou se oponham aos sentidos morais da raça alemã. O Partido, como tal, defende o ponto de vista de um cristianismo positivo, sem se ligar a qualquer denominação. Combater o espírito judaico-materialista dentro e ao redor de nós, e estar convencido de que uma recuperação duradoura de nossa nação só pode ter sucesso dentro do enquadre: “O bem da comunidade antes do bem do indivíduo”.
  25. Para a execução de tudo isto, exigimos a formação de um poder central forte no Reich. Autoridade ilimitada do parlamento central sobre todo o Reich e suas organizações em geral. A formação de câmaras estaduais e profissionais para a execução das leis feitas pelo Reich dentro dos vários estados da confederação. Os líderes do Partido prometem, se necessário com o sacrifício de suas próprias vidas, apoio para a execução dos pontos enunciados, acima de qualquer outra consideração.

Para quem não se dispõe a ler “Mein Kampf” ou as leis de Nuremberg, pode ter certeza que todo o espírito do nazismo está contido nestes 25 pontos, desde literalmente o primeiro dia da existência do Partido Nazista. Ou seja, os nazistas já eram nazistas muito antes de acabarem com a democracia, boicotarem comércios e profissionais liberais judeus, enviarem jornalistas para períodos de “reeducação” em Dachau, e toda sorte de barbaridades que cometeram. Nenhuma ação monstruosa de seu regime genocida foi surpresa, não houve raio em céu azul. Estava tudo no papel, nas linhas e entrelinhas, desde seu início.

Eis o ponto em que quero chegar. O fenômeno bolsonarista dispensa corpo teórico ou organização partidária, mas suas ideias se fazem presentes muito antes de Bolsonaro ser eleito presidente. Não é necessário repetir os pontos do conhecido discurso de ódio que ele proferiu na Hebraica- RJ, racista e autoritário em sua essência, no hoje longínquo abril de 2017. Sequer enunciar as ideias econômicas de seu superministro da economia antes das eleições, onde o desmonte de mecanismos de proteção social, a entrega de patrimônio público e o solapamento da soberania nacional em setores essenciais já se vislumbravam. Passado mais da metade de seu mandato, a morte evitável e programada (grifo meu) da maioria das atuais 460.000 vítimas da pandemia (e contando), a economia anêmica já no seu primeiro ano de mandato e antes da pandemia, o aumento brutal da desigualdade -com miséria e fome em uma ponta e desempenho recorde da Bolsa de Valores na outra-, as ameaças à imprensa livre, o aparelhamento de órgãos estatais com asseclas no mínimo incompetentes, a obstrução da justiça por juízes e procuradores colocados lá para isso, tudo isso consegue encontrar paralelos na plataforma hitlerista, com as devidas diferenças de local, época e métodos. Um secretário da Cultura com discurso que imita Goebbels ao som de Wagner (só caiu porque divulgou) e um presidente negro da Fundação Palmares que trabalha contra qualquer política afirmativa e chama o movimento negro de “escória maldita”, fazem parte do panteão bizarro de um governo sinistro em sua essência e que flerta com o nazismo, aberta ou dissimuladamente.

Quanto a genocídio, o produto final do regime nazista, fico com a definição simples e direta do Dicionário Aurélio: é “o extermínio proposital que aniquila, mata uma comunidade, um grupo étnico ou religioso, uma cultura ou civilização”.

Podemos chamar Bolsonaro de genocida? Como comparar o que armênios, judeus e tutsis passaram com a situação brasileira?

Estamos acostumados a ver imagens de crianças indígenas saudáveis e sorridentes, brincando nas águas limpas de seus rios, no Xingu ou em Roraima.  Assim, a foto chocante do menino ianomâmi desnutrido que ilustra este artigo, obtida pelo missionário católico Carlo Zacquini, que atua entre os ianomâmis desde 1968 e divulgada pela Folha de São Paulo em 09/05/2021, é reveladora de uma política em execução. Bolsonaro, Salles e Mourão sabem que a destruição da floresta pelos madeireiros e o envenenamento dos rios por mercúrio pelos garimpeiros acarretam fome, malária, outras doenças e morte para os indígenas. A destruição de seu modo de vida e de sua cultura fazem parte do pacote. A desidratação e aparelhamento dos órgãos de proteção, fiscalização e repressão a crimes (Ibama, Funai e PF), reduzidos à quase inoperância, dão a chancela oficial para o processo em marcha. As balas dos jagunços se encarregam do resto.

Para finalizar, é importante ter a noção de processo e de escalada. Nenhum dos fatos supracitados desabou de súbito. Obedecem a políticas propostas e desenvolvidas bem antes de sua concretização. Dentro de semelhanças e diferenças que foram apontadas, é possível chamar o bolsonarismo de nazista e genocida? Faltam elementos para tanto? Ou são fenômenos incomparáveis? Deixo ao leitor a decisão.

Referências

Precisamos falar sobre o Antissemitismo na Esquerda

Depois de um artigo publicado a cerca de 20 dias, “Meu amigo judeu”, para instigar o debate sobre o antissemitismo na esquerda, fui mencionado em uma publicação apócrifa no site www.causaoperaria.org.br. O linguajar do autor não deixa dúvidas de que se trata de um pretenso comunista de biblioteca burguês. De operário não tem nada. Aquele tipo que a direita chama de comunista caviar.

O artigo é um festival de clichês que me remeteu aos anos 70. De inicio uma foto do que seriam soldados israelenses prendendo um jovem palestino. Existem milhares de fotos como esta, mas o autor escolheu justo uma que não é o caso. Os soldados em questão não são israelenses, e o preso provavelmente não é palestino. Seria um erro involuntário, mas ele continua errando quando diz que o grupo que administro no Facebook, “Resistência Democrática Judaica” é de sionistas socialistas. Agora já não se trata de erro, mas de interesse na crítica. Na verdade trata-se de um grupo judaico com membros de todo espectro político que em comum são antifascistas e portanto antibolsonaro. Nele existem membros até mesmo antissionistas.

Já de início o autor chama o Estado de Israel de Nazista, uma ofensa inominável a qualquer judeu. Todos nós perdemos familiares no Holocausto. O nazismo pretendeu nos exterminar da face da Terra. Montou uma indústria de morte com esta finalidade que chamaram da “Solução Final”. Israel comete crimes de guerra, mas dizer que se trata de um regime nazista é encerrar qualquer debate viável e civilizado.

Ele distorce minhas palavras em relação as vítimas do recente conflito de Gaza. Usa dos mesmos números que menciono, mas monstruosamente trata as mães que perderam seus filhos de forma diferente. Para ele as mães das 66 crianças palestinas são diferentes das duas mães israelenses. Talvez ele não tenha ouvido falar do atentado de Maalot. Em 15 de maio de 1974, três palestinos da Frente Democrática para Libertação da Palestina se infiltraram vindos do Líbano, tomando de assalto a escola de Maalot, uma pequena cidade ao Norte de Israel. No caminho para a escola os três palestinos mataram duas árabes israelenses, entraram em um apartamento de um prédio e mataram o casal e seu filho de 4 anos. Deixaram o prédio e foram para a escola Netiv Meir fazendo lá 115 reféns, entre eles 105 crianças. O resultado desta ação foi de 25 reféns assassinados, sendo 22 crianças e 68 feridos. Os três palestinos foram mortos pelas forças de segurança. Neste caso, as mães palestinas também eram diferentes das mães israelenses?

A extrema direita israelense tenta sempre desumanizar os palestinos, uma tática que dá ao opressor uma justificativa moral para manter a ocupação. Parte da esquerda faz a mesma coisa com os israelenses, mas neste caso trata-se de uma justificativa moral para expressar seu antissemitismo.

A intenção do autor não foi discutir o antissemitismo de esquerda proposto por mim.

Para ele o Estado de Israel não deveria existir. Para os nazistas não deveriam existir judeus. Percebem a semelhança? Eu utilizei o conflito recente em Gaza para mostrar como os antissemitas na esquerda se aproveitam do conflito para externar seu preconceito. Ele, vestindo a carapuça, se aproveitou do conflito para demonstrar que tenho razão.

Ele desdenha minha solidariedade, como sionista socialista, a causa de um Estado Palestino  e exalta os milhões de árabes que seriam solidários. Um momento de reflexão: além do Qatar, quem mais se preocupa com eles atualmente? O Irã que não é árabe e pensa como o autor, em destruir Israel. A União Europeia que não é árabe, e é a favor de uma solução de dois Estados. Em que país árabe os refugiados palestinos receberam cidadania? Vamos ser realistas, a tragédia palestina está perdendo o trem da história e isto não pode acontecer. Para constar, esta parte doentia da esquerda tem culpa neste processo.

E por fim temos o Hamas. Eu menciono em minha tréplica ao artigo inicial, que o Hamas é um regime totalitário onde não existe o menor respeito aos direitos humanos e que em muitos outros países árabes, não é diferente. Como um bom cidadão do mundo ele concorda com estes fatos, mas na sua ótica, tais desrespeitos são menos importantes no momento, afinal estão lutando contra o inimigo sionista e toda violência é justificável, inclusive contra seu próprio povo em Gaza. Diferentemente dele, eu acho que são parte do problema. O Hamas é uma organização que, diferentemente da Autoridade Palestina, não aceita a existência do Estado de Israel. Sua pretensão é a mesma do Irã, exilar os israelenses, trazer de volta os refugiados palestinos e criar um Estado Palestino em substituição ao Estado de Israel. Ainda assim, temos de encontrar uma maneira de sentar com eles a mesa de negociações.

Dado a um problema de interpretação de texto, ele me acusa de comparar Bibi e o Hamas, como Lula e Bolsonaro. Coisas incomparáveis. Eu concordo, tanto que não foi o que eu escrevi. Não há comparação em meu texto. Na verdade, digo e repito que o recente conflito foi do interesse de Bibi e o Hamas, serviu aos interesses de ambos.

Eu me permito aqui sugerir ao autor do artigo alguns temas para novos artigos: por exemplo, a invasão da Criméia e sua anexação ao território da Rússia. Outro tema , não menos importante para nós de esquerda são os Campos de Concentração na China, ou de Reeducação, como eles preferem, em que milhares de muçulmanos da etnia Uigur são mantidos. São fatos também recentes que parecem não sensibilizar a esquerda em geral e especialmente a parte antissemita, talvez por não envolverem judeus.

Ao contrário desta parte da esquerda, a direita é mais explícita em seu antissemitismo. Não se importa em desfraldar a bandeira nazista, de publicar obras antissemitas como os Protocolos dos Sábios do Sião, de apontar os judeus como donos da mídia internacional, de dominarem o sistema financeiro mundial e há entre eles quem diga, inclusive, serem os judeus os verdadeiros criadores do Covid-19 para ganharem dinheiro com as vacinas. Claro que não soa nada estranho algumas pessoas de esquerda que pensam a mesma coisa, afinal de contas, em matéria de antissemitismo, eles concordam uns com os outros.

Que tal vocês saírem deste mundinho e ajudarem de fato famílias palestinas que necessitam? Ajudem famílias palestinas clicando aqui.

O lado da ciência

Em compasso afinado com diversas áreas de atraso evolucionário do Brasil, volta, em uma atávica ressonância um debate supostamente superado entre ciência e política, materializado pelas submáximas do tipo “ciência não tem partido”, ou, “ciência não tem lado”.

Este tipo de assertiva traz um denso sofisma em seu corpo. Para aquele bem versado em história da ciência, história da filosifia e história geral, a ciência cartesiana (matriz de pensamento cientificista há 5 séculos) traz no seu íntimo o racionalismo como guia de construção do conhecimento e ainda uma metodologia procedimental e matemática que representa uma luta contínua contra tudo aquilo que vindo do indivíduo e de seus desejos pessoais possa interferir no resultado de um experimento ou de uma estatística sobre dados existentes. Além disso, o tratamento matemático estatístico é uma luta constante para que se identifique, nos achados produzidos ou nos dados apurados sobre qualquer realidade, os elementos do acaso que possam obnubilar a percepção da realidade.

Obviamente, quando falamos em “percepção” estamos partindo do pressuposto que qualquer percepção é obra da consciência do indivíduo, e portanto, sujeita aos viéses deste indivíduo, também pressupostamente sempre existentes. Na perspectiva coletiva, esta percepção pode formar conjuntos distintos sobre os mesmos dados de realidade, e assim, o tratamento estatístico persegue também o objetivo de uniformizar esta percepção de forma que a informação ou o conhecimento apurado seja palatável e “aceitável” pela maioria.

Não sou daqueles que cultiva a verdade científica como único ou absoluto critério de verdade. Mas também não sou daqueles que desacreditam nas verdades produzidas pela ciência. Tenho no meu íntimo a plena noção de que muitos conhecimentos não estão ao alcance do método científico ou de certa visão determinista. Exemplos clássicos desta divisão remontam à grande ruptura imposta pela física quântica, que não obstante alicerçada em princípios antideterminísticos (e às vezes, verdadeiramente fantasmagóricos) foi a mais bem sucedida teoria do século XX, cujos frutos entranham-se em cada aspecto de nossa vida cotidiana, e em breve, será incorporada ao mundo da informática no maior salto tecnológico jamais visto nesta área. Ainda assim, a física quântica jamais fracassou em no critério cartesiano da reprodutibilidade, algo que “democraticamente” dá chances verdadeiramente iguais aos que repetirem os experimentos que deram um certo resultado de obter o mesmo resultado.

Toda a construção científica cartesiana, querendo ou não, traz em seu bojo a desconstrução da ligação entre o poder político, ou ainda, o poder de fato, com os critérios de verdade e a determinação dos campos de conhecimento de uma sociedade. Ainda que o cientificismo possa (e deva) receber com dignidade as cáusticas críticas de Paul Feyerabend (“Adeus à Razão), a adoção de seus critérios pelos sistemas culturais e sociais deu-se de forma quase inabalável desde suas origens. Isto chega ao ponto de que a carreira científica traz ao seu ator as sucessivas titulações acadêmicas que na prática terminam por designar posições de poder sobre a verdade, que no limite, servirão de base para as decisões políticas nos respectivos níveis de estado. Assim, o agente de estado moderno faz um pacto implícito com a ciência, pois caso assim não proceda, estará sob o risco de ser classificado como autoritário, totalitário ou obscurantista.

Pobre do cientista que não expande para todos os campos do seu conhecimento e percepções a essência da ciência cartesiana. O que temos visto é um patético espetáculo de suicídio de reputaçãoes perpetrados por pessoas sobre as quais jamais se esperaria isso. Mas, como humanos que são, não são imunes às perversas manifestações dos arquétipos de poder e dominação outrora tão sinônimos de grandeza. E nesta esteira, fazem do seu ego a principal propulsão de suas carreiras que naturalmente os levam às posições de fama e conexão ao poder.

No outro polo, o cientista que no seu amadurecimento consegue incorporar à sua visão de mundo a sabedoria e a humildade que a ciência naturalmente provê, afasta-se cautelosamente de qualquer estrutura totalitária de pensamento, de qualquer sistema de conhecimento simplista, e mais ainda, de qualquer discurso restritivo ao pensamento e à crítica. Ao contrário, engaja-se em um projeto permanente de construção do pensamento crítico (e de sua divulgação) com viés coletivo e não individual ou pessoal. Assim, as visões de mundo providas pela ciência têm uma tendência natural de levar seus praticantes a uma visão mais altruísta, pelo menos muito clara na minha experiência pessoal que confirma a história até onde a conheço.

Quando observo agentes da ciência com suas respectivas titulações aproximarem-se de correntes políticas que reúnem as clássicas características do fascismo, sinto um imenso desgosto pelo fracasso que a academia teve em identificar essas pessoas que não estão prontas para a ciência. Há muito tempo que critico as pós-graduações feitas por gente muito jovem. Acredito mesmo que formação científica exige alguma maturidade, um critério que reconheço difícil de aplicar. E em um círculo vicioso, sabemos o quanto um mestrado e um doutorado são capazes de consumir um jovem estudante e de isolá-lo de diversas vivências de realidade, especialmente a política, transformando assim a carreira acadêmica em uma via de reafirmação de certos valores impregnados nas suas estruturas que abrem o apetite para a sede de poder em sua forma bruta.

No contexto atual brasileiro, temos um fertilíssimo terreno para a análise destes fenômenos sobre os quais porcurei trazer aqui alguns elementos de reflexão. Que no meu sentimento, deixam claro que se a ciência não tem um “lado” como aquele do ideal partidário, ela fundamenta sim uma visão de mundo que predomina nas sociedades verdadeiramente democráticas ou que assim desejam ser. Pelo menos, no nosso caso particular, uma visão profunda sobre nosso texto constitucional deixa claro que a ciência é um valor em si mesmo fortemente introjetada nos valores do constituinte de 1988, e que no cenário atual, aglutina-se fortemente contra a força de oposição aos seus valores que atua com a técnica da destruição da linguagem, algo que deveria alarmar desesperadamente qualquer pessoa com mínima formação científica, o que claramente não ocorre com alguns, que diligentemente são atraídos ao poder atual.

Assim, se a ciência não veio ao mundo para constituir-se explicitamente como um “lado”, as circunstâncias momentâneas do Brasil a obrigam a assumir um, sob pena do seu próprio fim.