por Mauro Nadvorny | 7 mar, 2020 | Brasil, Comportamento
O fenômeno Olavo (Olavo de Carvalho e seus seguidores) me intriga já a alguns anos. Recentemente, um artigo da escritora Elaine Brum publicado no El País, tendo como tema a ascensão de Bolsonaro como representante do homem mediano brasileiro ao poder inspirou-me a um paralelo que deixei delineado em um prefácio que escrevi para o livro “Mistérios da Lua”, de Antonio Farjani.
A história começa cedo, na minha adolescência e termina em um passado relativamente recente, quando eu tive acesso a um conjunto de informações científicas e históricas que preencheram gigantescas lacunas nos meus campos de conhecimento em uma ciência que muito prezo, a saber, a Física. Em um curtíssimo espaço de tempo, tive a percepção do quanto fui (e somos) maltratados na nossa formação escolar geral, que por muitos anos nos despeja quantidades irracionais de conhecimento tido como científico (e de fato, na maioria das vezes o é) mas desacompanhadas de qualquer ferramental que nos permita avaliar o peso e o valor desses conhecimentos. Uma determinada fórmula, uma ferramenta de cálculo, uma tabela periódica de elementos químicos, a imagem teórica de um átomo ou de um cromossomo, tudo isso, nos é apresentado como um simples fato, quando na realidade resultam muitas vezes de décadas de pesquisa ou da vida inteira de um(a) certo(a) cientista. O conhecimento é apresentado desprovido de humanidade, de conexão histórica, de contexto e quase sempre de significado e aplicabilidade prática.
A consequência de todo esse destrato com a ciência e com o conhecimento é que ele passa a ser tratado como banalidade, como peça de consumo, descartável, reciclável, inútil muitas vezes. Quantas vezes, como médico, observei esta confusão entre conhecimentos sólidos e baseados em fortíssimas evidências, e conhecimentos derivados até do folclore mais picaresco, trazidos às vezes à mesa em estado de equivalência.
Por outro lado, para aqueles que não frequentam a academia mas de alguma forma tem alguma sede de conhecimento, o confronto com o volume de informação que se produz a cada segundo no mundo pode produzir experiências frustrantes, trazendo ainda a sensação de distância, de exclusão dessas fontes de geração de conhecimento e uma total falta de controle e compreensão. Junte-se a isso alguns exageros e distorções do cientificismo, que chegam mesmo a desprezar qualquer conhecimento que não tenha sido obtido pelos métodos cartesianos, levando muitas pessoas a sentirem-se massacradas pela não militância acadêmica, esta, acessível a uma fração muito pequena da população.
Esses “excluídos” do mundo científico existem em todas os extratos sociais, inclusive entre aqueles com diploma superior sem pós-graduação sensu strictu (formação de pesquisador/docente). O que não faltam são médicos, engenheiros, advogados, historiadores, farmacêuticos, clérigos, etc., sem qualquer noção de filosofia da ciência e metodologia científica, e que habitam essas zonas de desconforto nos campos da intelectualidade.
Para esses excluídos, surge um “igual”, um homem sem formação acadêmica, mas inteligente, articulado, e certamente com muita cultura, mas com grande grau de oportunismo e capacidade de formar esse forte vínculo com seus “semelhantes”, entitulando-se autodidata, apresentando-se como bem sucedido. Com ideias bizarras e que se contrapõem a quase tudo e a quase todos, transforma-se em verdadeiro herói e mito, dando vazão a todas as fantasias que os aterrorizados exilados da ciência cultivam para suprir suas carências e necessidade de afirmação. Para estas pessoas, um homem com a capacidade de explorar habilmente as contradições de um mundo complexo e eventuais fragilidades da ciência é um verdadeiro sacerdote, que sabe explorar muito bem as questões de fé.
Assim, Olavo de Carvalho é sintoma de um mundo (ou país) onde o conhecimento mal transmitido e o ferramental insuficiente para compreendê-lo gera legiões de apavorados em busca de um porto seguro “intelectual”, que funcione ainda, nesta fúria contestatória, como uma espécie de “vingança” contra toda essa complexidade, aliando-se a isso a incapacidade que temos hoje de construir uma necessária crítica ao cartesianismo e ao racionalismo quase desumano que em certos territórios faz hoje da ciência algo próximo de religião e da academia, quase um “Vaticano”.
O tamanho do sintoma e suas nefastas consequências políticas só nos dá a dimensão da doença que habita nossa sociedade. Ela é sistêmica, adquiriu caráter contagioso e pode ainda tornar-se genética, transmitindo-se à próxima geração. Paradoxalmente, apenas a abordagem histórica e científica pode nos permitir observar que tudo isso é apenas repetição. Já ocorreu e tem um ciclo a percorrer. Paciência, é o que precisaremos para atravessar esta onda.
por Mauro Nadvorny | 5 mar, 2020 | Brasil, Política
As semanas se sucedem e a única coisa que muda é o roteiro do bestialógico presidencial. Temos de convir que a imaginação do ex-capitão é infinita e que a nossa (ou pelo menos a minha) capacidade de suportar já passou do limite. É inacreditável a faculdade de Bolsonaro de se prestar ao ridículo. Colocar um humorista de terceira classe, vestido da faixa presidencial, para distribuir bananas aos jornalistas e “responder” às perguntas sobre os medíocres resultados econômicos é um tapa na cara, não somente da imprensa como de todos os brasileiros, mesmo daqueles que votaram nele e aplaudem esse tipo de insulto. É usar um bobo da corte para divertir o povo, no caso os fanáticos apoiadores do presidente, que se sentem no direito de rir e proferir palavras de cunho sexual para os repórteres (aprenderam com o mito).
Junto à sua claque, Bolsonaro dava gargalhadas escancaradas. Aquelas que fazem com que ele se pareça com um misto de Hitler e Joker.
Por seu lado Márvio Lúcio, aliás Carioca, gritava o nome do Posto Ipiranga – Guedes, Guedes!!! – para explicar o pibinho.
Não era para menos, pois é de conhecimento de todos que ali nem o falso nem o verdadeiro presidente sabe o que é o PIB.
Simultaneamente, nas redes sociais, jornalistas próximos do Palácio, na sua imensa má fé, minimizavam o resultado ruim da economia brasileira, ressaltando a conjuntura internacional desfavorável e aplaudindo o fato de que o Brasil fechou 2019 com um crescimento positivo pelo terceiro ano consecutivo.
Ora, com relação à conjuntura internacional, não há do que se orgulhar, é bom lembrar alguns números e comparar: os Estados Unidos cresceram 2,3% e o desemprego foi de 3,8%; a França registrou aumento de 1,2%, apesar dos coletes amarelos e da maior greve de transportes da história, que literalmente paralisou o país; a Inglaterra cresceu 1,2% em pleno Brexit; Portugal 2,2%; Canadá 1,5%.
Mas vale a pena lembrar que o que importa não é a honestidade intelectual, pois os bolsonaristas presentes nas redes estão dispostos a engolir tudo, desde que se fale bem do chefete. A verdade sobre o PIB é secundária. Eles aplaudem sempre, qualquer que seja o descalabro, até mesmo quando o anúncio do filhote 01 diz respeito à liberação de navios de cruzeiro e criação de zonas de pesca e recifes artificiais em Fernando de Noronha. Aplaude-se. A palavra de ordem é ser descerebrado.
Quanto a nós, que insistimos em pensar (algo tão fora de moda), está difícil navegar nesse mar de lama.
Dias atrás, lancei um modesto apelo à união de todos os democratas, ao meu ver a única forma de se opor de maneira eficiente ao populismo de ultradireita e se preparar para o momento em que pudermos, juntos, lutar para restabelecer a democracia. Na minha imensa ingenuidade, acreditei que esse fosse o caminho. Enganei-me. Líderes como FHC e Lula reagiram contra o ato anti-Congresso apoiado por Bolsonaro. O tucano de forma até mais contundente que o petista. Mas nem Lula, nem FHC, nem Ciro Gomes, nem ninguém parece disposto a deixar de lado as suas verdades e vaidades em nome da unidade das forças de oposição.
Em meio à crise, como se a manifestação do dia 15 fosse um episódio anódino, Lula veio à Paris, receber o título de cidadão honorário. Depois de um discurso chocho, em que pela enésima vez dedicou-se a atacar Moro por tê-lo colocado na prisão, deu entrevistas. Que decepção! Numa delas, Lula deu a entender que não havia razão para abrir um procedimento de impeachment ao encontro de Bolsonaro, pois “não podemos destituí-lo só porque não gostamos dele”. Só porque não gostamos dele??? Razões existem às pencas para destituí-lo; pode-se optar por levar a situação em banho-maria por motivos de estratégia política ou pragmatismo, já que não há maioria no Congresso para votar o impeachment. Mas daí a minimizar a quebra de decoro, as mil e uma violações da Constituição, os ataques reiterados à imprensa etc, etc, etc, pelo amor de deus! as palavras de Lula nos insultam, são uma desfeita àqueles que tentam no dia-a-dia brigar para salvar o Brasil da ditadura depois de terem conseguido tirar o ex-presidente provisoriamente da prisão.
Para o novo cidadão honorário de Paris, Bolsonaro tem todo o direito de permanecer os quatro anos de seu mandato no Planalto. Faça o que fizer. Eu respondo NÃO, a continuar nos tratando como palhaços ele deveria partir. Admito porém que não temos condições de destituí-lo. Então, baixemos a crista, mas continuemos a cantar de galo a cada investida presidencial contra a sensatez, a inteligência , o respeito e sobretudo a Constituição. É o nosso direito, é a nossa obrigação.
Em tempo, Lula: Maduro não é democrata, nem foi democraticamente eleito.
Milton Blay
por Mauro Nadvorny | 3 mar, 2020 | Brasil, Comportamento
Tenho lido muitos artigos de opinião. Todos bons e com um tom de denúncia, convocação para o pensamento crítico e qualquer coisa de metáforas. Todos opinando e mostrando possibilidades para mudarmos o discurso com o que está a se espalhar pelo Brasil: o bosonarismo e suas moléculas, que em sua estupidez tem tentado varrer a Constituição Federal do cotidiano brasileiro.
Hoje, conceituados ou não, jornalistas, blogueiros, faceboockeanos e demais entidades ligadas à escrita se posicionam em suas bolhas, arquétipos de segurança e respostas ao que foi dito com inteligência, sarcasmo, aforismo etc. e tal. Eu sou um desses partícipes no faceboock.
Mauro convidou-me por duas vezes para colaborar no seu Blog tão necessário nesse tempo que de bicudo já não é mais, pois extrapolou o mínimo de civilidade. Estamos em tempos perversos: antissemitismo, xenofobia como regra, preconceitos em todas as sequências, institucionalização dos horrores: a morte tem cor e etnia. A cor é do negro, do índio, de quem está à deriva, à margem do lema presidencial: DEUS, PÁTRIA, FAMILIA. Um Estado teocratizado. Sabemos que hoje a Democracia é a boneca sem braços e pernas da criança abandonada.
O que de novo há no front desse DESgoverno? Absolutamente nada! Nenhuma via é observada a favor do coletivo, do povo. Somos atropelados diuturnamente por atitudes distópicas do presidente ao soldado raso. O que fazer?
Dia 8 de março, um dia emblemático e historicamente cheio de significados, aqui, no Brasil, relacionamos ao incêndio ocorrido em Nova York no dia 25 de março de 1911 na Triangle Shiirtwaist Company, quando 146 trabalhadores morreram, sendo 125 mulheres e 21 homens [na maioria, judeus], que trouxe à tona as más condições enfrentadas por mulheres na Revolução Industrial, iremos às ruas pelejar. Não sei o que nos espera, mesmo com a proposta dialógica de nossas manifestações. Só sei que queremos um país vestido de dignidade para os seus cidadãos e cidadãs sem medo dos becos escuros e livremente andando de mãos dadas sem a abordagem inescrupulosa e arrogante de quem se veste de servidor público, ornado de uma farda com a truculência como diálogo.
Não estou pedindo o Brasil de volta, pois descobri que havia nessa linda colcha de retalhos muitos armários do fascismo e neonazismo. Quero sim, um país civilizado respeitando a carta da Constituição. Quero sim, um país que sabe votar com letramento e não em currais de opressão seja por quem for, não importa de onde emana esses podres poderes de anular a liberdade de quem quer que seja. O voto é a maior carta de alforria de um povo.
Bordo de realismo esse inapto governo, pois sua biografia era aberta aos 57, 5 milhões de eleitores, nos 28 anos como parlamentar. Todos conheciam o seu discurso acéfalo e cruel. Todos! Erraram por ódio, por se sentirem no direito, através do voto, jogaram no obscurantismo toda a Nação. O que reverbera é o estúpido mantra: “TIRAMOS O PT!” Isso falando em eleitores… E os representantes políticos, que egoicamente foram abandonando o round, e, cá deixaram o “destino” da Nação em nossas fragmentadas mãos. Lutamos não exatamente pelo PT, mas pelas asas da liberdade, que sabíamos estar por um fio e a barbárie seria instalada sem piedade.
O dialogismo tem que haver em mares revoltos, essa é a grande lição de 2018. Espero que reflitam com o rigor da maturidade política este ano e para 2022. Caso contrário, a amada Pátria será um jazigo sem epitáfio legada aos vermes. O NÓ do bordado está dado. Obrigada!
Gigi Pedroza
por Mauro Nadvorny | 3 mar, 2020 | Brasil, Comportamento
al sur al sur/está quieta esperando/Montevideo (Mario Benedetti)
Lá tantas vezes que não me sinto turista. A Montevidéu que encontrei desta vez se chama memória.
Numa rua típica, baldosa persistente, argamassa quieta, estava a Fundação Mario Benedetti. Do lado de fora, como em tantas outras casas montevideanas, não se suspeita os tesouros que esconde. O grande intelectual, que não teve filhos, nem deixou herdeiros, deixou ordens claras do que fazer com seu imenso legado. Um conselho de curadores, todos voluntários, respeitam a vontade do Mario, preservando sua imensa biblioteca, as obras de arte que ganhou, seus móveis mais significativos. No fundo, um pátio cálido, que convida ao silêncio. Este é o ano de seu centenário de nascimento. As comemorações já começaram e têm a cara do uruguaio universal, identificado com a cidade e suas gentes. Muitas atividades ao ar livre, em forma de diálogo e acolhimento. Polindo, em suma, a memória de um tempo fora do tempo.
No centro da cidade, uma taberna vasca. Preferia uma flamenga, mas resolvemos arriscar. Mais uma vez, uma casa-surpresa. Do lado de fora, apenas a fachada meio ferida pelo tempo. Sobe-se a escada, e … voilà ! Corrimões de madeira centenários, uma porta com vitral colorido que dava acesso ao ginásio de pelota vasca. E tinha gente praticando. Na taberna, boa comida e pessoas conversando sem celular (gente estranha aquela, sem pescoço torto e de olho atento). A construção celebra a imigração do País Basco. Memória viajante.
Afastado do centro, está o Museu da Memória. Criado para lembrar o período ditatorial (1973-1985), que, como no Brasil e em outros países da América Latina, institucionalizou o terrorismo de Estado, fica num casarão que pertenceu a um general. No século XIX, era sua casa de veraneio e, conta-se, lá os adversários eram servidos aos leões que mantinha enjaulados. É um lugar impressionante (embora um tanto maltratado por falta de manutenção e de informações mais detalhadas sobre o acervo impactante). Quem assistiu o filme Uma noite de 12 anos, que reconstitui a situação dos chamados reféns da ditadura uruguaia (entre eles, Pepe Mujica), não tem como ficar indiferente. Lá estão os uniformes reais dos presos políticos (dá calafrios a semelhança com os de campos de concentração), portas das celas, objetos produzidos pelos prisioneiros, fotos dos que foram assassinados e os corpos desapareceram. O objetivo do museu não é clamar por vingança, mas, tal como fazem os judeus com o Holocausto e os japoneses com a barbárie nuclear em Hiroshima e Nagasaki, lembrar para que não volte a acontecer. Memória de dor e de luta.
Não pude evitar um certo desconforto com dois aspectos. O museu fica muito afastado da região central. Talvez por isso, tenha poucos visitantes. Éramos os únicos quando lá fomos. Seria essa uma evidência de desapreço pela história recente do país ? Foi quando lembrei das Marchas del Silencio, que acontecem todos os anos no mês de maio. São grandes manifestações de massa, que reivindicam a localização dos que, sob a custódia do Estado, desapareceram durante a ditadura. Esquecimento ou permanência ? Em qual ponta estaria a verdade ?
Foi quando me deparei com a fotografia de um desaparecido, em exposição numa estrutura em forma de viveiro. Próxima do chão, ela estava quase encoberta por um galho de árvore. Percebi que havia duas formas de apreciá-la. A primeira, projetando o crescimento das folhas do galho. Fatalmente cobrirão a foto, fazendo desaparecer pela segunda vez, simbolicamente, o fotografado. A segunda seria enxergar as folhas como uma proteção da imagem, perpetuando-a.
Qual das visões prevalecerá ? A resposta está no povo uruguaio. Memória em construção.
por Richard Klein | 28 fev, 2020 | Brasil, Literatura, Trending
Ainda que tivessem, nas palavras de Winston Churchill, anos de sangue, suor e lágrimas pela frente, o exílio na Inglaterra não poderia ter sido melhor. Longe da SS e das suas câmaras de gaz, em meio a ônibus de dois andares, névoa espessa, homens de cartola, taxis quadrados, políciais de chapéu estranho e sem armas e dos vários sotaques da língua inglêsa, Rafael foi se adaptando à condição de refugiado. Por mais diferente que Londres fosse, a vida lá era reconhecivel; havia tolerância, estado de direito, respeito às liberdades individuais e um governo disposto a resistir o fascismo e tudo o que ele representava.
Com o perigo afastado – pelo menos temporariamente – a possibilidade de seguir adiante voltou. Sem dominar o idioma nem conhecer ninguém, seu ponto de partida óbvio foi a comunidade judaica. Além do iidiche – a língua comum aos Judeus da Europa do Leste – para ajudá-lo naquele meio havia o seu nome nas manchetes de jornal. O resgate dramático de uns dos primeiros refujiados a fugirem das garras nazistas na Holanda e sua sobrevivência improvável em alto-mar ganhou manchetes em jornais.
Essa exposição midiatica junto com a vontade expressada pela primeira dama dos Estados Unidos, Eleanor Roosevelt, de adotar seus sobrinhos, fez dos irmãos semi celebridades na comunidade. Membros eminentes brigavam entre si para oferecer jantares em sua homenagem. Enquanto Ziesch se deleitou com a bajulação, Rafael, astuto, usou as oportunidades para fazer contatos.
Em uma dessas ocasiões, Renée apareceu em sua vida. Vinda do bairro abastado de Golders Green, uma espécie de “quartel general” de membros emergentes da comunidade onde muitos refugiados famosos estavam vivendo, era uma princesa com metade de sua idade e quase o dobro de sua altura, Fascinada pelas histórias e pela aura de herói do seu pretendente – e ciente de que os melhores elegíveis estavam envolvidos na guerra de uma maneira ou de outra – Renée, que só não foi modelo porque seu pai não permitiu, aceitou um romance com um homem vinte anos mais velho.
Seu pai, Alec, era um comerciante de tecidos bem-sucedido; um viúvo, alto, bonito, com fama de mulherengo. Embora as más línguas comentassem que tinha se dado bem na vida dando golpes do baú, ele era boa praça. Ciente de ser o mais próspero de toda a família, ajudou muitos parentes em apuros sérios durante a guerra.
Ele simpatizou de cara com o seu futuro genro e viu na sua situação mais uma oportunidade de fazer alguma coisa pela sua gente. Rafael era um sujeito maduro, confiável, dinâmico e esperto que parecia uma boa escolha para proteger sua filha adorada. Levando em conta as limitações financeiras do casal – e as causas dessas limitações – resolveu dar de presente de casamento uma casa em Hendon, um bairro aconchegante no norte de Londres.
*
O casamento foi tão grande quanto podia numa situação de conflito militar. Contudo, apesar dos racionamentos, dos bombardeios constantes e da insegurança durante guerra e da penúria da reconstrução depois dela, os primeiros anos foram felizes. Após passar por alguns empregos pouco desafiadores quando solteira, Renée pode mergulhar de cabeça na carreira de rainha do lar na sua confortável casa com jardim. Rafael por sua vez, pôs em marcha a sua experiência empresarial agora contando com uma penca de ótimos contatos.
Enquanto os filhos não chegavam, um dos maiores prazeres do casal era receber convidados para jantares formais nas noites de sexta-feira. As visitas eram variadas: intelectuais, artistas, pessoas eminentes da comunidade, diplomatas de segundo escalão, vizinhos além de, é claro, amigos e familiares.
Um desses convidados foi Paulo, um alemão amigo de um amigo em comum. Ele estava de visita em Londres e vivia num lugar exótico e famoso que suscitava a imaginação dos ingleses, mas onde pouquíssimos tinham se aventurado: o Rio de Janeiro. Ele tinha emigrado para lá muito antes da guerra por motivos políticos. Contudo seu passado não estava no cardápio da conversa. Por nunca terem conhecido alguém que tivesse ido naquela cidade, muito menos alguém que morasse lá, queriam saber tudo.
Ele os fascinadou assim que começou a falar. Com quinze anos de Brasil, bronzeado, Paulo tinha um ar muito mais descontraído do que os frequentadores habituais daqueles jantares. Encorajado pelo interesse, o convidado se sentiu bem satisfazendo a curiosidade dos anfitriões e ficou horas descrevendo e contando histórias pitorescas da cidade pela qual tinha se apaixonado.
Enquanto bebiam vinho francês em taças de cristal e trocavam de talheres e de pratos conforme as diferentes partes da refeição iam aparecendo, o casal foi digerindo o que ele dizia. A beleza do lugar, as praias, os morros no meio da cidade cobertos por florestas tropicais densas e o clima ensolarado. Aquela era uma terra onde meninos jogavam futebol descalços nas ruas, onde a população morena fazia e dançava a música mais alegre e tomava conta da cidade no Carnaval. Pelo olhar estrangeiro, havia uma espontaneidade, uma cordialidade e uma leveza únicas que permeavam o ar. Nos bairros residenciais havia uma mistura ímpar de uma saudável cultura de praia com todas as amenidades que se podia esperar de uma cidade moderna, tudo a preços ridiculamente baixos para Europeus.
Quando Paulo pegou o táxi para voltar para o hotel já de madrugada não imaginava o efeito da sua visita. Ele havia mexido com a imaginação do casal. Depois de arrumarem a casa e irem para cama, ficaram horas sonhando acordados e resolveram aceitar o convite do seu novo amigo para que fossem visitar o Rio de Janeiro.
Isso aconteceu em 1953 e foi amor à primeira vista. A estadia confirmou tudo o que paulo tinha falado. Conheceram as praias maravilhosas, andaram pela floresta e viajaram pelos arredores do Rio onde descobriram vilarejos perdidos no passado. Os dois se encantaram com a morenice tropical que exalava em todos os lugares; a atitude relaxada e amistosa, as frutas, o calor, as cores e a paisagem. De volta à chuva fria e à vida regrada de Londres, a viajem ficou como o um tesouro precioso e com o tempo, a saudade passou a bater forte.
Sem nada que os prendesse ao Reino Unido, decidiram embarcar numa aventura e se mudar – temporariamente – mas quem sabe definitivamente – para a cidade maravilhosa. A decisão chocou amigos e familiares. Embora muitos ingleses estivessem emigrando devido às dificuldades econômicas do pós guerra, o Brasil era um destino inusitado para um jovem casal judeu. Naqueles tempos de reconstrução, supunha-se que se mudassem ou para Israel por ideologia, ou para a América do Norte, a África do Sul, ou a Austrália. Nesses países se falava inglês, havia familiaridade cultural e as mesmas oportunidades que no Brasil. Ninguém entendeu a escolha, mas o destino falou mais alto.
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por Mauro Nadvorny | 28 fev, 2020 | Brasil, Política
Qualquer pessoa com um mínimo de informação e bom senso sabe: o golpe está em marcha, o objetivo é passar da ditadura insidiosa que vivemos a uma ditadura institucionalizada, com leis de exceção e todo o aparato repressor. O clã Bolsonaro, os militares, evangélicos, mulheres que defendem a falocracia e outros fascistas que integram o governo, estão em plena campanha pelo endurecimento do regime, com apelos ao AI5, pouco importa qual seja o seu futuro nome, e o consequente fim do período democrático. Os sinais são claríssimos, transparentes.
Não foi por acaso que no Nordeste, região que não aderiu ao bolsonarismo, os policias militares, muitos dos quais encapuzados, escondendo o rosto de milicianos, entraram em greve, numa evidente violação da Constituição Federal. Foram além, passaram a não mais respeitar as autoridades estatais, referindo-se diretamente à Brasília, como se fossem subordinados diretos de Jair Bolsonaro. O movimento se alastrou e hoje engloba metade dos Estados brasileiros.
Não foi tampouco por acaso que nos últimos meses Bolsonaro trocou ministros e responsáveis civis do segundo escalão por militares, inclusive da ativa.
Ao reconhecer que o presidente da República flerta com os motivos legais de impeachment, o general Augusto Heleno decidiu agir, declarando guerra ao Congresso. Afinal, a segurança institucional é o seu setor. Inventou uma chantagem do Parlamento e concluiu com um sonoro “Foda-se”. Foi então que se articulou uma manifestação em defesa dos militares, contra os inimigos do Brasil que são o Congresso Nacional e Supremo Tribunal Federal. O general pôs fogo no circo, numa manobra muito bem preparada. As principais palavras de ordem, o fechamento do Parlamento e do STF, receberam o apoio do presidente da República, através do WhatsApp.
Vale sempre a pena lembrar: Quando o general Augusto Heleno era chefe da Minustah, as forças da ONU enviadas ao Haiti, os soldados sob seu comando cometeram inúmeros atos de violência ao encontro da população, milhares de mulheres foram estupradas, 70 favelados mortos, 20 desaparecidos e 300 feridos na maior operação militar no país. Os mortos foram assassinados com tiros na cabeça, à queima roupa. Mais de 23 mil cartuchos foram detonados. Demitido do cargo pelo então presidente, por exigência da ONU, o general passou a considerar Lula seu inimigo mortal.
Agora, Jair Bolsonaro e seus filhos, sob o estímulo original do general Heleno, pregam que os militares intervenham no Congresso e no Supremo.
Apesar do absurdo do apelo, não se pode dizer que haja surpresa nessa atitude abertamente antidemocrática, que por si só justificaria a abertura de um procedimento de impeachment. Há 20 anos, o então deputado declarou que se um dia chegasse à presidência fecharia o Congresso e mataria 30 mil, dentre os quais o chefe de Estado da época, Fernando Henrique Cardoso. Jair Bolsonaro, durante a campanha eleitoral, em 2018, reincidiu, ao dizer que “se caísse uma bomba H (de hidrogênio, muitas vezes mais potente que uma bomba atômica) no Parlamento, pode ter certeza, haveria festa no Brasil.” Agora, foi apoiado pelos filhotes 01, 02 e 03.
Dependendo do número de bolsonaristas presentes, a manifestação programada para 15 de março poderá ser o preâmbulo da instauração de uma nova ditadura, assim como a Marcha da Família com Deus pela Liberdade foi uma espécie de prólogo do golpe de 64. Diante dessa possibilidade, até mesmo alguns jornalistas ultradireitistas, mas que conservaram um mínimo de respeito à democracia, pedem que seus leitores não compareçam ao ato. Uma prova de responsabilidade tardia.
Quanto a nós, que sabíamos muito antes o que aconteceria caso o abominável fosse eleito – o pior, a hora é de esquecer as desavenças e formar uma compacta aliança democrática, congregando todos aqueles que são contra o autoritarismo fascista. Todos, sem exceção, a começar pelas lideranças políticas, que poderiam ou melhor deveriam esquecer por dois minutos a vaidade que os desune para elaborar um manifesto da Frente Unida pela Democracia. É o mínimo que se espera deles em nome da biografia. Caso contrário, amanhã, serão chamados, com razão, de cúmplices da barbárie.