Força Beirute

A tragédia no Líbano com a catastrófica explosão em Beirute está sendo o sonho de dos teóricos de conspirações. Eles criam suposições fantásticas apontando culpados a esmo.

Um trágico acidente, que até agora custou a morte de mais de 150 cidadãos, 5 mil feridos, 300 mil desabrigados e um prejuízo que passa de 5 bilhões de dólares. Uma fatalidade causada por negligência. Uma história que remonta o ano de 2013.

Um navio levando uma carga de Nitrato de Amônia a caminho de Moçambique sofre uma pane e entra no Porto de Beirute. As autoridades, diante do tipo de carga e do estado do navio, proíbem que ele siga viagem. A companhia resolve abandonar ambos, carga e navio. Os tripulantes entram na justiça para serem repatriados e a carga é transferida para um armazém, o de número 12.

O que talvez não fosse do conhecimento de todos, é de que aquela carga exigia um armazenamento especial e um cuidado permanente. Uma ignição qualquer, ou um aumento drástico de temperatura, causariam uma explosão. Não seria a primeira vez que isto aconteceu, outros eventos trágicos com o mesmo produto já ocorreram no passado.

Dada a situação no Oriente Médio, onde inúmeros atores aparecem diariamente nos noticiários, não seria de estranhar que surgissem inúmeras suspeitas de atos de sabotagem, de terrorismo, ou até mesmo de vingança. Todos eles descartados pelas autoridades libanesas que compreenderam desde o início de que se tratou de um erro cometido por uma, ou mais, autoridades e funcionários do porto.

A explosão causou uma onda de choque tão violenta, que destruiu praticamente a metade da Capital do Líbano. Praticamente todos os vidros da cidade viraram estilhaços e foram os principais responsáveis pelos ferimentos. A onda atingiu fortemente uma área de 8 km, mas foi sentida muito além. As pessoas fora desta zona contam que pensavam se tratar da queda de um edifício em suas proximidades causada por um terremoto.

Claro que Israel foi a primeira a ser apontada como culpada. Um míssil, ou um atentado planejado no local pelo Mossad, teria causado a explosão. Nesta teoria, a ideia é de que o Hizbolah teria armamento depositado em locais subterrâneos no Porto (sic), e na verdade a explosão seria resultado da destruição deste material que vai desde combustível para foguetes, até explosivos, dependendo do teórico.

Outra teoria interessante é de que se trata de uma advertência do Hizbolah diante do julgamento que se aproxima relacionado ao assassinato do primeiro ministro Rafik Hariri em 2005.

Pode-se criar a teoria conspiratória que se desejar, afinal a livre expressão permite todo tipo de devaneio. Qualquer um com um pouco de conhecimento do que acontece aqui no Oriente Médio, pode escrever sua fantasia e publicá-la na Internet.

Quando achamos que a vida com o Corona estava sendo um inferno, o que dizer da vida agora em Beirute. Onde já existia uma gravíssima crise econômica somada as restrições causadas pela pandemia, uma tragédia desta magnitude nos deixa perplexos, tristes e comovidos.

O governo de Israel ofereceu ajuda humanitária. ONGs israelenses estão fazendo campanhas de doação para ajudar a população de Beirute. A sede da prefeitura de Tel Aviv, colocou a bandeira do Líbano em sua fachada iluminada. Até mesmo o suposto inimigo oferece uma trégua de respeito e empatia em um momento como este.

Aos teóricos de uma boa conspiração, sugiro caírem na real. O Líbano precisa de toda ajuda que puder receber. Menos conspiração e mais compaixão.

 

Brasil em tempo sombrio

No capítulo XI da “Odisséia” Odisseu baixa até o Hades para se aconselhar com Tirésias e encontra o herói Aquiles. Logo elogia o maior guerreiro grego e diz que ele não pode se queixar da morte pela fama que fez. E logo escutou:“Ora não venhas, solerte Odisseu, consolar-me da morte”. A morte é inevitável mas sempre é sofrida pela perda, há sempre um luto a ser realizado. A morte une os amigos, os vizinhos, os familiares em torno do ritual de enterrar seu amores. O sentimento de ser insuportável a ausência, o perder de vista inquietante do ser amado, pois não é fácil amar o invisível. A Psicanálise define o luto como trabalho, o que é uma redução da realidade, pois há uma distância entre a palavra trabalho e a dolorosa vivência do enlutado.

O ritual funerário marca uma divisão entre os homens e os animais, uma importante evolução da capacidade simbólica do hommo sapiens. Os rituais diante da morte ocorrem no mundo há mais de cem mil anos e os que não podem homenagear seus mortos sofrem feridas difíceis de cicatrizar. Muitos que as ditaduras militares mataram, e sumiram com seus corpos, não tiveram os rituais de despedida dos familiares, logo são ferimentos sociais traumáticos.

Diariamente hoje a morte está presente no Brasil, que tem um saldo de três milhões de contaminados e cem mil mortos. É a parte mais visível de um problema mais amplo: a desigualdade social, que fez a doença contaminar e matar mais pobres do que ricos, junto a negação da pandemia, que foi fator decisivo para a quantidade de mortos. A Universidade Federal de Pelotas,fez a maior pesquisa sobre coronavírus no Brasil. Os estudos epidemiológicos indicam que a pouca testagem e as flexibilizações promovidas pelos governos federal, estaduais e municipais são os vilões de tantas mortes.

No pior momento o pior governo, pois um líder bufão, sempre expressou indiferença, e desprezo pelos mortos e suas famílias. Tudo fez para não unir o povo na luta contra a pandemia: brigou com os governadores, prefeitos, demitindo dois médicos como ministros de saúde e indicou um general sem qualquer conhecimento de saúde para ministro interino. Desprezar, descuidar, ser indiferente aos brasileiros que sofrem e morrem resultou na acusação de genocida pelo ministro Gilmar Mendes do Superior Tribunal Federal. Desde o início da pandemia Jair Bolsonaro dizia que era uma gripezinha, e que havia uma histeria. Ele fez diagnóstico de histeria diante a maior tragédia do povo brasileiro, e por isso foi diagnosticado como psicopata. Choca sua insensibilidade, frieza, a falta de empatia, diante dos mortos. Não sei ao certo seu diagnóstico, mas sua crueldade é inegável.

Quando os mortos do covid 19 eram 5 mil, no dia 28 de abril de 2020, ele foi brincar de tiro. Quando o Brasil chegou aos 10 mil mortos, ele foi passear de jet ski no Lago Paranoá. Quando o país superou os 25 mil óbitos ele andou a cavalo no meio de seus seguidores. Depois foram 30 mil brasileiros mortos e quando chegou aos 40 mil mortos desconfiou dos hospitais e disse para seus seguidores invadirem:“Arranja uma maneira de entrar e filmar”. Acusou os hospitais, suas direções, os médicos de mentirosos! Aí o humorista Aroeira o pintou como nazista e foi processado, mas muitos humoristas seguiram seu exemplo.

Agora o presidente não diz mais ser uma gripezinha, mas o que ele representa na História do Brasil é a questão. Entre as tentativas de resposta sobre o que é nosso país, temos agora o Gregório Duvivier na sua última Gregnews: “Ideologia de General”. O humorista fez um breve retrato histórico do país desde a escravidão, que já vi três vezes, e está no youtube. O humor não é só um dom ou virtude é uma vacina contra o desespero, é uma visão de mundo.

Ouvido na Ouvidor

Compositor de destinos/ Tambor de todos os ritmos/ Tempo, tempo, tempo, tempo (Caetano Veloso)

E lá estava eu, num salão dos anos 40, tombado pelo Patrimônio Histórico. Restaurante à moda antiga. A rua, antigo centro de gravidade do comércio carioca, agora era um canteiro de espectros. Da livraria Garnier à confeitaria Paschoal, da loja Ao Trovador à Casa Leuzinger, nada sobrara além de memórias. Eu mesmo, naquele momento, me sentia como ruína em busca de reconstrução.

No salão da Confeitaria Manon conversava com um amigo querido. Conhecíamos os garçons, a quem chamávamos pelos nomes. De vez em quando, intimidade. Falávamos dos solavancos da vida. Naquele dia, precisava mesmo de um bom par de orelhas amigas. Era uma fase difícil. Procurava me encontrar depois de décadas dissolvido em projetos coletivos. Começava a perceber como era mais fácil falar numa assembleia do que num tête-à-tête. Olhar para alguém, enxergar de verdade, é compartilhar histórias, criar espaços comuns, armazenar dores e ardores, oferecer confidências. A massa tem aspecto volúvel, falar com ela é como dialogar com sombras. É um diálogo importante, política é arte sofisticada. No entanto, quando exclusivo, perde-se a dimensão, fundamental, do encontro afetuoso, da descoberta de afinidades. E eu buscava esse encontro, no fundo um reencontro comigo mesmo.

Durante o almoço, conversa pesada, meu amigo percebeu que eu não era chegado a bebidas alcoólicas. Verdade, sou um abstêmio gustativo, não gosto do sabor de nenhum destilado ou fermentado. Defeito de fabricação. Inconformado, sentenciou: Está faltando álcool na tua vida ! Espantado no início, logo percebi o tanto de acolhimento que me presenteava. Ele, que hoje praticamente não bebe, me oferecia uma chave para destravar o imbróglio existencial em que eu estava metido. Perca-se para poder se achar. Fique tonto, perca o controle. Sem saber, me passava uma versão da sabedoria do rabi Nachman de Breslau: Nunca pergunte o caminho para quem o conhece, porque então você não será capaz de se perder. Séculos depois do rebe, Noel Rosa diria de outra forma: quem acha, vive se perdendo.

Em momentos de ruptura, é comum idealizar o passado. Nele, estaríamos seguros e, visitando-o, essa a ilusão, seríamos capazes de reparar o que deu errado na vida, costurar feridas que teimam em latejar. São os anos dourados, que, como bem disse Ruy Castro, não passam de roteiro seletivo da realidade. Pensamos nas festinhas, no descompromisso, na energia borbulhante, na preguiça sem culpa. Esquecemos da falta d’água, das quedas de energia, das doenças que não tinham vacina, nem remédio, da moral vitoriana. O sentimento de perda de uma essência imaginada, aprisionada no passado, aparece em todo canto. Millôr Fernandes, na pele de Vão Gogo, dizia que a saudade é a última nuvem que sobra de toda a, para sempre, irrecuperável realidade. Em 1949, inaugurou nonsenses no livro Tempo e contratempo. Um deles é um resumo lírico do que estou falando: Pegamos o telefone que o menino fez com duas caixas de papelão e pedimos uma ligação com a infância.

Gosto de um episódio da série Twilight zone (Além da imaginação), dos anos 50/60, chamada Walking distance. Pequena obra-prima, exibida em 1959. Viajando numa pequena estrada, um executivo para num posto de gasolina para fazer pequeno reparo no carro. Está próximo da cidade em que passou a infância. Enquanto aguarda o conserto, resolve visitar a cidade. Percebe, surpreso, que tinha voltado no tempo. Revê seus pais e a si mesmo como criança. Tem uma vontade louca de ficar por ali, mas seu pai, reconhecendo a estranha visita, o convence de que deve procurar os bons momentos não atrás, mas na frente, na vida que estava por vir. The best is yet to come.

Correr contra o tempo é batalha perdida. Seremos, sempre, legiões derrotadas. Cronos é implacável, devorador insaciável. Depois de visitar, às vezes obsessivamente, pessoas e lugares do meu passado, entrei num acordo com ele. Na linha que Mário Lago ensinou: “Fiz um acordo de coexistência pacífica com o tempo: nem ele me persegue, nem eu fujo dele, um dia a gente se encontra”. Enquanto isso, vou jogando conversa fora – essas são as melhores ! – com meu amigo. Sem álcool, com uma porção generosa de Freud e um farto buquê de ombros providenciais.  Sem o peso da encruzilhada resolvida.

Abraço. E coragem.

O que é isso Facebook?

Quando o Movimento Popular Antirracismo começou no final dos anos 80, sua luta contra o neonazista Siegfrid Elwanger e sua editora antissemita, chamada Revisão (sic), tivemos de superar diversas barreiras éticas e morais.

Como é que nós, advindos da luta contra a ditadura, combatentes das liberdades democráticas, especialmente contra toda forma de censura, poderíamos pedir a apreensão de livros? Fazendo isso, a gente não estaria se igualando aos censores que determinavam o que se poderia ler, e o que não?

Não havia precedente para isso. Ao final de muitas discussões chegamos a conclusão de que quando livros são utilizados como arma para difundir um ideário que instiga a morte de alguém, no caso em questão, de todo um povo (o povo judeu), municiado de Fakenews (o termo nem existia), neste caso ocorria uma violação do maior bem de um ser humano, seu direito a vida, portanto se sobrepondo ao direito da livre expressão.

Agora, um ministro do STF decide que as redes sociais devem retirar do ar as contas de notórios fabricantes e divulgadores de Fakenews, investigados em processo do qual se podem se tornar réus. Esta decisão coloca a questão do direito da livre expressão novamente em questão. Teriam eles o direito de dizerem o que bem desejam, acredite quem quiser?

O Twitter obedeceu e tirou as contas do ar, mas o Fecebook fez isso somente para os Brasileiros. No resto do mundo, pode-se acessar suas contas. A desculpa é de que se qualquer juiz de qualquer país, por qualquer razão que seja, resolver tomar atitude similar, o Facebook se veria perdendo membros e em consequência, perderia também receita. Um pouco exagerado, mas esta é a razão pela qual estão sendo chamados a pagar uma multa milionária e seu presidente no Brasil, em tese, pode vir a ser preso por desobediência de uma ordem judicial.

Dito isto tudo, o que está em jogo é a nossa liberdade de escolha, nosso direito de acesso a informação, qualquer que seja ela. A livre expressão não pode ser limitada,  somos capazes de discernimento para separar o que é real e verdadeiro, daquilo que é inventado e mentiroso. Isto é o que a extrema direita quer que você acredite.

Claro que somos, ao menos a maioria de nós, defensores incondicionais das liberdade democráticas, do exercício da plena cidadania, contra toda forma de censura, afinal de contas, somos humanistas e progressistas. No entanto, para tudo existem limites. Como dizem, a minha liberdade vai até onde começa a liberdade do outro. Se utilizar de sofismas para na verdade atentar contra a vida, a democracia e a liberdade de escolha, é o que estes investigados  fazem. Seu propósito não é outro, senão a manter no poder o atual mandatário, eleito graças a estas  ações.

É uma grande falácia se acreditar que se deve  permitir que indivíduos, ou organizações que pregam o fim da democracia e o respeito aos direitos humanos, tenham o direito de fazê-lo dentro do regime democrático. Isto é crime contra a cidadania e deve ser combatido com leis e restrições. Quem desejar viver sob um regime autoritário que procure um lugar no mundo onde ele exista e para lá se mude.

Quando o Facebook, com centenas de milhões de usuários usa de subterfúgios para  contrariar uma determinação judicial da justiça brasileira, determinada contra brasileiros envolvidos em crimes contra a democracia, ele está prestando um desserviço a democracia como um todo e a justiça brasileira em especial.

Não há margens para engano aqui. Todos eles são notórios fascistas que pregam todo o rol de ações anti-humanas como o racismo, a homofobia, a misoginia e o ódio ideológico contra a esquerda.

Neste caso, está certa a justiça brasileira em impor pesadas multas diárias a desobediência de ordem judicial do Facebook que atua no Brasil, e portanto deve se obrigar a respeitar as leis e a legislação brasileira no que se refere a ações contra cidadãos brasileiros, ou aqueles que aqui vivem.

A democracia não é um regime perfeito, mas é o que nos permite conviver em sociedade  e nos dá a opção de troca de regimes e lideranças a cada número de anos em eleições livres. Com todos os problemas e contradições, nada supera a democracia.

Tecidos da vida

A palavra tecido é usada, em geral, numa conversa sobre roupas, se o tecido é de algodão, seda, linho, entre tantas combinações. Entretanto, há os tecidos da vida, pois o tecido, o fio, com que é feita a vida de cada um, são símbolos do destino. A vida é feia por tramas, que se originam nas identificações como é eleição do nome próprio, uma expressão do desejo dos pais. A palavra tecido vem do latim “texere”, construir, tecer, mas já no século XIV a palavra atingiu o sentido de tecelagem como estruturação de palavras, ou composição literária. E aí se cria a palavra “texto”, que faço neste momento, costurando as palavras fios invisíveis.

E foi num texto de Antonio Candido que li sobre o tecido da vida:
“O capitalismo é o senhor do tempo.
Mas tempo não é dinheiro.
Isso é uma monstruosidade.
O tempo é o tecido da nossa vida”.
Muitos caminhos se abrem a partir da expressão “tecido da nossa vida”, pois a vida de cada um é um drama, uma trama, assim como a vida de uma família, a história de um país. Em Psicanálise se parte do drama de uma pessoa, e agora, por exemplo, recordo um conhecido que me escreveu sobre não saber mais quem ele era. Funcionário federal, trabalho enfadonho em suas palavras, tinha encontrado na música, na bateria, sua alegria. Tocava muito bem, integrava vários conjuntos, e agora se sente perdido, sem banda, sem tocar sua bateria, inquieto, e se pergunta quem mesmo ele é hoje e o que será o amanhã. Pensei na cigarra vivendo seu inverno, e hoje os artistas vivem seu pior inverno, e nós com eles. A vida sem arte perde o brilho, é uma vida tristonha, empobrecida.

Em tempos de pandemia, cada história pessoal, as insônias, as ansiedades, o cotidiano vai sendo tecido em tempos lentos e inquietantes. Ainda bem que a primavera se aproxima, e depois virá o verão, e, lentamente, a vida vai melhorar, pois chegarão os tecidos coloridos. As roupas serão outras, devem diminuir as mortes, e com coragem e sorte serão construídos novos caminhos. Todos estão desafiados a criar, a inventar as estradas novas que hoje passam pelas redes, pela realidade virtual, mas já, já se encontrarão com a realidade presencial. Mais do que nunca é indispensável a imaginação, cada dia é preciso paciência para seguir tecendo a vida nas parcerias solitárias e solidárias.
O tempo é o tecido de nossa vida, ao contrário do que escutamos, de ser o tempo é dinheiro como se aprendeu com essa frase em inglês: Time is Money. Frase pobre com que os milionários gostam de encher a boca e os bolsos. Um dia escutei que nos Estados Unidos, quando alguém se exibe, lhe perguntam: “Quantos milhões já fizeste?”. No capitalismo o poder é medido pelo dinheiro. Que maravilha os que perguntam sobre os amores, os ardores, as graças, a música que toca o coração, ou conversar sobre as histórias que a gente vive e já viveu.

É tempo de aprender, e a cada dia se pode aprender algo novo ao ler, ao ver um filme, ou os encontros nas redes. É bom sonhar, plantar, e lutar para levantar o ânimo, levantar a cabeça, levantar o astral, para não sucumbir. É verdade que os tempos são traumáticos, tempos de medo, logo convém buscar bons amparos, apoios seguros. Há motivos de sobra para queixas, mas um dia essa loucura irá diminuir, e a gente se abraçara e novos amores nascerão. E então as pessoas irão para os parques, o Jardim Botânico, museus, shows, num congraçamento como nunca antes já se viu. Esse dia há de chegar, e eu estarei lá, com certeza, e convido a vocês para comemorar a vida sem medo.

P.S.: Agradeço muito a turma do face, pelas palavras e os cliques da semana passada, pois é assim que se podem afrouxar os nós da nossa solidão.

Mundo virtual, incertezas reais

“Tenho que preservar minha imagem” – como diz o velho palhaço traçando uma linda boca sobre a boca sem dentes (Millôr Fernandes)

Gosto da vida monástica. Assim começou a falar meu amigo pelo telefone, quando perguntei como ia o isolamento. Compreendo o acasalamento dele com a solidão. É uma figura rara. Não usa celular, nunca teve computador. Quando queremos nos comunicar, usamos o velho Graham Bell ou marcamos um almoço. Já brinquei com ele dizendo que, proximamente, evoluiremos para o telegrama. Posso garantir que não se trata de um ogro ranzinza, nem de nostálgico furioso. Nossas conversas são riquíssimas, varam horas. Com ele, divido gostos musicais comuns e a estranheza por um mundo que aderna para a cenografia virtual.

Nos últimos meses, prensado pelo vírus, usei, com desconforto, a ferramenta zoom. Meus amigos reduzidos a um mosaico de pequenos quadrados planos. A balbúrdia calorosa dos encontros ao vivo reduzida ao esforço para apertar botões na hora certa. Ah, mas quebra um galho, alivia a saudade. Pode ser, mas me lembra os sampurus japoneses. No Japão, restaurantes exibem vitrines com as especialidades da casa esculpidas em material plástico. Têm aparências e cores de comida, mas são apenas imagens. A refeição real – como a conversa verdadeira, com seus aromas, espantos e expressões – está em outro lugar.

Fala-se muito na transição dos ambientes de trabalho e das escolas para a comunicação à distância. Como que a reconhecer a extravagância, uma empresa está desenvolvendo um aplicativo que simula um auditório. Nas poltronas virtuais sentarão os participantes de videoconferências e reuniões. Este tipo de simulação não tem nada a ver com ambientes reais. Meu período mais fértil de trabalho foi no BNDES. Uma das razões foi a possibilidade de, no meio do dia, sair da sala, me encontrar com colegas de outras áreas e conversar sobre assuntos fora de pauta. Sem os grilhões de monitores e auditórios plastificados. Sem a competição de pratos por lavar e banheiro por limpar. A relação mediada pelas máquinas tem um potencial desumanizador, de enrijecimento da rotina, que não deve ser subestimado.

O coronavírus levou milhões de pessoas a trabalhar em casa, submetidas à comunicação apenas verbal, tão calorosa quanto um tijolo de sorvete napolitano. Já se detecta um aumento de sintomas de depressão, insônia e irritabilidade. Os primeiros levantamentos indicam que aumentaram, também, as desigualdades no acesso às tecnologias necessárias a essa forma de trabalho. Em países como o Brasil, com obscena desigualdade na distribuição de renda, isso não tem a menor chance de melhorar.

O cinema começa a explorar o que se pode chamar de novo filme catástrofe. Perto dele, terremotos, ondas gigantescas, erupções vulcânicas, não passarão de matinée infantil. Com tudo tão conectado, tão controlado, o que seria do planeta se viesse um blackout, interrompendo o fluxo de informações via internet e extinguindo a memória eletrônica ? Duro de matar 4.0 é um aperitivo. Uma equipe de hackers ameaça apagar tudo o que está armazenado em bancos de dados de sistemas previdenciários, ministérios, bancos. Claro que, depois de muita pancadaria (afinal de contas, o mocinho era Bruce Willis), há um final feliz, mas a vida não costuma amar roteiros de Hollywood. Se a ameaça fosse consumada no plano real, o que seria do mundo como o conhecemos ? Chuva de suicidas, como no crash da bolsa de valores, em 1929 ?

Tive na faculdade um professor de Física apelidado de Topo Gigio. Quem tem certa quilometragem, vai lembrar. O Topo Gigio era um ratinho muito chato, de voz melosa e arrastada, que contracenava com o Agildo Ribeiro nos anos 70. No meio de uma aula, céu escuro, a luz apaga no Fundão. Revoada geral ? Nada disso. O ratinho, digo, o professor, pediu que usássemos a imaginação e foi desenhando conceitos no breu. Silêncio no coliseu. A Física nunca foi tão luminosa, tão clara. Usamos o que tínhamos de mais precioso para construir o conhecimento: a curiosidade. Sei que tenho uma certa inclinação saudosista e, por isso, me concedam um desconto, mas eu pergunto: alguma chance de uma história como essa acontecer numa vídeoaula, cada moleque no seu canto, isolado, grudado no monitor, sentindo falta do olhar amoroso dos amigos ? Sei não …

Abraço. E coragem.