Samba Perdido – Capítulo 02, parte1

Capítulo 02

   "Rio seu mar, suas praias sem fim

Rio você foi feito para mim."

Samba do Avião -Tom Jobim

 

A vida carioca havia começado em clima de segunda lua de mel num quarto de frente para o mar de Copacabana no hotel Miramar. Os dias de semanas eram dedicados a nadadas e passeios nas praia semi deserta em frente. Nos fins de semana, para evitar a multidão, se deleitavam em caminhadas pela floresta da Tijuca, descobertas nos arredores da cidade e em aventuras culinárias. Os dois passaram aquelas semanas apaixonados um pelo outro e por tudo o que aquela cidade tinha a oferecer.

Descansados e aclimatados, embarcaram na sua primeira missão: escolher um lugar para morar. Sua busca os levou a conhecer como os cariocas viviam e a recantos menos turísticos porém igualmente atraentes; ruas residenciais na descolada Ipanema e no seu vizinho Leblon, bairros menos badalados beirando a Baía de Guanabara e mais para perto do Centro, como Botafogo, Laranjeiras, Catete e Flamengo. Viram imóveis ao redor da floresta, na verde Gávea e no Jardim Botânico, vizinho do parque lindíssimo com o mesmo nome. Os corretores também os levaram a áreas mais afastadas como o Cosme Velho, localizado num vale no meio da floresta tropical, à Urca, à sombra do Pão de Açúcar, e à Santa Teresa, em cima dos morros beirando o centro da cidade.

Todas essas alternativas, em geral apartamentos espaçosos e recentes, eram como um sonho para um casal vindo da fria e cinzenta Londres castigada por bombardeios. No entanto, apesar de adorarem tudo o que viram, escolheram permanecer em Copacabana. Lá, além da proximidade da praia e de Paulo, havia algo que as outras partes do Rio não tinham: o glamour com que estrelas como Fred Astaire, Ginger Rogers e Carmen Miranda haviam apresentado a cidade ao mundo. Havia carisma. O bairro às vezes lembrava as charmosas cidades costeiras da Côte d´Azur francesa, com suas ruas calmas e limpas e com seu cotidiano praieiro, noutras vezes lembrava Manhattan, com sua floresta de edifícios modernos e elegantes. Neste aspecto, o ar cosmopolita, porém ainda verde, da “Princesinha do Mar” não tinha páreo no Brasil.

As avenidas do bairro eram repletas de lojas oferecendo novidades importadas, boutiques exclusivas, cinemas e casas noturnas sofisticadas. Por ser um recanto recente e abastado, esses estabelecimentos ou eram os melhores da cidade ou pertenciam às melhores redes do país. Circulando em suas ruas movimentadas ou estacionados em suas calçadas, carros do último modelo, nacionais e importados, realçavam o seu ar internacional.

A praia em si era maravilhosa: havia quatro quilômetros de oceano aberto cercados por uma exuberante cadeia de morros que separava aquele paraíso do resto da cidade. À frente, um pequeno grupo de ilhas cobertas por vegetação selvagem quebrava a monotonia do horizonte. Seu passeio público, a elegante Avenida Atlântica, era o cenário onde de dia a elite carioca exibia seus corpos torneados e bronzeados e nos fins de tarde desfilava com suas melhores roupas nas suas caminhadas.

*

Depois de decidirem onde iriam morar, a escolha de um apartamento foi fácil. Com uma conta bancária recheada de valorizadas libras esterlinas provenientes da venda da casa em Londres podiam voar alto. Em breve estavam de mudança para uma espaçosa cobertura onde uma ampla varanda dava uma deslumbrante vista da praia. Como todos os outros prédios ao redor, a entrada parecia com a de um hotel de luxo. Painéis de mármore e enormes espelhos emoldurados revestiam suas paredes imitando palácios na Europa e cenários hollywoodianos.

A mobília do casal, comprada a preço de banana em casas de leilão na Londres do pós-guerra, era classuda e combinava bem com a elegância do endereço. Ela incluía antiguidades como uma autêntica mesa de cabeceira Chippendale, um piano de calda, talheres de prata, porcelana chinesa legítima da mais alta qualidade e pinturas clássicas, falsas porém convincentes.

Tudo havia sido enviado de antemão por navio. Agora, três meses depois, estava à espera na alfândega do porto. Enquanto Rafael saiu em busca dos contatos comerciais que seus amigos haviam fornecido, Renée ficou responsável por liberar seus tesouros.

Armada com o português básico aprendido com um professor improvisado indicado pelo consulado brasileiro em Londres, ela foi lidar com a burocracia local. Aos olhos do encarregado, a senhora inglesa era a própria figura da gringa rica e ingênua. Mesmo avisada, Renée se recusou a aceitar que um homem tão charmoso, numa posição de tanta responsabilidade, pudesse estar atrás de propina, apesar de que todos seus novos vizinhos e amigos haviam assegurado que qualquer pessoa nesse tipo de trabalho iria querer algum tipo de “incentivo” para agilizar as coisas. Numa tarde decisiva, seu medo de ofender foi tanto que não teve coragem de entregar um envelope gordo, recheado de dinheiro. Essa hesitação lhe custou mais quatro mêses de espera.

*

Depois de instalados em Copacabana, o casal foi se integrando na vida da Zona Sul. Nessa mesma época e no mesmo lugar, artistas como Vinícius de Moraes, João Gilberto e Tom Jobim estavam misturando samba, letras inspiradas e jazz dando origem à bossa nova. As casas de show espalhadas por de Copacabana. As mais exclusivas ficavam de frente para a praia na Avenida Atlântica. As mais na moda ficavam nas vielas logo atrás. Uma delas era o Beco das Garrafas onde o trio e outras futuras lendas da bossa nova se apresentavam regularmente. Esse seria o berço de clássicos do gênero como a Garota de Ipanema, que Frank Sinatra gravaria no auge de sua carreira e que venderia fora do Brasil tanto quanto as músicas que os Beatles ou os Rolling Stones estavam gravando.

A bossa era a expressão musical do otimismo pelo qual o país passava. Esse era um Brasil inteligente, urbano, sofisticado mas ainda assim apaixonado pelas suas raízes. Rafael tinha acertado quanto às possibilidades do país. Com um processo de industrialização acelerado e com um mercado consumidor em crescimento, as oportunidades eram ilimitadas. O slogan do presidente Juscelino Kubitschek era fazer “cinquenta anos em cinco”. Com isso em mente, o seu governo investiu pesadamente em infraestrutura e abriu o país para o capital externo. Ele também se dedicou a construir uma nova capital, a futurística Brasília, no longínquo Planalto Central.

Apesar de não frequentarem a noite e de esnobar a nova moda musical, os dois acabariam por se encaixar bem em Copacabana. A vizinhança era de uma classe média recente, ansiosa​ em se familiarizar com sua recém adquirida posição social. Isso incluía viver de acordo com o que viam e liam em filmes e revistas estrangeiras. Pessoas de fora personificavam as suas aspirações e proximidade com elas não só dava status, mas também dava asas à imaginação.

Após uma breve fase de se sentir alienada, Renée foi rápida em perceber a oportunidade social de assumir o papel de embaixatriz do mundo “desenvolvido”. Espelhando a jovem e recém empossada Rainha Elizabeth II, ela aceitou o cargo com convicção e prazer. Vinda de uma família de imigrantes alpinistas sociais, o Brasil​ neste aspecto lhe pareceu um El Dourado. Isolada da sua família e da sua cultura, vivendo num país estrangeiro como uma dona de casa milionária, mimada pelo marido, temida pelas empregadas, tratada como alguém especial nas ruas e sem ter ninguém que a questionasse, ela se reinventou e criou um personagem surrealista.

Trinta centímetros mais alta que a média das brasileiras, com um forte sotaque inglês e com um guarda-roupas repleto de peças elegantes feitas em Londres, para os brasileiros Renée passava a imagem de uma mulher poderosa e à frente de seu tempo. Isso era fácil num lugar onde donas de casa de respeito nunca eram vistas na noite, sequer em restaurantes com seus maridos. Seus biquínis – em voga na Europa do pós-guerra – mostravam o umbigo. Na praia, esse show de nudez chocava, e mais de uma vez os salva-vidas tiveram que lhe pedir que voltasse para casa para trocar de trajes.

Renée foi também uma das primeiras mulheres a dirigir no Rio, o que atraía muitos comentários, alguns grosseiros e outros de admiração. Nenhuma das duas reações a perturbava, já que na opinião dela os brasileiros se transformavam em caubóis selvagens quando ao volante. No país que viria a fornecer ao mundo da Fórmula Um campeões como Emerson Fittipaldi, Nelson Piquet e Ayrton Senna, ela resolveu tomar para si a missão de ensinar aos motoristas, via exemplo, como respeitar os limites de velocidade. O carro dela sempre acabava atravancando o trânsito na faixa da esquerda. Isso fazia com que recebesse um sem-número de gritos e de palavrões dos motoristas obrigados a fazer a ultrapassagem pela direita. Anos mais tarde, ela também tentaria deixar claro aos surfistas de Ipanema que o mar era de todos, nadando com a sua toquinha florida entre os cabeludos sarados e suas pranchas.

Porém, apesar da satisfação em vender como jóias colares de contas aos nativos, nem sempre a história colava​. Sem contar que havia gente que de fato pertencia àquele mundo no Rio de Janeiro, para início de conversa, a Inglaterra que provocava suspiros em admiradores incautos era agora um lugar em transformação. Após duas pesadas guerras mundiais, as tradicionais divisões de classe estavam virando uma coisa do passado. Conforme o país foi se reconstruindo, os privilégios antes reservados para a aristocracia – agora falida – foram ficando acessíveis à uma classe média emergente. A nova dinâmica criou dois campos: os que queriam enterrar o passado e construir um Reino Unido onde todos tivessem oportunidades iguais e os que queriam tomar o lugar da aristocracia declinante e desfrutar os privilégios que seus pais nunca tiveram. Renée pertencia ao segundo grupo. A rainha Elizabeth foi mais sutil e resolveu popularizar a monarquia como estratégia de sobrevivência.

As duas maiores barrerias que encontrou para sua forçação de barra eram dois: a substituição do Reino Unido pelos Estados Unidos no topo do mundo ocidental e o aparecimento da cultura jovem nesses dois países. Para manter seu sonho vivo, ela rejeitava toda e qualquer novidade que contradizesse sua narrativa de rainha modernizadora dos trópicos. Que nem a madrasta da Branca de Neve, sua vaidade parecia perguntar ao espelho “Espelho, espelho meu, existe alguém ou algo mais avançado do que eu?” Se tivesse, bloqueava na hora. Isso atingia as raias da incomprensibilidade. Sob sua guarda não havia televisão, pouquíssimo cinema e nada de música popular, fosse ela brasileira ou internacional, incluindo o jazz, a bossa nova e o rock’n’roll. A única expressão cultural válida era o teatro – o de Londres é claro – e a música clássica. Para ela, a arte contemporânea era um lixo; a pintura tinha morrido com o expressionismo e em literatura, mesmo o hiper-religioso Tolkien, autor do Senhor dos Anéis, era visto com suspeição.

Sua fobia à novidades era tanta que, por alguma razão, ela também barrou de sua vida tudo o que não lhe tinha sido familiar na Inglaterra: doçes, refrigerantes, hambúrgers, milk-shakes e pastéis. Em contrário de todos à sua volta, ela insistia em uma dieta saudável e insossa, parte de uma noção, de fato à frente do seu tempo, de que a alimentação era fundamental para a saúde.

*

Nascido em 1900 num vilarejo na província austro-húngara da Galiza, na Polônia, Rafael, seu comparsa – e agora provedor – nas aventuras de validação social, não podia ser mais diferente. Os austro-húngaros, vistos como os senhores daquele mundo, menosprezavam os poloneses, que por sua vez desprezavam, a ponto de odiar, os judeus. Por sua vez, os judeus mais assimilados e vivendo em capitais Europeias viam os do leste europeu, como a família dele, como atrasados e presos a superstições religiosas das quais tinha se livrado ao sair dos ghettos. Para piorar as coisas, os mesmos judeus do leste europeu consideravam os galitzers como camponeses que não tinham saído da idade média. Assim sendo, embora a Galiza fosse a região da Polônia mais tolerante em relação aos seus estrangeiros: muçulmanos balcânicos, judeus, turcos e russos, ele cresceu como um caipira entre os caipiras. A ida para a Alemanha tinha sido a maneira que encontrou para escapar daquele determinismo sufocante.

Apesar de ter recebido uma rica educação rabínica, Rafael nunca frequentou uma escola secular quanto menos uma universidade. Contudo era inteligentíssimo e compensava essa lacuna trabalhando duro com diligência e criatividade. Com esses atributos alcançou cedo sucesso no mundo dos negócios, tanto na Alemanha pré-nazista quanto mais tarde na Holanda. No entanto, foi em Londres, em meados da sua quarta década, que seu destino deu uma guinada inimaginável. O casamento com uma beldade de uma abastada família de Golders Green e o brinde de um imóvel pago pelo sogro numa área respeitável de uma metrópole mundial foi o equivalente a ganhar na loteria.

Esse legado fez com que na vida doméstica, tal como Sancho Panza, ele obedecesse a todas as regras que a esposa impunha, mesmo se não fizessem sentido algum. Maduro e conhecedor dos recantos mais sombrios da vida, ciente das diferenças gritantes entre os dois, Rafael soube fazer com que ela se sentisse idolatrada e que seu personagem permanecesse vivo. Com isso, conseguiu manter sólido um relacionamento improvável num lugar mais improvável ainda.

A vida confortável no Brasil virou uma tentativa de se reinventar. Em um lugar tão diferente quem sabe ele pudesse encontrar uma recalibragem interna ou a fonte da eterna juventude. Contudo, a melancolia nunca o deixou. Apesar de se sentir bem com a relativa inocência e alegria a sua volta, o contraste com sua dissimulada solidão e com o fim brutal de seu mundo era doloroso demais. O último elo que manteve com algo que se pudesse chamar de lar, foram seus negócios com a Alemanha Oriental, uma república satélite dos soviéticos nascida do país que havia lhe trazido tanto sofrimento.

Na intimidade, seus pensamentos, suas atitudes e seu compasso emocional viviam perdidos numa dimensão diferente que às vezes deixava escapar em histórias da sua infância como a de quando, na escola rabínica, colou a barba do seu professor na mesa enquanto este dormia. Também se orgulhava de ter conseguido enganar um policial polonês a procura de bebidas ilegais na casa do seu avô quando criança, despistando uma porta escondida no celeiro. Esse avô, rico e assimilado com quem todos na aldeia vinham se aconselhar, foi mais marcante do que seu próprio pai de quem nunca falava. Rafael era o repositório de uma coleção de piadas, palavras, ditados populares e ensinamentos religiosos de um mundo que agora somente existia em suas memórias, na sua língua nativa, o iídiche, e em raras fotografias.

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Planejamento Vultuoso

Uma das noções que desenvolvi durante o meu processo de percepção de fenômenos das mais variadas naturezas, mas em especial, nos fenômenos sociais e políticos, é que certas coisas não dão errado – ou voltam-se a uma natureza destrutiva – por acaso. Alguns fenômenos catastróficos só assim o são não pelo fortuito, pelo acaso, ou pela falha de projeto. Ao contrário, são frutos de meticuloso e vultoso planejamento.
Se examinarmos o conjunto de ataques que o sistema político brasileiro vem sofrendo desde o início do século XXI, e mais agudamente a partir das jornadas de 2013, passando pelo golpe de 2016 e culminando na eleição de Bolsonaro, não haverá que ser feito grande esforço intelectual ou analítico para se perceber que existe uma harmonia subjacente a todos esses processos. Uma gradual, crescente e contínua desconstrução do sentido das palavras, da lógica do raciocínio, dos fundamentos da informação, do conhecimento e da ciência em si mesmos.
O estado de coisas em que nos encontramos, onde um presidente do Brasil mente diária compulsivamente, atenta continuamente contra as instituições, tensiona os campos políticos a limites jamais testados desde a redemocratização do país, diante de instituições paralíticas e de um sistema jornalístico que tenta dialogar pelo meio da única linguagem que conhecem, sem entretanto obter qualquer efeito no outro lado, que claramente fala outra língua, desorganiza o pensamento, tira qualquer questão fundamental do foco, e zomba grotescamente de qualquer conquista da civilização, retrata sim uma enorme construção com fundamentos e alicerces que escapam à percepção da imensa maioria.
Há certamente poderosos jogadores por trás desse tabuleiro. Uma união que engloba Olavo de Carvalho, Rodrigo Constantino, MBL, Vem-prá-Rua, Kim Kataguiri, Fernando Holliday, Partido Novo, Janaína Paschoal, o próprio presidente e sua família, Sérgio Moro, Abraham Weintraub, entre outros, definitivamente não vem do acaso. A sustentação de uma parcela da sociedade, ainda que minoritária, mas significativa, que sustenta o bolsonarismo apartando-se da sociedade em uma espécie de apartheid voluntário e obsessivo, não se sustenta por mero acaso.
Receio que ainda não estamos instrumentalizados para examinar todo esse complexo e identificar todos os processos que foram empregados para esta construção. Obviamente tudo aponta para Steve Bannon, o grande ideólogo da extrema direita mundial. Mas simplesmente apontar o dedo para o óbvio nada resolverá se não pudermos traçar todos os caminhos desta enorme conspiração sobre a qual eu tenho poucas dúvidas da existência. E logo eu, tradicionalmente avesso a teorias conspiratórias. Mas os fatos que presenciamos no momento, especialmente caracterizados pela paralisia das instituições do estado e dos órgãos de imprensa e instituições da sociedade, incluindo partidos políticos, revelam com clareza que estamos diante de um enorme desconhecido, uma espécie de matéria escura, que no momento predomina em força e preserva-se invisível.
Enquanto não desvendarmos esta estrutura, dificilmente sairemos desse buraco.
NELSON NISENBAUM.

J’accuse

A FIERJ – Federação Israelita do Estado do Rio de Janeiro homenageou o prefeito carioca, bispo Marcelo Crivella, concedendo-lhe a medalha Amigo da FIERJ. Impopular, considerado por muitos cariocas o pior prefeito da história da cidade, Crivella foi o primeiro triunfo denso do projeto político da Igreja Universal do Reino de Deus, liderada por Edir Macedo. Sua trajetória é medíocre e, no governo do Rio, agride princípios republicanos elementares. Mas, afinal de contas, quem é o bispo Crivella ?

Ainda nos anos 90, escreveu o livro Evangelizando a África, que condensa sua experiência de proselitismo no continente africano. Não esconde a desinformação e os preconceitos sobre diversas religiões. Para ele, a Igreja Católica e outros segmentos cristãos “pregam doutrinas demoníacas”. Espiritismo, hinduísmo e religiões africanas ? “Abrigam espíritos imundos”. Aliás, sobre estas últimas, ele afirma que “permitem toda sorte de comportamento imoral, até mesmo com crianças de colo”. As religiões orientais não escapam da verborragia ofensiva: “No mundo amarelo (sic), os espíritos imundos vêm disfarçados de forças e energias da natureza”. Para ele, os indianos, provavelmente por uma natureza masoquista, são proibidos de comer carne de vaca apenas para que o alimento seja farto na mesa dos ricos. Os “gurus”, continua o prefeito incensado pela Fierj, pregam o sacrifício de crianças como forma de obtenção de riqueza.

Sua gestão é marcada pelo privilégio aos frequentadores de seus templos. Entrou para o folclore a Márcia, secretária para quem os fiéis deveriam pedir favores, notadamente em atendimento médico. “Fala com a Márcia” virou sinônimo do velho pistolão, agora abençoado pelo prefeito.

Na Bienal do Livro do ano passado, tentou, de forma patética, censurar um gibi, no qual dois rapazes se beijavam na boca. A patuscada foi à breca. O obscurantismo homofóbico, de raiz religiosa, apenas atraiu a atenção para a publicação, que bateu recordes de vendagem.

Sobre as tragédias das chuvas torrenciais de verão, rotina na paisagem carioca, Crivella tem pouco a dizer. Fora cometer piadas de gosto duvidoso (como a criação do programa Balsa Família para os atingidos pelas tragédias hídricas), demonstra ser um péssimo administrador. Nos dois primeiros anos de mandato, reduziu em 71% os gastos com prevenção de enchentes. Na inundação mais recente, fugiu de suas responsabilidades pelo caminho rasteiro da leviandade. Sugeriu que os cariocas moram em áreas de risco por opção: “As pessoas gostam de morar ali perto porque gastam menos tubo para colocar cocô e xixi para ficar livre daquilo”. O troco veio rápido. Ao visitar Realengo, bairro devastado, jogaram-lhe uma bola de lama. Pena que não tinham material mais orgânico e malcheiroso à mão.

Politicamente, é um oportunista de velha cepa. Depois de servir ao governo Dilma, agora trata de curvar a espinha para as tropas bolsoneiras, tentando reeleger-se em outubro. Dançou com Jair Messias num ato evangélico, a quem elogiou pela “personalidade irradiante”. Venderá a alma ao Demo para seguir maltratando minha cidade.

Foi esta a sumidade premiada pela Fierj. Para os não iniciados, é importante saber que a federação tem baixa representatividade eleitoral. Suas eleições, em geral com chapa única, têm participação pífia da comunidade judaica. As atividades são essencialmente assistencialistas e burocráticas. Deve ter se escudado em artigos do estatuto, que falam em “defender interesses da comunidade judaica”, para polir a imagem de um político que só merece desprezo e ostracismo. Quem define os interesses comunitários ? São de conhecimento público ?

Por tudo isso, considero inaceitável a homenagem prestada ao bispo Crivella por uma entidade que se declara representante dos judeus do Estado do Rio de Janeiro.

Acuso a Fierj de comprometer a imagem dos judeus, ao celebrar “amizade” com um político desprezado pela maioria dos cariocas.

Acuso a Fierj de insensibilidade, por destacar “conquistas para a comunidade judaica” e ignorar a tragédia administrativa, política e social que é a gestão do bispo Crivella. A imagem que passa é a de que um gueto de privilégios vale mais do que o sofrimento da maior parte do povo do Rio. Pior: passa a impressão, de resto completamente falsa, de que a totalidade dos judeus apoia suas atitudes. A comunidade judaica é heterogênea, e parte dela já se manifestou publicamente contra a entrega da medalha.

Acuso a Fierj de exaltar uma personalidade que ofende a República, ao tornar indiferenciados os campos de atuação do Estado e da religião.

 

 

Coração Partido

A vida tem graça e desgraça, riso e lágrimas, ilusões e desilusões. A cada desilusão um coração partido, sofrido pela perda do entusiasmo. Ilusões amorosas, ilusões narcisistas, ilusões nos ideais. Essas vivências fazem parte das experiências essenciais da vida privada. A palavra ilusão deriva de i+ludere, o jogo dentro de si, brincar na imaginação. O que caracteriza a Ilusão é derivar-se do desejo, desejo inconsciente, ligado às primeiras vivências de satisfação. Ilusão, portanto não é o mesmo que um erro, pois há ilusões na obra de arte, mas também efetividade. Sonharam os nômades, e os sedentários, há fantasias ilusórias expressões de verdades nos clássicos de Homero, na “Bíblia” ou “As Mil e uma noites”. Obras marcantes tanto na vida privada como na vida pública.

Na vida pública hoje há desilusões com o crescimento das desigualdades sociais e os ataques à natureza, como os incêndios planejados da Floresta Amazônica. O ódio dos tempos persecutórios geram conflitos no seio de famílias e amizades. O coração está partido também por perceber tantos poderes apoiando à violência e o ódio. Os meios de comunicação são tratados como amigos, ou inimigos e o clima de ameaça aos jornalistas só cresce. Uma parte do País parece petrificada, com o coração frio. São indiferentes aos ataques diários a tudo que é público, seja educação, saúde, cultura, direitos adquiridos.

O governo pode mentir abertamente, pode ser cúmplice de greves policiais com um autoritarismo crescente e ameaçador. Portanto, há motivos para depressões, desânimos nesses tempos de desorientação. A Justiça está encolhida, a democracia com sua bandeira a meio pau, e povo quase apático diante da loucura crescente. O autoritarismo caminha em direção ao totalitarismo, pois aumentam as pressões contra a liberdade sob comando do Ministério da Justiça. O País flerta com o passado, está pervertido e dividido como numa guerra; uma guerra interna, como foi definida pelos estrategistas, nos tempos da ditadura militar.

A imagem do coração partido me fez lembrar a frase do Rabi Menachem Mendel, de Kotzk, Polônia. Ele disse: “Não há nada mais inteiro que um coração partido”. O coração que chora é inteiro, pois se humaniza, cresce ao suportar o sofrimento. Entretanto, às vezes, o coração não só é partido, como fica estilhaçado. Nem sempre o coração é reconstituído, às vezes ocorrem ataques do coração e desânimos. As desilusões doem, são dores psíquicas que levam tempo para serem superadas. Superar uma dor da alma, como ver o país ser invadido pela crueldade, é uma ferida narcisista que sangra. São anunciadas reações nesse mês de março, após um fevereiro de carnaval onde as escolas de samba ocuparam as avenidas.

Não foram poucas as ilusões e as desilusões que vivi. Primeiro sonhei com a segurança do Todo-Poderoso, depois o ideal do kibutz em Israel. Integrei a geração 68 e não perdia as manifestações de ruas e os debates universitários. Fui para Buenos Aires, onde fiz Psiquiatria e Psicanálise com colegas canhotos e outros não tanto, mas igualmente essenciais. Antes de voltar da vida portenha, entendi que a democracia com justiça é uma revolução. Conclusão a que cheguei sobre os limites humanos, decorrentes da realidade, em parte, e também graças à Psicanálise. A revolução possível aqui seria uma democracia social. O sonho de uma sociedade ideal não leva em consideração a sede de poder insaciável dos poderosos. Hoje o Brasil retrocedeu, está numa fase em que a força bruta manda mais que a civilização, bem mais.

Os sonhos, as ilusões e as dolorosas desilusões fazem parte da vida do mundo público e privado. Tempos de frustrações requerem uma capacidade negativa para transformar, mesmo que lentamente, derrotas em vitórias, perdas em ganhos. Importante nesses tempos é manter a capacidade de espanto para aprender sobre o ontem, o hoje e o amanhã. E assim manter, de alguma forma, o entusiasmo da rebeldia amorosa na resistência a crueldade. Aplaudo e busco aprender dos que conseguem manter o humor e alegria em tempos de tanto ódio.

Samba Perdido Capítulo 1-2

Eram 5:30 da manhã em meados de Novembro de 1955, trinta e cinco horas depois de decolar de Londres, parar por três horas em Lisboa, fazer o mesmo por quatro horas em Dakar, Senegal, atravessar o oceano Atlântico e ficar mais três horas no Recife, o voo da BOAC, BA0249, estava finalmente se aproximando do Rio de Janeiro.

O sol ameaçava se insinuar no céu estrelado quando um sinal aveludado nos alto-falantes acordou os passageiros. Em seguida, uma voz feminina, primeiro em inglês e depois em português, desejou a todos um bom dia e anunciou que estavam a uma hora da destinação.

As aeromoças acenderam as luzes e passaram a servir um generoso café da manhã. Para os ingleses, ovos estrelados com bacon, torrada, marmelada e chá, para os brasileiros, ovos mexidos, pão francês, queijo fresco, goiabada e café forte. Junto com a comida distribuiram formulários de imigração e da alfândega para quem precisasse.

Terminada a última refeição a bordo, loucos para descansar numa cama de verdade, os passageiros passaram a organizar a sua chegada. Do lado de fora, a claridade já revelava o mar no horizonte. Embaixo, as primeiras luzes estavam se acendendo na descida da serra para a Baixada Fluminense. Enquanto os primeiros carros e caminhões se aventuranvam na madrugada vazia a tripulação percorria o corredor recolhendo as bandejas.

Rafael e Renée estavam preenchendo os formulários. O casal chamava atenção por sua discreta bizarrice. Ele era baixo, olhos azuis espertos e frios, cinquenta e poucos anos, um tanto antipático e com um pesado sotaque do leste europeu. Em contraste, ela era uma londrina com sotaque chique, alta e exuberante, de cabelos curtos e castanhos e muito mais jovem que o marido.

Não demorou muito para a voz feminina retornar aos alto-falantes pedindo a todos que apagassem seus cigarros e apertassem os cintos de segurança. Do lado de fora a vista se tornou magnífica. O dia estava raiando sobre o Rio de Janeiro. O sol dourava o Cristo Redentor junto com a vegetação e as pedras gigantescas da Floresta da Tijuca em torno dele. As águas da Baia de Guanabara e as ilhas no mar aberto ja se misturavam da maresia. Aquele espetáculo foi bem-vindo após praticamente dois dias chacoalhando numa aeronave apertada ouvindo o ronco incessante das hélices. Rafael deu uma olhada no relógio, 6:15 da manhã, 45 minutos mais cedo do que o esperado.

O avião deu sua sacudida final quando tocou o solo em alta velocidade. Assim que se tornou controlável, os passageiros aplaudiram o piloto que passou a guiar a aeronave lentamente rumo ao terminal. Quando parou, a tripulação apagou os sinais de apertar os cintos e de parar de fumar e abriu a porta deixando ar fresco da madrugada entrar para ventilar a cabine claustrofóbica.

Com seus pertences prontos, Renée e Rafael se puseram na fila de saída. Na porta, depois de trocarem sorrisos cansados com a aeromoças, uma brisa tropical acariciou suas peles lhes dando boas-vindas. Com sua nova cidade à frente, desceram a precária escada e se dirigiram ao terminal com os outros passageiros.

A bruma espessa e seu calor húmido tiveram o efeito de evaporar o torpor da viagem na Renée. Eufórica com o início de sua aventura carioca, estava parecendo uma criança numa loja de doces tentando puxar conversas com o marido exausto e monosilabico.

“Deveríamos achar um apartamento perto da praia, não acha? A revista disse que perto da floresta há risco de malária.”

Entraram na fila fila da imigração e ela não parava. “Eu quero ir para praia ainda hoje. Copacabana deve estar explendida!”

Quando chegou sua vez, o policial acenou. Depois de mostrarem seus passaportes e de entregarem os formulários, receberam os carimbos requeridos. Dali em diante, estavam liberados para viver no Brasil.

Ao sair para o saguão de desembarque, talvez por estarem vindo para ficar desta vez, sentiram o desconforto de serem completos estrangeiros. Com exceção dos outros passageiros europeus, ninguém ali falava inglês ou qualquer outra língua que lhes fosse familiar. Além de have mais “não-brancos” do que estavam acostumados, a emoção e os abraços com que os locais recebiam seus familiares e amigos, realçava sensação de alienação. No fundo de suas mentes uma pergunta gritava em silênico: “Será que tomamos a decisão certa?”

*

No saguão do aeroporto carregadores uniformizados e educados apareceram se oferecendo para levar suas malas até a fila de táxis do lado de fora. Depois de se certificar que as bagagens estavam devidamente organizadas no porta-malas e de dispensar o seu primeiro dinheiro local na gorjeta, entraram no carro.

“Por favor”, disse Rafael antes de ler o papel com o endereço do hotel e ponunciá-lo em um português quebrado que duvidou que o motorista fosse entender. Ele finalizou o desconforto com um desajeitado  “Obrigado”.

O motorista disse OK, mas pediu através de sinais para ver o pedaço de papel. Depois de dar uma lida, abriu um sorriso amigo e disse, “Hotel Miramar, Copacabana, yes mishterr!”

Assim que partiram, a estranheza que sentiram no aeroporto sumiu. O sol já estava a pino e fazia calor. Animados, colocaram seus óculos escuros e passaram a apreciar o cenário. Logo pegaram a Avenida Brasil, que estava apinhada de carros de fabricação americana, caminhões e ônibus de qualidade duvidosa, todos indo rumo ao centro da cidade. De repente, sentiram o mau cheiro vindo da favela beirando a estrada​. O fedor forte passou quando chegaram na zona portuária. Apesar de mais primitiva que a de Londres, era charmosa com sua série interminável de armazéns coloridos com chaminés e mastros de navios aparecendo logo atrás.

Do porto, o motorista, agora concentrado num programa no rádio, seguiu para o Centro. Lá atravessaram sua mistura contrastante de igrejas coloniais, prédios públicos de estilo modernista e construções vistosas da Belle Époque. Ao fim da avenida elegante e arborizada, chegaram na Baía de Guanabara onde deram de cara com o Pão de Açúcar. Dali o motorista, ousado demais para seus gostos, continuou a viagem apressada beirando a baía. Lá passaram pelos bairros do Flamengo e de Botafogo antes de finalmente atravessar dois túneis e chegar em Copacabana. Fizeram aquela curta viajem com as​ janelas abertas​, sentindo o vento no rosto, absortos pela beleza da cidade e relevando o programa de rádio incompreensivel e as barbeiragens do motorista.

*

A primeira coisa que fizeram depois que a bagagem chegou no quarto e que fecharam a porta, foi ligar para o Paulo. Ele havia dado a desculpa de que naquele dia tinha assuntos importantes a resolver e por isso não tinha dao para ir de madrugada recebê-los no aeroporto. Após uma conversa animada e piadas sobre o voo interminável marcaram de se encontrar no dia seguinte.

Paulo era um sujeito curioso. Além da sua personalidade fácil e de seu endereço exótico, possuía outra peculiaridade: era comunista. Esse tinha motivo original do seu exílio da Alemanha já nos meados dos trinta. Havia perigo de morte. Nunca soube dos detalhes dessa ameaça nem se continuou sua militância no Brasil, mas se tivesse, isso não teria sido pouca coisa no auge da ditadura de Vargas quando chegou.

Nos trópicos, a amizade entre os dois veteranos da loucura europeia floresceu. Apesar de antifascista, Rafael estava longe de ser de esquerda. De qualquer forma, os longos papos em iídiche trouxeram de volta as discussões políticas, tema central na vida judaica no leste europeu.

Durante uma dessas conversas, Paulo gabou-se de seu relógio produzido na comunista Alemanha Oriental ou RDA. “Está vendo este relógio aqui? Ele foi produzido livre da exploração capitalista. Pode ver! Ele funciona tão bem quanto qualquer relógio feito na América!”

Embora o relógio não fosse lá essas coisas, ao analisá-lo meu pai teve um “momento eureca”. Ele percebeu que tinha em mãos uma excelente oportunidade de negócios. Na cabeça dos brasileiros, alemão era sinônimo de confiável e, fabricados em um país comunista, seus preços seriam muito competitivos. A recém-criada classe média baixa brasileira iria, certamente, consumi-los como água.

Anos antes do golpe de 1964, com a ajuda dos contatos partidários do Paulo, Rafael atravessou o muro de Berlim, e foi se encontrar com o comissariado encarregado da fábrica de relógios. Com eles conseguiu um contrato para ser o representante exclusivo para o Brasil.

À primeira vista poderia parecer estranho que alguém com o seu passado fosse ganhar a vida vendendo produtos alemães e, pior ainda, comunistas. Seja como for, o rigor e a praticidade teutônica lhes eram reconfortantes. Adotando essa mesma objetividade fria, foi em frente sem deixar que sentimentalismos e ideologias interferissem nas suas decisões. Nisso, ele era igual à maioria de seus amigos judeus. Apesar de tudo o que eles e seus entes próximos haviam enfrentado durante a guerra, ainda guardavam respeito pelo pragmatismo e pela eficiência germânica. A subserviência ainda estava viva e, como a maioria dos sobreviventes europeus orientais, continuavam a ver a Alemanha como a liderança nata e incorruptível do seu mundo.


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Uberização: novos grilhões

Cerca de 13 a 14 milhões de pessoas estão desempregadas no Brasil. O cenário tem cada vez mais se tornado pessimista para empregos formalizados, levando as famílias buscarem uma saída para o sustento ou renda complementar, esse novo modelo espoliativo é visto por uns como solução após as sequentes Revoluções Industriais, hoje com a automação e inteligência artificial.

A Uberização sendo alternativa para os desempregados, como pode ser aplicado um dos prós, que é “A liberdade de escolher horário e tarefas…” Bem, é algo que soa aos meus ouvidos e entendimento como paradoxal. A exemplo de um ou uma supridor ou supridora das despesas familiares básicas: aluguel, condomínio, energia, água, alimentação etc.

Pensemos, se a pessoa que está nesse formato de trabalho para atender as necessidades com as ofertas do mercado uberizado, pode se dá ao luxo dessa escolha, se no final do mês tem suas entradas e saídas que não são compatíveis e o que se deve fazer é trabalhar até a exaustão, então, como vai ter mais tempo para vida pessoal e o lazer que se faz necessário a saúde?

Sendo esse um dos argumentos favoráveis que normalmente é postulado pelos “empregadores” enaltecendo essa flexibilidade de serviço como algo bom e positivo… Aí, o meu pensamento voa para antes e pós 13 de maio, aqui na terra brasis, ou seja, é ou não um formato de escravidão moderna? Os grilhões são os aplicativos, que oferecem tudo ao consumidor para o tempo, vilão da liberdade moderna, ser CAPITAL.

Não sou cientista do mercado e direito do trabalho. Sou proletária aposentada com vivência de dois regimes trabalhistas: CLT e Estatutário, o que rege hoje meu contra cheque. Me lembro as terríveis perdas na transição de um modelo para o outro, as adequações e depois fui me acostumando e reorganizando as despesas. Então, imaginemos agora esse novo “estandarte” trabalhista… O trabalhador ou trabalhadora sem legislação, sem salário fixo, sem nada, apenas o seu esforço ativo de trabalhador ou trabalhadora… Se adoece a criatura, como vai trabalhar e se a escolha é não faltar, por não  pode agora “escolher” o seu tempo flexibilizado, pois as contas chegam a cada fim de mês. É vida? É liberdade? É moderno?  Ou lembra os tempos de fábrica e minas de carvão, antes da primeira greve por direitos trabalhistas, que Émile Zola bem retratou em sua obra prima O Germinal… Estamos retroagindo em tempos tão modernos? Vejo com olhos de um passado/presente, o capitalismo enfurecido engolindo o homem e demais criaturas. Me faz refletir a dor do trabalho incerto…

Conheci um jovem que tem por primazia cuidar da mãe e das irmãs, que trabalham em contratações pontuais em eventos de formatura. Ele é o arrimo da casa, a mãe faz pão e bolos para vender. No dia que conversamos vi a exaustão em seu olhos, um número de entregas absurdo, mal tinha tempo de mastigar um sanduiche. Ele estava estudando para um concurso quando a empresa que trabalhava enxugou os “cooperadores,” ele e mais três, sem muitos critérios, perderam o trabalho fixo com a legislação trabalhista. O tempo passou, seguro desemprego, bicos, um contato aqui e outro ali, mas chegou a hora necessária para uma atitude produtiva: se uberizar para o sustento maior familiar. 16, 17, 18 horas dia trabalhadas, horários flexíveis para os patrões, ele que se vire e se adeque ao novo modelo como gestor e empregador de si mesmo, de suas horas, de seus dias e de sua morte, talvez, de exaustão ou no trânsito infernal e assassino.

 

Gigi Pedroza