Samba Perdido – Capítulo 34
Capítulo 34
“E no final das contas, O amor que você leva É igual ao amor que você faz.” Beatles
Capítulo 34
“E no final das contas, O amor que você leva É igual ao amor que você faz.” Beatles
“Estamos preocupados, obviamente, mas não é uma situação alarmante”, Jair Bolsonaro em 26 de Janeiro de 2020.
Imaginem as cidades de Piracicaba em São Paulo, Olinda em Pernambuco, Anápolis em Goiás, Vitória no Espírito Santo. Imaginem que de um dia para o outro elas tenham se convertido em cidades fantasmas, desprovidas de habitantes. Imaginem entrar numa cidade como qualquer uma delas e não encontrar nenhum ser humano. Quando o Brasil cruzou a marca de 400 mil mortos pelo Covid-19, foi como se uma destas cidades tivesse ficado sem nenhum habitante.
Mesmo sem ninguém, tudo permaneceu no seu lugar. Os lugares a mesa estão lá, os pertences, as fotografias, os animais de estimação que agora perambulam em busca de seus donos, os carros sem motoristas, as salas de aula sem alunos e professores, os cinemas vazios. Pode-se escutar o silêncio.
Uma tragédia desta magnitude raramente acontece. Este é o número de mortos causadas pelas Bombas Atômicas jogadas sobre Hiroshima e Nagasaki pelos EUA no final da II Guerra Mundial. A população destas cidades não tiveram escolha.
O genocídio brasileiro teve como ser evitado e a escolha foi deixar acontecer. Do Oriente para o Ocidente, o vírus foi se espalhando e mostrando sua força. Conquistou nação após nação sem dó nem piedade. A ciência precisou de quase um ano para criar uma arma capaz de combater esta praga implacável. A maioria dos países prontamente passaram a adquirir reservas das vacinas que seriam produzidas, o Brasil nada fez.
A mortalidade causada pelo Covid-19 logo ficou conhecida. Os países adotaram os mesmos protocolos de combate: lockdown, distanciamento social, máscaras e higiene. Todos que tentaram qualquer coisa diferente se deram mal. Os procedimentos se tornaram conhecidos e o emprego de medidas extremas se mostrou eficaz. Ainda assim, o vírus não foi vencido e onda após onda, mais mortes e o emprego de novas medidas contenção.
Cada lockdown teve um custo econômico imenso. Milhares de negócios fecharam e não reabriram mais. Dezenas de milhares de pessoas perderam seu emprego. A sociedade sofreu um impacto que mais lembra tempos de guerra ou de um cataclisma. No entanto, por mais amargo que tenha sido, o lockdown salvou centenas de milhares de vidas.
A medida que as vacinas começaram a serem distribuídas no mundo o cenário começou a mudar. Países, como Israel, que vacinaram em massa sua população, mostraram que os resultados superaram as expectativas. Com a queda no número de novos infectados a vida foi voltando próximo do normal. A economia já mostra sinais de reação.
Países que não tiveram um gerenciamento de crise como o Brasil e a Índia, por exemplo, viram os números de infectados dispararem e o colapso no sistema de saúde, que não tem mais como lidar com o número cada vez maior de internações, acontecer. Pessoas estão morrendo sufocadas por falta de oxigênio. Mesmo as que tiveram a sorte de conseguirem internação estão indo a óbito pela falta de kits para incubação.
Com o sistema colapsado o vírus vai tendo mutações e encontrando maneiras de continuar matando. Assim, as vacinas podem se tornar inócuas para uma determinada nova cepa e todos que se vacinaram teriam de ser vacinados novamente. Este é o mal que países como o Brasil estão causando ao mundo.
Brasileiros já estão sendo impedidos de entrar na maioria dos países. Ninguém quer dar chance ao azar de permitir a entrada de uma nova e desconhecida cepa mais mortal em seu território. No futuro o Brasil pode vir a ser responsabilizado pelo que está causando e não seria inimaginável processos internacionais demandando compensações financeiras pelo descaso com que tratou a pandemia.
A um cataclisma não se tem a quem culpar. Crimes de guerra são julgados. Quanto tempo será necessário para que os que levaram o país a este estado paguem pelos crimes que estão cometendo?
Logo, cidades como Florianópolis em Santa Catarina, Macapá no Amapá, Vila Velha no Espírito Santo vão ter desaparecido quando cruzarmos a incrível marca de meio milhão de mortos liderados por Bolsonaro.
Tem idiota que a gente vê nas mídias sociais, na imprensa né?… Vai comprar vacina. Só se for na casa da sua mãe”. Jair Bolsonaro em 04 de Março de 2021.
Muita gente deve estar se perguntando o que acontece depois do STJ ter confirmado que Moro nunca poderia ter julgado Lula, e mesmo que o tenha feito, ser declarado um juiz parcial, a pior acusação a um magistrado.
A primeira vista parece um contrassenso. Se primeiro foi declarado que os casos envolvendo o ex-presidente não poderiam ter sido julgados em Curitiba, tudo o que seguiu a este fato perde a validade. No entanto a suprema corte fez questão de julgar os atos cometidos pelo ex-juiz também. Sábia decisão.
Moro perseguiu Lula para impedir a sua candidatura e assim abriu caminho para a chegada ao poder de Bolsonaro a quem serviria mais tarde como Ministro da Justiça. Isto ainda não foi mérito de julgamento ainda. Moro se locupletou de suas decisões, algo nunca visto antes na jovem democracia brasileira.
O que foi decidido confirmou o que já se sabia e vinha sendo denunciado há muito tempo. Ainda assim, tem gente inconformada, e com alguma razão dizem que Lula não foi absolvido de seus crimes. As decisões do que aconteceu em Curitiba foram anuladas e os processos foram remetidos para Brasília onde ele pode se tornar novamente réu e se julgado, vir a ser condenado.
Claro que esta possibilidade existe, mas esquecem o principal, o que foi decidido depois da anulação foi a perseguição a Lula que se deu sem a preocupação em apresentar provas. Lula foi primeiro condenado, depois julgado. Bastaram convicções para colocá-lo na prisão. Assim sendo, se os processos forem recebidos, existe a possibilidade de sequer serem levados a julgamento.
É preciso lembrar que os lavajatistas se vangloriavam pela condenação em segunda instância pelo TRF-4. Lá, em tempo recorde, Lula teve confirmada sua condenação e teve sua sentença precisamente aumentada para cumprir pena de prisão. Estes 3 desembargadores tiveram participação ativa no conluio e não podem ficar impunes. Eles serviram a mesma quadrilha e seus atos deram legitimidade aos atos de Curitiba.
Quando o STF diz que Moro foi parcial, está mandando um sinal claro a quem vier a receber as denúncias. Existem provas cabais no processo? Ele aponta os crimes cometidos e a ligação do acusado com eles sem sobra de dúvida? Enfim, a denúncia está consubstanciada de maneira a permitir uma acusação formal? Em outras palavras, existe a possibilidade concreta das denúncias não serem aceitas.
Todas as pesquisas eleitorais colocam Lula em primeiro lugar de preferência se as eleições fossem hoje, não importa contra quem. O povo lentamente começa a se dar conta de que foi ludibriado. Induzido a acreditar numa farsa, boa parte da população acreditou que aquele grupo de procuradores realmente desejava livrar o Brasil da corrupção e colocar os corruptos na cadeia, começando por quem diziam ser o master criminoso nacional.
Acrescente a isso uma boa campanha de marketing baseada em Fake News bancada pelos setores empresariais e divulgadas pela mídia conservadora, as vezes de fato, as vezes fazendo vista grossa pelas correntes de WhatsApp, e o resultado foi avassalador. O projeto de afastar Lula e destruir o PT foi quase alcançado. Estiveram muito próximos de alcançar seus objetivos.
O que talvez não contassem, é que aquele Meme que dizia que haviam colocado um idiota na presidência, mas não precisava ser tão idiota, era real. Mesmo sabendo do passado de Bolsonaro, acreditaram que os fins justificavam os meios. O resultado é que aquele idiota se mostrou um total inepto e levou o país ao fundo do poço. Incapaz de exercer o cargo para o qual foi eleito, é uma caricatura de si mesmo, um zumbi com a faixa de presidente caminhando sem rumo.
Claro que os terraplanistas e adeptos de teorias conspiratórias vão seguir louvando o que chamam de mito. Nada os fará desistir de seguir seu líder. Eles são como o ajudante de Drácula. Seguem cegamente o mestre não importa o quanto ele os use e humilhe, nunca vão deixar se enganar pelos comunistas que desejam retomar o poder. Sim o Brasil foi comunista, pouca gente sabia disso, mas aí já é outra história.
Desde o início a história da vacina SPUTNIK-V é uma coleção de eventos desnecessários que, como já escrevi há muitos meses, desonra as tradições científicas da “Grande Mãe Rússia”. Na largada, Putin fez um precipitadíssimo anúncio ao mundo que após ser testada em 72 voluntários tendo entre eles sua própria filha havia obtido o registro na agência reguladora sanitária de seu governo, algo absolutamente inédito em toda a história da ciência médica. Naquela época, minha crítica rendeu diversos ataques de setores da esquerda que interpretaram meu texto como um ataque à ciência russa e à herança soviética (sim, tem gente que pensa que Putin é de esquerda) quando eu já deixava ali, muito bem consignado, que quem estava atacando a ciência russa era o Putin, e não eu. Não bastasse este mau arranjo, o nome SPUTNIK certamente veio a ressuscitar os mitos da guerra fria, com endereço certo a partir do narcísico mosaico líder russo que transita entre uma figura de czar do velho império e o menos velho Stálin, astuto como as duas figuras.
A vacina SPUTNIK tem perfil no Twitter e vende-se bem, com maravilhosas estatísticas de eficácia e eficiência ainda não muito bem refletidas nas estatísticas de incidência e mortalidade, estáveis há um mês em inabalável média de 9.000 casos/dia e 400 mortes/dia. Anuncia ser capaz de evitar 91,5% das infecções nos vacinados, a mais alta de todas as vacinas até agora (veja gráfico abaixo). Está sendo usada em 60 países fora a Rússia, mas não obteve registro em nenhuma das grandes agências sanitárias da Europa, EUA e da nossa ANVISA, bem como ainda não logrou publicar suas estatísticas em nenhum grande periódico médico ou científico geral.
No Brasil, sua causa já foi judicializada, sendo que a justiça deu prazo terminal de 10 dias que se encerram nesta semana para manifestação da agência, sob pena de pela via judicial autorizar a importação do produto pelos governos estaduais demandantes.
A pergunta que não quer calar: por que o Instituto Gamaleya tem tantas dificuldades em fornecer os dados em quantidade e qualidade para que as agências reguladoras endossem o seu produto? Ou, se não há esta dificuldade, por que não vemos uma manifestação pública daquela instituição no sentido de defender-se de uma eventual acusação de falha no envio das informações necessárias? Esta novela parece não ter fim, e infelizmente, gera desgaste e desconfiança desnecessários em qualquer cenário, especialmente o atual.
De minha parte, não tenho qualquer razão para desconfiar da vacina SPUTNIK-V em si mesma. A Rússia não é um país fechado a ponto de impermeabilizar informações importantes sobre eventuais problemas ou fracasso da vacina, e da mesma forma, até onde sabemos os países que estão utilizando-a não apresentaram qualquer reclamação até o momento.
Sob o ponto de vista técnico, a SPUTNIK-V é uma vacina de vírus vetor, um adenovírus não infectante humano, diferente da Oxford-AstraZeneca que usa adenovírus símio e também semelhante à vacina da Janssen neste quesito. Logo, nada tem de excepcional e não haveria razão para que não se confiasse nela a princípio.
O assunto é importante, pois o mundo, e em especial o Brasil, sofre no momento de carência grave de vacinas com uma perspectiva ruim até o fim do ano, pelo menos. Esperamos que alguém dê uma explicação razoável para todo esse imbrólio.
PS (retistrado em 23/10/2021): A Rússia vive no momento uma explosão da pandemia, com participação de uma variante local, segundo se informa. Apenas 32% da população russa recebeu duas doses da vacina.
Foto: Eduardo Molinar
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A entrada de Felipe, ex-colega do Colégio Andrews e frequentador do Posto Nove, no Arrepio mudou muita coisa. Ligado ao teatro desde sempre, após deixar a escola tinha se tornado ator profissional e tinha impressionado a todos com um papel de destaque na peça Os doze Trabalhos de Hércules, de onde surgiriam muitas carreiras de sucesso no teatro brasileiro. Foi num papo de praia que arrisquei o convite para ser vocalista da banda. A gente se dava bem mas mesmo assim fiquei surpreso com seu interesse instantâneo. Talvez, como todos, estava morrendo de vontade de deixar sua marca no rock. Convocamos um ensaio de introdução que correu às mil maravilhas; ele curtiu nossas músicas de cara, sua voz era boa, sua presença de palco soberba e a química foi perfeita. Agora, com um novo vocalista de primeira, e com seus contatos, sentíamos que a banda era uma séria candidata à fama e à fortuna.
O show de estreia da nova formação foi num bar em Ipanema. O local era especializado em bossa nova, mas a mãe do Felipe, antiga frequentadora, tinha convencido o gerente a nos acolher. Não havia estrutura para bandas ali. Por isso, além dos instrumentos, fomos obrigados a pegar emprestado microfones e o equipamento poderoso cedido pelo Charles. Contudo, parecia bom demais para ser verdade e no dia fomos lá empolgados, sentindo que aquilo era o início de uma era de ouro. Enquanto subiamos e desciamos as escadas com aplificadores e partes da baterias e montávamos o equipamento no terraço, ficou óbvio que os funcionários, acostumados com músicos recatados de bossa nova, nos viam como invasores bárbaros ameaçadores e inusitados.
Com tudo montado veio a hora de passar o som. Não tínhamos engenheiro de som e mal sabiamos como manejar aquela parafernalia. Mesmo assim, depois de tocarmos duas ou três músicas e de ficarmos relativamente contentes com o que estavamos ouvindo demos uma parada. Quando estavamos nos preparamos para dar uma volta. o gerente, um cara elegante, baixinho e de cabelo engomado, subiu no terraço para falar conosco e manifestar sua preocupação com o volume.
“Gostei do som, animado, né?” Soou meio falso, mas, fazer o quê? “O problema é que aqui é uma área residencial e às vezes os vizinhos reclamam do barulho, sabe como é?”
“A gente conhece esse problema bem até demais.” A galera concordou com sorrisos.
“Pois é, se vocês entendem, melhor ainda. Eu queria pedir para vocês tocarem mais baixo. Seria possível?”
“Olha, já estamos tocando o mais baixo possível. O problema é a bateria. Ela não está amplificada. Tá vendo? Não tem microfone nenhum nela.” Estava na cara que o cara não estava entendendo nada, mas continuei tentando. “Se a gente tocar mais baixo, só vai dar para ouvir a bateria. Os instrumentos vão soar baixo. A bateria vai continuar no mesmo volume. Ou seja, não vai fazer diferença nenhuma, mas a banda vai soar mal.”
“Mas não dá para a bateria tocar mais baixo também?”
Querendo ser o mais prestativo possível virei para o Mauro: “Fala aê, Mauro? Dá para tu tocar mais baixo?”
A resposta não ajudou muito. “Cara, dá para bater mais fraco, mas o som sai nessa altura mesmo.”
O gerente não se deu por vencido. “Então tá combinado, hoje à noite vocês tocam mais baixo!”
Ele desceu e nos deixou ali, um olhando para cara do outro.
Mauro levantou de trás da bateria e falou: “Foda-se, vamos beber uma cerveja.”
À noite, os convidados começaram a chegar. O Felipe estava fazendo uma ponta em uma novela da TV Globo e por isso havia alguns rostos famosos bem como várias aspirantes a estrelas e umas beldades inacreditáveis entre os convidados. Talvez ciente disso, o gerente tinha mudado o visual do lugar. Tinham coberto o terraço com panos e colocado luz de velas. Tudo estava muito bonito. Quando o terraço encheu a gente ficou esperando o Felipe fazer a social dele. Quando ele veio dizer que estava pronto, pegamos os instrumento, o pessoal do restaurante apagou as luzes e deixou só as onde estavamos acesas, Felipe apresentou a banda de maneira teatral e começamos. A coisa foi bem. Dava para ver que tinha gente curtindo de verdade. No meio da segunda música, ouvi um barulho no meu ouvido. Quando olhei para trás vi que era o gerente gritando que estávamos tocando alto demais.
“Tá alto demais, baixa isso!!”
Tentando não perder a concentração respondi: “Não dá para tocar mais baixo por causa da bateria! ”
Ele sumiu e continuamos. Depois de uns outros dois números, o gerente voltou a bater no meu ombro no meio de uma música.
“Tem alguém querendo falar contigo lá embaixo!”
“Fala que não dá para eu descer agora!”
A próxima coisa que vimos foram seis policiais subindo as escadas. Entraram e foram direto nas tomadas e puxaram os fios dos equipamentos. O som e o clima bom morreram na hora, o show acabo. Todos ficaram boquiabertos vendo os caras descerem sem dizer nem boa noite.
Os dias com o Felipe foram poucos. Pouco depois daquele incidente ele assinou um contrato para um papel importante numa série de televisão e abandonou a carreira musical. Retornei aos vocais, mas discussões começaram a pipocar. Havia conflitos de egos, principalmente entre Eduardo e eu. Tinha o problema que o resto da banda estava preocupada em desenvolver suas habilidades enquanto eu confiava demais nas minhas. O Mauro e o Eduardo ainda estavam pegando aulas particulares – o que para mim era incompatível com o rock. Eles me pressionavam para fazer o mesmo e não conseguiam entender que não podia por causa de grana. Por outro lado, levava o negócio mais a sério que eles, acreditando que se conseguíssemos encontrar o nosso som, poderíamos ter sucesso. Os demais viam a banda mais como uma atividade divertida para os finais de semana. Continuamos, tentamos outros vocalistas, mas depois de um tempo, com a banda indo para lugar nenhum, acabamos enchendo o saco daquilo.
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Nossa música não era exatamente na moda. Aquela era a época dos góticos, novos românticos, punks e outras criaturas afins. O templo deles era uma boate em Copacabana chamada Crepúsculo de Cubatão. O nome era uma homenagem a Cubatão, uma cidade industrial no estado de São Paulo, famosa por ser o lugar mais poluído da América Latina. Um dos donos do clube era Ronald Biggs, o famoso ladrão de trem inglês, que fugiu de Londres para o Rio de Janeiro em 1970. O local parecia em outra cidade, senão em outro mundo. Sua decoração neoclássica exuberante misturava elementos clássicos com elementos futuristas e tudo o que se poderia esperar de uma casa noturna dos anos 1980. Os frequentadores eram diferentes de tudo o que se via nas ruas e se vestiam como vampiros, usavam maquiagem pesada e provavelmente nunca haviam tocado num baseado em suas vidas.
A música que saia do seu excelente sistema de som era de bandas praticamente desconhecidas e intencionalmente deprimentes como Joy Division, New Order, Echo and the Bunnymen e Bauhaus, todas ignorando as guitarras e abusando dos teclados, um sacrilégio para qualquer roqueiro raiz criado nos anos setenta. Com relação à paquera, para fazerem sucesso, os caras lá dentro tinham que parecer afeminados. Para alguem de fora, parecia não haver qualquer chance de sexo heterossexual. A entrada era controlada por uma gótica minúscula e invocada, protegida por dois seguranças nada fashion e apropriadamente gigantescos. Sempre havia uma aglomeração de esquisitos na porta implorando para entrar. Quem decidia o acesso era ela apontando o dedo e acenando a cabeça. Para os rejeitados ficava a sentença de morte quando virava para os seguranças e dizendo: “ela/ele parece gente boa”.
Pessoas estranhas passaram a surgir em festas e outros eventos sociais dando declarações sobre o pós-modernismo ou Nietzsche sem entender muito do que estavam falando. Londres era a nova Jerusalém daquela galera e as revistas inglesas iD e The Face, as novas bíblias. Naquele meio, tudo era uma mistura de pose com uma boa dose de arrogância social. A superficialidade ditava que os papos girassem em torno de tendências da moda nas revistas importadas ou nas bandas e artistas que melhor tinham abandonado a estética e a temática das décadas passadas.
Para muitos, pegar um bronze na praia era coisa de neanderthal e pouquíssimos aproveitavam as maravilhas naturais do Rio de Janeiro. Havia um absurdo elementar naquele movimento, se é que poderia se chamar disso. A beleza exuberante da cidade e o seu cenário natural eram perfeitos para a grandiosidade dos delírios tropicalistas de fusão cultural, de experimentação existencial e de gozo dos prazeres da vida inerentes aos anos setenta. O cenário carioca não tinha nada a ver com a temática urbana importada da cinzenta e distante Londres.
A ironia sobre a obsessão com Londres era que, considerando que era inglês de nascença, poderia ter aproveitado a oportunidade para me dar bem. Se não tivesse mergulhado tão a fundo no Brasil, teria. Ao invés disso, me apeguei a a noção de que era um revolucionário derrotado que se recusava a se entregar. Aquilo representavam o oposto do que eu amava e do que queria no meu mundo. De uma perspectiva cômica, era impressionante ver góticos e punks em jaquetas de couro pretas e botas saíndo de madrugada das festas num calor de 40 graus e desfilando em frente dos banhistas em biquínis e shorts de banho. Pareciam vampiros procurando caixões para se esconder até a noite, quando podiam sair das sombras para invadir a cidade.
Os punks de classe média então eram de um absurdo especial. As roupas que vestiam e os lugares que frequentavam não tinham nada a ver com o que os punks dos Sex Pistols e do Clash, inglêses da classe operária, queriam dizer ao gritarem “não há futuro”. Os punks ingleses ridicularisariam aqueles filhinhos de papai tirando onda usando sua rebeldia, enquanto a maioria dos “punks” da zona sul ficaria horrorizada se parasse para tentar compreendesr o conteúdo de protesto social do movimento. Se entendessem saberiam que, aqueles que tentavam personificar eram contra elitistas metidos a besta. A verdade é que as pessoas apinhadas nos ônibus da periferia industrial de São Paulo ou mesmo as que como eu etavam sendo esmagadas por um choque econômico ceifador de sonhos – eram muito mais próximas ao movimento punk. Caso tivésse alguma ideia sobre o que o movimento punk realmente representava teria aderido, provavelmente adicionando uma pitada tropical, mas para a a galera do rock carioca aquilo era apenas música ruim feita por gente estranha e negativa. Por causa da minha criação e da situação de estar aprendendo a viver num país em formação fez com que a expressão cultural mais importante da minha geração passase ao largo.
Havia muitas razões para estar zangado: o sistema que havia prometido um futuro brilhante para nós estava nos dando um pé na bunda. Mesmo assim, entre muitos havia o papo reacionário de que o momento era para a sobrevivência dos mais fortes. Para eles, só os fracos estavam se dando mal. Apesar do discurso, na prática, o que estava rolando era a sobrevivência daqueles com os pais mais ricos.
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“Teu dever é lutar pelo Direito, mas se um dia encontrar o Direito em conflito com a Justiça, lute pela Justiça”, Eduardo Juan Couture
Eduardo Juan Couture Etcheverry foi um consagrado jurista uruguaio, mundialmente reconhecido, contribuidor de uma teoria sobre o direito de ação, tema do Direito Processual Civil.
A justiça não deveria cometer erros, mas como tudo que é feito pelo homem, está sujeita, logo ela, a cometer seus equívocos. Temos de acreditar que tais erros nunca foram fruto do desejo dela de impor sua vontade. Precisamos crer na justiça como marco civilizatório que nos permite conviver em sociedade.
No entanto, os erros judiciais acontecem. Inocentes são condenados a cumprir penas por crimes que não cometeram. Culpados por um crime são inocentados para voltar ao convívio da sociedade. Isto acontece em todo lugar em todos os tempos, nem sempre reparados.
Os juízes precisam ser protegidos. Suas decisões precisam ser cumpridas. Não for assim, todo o estado de direito deixa de existir e a lei do mais forte passa a prevalecer. Os mais fracos serão submetidos a vontade de seus opressores e a verdade calada para sempre.
Em uma democracia, ninguém está acima da lei, perante ela somos todos iguais. No Brasil é o que acontece, porém existem os mais iguais e os menos iguais. Para uns o benefício da dúvida, para outros o rigor da palavra da lei.
A justiça prevê que um condenado em uma instância possa recorrer desta decisão de acordo com certos critérios. De uma certa maneira, é uma forma de tentar reparar erros que possam ter sido cometidos na instância anterior.
O Caso Lula ainda será matéria de estudo obrigatório em toda Faculdade de Direito. Tudo que envolveu este processo e culminou na prisão dele foi pautado sob uma enorme farsa. Pior, ela foi confirmada em várias instâncias.
Na justiça os crimes são julgados de acordo com a lei prevista e escrita, ou ao menos assim deveria ser. Para que um cidadão seja condenado por um crime que lhe é acusado, é preciso provar. A prova tem de ser cabal. Para um sujeito acusado de furto tem que ser comprovado que ele se apossou do objeto em questão pertencente a vítima sem o seu conhecimento e sem sua aprovação. Isto ocorrido, condena-se.
O que se viu no Caso Lula foi uma quadrilha paga pelo estado para condenar o ex-presidente e o afastar da vida pública. Uma vez condenado, passaram a criar o processo e a buscar as razões, legais ou não, para cumprir a condenação.
Transgressões processuais foram sendo cometidas até o ponto de se tornarem rotina, todas em conluio com o juiz do caso, que atuava como uma extensão do MP. O conluio era tanto que todos os atos eram previamente combinados e confirmados entre eles. Em uma situação como esta ao réu não resta outra coisa senão a conformidade.
Condenado em uma primeira instância sem provas, sem base legal, mas baseado em convicções, esperava-se que na instância seguinte tudo fosse revertido. O que se viu foi uma sequência de arbitrariedades. A quadrilha tinha seus tentáculos expandidos e a condenação veio em tempo recorde com a pena ampliada a fim de permitir a prisão do réu.
Então uma surpresa. Um hacker copia todas as trocas de mensagens daquele grupo de procuradores que se intitulavam os combatentes da corrupção, membros do último baluarte para levar os corruptos a cadeia, os membros da Lava Jato. E o que se viu em milhares de mensagens foi de fazer corar a justiça e envergonhar todo o processo legal.
O castelo de cartas desmoronou. Na troca de mensagens, o que foi sendo publicado mostrava o que a defesa do presidente vinha alardeando desde o início, a Lawfare, o uso da lei como perseguição política. Escancarou-se a Caixa de Pandora e o que saiu dela estarreceu até mesmo os mais céticos. Agora, depois do réu cumprir prisão, descobre-se que o caso sequer poderia ter sido julgado por seus algozes. Nem importam as atrocidades jurídicas cometidas por eles.
Graças a estes criminosos o Brasil perdeu milhões de empregos, levou a falência empresas, deixou de arrecadar bilhões em impostos e o pior de tudo, permitiu a eleição deste genocida que aí está como presidente.
Quando o país se aproxima de 400 mil mortos pelo Covid, lembrem-se de que estas mortes também estão nas mãos de Moro, Dallagnol e seus asseclas. Se a justiça não tivesse sido estuprada por eles, não teria nascido o filho desta relação incestuosa e o Brasil de hoje não estaria assistindo um presidente dançando sobre as covas abertas para receberem tantos brasileiros.