Todo brasileiro é fascista
O Brasil teve um governo progressista por 8 anos com o Presidente Lula. Não se pode dizer que o sistema tenha sido socialista, mas pode-se afirmar sem medo de errar, que não foi nada próximo do neoliberalismo. A ele se seguiu o governo de Dilma Rousseff que foi retirada do poder em um golpe branco dado por ex-aliados.
O golpe não só tirou o Partido dos Trabalhadores do poder, como foi responsável pela ascensão e fortalecimento da operação Lava Jato que culminou na prisão de Lula e na vitória de Jair Bolsonaro nas eleições que se seguiram.
Tanto o golpe, como as ações da Lava Jato tiveram o apoio incondicional da mídia brasileira. Mesmo baseado em fatos de duvidosa comprovação, a Presidente Dilma foi deposta com a ovação das ruas. A Lava Jato foi elevada ao patamar da Operação Mãos Limpas na Itália, seus membros aclamados como heróis e o Juiz Sergio Moro proclamado como o Super-Homem no combate a corrupção e endeusado quando da prisão de Lula, sob os aplausos da população. Não foi necessária provar nada, bastaram convicções.
A seguir vocês elegeram Jair Bolsonaro como novo presidente e abraçaram o fascismo como sua bandeira. Ninguém poderia dizer que desconhecia as intenções de Bolsonaro. Elas eram todas conhecidas desde há muito. Sua expulsão do exército e sua carreira como parlamentar inepto eram de conhecimento público, assim como o que pensava sobre os negros, mulheres e LGBTs. Todos sabiam que ele é um apoiador da tortura.
Ainda assim, vocês optaram por colocar no poder uma família miliciana e se orgulham de tê-lo feito. Bolsonaro não existe como presidente, faz o que quer, descumpre as leis, incentiva o uso de medicações perigosas e sem nenhum efeito prático para combater a pandemia, ri dos mais de 400 mil mortos, ataca o poder judiciário e ainda assim vocês o adoram.
Em outros países, políticos eleitos que tiveram atitudes parecidas foram derrubados do poder. Mesmo em meio a pandemia, multidões lutam por seus direitos, mas não no Brasil. Aí as ruas são ocupadas por vocês para apoiar Bolsonaro. O presidente pede, e vocês saem para pedir um golpe militar com ele presidente.
Em todas eleições os mesmo políticos conhecidamente corruptos voltam a ser eleitos. É patético como vocês aceitam com placidez aquela frase de políticos de Repúblicas das Bananas: “Eu roubo, mas faço”. Mesmo aqueles que nada fizeram além de roubar os cofres públicos, são reeleitos.
Por incrível que pareça os abusos policiais são apoiados por vocês. Ações policiais como a do Jacarezinho são admitidas como legítimas. Todo pobre e favelado já foi, é ou será um ladrão. Sendo assim, ladrão bom é ladrão morto. Ninguém se importa com isso e não se vê nenhuma manifestação nas ruas exigindo que os responsáveis sejam punidos.
O Brasil é fascista. O mundo hoje trata o país com desdenho, e por conta do descontrole sobre a pandemia, como um pária internacional. Nenhuma nação quer receber vocês. O seu passaporte se tornou um sinônimo de vergonha.
Aquele país do samba, futebol e carnaval não existe mais. Multinacionais com anos de investimentos no Brasil estão indo embora, e com razão. Elas planejam seu futuro com antecedência e o Brasil não tem nenhum. Hoje todos querem distância de vocês.
Um país que ataca seu principal parceiro comercial e fornecedor de insumos para produção das vacinas contra a Covid-19, não se dá o respeito. Mesmo com a perda de seu principal mentor, Donald Trump, Bolsonaro continua se “pavoneando” como se tivesse alguma relevância no trato diplomático internacional.
O brasileiro é fascista. Um povo que elege e mantém no poder um Jair Bolsonaro, não tem outra denominação que não esta. Vocês o elegeram, vocês o veneram, vocês são o suporte para todos seus devaneios. Ele não teria saído do esgoto de onde veio não fosse com o seu apoio.
O mundo não vai perdoar vocês. Não vai perdoar o que vocês estão fazendo com a Amazônia, não vai perdoar com o que vocês estão fazendo com os povos indígenas, não vai perdoar vocês por assassinarem os que defendem os Direitos Humanos.
Em breve vamos assistir ao surgimento de movimentos que inicialmente vão iniciar o boicote aos produtos brasileiros para logo boicotarem as universidades, os artistas, os times de futebol e tudo mais que tenha relação com o Brasil. O mundo livre não suporta fascistas.
Não concorda?
Se você, leitor de esquerda chegou até aqui, se acalme. Sei que a esta altura deva estar indignado, afinal de contas você não votou nele, não coaduna com suas ações e muito provavelmente participa de ações contra o seu governo.
Agora você deve fazer uma ideia de como é que nós, israelenses sionistas socialistas, que toda nossas vidas combatemos o fascismo nos sentimos quando você fala de Israel de maneira generalizada. Aqui também combatemos o governo fascista de Benjamin Netanyahu, somos a favor de um Estado Palestino e contra todo tipo de violência.
Quando você acha que Israel está fazendo algo errado, saiba que é muito provável que nós também achamos . Mas nós combatemos o governo, não o país que é composto de cidadãos de todo espectro político.
Assim como existem brasileiros de esquerda resistindo ao governo fascista de Bolsonaro, existem israelenses de esquerda resistindo ao governo de Bibi. Quando Israel é bombardeada, nós também sofremos com isso, somos parte da população. Compreendemos perfeitamente que do outro lado da fronteira o sofrimento é o mesmo.
Não seja mais um antissemita que usa seu discurso antissionista para verbalizar todo seu racismo e seu ódio aos judeus.
Pense nisso na próxima vez que se manifestar contra o conflito. Precisamos de vozes que compreendam os dois lados, que sejam parceiros dos dois povos, que levem as lideranças dos dois povos a buscarem um acordo de paz com justiça. Todos nós deploramos a violência e temos direito a vida.
Finalmente temos um cessar fogo e torcemos para que ele seja permanente. Basta de mortes, basta de terror e destruição. Somos de esquerda, somos antifascistas.
Violência Gourmet
Há cerca de 20 anos publiquei um texto (na época, via e-mail!) entitulado “Mielina e Hemoglobina”. Era um texto analisando os fenômenos violentos da sociedade, onde eu criticava a tese de que pobreza e miséria geram violência, tese esta sustentada no contexto da criminalidade vulgar das quadrilhas, assaltantes e outros agentes “de campo”. Preliminarmente, eu estabelecia que este tipo de criminoso ou violento poderia até ser pobre, mas não miserável, pois crime é algo suficientemente elaborado e necessita de inteligência, estratégia, e na maioria dos casos urbanos, capacidade física e algum treino. Em outras palavras, para se ter um cérebro suficiente para estas façanhas e a capacidade física de executá-las seria necessário ter mielina e hemoglobina, coisa que só os minimamente nutridos desde a infância têm. Por fim, argumentava no sentido de demonstrar que se pobreza fosse determinante de comportamentos violentos, nosso país estaria de cabeça para baixo, se houvesse sobrado algo.
Mais adiante, eu explorava no texto o outro tipo de violência, aquela produzida nos gabinetes, onde covardes protegidos fisicamente pelas estruturas de concreto e mobiliário empunhando suas canetas produzem a farta gama de violência institucional sistêmica, esta sim, corrupta (não no sentido barato da gatunagem), fria, e também praticada por gente que além de mielina e hemoglobina teria todos os pressupostos culturais e sociais para não fazê-lo.
O momento atual brasileiro reforça a minha já antiga tese. Nunca uma caneta Bic (com todo o respeito pela marca, que não responde pelos atos que criminosos cometem com sua tinta) matou tanto em nossa história, pelo menos. E nunca um criminoso tão violento e brutal foi amplamente apoiado por um congresso que parece insensível à tragédia brasileira, ressalvando-se uma minoria que conseguiu, diante da não menos criminosa omissão de Rodrigo Pacheco, presidente do senado, um mandado do STF para que se instalasse a CPI da COVID-19.
Esta forma de violência, a institucional, é limpinha e cheirosa, além de bem temperada ao gosto de setores da sociedade. É uma violência gourmet, sorvida pantagruelicamente pelos Pazuellos, Bolsonaros, Salles, e outros agentes de destruição social.
Eu me preocupo mais com a “caneta Bic” do que com os fuzis. Pois é ela que mata muito mais que as armas.
De saco cheio estamos nós
Nesta sexta-feira, pela enésima vez, o capitão genocida se arrogou o direito de criticar, com palavras de baixo calão, um instrumento legal de um outro Poder, no caso o Legislativo. Alguém disse que o presidente deve respeitar a independência dos Poderes ? Ora, ele não tem a menor ideia do que isso venha a ser. Ele só entende a linguagem do « eu faço o que quero », como uma criança mimada. O inominável voltou a atacar, como sempre nas redes sociais (onde é mais fácil escrever em razão de um número limitado de palavras), a CPI da Covid, respondendo aos membros da Comissão que criticaram medicamentos rejeitados categoricamente pela Organização Mundial da Saúde : a cloroquina e a ivermectina, dos quais o presidente da República, que nunca frequentou uma aula de primeiros socorros, transformou-se em garoto propaganda. Para ele, de nada servem seis estudos científicos internacionais, que reuniram mais de 6 mil pacientes, concluirem que os medicamentos não trazem benefícios no tratamento da Covid 19.
Desde julho do ano passado, a OMS informa que o antimalárico não tem nenhum efeito positivo contra o coronavirus, sem falar dos efeitos secundários perigosos, que podem inclusive levar à morte. Mais recentemente, o painel de especialistas do Grupo de Desenvolvimento de Diretrizes da OMS foi ainda mais claro, rejeitando o uso da hidroxicloroquina no tratamento preventivo da Covid e dando por encerrados os testes com o medicamento.
Mesmo assim, o fascista que se instalou no Planalto insiste : « Não encham o saco ! » ; médico e paciente são livres para escolher como querem se tratar.
Como responder a essa asneira sem tamanho ? Então se um oncologista decide tratar seu paciente com câncer no fígado com Novalgina, tem todo o direito. E se o paciente morrer ? E daí, médico não é coveiro, não é mesmo ?
Quinta-feira o capitão já tinha defendido novamente o uso da hidroxicloroquina, chamando de « canalhas » os que se opõem à sua prescrição e afirmando que a CPI é mera « xaropada ».
Um dia antes, nesse circo de horrores, o presidente rasgou uma vez mais a Constituição diante do olhar impassível do Procurador Geral da República, Augusto Aras, cúmplice do genocida, para ameaçar o STF e publicar um decreto para impedir que governadores e prefeitos fechem o comércio ou limitem a atividade durante a pandemia. Afirmou que não aceitaria contestação dos tribunais. Acusou o ministro Luis Roberto Barroso de ter feito “politicalha” ao mandar o Senado instalar a CPI, embora sabendo que errado estava o presidente da Câmara Alta, que para proteger o capitão empurrou com a barriga a abertura da Comissão de Inquérito, cujo pedido preenchia todos os requisitos constitucionais. Errado estava Rodrigo Pacheco e não o STF, que confirmou a decisão de Barroso por 10 votos contra 1.
Dizem alguns que Bolsonaro é como o cão, que ladra mas não morde. A verdade não é bem assim, mesmo se as declarações insanas têm o objetivo de animar a sua base política. O país vive em clima de queda de braço permanente e, enquanto não é governado, as pessoas, dezenas de milhares de pessoas, vão morrendo feito moscas.
Face à tragédia, a solução proposta é a privatização do SUS, ou seja do alicerce da saúde pública no Brasil.
O único compromisso do presidente é consigo mesmo, com a sua ninhada e com a promessa de tudo destruir à sua passagem. É a política da terra arrasada. Dentro desta lógica, nessa mesma quarta-feira, investiu contra a China, nosso maior parceiro comercial e principal fornecedor de insumos para vacinas.
“É um vírus novo, disse, ninguém sabe se nasceu em laboratório ou por algum ser humano [que] ingeriu um animal inadequado. Mas está aí. Os militares sabem que é guerra química, bacteriológica e radiológica. Será que não estamos enfrentando uma nova guerra?”
O presidente brasileiro parece não ter se dado conta de que Donald Trump perdeu as eleições, continua a repetir o discurso anti-China do ex-ocupante da Casa Branca. Para tanto, é apoiado pelo filhote Eduardo, aquele do hambúrguer, e pelo ex-chanceler olavista Ernesto Araújo, dois arautos da guerra contra Pequim.
Bolsonaro fechou a semana ignorando as regras sanitárias e gerando aglomeração com motoqueiros em Brasília; estava sem máscara e disse que pretende realizar atos semelhantes em outras cidades. Como se a CPI realmente não passasse de mera “xaropada”.
Por ter provocado aglomeração, o líder da extrema-direita portuguesa, André Ventura, está sendo investigado e poderá ser condenado a 4 anos de prisão.
Fora do Brasil, Jair Bolsonaro é visto como o pior mandatário do mundo na gestão da pandemia, título concedido pelos jornais e cientistas mais conceituados. Nesse início de maio, o Parlamento Europeu debateu a gestão da pandemia pelo presidente brasileiro, taxada de “necropolítica, negacionista e irresponsável”.
“Por ação ou omissão, a necropolítica de Bolsonaro constitui um crime contra a humanidade que deve ser investigado”, disse em plenário o eurodeputado espanhol Miguel Urbán Crespo, aplaudido por seus pares.
Artigos são publicados diariamente na grande imprensa, que nada tem de esquerdista, escritos por gente estupefata com o inferno dantesco em que se transformou o país.
O que muitos não conseguem entender, sendo portanto incapazes de explicar, é por que o presidente tem o apoio incondicional de um terço do eleitorado. O correspondente da Deutsch Welle no Brasil, como bom jornalista, passou um ano entrevistando pessoas que votaram em Bolsonaro, para explicar o fenômeno aos seus seguidores. Mas finalmente baixou os braços e confessou : – Decidi parar de falar com bolsominions ; não aguento mais, é uma loucura !
De fato, a visão que o Brasil projeta hoje é deplorável. Em 43 anos de vida na França jamais vi nada igual. Na Europa, a opinião (até entre alguns políticos de extrema-direita) é que Jair Bolsonaro e sua gangue são psicopatas perversos, dignos de usar camisa-de-força, de serem interditados. Não se consegue compreender o que acontece, nem a passividade popular e muito menos ainda a atração exercida pelo « mito », que com a ajuda de pastores evangélicos, olavistas, militares, milicianos, empresários do tipo Havan, formou uma verdadeira seita em torno de si, recriação do Templo do Povo do reverendo Jim Jones.
Para a loucura do presidente parece não caber interdição e sim cadeia, onde deverá terminar os seus dias caso sobre um resquício de Justiça após a sua passagem.
Minha intuição diz que seu grande sonho nunca foi se tornar presidente da República (o que exige um mínimo de preocupação com o Brasil), mas ser comandante-em-chefe das forças armadas, que em várias ocasiões afirmou lhe pertencerem. Autoritário, candidato a ditador, adorador da tortura, ele quer mandar, certo de que o Brasil é uma caserna e os brasileiros, seus soldados. Saboreia a revanche da sua expulsão do Exército. Os únicos livros que folheou na vida foram para os exames da Academia de Agulhas Negras. A Constituição, só segurou na hora da transmissão da faixa presidencial. E olhe lá! Aposto que nunca abriu.
Um dos poréns é que os militares próximos do presidente cabularam a aula magna da Academia Militar sobre os direitos e deveres em tempo de guerra, fazendo com que passasse batida a Convenção de Genebra. Formaram-se portanto sem saber que até no conflito armado há regras. Os soldados da ativa e de pijama que circulam pelo Palácio desconhecem limites e consideram que a palavra do comandante é lei, mesmo que contrária à própria lei. “Manda quem pode, obedece quem tem juízo”; plagiando o general ex-ministro da Saúde. Nesse universo não reina a força da lei, impera a lei da força, sobretudo contra pretos e pobres.
Natural portanto que com Bolsonaro os gastos militares tenham superado os da ciência e da diplomacia. O Ministério da Defesa gastou 572 milhões de reais com ações da pasta e das Forças Armadas na pandemia. Os gastos militares superam as despesas do governo federal com ciência e tecnologia, segurança pública, direitos humanos e diplomacia no combate à Covid-19.
Bolsonaro declarou guerra à ciência, à medicina e à vida. Ao invés de ter o vírus como alvo, declarou guerra ao STF, guardião do Direito, Poder que tem ousado desafiar a sua autoridade para fazer cumprir a Carta Magna e a lei, do direito dos índios a comer durante a pandemia e terem vagas em hospitais públicos à abertura da CPI da Covid no Senado.
A chacina do Jacarezinho, no Rio de Janeiro, que completou a semana, é corolário dessa ideologia: 27 favelados mortos, acusados de tráfico. Bolsonaro, desde o primeiro dia de seu mandato, defendeu o excludente de ilicitude, abrindo caminho ao uso da força letal indiscriminada pelos policiais. Assim, protegidas pela palavra presidencial, as polícias (seriam milícias?) abrem fogo e matam ao arrepio da lei, contra o que estabeleceu o STF. Há um ano, o Supremo determinou limites para ações de policiais nas comunidades durante a pandemia. Em vão.
O massacre, que incluiu execuções sumárias de acordo com testemunhas, embora cometido pela polícia civil do Rio de Janeiro se insere na ideologia de morte pregada pelo Executivo federal. Ordem de prisão é coisa do passado, a regra é atirar para matar. A polícia entra na casa de uma família, vê uma pessoa deitada, desarmada, e metralha.
Bolsonaro criou a figura da “pena de morte informal”, sem necessidade de condenação.
Na operação, quatro habitantes da favela foram presos e torturados. Mas preferiram não relatar as agressões aos médicos do Instituto Médico Legal, pois ao contrário dos procedimentos, os policiais permaneceram na sala enquanto os peritos trabalhavam. Depois, foram encaminhados para o presídio de Benfica, sem direito à audiência de custódia, muito embora obrigatória. O laudo da perícia das drogas apreendidas tampouco seguiram as normas legais. Nada mais normal, pois afinal, como diz o vice-presidente general, « É tudo bandido ! » Ou como diz o capitão, “traficantes que roubam e matam”; ambos referindo-se, obviamente, sem nenhuma prova, aos favelados mortos. Dos 27 mortos, apenas 3 eram alvos de mandado de prisão.
Para eles, bandidos são os manifestantes presos por chamarem o genocida de genocida, Rodrigo Pilha, torturado por agentes penitenciários, os mineiros detidos, falsamente acusados de terem atirados ovos nos bolsominions. Ou ainda os trabalhadores sem terra, que Bolsonaro (no dia da chacina) recomendou o assassinato, ao comemorar a autorização para que os fazendeiros possam circular armados dentro de seus latifúndios e atirar para matar sem somação: ”Se encontrar o ilícito lá mete fogo, porra!”
« Algo está errado » ; replicou o Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos, reclamando a abertura de investigações imparciais internacionais sobre Jacarezinho. « O uso da força deve ser o derradeiro recurso, o combate à criminalidade precisa ser equilibrado e proteger a população. »
Palavras ao vento…Gato escaldado, o Alto Comissariado não confia na objetividade das autoridades brasileiras, incapazes de levar adiante uma investigação imparcial. Com toda razão.
Na visão bolsonarista de mundo, a vida (dos outros) não tem importância. E se o outro for preto e pobre, menos ainda. No combate ao crime como na luta contra o coronavirus, 420 mil mortes após o início da pandemia, o fascista mor não muda uma vírgula em sua forma de ser e de agir. O que faz de seus seguidores, cúmplices.
A chacina do Jacarezinho e a morte de milhares de vítimas da “política sanitária” são duas faces da moeda bolsonarista.
O fato de que 30 % ou mais sigam cegamente o « mito » e estejam prontos a reelegê-lo diz muito sobre quem somos. Dezenas de milhões de brasileiros parecem ter se despido da aparência humana para abraçar o que de pior marcou a humanidade : de Mussolini a Hitler, passando pelas Cruzadas, pela Inquisição, pela escravidão. Outros 30 % estariam dispostos a ficar em cima do muro, como os poloneses de Cracóvia, que fingiam não ver o que acontecia do outro lado da cerca de arame farpado que os separavam dos fornos crematórios (certamente mal cheirosos) de Auschwitz.
Isso me leva a pensar que trazemos em nós o que há de mais abjeto. Um dia a sociologia explicará esse desatino. Hoje, o que vemos não faz sentido. Na pandemia foram os pobres que mais perderam empregos e renda, as crianças que ficaram sem merenda nem estudos, os que mais morreram de Covid sem direito sequer a oxigênio, que foram as principais vítimas dos preços que subiram 29% nos alimentos básicos. Mesmo assim, segundo o DataFolha, a decepção com Bolsonaro é muito maior entre os mais ricos. Quase um terço dos pobres considerariam o governo Bolsonaro bom ou ótimo.
Machismo, racismo, homofobia, autoritarismo, discriminação de gênero, revolta contra o “sistema”, fundamentalismo religioso, medo do futuro e necessidade do herói salvador, talvez sejam um início de explicação para essa mixórdia fétida em que nos transformamos.
O mundo implora para que o Brasil comece enfim a combater seriamente a pandemia, usando os utensílios científicos à disposição, abandonando definitivamente os kits, os falsos tratamentos preventivos. Nós parecemos não estar nem aí, mesmo se a estratégia de Bolsonaro, ou falta de, venha a deixar caminho livre à circulação do vírus e a consequente multiplicação de variantes, sob pena de colocar em perigo o resto do planeta.
Agimos na pandemia da mesma maneira irresponsável como fazemos contra o aquecimento climático ; dando de ombros, tentando jogar a nossa parcela de culpa sobre os ombros de terceiros, que insistem em não colaborar com alguns bilhões de dólares.
A diferença agora é que o mundo começa a acordar e rechaçar a chantagem de Bolsonaro, Salles e o rebanho.
No dia 29 de abril, uma equipe internacional publicou um estudo alarmante na revista Nature Climate Change: nos últimos dez anos a Amazônia brasileira rejeitou mais gás carbônico do que absorveu.
Segundo os cientistas, esse dado constitui uma mudança maior e inédita na história da humanidade. Por causa da atividade humana, a Amazônia, que fornecia 20% do oxigênio do planeta, está literalmente morrendo. E nós com ela.
O que fazer antes que seja tarde demais, que tenhamos atingido o “point de non retour”? Por onde começar?
Num primeiro momento, ambientalistas, economistas, e políticos europeus sensibilizados com a causa ecológica propõem o abandono imediato do acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul. Por duas razões:
Antes de mais nada porque não se assina um acordo com um país cujo dirigente viola os direitos humanos e não dá a mínima para os seus próprios engajamentos ambientais. Depois, porque o conteúdo desse acordo é em si uma catástrofe climática, que de acordo com um estudo dirigido pelo economista Stefan Ambec irá acelerar o desmatamento da Amazônia em ao menos 25% nos próximos seis anos, ou seja, de 30 mil quilômetros quadrados de floresta por ano. Isso sem falar na destruição da biodiversidade, explosão das emissões de gazes de efeito estufa, ameaça sobre as populações autóctones e morte de camponeses e pequenas plantações.
Em outras palavras, o acordo provocaria um etnocídio acompanhado de um ecocídio, razões pelas quais Jair Bolsonaro já é acusado no Tribunal Penal Internacional de Haia.
O capitão, encurralado e pressionado, reage da única maneira que sabe: desrespeitando tudo e todos, xingando, dando porrada pra’ tudo quanto é lado. O império da lei, o Estado de Direito, não faz parte da sua definição de Democracia, que começa e termina na eleição. Eu ganhei, logo eu mando. Genocida, nazifascista, um dia responderá por seus crimes, mesmo que um terço do Brasil seja cúmplice da matança e da destruição.
Como disseram os eurodeputados, Bolsonaro não é apenas um perigo para o Brasil, é o inimigo número 1 do mundo
O verdadeiro perigo da Cloroquina
República das Bananas com orgulho
“Nada é impossível de mudar. Desconfiai do mais trivial, na aparência singelo. E examinai, sobretudo, o que parece habitual. Suplicamos expressamente: não aceiteis o que é de hábito como coisa natural, pois em tempo de desordem sangrenta, de confusão organizada, de arbitrariedade consciente, de humanidade desumanizada, nada deve parecer natural nada deve parecer impossível de mudar”, Bertolt Brecht
Terrorismo de estado é o que melhor define o que aconteceu no Jacarezinho. A polícia em nome do estado, executou 28 cidadãos, entre eles 3 que tinham contra si, mandados de prisão. Ao que parece, todos os demais foram vítimas de uma vingança pela morte de um policial no inicio da operação.
A operação levada a cabo, mesmo com as restrições impostas pela justiça durante a pandemia, mostram que no Brasil a lei não é igual para todos. Enquanto o presidente e o Véio da Havan podem passear de moto sem o uso obrigatório de capacetes se divertindo em meio as valas de mais de 400.000 brasileiros que perderam a vida pelo Covid, cidadãos são impunemente assassinados por quem deveria protegê-los em meio a uma operação policial. Enquanto a Casa Grande se diverte, o andar de baixo é massacrado.
O Brasil vai se desnudando e mostrando sua verdadeira face de uma bela República das Bananas. Este estereótipo de país Latino Americano, cujo termo foi criado pelo cronista americano O. Henry, data de 1904 e foi atribuído a Honduras, se refere a um país politicamente instável, submisso a um país rico e governado por um corrupto e opressor. Este é o Brasil de hoje.
Em qualquer país civilizado, onde vigora o estado de direito, os responsáveis pelo que aconteceu já estariam presos. Uma comissão externa da polícia estaria criada para investigar o que aconteceu e recomendar punições e formas de evitar sua repetição. Nenhuma sociedade civilizada pode aceitar menos do que isso.
Não existe justificativa para o ocorrido. Existe sim o exemplo de outros massacres policiais como o do Carandiru em 1992, que resultou na morte de 111 detentos. Aqui também ocorreu o Terrorismo de Estado, quando detentos sob a custódia do estado são mortos em uma verdadeira chacina.
O Brasil é hoje um dos locais para o qual a maioria dos países criou restrições de viagem, seja para receber brasileiros, seja de proibição de visitas por parte de seus cidadãos. A falta de enfrentamento da pandemia por parte do governo central, o descontrole geral com a vacinação, tornam o país um pária internacional.
Se não bastasse o mundo assiste, atônico, o presidente confrontar e hostilizar o maior parceiro econômico, a China, que por acaso também é o maior fornecedor dos insumos para as vacinas, o que mostra a intenção de manter o genocídio com a média de mais de 2.000 mortes por dia levando em breve a triste marca de meio milhão de mortos.
Agora a isto se somam as cenas chocantes do resultado de uma tragédia anunciada. No bastião do bolsonarismo, na terra das milícias, do maior número de governadores acusados por corrupção, vem a pior notícia. O Rio de Janeiro é terra sem lei e sem ordem.
Diante de tudo o que está acontecendo não deixa de ser interessante a postura da oposição e do povo em geral. A incapacidade de se organizar manifestações contra o governo, de exigir os merecidos cuidados com a vacinação e exigir a punição por um massacre destes, é surpreendente.
Nos EUA a morte de um cidadão negro pela polícia resulta em manifestações que duram semanas. Na Colômbia a tentativa de criar uma lei que prejudicaria as classes menos favorecidas levou o povo as ruas em todo o país. Nenhum povo pode se acovardar diante de uma injustiça.
Infelizmente o brasileiro é atualmente um povo de plastas. Se sujeita a todo tipo de exploração, de espoliação, de subjugação e de injustiças, sem se indignar. Quando muito se dá o trabalho de dizer o que pensa em suas redes sociais.
As ruas por enquanto são daqueles que no dia do trabalhador, afrontam a democracia exigindo uma ditadura militar com Bolsonaro. Eles são a voz do Brasil de hoje, os únicos que se organizam e se manifestam.
É deles o brado que um dia foi nosso combatendo a ditadura, “Longe vá temor servil, ou ficar a pátria livre ou morrer pelo Brasil”. Neste caso, livre de nós que somos seu temor.