Samba Perdido – Capítulo 03, parte 01

Capítulo 03

Todo menino é um Rei.”

Roberto Ribeiro

 

Sexta-feira, 23 de novembro de 1968 foi um dia único. A poucos quarteirões do nosso apartamento, a Rainha Elisabeth II estava dormindo hospedada no Hotel Copacabana Palace.

Se estivesse acordada de madrugada, teria se maravilhado com o espetáculo diário do sol clareando o horizonte. A beleza do mar refletindo o céu aberto e evaporando sua agua no ar fresco desencadeava o cantar dos pássaros nas milhares de árvores das ruas entre os prédios do bairro. Essa sinfonia soava no bairro inteiro, quer na sacada do hotel, quer no nosso quarto no décimo segundo andar. Ao fundo, dava para ouvir ondas quebrando ritmicamente na praia, sua espuma salpicado a areia, indo e vindo na vastidão.

Meu pai saiu para sua caminhada diária enquanto a Rainha, sua comitiva, Renée,

Sarah e eu continuávamos no sétimo sono protegidos por ar condicionados barulhentos.

Nosso despertador tocou às seis e quinze da manhã em ponto. Por mais que a preguiça tentasse me convencer de que nada tinha acontecido, não dava para ignorar o barulho metálico alto e irritante. No estupor, vi o vulto da Sarah se levantar e aliviar a situação desligando o aparelho. Já com onze anos, estava com sua sua cabeleira negra, comprida e despenteada envolvendo seu pijama favorito até o ombro.

Me ignorando, não só ligou a luz como também fez um barulhão abrindo o armário para tirar suas roupas. Depois, saiu para tomar banho. Quando abriu a porta, o ar quente invadiu o quarto. Lutando contra a claridade e o calor de baixo da coberta, num esforço sobre humano, me estiquei para ligar o rádio de pilha deitado no chão.

Assim que deu para ouvir seu ruído, girei o sintonizador até achar a Rádio Globo. Quando consegui, entrei em sintonia com o Rio de Janeiro. Essa era rádio preferida das domésticas, dos porteiros e de outras pessoas comuns. Para mim era o Brasil em estado puro, eu adorava mas ninguém em casa conseguia entender como nem porque.

O apresentador bem-humorado com uma voz de cantor de ópera, Haroldo de Andrade, conduzia o show matinal de maior audiência da cidade. Nele, além de fazer orações, transmitia notícias, divertia os ouvintes com curiosidades e fazia entrevistas com astros do futebol, do samba e das novelas. Era um programa interativo em que gente da cidade inteira ligava para deixar opiniões sobre os assuntos do dia. Durante os intervalos, tocava os últimos sucessos do samba e hits da Jovem Guarda: Jerry Adriani, Wanderley Cardoso, Wanderléa entre outros. Roberto Carlos, o rei, devia ser muito caro para tocar naquele horário. Também havia a participação do astrólogo da programa, Alziro Zarur, que lia suas previsões com uma música mística, meio oriental ao fundo.

“Aquela porcaria” – que era como minha irmã se referia a meu programa de rádio favorito – estava no ar quando voltou do banheiro enrolada na toalha. Sem falar uma palavra, irritada com minha preguiça, mudou de estação, desligou o ar condicionado já fraco, abriu as venezianas de madeira e me mandou sair do quarto para que pudesse se vestir.

Ficou difícil dizer o que era mais irritante: não ser o mais velho, ser acordado daquela maneira ou simplesmente ter que levantar tão cedo. De qualquer forma, se me acordar era o que queria, funcionou. A luz forte e a música americana chata mataram o que restava da minha morbidez.

Antes de qualquer coisa, saí para a varanda. Assim os pés tocaram a cerâmica ainda fria, o sol bateu no meu rosto que, junto com a brisa vinda do Oceano Atlântico ali em frente, me desejou um bom dia. Aquele era o meu lugar favorito da casa; foi lá onde tinha aprendido a falar, a andar e a brincar. Adorava ficar ali contemplando a vista espetacular, sonhando acordado na rede de balanço em meio às plantas. Passava horas ali me debruçando no parapeito para ficar espiando as pessoas e os carros passando na rua lá embaixo.

Como um cão fiel, minha bola de futebol tinha passado a noite do lado de fora me esperando. Minha “dente de leite” não era uma bola profissional de couro, mas pelo menos não era daquelas infantis que mais pareciam um balão. Dava para jogar futebol de verdade com ela. Seu plástico esticado podia se tornar vil: se chutada com força contra a parede soava como um sino e caso a bolada acertasse na pele, vinha acompanhada de uma ardida enjoada. Por causa de acidentes com vasos e com outros objetos mais caros fiquei proibido de dar bicudas, fossem elas dentro de casa ou na varanda. Havia o perigo de quebrar uma janela, ou pior; segundo meu pai, se qualquer brinquedo caísse lá embaixo e acertasse a cabeça de alguém, poderia quebrar seu pescoço, rachar sua cabeça e talvez até matar.

“Já imaginou uma bola pesada?!”

“Mas como é que vão saber que ela veio daqui?”

“A polícia sabe de tudo!” respondeu Rafael se segurando para não rir.

Apesar das explicações, minha cabeça de jerico vivia tentada a jogar a bola lá embaixo para ver o que aconteceria. Estouraria? Até que altura quicaria de volta? Qual o estrago que causaria? Mas nunca me atrevi. Mais tarde acabei jogando uma daquelas bolas de borracha transparentes japonesas, mas o resultado foi decepcionante: não a vi quicando de volta nem ouvi barulho nenhum, simplesmente desapareceu.

*

Já frequentava a escola, a British School of Rio de Janeiro. Naquele dia a família inteira estava indo para o evento importante. Minha irmã, já vestida, veio até a varanda para ver o que estava fazendo. “Richard! Você ainda está aí!? Você vai atrasar todo mundo!”

Depois da mini bronca, fui me preparar. O bom de se estar no banheiro é que dava para ouvir o rádio da Maria, nossa empregada, na área de serviço. Ela também gostava da Rádio Globo mas de manhã cedo, para garantir que tudo fosse feito dentro do horário, ouvia a Rádio Relógio, uma estação que dizia as horas a cada dois minutos entre anúncios monótonos e informações bizarras.

“Você sabia que o rinoceronte africano tem dois chifres; o maior fica na frente e o menor atrás? Você sabia?… Biiip, biiip, biiiiip… são seis horas, quarenta e dois minutos e zero segundos… Biiip.”

Tanto eu quanto a Sarah adorávamos aquela mulata faladeira que vivia rindo de nossos hábitos gringos. Forte mas não gorda, lábios carnudos, um dente de ouro, olhos intensos e puxados como os orientais, ela enchia nossa casa de alegria brasileira, principalmente quando estávamos a sós. Anos mais tarde o porteiro, Zé, me contaria que Maria era fogosa e que a maioria dos empregados de nosso prédio já havia tentado algo com ela, com níveis variados de sucesso.

Depois do banho, de escovar os dentes, pentear os cabelos, vestir o uniforme com perfeição e colocar sapatos engraxados desconfortáveis estava pronto para me unir à família. Odiava com paixão aquelas frescuras, mas não tinha jeito.

Quando cheguei, estavam todos me esperando sentados embaixo do toldo na varanda. Em dias de sol, o café era servido ali numa mesa de plástico dobrável que minha mãe mandava cobrir para disfarçar sua simplicidade. Maria estava de uniforme fazendo cara séria em frente ao homem da casa e tomando cuidado para não derramar nada ao servir nosso café da manhã anglo-tropical; ovos cozidos, leite quente, mingau, geleia, bananas, mamão, suco de laranja espremido na hora, pão preto, mel e manteiga.

*

Café tomado, uniforme conferido e impecável, sapatos brilhando, com dona Renée, seu Rafael e minha irmã nos seus trajes mais finos, a família estava pronta para sair. Descemos juntos no elevador. Na portaria, minha mãe deu as chaves do carro para o garagista e logo que ele saiu com o Aerowillys na rua, eles entraram e partiram.  Não fui com eles, tinha que ir no ônibus escolar, afinal era o único que estudava lá. Fiquei esperando com o Zé falando de futebol.

Para apanhar os alunos, o ônibus vermelho ziguezagueava entre as vias principais do bairro; a Avenida Atlantica, a Avenida Nossa Senhora de Copacabana e a Rua Barata Ribeiro onde, na sombra das árvores antigas, bondes soltavam faíscas brilhosas ao tocarem o emaranhado de fios elétricos sustentados pelos postes enferrujados.

Eram oito da manhã e todos meus colegas do bairro tinham enchido o ônibus. Antes de pegar o túnel, ficamos presos num engarrafamento junto com outros ônibus lotados, bondes, lotações, taxis e carros particulares. Motoristas impacientes buzinavam e gritavam sem qualquer motivo enquanto crianças descalças das favelas passavam no meio do congestionamento conduzindo seus carrinhos de rolimã, tão baixos que quase tocavam o asfalto.

Na nossa condição de gringuinhos grã-finos, olhávamos para aqueles meninos maltrapilhos pela janela com uma mistura de inveja e de medo. Muitos eram da nossa idade e sabíamos que apanharíamos fácil se tivessem a oportunidade de nos enfrentar. Eles eram contratados por feirantes para entregar seus produtos nas casas ou nos escritórios dos clientes. Esses mercados improvisados mudavam de bairro todo dia, mas onde quer que parassem, o odor acre de frutas, de carne e de peixes expostos ao sol era o mesmo. Seu cheiro e seu barulho inconfundíveis anunciavam sua presença a vários quarteirões de distância. De dentro das bancas de frutas, homens em camisetas rasgadas cantavam rimas para atrair as madames

“Ooooolha aí! Mulher bonita paga metade se levar meio quilo! – Olha a banana novinhaaaaa, dez cruzeiros a dúziaaaaa!”

Nos cruzamentos, policiais elegantemente uniformizados controlavam o trânsito por meio de uma coreografia de apitos, olhares e movimentos de mãos que lembravam um ritual de acasalamento de uma ave rara que os motoristas pareciam entender.

*

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– Início –

Por que é urgente o Impeachment de Jair Bolsonaro?

Existe um fato que situa o Brasil como um dos piores países do mundo hoje (quem fala isso não é um babaquinha que foge para a Flórida ou cospe no prato em que comeu, mas alguém que ama o Brasil e dedica anos de vida ao seu progresso e desenvolvimento). Tal fato não tem a ver com ideologias políticas, econômicas ou teses religiosas. Tudo isso tem algo de bom, ao menos para um bom debate.

O fato é que Jair Bolsonaro, que detém o Mandato Presidencial, conquistado, sim, democraticamente (no jogo democrático e em eleições legítimas), embora tenha um histórico asqueroso de vida familiar, militar e parlamentar, não reúne condições objetivas para presidir (que entre outras atribuições pressupõe a de união nacional).

Jair Bolsonaro cometeu inúmeros crimes de responsabilidade, já provados, e, tudo indica, tem algum grau acentuado de demência. Poderia ser interditado por demência, mas esse caminho exige perícia. Não seria fácil. Pode ser afastado pelo Impeachment. Esse é o caminho mais seguro.

E a pergunta é: por que afastar, pelo Impeachment, o Presidente Jair Bolsonaro? Resposta simples. Porque ele cometeu crimes de responsabilidade, e o país precisa enfrentar problemas econômicos, jurídicos, de segurança pública e, agora, de saúde pública. Jair Bolsonaro não está preparado para nada disso, aliás, é um obstáculo a qualquer ação, incluindo a dos governadores. Ademais, seus Ministros, especialmente, Moro e Guedes, já demonstraram incapacidade completa para os cargos que ocupam.

Falar em interdição é mosca branca. Falar em cassação é estupidez de quem delira. Impeachment é o caminho jurídico e político para reabilitar o país e reinserí-lo entre as grandes nações.

(Pietro Nardella-Dellova)

A Perigosa Memória Curta

Falecido há 8 dias (14/3/2020), Gustavo Bebianno parece ter sido sepultado não a 7 palmos abaixo da linha da terra, mas a 7 léguas. Desapareceu do noticiário geral e das mídias digitais, não obstante algumas teorias conspiratórias tenham tempestivamente pululado aqui e ali, e o escandaloso silêncio da família presidencial, que por si mesmo daria motivo a uma produção enciclopédica, parece que Bebianno foi literalmente agraciado com o beneplácito e obsequioso sossego, como se tivesse passado por esta vida como um iogue hinduísta, que seguiu diligentemente a diretriz de não incomodar o Universo, não esbarrar nas quinas da vida, não deixar a má palavra ou a ação desnecessária e perturbadora sobre o delicado tecido da existência.
Mas a história não é esta, a de um monge, por mais que em suas últimas manifestações não tenha economizado em viscosidade afetiva com o claro objetivo de descolar-se da besta-fera que ajudou a criar com tanto entusiasmo.
O estudo da biografia de Bebianno deveria sim estar no topo dos “trendings” dos historiadores e cientistas políticos, entre os quais, o analista Kennedy Alencar constitui exceção por ter trazido uma contundente síntese de sua trajetória meteórica no processo que levou Bolsonaro ao poder.
Gustavo Bebianno, que hoje descansa com excessiva e perigosamente injusta paz, condensa nos últimos anos de sua vida a militância protofascista que se apoderou do país usando como ferramentas todas as armas muito bem conhecidas pelos historiadores e cientistas sociais, que se somaram a um reconhecível e talvez admirável talento em retórica e estratégia dignos de um bom advogado que eu não sei se chegou a ser de fato – que alguém me corrija se necessário – que deram abrigo e energia à ressonância de um cabedal desorganizado e paranóide de conteúdos que formavam a mixórdia Olavo-Bolsonarista.
Se das jornadas de 2013 à eleição de Bolsonaro tudo o que se produziu desde Voltaire até Norberto Bobbio, de Spinoza até Adorno, foi esquecido por uma sociedade em transe, tudo o que não se pode permitir é o esquecimento da talvez maior lição que a história recente do Brasil tenha a nos ensinar, qual seja, o papel de um suposto “homem de bem”, de fala mansa e gliscróide, nos processos políticos e jurídicos que viabilizaram a ascensão de um psicopata ao cargo máximo da nação, sob o declarado discurso conservador, patriótico e indignado, dito e reconhecido por ele mesmo em suas últimas entrevistas, onde procurou, falando do lugar de um injustiçado, que a besta-fera que ajudou a criar passou a comportar-se efetivamente como besta-fera, como se isso fosse minimamente surpreendente.
Não podemos dar toda essa paz a Gustavo Bebianno. Podemos sim desejar que sob a Luz Divina possa regenerar sua alma e seguir em evolução no Universo, e pela vontade do Eterno. Mas esta é uma questão que já não nos pertence e à qual não podemos nem devemos nos arrogar, sob o risco de nos adaptarmos perfeitamente ao molde de personalidade e ação que viabiliza o falso Messias. Pois temos ainda, na nossa poluta saga, a missão de evoluir ainda em vida, tendo às mãos vultosa matéria prima para aprendizado que não pode repousar na paz do cemitério, sob pena de lá deitarmos em tempo menor que o devido.
NELSON NISENBAUM

Samba Perdido – Capítulo 02, parte 2

Assim como inúmeros imigrantes que através dos séculos partiram da Europa em busca de ares melhores, na hora de partir meus pais estavam mais interessados na promessa de felicidade do que na realidade que iriam encontrar. Foi como se tivessem acreditado num comercial enganoso: se encantaram com as cenas lindíssimas de praias mas não prestaram atenção no contrato mencionando o pântano traiçoeiro logo atrás. A verdade é que o Brasil, mesmo naqueles anos dourados, era muito mais complexo do que a Zona Sul carioca. Atolar a vida num terreno lamacento era uma possibilidade muito real.

Os filhos vieram num momento de trânsito em torno da criação de um personagem especial, de sucesso financeiro e de um processo de adaptação ainda não resolvido. Primeiro veio minha irmã, Sarah, e cinco anos mais tarde foi a minha vez. Nasci em 1962 no há muito demolido Hospital dos Estrangeiros, no morro da Babilônia, entre os bairros de Botafogo e de Copacabana. Como veremos, estes dois nomes não poderiam ter sido mais emblemáticos. Quanto ao futuro, havia um sinal de aviso na passagem mais bonita do Hino Nacional: “Dos filhos deste solo és mãe gentil, pátria amada Brasil”.

*

Rafael se reconectava com seu universo em caminhadas de madrugada pela praia deserta. Na paz e na simplicidade daquelas horas, ele se sentia bem dividindo o bairro com empregadas em busca do primeiro pão quentinho – seu cheiro maravilhoso saindo das padarias dos imigrantes portugueses e se dissipando na maresia fria das ruas desertas –, com raros porteiros zelosos limpando as entradas dos edifícios e com os bandos de cachorros vira-lata que corriam atrás de caminhões de leite e de jornais.

Adorava quando ele me levava junto. Depois de atravessar a avenida deserta, tiravamos os chinelos e cruzavamos a areia húmida até chegar na beira da água. Lá, com a praia só para a gente, começávamos nossas caminhadas. Na falta de outro assunto, e talvez precocemente, eu puxava conversas existenciais. Enquanto o sol dissipava a bruma e o mar desmanchava nossas pegadas na areia molhada, lhe perguntanava sobre o significado da vida, sobre a existência de Deus, do porquê das coincidências, de como era possível explicar a sorte e outras coisas que não conseguia entender. O que​ sabia, Rafael respondia da maneira mais fácil que conseguia e quando não tinha resposta, mudava de assunto.

As andadas eram sempre até a colônia de pescadores na ponta da praia de Copacabana, o Posto Seis. Sua sede era uma das primeiras construções do bairro: um velho barracão de madeira onde vendiam sua pesca a donos dos restaurantes, ao comércio e a moradores dos arredores. De dia, ao lado do depósito, dúzias de pequenos e coloridos barcos pesqueiros de madeira descansavam sobre a areia em meio a redes. Gaivotas disputavam os restos da pescaria com cachorros magros, observados por jumentos sonolentos e bodes amarrados. Ao seu redor, enxames de moscas zuniam no cheiro forte de sal e de peixe podre que permeava o ar.

Antes do amanhecer, os pescadores morenos de ar não urbano, partiam em grupos de cinco ou seis. Os mais experientes ficavam na praia coordenando a atividade através de gritos, assobios e sinais. Na hora que chegávamos à colônia, o sol já iluminava os barcos que voltavam. Para tirá-los da água, os homens deitavam troncos de árvores na areia à frente das embarcações e as empurravam com toda força até que chegassem na área seca próxima da avenida.

Os peixes vinham logo depois, presos em redes gigantescas. O momento de puxá-las para a areia era um mini festival. Os pescadores sempre precisavam de reforços e nunca faltavam voluntários. Um grande círculo humano se formava trazendo as centenas de criaturas, pulando em todas as direções ao tentar se libertar. Ja espalhados na areia, enquanto se contorciam em busca de ar, os patrões separavam os melhores pescados e deixavam o resto para quem havia ajudado.

Às vezes, meu pai me deixava participar. Como todo mundo, depois de suar e de maltratar as mãos nas cordas, fazia questão de aceitar os peixes que ofereciam. De volta em casa, invariavelmente meus troféus acabavam no lixo, ou por serem pequenos demais ou por não serem bons o suficiente para nossos jantares pretensiosos.

*

Poucas horas mais tarde, as famílias iam para a praia. Elas saiam dos prédios tal como cardumes surgindo das barras dos rios e nadando em direção ao mar. A manhã começava com babás ou mães girando o pé do guarda-sol para dentro da areia até que o cabo se firmasse. Quando não conseguiam, sempre havia por perto vendedores ambulantes ou salva-vidas para dar uma mão. Findo o processo, abriam os guarda-sóis que passavam a fazer parte do tapete de pontos coloridos que cobria os kilômetros areia dourada. Depois era hora de estender as toalhas, desdobrar as cadeiras e, por fim, liberar as pranchas, bolas e baldinhos para a gente brincar com os amigos.

Aquilo era um parque de diversões sob o sol escaldante. Corriamos atrás de cardumes de peixinhos na água transparente, nos enterrávamos na areia, levantávamos barragens para conter as ondas, caçávamos tatuís – bichinhos que viviam debaixo da areia molhada – cavávamos túneis, construíamos castelos e fazíamos guerras de areia.

Para descansar, a gente se sentava na beira da água e ficava espiando o fluxo constante de pessoas que iam e vinham. De tempos em tempos, os adultos acenavam para a gente voltar ao guarda-sol. De volta às bases, mandavam a gente se limpar e paravam um dos vendedores ambulantes que cruzavam a praia carregando caixas de isopor com picolés da Kibon ou mini tanques de lata com Matte Leão. O gelado doce dos seus refrescos era perfeito para amenizar o sol forte.

Apesar de imprescindível, o sol não era o rei da praia, quem comandava o espetáculo era o mar amplo e aberto na nossa frente. Ele era a liberdade completa que só a natureza pode oferecer. Depois da arrebentação, gaivotas mergulhavam para pescar criaturas que saiam do mar se debatendo nos seus bicos. Às vezes, golfinhos pulavam para fora d´água e, mais raramente, cações inofensivos mas com barbatanas parecidas com as de tubarões, passavam causando comoção na praia.

A água salgada do oceano era muito mais gostosa e refrescante do que qualquer chuveiro ou do que qualquer piscina. Conforme íamos adquirindo mais intimidade com a agua, íamos descobrindo as ondas e aprendendo a mergulhar por baixo ou pelo meio da sua espuma.

Em tardes com vento, meninos desciam das favelas. Não se aventuravam na água; a diversão deles era travar batalhas aéreas com suas pipas artesanais. Alguns passavam cola com vidro moído nas suas linhas para que ficassem mais eficazes na hora de cortar as dos outros. Uma pipa girando descontrolada no ar era o sinal de que um grupo havia tomado o escudo voador de outro. Quando finalmente caía na areia, a meninada saia correndo às dezenas para apanhar o troféu.

No fim do dia, quando o sol ia descendo, a praia parecia relaxar. O calor ficava menos intenso, uma brisa aparecia e a sombra dos prédios começava a cobrir a areia. As áreas ainda recebendo sol ficavam com um dourado que pintava a tudo e a todos na praia com um colorido especial. De vez em quando, grupos de amigos vindos do morro aproveitavam o frescor da hora para fazer uma roda de samba, oferecendo uma trilha sonora especial àquela hora do dia.

Enquanto me esbaldava na areia, dona Renée, já desinteressada da praia, preferia ir ao clube jogar tênis, Sarah já frequentava a escola e seu Rafael garantia o conforto da família no escritório no centro.

Minha companheira de praia era Pilar, uma babá portuguesa bonita de vinte e tantos anos. A única coisa de que me lembro bem dela é de ficar espiando o seu corpo nu com marcas de maiô enquanto tomávamos banho juntos depois da praia. Na banheira, podia examinar todas aquelas coisas sobre as quais tinha conversado com meus amigos e que não sabia como funcionavam. Pilar acabou se casando com meu barbeiro, o gentil Sr. Ribeiro, também português porém baixo, barrigudo, de bigode e com os cabelos louros e encaracolados. Certamente para atrair sua simpatia, sempre me guardava balas Soft, chicletes Ping-Pong e as mais recentes revistas Manchete, Cruzeiro e Placar, proibidas em casa mas que eu adorava.

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Debate Interditado

Semiconfinado por conta da guerra viral, olho em volta e vejo outras tropas se movimentarem. Estas, com efeitos mais permanentes, embora não menos danosos, do que os do microorganismo coroado. Suas armas são a indisposição ao diálogo, o sectarismo de base identitária e a miséria da política. Uma frente de batalha se abriu com a produção de uma série televisiva e um documentário sobre Marielle Franco.

Antonia Pellegrino, mulher do deputado Marcelo Freixo, resolveu fazer uma série que retratasse a vida e o assassinato da vereadora Marielle Franco, assassinada em 2018. Convidou o diretor José Padilha para o projeto. Choveu bomba. Para começo de conversa, alegaram segmentos do movimento negro, eram dois brancos, incapazes, pela cor, de entender o universo de uma mulher negra. Depois, como ousavam incluir José Padilha, um “fascista” (as aspas explico mais adiante), para dirigir os episódios ? Ato contínuo, pelo menos 60 pensadores e profissionais negros divulgaram carta de repúdio à escolha de Padilha, acusado de “produzir ferramentas simbólicas para a construção do fascismo e genocídio da juventude negra no país”.

Padilha, privado de uma interlocução franca e pública, respondeu aos ataques num artigo publicado na Folha de São Paulo.

Rebateu a acusação de fascismo (centrada na direção dos dois Tropa de elite) e denunciou o linchamento a que foi submetido. Acho uma tolice interpretar a saga do capitão Nascimento como apologia da violência. Não me estenderei, mas basta lembrar a evolução do personagem interpretado pelo Wagner Moura, que vai do policial do BOPE que comanda ações violentas ao cidadão que denuncia as mazelas do sistema policial e seus tentáculos políticos. É uma obra de ficção, baseada em extensa pesquisa realizada com ajuda do deputado Freixo. Uma história bem contada sobre a ascensão das milícias no Rio de Janeiro. A meu ver, é clara denúncia daquilo que descreve. O fascismo não está no filme, mas nos que aplaudiram as execuções sumárias, as torturas e a filosofia do “primeiro” capitão Nascimento. Fosse diferente, um filme como A batalha de Argel, do cineasta Gillo Pontecorvo, poderia ser interpretado como exaltação da tortura colonialista (porque mostra, com realismo incômodo, as barbaridades que os franceses cometeram na Argélia). Exibir não é coonestar.

Ah, mas ele também produziu O mecanismo, série exibida na Netflix, que elogia a operação Lava Jato e seu protagonista Sérgio Moro. Não assisti, não tenho como avaliar. No entanto, mesmo que sua abordagem tenha sido equivocada, Padilha fez uma autocrítica pública através de outro artigo na Folha. “Quero reconhecer o erro que cometi”, admitiu. Quantos companheiros progressistas tiveram coragem igual, o reconhecimento, sem tergiversações, de um erro ? Por outro lado, admitamos que a acusação de fascista se dê pelo fato de Moro participar do governo Bolsonaro. Ora, Carlos Drummond de Andrade e Clarice Lispector foram fascistas por terem participado do governo Vargas, no Estado Novo ? Vinícius de Moraes e d. Helder Câmara na mesma moeda, por terem flertado com o integralismo ? Luiz Henrique Mandetta, ministro da Saúde, que tem se comportado corretamente nesta crise do coronavírus, é fascista? Me parece que a vulgarização do termo corrompe seu significado.

Sobre o “crime” de brancos contarem a história de uma mulher negra, a gente cai na histeria de setores do movimento negro. Quando quiseram homenagear dona Ivone Lara com um musical, convidaram a cantora Fabiana Cozza para interpretá-la. Pra que, zabelê ? Foi criticada por não ser “suficientemente negra” para o papel e renunciou. Como se uma obra de arte dependesse de melanina. Em outro momento, um professor de história chegou a dizer, citando Malcolm X, que não existe possibilidade de um branco aderir “até as últimas consequências” à luta contra o racismo. Além de ser uma estupidez política, agride a verdade. Joe Slovo, branco de origem lituana, foi um dos mais aguerridos militantes contra o regime obsceno do apartheid. Amigo de Nelson Mandela, foi preso por suas convicções antirracistas. A luta contra o racismo não será exclusiva dos negros, da mesma forma como não se deve combater o antissemitismo apenas com os judeus.

José Padilha não é de esquerda. Isso, no entanto, não é um crime de lesa-pátria. Está a anos-luz do arraial bolsoneiro, tem uma obra respeitável e não foge da controvérsia. Empurrá-lo, levianamente, para a extrema-direita, linchando-o ao invés de dialogar com ele, é um erro grave. Erro de uma esquerda um tanto catatônica, andando em círculos, incapaz de se articular para o enfrentamento do fascismo real. O fascismo que se escondia por trás dos ataques a um paraninfo do curso de jornalismo da Unisinos. Por criticar os recentes ataques de Jair Messias à imprensa e jornalistas, teve que sair escoltado para não ser agredido pelo público. Alergia à divergência, esse o verdadeiro inimigo.

Cometeu erros ? Evidente que sim. Mas, se você sobe nas tamancas quando o erro é flagrado, sugiro a leitura do Poema em linha reta, do Fernando Pessoa. Primor de ironia, Pessoa se dirige aos perfeitos, “ó príncipes, meus irmãos”, “toda gente que eu conheço e que fala comigo, nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu um enxovalho; nunca foi senão príncipe – todos eles príncipes – na vida …”. E pontua: “Quem me dera ouvir de alguém a voz humana”. A leitura completa é antídoto para as tentações definitivas, tão confortáveis, mas tão nefastas.

Abraço

Jacques

Sérgio Moro, o Representante!

Então, vocês realmente acharam, como anencéfalos e pessoas desprovidas de senso crítico e democrático (inclusive, salivando nas ruas como cães doentes, e lambendo grandes bonecos infláveis como neuróticos), que o sr. Sérgio Moro, um cara reconhecidamente “sombrio” (não sóbrio), sem qualquer escrúpulo, sem qualquer princípio ético, sem qualquer respeito pela Magistratura e pelo Sistema Jurídico, sem qualquer respeito pelo devido Processo Legal, sem qualquer obediência à Constituição e, ainda, sem qualquer domínio da “própria” Língua Portuguesa ou do necessário raciocínio lógico para, ao menos, escrever e falar como jurista, com a ideia “a priori”, única e fixa (pleonasmo necessário, desculpem-me!) de perserguir e destruir um único político e um único Partido (1), em nada pior que os outros Partidos, era o grande e imbatível herói nacional?

Então, vocês pensaram que o sr. Sérgio Moro fosse o cara super digno, o verdadeiro “limpador” da corrupção, embora sabidamente responsável direto pela derrocada de várias empresas nacionais, pelo aumento do desemprego e pelo fortalecimento dos milicianos?

Finalmente, vocês assumiram desavergonhadamente que ele, Moro, é o “the best”, o cidadão mais elevado e comprometido com o “bom” futuro do país, ainda que sabendo (vocês sabendo!) que ele é o responsável direto por viabilizar e empossar, por vias democraticamente ilegítimas, posto que mentirosas,(2) na República, incluindo os vários Estados, os grupos mais abjetos, mais vis, mais canalhas, mais antissociais, mais antidemocráticos, mais anti-Constituição?

É isso? Vocês assumiram que ele desse poder para os tipos mais indignos, mais vagabundos, mais violentos, mais perigosos, mais assassinos, mais mentirosos, mais destrutivos, mais incivilizados, mais antiéticos, enfim, os piores dos piores, qualquer que seja a medida ou referência que usemos, ou seja, os piores e mais perigosos religiosos, os piores e mais atrasados economistas, os piores e mais incompetentes militares, os piores e mais rasos “adevogados”, os piores e assumidos violentadores da Língua Portuguesa, os piores “artistas”, os piores Cristãos, os piores Judeus, os piores Negros (piores, sim, porque desdenham e envergonham a tradição humanista do Cristianismo, libertária do Judaísmo e de resistência de toda Cultura e História Africanas!)?

Certo, vocês acharam, pensaram e assumiram, como cães salivantes, zumbis e gente sem cérebro nem criticidade, tudo isso, com sintomas de insanidade (e mais…). Realmente, o sr. Sérgio Moro, o boneco inflável (projeção do “id” de vocês), representa vocês e o caráter de vocês em todos os aspectos. Ele é, e faz, o que vocês são, e fazem, diuturnamente!

(Pietro Nardella-Dellova)

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NOTAS IMPORTANTES

1. Em que pese as duras críticas ao Lula e ao PT, que faço e escrevo desde 1991 (Folha de São Paulo, Blog Café & Direito, Z Mag., YouTube, Palestras, Aulas etc) ainda assim é o melhor Partido em comparação com o resto que aí está (minhas críticas continuam, assim como continua o resto, inferior so PT).

2. Fake news, falsa facada, demonização do PT etc.