Não é censura!

A decisão do Min.Alexandre de Moraes, do STF, que mandou o Twitter e o Facebook suspenderem as contas de 16 bolsonaristas gerou diversas reações na sociedade, vindas predominantemente de entendimentos de que a medida caracteriza censura prévia, o que ao meu ver, constitui equívoco raso pelo mau ou não entendimento do contexto.
Basilarmente, trata a nossa Carta Magna de vedar a censura prévia à expressão livre do pensamento e da opinião. Mas trata também a nossa carta de proteger outros bens dos indivíduos e da sociedade, que de forma ainda muito diferente e grave do que era em 1988, pode ser ofendidos pela difusão rápida e exponencial potencializada pelas mídias sociais e internet. Exemplo claro é a atividade dos “antivaccers”, grupos internacionais de difusão de fake news sobre vacinas, que são culpados pelo ressurgimento do sarampo, da coqueluche e talvez outros agravos que ameaçam a vida de pessoas e a economia de nações. Mas o pior aspecto desse tipo de fake news é que ele vem sem assinatura. Constróem-se narrativas complexas, recheadas de pseudodocumentos científicos caprichosamente elaborados com fotos, citações, ilustrações e outros adereços que inspiram confiança nos incautos ou mal instruídos que assim são arregimentados para a visão tosca e cruel de transtornados mentais e mal-intencionados.
Tipicamente, esse difusores de falsas notícias são covardes e dissimulados. Não assinam o que escrevem, colocando-se apenas como difusores daquilo em que acreditam ou daquilo que sirva aos seus torpes interesses. Fossem essas iniciativas acrescidas da assertiva “isto representa a minha opinião” ou “isto representa o meu desejo pessoal”, talvez o alcance da lei maior fosse mais restrito, pois estaria o leitor alertado da individualidade do pensamento e posição. Mas os difusores de fake news não agem assim, usando de todos os recursos para que seja não percebida a pessoalidade da posição ideológica e argumentativa.
No campo puramente das ideias e iniciativas, bem mostrou um certo filme da série “007” que uma informação falsa disponibilizada em massa tem o potencial de desencadear uma guerra mundial, e isto, nos dias de hoje, não está razoavelmente tão distante.
No caso em tela, tratou o Min. Alexandre, sabiamente, ao meu ver, e também legalmente, de proteger bens difusos de nossa sociedade. Não se tratou a medida de impedir a livre manifestação do pensamento, pois os investigados não têm apenas no Facebook e no Twitter as suas vias de expressão.
Novamente, como argumento, voltemos a 1988, sem internet e sem mídias sociais. Nossa fonte de informação e muitas vezes de expressão, eram os jornais e revistas. Pergunto ao leitor que já era socialmente emancipado à época: quantas cartas que vocês enviaram aos jornais foram publicadas? Pelas minhas, posso responder: pouquíssimas. Ora, que tipo de poder era esse que as mídias da época exerciam sobre a opinião ou expressão individual? Obviamente era uma forma “fisiológica” de censura! Absolutamente ninguém àquela época, excetuando-se os grandes proprietários dos grupos de mídia exerciam livremente a liberdade total de expressão, o que analisando-se à luz dos tempos atuais, soa como absurdo. Neste ponto, as mídias sociais cumprem um papel democratizante da expressão, ressalvando-se, claro, as atividades dos algoritmos que direcionam as postagens de forma calculada a certos públicos.
O território da internet muitas vezes dá a impressão de pretender ser uma verdadeira terra sem lei, demanda daqueles que tem um entendimento radical do princípio da liberdade de expressão. Mas, como já dissemos antes, as instituições democráticas devem cuidar de todos os bens fundamentais abrigados pela Constituição, entre eles, o direito do cidadão de receber informação qualificada e que não seja voltada a atacar os mecanismos de proteção da democracia e à própria democracia. Se as próprias mídias sociais tem suas regras internas, e com certa frequência bloqueiam ou censuram certas postagens, por quê não haveria o STF, que tutela os bens fundamentais da nação, de julgar certas atividades entendidas pelo magistrado como propagadoras do mal, do desentendimento, da ofensa, da calúnia, da difamação, sistematicamente praticados por um grupo de pessoas, que no contexto do inquérito em curso revelam evidências de articulação criminosa e ameaçadora aos bens democráticos, sob financiamento por verbas escusas e ocultas, e com evidências de uso de patrimônio público e verba pública?
Ao incauto e precipitado, junto aos quais observei alguns juristas, jornalistas e ativistas, parece mesmo uma iniciativa de mera censura. Mas não é. Não se trata de limitar a liberdade de expressão de pessoas, mas sim, o de prevenir a continuidade de uma prática já caracterizada no âmbito do inquérito judicial como criminosa contra a democracia e a sociedade. As pessoas envolvidas continuam livres para manifestarem-se individualmente em outros fóruns e eventualmente no palanque público, em entrevistas, textos e todo o tipo de matéria em outras mídias. Seus eventuais partidos, continuam livres para manifestarem-se pelas suas plataformas partidárias oficiais, com nome e assinatura.
Em um curtíssimo espaço de tempo a sociedade vem observando o risco e os danos causados pela má informação alavancada por ferramentas eletrônicas, perfis falsos, robôs e outras transgressões. A catástrofe da pandemia da COVID-19 é um verdadeiro genocídio que entre outras causas tem a atividade desses grupos, capitaneados pelo Presidente da República, que desde o início disseminou mentiras, falsos remédios e desinformação à sociedade sobre os riscos e dimensões da pandemia.
Não há mais tempo para o silêncio. Felizmente, o Min. Alexandre de Moraes falou nos autos. E disse, na minha interpretação: “não se trata de liberdade de opinião, e sim da liberdade para o cometimento de crimes contra a sociedade e a democracia, e esta liberdade não existe.”

Uma vacina, por favor

Ao que tudo indica, até termos uma vacina, nossas vidas vão continuar sendo o inferno do Covid-19. Um vírus que já tem seu nome inscrito na história humana. Um acontecimento que vai determinar muitas referências históricas, como antes de 2020, e depois de 2020.

Eu não passo um dia sequer sem desejar “meus sentimentos” a amigos nas redes sociais que perderam um parente próximo para o vírus. Junte-se a eles os que são anunciados pelas mídias e temos um quadro do tamanho da catástrofe que se abate sobre nós.

O Brasil vai passar a marca dos 100.000 mortos em breve. A falta de gerenciamento da crise pelo governo federal nos aproxima cada vez mais deste número. Infelizmente vamos ultrapassá-lo em muito. Sem diretrizes mínimas nacionais, o vírus vai tomando vidas. Já são quase 750.000 mortos no mundo.

Para os que ficam, as perspectivas de vida também não são nada promissoras. Salvo os ricos que vão ficando mais ricos, a maioria da população sofre os efeitos na economia. Negócios foram a falência, empregos foram perdidos. A economia sucumbe diante dos efeitos das quarentenas e do medo da população em sair de casa, mesmo de máscara.

Setores como o do turismo e da cultura enfrentam a maior crise de sua história. Com as fronteiras fechadas, o turismo se restringe a população interna, onde é permitido. Com as casas de espetáculos e cinemas fechados artistas e toda a estrutura ao seu redor mínguam.

Restaurantes e bares sofrem com as restrições e ordens de fechamento. Mesmo fechados precisam seguir pagando alugueis e impostos. Difícil resistir até poderem reabrir e ter de volta seus cliente. Boa parte estão encerrando suas atividades definitivamente.

Com as engrenagens da economia travadas, o dinheiro não circula. Desta maneira, profissionais liberais também são prejudicados. A população sem salário, vivendo de economias, algumas necessidades precisam ser adiadas. As reservas são finitas e nem todas as despesas podem ser cortadas. A inadimplência bate a porta de muitos lares.

As escolas e universidades particulares vão ter uma enorme evasão de alunos. Parte deles vão para as públicas e outra parte vai abandonar os estudos. O país vai sentir este efeito na próxima geração.

Prestadores de serviço, como as TVs a cabo, por exemplo já veem o número de clientes despencar em milhares. Uma despesa que já não se encaixa quando se entra no modo sobrevivência. Planos de saúde passam pelo mesmo problema. O SUS vai ser a boia salva-vidas.

O número de suicídios é outra consequência de toda esta situação. Um tabu do qual ninguém gosta de falar, e com códigos de ética respeitados pelas mídias, são números  alarmantes que ficam a margem da toda esta tragédia.

As vacinas vão chegar em alguns meses. Não vão ser baratas. As grandes farmacêuticas estão investindo bilhões para chegarem antes ao mercado e vão querer obter lucros. A produção será incapaz de inocular todo mundo. Vai levar anos para se chegar neste patamar.

Quando estiverem disponíveis, quem vai bancar os custos? Os governos vão adquirir e vacinar a população? Quem terá direito? Quem serão os primeiros? Vai se poder comprar para furar a fila? Vamos ter mercado negro de vacinas? Afinal de contas, quanto vai custar uma dose e por quanto tempo ela será válida?

Alguns laboratórios já tem um bom caminho andado e já testam suas vacinas em seres humanos. Provavelmente até o final do ano, o mais tardar no início de 2021, as primeiras vacinas funcionais vão estar disponíveis. A pergunta final é: disponível para quem?

As vacinas vão nos permitir retomar nossas vidas. Mas será preciso destravar a economia, fazer as engrenagens rodarem novamente. Complicado de se fazer algum prognóstico neste sentido. Cada país se encontra em uma situação diferente e o Brasil já estava em uma crise econômica antes da pandemia.

O mundo já passou por problemas maiores do que este e sobrevivemos. As grande guerras são um exemplo disso. Temos capacidade de superação e será preciso muita paciência e perseverança para seguirmos em frente. Não tenho dúvida da nossa capacidade para isso.

Uma grande lição que fica é que nos países onde impera o neoliberalismo, onde se encontram os mais odiados representantes deste sistema perverso, a crise é muito maior. Tomara posam os povos, nestes países, incluindo o Brasil, se libertarem deles junto com o Covid-19.

 

PROPOSTAS para não se adaptar a vida como ela é ENCONTRAM 2020

No dia 24 de julho de 2010 a página central do segundo caderno da Zero Hora era: PARAR PARA PENSAR. Essa reportagem foi sobre um ciclo de palestras: “Cinco propostas para não se adaptar a vida como ela é”. Durante cinco noites os psicanalistas Edson Sousa, Julio Conte, e eu falaríamos no Festival de Inverno de Porto Alegre.
No primeiro dia o tema foi o invisível, presente nas religiões monoteístas. Entretanto o invisível também está nas artes como na peça de teatro “Esperando Godot”, de Samuel Beckett; o principal personagem é o invisível Godot.

Também Freud baseou a Psicanálise na invisibilidade do inconsciente, que ele denominou de “outra cena”, a cena que determina o comportamento humano. Essa cena invisível gera efeitos psíquicos como os sonhos e os sintomas. Por fim a questão essencial do amor, que por ser invisível, requer provas de amor. Em todas as relações amorosas, se cobram demonstrações de amor.

Já um governo expressa seu amor ao povo quando defende a saúde do povo, a educação do povo, defende a natureza do país que é do povo. Muitos usam a bandeira do Brasil e dizem que amam esse país. Amam como homens que matam suas mulheres e dizem que o fizeram por amor. O governo executa uma destruição planejada como ocorreu na reunião do dia 22 de abril, onde não houve referência a luta contra a pandemia. Impressionante como em 2010, há só dez anos, o país era festejado no mundo e hoje é desprezado. Não se prestou atenção quando o historiador do Brasil, Luiz Felipe de Alencastro, já em 2005 alertou: “Um possível regresso reacionário estava na mira dos conservadores e dos militares”.

A palavra DESTRUIÇÃO talvez seja a palavra para se pensar o ano de 2020. O Brasil está em guerra, já morreram mais de oitenta mil pessoas, uma guerra invisível, onde ninguém vê e quem vê está quase sem voz. Hoje, para não se adaptar a vida como ela é, a rebeldia deverá crescer. Vem ocorrendo os protestos da juventude, de lideranças, de partidos. O país dos Poderes poderosos, despreza o país da maioria, essa é a trágica história nacional. Contudo, será preciso dizer, cantar, sair do Dó, para o Sol, com afinação num sonoro: NÃO a destruição.

INOMINÁVEL

por Edson Luiz André de Sousa

Cada tempo tem seus inomináveis. Há dez anos quando tive a chance desta conversa tão inspirada com meus amigos Abrão e Júlio , minhas reflexões tentaram cercar esta palavra muito mais perto do que é da ordem do sublime , da utopia e do sonho. Evidentemente, tínhamos também muitas violências para dar conta neste Brasil sempre engolfado por uma amnésia da história, mas parece que tínhamos naquele momento algumas luzes que nos faziam ter esperança de uma mudança de rumo desta história. Fui rever minhas anotações da fala que fiz naquele encontro/ festa que lotou a sala Álvaro Moreyra. Iniciei trazendo uma imagem do filme de John Houston de 1962 “ Freud Além da Alma”. A cena que me detive era o momento em que Freud esta na estação de trem de Viena indo para Paris e recebe de presente do seu pai o relógio que pertencera a seu avô. Nesta cena buscava colocar em pauta o valor da transmissão da história e o valor de uma herança concentrada na simbologia deste objeto marcador de tempo.
Hoje nosso relógio caiu no chão e espatifou. Vivemos um tempo de paralisia diante do horror do cenário político de um país à deriva e que parece ter esquecido que somos sujeitos de linguagem. A violência, o ódio, a estupidez e a ignorância tem nos levado a uma catástrofe inédita: em poucos dias serão 100 mil mortes por uma pandemia viral e politica , destruição assustadora da floresta amazônica e de comunidades indígenas, falência completa e programada das instituições de cultura, educação e saúde deste país. É assustador constatarmos que esta politica chegou ao poder deixando muito claro um projeto de destruição. Estes são os inomináveis de nosso tempo e que vamos ter que nos responsabilizar. O impasse já foi muito bem definido por Samuel Beckett ao nos mostrar que diante destes inomináveis não podemos nos calar. Vamos ter que ir buscar, onde forem, estas palavras.

INCERTEZA

Julio Cesar Conte

Foi uma semana incrível. Tudo que aconteceu naquelas noites ainda reverbera. Os três “in” ainda estão vivos. Desastrosamente vivos. Nos três primeiros dias Abrão, Edson e eu, expomos cada qual a sua proposta. No quarto todos juntos. E o quinto? Sugeri uma performance onde a forma falasse mais do que o conteúdo. A sala disposta em círculo e no centro três cadeiras vazias. Um foco de luz sobre elas. A escuridão envolvendo o público. O sonho era dar vida a indignação sem a presença do indignado. A voz do pensamento que prescinde do pensador. Começamos a perguntar para nós mesmos. O que eu queria dizer com tal coisa? Uma voz perguntando revela lacunas, contrastes, contraditório, absurdo. O pensamento é eterno, in-finito enquanto o pensador é finito, mortal. O público ocupa as cadeiras vazias dos palestrantes, uma força silenciosa se apropria. Entre luz e sombra a noite evoluiu como uma cintilante comunhão ao descentrar a propriedade do saber e a apropriação dos conteúdos.
Corte para 2020 e tudo que era sólido se desmanchou no ar, a peste nos impede de pensar. Autoritarismo faz apologia da ignorância, da estupidez e da burrice. Incerteza ressuscitaria a dúvida contra todas as afirmações psicóticas. Insensíveis frente a dor alheia representada nos “e daí?” multiplicados em automatismo mimético. O Brasil optou pela segurança das milícias espalhando certezas falsas, optou pela ignorância. Atacando o conhecimento científico, a arte e educação constrói um universo de robôs. A ciência se alimenta da dúvida, a arte é expressão da incerteza, e a educação mira o futuro que é sempre incerto. Todas compõem a saúde de um povo atacado pela peste, pois a certeza se impõe em relação vertical do poder arrogante, desemboca em preconceito, discriminação e injustiça. Doses homeopáticas de incerteza serviriam para suportar novos

O voo solo do Ódio

Uma ira desmedida acaba em loucura; por isso, evita a ira, para conservares não apenas o domínio de ti mesmo, mas também a tua própria saúde (Sêneca)

Duas notícias aparentemente desconectadas me chamaram a atenção. Juninho Pernambucano, ex-jogador de futebol, atualmente trabalhando na França (é dirigente do clube Lyon), deu entrevista ao jornal inglês Guardian. Analisou a conjuntura brasileira e informou que, por não tolerar quem fez a opção eleitoral bolsonarista, cortou relações com boa parte da família. Não esclareceu se o voto dos parentes foi por identidade totalitária ou por reação ao petismo. Para mim, isso faz uma diferença importante. O fato, sabemos muito bem, é que a atitude do Juninho está longe de ser um caso isolado. A polarização devastou relações a granel, e não apenas familiares.

Nos Estados Unidos, uma carta-aberta acendeu intenso debate. Cento e cinquenta personalidades de várias áreas de atuação assinaram documento (A letter on justice and open debate), publicado na revista Harper’s. É gente identificada com lutas antirracistas e por liberdade de expressão, militante contra a violência policial e os desvarios trumpistas. Demonstraram preocupação com o que consideram tendências de “exigência de uniformidade ideológica, seguida de intolerância às diferenças” dentro do campo democrático. Alertam que a “inclusão democrática que desejamos só pode ser alcançada se combatermos o clima de intolerância que se espalha por todos os lados”. Não acompanho a cena intelectual americana e, por isso, não sou capaz de dimensionar as ameaças relatadas pelos signatários. Sou, entretanto, muito sensível ao comportamento rígido que muitas vezes se impõe nas ações coletivas, com graves prejuízos à lucidez e à criatividade. Nós, da esquerda que não nasceu em São Bernardo, sabemos muito bem disso.

Em sua autobiografia (Uma vida em seis tempos), Leôncio Basbaum, ex-dirigente do PCB, relata uma reunião em célula do partido décadas atrás. Discutindo tema da pauta, uma mulher usa como argumento, imbatível por supuesto, ser filha de operário. Reinava o obreirismo, idolatria da classe operária que, nas circunstâncias, esterilizava qualquer forma de razão.

Voltando ao início. Intolerância, de matiz variado, é o ponto comum entre o que disse Juninho e o que publicou a Harper’s. Minha posição a respeito de Bolsonaro é conhecida. O bolsonarismo raiz, seita de maníacos, de medíocres provocadores, não chama diálogo. Oferece a guerra permanente, único ambiente em que se reconhece. No entanto, se a proposta bélica é aceita a seco, sem diferenciar quem se alistou na urna eletrônica, correm-se muitos riscos. Deixo o político de lado por ora. Quero elaborar um outro, menos visível mas igualmente corrosivo: o de transformar a intolerância em ressentimento, sem ponderar quem é o objeto do ódio.

Ódio e ressentimento são dinâmicos, ocupam vácuos existenciais. Certa vez, Balzac disse que “o ódio é um tônico, faz viver, inspira vingança”. Pode parecer estranho, mas ambos têm valor utilitário. Vidas vazias, solitárias, tediosas, podem ser preenchidas pela construção de um inimigo imaginário. O problema é que, no confronto, quem sai ferido pode ser quem odeia. No fim do filme, quem morre é o capitão Ahab, não Moby Dick.

Conheço gente que rompeu amizades e/ou relações familiares apenas por saber que o amigo/parente votou no Bolsonaro. Sem conversar, sem ter o trabalho de argumentar, sem valorizar trajetórias de afeto que mereciam vozes desarmadas, sem constatar as razões do Outro. Quantas oportunidades foram perdidas em nome deste vale-tudo ? Por motivos de outra natureza, interrompi algumas relações familiares por muito tempo. Sei o tanto de dor que isso provoca. Consegui refazer parte delas e aprendi a valorizar as convergências, sem ignorar as veredas das nossas desconfianças e diferenças.

No conto No ha claudicado, pequena obra-prima de Mario Benedetti, dois irmãos deixam de se falar por 25 anos. Cada um deles achava que o outro tinha ficado, injustamente, com algumas joias deixadas pela mãe falecida. No final, descobrem que as joias estavam com uma prima. Não foi suficiente para restabelecer a relação. O ódio acumulado por tanto tempo, por tanto silêncio ressentido, já tinha vida própria. Mais do que isso: era imprescindível para que seguissem suas vidas. Não há final feliz nesse tipo de história.

Numa atmosfera tão carregada de adjetivos estridentes, de tantas perdas e danos por falta de palavras e ouvidos, achei que valia a pena coçar estes pensamentos. Como dizia Millôr Fernandes, o Irritante Guru do Méier: Livre pensar é só pensar.

Abraço. E coragem.

Trabalhadores do Brasil, uni-vos!

Muitos continuam falando que o PT deveria fazer sua “mea culpa”, como se os demais tivessem somente anjos em seus quadros. Talvez esperem que o PT diga que seus membros faziam caixa 2 para campanhas políticas, que havia corruptos em seus quadros, diferente dos outros partidos.

Tudo que se diga do PT, não é diferente do que foi, e continua sendo a maneira de se fazer política no Brasil. Antes, durante e depois da ditadura, nada mudou. São os mesmos nomes, as mesmas famílias, os mesmos partidos com nova roupagem. Na política brasileira a corrupção começa antes da eleição com dinheiro sujo de campanha, durante o mandato com as rachadinhas de gabinete e “comissões” por favores prestados e depois do mandato com a cobrança por aqueles serviços prestados.

Poucos estão lá para fazerem o bem maior pelo país e pelo povo. Infelizmente a marca registrada do político brasileiro está associada a corrupção. São quatro anos de mandato para pagar de volta os gastos de campanha e ter algum lucro. Em muitos casos, o salário do político durante todo o seu mandato não cobre sequer os gastos da campanha para sua eleição. Então é preciso um “jeitinho”.

É óbvio que no PT também existiram políticos desta laia. Mas do PT se cobra uma áurea moralista imaculada. São muitas as razões para isso. Vão desde o sonho infantil de que com o PT seria diferente, até o ódio puro e simples a um partido de trabalhadores governando o Brasil.

Eu acredito que o PT errou em muitas coisas, mas seu maior erro foi acreditar que ao vestir terno e gravata seria aceito a mesa da Casa Grande. Quando chegou ao poder, o PT não quis ser diferente, desejou ser igual. Achava que como iguais seriam aceitos na sociedade como um todo.

Este não foi, é claro, o único erro, durante os governos do PT as verbas publicitárias foram distribuías para todos os meios de informação. Não falo só da Globo, mas da Abril com a Veja e de outros meios que difamavam o partido diariamente. Como pode haver tamanha ingenuidade? Achavam realmente que em algum momento a mídia coronelista brasileira iria tratar um bando de esquerdistas que ousavam melhorar a vida de milhões de brasileiros, como iguais? Que iriam reconhecer os avanços sociais e econômicos que seus antecessores nunca conseguiram?

O PT deixou de regular a imprensa e continuamos pagando esta conta. Para quem não sabe, regular a imprensa é fazer com os meios de comunicação não fiquem concentrados nas mãos de poucos. É determinar que quem possua uma TV, não possa ter rádios e jornais, por exemplo. O mesmo com donos de outros meios e também quantitativamente. Uma mesma empresa não pode ser dona de mais que um número de canais de TV e rádio, ou jornais.

O PT também não soube passar a mensagem do que é preciso para se governar no Brasil e implantar um projeto de governo. Não deixou claro que o preço a se pagar é se aliar ao Diabo, aos partidos que dão sustentação em troca de favores. Quem sem sustentação política, nada poderia ter sido feito. Que foi preciso fazê-lo em nome do bem maior.

O partido se cobriu com o véu da vaidade e se permitiu rompantes de arrogância. Esnobou aliados tradicionais para permanecer no poder ao lado dos que supunha serem seus novos amigos. A realidade mostrou que quase todos eles eram somente comparsas em troca de cargos e afetos. As fotos com Paulo Maluf, Sergio Cabral, Os Sarneys etc, estão aí para provar o argumento.

O partido não soube aparelhar o estado, uma regra básica na política. Cargos fundamentais foram trocados por apoios em todos os escalões do governo. A falta de aparelhamento, uma medida imprescindível para a manutenção de um projeto de longo prazo foi desprezada. Assim, todos os fracassos e casos de corrupção foram lançados na conta do PT. Todos os acertos, quando reconhecidos, foram creditados ao conjunto de governos passados que pavimentaram o caminho.

De fato, erros foram cometidos, mas nada se compara aos acertos que projetaram o Brasil na comunidade internacional. Acertos que levaram milhões de brasileiros a saírem do mapa da fome, a terem a oportunidade de estudar, de se inserirem no mercado de trabalho com melhores salários e terem o poder de compra.

Nenhum destes acertos diz respeito a classe de brasileiros que abraçou o fascismo. Para eles pobre continua tendo que saber o seu lugar. O mesmo se aplica a mulheres, negros e demais minorias. Se cada um respeitar o lugar que merece na sociedade que eles concebem, tudo vai ficar bem.

A direita brasileira não suportou os acertos de trabalhadores e apoiou o fascismo. Disso ninguém mais tem dúvidas. Este apoio criou o monstro que hoje habita o Palácio do Planalto e levou o país a um retrocesso de tamanha envergadura, que serão necessários muitos anos para se voltar ao ponto de onde paramos antes do golpe.

O Covid-19 é somente mais um exemplo da forma de relacionamento do fascismo com seu povo. A valorização da vida não entra na conta deles. Nunca se importaram com a educação, com o meio ambiente com a melhora da qualidade de vida, porquê se importariam com uma gripezinha? Esta é a forma fascista de governar, o neoliberalismo e a meritocracia acima de tudo.

Impeachment já!

Quarentena e Exílio

São madrugadas tão longas

Que precedem esses dias intermináveis

São emoções sufocadas

Que eu gostaria de expressar

Mas nada descrevo como desejo

Não passam de suspiros

Quiçá um esboço,

De tudo que eu preciso falar

É tanta quarentena para amargar

São tantos sonhos para retardar

E o tempo se faz lento no exilio

E não há sol de primavera

Que dissipe essa solidão

Há uma profusão de cores em tantas flores

Que podia ser sonho, mas parece desamor

São portas fechadas

Asas quebradas

Silencio que ecoa

Enquanto eu preciso voar…

Há emoções em turbilhão

E um amor para encontrar

Tudo se faz em urgência de chegar

Mas a realidade me diz

Que ainda estou cá

Presa nessa madrugada sem fim

Que tenta suprimir os meus anseios

Mas eu insisto

Pulo, danço, e rodopio

Escrevo outras palavras

Construo outra rima

Que mesmo sendo pobre

Ainda consegue traduzir um tanto de liberdade

Quando contemplo o por de sol, nas margens do Tejo.

Flutuo nas asas da imaginação

Sinto-me numa tela de Rembrandt

Mas tenho traços da mulher descartada por Picasso

Se lá existe uma cama tão quente

Por aqui, as noites costumam ser frias

Já não sei se quero ser essa gaivota que sobrevoa o rio

Ou apenas a musa de tua poesia.