Des-embarradores e nossa conivência

Des-embarradores e nossa conivência

Cartão postal do Brasil. Uma mulher pobre, mãe de cinco filhos, pobre, dependente química, pobre, desesperada e pobre rouba uma C*c* Cola, suco em pó e miojo para levar para casa. Ela é presa, indiciada e encarcerada. Pede-se então que ela permaneça em liberdade aguardando julgamento. Isto seria em si uma medida lógica, em se considerando que ela tem filhos pequenos para cuidar. Ainda, invoca-se decisão que permitiu liberdade para Claudia Ancelmo ao se alegar que ela, rica, organizada, rica, com um exército de subalternos, rica, cheia de advogados, rica, midiática, independente cínica e rica, tinha um filho menor e precisava estar em casa para exercer suas tarefas de mãe [?]. O desembargador Farto (não é uma piada pronta?!) resolveu não conceder a liberdade à pobre, pois ela é reincidente – ela já tinha roubado comida e produtos de limpeza.

Se não fosse aviltante ao ponto que é, caberia até uma discussão de por que uma pessoa rouba, por que refrigerante e o diabo a motoneta de quatro tempos. Mas é o Brasil, na América Latrina, onde tudo se pode e onde não há impossíveis.

Um conhecido, renomado acadêmico e professor de direito, com vasta trajetória e ainda maior ação democrática, parabeniza católicos em ocasião de mais um aniversário e festejo da Nossa Senhora Aparecida. Ele, judeu, comemora a fé e celebra a beleza da data. Chegam comentários admonitórios nas suas redes, de mãos de evangélicos, repreendendo-o por ter co-comemorado data. Mais um cartão postal do Brasil teocrático de uma via só.

O que estamos fazendo todos nós aqui, lendo e escrevendo sem fazermos nada mais que revirar os olhos e soltar fogo pelas vendas?

O País está sendo desmantelado, desmatado, desumanizado como nunca antes em “democracia”. Quem aqui nasceu e cresceu, e tem idade para relatar mais de um regime, pode corroborar. Isto é, se não tiver sido cooptado, captado, ou simplesmente nunca educado civicamente. E são tantos e tantos milhões! De que adianta ter uma das maiores populações, territórios e riquezas do planeta, para acabar como massa de manobra de genocidas hoje e sociopatas sempre?

Enquanto isso, devo insistir, na tépida luz da nossa formação e sob o aconchegante edredom na nossa cama confortável no nosso quarto isolado nas nossas residências com serviços em dia, reviramos os olhos e descemos o dedinho na tela. É isto o que somos chamados a resolver? É, por acaso, digno do nosso privilégio agirmos com tamanha conivência? Ora, que sei que a maioria dos leitores é branca, educada, urbana, central e bem empregada; não perdoemos de praxe nossa fraqueza e falta de engajamento. Que judaísmo é esse que não levanta a cabeça, que não estende a mão? Que humanismo me vendem que não peita a ruindade de cada minuto? Que educação libertária que não se reproduz como premissa?

Dormimos sob os louros colhidos de termos achado um leitmotiv que nos define, porém, ao mesmo tempo desengaja: Resistência Democrática.

Esta resistência deveria nos tornar exploradores e criadores de uma re-existência, de uma reassistência, de uma re-insistência. Mas não: ao invés disto, operamos feitos claque partidária de uma ação que não nos é própria, iludindo-nos que alguém a está desenvolvendo. Envergonhemo-nos!

Já que somos tão freirianos, freudianos, paisanos, e nos declamamos humanos, tenhamos um módico de pragmatismo.

Poste geral da República, faz o que promete: finge que combate a criminalidade política

Poste geral da República, faz o que promete: finge que combate a criminalidade política

Ao ser reconduzido ao cargo, em 23 de setembro, disse que não cabia ao Ministério Público atacar pessoalmente indivíduos, instituições, empresas ou mesmo a política, pois “é preciso diferenciar o combate à criminalidade na política e a criminalização dos atos políticos”. Como se o seu papel não fosse, pura e simplesmente, o de investigar e denunciar (ou não) os autores de atos ilegais e ilícitos. Coisa que ele não fará jamais, já que sua missão é de proteger Bolsonaro, família, governo e amigos.

Enquanto não resolve esse dilema, Aras deixa atrás de si uma esteira de impunidade de políticos, que no fundo deveriam ser tratados como são, ou seja como criminosos; a começar pelo seu chefe, o ocupante do Palácio da Alvorada.

Na segunda-feira, dia 4 de outubro, o procurador-geral da República foi surpreendentemente rápido (normalmente ele só age depois de tomar várias broncas dos ministros do STF) ao anunciar a abertura de uma apuração preliminar ao encontro do ministro Paulo Guedes e do presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto.

A presteza de Aras, em princípio digna de aplausos, pode ser enganosa, já que « apuração preliminar » é uma expressão jurídica pomposa que prenuncia que o caso vai dar em pizza. Não é a primeira vez que, pressionado pelos fatos e pelos juízes da Corte Suprema, ele usa esta artimanha para «empurrar com a barriga », provavelmente até o arquivamento das investigações.

Como disse o próprio PGR, a apuração preliminar é aberta quando existe « lastro probatório mínimo em torno da prática de um crime ». Em outras palavras, se reconhece a existência de um ato muito próximo do crime, mas se quer dar tempo ao tempo ao invés de levar as investigações adiante. É uma espécie de pré-investigação que, talvez um dia, leve a uma investigação de verdade que, talvez um dia, desemboque ou não numa denúncia ao Supremo. Enquanto isso o tempo passa e nada acontece.

Dessa vez, Augusto Aras usa o argumento de que precisa ouvir Paulo Guedes antes de pedir a abertura de um inquérito, pois por enquanto tudo não passa de notícia de jornal. E, como se sabe, Aras não tem o menor apreço pelo trabalho jornalístico.

É evidente que o procurador-geral poderia abrir diretamente uma investigação, já que o artigo 5 do Código da Administração Federal proíbe funcionários do alto escalão de manter aplicações financeiras no Brasil ou no exterior, passíveis de serem afetadas por medidas governamentais. O conflito de interesse é portanto claríssimo, ainda mais que graças à politica econômica por ele implantada, Guedes ganhou muitos milhões com o aumento do dólar.
Desde 2019, a alta da moeda americana fez com que a sua conta valorizasse 18 milhões de reais.

Guedes é dono de uma empresa chamada Dreadnoughts, com sede no paraíso fiscal das Ilhas Virgens britânicas.
Vale a pena lembrar a famosa frase pronunciada por Guedes no primeiro ano de governo: “O dólar está alto? Problema nenhum, zero.” Ou aquela outra com a sua cara: “ Com dólar baixo até empregada doméstica ia à Disney.”

Enquanto isso, ele ficava mais rico…

Em 2014, Paulo Guedes Guedes abriu a conta da offshore numa agência do banco Crédit Suisse, em Nova York, depositando 9,55 milhões de dólares, o equivalente a 23 milhões de reais na época. Em 1° de janeiro de 2019, ele tinha 34,67 milhões de reais; hoje, mais de 52 milhões de reais.

O ministro defendeu o câmbio mais alto e foi contra a taxação dos depósitos de brasileiros fora do país. Foi ele quem retirou do projeto de reforma do Imposto de Renda o artigo que tributaria recursos em paraísos fiscais.

Isso prova, por A mais B, que além do conflito de interesse há também um conflito moral e ético, pois quanto mais o dólar sobe mais rico ele fica e mais pobres ficam os brasileiros. Seus advogados defendem que Guedes não atuou em causa própria, que jamais se beneficiou no âmbito privado de qualquer política econômica brasileira”. Honestamente, os números e os fatos são implacáveis; será impossível provar que ele não se auto-beneficiou.

No entanto, Augusto Aras preferiu o caminho tortuoso da apuração preliminar, talvez com o objetivo de ganhar tempo enquanto aguarda orientações de Bolsonaro, que tem agora uma oportunidade única de queimar definitivamente seu ministro . A decisão do Ministério Publico de abrir ou não uma investigação judicial que pode demorar anos. Ou ser arquivada rapidamente.

Quanto à Paulo Guedes e Roberto Campos Neto, como ministro e presidente do BC, tinham a obrigação ética, moral e legal de fechar suas contas nos paraísos fiscais e repatriar o dinheiro antes de aceitar os cargos. Na melhor das hipóteses não o fizeram por leviandade.

O ciclo da danação eterna

O ciclo da danação eterna

Uma das características marcantes do fascismo e suas recorrências é a uniformidade da estrutura de pensamento de seus líderes e praticantes, marcadamente infiltrada pelo pensamento religioso que se sedimenta no formato de crenças, dogmas e pressupostos sofismáticos e inquestionáveis à luz da razão. Razão, aliás, nascida sim de uma ideologia refletida pelo iluminismo clássico, que no século XVIII ganha o ocidente com a meta de transformar governos absolutistas em democracias, e que, para tanto, tem a necessidade de propor uma nova visão de mundo baseada na liberdade de pensamento, de busca da verdade, do compartilhamento de conhecimento, e de métodos de estabelecimento de verdades desprovidas de personalismos e desejos primitivos, do reconhecimento da igualdade entre os seres e por metas de progresso visando a proteção de todos os cidadãos dos estados-nação.
É muito claro que a compreensão de um mundo de complexidades com vistas ao sacrifício dos desejos e visões pessoais e a formulação de objetivos e métodos que nem sempre (ou quase nunca) serão direcionados aos caprichos do indivíduo depende de um sistema de educação e formação de indivíduos que possa resumir em uma existência – ou melhor, em um período de uma existência – todo o complexo conjunto de acontecimentos transcontinentais que precederam e fomentaram o movimento iluminista.
No cume do processo de transformação iluminista está a ciência, que através de dois ou mais séculos veio conquistando lentamente a confiança de partes da sociedade como fonte de verdades “democráticas”, ou seja, verdades “testáveis” e verificáveis por qualquer um que possa reproduzir um dado experimento nas mesmas condições e assim obter os mesmos resultados.
Como nada é perfeito, as sociedades pós-iluministas cresceram e multiplicaram-se muitas vezes com heranças culturais e físicas dos regimes anteriores. Muitas delas, mormente no oriente médio e oriente sequer fizeram uma transição entre o tribalismo e algo parecido com o medievalismo, e assim, jamais enfrentaram estas questões em um processo de formação de sociedades complexas e eventualmente transnacionais, onde a noção e existência de um estado gestor da nação seria o eixo desse desenvolvimento e diversificação dessas sociedades. Não surpreende, portanto, que essas sociedades hoje em choque cultural com os estados pós-iluministas sejam tomadas por práticas e líderes religiosas vistas pelo ocidente como radicais e fanáticas, mas que curiosamente têm, nos estados-nação ocidentais, visto o renascimento dessa estrutura de pensamento e poder ressurgindo no âmago da sociedade. No caso particular do Brasil, a tomada do poder pelo pensamento religioso é um grave sintoma da desorganização da sociedade obtida pela contínua quebra dos laços de confiança que deveriam nos unir. Esta quebra, por sua vez, alimentada pela contínua frustração gerada pelas desigualdades crescentes em ritmo alucinado e que têm como trágica consequência o progressivo desgaste e desorganização dos sistemas de educação, refletidos em números vergonhosos.
Fechando macabramente esse ciclo, o número de pessoas incapazes de compreender e de se engajar em uma sociedade complexa, verdadeiramente livre, e psicologicamente capaz de converter um certo número de frustrações em modos de ação articulada capaz de induzir transformações sociais progressivamente diminui, e em contrapartida, aumenta o número das que, pelas vulnerabilidades psicossociais e culturais, formam a massa crítica necessária para que as tentações simplificadoras e salvacionistas do fascismo ganhem força, o que tragicamente, e frequentemente, é alimentado pelas grandes mídias e hoje ainda alavancadas pelas redes sociais.
Por este olhar, fica muito claro que a desigualdade é um pathos em si mesmo, no sentido de que a se julgar pelos acontecimentos mundiais das últimas décadas, verifica-se que é uma condição que cria um círculo vicioso que só piora a condição em si mesma, gerando mais concentração de poder político, econômico, e poder de fato.
Felizmente, e espero que não temporariamente, no caso do Brasil a opinião pública revelada nas pesquisas recentemente publicadas vem apresentando forte reação no sentido de rejeitar o sistema político ora no poder, e valoriza um sistema que previamente trabalhou no sentido contrário do atual, mas ainda assim, mostra fragilidades na habilidade de “ligar os pontos” dessa complexa teia de acontecimentos, poderes, mídia e pessoas, e assim elaborar um projeto político que nos vacine de uma vez por todas contra o fascismo e suas mil caras, e que reabilite o ciclo virtuoso de fortalecimento de laços sociais e de confiança.
Do contrário, teremos o ciclo da eterna danação.

A Casa Grande julga como classe social

A Casa Grande julga como classe social

Esta semana, uma mulher de 41 anos, mãe de 5 filhos foi presa pelo furto de mantimentos no valor de R$ 24,69. O pedido de liberdade foi negado duas vezes pela justiça.

No pedido de liberdade, os defensores públicos usaram do princípio de insignificância, um entendimento do STF desde 2004. Três desembargadores negaram o pedido de Habeas Corpus.

Segundo o desembargador Júlio Caio Farto Sales, “Vale dizer, a inexpressividade econômica da lesão ao bem jurídico não pode, por si só, ser invocada para a aplicação indiscriminada do princípio, como verdadeiro beneplácito aos ladravazes que, diante de tamanha impunidade, sentir-se-iam ainda mais motivados à prática reiterada de crimes, tal como ocorre no caso concreto”. Em tradução livre, seria mais ou menos isso: mesmo sendo um valor insignificante, não se pode aplicar este princípio porque seria dar razão aos ladrões que diante de tamanha impunidade, se sentiriam a vontade para continuar roubando.

Os desembargadores acreditam que a decisão de libertar uma mulher pelo furto de cerca de vinte e cinco reais em mantimentos receberia uma divulgação de tamanha magnitude, que massas de ladrões se sentiriam a vontade para tal prática e o fariam de imediato invadindo negócios para tal prática. Em resumo, lugar de pobre e faminto é na cadeia.

Quem for no Google e procurar por casos similares vai encontrar vários casos similares e as decisões são praticamente um copia e cola nesta corte. O entendimento pacificado, ou seja, não tem mais o que se falar, é de que não importa o valor, importa a intenção e a prática do crime, ponto final.

Para o crime de estelionato, obter vantagem ilícita em prejuízo alheio, o Código Penal prevê pena de reclusão de um a cinco anos, e multa. Se o crime for cometido contra pessoa idosa, aplica-se o dobro da pena. Neste caso, não importa se o cara roubar bilhões em uma pirâmide financeira. Se não envolver idosos, vai pegar no máximo cinco anos de reclusão e vai pagar uma multa. Ao sair, vai usufruir do que arrecadou.

Vale aqui recordar o assassinato da jornalista Sandra Gomide. Seu assassino, réu confesso, o também jornalista Antonio Marcos Pimenta no ano 2000 é um exemplo ímpar de como se julga um pobre e um rico no Brasil. Preso somente em 2011, cinco anos depois já estava no regime semiaberto.

Pelo visto, quando um rico e famoso assassina alguém, não é necessário decretar sua prisão provisória, tampouco dar um exemplo para a sociedade afim de que as massas de assassinos ricos e famosos, não saiam as ruas para matar.

Hoje no Brasil, cerca de 20% da população carcerária é de cidadãos que pagam por crimes que não cometeram. Um exemplo que presenciei em uma visita a um presídio no Rio de Janeiro anos atrás mostra o significado do preconceito judicial no Brasil.

Estávamos sentados, eu e o diretor quando um preso que prestava serviços no gabinete dele entrou e nos serviu café. Quando ele se foi, o diretor me contou quem ele era. Um gaúcho do interior de vinte e poucos anos que havia deixado a sua cidade para vir morar no Rio de Janeiro devido ao preconceito contra gays onde vivia. Passado uns meses, um amigo telefonou e disse que vinha para a cidade, se poderia pousar na sua casa. Claro que sim, disse ele, podes vir.

Ao chegar no Rio, o amigo telefonou dizendo que estava a caminho. Ao chegar, deixou sua bolsa de viagem e desceu para comprar cigarros. O que ele não sabia é vinha sendo seguido pela polícia que o deteve, arrombaram a porta do apartamento e encontraram drogas na bagagem que ali havia recém sido deixada.

Para resumir, o jovem pegou 11 anos de cadeia. Como havia estudado, ajudava outros presos em petições a justiça e trabalhava no gabinete do diretor. Todos na cadeia sabiam que ele era inocente, que não tinha envolvimento com drogas e não fazia ideia do que seu amigo transportava na bagagem. Nada adiantou, incapaz de contratar um bom advogado, foi preso, julgado e condenado.

Em dezembro de 2013 um helicóptero da família Perella foi flagrado com 450 quilos de cocaína no Espírito Santo. O culpado foi do piloto que fez uso da aeronave para transportar a droga. Quanto aos Perella, seguem livres, leves e soltos.

Poderia ainda falar das malas de dinheiro do Geddel, mas já seria chover no molhado.

 

 

O bolsonarismo é um tóxico

A mente humana (e talvez não só a humana) pode funcionar como uma verdadeira caixa de ressonância, onde qualquer “onda” pode provocar um colapso. Talvez o exemplo mais claro e simples é a convulsão, onde uma sequência de disparos anormais de pequenos agrupamentos neuronais se propagam, sob o ponto de vista de uma abordagem da mecânica ondulatória, como um processo que reverbera em vizinhanças cada vez mais largas a ponto de que as ondas de impulsos neuronais (referidos grosseiramente como “ondas elétricas”) ganham sucessiva e rapidamente os territórios cerebrais a ponto de suprimir a consciência e provocar uma certa ressonância no corpo inteiro da vítma, levando-a à perda de consciência e aos movimentos tônico-clônicos conhecidos. Como tudo em função neuronal se traduz em “ondas” de despolarização/repolarização que se propagam por circuitos que tem regulagens químicas ponto a ponto (nas sinapses, que são pontos de comunicação entre os neurônios), a função de determinados circuitos pode ser modulada por agentes químicos. Assim, conseguimos com medicamentos modular certas funções neuronais, para por exemplo, “quebrar” as vias de ressonância ou reverberação, impedindo assim, que algo se propague para todo o cérebro, e eventualmente, também estabilizando a função de grupos neuronais “rebeldes”, que geralmente assim o são por pequenas mutações genéticas que afetam a função de bombas e canais de íons (de sódio, potássio, cálcio) nas respectivas membranas celulares.

Substâncias químicas outras podem também induzir alterações de função neuronal/cerebral produzindo sensações de prazer e recompensa e também alterações de consciência (muitas vezes descritas como “expansões”) e que produzem na pessoa compreensões da realidade que normalmente não são atingidas no estado “natural” ou na ausência dessas substâncias. Ocorre que o uso repetitivo de certas substâncias pode (como o álcool, opiáceos, e mesmo certos medicamentos) induzir fenômenos de tolerância e dependência, de modo que as doses necessárias para a obtenção do efeito aumentam progressivamente e estabelece-se um círculo vicioso que causa intenso mal-estar no estado de abstinência da substância, que pode ter consequências fatais.

O conhecimento atual das funções da mente (entendendo “mente” como o “produto” da função cerebral) permite-nos afirmar com segurança que o caminho reverso existe. Ou seja, se usarmos como “entrada” no cérebro apenas certos conjuntos de idéias ou vivências repetitivas e de forma consistente, o sistema progressivamente incorpora modos de função que se refletem fisicamente em modulações químicas e formação de circuitos funcionais que passam a ser uma representação física de uma experiência meramente abstrata. Assim podemos compreender a razão de certos comportamentos que as pessoas tem, e com grande frequência os que vivem sofrimentos mentais ou psíquicos, de se desfazerem de idéias e comportamentos “ressonantes” ou repetitivos em suas vidas, nos mais variados graus de complexidade e peculiaridades individuais. Se por um lado a teoria psicanalítica nos fornece bons substratos para o entendimento da gênese de certas emoções e comportamentos, a ação química sobre o cérebro, modulando a função de certos circuitos pode aliviar muitos sofrimentos e abrir o caminho para o estabelecimento de novos padrões e diminuição da dor psíquica.

Saindo do mundo do indivíduo podemos teorizar e verificar, com as devidas metodologias ao alcance da psicologia das massas e da sociologia, que as ideias circulam na sociedade de forma semelhante à função neuronal em um cérebro. Talvez o exemplo mais clássico seja a presença das “modas”, que são hábitos e práticas que muitas vezes ganham a sociedade de forma verdadeiramente epidêmica e se propagam como uma onda convulsiva, seja por uma simples expressão de linguagem até uma forma de vestimenta ou hábito alimentar, formando um conjunto de mudanças de comportamento coletivo movidas basicamente por desejos individuais que se manifestam coletivamente em um determinado espaço físico e de tempo.

Todos os coletivos humanos (e talvez a maior parte dos não humanos) subsistem por graça das relações de confiança, que fortalecem permanentemente o sentido de que a grande maioria dos membros do grupo têm objetivos comuns e comunicam-se por símbolos (linguagem) aceita e compreendida por uma expressiva maioria. Mas, vez por outra, a história nos ensina, as sociedades chegam a um certo nível de evolução onde um dado conjunto de sofrimentos psíquicos representados por sensações de insegurança, desconfiança, incompletude, podendo evoluir para ideações paranóides, passam a afetar um número progressivo de indivíduos até a formação de uma massa crítica, que funciona como caixa de ressonância e reverberação, a ponto de causar uma verdadeira convulsão social, que dependendo de sua extensão, pode inflingir danos consideráveis a um dado agrupamento.

O Bolsonarismo emerge na sociedade brasileira como uma verdadeira droga capaz de produzir alívio temporário de diversos sofrimentos psíquicos para seus autores, que pelas mais variadas razões não desfrutam de uma conexão confortável com a sociedade. Sua fórmula segue princípios gerais sempre presentes no fenômeno político descrito como fascismo, através de simplificações, personalizações (que exploram os mitos mais regressivos), negações, exclusões, e principalmente, a destruição dos círculos de confiança coletivos para que possa se impor o autoritarismo e uma dada visão de mundo.

Não seria exagero dizer que o bolsonarismo funciona como remédio para seus praticantes assim como certas drogas “ilícitas” o fazem. Já é bem conhecido pela prática psiquiátrica que os dependentes químicos são em sua maioria pessoas que encontraram substâncias químicas antes do psicólogo, do psicanalista ou do médico. Como já vimos acima, ideias em ressonância podem expandir e suprimir consciências, sejam agradáveis ou não. As práticas místicas e religiosas, ainda quando desprovidas de estímulos químicos tradicionais de certas culturas, produzem algum alívio e bem-estar.

Também não seria exagero afirmar pelo que conhecemos sobre os bolsonaristas praticantes, que o bolsonarismo vai além da figura patética de um ignorante e brutal frustrado crônico. Nos últimos anos pudemos observar sem dificuldades a impermeabilidade e a estanquicidade do pensamento desses grupos e de uma extraordinária uniformidade de seus formatos de pensamento, que se fossem traduzidos para um programa executável em computadores não requeresse talvez mais que meia página de código.

Mas, como também já pudemos observar, o bolsonarismo tem um potencial destrutivo para a nossa sociedade talvez inferior apenas ao álcool, funcionalmente e epidemiologicamente enquanto efeito tóxico, indutor de dependência, de violência, destruição e morte, e daí, a sua devida classificação como tóxico, se enxergarmos a sociedade como um organismo vivo em suas relações intrínsecas e extrínsecas.

É claro que sociedades doentes, da mesma forma que indivíduos doentes, são propensos a procurar e eventualmente encontrar soluções rápidas e simples para os seus sofrimentos. O bolsonarismo representa assim, na minha visão, a propagação de uma grande onda de ideias capazes de aliviar sofrimentos de indivíduos dispersos na sociedade e que com grande auxílio da tecnologia e sua rapidez de comunicação despertou com grande velocidade os desejos mais regressivos e primários dessas pessoas, que ora nos ameaçam e aprofundam nossas doenças crônicas enquanto sociedade. E até a chegada de algum “remédio” ou “tratamento”, funcionará como um verdadeiro “crack”. Quem já tratou um dependente de crack sabe do que falo.

Garanta sua vaga na faculdade: mate o japonês que senta a seu lado

Garanta sua vaga na faculdade: mate o japonês que senta a seu lado

Vi esta inscrição algumas vezes, em portas de banheiros de dois cursinhos pré-vestibulares diferentes, em 1977 e 1978. Na face interna da porta e à altura de quem estava sentado, certamente fazia parte do que melhor seus autores conseguiam produzir, em lugar apropriado para excreções e excrescências.  Esta frase ficou registrada em minha memória, e voltou à tona nestes últimos tempos. Brincadeira com fundo elogioso para a competência de muitos orientais (“japoneses”) nos vestibulares? Demonstração potencialmente perigosa de inveja assassina? Ambos?

Vivíamos sob a ditadura, ainda sob o tacão do AI-5, com abertura incipiente sob ameaça da linha dura do exército. Ainda “falando de lado e olhando pro chão” (Chico), pichações e inscrições feitas às escondidas eram formas de expressão frequentes. No Brasil onde o mito da democracia racial era cantado em verso e prosa pela ditadura de modo imperativo, manifestações de intolerância contra minorias eram abafadas. Falava-se de lado do “japonês do Geisel”, o ministro das Minas e Energia Shigeaki Ueki, depositário de preconceitos contra esta minoria. O ministro seguinte da mesma pasta, César Cals, foi questionado por constar em relatório secreto que vazou de seu ministério em 1980, que “setores da comunidade judaica” faziam parte daqueles que orquestravam uma suposta campanha contra o programa nuclear brasileiro. É claro que a imprensa (sempre ela) também foi acusada pelo complô, mas tudo isso era rapidamente abafado naquele Brasil-país-do-futuro. Parafraseando o general-presidente Figueiredo, “quem negar que somos uma democracia racial, eu prendo e arrebento!”

Na esteira destas recordações, vieram outras. Em 1978, quando o professor de História do cursinho falou na política genocida de Hitler, um colega coreano se vira para mim e diz: “se Hitler fez isso com os judeus, é porque alguma coisa eles fizeram”. Retruquei com a mesma violência: “e se o Japão fez o que fez com os coreanos durante a guerra, é porque alguma coisa eles fizeram. É isso?” No ano seguinte, um colega de turma da faculdade, também coreano, quando soube que eu era judeu, abriu um sorriso e falou de sua admiração pelo povo judeu: “90% dos Prêmios Nobel vão para os judeus!” Apenas sorri, sem contestar sua falsa estatística, inflada às alturas. Com pouca diferença de tempo e vindo de duas pessoas do mesmo extrato minoritário e faixa etária, duas falas distintas que se unem pelo preconceito para com outra minoria. Da culpabilização das vítimas à idealização fantasiosa, são faces opostas da mesma moeda. Como não lembrar de Martinho Lutero? Ao iniciar sua Reforma, tinha opinião positiva sobre os judeus. Em “Que Cristo Nasceu Judeu”, disse que, se os judeus ainda não aceitaram Cristo como messias, é porque a Igreja Católica sempre os maltratou e excluiu. Com o tempo, ao constatar que os judeus não adeririam à sua igreja reformada, virou um antissemita furibundo. Textos dele como “Os Judeus e suas Mentiras” foram citações constantes nas campanhas nazistas. Eis um bom exemplo de como, a depender da época e das circunstâncias, o preconceito inicialmente positivo muda de sinal, com consequências funestas. O ódio pode vir embrulhado em belas embalagens. Quando abertas, pode ser tarde.

Ódio este que, com o governo Bolsonaro, saiu do armário. E saiu orgulhoso de sua ignorância e macheza, com armas à mão e munição de sobra, estimulados e acobertados por um sociopata que usa e abusa do discurso violento contra todos que se opõem a ele. Basta abrir os jornais e ver a quantidade de negros, indígenas, transexuais e mulheres que morrem quase todo dia de modo violento, além das ameaças constantes a seus desafetos. Este é o clima. Com a pandemia, veio também o preconceito contra orientais, acusados de disseminar o “vírus chinês” e lucrar com sua “vachina”, discurso de Trump, ídolo confesso de Bolsonaro. O capitão não inventou o racismo e a misoginia, mas joga lenha na fogueira da intolerância quase todo dia. Triste constatar também que tem judeus que ainda se iludem com a face oposta da moeda do preconceito com que o capitão joga. O Bolsonaro “amigo dos judeus”, que empunha a bandeira de um Israel superior, criação de delírios religiosos, é tão sincero quanto o recente “amigo dos índios”, cocar à cabeça, ao lado de índios recrutados para a pantomima. Ainda não perceberam que os únicos amigos de Bolsonaro são seus filhos, e que os aliados de hoje podem ser descartados a qualquer hora. Quanto aos judeus que se sentem lisonjeados pela “amizade” do capitão, certamente inflariam o peito de orgulho com os “90% de Prêmios Nobel” de meu colega de faculdade. Não aprenderam a lição da História, a melhor das professoras, de que vestir a fantasia de Povo Eleito pode, em outras épocas, elegê-los para o pior dos mundos.

Para finalizar, volto às privadas e suas descargas de ódio. Aquelas inscrições sugerem uma meritocracia às avessas, que dispensa esforço: vence quem elimina seu concorrente, literalmente. Hoje, teriam que eliminar também cotistas, algo que só alimenta seu ódio aos diferentes. Cotistas que, aliás, se saem muito bem ao final dos cursos, na comparação com seus colegas não cotistas. Na era das redes sociais, nunca foi tão fácil culpar os diferentes pelas próprias dificuldades, algo bem menos trabalhoso do que, por exemplo, participar da luta pela defesa do ensino público gratuito. O ódio está ao alcance dos dedos. Nas mãos de populistas como Bolsonaro, o ódio é combustível para se manter no poder, ao culpar os bodes expiatórios da ocasião pela própria incompetência. Estejamos atentos para o ódio, em suas mais diversas embalagens e disfarces.